<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246</id><updated>2012-01-28T09:19:55.594-02:00</updated><title type='text'>ZGUIOTTO</title><subtitle type='html'>ZGUIOTTO 2012</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>5923</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-1818641059647436921</id><published>2012-01-28T09:18:00.001-02:00</published><updated>2012-01-28T09:19:55.604-02:00</updated><title type='text'>“Modelo do Fórum já é o caminho para a construção da alternativa”</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.promenino.org.br/Portals/0/Colunistas/Sergio_Hadda_300.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://www.promenino.org.br/Portals/0/Colunistas/Sergio_Hadda_300.jpg" width="392px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;Sérgio Haddad&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;Membro do Grupo de Reflexão e &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;Apoio ao Processo do Fórum Social Mundial e participante desde a primeira edição do evento, &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;o educador Sérgio Haddad avalia &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;que depois de 12 anos é possível assegurar &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;que o método está correto, mas admite &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;que em certo grau, o encontro tem dificuldades &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;de dar respostas. "A metodologia do Fórum&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&amp;nbsp;já é um caminho para a construção dessa alternativa. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;Como fazer disso uma síntese é o grande desfaio &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;que nós temos"afirma em entrevista à Carta Maior.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;Q&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;uando o Fórum Social Mundial se realizou pela primeira vez, em Porto Alegre no ano de 2001, o lema “Um outro mundo é possível” parecia bem mais distante da realidade do que na edição de 2012. Ao menos para brasileiros, esse período foi marcado por inúmeras conquistas associadas às bandeiras tradicionais do evento, especialmente em relação a distribuição de riqueza. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Luiz Inácio Lula da Silva deixou de ser o ídolo daquelas milhares de pessoas que estiveram nos dois primeiros anos para virar herói e presidente de milhões de brasileiros – e chegou a ser vaiado pelos seus seguidores no Fórum Social Mundial por não seguir as políticas imaginadas por seus apoiadores de esquerda, além de participar mais de uma vez no Fórum Econômico de Davos, cuja crítica à postura arrogante e à defesa do neoliberalismo foi o que fez nascer o encontro de Porto Alegre.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O país deixou de ser devedor do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ele mesmo emprestar dinheiro à instituição e pela primeira vez em um censo, a maior parte da população se autodeclara negra.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No mundo, a crise econômica vivida em países europeus, cuja origem foi o mercado financeiro dos Estados Unidos, leva multidões às ruas para perguntar porque o 1% mais rico ainda detém mais poder que os 99% restantes (mensagem do Ocupe Wall Street), porque não há espaço para novas ideias na política (questionamento de Os Indignados) ou ainda por que não é possível ampliar o alcance da democracia mesmo em países onde o culto à personalidade e à liderança religiosa é cultural (Primavera Árabe).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por isso, na 12ª edição do Fórum Social Mundial (que este ano leva o codinome Temático, por ser preparatório para a Rio+20) é curioso que os participantes do Fórum Econômico Mundial discutam justamente o tema que se notabilizou por ser o cerne de todo o debate: Davos elegeu como tema de sua edição em 2012 a falência do neoliberalismo, propondo uma discussão sobre “A grande transformação: criando novos modelos”. O Fórum Social, por sua vez, não trocou as pautas tradicionais, mas agregou e tornou central um assunto que em anos anteriores não recebia a atenção merecida: o meio ambiente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não há dúvidas de que o receituário neoliberal, apesar de estar “sob judice”, ainda exerce forte influência – basta verificar as medidas de ajuste adotadas na Europa para conter a crise econômica. Congelamento de aposentadorias, milhões de empregos cortados, legislação trabalhista flexibilizada, aumento de impostos e benefícios cada vez menores levam parte da população às ruas. Por outro lado, na América Latina, ou mais particularmente no Brasil, o enfrentamento à crise desde 2008 tem sido marcado por medidas de estímulo à produção e ao consumo, com a valorização do salário mínimo, corte de tributos para determinados setores, ampliação do apoio à atividade industrial.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas como seguir criticando o neoliberalismo quando até seus antigos defensores o colocam como um modelo ultrapassado? E mais: como transformar o debate de ideias em ações efetivas que possam partir do indivíduo e da sociedade civil organizada, sem necessariamente depender de governos? Esse foi o tema da conversa com um dos idealizadores do Fórum Social Mundial e atual membro do Grupo de Reflexão e Apoio ao Processo do evento, Sérgio Haddad.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A discussão foi suscitada pelas falas dos participantes da mesa de abertura do Fórum Mundial da Educação, no dia 24 de janeiro, na Reitoria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Os comentários oscilavam entre o absolutamente genérico – 'sem reforma agrária não é possível educação de qualidade', ou o 'socialismo vive e está em construção' – ao mais objetivo tal qual a dificuldade de ensinar aos alunos o valor do trabalho quando todos pensam apenas em consumir. Nenhuma das perguntas foi respondida objetivamente pelos participantes da mesa. “Não me proponho a responder questões tão amplas e diferentes entre si. E também não me arrisco a identificar um caminho a ser seguido porque todos aqueles que se disseram iluminados e preparados para esta tarefa fracassaram”, provocou Haddad, que aprofundou essa reflexão na entrevista reproduzida a seguir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Então a própria metodologia do Fórum &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;já é um caminho para a construção dessa alternativa,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;porque ela engloba desde as camadas mais inferiores&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;de sua atividade a diversidade. Agora, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;como fazer disso uma síntese,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;ou ainda perguntar-se se é necessário &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;fazer disso síntese, esse é o grande &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;desfaio que nós temos." &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Há uma ansiedade dos participantes para que o Fórum Social Mundial traga respostas objetivas. Como lidar com isso depois de 12 edições?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No início o FSM tinha muito uma característica de denúncia porque era uma contraposição a Davos. Nesse sentido se manteve nos primeiros anos com uma situação de mostrar os limites do modelo de desenvolvimento, do neoliberalismo. A questão ambiental não era tão presente. Mas sobre as respostas que as pessoas querem, nas atividades autogestionárias o que a gente vê é um crescimento de apresentação de experiências. O que não temos é condições de identificar isso, mas são basicamente grupos que vem fazendo atividades na perspectiva da economia solidária, da construção de organizações populares ou movimentos sociais, de formas de energia alternativas. Não é fácil construir uma alternativa porque todas as tentativas anteriores de construção de alternativas eram centralizadas, tinham um sujeito de mudança – em um momento foi a classe operária, o povo oprimido, depois a juventude, Tudo isso foi por água abaixo porque nenhuma solução vai sair de um grupo social, mas vai sair de uma diversidade. Agora como construir alternativas a partir da diversidade é talvez a grande dificuldade que temos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A fórmula do FSM se mantém inalterada?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O modelo do Fórum está muito presente em movimentos como Indignados e Ocuppy Wall Street: é horizontal, não tem cacique, não tem hierarquia, todo mundo ocupa espaço. Então a própria metodologia do Fórum já é um caminho para a construção dessa alternativa, porque ela engloba desde as camadas mais inferiores de sua atividade a diversidade. Agora, como fazer disso uma síntese, ou ainda perguntar-se se é necessário fazer disso síntese, esse é o grande desfaio que nós temos. Acreditamos no método. Eu, particularmente, acredito que que as hipóteses vão nascer dessa diversidade: do olhar indígena sobre a questão dos bens comuns, do bem viver, as hipóteses de você pensar o mundo do não trabalho, as questões que estão sendo debatidas sobre decrescimento ou de construção de modelos de produção que sejam de outra natureza, com baixa produção de carbono.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O consumo chegou no seu limite?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Precisamos diminuir essa tensão de fazer fila porque o novo iPhone está sendo lançado! É como se o cara não pudesse comprar o aparelho dois dias depois! Isso está chegando no limite. E finalmente acho que o limite também está sendo dado pela própria realidade – as pessoas não conseguem andar porque tem carro, estão se envenenando respirando o ar, etc. Em algum momento, ou o cara foge dessa realidade, ou ele vai ter que enfrentá-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Questões práticas são importantes na discussão?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Temos que ter essa preocupação na agenda. Esse é o papel que a gente faz: tentar trazer as novas questões e balançar isso com a denúncia porque só a análise da conjuntura é algo que você começa a se sentir impotente, deprimido, com saberes, alternativas, experiências.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"O mais difícil que eu vejo é o tema econômico,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;porque a somatória da economia popular, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;das trocas comunitárias, isso não resulta &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;em um novo modelo de organização da sociedade &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;para a questão econômica."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O que deve ser feito para que a Rio+20 não se transforme em uma grande festa, sem acordos concretos e de fôlego?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu acho que a Cúpula dos Povos vai ter de tudo, igual ao Fórum Social Mundial. Desde gente que não quer dialogar com o Estado, com o poder público, até gente que está afim de interferir no documento (a carta de compromissos) que já está sendo trabalhando. Não tem como não fazer diferente. Vai ter de tudo, como foi na Eco92. Talvez a maior dificuldade é como que no meio dessa confusão alguém é capaz de viabilizar a sua proposta e trazer uma contribuição que possa ser disseminada entre todas as pessoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mas há alguma estratégia para pressionar por acordos?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que estamos tratando de construir é talvez uma unidade em alguns pontos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Quais?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ah, se eu soubesse! Já há algumas coisas que foram ditas. A ideia de defender algumas coisas como bens coletivos, por exemplo. Há um forte movimento contra a energia nuclear, e isso pode render uma campanha grande, o modelo energético. Mas essas coisas precisam ser consensuadas, porque os grupos tem posições muito centradas. O mais difícil que eu vejo é o tema econômico, porque a somatória da economia popular, das trocas comunitárias, isso não resulta em um novo modelo de organização da sociedade para a questão econômica. E ao mesmo tempo a máquina vai andando, as pessoas vão produzindo. Imagina a China entrando no mercado de consumo, crescendo 8% ao ano, e querendo (manter) o mesmo padrão norte-americano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E onde entra a educação nesse debate?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Fórum Mundial de Educação na verdade quer colocar em relevo essa questão. Para isso – eu não sou organizador do FME – ele tem debater os temas que estão colocados na conjuntura. Porque o educador normalmente, pelas contingencias de vida, está muito voltado à sua atividade cotidiana, a sala de aula. Tem muito poucas possibilidades de fazer debates mais amplos. E ele tem um papel fundamental, porque quando se fala em mudança de mentalidade, isso significa mudança de valores, de concepção de mundo. Claro que o professor não tem todo esse poder, há a família, a comunicação de massa, mas a sala de aula é importante como espaço de reflexão porque as crianças ficam muito tempo na escola. Então como tratar isso sob uma perspectiva de uma dinâmica nova, sob novos valores, valorizando a criança como centralidade no processo educativo, construindo a sua relação com o tema ambiental, com respeito a natureza, ao semelhante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O Fórum teria então um papel de atuar na formação do professor?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não tenho dúvida de que o Fórum cumpriria esse papel através do debate de ideias. No limite, talvez não discutir o modelo de escola, mas os valores que um novo modelo poderia conter. Isso é mais fácil, ao menos na educação formal. O nosso papel é disseminar isso.&lt;/div&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Reportagem por Naira Hofmeister&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte:&amp;nbsp; &lt;a href="http://www.cartamaior.com.br/"&gt;http://www.cartamaior.com.br/&lt;/a&gt;, 27/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-1818641059647436921?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/1818641059647436921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/modelo-do-forum-ja-e-o-caminho-para.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1818641059647436921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1818641059647436921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/modelo-do-forum-ja-e-o-caminho-para.html' title='“Modelo do Fórum já é o caminho para a construção da alternativa”'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-848430262853341028</id><published>2012-01-27T22:28:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T22:28:24.611-02:00</updated><title type='text'>A revolta da burguesia assalariada</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: black;"&gt; &lt;span style="color: red;"&gt;Slavoj Zižek*&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2012/01/12-01-27_slavoj-zizek_a-revolta-dos-burgueses-assalariados.jpg?w=500&amp;amp;h=373" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img alt="" border="0" class="size-full wp-image-2479" height="238" src="http://boitempoeditorial.files.wordpress.com/2012/01/12-01-27_slavoj-zizek_a-revolta-dos-burgueses-assalariados.jpg?w=500&amp;amp;h=373" title="12.01.27_Slavoj Zizek_A revolta dos burgueses assalariados" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Embora &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;os  protestos sociais em curso nos países ocidentais desenvolvidos pareçam  indicar o renascimento de um movimento emancipatório radical, uma  análise mais detalhada nos compele a elaborar uma série de distinções  precisas que, de alguma forma, embaçam essa clara imagem. Três coisas  caracterizam o capitalismo de hoje: a tendência de longo prazo de  transformação do lucro em renda (em suas duas principais formas: a renda  do “conhecimento comum” privatizado e a renda pelos recursos naturais);  o papel estrutural mais forte do desemprego (a própria chance de ser  “explorado” em um emprego duradouro é percebida como um privilégio); e a  ascensão de uma nova classe que Jean-Claude Milner chama de “burguesia  assalariada” [Veja Jean-Claude Milner, &lt;em&gt;Clartes de tout&lt;/em&gt;, Paris, Verdier, 2011].&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Para  explicar a relação entre estas características, comecemos com Bill  Gates: como ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não  tem nada a ver com o custo de produção daquilo que a Microsoft vende  (pode-se até mesmo argumentar que a Microsoft paga a seus trabalhadores  intelectuais um salário relativamente alto), isto é, a riqueza de Gates  não é o resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por preços  mais baixos do que seus concorrentes ou por uma “maior exploração” de  seus trabalhadores intelectuais contratados. Se este fosse o caso, a  Microsoft teria ido a falência há muito tempo: as pessoas teriam optado  massivamente por programas como Linux que são de graça e, de acordo com  especialistas, de melhor qualidade que os programas da Microsoft. Por  que, então, existem milhões de pessoas que ainda compram Microsoft?  Porque a Microsoft se impôs como um padrão quase universal, “quase”  monopolizando o setor, uma espécie de personificação direta daquilo que  Marx chamou de &lt;em&gt;General Intellect&lt;/em&gt; (Intelecto Coletivo), o conhecimento coletivo em todas as suas dimensões, da ciência ao prático &lt;em&gt;know how&lt;/em&gt;.  Gates se tornou o homem mais rico em algumas décadas através da  apropriação da renda pela permissão de que milhões participem na forma  do “intelecto coletivo” que ele privatizou e controla.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Deve-se  transformar criticamente o aparato conceitual de Marx: por causa de sua  negligência em relação à dimensão social do “intelecto coletivo”, Marx  não vislumbrou a possibilidade de &lt;em&gt;privatização do próprio “intelecto coletivo”&lt;/em&gt;.  É isto que está no coração da luta contemporânea pela propriedade  intelectual: a exploração tem cada vez mais a forma de renda, ou, como  diz Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é caracterizado pelo  “tornar-se renda do lucro” [Veja &lt;em&gt;Capitalismo cognitivo&lt;/em&gt;, editado  por Carlo Vercellone, Roma, manifestolibri, 2006]. Em outras palavras,  quando, por conta do papel crucial do “intelecto coletivo” (conhecimento  e cooperação social) na criação de riqueza, as formas de riqueza se  tornam cada vez mais desproporcionais em relação ao tempo de trabalho  diretamente empregado na produção, o resultado não é, como Marx parecia  esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual do  lucro gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada  pela privatização do “intelecto coletivo”. &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;O mesmo  acontece com os recursos naturais: sua exploração é uma das maiores  fontes de renda hoje, acompanhada da luta permanente pra saber quem  ficará com esta renda – os povos do Terceiro Mundo ou as corporações  ocidentais (a suprema ironia é que, para explicar a diferença entre  força de trabalho – que, em seu uso, produz mais-valia sobre seu próprio  valor – e outras mercadorias – que somente consomem seu próprio valor  em seu uso e, portanto, não envolvem exploração -, Marx menciona como  exemplo de uma mercadoria ordinária o petróleo, a própria mercadoria que  hoje é a fonte de extraordinários “lucros”…). Aqui também não faz  sentido vincular as altas e baixas do preço do petróleo com altos e  baixos custos de produção ou preços do trabalho explorado – custos de  produção são negligenciáveis, o preço que pagamos pelo petróleo é a  renda que pagamos para os proprietários deste recurso por conta de sua  escassez e oferta limitada.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;A  consequência deste crescimento na produtividade alavancado pelo impacto  exponencialmente crescente do conhecimento coletivo é a transformação do  papel do desemprego: embora o “desemprego seja estruturalmente  inseparável da dinâmica de acumulação e expansão que constitui a própria  natureza do capitalismo enquanto tal” [Fredric Jameson, em &lt;em&gt;Representing Capital&lt;/em&gt;,  Londres, Verso Books, 2011, p. 149], o desemprego adquiriu atualmente  um papel qualitativamente diferente. Naquilo que, possivelmente, é o  ponto extremo da “unidade dos opostos” na esfera da economia, é o  próprio sucesso do capitalismo (crescimento produtivo etc.) que produz  desemprego (produz mais e mais trabalhadores inúteis) – o que deveria  ser uma benção (menos trabalho duro necessário) se torna uma sina. O  mercado global é, assim, em relação a sua dinâmica imanente, “um espaço  no qual todos já foram, um dia, trabalhadores produtivos, e no qual o  trabalho, em todos os lugares, foi aos poucos retirando-se do sistema”  [Fredric Jameson, em &lt;em&gt;Valences of the Dialetic&lt;/em&gt;, Londres, Verso  Books, 2009, p. 580-1]. Isso é, no atual processo de globalização  capitalista, a categoria dos desempregados adquire uma nova qualidade  além da clássica noção de “exército industrial de reserva”: devemos  considerar em relação a categoria do desemprego “aquelas enormes  populações, que ao redor do mundo foram ‘expulsas da história’, que  foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do  capitalismo de primeiro mundo e apagadas como casos terminais sem  esperança” [Jameson, em &lt;em&gt;Representing Capital&lt;/em&gt;, p. 149]: os assim  chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou de  desastres ecológicos, presos a “rancores étnicos” pseudo-arcaicos,  objetos da filantropia e das ONGs, ou (frequentemente os mesmos  personagens) da “guerra contra o terror”. A categoria dos desempregados  deve assim ser expandida para agregar uma população de largo alcance,  dos temporariamente desempregados, passando pelos não mais empregáveis,  até pessoas vivendo nas favelas e outras formas de guetos (todos aqueles  desconsiderados pelo próprio Marx como “lúmpem-proletariado”) e,  finalmente, áreas inteiras, populações ou estados excluídos do processo  capitalista global, como os espaços em branco nos mapas antigos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Mas esta nova forma de capitalismo não traz também uma nova perspectiva de emancipação? Nisto reside a tese de Hardt e Negri em &lt;em&gt;Multidão: guerra e democracia na Era do Império&lt;/em&gt;&amp;nbsp;[Rio  de Janeiro: Record, 2005]&amp;nbsp;onde eles pretendem radicalizar Marx, para  quem o capitalismo corporativo altamente organizado já era uma forma de  “socialismo dentro do capitalismo” (uma espécie de socialização do  capitalismo, com os proprietários tornando-se cada vez mais supérfluos),  de maneira que seria necessário apenas cortar a cabeça do proprietário  nominal e nós teríamos socialismo. Para Hardt e Negri, entretanto, a  limitação de Marx foi estar historicamente limitado ao trabalho  industrial mecanicamente industrializado e hierarquicamente organizado,  razão pela qual a sua visão de “intelecto coletivo” seria como uma  agência central de planejamento; somente hoje, com a elevação do  trabalho imaterial ao padrão hegemônico, a transformação revolucionária  se torna “objetivamente possível”. Esse trabalho imaterial se desdobra  entre dois pólos: trabalho (simbólico) intelectual (produção de ideias,  códigos, textos, programas, figuras etc. por escritores, programadores…)  e trabalho afetivo (aqueles que lidam com afecções corpóreas, de  médicos a babás e aeromoças). O trabalho imaterial é hoje hegemônico no  sentido preciso em que Marx proclamou que, no capitalismo do século XIX,  a produção industrial em larga escala era hegemônica, como a cor  específica dando o tom da totalidade – não quantitativamente, mas  cumprido um papel chave, emblematicamente estrutural. Assim, o que surge  é um inédito vasto domínio dos “comuns”: conhecimento compartilhado,  formas de cooperação e comunicação etc. que não podem mais ser contidos  na forma da propriedade privada – por quê? Na produção imaterial, os  produtos já não são objetos materiais, mas novas relações sociais  (interpessoais) – em suma, a produção imaterial já é diretamente  biopolítica, produção de vida social.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;A ironia é  que Hardt e Negri se referem aqui ao próprio processo que os ideólogos  do capitalismo “pós-moderno” celebram como a passagem da produção  material para a simbólica, da lógica centralista-hierárquica para a  lógica da autopóiese e da auto-organização, cooperação  multi-centralizada etc. Negri é aqui efetivamente fiel a Marx: o que ele  tenta provar é que Marx estava certo, que a ascensão do intelecto  coletivo é, em longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos  do capitalismo pós-moderno estão afirmando exatamente o oposto: é a  teoria marxista (e sua prática) que permanecem dentro dos limites de uma  lógica hierárquica e sob controle centralizado do Estado, e assim não  conseguem lidar com os efeitos sociais da nova revolução informacional.  Existem boas razões empíricas para esta afirmação: de novo, a suprema  ironia da história é que a desintegração do Comunismo é o exemplo mais  convincente da validade da tradicional dialética marxista entre forças  produtivas e relações de produção com a qual o marxismo contou na sua  tentativa de superar o capitalismo. O que arruinou efetivamente os  regimes Comunistas foi sua inabilidade em acomodar-se à nova lógica  social sustentada pela “revolução informacional”: eles tentaram dirigir  esta revolução com um novo projeto de planejamento estatal centralizado  de larga escala. O paradoxo, assim, é que aquilo que Negri celebra como  chance única de superação do capitalismo, é exatamente o que os  ideólogos da “revolução informacional” celebram como ascensão de um novo  capitalismo “sem fricção”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;A análise de  Hardt e Negri possui três pontos fracos que, em sua combinação,  explicam como o capitalismo pode sobreviver ao que deveria ser (em  termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o  tornaria obsoleto. Ela subestima a extensão do sucesso do capitalismo  contemporâneo (pelo menos em curto prazo) de privatizar o “conhecimento  comum”, assim como a extensão com que, mais do que a burguesia, são os  próprios trabalhadores que se tornam “supérfluos” (número cada vez maior  deles torna-se não somente desempregado, mas estruturalmente  inempregável). Além disso, mesmo que seja verdade, em princípio, que a  burguesia está progressivamente se tornando desfuncional, deve-se  qualificar esta afirmação – &amp;nbsp;desfuncional para quem? Para o próprio  capitalismo. Isto quer dizer que, se o velho capitalismo envolvia  idealmente um empreendedor que investia dinheiro (seu ou emprestado) em  produção organizada e dirigida por ele próprio, recolhendo o lucro, hoje  está surgindo um novo tipo ideal: não mais o empreendedor que possui  sua própria empresa, mas o gerente especialista (ou um conselho  administrativo presidido por um CEO) de uma empresa de propriedade dos  bancos (também dirigidos por gerentes que não possuem os bancos) ou  investidores dispersos. Neste novo tipo ideal de capitalismo sem  burguesia, a velha burguesia desfuncional é refuncionalizada como  gerentes assalariados – a nova burguesia recebe cotas, e mesmo se ela  possui uma parte na empresa, eles recebem as ações como parte da  remuneração pelo trabalho (“bônus por sua gerência bem sucedida”).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Esta nova  burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas da forma mistificada  daquilo que Milner chama de “mais-salário”: em geral, a eles é pago mais  do que o salário mínimo do proletário (este ponto de referência  imaginário – frequentemente mítico – cujo único verdadeiro exemplo na  economia global de hoje é o salário de um trabalhador numa &lt;em&gt;sweat-shop&lt;/em&gt;  na China ou na Indonésia), e é esta diferença em relação aos  proletários comuns, esta distinção, que determina seu status. A  burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer. Os  capitalistas reaparecem como um subconjunto dos trabalhadores  assalariados – gerentes qualificados para ganhar mais por sua  competência (razão pela qual a “avaliação” pseudo-científica que  legitima os especialistas a ganharem mais é crucial hoje em dia). A  categoria dos trabalhadores que recebem mais-salário não está,  obviamente, limitada aos gerentes: ela se estende a todos os tipos de  especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos,  advogados, jornalistas, intelectuais, artistas… O excesso que eles  recebem tem duas formas: mais dinheiro (para gerentes etc.), mas também  menos trabalho, isto é, mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas  também para setores da administração estatal).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;O  procedimento de avaliação que qualifica alguns trabalhadores para  receberem mais-salário é, claramente, um mecanismo arbitrário de poder e  ideologia sem nenhuma ligação séria com a competência real – ou, como  diz Milner, a necessidade de mais-salário não é econômica, mas política:  para manter uma “classe média” com o propósito de estabilidade social. A  arbitrariedade da hierarquia social não é um erro, mas todo o seu  propósito, de forma que a arbitrariedade da avaliação cumpre um papel  homólogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. Isto é, a violência  ameaça explodir não quando existe muita contingência no espaço social,  mas quando se tenta eliminar esta contingência. É neste nível que se  deve buscar pelo que se pode chamar de, em termos um tanto vagos, a  função social da hierarquia. Jean-Pierre Dupuy [em&amp;nbsp;&lt;em&gt;La marque du sacre&lt;/em&gt;,  Paris, Carnets Nord, 2008]&amp;nbsp;concebe a hierarquia como um dos quatro  procedimentos (“dispositivos simbólicos”) cuja função é fazer com que a  relação de superioridade não seja humilhante para os subordinados: a &lt;em&gt;hierarquia &lt;/em&gt;(a  ordem externamente imposta de papéis sociais em clara contraposição ao  valor imanente dos indivíduos – eu, portanto, experimento meu menor  status social como totalmente independente do meu valor intrínseco); a &lt;em&gt;desmistificação &lt;/em&gt;(o  procedimento crítico-ideológico que demonstra que as relações de  superioridade/inferioridade não estão fundamentadas na meritocracia, mas  são resultado de lutas objetivamente ideológicas e sociais: meu status  social depende de processos sociais objetivos, não de méritos – como diz  Dupuy sarcasticamente, a desmistificação social “cumpre o mesmo papel,  em nossas sociedades igualitárias, competitivas e meritocráticas do que a  hierarquia nas sociedades tradicionais” [p. 208]&amp;nbsp;– isto nos permite  evitar a conclusão dolorosa de que “a superioridade do outro é o  resultado de seus méritos e conquistas”; a &lt;em&gt;contingência &lt;/em&gt;(o  mesmo mecanismo, porém sem a sua forma crítico-social: nossa posição em  escala social depende de uma loteria natural e social – sortudos são  aqueles que nascem com melhores disposições e em famílias ricas); a &lt;em&gt;complexidade&lt;/em&gt;  (superioridade ou inferioridade dependem de um processo social complexo  independente das intenções ou méritos dos indivíduos – digamos, a mão  invisível do mercado pode causar o meu fracasso ou o sucesso do meu  vizinho, mesmo que eu tenha trabalhado muito mais e seja muito mais  inteligente). Ao contrário do que parece, todos estes mecanismos não  contestam ou sequer ameaçam a hierarquia, mas a tornam palatável, uma  vez que “o que desencadeia o turbilhão da inveja é a ideia de que o  outro merece a sua sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser  abertamente expressa” [p.211]. Dupuy extrai desta premissa a conclusão  (óbvia, para ele) de que é um grande erro pensar que uma sociedade que  seja justa e que se perceba como justa será assim livre de todo o  ressentimento – ao contrário, é precisamente em tal sociedade que  aqueles que ocupam posições inferiores encontraram uma válvula de escape  para seu orgulho ferido em violentas explosões de ressentimento.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Aí reside um  dos maiores impasses da China hoje: o objetivo ideal das reformas de  Deng Xiaoping era introduzir um capitalismo sem burguesia (como classe  dominante); agora, entretanto, os líderes chineses estão descobrindo  dolorosamente que o capitalismo sem hierarquia estável (conduzida pela  burguesia como nova classe) gera permanente instabilidade – portanto,  que caminho tomará a China? Mais genericamente, esta é possivelmente a  razão pela qual (ex-)comunistas reaparecem como os mais eficientes  gestores do capitalismo: sua histórica inimizade com a burguesia  enquanto classe se encaixa perfeitamente na tendência do capitalismo  contemporâneo em direção a um capitalismo gerencial sem burguesia – em  ambos os casos, como Stalin disse a muito tempo, “os quadros decidem  tudo” (está surgindo também uma diferença interessante entre a China de  hoje e a Rússia: na Rússia os quadros universitários eram ridiculamente  mal pagos, eles de fato se confundiam com os proletários, enquanto na  China eles são bem remunerados com um “mais-salário” como meio de  garantir sua docilidade). &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Além disso,  esta noção de “mais-salário” também nos permite lançar novas luzes sobre  os atuais protestos “anti-capitalistas”. Em tempos de crise, o  candidato óbvio para “apertar os cintos” são os níveis mais baixos da  burguesia assalariada: uma vez que o seu mais-salário não cumpre nenhum  papel econômico imanente, a única coisa que permite diferenciá-los do  proletariado são seus protestos políticos. Embora estes protestos sejam  nominalmente dirigidos pela lógica brutal do mercado, eles efetivamente  protestam contra a gradual corrosão de sua posição econômica  (politicamente) privilegiada. Lembremos da fantasia ideológica favorita  de Ayn Rand (de seu &lt;em&gt;Atlas Shrugged&lt;/em&gt;), a de “criativos”  capitalistas em greve – esta fantasia não encontra sua realização  perversa nas greves de hoje, que em sua maioria são greves da  privilegiada “burguesia assalariada” motivada pelo medo de perder seu  privilégio (o excedente sobre o salário mínimo)? Não são protestos  proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido à condição  proletária. Isto quer dizer: quem ousa se manifestar hoje, quando ter um  emprego permanente já se tornou um privilégio? Não os trabalhadores mal  pagos (no que sobrou) da indústria têxtil etc. mas o estrato de  trabalhadores privilegiados com empregos garantidos (muitos da  administração estatal, como a polícia e os fiscais da lei, professores,  trabalhadores do transporte público etc.). Isto também vale para a nova  onda de protestos estudantis: sua maior motivação é o medo de que a  educação superior não mais lhes garanta um mais-salário na vida futura.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Está claro,  obviamente, que o enorme renascimento dos protestos no último ano, da  Primavera Árabe ao Leste Europeu, do Occupy Wall Street à China, da  Espanha à Grécia, não devem definitivamente ser desconsiderados como uma  revolta da burguesia assalariada – eles guardam potenciais muito mais  radicais, de forma que devemos nos engajar numa análise concreta caso a  caso. Os protestos estudantis contra a reforma universitária em curso no  Reino Unido são claramente opostos às barricadas do Reino Unido em  agosto de 2011, este carnaval consumista de destruição, a verdadeira  explosão dos excluídos. Em relação aos levantes do Egito, pode-se  argumentar que, no começo, houve um momento de revolta da burguesia  assalariada (jovens bem educados protestando contra a falta de  perspectiva), mas isto foi parte de um amplo protesto contra um regime  opressivo. Entretanto, até que ponto o protesto conseguiu mobilizar  trabalhadores e camponeses pobres? Não seria a vitória eleitoral dos  islâmicos também uma indicação da base social estreita do protesto  secular original? A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas  surgiu uma nova “burguesia assalariada” (especialmente na administração  estatal superdimensionada) graças à ajuda financeira e empréstimos da  União Europeia, e muitos dos protestos atuais, mais uma vez, reagem à  ameaça de perda destes privilégios.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Além disso,  esta proletarização da baixa “burguesia assalariada” vem acompanhada do  excesso oposto: as remunerações irracionalmente altas dos grandes  executivos e banqueiros (remunerações economicamente irracionais, uma  vez que, como demonstraram as investigações nos Estados Unidos, elas  tendem a ser inversamente proporcionais ao sucesso da empresa). É  verdade, parte do preço pago por essa super remuneração é o fato dos  executivos ficarem totalmente disponíveis 24 horas por dia, vivendo  assim num estado de emergência permanente. Mais do que submeter estas  tendências a uma crítica moralista, deveríamos interpretá-las como a  indicação de como o próprio sistema capitalista não é mais capaz de  encontrar um nível interno de estabilidade autorregulada e de como esta  circulação ameaça sair do controle. &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;span style="color: black;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em&amp;nbsp;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;ebooks&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, confira:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://boitempoeditorial.com.br/livro_completo.php?isbn=85-7559-060-X"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;, de Slavoj&amp;nbsp;Žižek * ePub (&lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22607844&amp;amp;sid=201525413912567785852460"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Livraria Cultura&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;|&lt;a href="http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/154294/slavoj-zizek-as-portas-da-revolucao.html"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Gato Sabido&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://zizek.com.br/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-124-6"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;A visão em paralaxe&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;* ePub (&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29199984&amp;amp;sid=181144134131216323501284767"&gt;Livraria Cultura&lt;/a&gt;&amp;nbsp;| &lt;a href="http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/158396/slavoj-zizek-a-visao-em-paralaxe.html"&gt;Gato Sabido&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://boitempoeditorial.com.br/livro_completo.php?isbn=85-7559-035-9"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada)&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;* ePub (&lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22607841&amp;amp;sid=201525413912567785852460"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Livraria Cultura&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;|&lt;a href="http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/154295/slavoj-zizek-bemvindo-ao-deserto-do-real--versao-ilustrada.html"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&amp;nbsp;Gato Sabido&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://boitempoeditorial.com.br/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-163-5"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Em defesa das causas perdidas&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;* ePub e PDF (&lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29181238&amp;amp;sid=862209632131120812357362753"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Livraria Cultura&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;|&amp;nbsp;&lt;a href="http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/155838/Em_defesa_das_causas_perdidas.html"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Gato Sabido&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://boitempoeditorial.com.br/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-134-5"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;* PDF * R$25&amp;nbsp;(&lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22867840&amp;amp;sid=201525413912567785852460"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Livraria Cultura&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;|&lt;a href="http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/154843/slavoj-zizek-lacrimae-rerum.html"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&amp;nbsp;Gato Sabido&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;em&gt;&lt;a href="http://boitempoeditorial.com.br/livro_completo.php?isbn=978-85-7559-174-1"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Primeiro como tragédia, depois como farsa&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;* PDF (&lt;a href="http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=22867842&amp;amp;sid=201525413912567785852460"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;Livraria Cultura&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;|&lt;a href="http://www.gatosabido.com.br/ebook-download/154844/slavoj-zizek-primeiro-como-tragedia-depois-como-farsa.html"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&amp;nbsp;Gato Sabido&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;-----------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;* Slavoj Žižek&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;nasceu  na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e  um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas  do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques  Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da  pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de  Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for  Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro  de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou&amp;nbsp;&lt;em&gt;Bem-vindo ao deserto do Real!&lt;/em&gt;&amp;nbsp;(2003),&amp;nbsp;&lt;em&gt;Às portas da revolução&lt;/em&gt;&amp;nbsp;(escritos de Lenin de 1917) (2005),&amp;nbsp;&lt;em&gt;A visão em paralaxe&lt;/em&gt;&amp;nbsp;(2008),&amp;nbsp;&lt;em&gt;Lacrimae rerum&lt;/em&gt;&amp;nbsp;(2009) e os mais recentes&amp;nbsp;&lt;em&gt;Em defesa das causas perdidas&lt;/em&gt;&amp;nbsp;e&amp;nbsp;&lt;em&gt;Primeiro como tragédia, depois como farsa&lt;/em&gt;(ambos de 2011). Colabora com o&amp;nbsp;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Blog da Boitempo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&amp;nbsp;esporadicamente.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: black;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Fonte:&amp;nbsp; Blog da Boitempo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-848430262853341028?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/848430262853341028/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/revolta-da-burguesia-assalariada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/848430262853341028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/848430262853341028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/revolta-da-burguesia-assalariada.html' title='A revolta da burguesia assalariada'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-4225192026588971042</id><published>2012-01-27T15:07:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T15:07:46.540-02:00</updated><title type='text'>Marcelo Zuffo - Entrevista</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-vkqo1bZsbK0/TyLYIMimqFI/AAAAAAAAIR8/PJ2vFnkxdTQ/s1600/marcelozuffo2011.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="381px" src="http://3.bp.blogspot.com/-vkqo1bZsbK0/TyLYIMimqFI/AAAAAAAAIR8/PJ2vFnkxdTQ/s400/marcelozuffo2011.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele fez a jornada das calculadoras eletrônicas ao universo da realidade virtual e das tecnologias interativas, com seus incalculáveis usos. “Pai” da primeira caverna digital da América Latina, o engenheiro eletrônico Marcelo Zuffo é professor titular da Escola Politécnica da USP, pesquisador do LSI – Laboratório de Sistemas Integráveis há 28 anos e coordenador científico do recém-criado Citi – Centro Interdisciplinar em Tecnologias Interativas. Na entrevista concedida à revista Inovação em Pauta, editada pela FINEP, ele fala sobre TV Digital, banda larga, tendências, oportunidades dos grandes eventos esportivos e os desafios da construção de pontes entre o conhecimento e o mercado. Para o paulistano, ainda ousamos pouco e temos constrastes inaceitáveis. “A sétima economia do mundo não pode estar na 164ª posição no ranking mundial de velocidade da banda larga”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Veja alguns destaques da entrevista e leia a matéria na íntegra, no original em pdf, aqui:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.finep.gov.br/imprensa/revista/edicao12/inovacao_em_pauta_12_entrevista.pdf"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://www.finep.gov.br/imprensa/revista/edicao12/inovacao_em_pauta_12_entrevista.pdf&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Inovação em Pauta – Em termos de novas tecnologias voltadas para interatividade, para onde apontam as tendências?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Marcelo Zuffo -&lt;/strong&gt; Continuamos seguindo a direção do Steve Jobs, com sistemas ubíquos e intuitivos. Energia também é um ponto importante. Na hora em que o ser humano consome mais transistores do que grãos de arroz, isso demanda muita energia e começa a cair a ficha de que não dá para conceber a eletrônica do mesmo jeito. Um dos focos de atuação são os sistemas ultra low power. A eletrônica na ponta, que está nas mãos das pessoas, está começando a causar impacto na cadeia energética. Pense no stand-by dos aparelhos, no carregador do smartphone. Temos 250 milhões de celulares no Brasil, então são 250 milhões de carregadores. Se cada um consome 10 watts, são 2,5 gigawatts. Isso só para celular, e ainda temos laptops e desktops. Energia é uma tendência e seria a próxima onda do Steve Jobs, que viria com celulares ultrafinos com bateria que não acaba, fazendo harvesting, ou seja, absorveria energia do ambiente. Já estamos discutindo em reuniões painéis fotovoltaicos que tiram energia da própria lâmpada, sem precisar de sol. Um celular assim poderia ser autocarregável.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP - Há pesquisadores se articulando para pedir mais investimentos em projetos ligados à “internet das coisas”, também conhecida como comunicação ubíqua. Um dos suportes seria a evolução do uso do RFID, tecnologia que pode identificar à distância o objeto conectado, mas a infraestrutura nacional de telecom ainda deixa muito a desejar. Na sua opinião, vale a pena investirmos mais nesta área ou ela ainda está longe da nossa realidade?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ-&lt;/strong&gt; Esse é um dos grandes desafios estabelecidos pela Sociedade Brasileira de Computação. É uma tendência que vem sendo observada há mais de 10 anos. É uma área importante de pesquisa e é fundamental que receba dinheiro, mas cai nas questões estruturais, como a falta de uma indústria forte no setor alavancadora de um segmento regional– não temos uma Microsoft, Apple, Samsung, LG ou Panasonic, por exemplo. As multinacionais, mesmo aqui, se são japonesas, é um japonês que toma a decisão. Faltam empresas com tomada de decisão regional. Isso faz toda a diferença.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP- Alguma outra tendência forte?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ - Acessibilidade.&lt;/strong&gt; A população está envelhecendo e a pirâmide social brasileira está se invertendo. A inteligência dos celulares está crescendo tanto que eles vão te ajudar a escutar mais alto, ver mais longe, se localizar. Uma área das tecnologias interativas são as tecnologias hápticas, que dizem respeito ao tato e a aplicações sensíveis ao toque. Por exemplo, uma cadeira de rodas no futuro poderia ser trocada por um terno com microrrobôs que te façam se movimentar. As aplicações de técnicas interativas no setor de Saúde são promissoras, até então a gente só as via no setor de entretenimento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP- E o 3D?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ&lt;/strong&gt; - Existem estatísticas que apontam que, a partir de 2013, todas as TVs serão 3D Ready. O consenso da comunidade científica quanto ao grande desafio é eliminar os óculos. Aqui no LSI da USP estamos fazendo muitas pesquisas nesta direção – uma TV 3D não invasiva. Essa tecnologia de 3D que há na TV hoje nós dominamos desde 1997, quando conseguimos da FINEP o apoio para fazer a caverna digital (sistema de realidade virtual de alta resolução, a da USP foi a primeira da América Latina). Aqui na USP temos usado o 3D para tudo: turismo - como voos virtuais sobre as cidades da Copa, medicina – para cirurgia e reabilitação - e simulação em indústrias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP- Tecnicamente estamos alinhados com os líderes deste mercado?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ-&lt;/strong&gt;Temos todos os elementos da cadeia no Brasil, como empresas que produzem óculos, por exemplo. Há oito ou 10 empresas aqui na atividade de 3D. O que não temos é o domínio sobre a tecnologia de display. No novo centro que a USP montou, estamos preocupados com isso e tentamos identificar oportunidades de inovação. Também falta capacitação. Há pouquíssima gente aqui que saiba produzir vídeos em 3D. Montamos uma unidade de HD 3D na USP e o pessoal não dá conta de tantos cursos, palestras e treinamentos que oferecemos, montamos até um canal no YouTube. Falta know-how e competência. A ideia da USP de criar o Citi – Centro Interdisciplinar de Tecnologias Interativas - justamente para tentarmos trabalhar a capacitação e a divulgação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP – Os grandes eventos esportivos que acontecerão aqui vão influenciar o mercado de TICs?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ -&lt;/strong&gt;Os grandes jogos são molas propulsoras de atividades econômicas neste setor. Há 30 anos novidades tecnológicas são apresentadas nos grandes jogos. Na década de 1980 foi a TV high definition, nos jogos de Los Angeles; telefonia móvel nos jogos da década de 1990; ultra high definition 3D na Copa passada; telefonia de quarta geração na Inglaterra em 2012. O que faremos no Brasil? Vamos mostrar tecnologia dos outros? Havia discussões em torno do 4K (ultra high definition), mas a Inglaterra já anunciou que a BBC vai fazer toda a gravação da Copa de 2012 assim, então morreu para nós. Vamos fazer 8K, 16K, TV sem tela? Existe aí um problema porque, como as tecnologias interativas estão intrinsecamente incorporadas à atividade econômica, o fluxo de capital para investimento em novos mercados neste setor é muito forte e a competitividade é muito grande.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP - O computador pessoal está perdendo espaço para o smartphone? A TV vai agregar as funções do computador?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ&lt;/strong&gt; - O smartphone já é o computador pessoal hoje. A TV será o computador familiar. Nossa visão é de que ela será o centro de entretenimento e serviços da casa – para informação, saúde e governo eletrônico, por exemplo. O Brasil deu uma grande contribuição nesta área, mudando o jogo na questão do padrão da TV Digital. A criação do nosso padrão foi a primeira fase da revolução da TV Digital no Brasil. Fez tanto sucesso que foi adotado por 13 países da América Latina. A segunda fase da revolução da TV Digital será a conectividade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP – E o que falta para isso acontecer?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ -&lt;/strong&gt; Ano passado o Brasil comercializou cerca de 12 milhões de TVS. Somos um dos maiores mercados do mundo. Nosso gargalo, nesse setor, é de conteúdo. Temos três problemas estruturais: não temos uma empresa âncora no setor eletroeletrônico que possa rivalizar com outras empresas do mundo, estamos defasados em termos de marco regulatório e não temos uma cultura de interatividade no segmento de radiodifusão, o que é uma questão de atitude e de modelo de negócio. Estamos num apagão em termos de conteúdo interativo. As emissoras todas vão jurar de pé junto que estão fazendo conteúdo interativo, mas elas fazem uma ou duas aplicações por mês. Um smartphone vem com duas mil aplicações e se você compra uma TV conectada, ela vem com 300 aplicações interativas. O setor de telecomunicações brasileiro de repente foi totalmente privatizado sem uma racionalidade no que chamamos de inovação. Ele não é ousado. Não investe nem em inovações, nem em infraestrutura. A visão das operadoras de telecom é essencialmente financeira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP – Esses serviços ainda são muito caros aqui.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ -&lt;/strong&gt; Há um nó na telefonia aqui, dividido em três eixos: um dos maiores impostos do mundo, uma das maiores margens de lucro praticadas no mundo e, com isso, investimento baixo em infraestrutura - a nossa é de quarto mundo. Houve um desmonte orgânico e estruturado da indústria local de telecomunicação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP – Como está nossa TV Digital hoje?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ&lt;/strong&gt; -Em TV Digital aberta nós demos o recado para o mundo, fizemos bonito. Que país de terceiro mundo conseguiu emplacar um padrão em mais de 10 países? Quando eu falava que isso ia acontecer, porque a tecnologia era boa, era chamado de imperialista, mas aconteceu. A próxima fase vai ser uma composição com outros países. O Japão já é um deles. É uma besteira ter padrões regionais de TV Digital. A única saída para a TV Digital aberta é o Brasil dar mais um passo neste esforço, e não se esquecer do conectado, porque os chamados dispositivos smart – smartphone, smart TV - são uma tendência sem volta. Ter internet no celular e na TV é parte do movimento da internet das coisas. O problema é que lideramos em TV Digital, mas estamos na 164ª posição em banda larga. (Ranking mundial divulgado pela Pando Networks. A média mundial de velocidade, de 508 kbps, é cinco vezes maior que a média nacional.) Isso deveria ser uma prioridade estratégica número um.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP - Windows, Amazon, Google, Apple e Facebook mudaram o modo de consumir, pensar, organizar a vida e interagir socialmente. Todas essas revoluções estão fortemente ligadas à figura de seus criadores. Dependemos de novos gênios para continuar nessa trilha?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ-&lt;/strong&gt; Dependemos de novos gênios, mas há milhares de pessoas neste segmento de atividade econômica e, para fomentar ideias inovadoras, é preciso ter ações estruturantes de políticas públicas. Isso envolve o desenvolvimento de talentos desde a juventude – em todos os casos que conhecemos as vocações para esta área são despertadas cedo -, indução e desoneração fiscal. A cidade de Toronto, no Canadá, por exemplo, tem um segmento de indústria criativa muito forte voltado para cinema e software de efeitos especiais. Ela exime os empreendedores de custos trabalhistas. É um caso de políticas públicas de duas décadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP - O talento da computação não é necessariamente um talento da administração. E no Brasil, especificamente, é muito difícil tanto abrir, como fechar uma empresa.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ -&lt;/strong&gt;Na indústria de software ou de criação há iniciativas tímidas e houve um esforço de desoneração de impostos para fins de exportação, mas o Brasil às vezes é lento em relação a outros países na agressividade desta desoneração e criação de políticas públicas. Há países na própria América Latina muito mais ágeis que nós, como México e Chile. Eles têm sido polos de atração deste tipo de talento no cenário latinoamericano. Têm mais acesso a capital e a investidores e mais facilidades até no processo de imigração. Na história do Facebook há um brasileiro, na concorrente da Pixar há um brasileiro por trás do filme de animação “Rio”. O equívoco que o Brasil sempre cometeu é de que os gênios vão surgir da classe média alta. Steve Jobs, por exemplo, é o ícone do sonho americano, porque era filho de imigrante, foi adotado, mas não foi massacrado pela estrutura social do país.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;IP- No ramo das tecnologias interativas o que dá dinheiro hoje? Desenvolver equipamentos, tecnologias ou conteúdo, o que é mais promissor no Brasil?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;MZ-&lt;/strong&gt;Um nicho altamente empregador e gerador de renda é o de conteúdo. Na radiodifusão temos uma concentração muito grande. Talvez isso mude com a legislação que está vindo aí, como a PL 116 (projeto de lei que estabelece novas regras de oferta de TV por assinatura no Brasil e estabelece uma política de fomento do audiovisual nacional). Na área de miniapps para conectados já há empresas brasileiras exportando muito bem, inclusive transnacionais, com escritórios na Europa. Outro nicho é a área de animação. O Brasil tem talento e casos de sucesso em várias áreas, não tem é escala. Talvez falte uma ordenação econômica, aquisições, compras e fusões. A indústria criativa precisa de mais atenção e de ser vista como um setor lucrativo, mas que precisa ser organizado e incentivado. Fala-se de desoneração de bens de capital para a indústria tradicional, mas vai ver se você consegue comprar uma placa de vídeo ou uma ilha de edição que não tem similar nacional desonerada?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Leia a íntegra da entrevista na edição 12 da revista Inovação em Pauta, editada pelo Departamento de Comunicação da FINEP&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://www.finep.gov.br/imprensa/noticia.asp?cod_noticia=2779"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://www.finep.gov.br/imprensa/noticia.asp?cod_noticia=2779&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-4225192026588971042?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/4225192026588971042/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/marcelo-zuffo-entrevista.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4225192026588971042'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4225192026588971042'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/marcelo-zuffo-entrevista.html' title='Marcelo Zuffo - Entrevista'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-vkqo1bZsbK0/TyLYIMimqFI/AAAAAAAAIR8/PJ2vFnkxdTQ/s72-c/marcelozuffo2011.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-3336848988822207623</id><published>2012-01-27T14:36:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T14:36:00.663-02:00</updated><title type='text'>Pesquisa revela pessimismo sobre o futuro dos EUA</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Copo meio vazio&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-VVT7RwjwLZ4/TyLRZ9ZXf5I/AAAAAAAAIR0/S6rjk4J7Xlw/s1600/copo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://4.bp.blogspot.com/-VVT7RwjwLZ4/TyLRZ9ZXf5I/AAAAAAAAIR0/S6rjk4J7Xlw/s400/copo.jpg" width="348px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Pessimismo dos ex-alunos de Harvard é descabido, porém relevante &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;(Reprodução&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;/&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Internet)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; &lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Pesquisa da Universidade de Harvard &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;mostra que 71% dos executivos acreditam &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que a competitividade dos Estados Unidos &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;cairá ao longo dos próximos três anos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;s lucros podem estar numa alta histórica, mas os executivos norte-americanos estão preocupados. Alguns reclamam que seu presidente, Barack Obama, não entende o funcionamento do setor privado. Outros argumentam que os Estados Unidos em si estão saindo de controle. Grande parte deste pessimismo é descabido, ainda que seja relevante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma pesquisa publicada no dia 18 último oferece detalhes perturbadores. 71% dos executivos entrevistados acreditam que a competitividade dos Estados Unidos cairá ao longo dos próximos três anos. Cerca de 45% disseram que empresas norte-americanas terão mais dificuldade de competir na economia global. Surpreendentes 64% acham que será mais difícil para empresas norte-americanas pagar salários altos e bônus.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A pesquisa é da Harvard Business School, que em outubro convenceu quase 10 mil de um grupo de 78 mil ex-alunos a completar o questionário. Dois terços residiam nos Estados Unidos, o restante está espalhado por 121 países. Cerca de 91% haviam trabalhado no ano anterior (cerca de metade nos setores de finanças, manufaturas e serviços profissionais). Tratando-se de Harvard, mais de um quarto declararam-se executivos-chefes, presidentes de conselho, fundadores, donos ou algum outro cargo igualmente elevado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Pesquisas deste tipo têm importância &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;porque o pessimismo revelado &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;reflete-se em decisões tomadas &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;por profissionais em cargos de chefia."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Curiosamente, os ex-alunos de Harvard sentiam-se pessimistas com relação ao rumo dos Estados Unidos, mas não em relação à sua situação atual. Cerca de 57% consideram que o ambiente de negócios hoje nos Estados Unidos é um pouco ou muito melhor que a média global; só 15% disseram que a atual economia estava pior que a média. Mas quando uma comparação de prospectos em relação a outras economias industrializadas foi requisitada, so 9% afirmaram que os EUA estavam na frente. Surpreendentes 66% preveem que os EUA perderão terreno para o Brasil,Índia e China; só 8% prevê o contrário. Aqueles em setores de mercado mais competitivos foram os mais pessimistas; administradores de hotéis ou prestadores de seviços básicos responderam de modo mais positivo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pesquisas deste tipo têm importância porque o pessimismo revelado reflete-se em decisões tomadas por profissionais em cargos de chefia. No ano anterior à pesquisa, um em cada 6 respondentes envolveram-se pessoalmente com a decisão de fechar um negócio com os Estados Unidos ou outro país. Alguns tiveram que escolher entre transferir uma empresa para o exterior ou não. Outros, se seria o caso de trazer uma empresa de volta aos Estados Unidos. Outros escolheram onde sediar uma nova operação. De um modo geral, a escolha pelo estrangeiro foi duas vezes mais frequente do que a escolha pelos EUA.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;--------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fontes:&amp;nbsp;&lt;span&gt;&lt;span style="color: #c6c6c6;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.economist.com/node/21543169" jquery17105042009745344091="82" modo="true" target="_blank"&gt;&lt;span style="color: #666666;"&gt;Economist - Glass half empty&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span&gt;&lt;a href="http://opiniaoenoticia.com.br/economia/27/01/2012"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://opiniaoenoticia.com.br/economia/27/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-3336848988822207623?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/3336848988822207623/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/pesquisa-revela-pessimismo-sobre-o.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3336848988822207623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3336848988822207623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/pesquisa-revela-pessimismo-sobre-o.html' title='Pesquisa revela pessimismo sobre o futuro dos EUA'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-VVT7RwjwLZ4/TyLRZ9ZXf5I/AAAAAAAAIR0/S6rjk4J7Xlw/s72-c/copo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7307819008664353860</id><published>2012-01-27T14:27:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T14:27:04.526-02:00</updated><title type='text'>Quanto vale um dedo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;DAVID COIMBRA*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-IdiSRH7NYfc/TcF86-0oc7I/AAAAAAAAAFI/TzO63EHeGEM/s1600/tumblr_lkbln0TpgN1qfr4s3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="276px" src="http://3.bp.blogspot.com/-IdiSRH7NYfc/TcF86-0oc7I/AAAAAAAAAFI/TzO63EHeGEM/s400/tumblr_lkbln0TpgN1qfr4s3.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; homem é um ser físico. Parece óbvio; não é. Um antigo vice-presidente dos Estados Unidos chamaria isso de uma verdade inconveniente. Porque, de certa forma, é uma verdade que reduz a dimensão da espécie humana. O homem gosta de acreditar que se move prioritariamente por valores intangíveis. Gosta de acreditar que é um ser nobre, diferente do restante dos animais do planeta por ser animado por vida espiritual.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Certo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora pense no seu dedo mínimo, tão pequeno e insignificante que é chamado de “minguinho”. Você nunca tece reflexões sobre o minguinho, não é? Claro que não. Você pensa todos os dias nos seus cabelos, que ajeita a mirar-se no espelho e lava com xampu restaurador e besunta com gel; você talvez se aflija com os sulcos que os anos vão lhe cavoucando nas comissuras dos lábios e dos olhos, e nessa minúscula região também aplica cremes franceses que custam 50 euros; você faz abdominais para enrijecer a barriga; você protege bem os pés com calçados elegantes, até porque, você sabe, a primeira peça do vestuário masculino na qual as mulheres reparam são os sapatos. Pois bem. Você está atento a todas as partes do seu corpo. Mas você nunca pensa no minguinho, nunca olha para ele, nunca dedica 10 segundos do seu dia a ponderar acerca do minguinho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Neste momento raro em que, devido ao parágrafo acima, você está pensando no seu minguinho, suponha que ele esteja doendo. Doendo muito por conta de alguma doença de minguinhos. O que acontecerá? Você só vai pensar no minguinho. Você não conseguirá fazer mais nada direito por causa do minguinho. Os lábios em forma de coração daquela morena, as elevações da vida religiosa, os prazeres inefáveis do saber e da cultura, os euros e os dólares todos, nada disso tem importância. Só o que importa é o seu dedo minguinho, o dedo minguinho é o suserano do seu ser, o dedo minguinho é o centro do mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por quê? Porque o homem é um ser físico.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É por isso que você precisa evitar certas temeridades. Dirigir em alta velocidade, fazer ultrapassagens perigosas, praticar acrobacias inúteis, saltar de paraquedas se não for para invadir a Normandia ou porque o avião está caindo, limpar janelas de edifícios sem corda de segurança, chamar uma mulher de gorda, todas essas, e outras tantas, são ações estúpidas que podem causar mutilações. Quer dizer: que podem profanar o seu corpo, e com isso, profanar a sua mente e acabar com a sua vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O homem é um ser físico. Mas gostaria de ser puramente espiritual. E a fase mais espiritual da vida, mais ideológica, a fase em que o ser humano mais anseia pelos valores intangíveis, não por acaso corresponde ao auge do seu vigor físico: a juventude. O jovem sonha com realizações, com a glória, com a justiça ou com a revolução. Com “algo mais” do que a vida mundana, comum, material, “física”. E, quando um jovem experimenta drogas, ele quer algo além do prazer físico; ele quer alcançar o intangível. Ele arrisca a sua integridade física por uma experiência extrassensorial, ou seja, além dos sentidos. Além do físico. As campanhas contra as drogas precisavam convencer o jovem disso, de que ele é um ser físico. E de que nenhuma experiência transcendental vale mais do que um dedo minguinho.&lt;/div&gt;------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Cronista da ZH&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Zero Hora on line, 27/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7307819008664353860?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7307819008664353860/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/quanto-vale-um-dedo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7307819008664353860'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7307819008664353860'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/quanto-vale-um-dedo.html' title='Quanto vale um dedo'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-IdiSRH7NYfc/TcF86-0oc7I/AAAAAAAAAFI/TzO63EHeGEM/s72-c/tumblr_lkbln0TpgN1qfr4s3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-8344042483208905337</id><published>2012-01-27T14:17:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T14:17:58.464-02:00</updated><title type='text'>“Tenho firme crença no Brasil”</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;ENTREVISTA&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-6UoSkGHYQPM/TyLNZV23FnI/AAAAAAAAIRs/9VnTJoKNQbE/s1600/1ame.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://1.bp.blogspot.com/-6UoSkGHYQPM/TyLNZV23FnI/AAAAAAAAIRs/9VnTJoKNQbE/s400/1ame.jpg" width="324px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;B&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;en Verwaayen diretor-executivo da Alcatel-Lucent e membro da diretoria do Fórum Econômico MundialUm dia depois de ser um dos responsáveis por colocar o Brasil sob os holofotes do Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), o holandês Ben Verwaayen reiterou seu interesse no país. Em meio ao burburinho dos corredores e à concentração das salas de conferências do encontro nos Alpes, reservou um momento para responder a perguntas feitas por Zero Hora por e-mail. Da sede em Paris, o executivo comanda os negócios da multinacional Alcatel-Lucent, empresa que atua nas áreas de telefonia fixa, móvel, fibra óptica, aplicações e serviços. Formado em MBA na área de Direito e Política Internacional pela Universidade de Utrecht, da Holanda, Cavaleiro do Império Britânico e da Legião de Honra francesa, Verwaayen personifica o cidadão europeu, mas está convencido de que a mudança no balanço entre países desenvolvidos e emergentes é definitiva. Veja a seguir os principais trechos da entrevista:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Zero Hora – O senhor realmente vê um “oceano de oportunidades” no Brasil? Por quê?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ben Verwaayen –&lt;/strong&gt; Sim. Basta observar o crescimento da população jovem e como é altamente capacitada tecnologicamente, o número de grandes eventos no Brasil e determinados criadores de políticas públicas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – O senhor comentou que o mundo visto a partir do Brasil teria uma perspectiva diferente daquela enxergada pelas economias desenvolvidas. O que poderia ser visto de forma diferente a partir do Brasil e por quê?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; A América do Sul viveu muitas crises no passado e aprendeu a enfrentá-las com as próprias forças e, às vezes, com remédios muito duros. Os países superaram essas dificuldades e agora desenvolvem um grande número de novas iniciativas e abordagens criativas para envolver uma população jovem e instruída.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – O que é o melhor e o pior no Brasil atualmente?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen&lt;/strong&gt; - O melhor: o grande otimismo e a crença no futuro. O pior: a tendência ao protecionismo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – Os brasileiros ainda são um pouco céticos sobre o futuro do país. Os estrangeiros são mais otimistas?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; Isso pode ser verdade porque podemos ver desenvolvimentos em um contexto diferente, mas tenho firme crença no Brasil como uma potência do futuro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – Há lições que o mundo pode aprender do Brasil? Quais?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; Sim. Uma é que não se deve julgar um livro pela capa. Quando o presidente Lula começou, o mundo pensava que sua gestão seria marcada por políticas antiempresariais. No fim, acabou se mostrando efetiva na criação de oportunidades.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – Quais tipos de negócios são mais promissores no Brasil neste momento?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; Qualquer coisa que tenha a ver com Olimpíada ou futebol tem um grande futuro no Brasil!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – Como a Alcatel-Lucent planeja assumir – se é que já não está – uma posição estratégica no “oceano de oportunidades” do Brasil?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; Não posso responder porque estamos em período de silêncio (que antecede a divulgação de balanço). Nós poderemos responder depois da divulgação dos resultados financeiros em 10 de fevereiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – A mudança do foco econômico das nações desenvolvidas para as emergentes é temporária ou definitiva?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; É definitiva.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ZH – Quanto tempo o senhor passou no país e qual sua experiência mais marcante aqui?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Verwaayen –&lt;/strong&gt; Estive no Brasil uma dúzia de vezes nos últimos 20 anos. Minha experiência mais marcante foi ver a seleção brasileira de futebol vencer!&lt;/div&gt;---------------------------------&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Reportagem por MARTA SFREDO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="mailto:marta.sfredo@zerohora.com.br"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;marta.sfredo@zerohora.com.br&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;Fonte: ZH on line, 27/01/2012&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-8344042483208905337?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/8344042483208905337/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/tenho-firme-crenca-no-brasil.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8344042483208905337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8344042483208905337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/tenho-firme-crenca-no-brasil.html' title='“Tenho firme crença no Brasil”'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-6UoSkGHYQPM/TyLNZV23FnI/AAAAAAAAIRs/9VnTJoKNQbE/s72-c/1ame.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-2540158307812385295</id><published>2012-01-27T11:51:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T11:51:25.954-02:00</updated><title type='text'>Joseph Epstein: “Os outros são o melhor assunto”</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-grwH1-9A7_k/TyKqv0jVECI/AAAAAAAAIRk/htbuGko067w/s1600/714_joseph_epstein.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://1.bp.blogspot.com/-grwH1-9A7_k/TyKqv0jVECI/AAAAAAAAIRk/htbuGko067w/s400/714_joseph_epstein.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;O ensaísta Joseph Epstein. Segundo ele, o sexo continua sendo o principal tema &lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;das conversas sobre a vida dos outros (Foto: divulgação)&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Escritor americano afirma que fofocar é&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;uma inclinação natural humana – &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;e isso não é necessariamente ruim&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; ensaísta americano Joseph Epstein é um estudioso das características universais dos seres humanos. Já escreveu livros sobre a amizade, a inveja e a ambição. Em sua obra mais recente, Gossip (Fofoca), afirma que falar das pessoas – na ausência delas – é uma dessas inclinações naturais. “A única coisa errada com o Jardim do Éden é que não havia ninguém sobre quem Adão e Eva pudessem fofocar”, diz Epstein, em tom bem-humorado. Na sociedade contemporânea, não só há material suficiente para fofoca – somos 7 bilhões de pessoas –, como também um novo meio, a internet, que torna públicos os comentários antes restritos a um pequeno círculo. Nesta entrevista a ÉPOCA, Epstein discute essas mudanças e os lados positivos e negativos desse hábito tão humano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Por que a fofoca é algo universalmente humano?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Joseph Epstein –&lt;/strong&gt; Não há assunto mais interessante que as outras pessoas. Analisar seus erros, suas pretensões, suas hipocrisias. É muito difícil evitar a fofoca. Não tive de correr atrás do assunto desse livro. As pessoas me ligavam para contar fofocas interessantes!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Mas o que é fofoca?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; Ao longo do livro, uso várias definições. A primeira considera fofocas os comentários sobre pessoas de nosso círculo – não sobre celebridades. Outra definição é do colunista Earl Wilson: “É ouvir algo de que você gosta sobre alguém de quem você não gosta”. De fato, não gostamos de ouvir fofocas sobre nossos parceiros, pais, filhos...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – O conceito de fofoca mudou ao longo da história?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; A fofoca começa como algo pessoal: pessoas falando sobre seus amigos ou inimigos nas pequenas cidades, nos vilarejos. Em algum momento do século XVII, quando a imprensa foi inventada e logo depois vieram os jornais, fofocar era falar dos ricos, dos nobres, das pessoas em posições de destaque. A fofoca começou a ser menos sobre pessoas e mais sobre celebridades e, com o jornal, tornou-se mais pública que privada. Agora, com a internet, há fofoca pública sobre pessoas privadas. A fofoca começou como algo privado, tornou-se público e virou algo privado com alcance público. É uma grande mudança, que traz vários riscos, porque fica mais difícil se livrar de uma fofoca que se espalha on-line.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Isso quer dizer que a influência da fofoca aumentou?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; A fofoca na política é algo cada vez maior. O vazamento de informações com a intenção de destruir quem ocupa altos cargos é uma forma poderosa de fofoca. A fofoca não é uma ocupação trivial, ela tem consequências. No início, era vista como algo praticado por donas de casa, trivial, mas isso nunca foi verdade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Mas a imagem da fofoca ainda está muito atrelada às mulheres...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; Há estudos que mostram que isso não é verdade. Os homens têm tanto apreço pela fofoca quanto as mulheres. É um quesito em que há igualdade de sexos! Gosto mais de fofoca que minha mulher, confesso. Sei que há pessoas que diriam: “Não quero ouvir se for fofoca”. Mas ser assim é também perder várias informações importantes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – De que tipo de fofoca o senhor gosta?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; A fofoca tem uma reputação muito má porque pode ser perversa. Esse tipo de fofoca não me interessa, pessoalmente. Tenho um amigo, que morreu recentemente, que morava em Londres e me ligava no meio da manhã perguntando: “Com quem será que Fidel Castro está saindo?” Isso não tem nada de perverso. Gosto de fofocar a respeito das falhas de caráter das pessoas, suas vaidades, suas hipocrisias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – A fofoca tem lados positivos?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; O ponto positivo mais fundamental é manter as pessoas dentro de certos limites. Se elas temem ser alvo de fofoca, podem tentar evitar ter um caso extraconjugal, vão pensar na reação da comunidade. Outro aspecto bom da fofoca mostra-se no trabalho. Se alguém está tentando uma promoção dentro da empresa, pode ser útil ter informações sobre os outros candidatos, inclusive se um deles está dormindo com o chefe ou se outro teve um colapso nervoso. Mas há também um lado trapaceiro: um assunto ser fofoca não significa que ele seja verdadeiro – ou falso. É sempre preciso verificar sua veracidade, avaliar se a fofoca é plausível e perguntar-se quais as motivações de quem a contou. Há uma imensa variedade de motivos para contar uma fofoca. Para se vingar, para contar vantagem e até para jogar charme – fofocar é uma atividade íntima. Quando duas pessoas que não se conhecem se encontram, um primeiro impulso é fofocar sobre os possíveis assuntos de interesse. É uma sutil transação social.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Minha mãe não contou a meu pai &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que o pai dela havia se suicidado. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Se fosse hoje, essa informação seria revelada &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;no segundo encontro"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Hoje, as pessoas revelam tanto de sua vida nas redes sociais e em blogs que parece não haver mais segredos sobre os quais fofocar.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; Coisas que um dia foram fonte de vergonha hoje são assuntos de livros de memória. Meu pai abusou de mim, minha mãe era alcoólatra, meu irmão é pedófilo... Cinquenta anos atrás, quando essas coisas aconteciam, as pessoas queriam bloqueá-las de sua vida, que dirá então da vida das pessoas próximas. Agora, tudo se tornou material de memórias. Isso acontece por causa do que chamo de “triunfo da terapia”. Hoje a pior coisa, segundo a psicoterapia, é reprimir-se. Então, as pessoas revelam informações que antes criavam uma desgraça social. Não estou muito certo de que isso seja um progresso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Revelar mais informações sobre si próprio estimula a fofoca ou ajuda a preveni-la?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; Se alguém escreve em suas memórias que sofreu abuso sexual, de certa forma evita que outras pessoas fofoquem a respeito. Os outros só podem se sentir tristes pelo que aconteceu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Qualquer assunto se presta a fofoca?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; Mesmo hoje em dia, em que há mais notícias sobre o assunto e muito mais tolerância, o sexo continua o principal tópico das fofocas. Está nas manchetes de todos os jornais americanos. O escândalo do ex-presidente do FMI Dominique Strauss-Khan, acusado de estuprar uma camareira, o escândalo do pré-candidato republicano Herman Cain, acusado de assediar sexualmente várias mulheres... Mas há outros grandes temas: qualquer coisa relacionada ao poder e à hipocrisia, principalmente daqueles que se arrogam princípios morais muito elevados e revelam não ter nenhum.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Existem pessoas que conseguem não fofocar sobre nada?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein&lt;/strong&gt; – É uma questão de padrões morais muito elevados. Houve um tempo em que as pessoas não fofocavam tão abertamente, que mulheres de classe média não falavam sobre sexo. No máximo, diriam: “Eles estão tendo um caso!”. Hoje, como menciono em meu livro, a biografia da princesa Diana feita por Tina Brown diz que o divórcio entre ela e Charles aconteceu porque a princesa se recusava a praticar alguns “favores sexuais”. Isso soaria tão ultrajante há alguns anos! Ninguém teria sussurrado isso, quanto mais publicado em livro! É uma fofoca cuja veracidade não conseguiremos checar. Essa é uma mudança social muito grande.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Mas falar mais de um assunto que antes era tabu, como sexo, não é algo positivo?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; É sempre difícil decidir. Nos Estados Unidos, o ex-presidente Franklin Delano Roosevelt teve um caso extraconjugal durante o mandato com uma mulher chamada Lucy Mercer Rutherfurd. Todos os jornalistas que trabalhavam em Washington sabiam. Mas achavam que não deveriam publicar essa informação porque a Presidência era uma instituição e Roosevelt era um grande homem. Por que, então, derrubá-lo? Era sua vida privada e não parecia estar afetando seu trabalho. Ninguém falou do assunto até 50 anos depois de sua morte. Hoje temos o presidente Bill Clinton e o escândalo com Monica Lewinsky.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A esfera que protegia o presidente só quebrou no governo de Lindon Johnson e, depois, no de Richard Nixon. Havia um sentimento tão forte contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos e uma sensação tão forte de que o presidente estava enganando os jornalistas, que estes começaram a publicar tudo o que conseguiam contra o presidente. Uma vez que isso aconteceu, o líder dos Estados Unidos não estava mais a salvo de fofocas e especulações.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Isso quer dizer que estamos caminhando para um mundo com mais fofocas?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; A fofoca pode ter seu charme, pode entreter, pode dar prazer, mas, se houver só isso, rebaixa o tom da comunicação da sociedade. Fofoca, como sexo, é um ótimo esporte para lugares fechados, mas não queira fazer mais do que pode. Quando a fofoca domina a política, o jornalismo, o entretenimento, de repente a sociedade desce um degrau na escala da dignidade, da privacidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ÉPOCA – Em seu livro, o senhor “fofoca” sobre sua própria vida familiar e revela um segredo que sua mãe guardou toda a vida. Por que decidiu fazê-lo?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Epstein –&lt;/strong&gt; Pensei em contar essa história porque ela ilustra como o mundo mudou. Ao contá-la, vejo como minha mãe foi heroica em guardá-la – e como não sou igual a ela. Minha mãe não contou a meu pai, o homem que ela amava, que o pai dela, meu avô, havia se suicidado. Se fosse hoje, essa informação seria revelada no segundo encontro. E isso é muito revelador do tempo em que vivemos. Minha mãe era uma pessoa muito equilibrada, mas suponho que guardar esse segredo por toda a vida lhe causou sofrimento.&lt;/div&gt;------------------------------&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Reportagem por LETÍCIA SORG &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Revista ÉPOCA on line, acesso: 26/01/2012&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-2540158307812385295?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/2540158307812385295/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/joseph-epstein-os-outros-sao-o-melhor.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2540158307812385295'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2540158307812385295'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/joseph-epstein-os-outros-sao-o-melhor.html' title='Joseph Epstein: “Os outros são o melhor assunto”'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-grwH1-9A7_k/TyKqv0jVECI/AAAAAAAAIRk/htbuGko067w/s72-c/714_joseph_epstein.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-3044999261033234545</id><published>2012-01-27T11:31:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T11:31:47.165-02:00</updated><title type='text'>Espaço para homens, amigos e ditadores</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-l_M0pUkU20g/TyKkNIPv8_I/AAAAAAAAIRU/tvYyn9JUOxc/s1600/miguel-d4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://4.bp.blogspot.com/-l_M0pUkU20g/TyKkNIPv8_I/AAAAAAAAIRU/tvYyn9JUOxc/s400/miguel-d4.jpg" width="352px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;O ditador Souza Tavares em ação: "Cozinha não é um espaço de gestão democrática. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;A mesa, a seguir, é que é".&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; escritor português Miguel Souza Tavares, de 60 anos, tem uma longa relação com a cozinha. Começou a cozinhar depois de seu primeiro divórcio - e já foram três. Em junho do ano passado, casou-se pela quarta vez. Mas se o evidente apreço marital pelo sexo feminino teve idas e vindas, as descobertas culinárias com um constante grupo de homens não tiveram fim. Daí o título do livro "Cozinha d'Amigos", lançado em dezembro, em Portugal, pela Oficina do Livro (128 páginas, 24,40 euros).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com receitas, memórias e opiniões contundentes, o autor dos romances "Equador" e "Rio das Flores", editados aqui pela Companhia das Letras, faz sua primeira incursão no terreno gastronômico. Para quem acha a cozinha um espaço democrático, ele deixa claro que gosta da ideia de que cada um é ditador na sua. Nacionalista, que se nega como tal, Souza Tavares considera a culinária portuguesa uma das melhores do mundo e manifesta certo desdém pela italiana e até pela japonesa. Mas essa é apenas uma das opiniões polêmicas que externa, entre tantas outras, na entrevista a seguir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Por que um livro de receitas?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Miguel Souza Tavares:&lt;/strong&gt; É uma espécie de "serviço público". Tento explicar no livro que, ao contrário do que nos fazem crer, cozinhar não é assim tão complicado e pode ser um prazer, quando se cozinha para amigos, sem pretensões nem ostentações.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Como você começou a cozinhar?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Depois do meu primeiro divórcio. Quando me enfastiei de comer todos os dias em restaurantes, quando tudo já me parecia ter o mesmo gosto e eu tinha curiosidade de experimentar o que seria poder comer sozinho em casa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Qual critério foi usado para a seleção de receitas?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Escolhi receitas às quais, por uma razão ou outra, estou pessoalmente mais ligado. Umas têm a ver com a infância, outras com comida de férias de praia, outras com a comida que faço para os amigos na minha casa no campo, no Alentejo, algumas que a minha mãe fazia. Digamos que são receitas que têm uma história. Aliás, o livro não é propriamente um livro de cozinha, mas um livro de histórias da cozinha, que contém receitas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Cozinhar não é assim tão complicado &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;e pode ser um prazer, quando se cozinha&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;para amigos, sem pretensões &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;nem ostentações"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valor: Que pratos você faz melhor?&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Souza Tavares: Não é nenhum prato em especial. Um prato pode sair bem hoje e mal amanhã. São momentos, depende da concentração, do estado de espírito, da atenção aos pormenores. Mas, claro, há vários pratos nos quais eu não falho, que quase poderia fazer de olhos fechados: sopa de peixe e marisco, por exemplo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Como foi a experiência de escrever sobre cozinha? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Mais do que as receitas ou a culinária, aquilo que me divertiu foi a escrita: escrever sobre cozinha, exatamente. Para quem já escreveu romances, livros infantis, livros de viagens, crônicas, reportagens, escrever sobre cozinha foi a demonstração de que o importante é escrever - o gênero é o menos importante.&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-njJe5AHLd2k/TyKlYfwqVVI/AAAAAAAAIRc/_N4mhtT5Lq0/s1600/coz.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://2.bp.blogspot.com/-njJe5AHLd2k/TyKlYfwqVVI/AAAAAAAAIRc/_N4mhtT5Lq0/s400/coz.jpg" width="352px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;A sala de refeições na quinta do Alentejo: "as mulheres se limitam a comer e tirar a mesa".&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Você tem um grupo constante de amigos que vão pra cozinha? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Tenho, nas férias de verão. Somos três amigos. Todos os dias de manhã vamos ao mercado comprar peixe e legumes e à noite cozinhamos - cada um o seu prato -, enquanto as mulheres se limitam a comer e tirar a mesa. Depois, tenho outros amigos (companheiros de caça, por exemplo) com quem cozinho; às vezes em forma de desafio, outras em colaboração. Gosto muito do ambiente dos amigos homens na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Você caça? O quê? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Sim, na Europa caçamos, não somos tão politicamente corretos como aí. É o meu maior prazer. Caço, sobretudo, aves: perdiz, pombo bravo, codorniz, rola, pato bravo. Mas também coelhos, lebres, javalis. E faço também caça submarina. Tudo sempre com uma regra: não mato o que não vou comer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Por que cozinhar só entre homens? As mulheres atrapalham?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; As mulheres na cozinha ou sabem cozinhar e ajudam (coisa que vai sendo rara...) ou então atrapalham, como atrapalham todos aqueles que estão na cozinha sem fazer nada, enquanto você cozinha. Depois de tantos anos a ouvir as mulheres queixarem-se de que precisavam de se libertar da cozinha, descobri que não há nada melhor do que uma cozinha só com homens-amigos, que têm prazer de estar lá.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Quais são suas manias na cozinha?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Lá não tenho telefone nem televisão e não gosto de conversas em volta que me distraem. Gosto de ter as minhas coisas à mão e que ninguém as venha arrumar - o copo de vinho branco, os cigarros - e, como eu digo, gosto do princípio de que cada um é ditador na sua cozinha. A cozinha não é um espaço de gestão democrática. A mesa, logo a seguir, é que é.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Quer dizer que você fuma enquanto cozinha...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Eu fumo enquanto cozinho, enquanto escrevo, enquanto penso, enquanto caço, enquanto me deixarem. Sou militante contra o politicamente correto e o fascismo higiênico que os americanos impuseram ao mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Você é produtor de azeite? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Não, imagina. Acontece que, há uns anos, fiz uma transplantação de oliveiras muito antigas (a mais nova deve ter uns duzentos anos) para a minha quinta do Alentejo. Depois de uns anos em choque traumático, em 2011, finalmente, elas deram azeitonas suficientes para fazer azeite para a casa e não mais: 40 litros. Por algum milagre inexplicável, e testemunhado por todos os que já o provaram, trata-se do melhor azeite que alguma vez provei! Uma coisa surpreendente, fantástica, e na qual o único mérito que terei tido foi, ao longo destes anos, falar frequentemente com as oliveiras. Eu fazia carinho no tronco delas, dizia que gostava muito de tê-las ali e que esperava que elas, também, estivessem felizes de ali viver. Sabe, eu acho que se deve falar com as árvores! A prova de que fui escutado é que fui recompensado: o meu azeite envergonha qualquer marca de luxo (que orgulho poder dizer isto!).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Ao El Bulli fui uma vez, por curiosidade, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;e ri-me do princípio ao fim. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Aquilo não tem nada a ver com a minha cozinha, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;mas foi cômico assistir a&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;toda aquela encenação."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Valor: De que forma os sabores do Alentejo, ao sul, e do Porto, ao norte, onde você nasceu, se fundiram à mesa?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Souza Tavares: Eu cresci no norte e depois tornei-me habitante do sul, do Algarve e do Alentejo. Acho a cozinha portuguesa fabulosa, diferente de região para região e a melhor, para mim, é a do norte. O norte, porém, não entra neste livro, que é, basicamente, sobre a cozinha do sul, aquela que agora se chama "dieta mediterrânea" e que os especialistas concluíram ser, talvez, a cozinha mais saudável do mundo. Pode ser que numa futura edição alargada eu tenha receitas e histórias sobre a cozinha do norte de Portugal, que é, em grande parte, a cozinha da minha infância.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Você é do tipo que faz viagens gastronômicas? Que procura lugares como o ex- El Bulli, do Adrià?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Não faço viagens gastronômicas, mas quando viajo procuro conhecer a cozinha local e os melhores locais para a experimentar. Por exemplo, no Brasil, se estou em Belém, quero comer o pato no tucupi e o peixe do Amazonas; se estou em São Luís, busco experimentar a patinha de caranguejo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem ler o meu livro descobrirá que eu odeio a nouvelle cuisine, que acho uma coisa pretensiosa, para novos-ricos, e acho que nela as coisas perdem quase sempre o seu sabor original. A verdadeira cozinha para mim é o que eu chamo cozinha natural: produtos frescos e bons, feitos de forma tão simples que preservam seu sabor original.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Você disse, numa entrevista ao jornal português "Expresso", que considera a cozinha japonesa e a italiana pobres. Por que? &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Porque são pouco variadas - se bem que o melhor delas não é exportado. Se você quer comer cozinha italiana à sério, tem de ir à Itália, e o mesmo com a japonesa. Mesmo assim, acho a cozinha italiana muito pouco variada e imaginativa, quando comparada, por exemplo, com a francesa, a basca (talvez a melhor do mundo) e a portuguesa. A melhor cozinha italiana é a do Piemonte (a região das trufas), mas varia pouco. Eles não sabem cozinhar o peixe, por exemplo, não usam ervas, não tiram todo o partido do azeite, as entradas são limitadas e, ao fim de uns dias, você está farto. Não sou muito nacionalista, mas a verdade é que, quanto mais cozinhas conheço, mais viajo e mais coisas estranhas experimento, mais me convenço que a cozinha portuguesa tradicional é das melhores do mundo. Vocês praticamente só conhecem o bacalhau e o pastel de nata, mas todos os brasileiros com quem costumo comer aqui ficam siderados com a nossa cozinha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: É verdade que você odeia Nespresso? De qual café gosta?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Odeio. É só espuma e presunção. Gosto de um café forte, escuro, onde ainda reconheça o cheiro e o sabor dos grãos de café. Gosto do arábica e dos vários "blends" que se obtêm misturando alguns cafés da África com outros da Ásia, como o de Timor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Valor: Que outra opinião provocativa você cultiva no domínio gastronômico?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Souza Tavares:&lt;/strong&gt; Estas não são opiniões provocativas. Não gostar de nouvelle cuisine ou de Nespresso não é uma provocação, é simplesmente não se alinhar com a moda dominante e dizer que as coisas são tão melhores quanto mais naturais forem e mais próximas se mantiverem do seu sabor original. Sabe que em Portugal (que eu acho que tem o melhor peixe e os melhores frutos do mar do mundo), nós temos algumas 30 variedades de frutos do mar e algumas 40 de peixe que você encontra regularmente no mercado e todas elas têm sabor diferente? Eu posso fazer aqui provas cegas de peixe e digo-lhe o nome de todos os que estou a comer. Mas vou ao El Bulli ou a outro templo de estrelas Michelin, e todos os peixes têm o mesmo gosto, em função das combinações absurdas que eles fazem. Ora, em vez de experimentar o sabor de um salmonete - que é um peixe extraordinário -, misturado com geléia de gengibre em emulsão de fígado de avestruz e massa de abóbora, prefiro experimentar o sabor único do salmonete. Isso, para mim, é a verdadeira cozinha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Valor: Há negociações para a edição de "Cozinha d'Amigos" no Brasil? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Souza Tavares: Nem me ocorreu. Você acha que os brasileiros poderiam ter interesse em ler as considerações de um homem na cozinha, às voltas com algumas receitas mediterrâneas da cozinha portuguesa? Quem dera!&lt;/div&gt;-------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;REPORTAGEM Por Maria da Paz Trefaut Para o Valor, de São Paulo &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;FONTE: Valor Econômico online, 26/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-3044999261033234545?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/3044999261033234545/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/espaco-para-homens-amigos-e-ditadores.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3044999261033234545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3044999261033234545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/espaco-para-homens-amigos-e-ditadores.html' title='Espaço para homens, amigos e ditadores'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-l_M0pUkU20g/TyKkNIPv8_I/AAAAAAAAIRU/tvYyn9JUOxc/s72-c/miguel-d4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7601829680709606671</id><published>2012-01-27T07:42:00.000-02:00</published><updated>2012-01-27T07:42:26.166-02:00</updated><title type='text'>O estupro e a Luiza que voltou do Canadá</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Luciano Pires*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-k0hHo5zzqZg/TyJxAyn5PlI/AAAAAAAAIRM/VDMZj7tcsXQ/s1600/artigo-o-estupro.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="307px" src="http://1.bp.blogspot.com/-k0hHo5zzqZg/TyJxAyn5PlI/AAAAAAAAIRM/VDMZj7tcsXQ/s400/artigo-o-estupro.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;P&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;rimeiro o estupro: depois de uma festa no programa Big Brother Brasil um casal foi para o quarto e o rapaz teria praticado sexo com a moça enquanto ela dormia embriagada, configurando um estupro. A polícia foi envolvida, o rapaz e a moça disseram que nada aconteceu, mas mesmo assim a direção do programa expulsou o rapaz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois a Luiza: um comercial de um prédio de apartamentos na Paraíba mostra o que seria uma família de novos ricos falando do imóvel. Lá pelas tantas o pai diz “por isso reuni minha família, menos a Luiza que está no Canadá”. A frase explodiu nas mídias sociais, transformando Luiza numa celebridade. Veja o comercial: &lt;a href="http://youtu.be/BVxcWbh9HWE"&gt;http://youtu.be/BVxcWbh9HWE&lt;/a&gt; .&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Que relevância esses temas tem? Nenhuma. Que impacto eles causarão em sua vida? Nenhum. Que impacto eles causarão na sociedade? Nenhum. Mas então qual a razão de tanto tempo dedicado à discussão dessas irrelevâncias? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"O absurdo é o tempo e a energia &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que dedicamos a essas futilidades e, especialmente, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;a forma como entramos na onda e &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;damos aquilo que os criadores &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;dos fatos querem: audiência."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Existe uma coisa chamada “adaptação sensorial” que pode nos dar uma pista. O cérebro desliga nossos sentidos dos estímulos que não mudam de intensidade ou qualidade, guardando energia para focar nas novidades. Por exemplo, morei próximo do aeroporto de Congonhas e as visitas que eu recebia ficavam horrorizadas com o barulho dos aviões, que eu mal ouvia. Eu havia sofrido uma adaptação sensorial.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os profissionais da comunicação sabem disso e tiram proveito. Essa é a base de um programa como o Big Brother Brasil, que só faz sentido se o grupo que está reunido sair do normal. Daí as festas, as privações, as provas, os corpos à mostra e a bebida, tudo para colocar as pessoas em situações constrangedoras, anormais. Nesse contexto o estupro, assim como uma agressão física, é o cúmulo da anormalidade. Daí a discussão, que neste caso foi turbinada pela antipatia que muita gente tem pela Rede Globo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No caso da Luiza, a maioria dos que usam o Twitter e o Facebook são “Luizas”, jovens que tem em suas vidas a perspectiva de ir (ou que já foram) estudar no exterior. Ou então são pais que já mandaram seus filhos para o exterior ou gostariam de fazê-lo. Mandar o filho estudar no exterior é uma demonstração de ascensão social, dá uma satisfaçãozinha... Mas para a maioria das pessoas, explicitar essa satisfação é esnobar, ostentar, dá vergonha. Exatamente a vergonha alheia que o pai da Luiza provocou com aquela frase. Sentimos vergonha dele porque ele expressou o que nós escondemos. Ele quebrou uma norma, sacou? E acordou nossos sentidos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quebras da normalidade que despertam nossos sentidos, é isso que acontece. Algum problema? A princípio nenhum. O absurdo é o tempo e a energia que dedicamos a essas futilidades e, especialmente, a forma como entramos na onda e damos aquilo que os criadores dos fatos querem: audiência.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Qual o remédio? Simples: saiba do que se trata, mas não dê importância aos detalhes. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se você for capaz.&lt;/div&gt;------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;* Luciano Pires é editor do Café Brasil. Publica seus artigos às sextas-feiras&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;Fonte: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.portalcafebrasil.com.br/"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;http://www.portalcafebrasil.com.br/&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt; 27/01/2012&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7601829680709606671?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7601829680709606671/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/o-estupro-e-luiza-que-voltou-do-canada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7601829680709606671'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7601829680709606671'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/o-estupro-e-luiza-que-voltou-do-canada.html' title='O estupro e a Luiza que voltou do Canadá'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-k0hHo5zzqZg/TyJxAyn5PlI/AAAAAAAAIRM/VDMZj7tcsXQ/s72-c/artigo-o-estupro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-2246394370945970188</id><published>2012-01-27T07:24:00.002-02:00</published><updated>2012-01-27T07:30:05.608-02:00</updated><title type='text'>Um rio cansado</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Eliana Cardoso*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-8pWvI5hqP7U/TyJqCst0geI/AAAAAAAAIRE/G6dm9Q21cfY/s1600/arte27cul-501-caleido-d34.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="132px" src="http://3.bp.blogspot.com/-8pWvI5hqP7U/TyJqCst0geI/AAAAAAAAIRE/G6dm9Q21cfY/s400/arte27cul-501-caleido-d34.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;P&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;orque "até o mais cansado dos rios serpenteia cuidadoso para desaguar no mar", o poeta inglês Algernon Charles Swinburne se alegra quando a velhice o livra da esperança e do medo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aceitar o ciclo da vida com tranquilidade prova a sabedoria de Swinburne e também a de Freud, em entrevista de 1926 (&lt;a href="http://niilismo.net/forum/viewtopic.php?t=216"&gt;http://niilismo.net/forum/viewtopic.php?t=216&lt;/a&gt;). Sofrendo de impedimento na fala, depois da operação de tumor maligno no maxilar, disse Freud: "Tive bastante para comer. Apreciei muitas coisas - a companhia de minha mulher, meus filhos, o pôr do sol. Vi as plantas crescerem na primavera. De vez em quando, apertei uma mão amiga. Algumas vezes, encontrei um ser humano que quase me compreendeu. Que mais posso querer?"&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E continua: "Assim como amor e ódio por uma pessoa habitam em nosso peito ao mesmo tempo, assim também toda a vida conjuga o desejo de manter-se e o desejo da própria destruição. Do mesmo modo como um pequeno elástico esticado tende a assumir a forma original, assim também toda a matéria viva, consciente ou inconscientemente, busca readquirir a completa, a absoluta inércia da existência inorgânica. O impulso de vida e os impulsos de morte habitam lado a lado dentro de nós. [...] No começo, a psicanálise supôs que o amor tinha toda a importância. Agora sabemos que a morte é igualmente importante. Biologicamente, todo ser vivo, não importa quão intensamente a vida queime dentro dele, anseia pelo Nirvana. [...] O desejo pode ser encoberto por digressões. Não obstante, o objetivo derradeiro da vida é a sua própria extinção".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entre numerosos romances sobre a velhice, a doença e a morte, esta coluna escolheu dois para a conversa de hoje: "A Morte de Ivan Ilitch", de Lev Tolstói (tradução de Boris Schnaiderman, Editora 34, 2010) e "a máquina de fazer espanhóis", sem maiúsculas, como quer o autor angolano valter hugo mãe (Cosac Naify, 2011).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Retrato poderoso da deterioração física e do rejuvenescimento espiritual no limiar da existência, a novela de Tolstói se abre com a discussão dos colegas de Ivan Ilitch, surpresos com notícia de que alguém, com a mesma idade e posição deles, morrera. Alguns experimentam prazer com a expectativa de oportunidades criadas pela morte de Ivan. Outros consideram sem entusiasmo a perspectiva de levar as condolências à viúva, que parece interessada apenas em conseguir do governo assistência financeira acima da pensão a que tem direito. A mulher e os amigos tratam a morte de Ivan Ilitch com a mesma distância com que, antes de morrer, ele tratara todos. A cena espelha as relações humanas do morto e se projeta sobre o restante da narrativa, que vai confirmar a suspeita da superficialidade do herói e de seus amigos, aqui insinuada.&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://img.fnac.com.br/Imagens/Produtos/36/40201_0_5.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://img.fnac.com.br/Imagens/Produtos/36/40201_0_5.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Ao comentar a memória curta dos peixes, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;observa que eles não enlouquecem nos aquários &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;devíamos ser assim, a cada três segundos &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;ficávamos impressionados com a &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;mais pequena manifestação de vida, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;porque a mais ridícula coisa na primeira imagem &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;seria uma explosão fulgurante &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;da percepção de estar vivo. compreendes. a cada &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;apenas o assombro dessa constatação"."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: purple;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Ivan Ilitch&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="color: purple;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O narrador descreve grandes blocos da vida do protagonista em poucos parágrafos, misturando os assuntos inconsequentes com os importantes, assim reduzindo todos eles à trivialidade daquela vida comum e, portanto, terrível. Depois de uma queda, Ivan começa a sentir um gosto estranho na boca, implica com a mulher, que se sente abusada, e vai ao médico, que não sabe lhe dar um diagnóstico. Em alguns meses veremos nosso herói tomar ópio para aliviar a dor e a angústia e morrer aos pouquinhos. Seu único consolo será Gerasim, um camponês que o serve como enfermeiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ivan Ilitch começa a entender que sua vida fora um erro, entendimento a que chega apenas depois de observar a vida errada dos outros. Nota que ninguém se importa com sua dor e que, quando não conseguem negá-la, o culpam por ela. Ivan recebe as formas convencionais de polidez que antes usara para manter os outros a distância, quando confrontado por apelos de compaixão. A vida se torna insuportável. A morte, a única realidade. Médicos e familiares ignoram sua condição e ele passa a odiar a hipocrisia e a atitude condescendente da mulher, que o deixa a sofrer para ir à ópera com os filhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Durante a doença lhe ocorre várias vezes que não vivera como deveria ter vivido, apenas para fugir imediatamente desse pensamento. "Talvez eu não tenha vivido como se deve - acudiu-lhe de súbito à mente. Mas como não, se eu fiz tudo como é preciso?" As semanas se passam enquanto Ivan Ilitch examina a própria vida. "Veio-lhe a mente: podia ser verdade aquilo que lhe parecera antes uma impossibilidade total, isto é, que tivesse vivido a sua existência de maneira diversa da devida." Quando a mulher lhe comunica o noivado da filha e se contenta em lhe recomendar que tome seu remédio, pois ele gemia de dor, Ivan, entendendo a hipocrisia que marcara a própria vida, a expulsa do quarto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O herói e a sociedade que o cerca se recusam a aceitar a morte, para a qual Ivan não encontra explicação ("O sofrimento, a morte... Para quê?"). Essa recusa espelha a esterilidade de suas vidas. Ele condena a frieza e a crueldade dos outros, mas só no último momento antes da morte vai perceber o que de fato lhe faltara, porque custa a entender que a vida se torna vazia, fantasmagórica, quando se evita sistematicamente a dor e se escolhem relações formais e distantes, como a dele com sua mulher, expressa na indiferença dele pela dor dela durante a gravidez e na dela pela doença dele. O comportamento oposto é o de Gerasim, cheio de vitalidade e capaz de aceitação instintiva da morte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No limiar da existência Ivan Ilitch se vê forçado a admitir a falta de compaixão que marcara sua vida antes tão bem organizada. Quando se dá conta disso, pode então experimentar pena da mulher e do filho, e sua perspectiva sobre a morte muda. Na hora final encontra a paz:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Procurou o seu habitual medo da morte e não o encontrou. [...] - Acabou! - disse alguém por cima dele. Ouviu essas palavras e repetiu-as em seu espírito. A morte acabou - disse a si mesmo. - Não existe mais."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em "a máquina de fabricar espanhóis", antónio jorge da silva descobre (a duras penas) o companheirismo entre colegas de asilo, onde foi deixado pelos filhos aos 84 anos, depois de perder a mulher. E se surpreende com sua descoberta: "nunca eu teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante outro, nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No asilo, silva reflete, mistura lembranças, saudades e remorsos. No decorrer da narrativa, vai se lembrando de passagens de sua vida, que se confundem com a história de Portugal da ditadura salazarista à revolução de 1974, e faz dura revisão de seu passado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao contrário de Ivan Ilitch, que só encontra a redenção no último minuto da existência, antónio silva entende, durante sua temporada no asilo, como devemos viver a vida e é capaz de apreciá-la pelo menos por um tempo breve. Ao comentar a memória curta dos peixes, observa que eles não enlouquecem nos aquários "porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo. compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro dessa constatação".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas, ao contrário de Ivan Ilitch, antónio da silva, tendo descoberto o valor da vida, não vê a morte como redenção: "a enfermeira entrou, aproximou-se de nós, perguntou, o que sente, senhor silva. e eu repeti, angústia, sinto angústia".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;------------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;* Eliana Cardoso escreve semanalmente neste espaço, alternando resenhas literárias (Ponto e Vírgula) e assuntos variados (Caleidoscópio). &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.elianacardoso.com/"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;www.elianacardoso.com&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;Fonte: Valor Econômico on line, 27/01/2012&amp;nbsp;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-2246394370945970188?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/2246394370945970188/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/um-rio-cansado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2246394370945970188'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2246394370945970188'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/um-rio-cansado.html' title='Um rio cansado'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-8pWvI5hqP7U/TyJqCst0geI/AAAAAAAAIRE/G6dm9Q21cfY/s72-c/arte27cul-501-caleido-d34.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-8330559031541592434</id><published>2012-01-26T22:16:00.000-02:00</published><updated>2012-01-26T22:16:30.751-02:00</updated><title type='text'>As 7 lições para consertar o capitalismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Martin Wolf*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-Dg5v9X9LGSA/TyHsAOzRUDI/AAAAAAAAIQ8/QRvAVVyqn0U/s1600/cap.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="281px" src="http://1.bp.blogspot.com/-Dg5v9X9LGSA/TyHsAOzRUDI/AAAAAAAAIQ8/QRvAVVyqn0U/s400/cap.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;Manifestantes protestam contra o governo romeno em Bucareste com cartaz que afirma&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&amp;nbsp;"abaixo o capitalismo, abaixo o imperialismo, abaixo o militarismo".&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;T&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;rês anos atrás, quando a pior crise financeira e econômica desde a década de 1930 tomou conta da economia mundial, o "Financial Times" publicou uma série sobre "o futuro do capitalismo". Agora, depois de uma recuperação fraca nos países de alta renda, o "FT" publicou uma série sobre "o capitalismo em crise". As coisas parecem ter piorado. Como podemos explicar isso?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em 2009, o mundo encontrava-se em estado de choque. Agora, apesar dos esforços bem-sucedidos de estabilização das economias, as pessoas estão mais perto do desespero. Algo parece estar errado com o sistema. Mas o quê, e o que precisa ser feito?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O capitalismo sempre mudou. Essa é sua genialidade. Os choques de hoje justificam reformas urgentes. Consideremos sete desafios. Alguns relacionados ao próprio capitalismo, outros ao contexto em que opera.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Estabilidade inerente?&lt;/strong&gt;Um dos maiores debates, em economia, é se uma economia capitalista moderna é inerentemente estável. Antes da crise, a visão ortodoxa era de que seria, se tivéssemos uma economia competitiva e um banco central que ancorasse as expectativas de inflação. Os acontecimentos têm refutado essa visão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O falecido Hyman Minsky, em sua obra-prima "Stabilizing an Unstable Economy" (estabilizando uma economia instável), produziu, incomparavelmente, o melhor relato de por que essa teoria está errada. Períodos de estabilidade e prosperidade semeiam as sementes de sua queda. A alavancagem dos retornos, principalmente mediante endividamento, é então vista como um caminho certeiro para enriquecimento. As pessoas envolvidas no sistema financeiro criam - e lucram muito com - tal alavancagem. Quando as pessoas subestimam os perigos, como o fazem nos bons tempos, a alavancagem explode.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A atividade financeira, então, progride da fase que Minsky denominou "hedge" (cautela), quando juros e capital são remunerados pelo fluxo de caixa esperado, para "especulativa", em que os juros são pagos com o fluxo de caixa, mas a dívida tem de ser rolada e, finalmente, "Ponzi" (esquema fraudulento de investimento do tipo pirâmide), em que tanto os juros como o principal tem de ser pago com ganhos de capital. Soa familiar? Certamente deveria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Qual é a resposta? Podemos ver três elementos se colocarmos de lado a noção de que deveríamos retornar ao padrão ouro do século XIX ou suprimir o sistema bancário.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"O capitalismo sempre mudou. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Essa é sua genialidade. Os choques &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de hoje justificam &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;reformas urgentes"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O primeiro é reconhecer que, como os críticos há muito observaram, crises são inerentes ao capitalismo de livre mercado. Isso se deve em parte à maneira como o capitalismo se comporta. Também se deve ao fato de que todos os participantes, inclusive agências reguladora e até mesmo economistas, agem e pensam pró-ciclicamente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Segundo, a chamada política "macroprudencial" - a supervisão sobre o sistema financeiro como um todo - é importante. As agências reguladoras precisam ficar de olho no acúmulo de alavancagem. Também precisam assegurar níveis adequados de capital para absorção de prejuízos em instituições financeiras e seus tomadores finais de empréstimos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Finalmente, o governo e suas agências, inclusive o banco central, têm um grande papel. Eles agiram como forças de estabilização durante a crise. Mas eles também atuaram como forças desestabilizadoras antes da crise: os bancos centrais reagiram com extrema agressividade a recessões incipientes em décadas anteriores e os governos estavam por demais dispostos a incentivar alavancagem excessiva no setor das famílias. Esses erros graves não devem ser repetidos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Dando um jeito nas finanças&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O sistema financeiro é uma parte essencial de qualquer economia de mercado. Mas baseia-se em uma rede complexa e frágil de confiança. A lição da crise é que essas redes tendem a ser alvo de abuso e, então, sofrer colapsos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais uma vez, qual é a resposta? É proteger o mundo financeiro da economia e a economia do mundo financeiro. Isso exige amortecedores maiores. Se essa mudança for feita, as disciplinas normais do mercado poderão operar como deveriam: seria o fim de "grandes demais e interligados demais para falir". No entanto, erros ainda serão cometidos. As pessoas são sempre influenciadas por ondas e modas do momento. Mas se o sistema financeiro for mais robusto, estará em melhor condição para sobreviver a tais erros.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quais são os elementos dos amortecedores de choques? O mais importante é muito mais capital. As instituições financeiras centrais não devem, em longo prazo, ficar alavancadas em proporção superior a dez para um. Um requisito adicional é um regime de resolução que permita às autoridades agir prontamente quando as instituições estiverem à beira de perder sua capacidade de financiar-se. Além disso, como a comissão independente do Reino Unido para o setor bancário (do qual o autor deste artigo era membro) também recomendou, a gestão do sistema de pagamentos e a provisão de crédito às famílias e às pequenas e médias empresas deveria ser mantido separado da atividade bancária de investimentos, para eliminar subsídios implícitos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Finalmente, com demasiada frequência, os consumidores não conseguem compreender o que estão comprando. O princípio "caveat emptor" - o comprador que se acautele - não funciona. As pessoas necessitam proteção contra as práticas predatórias notórias vistas nos EUA no caso dos empréstimos subprime antes de 2008.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Desigualdade e emprego&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como mostrou a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), think-tank com sede em Paris, em relatório recente, países de alta renda têm registrado grandes aumentos na desigualdade ao longo das últimas três décadas. Esse fato é capturado no slogan do movimento de protesto Ocupem Wall Street: "Nós somos os 99%". O aumento da desigualdade é resultado de forças complexas: globalização, mudanças tecnológicas, mercados onde "o vencedor leva tudo", nascimento de setores novos e dinâmicos, mudanças nas normas sociais envolvendo remuneração, ascensão do mundo financeiro e mudanças na tributação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Muitas dessas mudanças eram irresistíveis e são irreversíveis. Mas o nível e o crescimento da desigualdade varia, efetivamente, de país para país, o que sugere que estruturas econômicas e políticas econômicas modificam os resultados. A partir da década de 1980, os EUA e o Reino Unido, por exemplo, viram uma elevação muito mais rápida da renda real no decil superior do que no decil inferior da distribuição de renda domiciliar. Na França, isso foi no rumo oposto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Proteger a política democrática &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;contra a plutocracia é um dos maiores desafios &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;para a saúde das democracias&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Muitos argumentariam que a desigualdade não é importante. Para isso, há duas respostas poderosas. A primeira é que é importante se for politicamente relevante. E é. A segunda é que a desigualdade de consequências tem forte influência sobre a igualdade de oportunidades, sobre a qual muito mais pessoas se importam. É mais difícil para as crianças que crescem em privação terem acesso a um começo razoável, na vida, do que as pessoas criadas em condições mais felizes. O esforço torna-se ainda mais difícil se os pais não conseguem encontrar trabalho que os remunerem adequadamente e os jovens não têm chance disso ao entrar no mercado de trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quais são as respostas? Entre elas está, necessariamente, uma explícita redistribuição fiscal dos vencedores para os perdedores, e particularmente para os filhos dos perdedores; subsídio ou disponibilização direta de postos de trabalho; grandes esforços para melhorar a qualidade da educação e dos cuidados com a infância para todos, inclusive financiamento público de acesso ao ensino superior e uma determinação no sentido de sustentar a demanda de forma mais eficaz em meio a crises graves.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Governança empresarial&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A instituição nuclear do capitalismo contemporâneo é a companhia de responsabilidade limitada. É uma brilhante invenção social. Mas tem falhas inerentes, sendo a mais importante delas a de que as companhias não têm, efetivamente, donos. Isso as torna vulneráveis a ser saqueadas. Incentivos supostamente concedidos para alinhar os interesses dos funcionários de mais alto escalão com os dos acionistas, como opções (de compra) de ações, criam incentivos à manipulação dos lucros das empresas à custa da saúde de longo prazo da companhia. O controle pelos acionistas é frequentemente uma ilusão e a maximização de valor para o acionista é uma armadilha, ou pior.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Qual é a resposta? Infelizmente, não existe remédio simples. As companhias são a melhor instituição que conhecemos para execução de empreendimentos grandes, complexos e dinâmicos. É certamente importante assegurar que tributação e regulamentação não obstruam outras formas de controle proprietário, como sociedades e sociedades mútuas. É vital incentivar a criação de conselhos diretores genuinamente independentes, diversificados e bem-informados. É sensato que pacotes de remuneração sejam transparentes e que sejam eliminados quaisquer incentivos a formas destrutivas de remuneração. Mas, exceto em bancos, onde o interesse social exige intervenção nos incentivos de gestores, os governos não devem intervir diretamente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mudando a tributação&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O ímpeto geral das discussões políticas, muito particularmente nos Estados Unidos, é contra toda e qualquer tributação. No entanto, os impostos têm um papel decisivo, para o bem e para o mal, na determinação de como funciona a economia de mercado. Os impostos determinam os recursos disponíveis para a disponibilização de bens e serviços públicos essenciais. Finalmente, os impostos podem fazer uma grande diferença no que diz respeito à desigualdade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quais são as respostas? Uma das tarefas mais importantes é eliminar os incentivos à alavancagem incorporados nos impostos sobre pessoas físicas e empresas. No que diz respeito à tributação sobre empresas, tratar ações e dívida em iguais condições pode reduzir significativamente a fragilidade. Outra ideia sensata é transferir a carga tributária da renda para o consumo e a riqueza. Ainda outro objetivo é assegurar que as pessoas mais ricas paguem impostos. Atualmente, uma série de brechas legais protegem os ricos, inclusive a possibilidade de converter renda em ganhos de capital. Parte disso exige cooperação em nível mundial, algo terrivelmente difícil de obter.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Proteção à política&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entre as maiores preocupações deve estar a relação entre os ricos e a política democrática. Política e mercados têm, cada um, suas esferas adequadas. O mercado se baseia nos papéis das pessoas como produtores e consumidores. A política se baseia em seus papéis como cidadãos. Na ausência de proteção para o mundo político, o resultado é plutocracia. Plutocratas gostam de sistemas políticos e econômicos fechados. Mas se têm êxito, eles minam o acesso aberto do qual dependem a política democrática e uma economia de mercado competitiva. Proteger a política democrática contra a plutocracia é um dos maiores desafios para a saúde das democracias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que fazer? Para proteger a política das investidas do mercado é necessária a regulamentação do uso do dinheiro nas eleições e da disponibilização de recursos públicos para as pessoas nelas envolvidas. É inescapável ao menos um financiamento público parcial de partidos e eleições.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Globalização de bens públicos&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por fim, porém não menos importante, o capitalismo contemporâneo é globalizado. Isso cria uma série de desafios e restrições.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um problema é como regulamentar as empresas que operam em vasta escala mundial. Isso revelou-se particularmente difícil no mundo financeiro. Há duas opções: alinhar apoio em momentos de dificuldade com regulamentação em nível nacional e assim acabar com o sistema financeiro global integrado ou alinhar um apoio a regulamentação em níveis mais elevados e avançar para uma política europeia ou mundial mais integrada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em plano mais amplo, o descompasso entre o nível em que opera a política e os níveis em que o mundo dos negócios e a economia funcionam é uma preocupação. Entre as questões que isso levanta está como fornecer uma série de bens públicos mundiais mediante acordo entre uma série de Estados bastante distintos. Esses bens compreendem mercados abertos, estabilidade monetária e financeira, segurança e, acima de tudo, proteção do ambiente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quais são as respostas? Em mais longo prazo, a resposta estará provavelmente em mais governança em nível mundial. Será isso viável? Não no futuro próximo, em muitas áreas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma crise, já se disse, "é uma coisa terrível de se desperdiçar". O capitalismo sempre mudou. O sistema precisa mudar agora para que possa sobreviver e prosperar. Precisamos encontrar as reformas práticas específicas dentro do capitalismo e rever o referencial em que atua.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas capitalismo precisa continuar sendo capitalismo. É extremamente imperfeito. Mas também somos imperfeitos. O capitalismo continua sendo um sistema econômico excepcionalmente flexível, ágil e inovador. Pode estar "em crise" agora. Mas continua sendo uma das invenções mais brilhantes da humanidade. É a base da prosperidade que tantos hoje desfrutam e a que muitos mais aspiram. Está transformando a vida de bilhões de pessoas. Esforcemo-nos para torná-lo melhor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;(Tradução de Sergio Blum)&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;---------------------------------------------------------------------&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;* E&lt;/strong&gt;ditor do jornal &lt;strong&gt;Financial Times&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;Fonte: Valor Econômico on line, 26/01/2012&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-8330559031541592434?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/8330559031541592434/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/as-7-licoes-para-consertar-o.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8330559031541592434'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8330559031541592434'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/as-7-licoes-para-consertar-o.html' title='As 7 lições para consertar o capitalismo'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-Dg5v9X9LGSA/TyHsAOzRUDI/AAAAAAAAIQ8/QRvAVVyqn0U/s72-c/cap.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7838023471726110853</id><published>2012-01-26T21:41:00.000-02:00</published><updated>2012-01-26T21:41:17.433-02:00</updated><title type='text'>Frase no final da noite</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.vnews.com.br/imagem/blog8/20100503110918.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="263px" src="http://www.vnews.com.br/imagem/blog8/20100503110918.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background: white; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-bottom-alt: auto; mso-margin-top-alt: auto; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Georgia','serif'; font-size: 8pt; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;“Aventurar-se causa ansiedade,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background: white; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-bottom-alt: auto; mso-margin-top-alt: auto; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Georgia','serif'; font-size: 8pt; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;mas deixar de arriscar-se&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background: white; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-bottom-alt: auto; mso-margin-top-alt: auto; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Georgia','serif'; font-size: 8pt; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;é perder a si mesmo. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background: white; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-bottom-alt: auto; mso-margin-top-alt: auto; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Georgia','serif'; font-size: 8pt; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Aventurar-se no sentido mais amplo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background: white; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-bottom-alt: auto; mso-margin-top-alt: auto; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Georgia','serif'; font-size: 8pt; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;é precisamente tomar consciência &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="background: white; line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt; mso-margin-bottom-alt: auto; mso-margin-top-alt: auto; text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #333333; font-family: 'Georgia','serif'; font-size: 8pt; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: PT-BR;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de si próprio”.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;( Frase do filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855))&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7838023471726110853?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7838023471726110853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/frase-no-final-da-noite.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7838023471726110853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7838023471726110853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/frase-no-final-da-noite.html' title='Frase no final da noite'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-6080579228252316113</id><published>2012-01-26T14:36:00.000-02:00</published><updated>2012-01-26T14:36:28.197-02:00</updated><title type='text'>A política brasileira vai ao entretenimento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Eugênio Bucci*&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://m.i.uol.com.br/celebridades/2011/12/07/atriz-lilia-cabral-recebe-premio-de-melhor-do-ano-da-revista-istoe-das-maos-da-presidente-dilma-rousseff-61211-1323258260457_615x470.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="305px" src="http://m.i.uol.com.br/celebridades/2011/12/07/atriz-lilia-cabral-recebe-premio-de-melhor-do-ano-da-revista-istoe-das-maos-da-presidente-dilma-rousseff-61211-1323258260457_615x470.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;No&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; início, ainda no século 18, a imprensa criticava o poder. Aprendeu a influenciar e derrubar governos. Ao final do século 19 os magnatas da imprensa criaram pontes que os levaram pessoalmente ao poder. O americano William Randolph Hearst (1863-1951) foi um dos precursores. Dono de grandes diários espalhados pelos Estados Unidos, elegeu-se deputado. Na primeira década do século 20 tentou a prefeitura de Nova York e, depois, o governo do Estado de Nova York. Perdeu as duas disputas, mas abriu o caminho. Depois dele vieram outros, como o bilionário Michael Bloomberg, dono do canal de TV com o mesmo nome, que é o atual prefeito de Nova York.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao longo do século 20, como sabemos, os jornais cresceram e deixaram de ser apenas jornais. Misturaram-se ao rádio, ao cinema, à televisão, aos espetáculos em geral, e tudo isso se converteu na portentosa indústria do entretenimento, dentro da qual a imprensa é um reles departamento. Hoje essa indústria entra e sai dos gabinetes do Estado na hora que bem entende, do jeito que bem quer, a tal ponto que as fronteiras entre os dois mundos às vezes se esfumaçam. Veja-se a epopeia bufa de Silvio Berlusconi, o imperador da televisão comercial italiana, que governou o seu país como se os shows de TV e as salas de despacho fossem um palco só.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A imbricação entre política e entretenimento foi tão longe que até mesmo atores medíocres conseguiram ser levados a sério pelas urnas. Ronald Reagan foi um paradigma histórico na presidência dos Estados Unidos, enquanto Arnold Schwarzenegger se realizou no papel de governador da Califórnia. Palhaços pouco letrados viraram campeões de voto, como Tiririca. Foi nesse embalo globalizado que a nossa República, também ela, que um dia teria sido a "República dos Bacharéis", se foi tornando calmamente a "República dos Comunicadores". O político dos nossos dias aprendeu a ser star. O texto que ele recita é secundário, o conteúdo não pesa tanto: o texto, na política, está subordinado ao regime do estrelato.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Resumindo: se antes os donos dos jornais queriam uma ponte que os levasse aos palácios do poder, hoje os políticos é que querem atrair os holofotes do entretenimento, querem ser amados como animadores de auditório. Fazer política, na nossa era, é fazer parte da festa ininterrupta da famigerada "grande mídia".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não que a coisa toda tenha piorado. Até que melhorou. Aquela "República dos Bacharéis", convenhamos, era tudo menos republicana. Hoje, pelo menos, podemos falar numa democracia menos elitista, menos encastelada, uma democracia um pouco mais "de massa", ainda que popularesca.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas há problemas, e como. Na longa remodelação da linguagem política, a ideologia deu lugar à eficiência publicitária e o ideólogo foi aposentado pelo "marqueteiro". Agora, a comunicação política não copia apenas os trejeitos típicos do entretenimento, ela copia também o seu vocabulário, deixa-se pautar pela indústria da diversão e olha para ela, a diversão industrializada, como quem olha para o próprio mundo real.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Três episódios recentes ilustram esse quadro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O primeiro aconteceu em dezembro, quando a atriz Lília Cabral recebeu da revista IstoÉ o prêmio de Personalidade do Ano de Televisão. A presidente Dilma Rousseff, que também foi premiada na mesma noite, quis entregar pessoalmente o troféu à atriz. "É uma emoção muito grande receber o prêmio das mãos da presidente que é quem conhece melhor do que ninguém as Griseldas desse país", comoveu-se a atriz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"A política, que precisa tocar &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;a emoção do povo, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;teve, então, de virar &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;entretenimento."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em tempo: Griselda é a personagem que Lília Cabral interpreta na novela das 9 da Globo, Fina Estampa, escrita por Aguinaldo Silva. É a heroína da classe C por excelência, ou, melhor, a heroína de uma classe C idealizada: tem um forte senso moral, põe a família acima de tudo, batalha para crescer na vida e, evidentemente, ganha na loteria. Mais que a pessoa física da atriz, quem ganhou o prêmio foi a protagonista da novela. Foi também à personagem - e ao que ela simboliza - que Dilma Rousseff rendeu homenagens. Mais uma vez, a política reverenciou a ficção em troca de popularidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O segundo episódio veio da mesma novela Fina Estampa. Na trama, o ator Marcelo Serrado representa um mordomo afeminado, que por vezes se exalta, num tom soprano aspirado, com tiques e contratiques caricatos. O nome dele é Crô. Lá pelas tantas, o ator, não o personagem, resolveu dar qualquer declaração a respeito de beijo gay na televisão. Parece que ele falou contra o beijo gay, algo assim. Pois foi o que bastou para que o assunto explodisse na internet e mesmo nos artigos de opinião em grandes jornais, em debates acalorados. A ficção, de novo, liderou a agenda do espaço público.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O terceiro evento foi a entrada em cena da ministra Iriny Lopes (Políticas para as Mulheres). Na semana passada ela enviou um ofício ao Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro pedindo providências diante de uma suspeita de abuso sexual dentro do programa BBB, também da Globo. Pela primeira vez o poder público participou ativamente do maior reality show em exibição no Brasil. O circo pautou o ministério.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há quem diga que é por oportunismo que os políticos reagem solícitos aos estímulos do espetáculo. Não é. Mais que oportunismo, cristalizou-se um deslocamento nos fundamentos mesmos do discurso político. A política não tem outra saída. Hoje, no que chamamos de Ocidente, os domínios da emoção popular não pertencem mais à religião, assim como já não pertencem ao fulgor das mobilizações de massa: elas foram monopolizadas pelas formas de representação típicas da indústria do entretenimento. A política, que precisa tocar a emoção do povo, teve, então, de virar entretenimento. Os sintomas aí estão. Todos eles. Os efeitos mais perversos é que ainda estão por vir.&lt;/div&gt;--------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Jornalista, é professor da ECA-USP e da ESPM &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte:&amp;nbsp; O Estado de S.Paulo on line, 26/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-6080579228252316113?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/6080579228252316113/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/politica-brasileira-vai-ao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6080579228252316113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6080579228252316113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/politica-brasileira-vai-ao.html' title='A política brasileira vai ao entretenimento'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-5607705283619863675</id><published>2012-01-26T14:22:00.000-02:00</published><updated>2012-01-26T14:22:55.899-02:00</updated><title type='text'>Saudade do Ted Boy Marino</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Verissimo*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://farm2.staticflickr.com/1065/5142652388_8daa7c27b4_z.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://farm2.staticflickr.com/1065/5142652388_8daa7c27b4_z.jpg" width="191px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;lguma coisa aconteceu no coração do Brasil quando acabaram com as lutas de "catch". Elas eram um sucesso na TV e seus astros viajavam em caravanas pelo País, apresentando-se em ginásios e circos. As lutas não eram lutas, eram teatro. Não eram exatamente combinadas, mas seguiam um roteiro estabelecido e havia um acordo tácito de que ninguém sairia do ringue machucado, mesmo que saísse arremessado. O roteiro básico não variava: era os bons contra os maus, e os bons sempre ganhavam. Ou só perdiam quando o adversário traiçoeiro recorria a um golpe especialmente baixo, sob uivos de raiva da plateia. E a reação da plateia fazia parte do teatro. Havia uma suspensão voluntária de descrença, e todos torciam pelo Bem contra o Mal - ou pelo bonito contra o feio, o esbelto contra a barrigudo, o correto contra o falso - com um fervor que não excluía a consciência de que era tudo encenação. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era fácil distinguir os bons e os maus. Os bons eram atletas como o Ted Boy Marino, caráter tão irretocável quanto os seus cabelos loiros, que lutava limpo. Os maus tinham nomes como Verdugo e Rasputin, e comportamento correspondente ao nome. Lembro de um Homem Montanha, que mais de uma vez derrubou o juiz junto com o adversário. E não havia um Tigre Paraguaio? Os bons geralmente começavam apanhando e, quando parecia que estavam liquidados e que o Mal triunfaria, vinha a eletrizante reação, durante a qual o inimigo pagava por todas as suas maldades. Humilhação e vingança, nada na história do teatro é tão antigo e tão eficaz. Nove entre dez novelas de televisão têm o mesmo enredo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sei se ainda fazem espetáculos de "catch" pelo interior do País. Hoje na TV o que se vê é o "ultimate fighting", ou "mixed marital arts", dois lutadores simbolizando nada trocando socos e pontapés sem simulação, quando não se engalfinham no chão como um bicho de duas costas e oito patas em convulsão. Nessas lutas não vale, exatamente, tudo - parece que esgoelar o outro e xingar a mãe não pode. Mas é o "catch" despido da fantasia, com sangue de verdade. Não há mais mocinho e vilão, apenas duas máquinas de brigar, brigando. Nem Ted Boy Marino nem Homem Montanha, apenas a violência em estado puro. Sei não, acho que empobrecemos. &lt;/div&gt;----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Luis Fernando Veríssimo é escritor. Jornalista. Cronista da ZH, Estadão.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Estadão on line, 26/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-5607705283619863675?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/5607705283619863675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/saudade-do-ted-boy-marino.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/5607705283619863675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/5607705283619863675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/saudade-do-ted-boy-marino.html' title='Saudade do Ted Boy Marino'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-3348381805142679479</id><published>2012-01-26T14:11:00.000-02:00</published><updated>2012-01-26T14:11:58.651-02:00</updated><title type='text'>Battisti em Porto Alegre</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Juremir Machado da Silva*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-GyINeRpWRK0/TyF6tmbPRKI/AAAAAAAAIQ0/vQ8iRd2JDOE/s1600/x.bmp" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="221px" src="http://1.bp.blogspot.com/-GyINeRpWRK0/TyF6tmbPRKI/AAAAAAAAIQ0/vQ8iRd2JDOE/s400/x.bmp" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Crédito: ARTE PEDRO SCALETSKY sobre foto de Vinicius Roratto &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; presidente Lula acertou ao negar a extradição de Cesare Battisti para a Itália. O então ministro da Justiça Tarso Genro acertou ainda mais ao ter coragem de dar guarida ao italiano no Brasil. Estou chegando aos 50 anos. Aprendi a reconhecer qualidades nos homens quando tomam decisões em situações delicadas. No primeiro processo na Itália, Battisti não foi responsabilizado por nenhuma das quatro mortes que lhe cairiam nas costas depois, o que só aconteceu quando seu ex-companheiro de militância, Pietro Mutti, para beneficiar-se da delação premiada, transferiu para ele, já refugiado no exterior, a culpa pelas execuções. A França de François Miterrand negou duas vezes a extradição de Battisti. Depois, com Jacques Chirac no poder, infringiu a Constituição e julgou pela segunda vez uma mesma pessoa pelo mesmo fato.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Battisti foi julgado à revelia. A procuração apresentada pelo seu suposto advogado de defesa teve a sua assinatura falsificada. A Itália teve leis de exceção e obteve confissões sob tortura. A leitura do processo de Battisti mostra que as contradições são gritantes. No mínimo, pode-se dizer que não há provas de sua participação direta ou indireta em todos os crimes de que é acusado, dois deles tendo acontecido com menos de duas horas de diferença em cidades a 500 quilômetros uma da outra. A convicção de que Battisti é culpado é puramente ideológica. A Constituição brasileira proíbe a extradição de quem cometeu crimes políticos. Vários juristas de renome apoiaram a decisão de Lula. A Itália de Berlusconi resolveu exigir a extradição de Battisti. O que há em comum entre a Itália de Berlusconi e a França de Jacques Chirac? O direitismo. Dessa história, tira-se uma lição: quando um país é presidido pela direita, a justiça também se "direitiza". Nessa disputa, só há ideologia em jogo. Evidente que o mesmo acontece com a esquerda no poder.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Não me canso de tirar o chapéu &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;para a coragem de Tarso Genro. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Qualquer outro teria feito média &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;com a mídia conservadora. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Tarso botou o seu conhecimento e&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;a sua consciência acima de tudo."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se voltasse à Itália, Battisti não teria direito a novo julgamento. Ele está em Porto Alegre, como homem livre que é, para lançar seu livro "Ao Pé do Muro". Pode ir onde bem entender, inclusive ao Palácio Piratini. Tomei conhecimento profundo da história de Battisti pelo intelectual francês Bernard-Henri Lévy, que de comunista ou simpatizante de terrorista não tem nada. Convidei, em nome do Fronteiras do Pensamento, BHL a vir a Porto Alegre. Aqui, ele manifestou desejo de visitar Battisti na prisão, em Brasília. Por intermédio de amigos, contribuí modestamente para que ele fosse recebido pelo ministro Tarso Genro. A partir daí, estudei o caso. Não me canso de tirar o chapéu para a coragem de Tarso Genro. Qualquer outro teria feito média com a mídia conservadora. Tarso botou o seu conhecimento e a sua consciência acima de tudo. A Itália conservadora de Berlusconi sapateou. Perdeu. Não levou. Ficou sem o seu Carnaval midiático.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em Porto Alegre, depois de uma aparição tumultuada, Battisti ficou acuado. Ele tem todo o direito de andar por aí, de lançar o seu livro, de tomar sorvete na praça ou de fazer embaixadinhas na esquina. Ou chupar cana.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;----------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;* Sociólogo. Escritor. Tradutor. Colunista do Correio do Povo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="mailto:juremir@correiodopovo.com.br"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;juremir@correiodopovo.com.br&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;Fonte: Correio do Povo on line, 26/01/2012&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-3348381805142679479?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/3348381805142679479/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/battisti-em-porto-alegre.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3348381805142679479'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3348381805142679479'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/battisti-em-porto-alegre.html' title='Battisti em Porto Alegre'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-GyINeRpWRK0/TyF6tmbPRKI/AAAAAAAAIQ0/vQ8iRd2JDOE/s72-c/x.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-5614945059522418306</id><published>2012-01-25T22:15:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T22:15:38.693-02:00</updated><title type='text'>Uma introdução ao problemático conceito da caridade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Fábio Py Murta de Almeida*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_vZ68KVtlEpc/TBDMh2rMg9I/AAAAAAAAHjA/EyDFvU-U4e0/s1600/Corrigir+com+caridade+os+que+erram.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://2.bp.blogspot.com/_vZ68KVtlEpc/TBDMh2rMg9I/AAAAAAAAHjA/EyDFvU-U4e0/s400/Corrigir+com+caridade+os+que+erram.jpg" width="312px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;lguém saiu do ônibus vindo, um tanto desengonçado, em minha direção. Sentou-se ao meu lado. Sem problemas, pois em pouco tempo chegaria o ônibus que eu esperava para poder ir à Zona Sul do Rio. Agora, o curioso é que, além de sentar ao lado, o sujeito se aproximou quase que se encostando à minha perna. Comecei a ficar cismado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chegou perto a ponto de eu poder escutá-lo, sem que precisasse falar alto ou de gritar. É compreensível, pois a quantidade de carros e obras atrapalha qualquer conversa. Olhando o ilustre desconhecido de rabo de olho, um pouco mais detidamente (sem que ele percebesse), observei que trazia uma bengala na mão. Ora, devia ter alguma dificuldade na visão porque, embora usasse óculos fundos, seus olhos não fixavam num ponto. Concluí que podia enxergar, uma vez que, do contrário, não conseguiria atravessar a rua, saindo de um ônibus, e vir sozinho ao meu encalço. Disfarçando e olhando um pouco mais suas características, percebi que era magro a ponto de os ossos aparecerem; suas veias pareciam querer saltar da pele. Talvez isso fosse até sorte, pois seria mínima a sua preocupação com a moda.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Percebi que era magro a ponto de &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;os ossos aparecerem; suas veias&amp;nbsp;pareciam &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;querer saltar da pele. Talvez isso f&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;osse até sorte, pois seria mínima a&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;sua preocupação com a moda"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na curiosa cena, ele, um meu total desconhecido, cruza as pernas e levanta a voz para que eu o escutasse: “chama o 49”. Ofereço um “como?”, apenas para ver se entendi bem. Sem dificuldade e/ou constrangimento, rompe o silêncio, repetindo: “chama o 49”. Fala sem pedir. Indica o que quer, vai direto ao ponto. Diz o que precisa. Não faz propaganda: tranquilo e resolvido. Antes que alguém crie algum sentimento de contrição, por ter dificuldade de visão, digo logo: não era abatido. Era magro, mas nada de fraco. Sabia o que queria. Mais até do que seu ouvinte-observador. Mesmo nos poucos momentos juntos, posso dizer que ele não era um “coitado”. Tanto é que ele me impõe uma função. Também, ao contrário do que o senso comum cristão-ocidental-capitalista incentiva, não buscava a “caridade”. Como me disse nas poucas palavras, queria (apenas) ir ao restaurante popular. Para isso, o 49 deixaria em frente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Permitam-me ratificar: de fato, não pediu nada. Não queria vintém. Queria apenas a indicação de/para parar o ônibus. Deve ser por isso que pouco disse. Não deu muita bola para minhas palavras lançadas ao ar. Limitou-se a indicar que ia pegar o ônibus para não andar no Sol, indo comer no “popular” – no restaurante popular. Assim, tive de mudar um pouco de direção. Tinha de me preocupar com o bendito 49, para depois pensar em ir ao meu compromisso, para o qual eu já estava atrasado. Tomei para mim a tarefa, contando os ônibus, para ver se o transporte desejado passava. Daí, em alguns minutos (que mais pareciam horas), depois de vários ônibus, vem o desejado 49. Levanto e faço o sinal para o motorista que percebe o alguém na minha companhia, parando o ônibus de que precisávamos (ele precisava, não eu). Assim, sem pedir nada, sem apoiar, sem pedir a mão, seguiu para o ônibus. O máximo que me disse foi um “Feliz Natal”, ao que eu prontamente respondi.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Levando em consideração o trato com este “quase-amigo”, devo confirmar minha inconformidade com as narrativas do gênero. Isso porque, se fosse um discurso ligado ao senso comum dos proponentes cristãos, diria que a mensagem central do relato é de “ajuda ao próximo”. Fatalmente, sobre o prisma assistencialista-cristão, se diria que devemos ser “caridosos” com os outros, fazendo o bem para os “carentes” e “necessitados”. Neste tal senso, é um imperativo ético uma ação/ajuda como a minha. Afinal, “fazer o bem” é o dever dos homens e mulheres. Contudo, confesso que esse foco não me seduz. Esse não é o tom. Isso porque essa falácia esconde detalhes dos jogos sociais implicados por trás da nomenclatura-símbolo: “caridade”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sobre e junto a ela argumenta-se que é um valor imprescindível ao cristão. É que o caso do quase-amigo (e também, de todos os casos) bem pouco de substancial promove em termos de melhoras para o outro. Isso porque a “caridade” é um conceito que possibilita ao outro a migalha, um nada da parte daquele que tem. A equação é a seguinte: os que tanto têm normalmente dão algo como “favor”, mantendo a sonegação de todos os direitos que os menos favorecidos têm. Concordando com isso, Michel Lowy1 é um dos que acreditam que o conceito de “caridade”, cunhado pelo complexo de tradições religiosas de traços cristãos, é um conceito importante para a manutenção do modus de vida liberal-capitalista. Por trás dele há a sonegação dos direitos mais básicos da humanidade, em prol de poucos que muito têm.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Anexada à ideia-símbolo de “caridade”, se ambienta a percepção do valor pró-ativo da “ajuda”. Principalmente nas religiões de traços cristãos, é imperativo ser um “ajudador”. Interessante é isso, pois, pensando em direitos humanos, tal título é difícil de ostentar, visto que já nasce caduco. Só seria válido se permitisse ao sujeito (e todos os quase-amigos imagináveis que passam por nós todos os dias) os mesmos direitos que os meus. Que, além de comer também nos restaurantes não-populares, todos pudessem ir e vir, sem precisar anunciar, ainda que nos sussurros, sua gritante necessidade. Assim, não basta apenas buscar “ajudadores”, que sejam cooperativos na ínfima ação de colocar alguém no ônibus, mas sim permitir acessos iguais. Isso sim seria digno de ser chamado de “ajuda”, pois transformaria a situação de meu quase-amigo e de todos os demais. Exigência demais?!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Hoje, após tal experiência, vejo quão &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;sério é a qualificação da “caridade”. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Ela que é carregada como slogan &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;por diversas tradições cristãs &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;responsáveis em aprofundar e &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;ampliar dia-a-dia mais e &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;mais a desigualdade social" &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Penso que não, pois, embora admita que sem tal contato pequeno e rápido jamais eu poderia ultrapassar o medíocre mundinho de mim mesmo, olhando mais detidamente para as pessoas e suas questões, vejo que, como eu, elas também merecem a dignidade de uma vida bem melhor. Só pude olhar esse detalhe por que um “quase-amigo” cruzou minha história pela manhã, deixando-me desconcertado. Assim, agradeço a ele por ajudar na aproximação de detalhes pelos quais eu nunca havia adentrado. Hoje, após tal experiência, vejo quão sério é a qualificação da “caridade”. Ela que é carregada como slogan por diversas tradições cristãs responsáveis em aprofundar e ampliar dia a dia mais e mais a desigualdade social – marca do sistema capitalista no qual estamos chafurdados. Ao invés de permitirem mais acessos, como correntemente afirmam, suavemente ajudam a manter um status quo já mundializado, onde há um verdadeiro acinzentamento na percepção de que milhões de &lt;a href="mailto:sujeit@s"&gt;sujeit@s&lt;/a&gt; , &lt;a href="mailto:pesso@s"&gt;pesso@s&lt;/a&gt; , &lt;a href="mailto:coleg@s"&gt;coleg@s&lt;/a&gt; , &lt;a href="mailto:quase-amig@s"&gt;quase-amig@s&lt;/a&gt; &amp;nbsp;e &lt;a href="mailto:amig@s"&gt;amig@s&lt;/a&gt; &amp;nbsp;têm diariamente suas vidas sonegadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enfim, nessa linha de raciocínio, a “caridade” e seus conceitos afluentes não são um conjunto de idéias restauradoras e dignas da humanidade, mas apenas fazem parte das formas mais belas e dóceis de não se re-ver um sistema onde apenas uns poucos amigos – uma certa elite – se (a)firmam. Atentando para uma lógica de adormecimento para amplos direitos recusados, justamente por conta de um sistema capitalista-cristão, permito-me por hoje pensar em tom de denúncia, já que a estratégia das elites brasileiras e mundiais, ao usarem o conceito de “caridade”, permitiu isso, uma vez que o utilizaram e utilizam apenas para docilizar os corpos e amansar as vidas, com pequenas acomodações, numa farsa forjada para a justificação de um admirável modo de vida “caridoso” do capitalismo globalizado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;1 - Michel Lowy, “Ética católica e o espírito do capitalismo: o capítulo da sociologia da religião de Max Weber que não foi escrito”, Cultura Vozes, Petrópolis: Vozes, v.92, nº01, 1998, p.86-100.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;---------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Fábio Py Murta de Almeida é professor de história da Faculdade Batista do Rio de Janeiro (Fabat) e articulador do blog Hyperlink&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Site da Revista Caros Amigos, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-5614945059522418306?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/5614945059522418306/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/uma-introducao-ao-problematico-conceito.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/5614945059522418306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/5614945059522418306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/uma-introducao-ao-problematico-conceito.html' title='Uma introdução ao problemático conceito da caridade'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_vZ68KVtlEpc/TBDMh2rMg9I/AAAAAAAAHjA/EyDFvU-U4e0/s72-c/Corrigir+com+caridade+os+que+erram.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-388479081729743999</id><published>2012-01-25T22:03:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T22:03:32.786-02:00</updated><title type='text'>Estresse com limite faz bem à saúde e à produtividade</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-jCfIuZpWIiU/TyCXzJSNxLI/AAAAAAAAIQs/jtyque1hU2o/s1600/arte25carr-201-stress-d8.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://2.bp.blogspot.com/-jCfIuZpWIiU/TyCXzJSNxLI/AAAAAAAAIQs/jtyque1hU2o/s400/arte25carr-201-stress-d8.jpg" width="383px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;O organismo tende a responder de forma &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;diferente ao suportar o estresse nocivo, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;ou ameaçador.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; estresse, por incrível que pareça, pode ser algo positivo, que estimula o desempenho máximo e o bem-estar de uma pessoa. Uma dose excessiva de estresse, porém, força o coração, prejudica a memória, a clareza mental e aumenta o risco de doenças crônicas. Mas como receber os benefícios e evitar os efeitos nocivos?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao aprender a identificar e administrar as reações individuais ao estresse, a pessoa pode desenvolver perspectivas mais saudáveis e melhorar a performance em testes cognitivos, no trabalho e na atividade física, segundo pesquisadores e psicólogos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O corpo tem uma reação padronizada ao enfrentar uma tarefa em que o desempenho é realmente importante para algum objetivo ou para o bem-estar: o sistema nervoso simpático, o hipotálamo, a pituitária e as glândulas suprarrenais injetam na circulação sanguínea os hormônios do estresse - adrenalina e cortisol. Os batimentos cardíacos e a respiração se aceleram e os músculos se contraem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que acontece a seguir é o que diferencia o estresse saudável do prejudicial. Quem passa por um estresse benéfico, ou "adaptativo", sente-se energizado. Os vasos sanguíneos se dilatam, aumentando o fluxo de sangue para ajudar o cérebro, os músculos e os membros a enfrentar um desafio - algo semelhante aos efeitos de um exercício aeróbico, segundo pesquisas de Wendy Mendes, professora associada do departamento de psiquiatria da Universidade da Califórnia, campus de San Francisco, e de outros pesquisadores.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O organismo tende a responder de forma diferente ao suportar o estresse nocivo, ou ameaçador. Os vasos sanguíneos se contraem, e "você pode se sentir um pouco tonto, conforme a pressão arterial sobe", diz Christopher Edwards, diretor do programa de gerenciamento comportamental de dor crônica no Centro Médico da Universidade Duke. Os sintomas podem ser como os de um ataque de raiva. Você pode falar mais alto e sentir lapsos no raciocínio ou na lógica, diz ele. As mãos e os pés podem ficar frios, à medida que o sangue flui para o centro do corpo. As pesquisas mostram que o coração bate de forma irregular, com uma série de picos, como um sismógrafo durante um terremoto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Outro fator que diferencia o estresse: "Você consegue desligá-lo? Ou você é prisioneiro da sua mente?", pergunta Martin Rossman, que escreve sobre cura e estresse e é instrutor clínico da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Francisco. Os que sofrem de estresse prejudicial perdem a capacidade de reativar o sistema nervoso parassimpático, que dirige as funções naturais do corpo no cotidiano, como a digestão e o sono. Embora haja variações individuais quanto ao tempo em que a pessoa consegue tolerar o estresse crônico, pesquisas mostram que ele aumenta drasticamente o risco de insônia, doenças crônicas e morte precoce.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mestre de obras Carl Weissensee costumava ser, conforme diz, "viciado em estresse". Para administrar incontáveis detalhes e os diversos riscos em cada uma das casas de milhões de dólares que ele constrói, passou anos "na corrida 20 horas por dia, enxergando mentalmente as mesmas situações várias vezes, sem conseguir deixar aquilo de lado", diz Weissensee, de 58 anos, de Mill Valley, na Califórnia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma importante crise mostrou como estava alto seu nível de estresse prejudicial. Sua agitação permanente atrapalhava sua vida. "Eu dormia de 4 a 6 horas por noite, e mesmo assim não era um sono profundo". Sua esposa reclamava e sua filha pintou uma pedrinha para ele com as palavras: "Você trabalha demais".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um ataque cardíaco, seguido por problemas com arritmia, o obrigaram a diferenciar entre o estresse bom e o mau. "Creio que não é possível fazer um trabalho de alta qualidade sem uma certa dose de estresse. É preciso entender as coisas", afirma.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele reduziu o estresse para um nível saudável utilizando técnicas de relaxamento, incluindo respiração profunda e imagens guiadas - deitado, de olhos fechados, ele imagina a realização de tarefas consideradas estressantes de maneira bem-sucedida. Depois de se consultar com Rossman, ler seu livro e fazer os exercícios de relaxamento de seus CDs diariamente, Weissensee aprendeu a reconhecer suas preocupações, em vez de reciclá-las em sua cabeça. Pôs em prática técnicas para "superá-las", dizendo a si mesmo que "no final, tudo se resolve", afirma. Desse modo, conseguiu estabilizar sua condição cardíaca sem grandes doses de medicação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Ao praticar o tempo todo, parece que estou mudando a rota dos meus pensamentos de 'estou arruinado' para 'vai dar tudo certo'", analisa. "Meu objetivo é me preocupar apenas o suficiente para fazer meu trabalho bem."&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esse tipo de atitude positiva tende a produzir o estresse bom, baseado na pesquisa da doutora Mendes e outros. A psicóloga de Toronto Kate Hays diz que orienta seus pacientes a imaginar uma escala de estresse "que varia de um, onde você está praticamente dormindo, a dez, onde você está subindo pelas paredes". Então, ela pede que eles recordem um momento de bom desempenho passado para descobrir em que nível o estresse naquela situação se classificaria. Muitas pessoas dizem 4-6, mas as respostas variam de 2 a 8, diz Hays, que se especializa em psicologia do desempenho e esportes. Esse passa a ser o alvo de gerenciamento de estresse pessoal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para a maioria das pessoas, atingir essa meta exige novas habilidades. Com a prática, no entanto, elas podem aprender a relaxar completamente em poucos segundos, diz Kenneth Pelletier, professor de medicina clínica tanto da Faculdade de Medicina da Universidade do Arizona quanto da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia em San Francisco. Além de pensar positivamente sobre fatores estressantes, outras formas de moderar o estresse são a respiração abdominal profunda, fazer meditação e conscientização plena, ou controlar o próprio estado mental e físico.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos esses métodos são indicados por pesquisadores para ajudar a curar problemas crônicos como as doenças cardíacas, de acordo com uma revisão de pesquisas de 2010 feita por Bonnie Horrigan, diretora de educação pública da Collaborative Bravewell, uma organização sem fins lucrativos americana.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando a Ford Motor Co. testou várias maneiras de ajudar os funcionários com dores crônicas nas costas há vários anos, o diretor médico corporativo Walter Talamonti diz que exercícios para diminuir o estresse prejudicial, levando-o para níveis saudáveis, foi associado a reduções na dor e no uso de medicamentos por funcionários.&lt;/div&gt;-----------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;REPORTAGEM Por Sue Shellenbarger Do The Wall Street Journal&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Valor Econômico on line, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-388479081729743999?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/388479081729743999/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/estresse-com-limite-faz-bem-saude-e.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/388479081729743999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/388479081729743999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/estresse-com-limite-faz-bem-saude-e.html' title='Estresse com limite faz bem à saúde e à produtividade'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-jCfIuZpWIiU/TyCXzJSNxLI/AAAAAAAAIQs/jtyque1hU2o/s72-c/arte25carr-201-stress-d8.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-6410434025807562764</id><published>2012-01-25T21:44:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T21:44:02.681-02:00</updated><title type='text'>Sustentabilidade: tentativa de definição</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Leonardo Boff*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.ecologiaurbana.com.br/wp-content/uploads/2011/05/planeta-sustentavel.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="397px" src="http://www.ecologiaurbana.com.br/wp-content/uploads/2011/05/planeta-sustentavel.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;A sustentabilidade se mede pela capacidade&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;de conservar o capital natural, permitir &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que se refaça e ainda, através &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;do gênio humano, possa ser &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;enriquecido para as &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;f&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;uturas gerações.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;Há&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; hoje um conflito entre as várias compreensões do que seja sustentabilidade. Clássica é a definição da ONU, do relatório Brundland, (1987) "desenvolvimento sustentável é aquele que atende as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atenderem a suas necessidades e aspirações”. Esse conceito é correto mas possui duas limitações: é antropocêntrico (só considera o ser humano) e nada diz sobre a comunidade de vida (outros seres vivos que também precisam da biosfera e de sustentabilidade).Tentarei uma formulação, o mais integradora possível:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informaconais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando a sua continuidade e ainda a atender as necessidades da geração presente e das futuras de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução, e coevolução.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Expliquemos, rapidamente, os termos desta visão holística:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar todas as condições necessárias para o surgimento dos seres: estes só existem a partir da conjugação das energias, dos elementos físico-químicos e informacionais que, combinados entre, si dão origem a tudo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar todos os seres: aqui se trata de superar radicalmente o antropocentrismo. Todos os seres constituem emergências do processo de evolução e gozam de valor intrínseco, independente do uso humano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar especialmente a Terra viva: a Terra é mais que uma "coisa” (res extensa), sem inteligência ou um mero meio de produção. Ela não contém vida. Ela mesma é viva, se autorregula, se regenera e evolui. Se não garantirmos a sustentabilidade da Terra viva, chamada Gaia, tiramos a base para todas as demais formas de sustentabilidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar também a comunidade de vida: não existe, o meio ambiente, como algo secundário e periférico. Nós não existimos: coexistimos e somos todos interdependentes. Todos os seres vivos são portadores do mesmo alfabeto genético básico. Formam a rede de vida, incluindo os microorganismos. Esta rede cria os biomas e a biodiversidade e é necessária para a subsistência de nossa vida neste planeta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar a vida humana: somos um elo singular da rede da vida, o ser mais complexo de nosso sistema solar e a ponta avançada do processo evolutivo por nós conhecido, pois somos portadores de consciência, de sensibilidade e de inteligência. Sentimos que somos chamados a cuidar e guardar a Mãe Terra, garantir a continuidade da civilização e vigiar também sobre nossa capacidade destrutiva.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar a continuidade do processo evolutivo: os seres são conservados e suportados pela Energia de Fundo ou a Fonte Originária de todo o Ser. O universo possui um fim em si mesmo, pelo simples fato de existir, de continuar se expandindo e se autocriando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar o atendimento das necessidades humanas: fazemo-lo através do uso racional e cuidadoso dos bens e serviços que o cosmos e a Terra nos oferecem sem o que sucumbiríamos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sustentar a nossa geração e aquelas que seguirão à nossa: a Terra é suficiente para cada geração desde que esta estabeleça uma relação de sinergia e de cooperação com ela e distribua os bens e serviços com equidade. O uso desses bens deve se reger pela solidariedade generacional. As futuras gerações têm o direito de herdarem uma Terra e uma natureza preservadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A sustentabilidade se mede pela capacidade de conservar o capital natural, permitir que se refaça e ainda, através do gênio humano, possa ser enriquecido para as futuras gerações. Esse conceito ampliado e integrador de sustentabilidade deve servir de critério para avaliar o quanto temos progredido ou não rumo à sustentabilidade e nos deve igualmente servir de inspiração ou de idéia-geradora para realizar a sustentabilidade nos vários campos da atividade humana. Se isso a sustentabilidade é pura retórica sem consequências.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;----------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Teólogo, filósofo e escritor. Autor do livro Sustentabilidade: o que é e o que não é, a sair em fins de janeiro de 2012 pela Editora Vozes.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Adital on line, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-6410434025807562764?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/6410434025807562764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/sustentabilidade-tentativa-de-definicao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6410434025807562764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6410434025807562764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/sustentabilidade-tentativa-de-definicao.html' title='Sustentabilidade: tentativa de definição'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-2621948586583679672</id><published>2012-01-25T18:16:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T18:16:55.462-02:00</updated><title type='text'>6 “pecados” que podem destruir sua carreira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;﻿Divulgação/FOX Filmes&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-A52-UNCt3dY/TyBhqx_mLXI/AAAAAAAAIQk/wFVyAPX0lv0/s1600/size_590_wall_street_2_Nova.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="300px" src="http://3.bp.blogspot.com/-A52-UNCt3dY/TyBhqx_mLXI/AAAAAAAAIQk/wFVyAPX0lv0/s400/size_590_wall_street_2_Nova.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;Personagem de Michael Douglas é movido pela ganância &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;no filme Wall Street: O dinheiro nunca dorme&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;﻿﻿ &lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Preguiça e arrogância não devem refletir &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;em suas atitudes no ambiente &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de trabalho&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; preguiça, a ganância, vaidade, inveja são alguns dos pecados capitais que devem ser evitadas a todo custo no ambiente de trabalho – mesmo que você não siga nenhuma religião. “Detectamos diariamente nas atitudes do profissional alguns pecados. Em alguns casos estes ficam mais marcados por um deslize comportamental do que por um erro técnico”, afirma Luiz Fernandes Visconte, sócio da Vicky Bloch Associados.&lt;br /&gt;Para Renata Mello, especialista em etiqueta empresarial, as pessoas normalmente não se definem como um profissional preguiçoso ou ganancioso. Imprevistos acontecem e, às vezes, controlar o emocional é um desafio. Os erros citados acima são perdoáveis. &lt;br /&gt;Entretanto, especialistas afirmam que a carreira de um profissional pode ser prejudicada quando este não se dá conta do excesso desses deslizes e se isenta da culpa de não conseguir uma promoção ou o reconhecimento do chefe ou colegas de trabalho.&lt;br /&gt;Confira abaixo a lista com alguns pecados que devem ser evitados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Arrogância &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Agir como se fosse o melhor profissional da empresa não significa que você realmente seja. Julgar-se melhor que o outro não traz vantagem profissional. Quando um trabalho é bem feito, os méritos e elogios chegarão sem precisar que você os chame. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Cinismo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Criticar ou elogiar falsamente seus colegas de trabalho não são atitudes de um profissional que preza pela carreira. A competividade existe e não deve ser esquecida, mas ser cínico é, totalmente, dispensável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Preguiça&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preguiça não deve reinar quando se trata de trabalho. “Acaba sempre perdendo uma oportunidade de crescer, de compartilhar com os colegas alguma tarefa, com a desculpa de que está cansado demais ou ocupado demais”, afirma Visconte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Lembre-se&lt;/strong&gt;: ser proativo é quase uma senha para a ascensão profissional. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ganância&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Como todo pecado, o excesso de ganância o transformará em um profissional focado somente em números, bônus e aumento de salário. É recomendável equilibrar o desejo de conquistar uma promoção, por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Inveja&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Desmerecer seu colega de trabalho ou chefe não o tornará uma pessoa melhor, muito menos um profissional melhor. Reflita antes de fazer comentários maldosos que só o caracterizarão como uma pessoa invejosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Mentira&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Mentir requer talento, inventar desculpas não deve se tornar um hábito. Uma desculpa para não participar da reunião e as pessoas começam a duvidar da credibilidade do profissional.&lt;br /&gt;--------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Reportagem por Camila Lam, de EXAME.com&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://exame.abril.com.br/"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://exame.abril.com.br/&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-2621948586583679672?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/2621948586583679672/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/6-pecados-que-podem-destruir-sua.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2621948586583679672'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2621948586583679672'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/6-pecados-que-podem-destruir-sua.html' title='6 “pecados” que podem destruir sua carreira'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-A52-UNCt3dY/TyBhqx_mLXI/AAAAAAAAIQk/wFVyAPX0lv0/s72-c/size_590_wall_street_2_Nova.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-8127746283299653536</id><published>2012-01-25T11:13:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T11:13:56.596-02:00</updated><title type='text'>Britadeiras</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;MARTHA MEDEIROS*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://losangelesbr.com/wp-content/uploads/2011/11/WeNeedToTalkAboutKevin.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="178px" src="http://losangelesbr.com/wp-content/uploads/2011/11/WeNeedToTalkAboutKevin.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;Cena do Filme: Falar sobre Kevin&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; filme Precisamos Falar sobre Kevin não concorrerá ao Oscar, tampouco a excelente atriz Tilda Swinton, mas uma cena já entrou para a categoria das inesquecíveis – ao menos para mim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes, informações: o filme é a adaptação do livro homônimo de Lionel Shriver. Quem o leu não esquece o soco no estômago. É sobre um garoto perverso que termina por promover uma chacina na escola. A história é narrada pela mãe, que conta sobre o susto que levou com o nascimento daquele bebê que ela não identificava como uma bênção dos céus, sobre sua enorme dificuldade em contornar conflitos e sua descoberta de que formar uma família feliz não é tão simples como dizem. É a desconstrução do mito da competência materna. Orientações bem-intencionadas podem não adiantar, nosso amor pode não ser bem transmitido, nossas atitudes podem não servir de exemplo. Existe algo tão influente quanto tudo isso: nossa dor interna. Ela contamina, ela comunica, ela desgraçadamente dá o tom das relações. O livro, tanto quanto o filme, é violento pela brutalidade dos sentimentos que ficam trancafiados.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A cena que me pareceu a mais simbólica e angustiante do filme mostra essa mãe com o filho ainda bebê – uma criança que não parava de chorar um minuto sequer. Não é incomum pais entrarem num surto de estresse com choro de crianças. Recentemente, um americano jogou o filho de uma lancha por ele não parar de chorar, assim como outros adultos já levaram suas crianças a óbito por total descontrole emocional. No filme, a mãe não chega a esse radicalismo, ainda que esteja sempre a um segundo de explodir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Então. Ela passeia por uma rua movimentada da cidade com o bebê no carrinho. Ele chora. Vem chorando há dias. A mãe não dorme, não vive, apenas escuta o choro ininterrupto daquele bebê. Até que ela passa por trabalhadores que estão fazendo reparos em bueiros no meio da rua. Trabalho pesado, barulhento, infernal. Ela sai da calçada com o carrinho e chega bem perto do trabalhador que está perfurando o asfalto com uma britadeira. Bem perto mesmo. Estaciona o carrinho ao lado da britadeira que faz um barulho torturante. Close em seu rosto: por um instante, ela tem o conforto de trocar o choro do filho por outro ruído que, aos seus ouvidos, soa como um solo de flauta. O breve enquadramento daquela mulher com o carrinho no meio da rua e o homem trabalhando com a britadeira a seu lado é um mix de desespero e poesia como raramente vi no cinema.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quantas pessoas não desejariam quebrar uma perna se isso desviasse a atenção de uma dor de amor insuportável? Não é que a mãe de Kevin não aguentasse mais o barulho do choro: ela não aguentava mais o barulho da sua culpa por ser incapaz de cumprir o papel de mãe amorosa e abnegada daquele pequeno demônio de fraldas. O som da britadeira, ao menos, não tinha nada a ver com ela.&lt;/div&gt;------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Escritora. Colunista da ZH&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: ZH on line, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-8127746283299653536?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/8127746283299653536/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/britadeiras.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8127746283299653536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8127746283299653536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/britadeiras.html' title='Britadeiras'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-6911780421950814047</id><published>2012-01-25T09:00:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T09:00:57.378-02:00</updated><title type='text'>Louvar os gênios</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Antero Greco*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_pb8Eavz0394/TL7JARehGDI/AAAAAAAAAxU/rEtKtR0qg4c/s1600/pele.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="300px" src="http://3.bp.blogspot.com/_pb8Eavz0394/TL7JARehGDI/AAAAAAAAAxU/rEtKtR0qg4c/s400/pele.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Pelé acertou e errou. Bola dentro, ao citar &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;o músico alemão e o pintor italiano, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;dois milagres da natureza. Bola fora, pois &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;não foram únicos em seus gêneros. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Bach, Mozart, Chopin, Tchaikovski seriam o quê? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Como classificar Rafael, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Da Vinci, Van Gogh, Picasso?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Q&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;uer tirar Pelé um pouco do prumo? Pergunte-lhe se este ou aquele astro do momento vai desalojá-lo do trono que ocupa desde o fim dos anos 1950. O Rei do Futebol tem a resposta na ponta da língua: "Se marcar mais de mil gols e ganhar três Copas do Mundo, conversamos." A ironia serve para enquadrar súditos mais ousados e manter a Majestade Real em eterna evidência. Aliás, justa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos últimos tempos, Pelé tem recorrido a essa argumentação para rebater projeções que se fazem em torno de Leonel Messi. O moço argentino acumula façanhas, encanta multidões, arrasa defesas adversárias, ganha prêmios e dinheiro a rodo. Com 24 anos, já levou três vezes o troféu de melhor do mundo oferecido pela Fifa e, na toada que segue, vai encher muitas prateleiras. E o bolso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É normal, portanto, que atraia elogios e provoque comparações - com Pelé e com seu compatriota Diego Maradona. Os dois monstros sagrados, que há três décadas se cutucam mutuamente, nessa hora se unem e dão estocadas no ídolo do Barcelona. Ambos rasgam seda para o jovem, sem exageros, e dão um jeito de colocar um "mas, porém, contudo, todavia", quando se trata de vê-lo como o maior de todos os tempos. Vacilam no louvor, porque no íntimo temem que apareceu alguém que possa ofuscá-los. E, mesmo extraordinários, os craques de ontem são seres humanos, têm inseguranças como todos nós. Sentem ciúme.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não deveria ser assim. Pelé e Maradona pertencem a linhagem especial, no esporte e na vida, ocupam lugar de destaque na história do futebol. São dois gênios do fascinante jogo de bola. Sem desmerecer qualquer outra manifestação de refinamento humano, foram artistas incomuns. Pelé afirmou, para a France Football, que se vê como um Beethoven ou um Michelangelo. Dessa maneira, quis estabelecer limite entre ele e Messi. Pretendeu fixar distância do jovem herdeiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pelé acertou e errou. Bola dentro, ao citar o músico alemão e o pintor italiano, dois milagres da natureza. Bola fora, pois não foram únicos em seus gêneros. Bach, Mozart, Chopin, Tchaikovski seriam o quê? Como classificar Rafael, Da Vinci, Van Gogh, Picasso? Enumero de cabeça, na base do senso comum e de meus parcos conhecimentos culturais. Imagino quantos mais merecessem lembrança. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cada um foi notável em sua época, e todos arrastam fama até hoje porque estavam além e acima dos demais nas respectivas áreas. Aproveitaram lições de outros mestres, entenderam o tempo em que viveram, utilizaram recursos que estavam disponíveis e, claro, contribuíram com criatividade, com inovações. Enfim, foram também símbolos de originalidade e aperfeiçoamento. Gênios.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Evolução semelhante ocorre no esporte. Jesse Owens deixou até Hitler embasbacado e enfurecido, ao correr os 100m em 10,2 segundos, em 1936. Marca incrível para aquele período e hoje inexpressiva diante dos 9,58 de Usain Bolt. Apesar do abismo, um e outro estão no olimpo dos maiorais do atletismo, por terem sido raros em seu tempo. Assim como Carl Lewis, ou na natação como Johnny Weissmüller, Mark Spitz, Ian Thorpe e outros que derrubaram recordes e provocaram estupefação. Épocas distintas, mas homens que realizaram maravilhas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não há razão para Pelé, Maradona, ou quem quer que seja, diminuírem Messi. O brilho deste não ofusca o daqueles, assim como não destronará Garrincha, Puskas, Zidane, Cruyjff, Beckenbauer, todos virtuoses. Portanto, bem-vindo ao clube o pequenino camisa 10 do Barça e que hoje dê novo recital diante do Real. Que venham, mais tarde, outros e outros gênios.&lt;/div&gt;--------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Jornalista. Cronista do esporte.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Estadão on line, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-6911780421950814047?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/6911780421950814047/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/louvar-os-genios.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6911780421950814047'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6911780421950814047'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/louvar-os-genios.html' title='Louvar os gênios'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_pb8Eavz0394/TL7JARehGDI/AAAAAAAAAxU/rEtKtR0qg4c/s72-c/pele.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-1644488247324572063</id><published>2012-01-25T08:48:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T08:48:00.953-02:00</updated><title type='text'>Emergências no Brasil</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Roberto DaMatta*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.aspame.net/Inicio_archivos/20060713052958emergencia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://www.aspame.net/Inicio_archivos/20060713052958emergencia.jpg" width="398px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;É preciso rever as condutas que tipificam &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;o espaço público brasileiro, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;sobretudo no que diz respeito &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;a emergências.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;N&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;o Brasil a palavra emergência é um desses vocábulos com muitos sentidos, quase todos reveladores da dimensão mais profunda da atmosfera local. Dou um exemplo: se um inglês grita "help!", ele é imediatamente socorrido. Se uma companhia aérea americana, pequena ou grande, recebe um pedido de passagem numa "emergency" - isso já ocorreu comigo -, o lugar vai ser obtido. Palavras como socorro, perigo, ajuda, emergência e expressões como vida ou morte têm o poder de suspender as rotinas diárias e deflagram atitudes condizentes. O atendimento e a atenção têm de ser imediatos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No Brasil, elas dizem o mesmo, mas depende de quem está do lado de cá (como vítima ou doente) ou do lado de lá da porta do hospital ou do balcão de atendimento. Entre nós existem mediações e tudo depende do "caso" - e o "caso", conforme sabemos, mas não discutimos, tem a ver com conceitos tipicamente brasileiros como "a pinta", "a cara", "o jeito" - a tal aparência. O modo pelo qual a vítima ou o doente é socialmente classificado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em todos os encontros impessoais no Brasil, o modo de falar, o tom de voz, o porte, a roupa, a cor da pele, a gesticulação, o cabelo e o penteado, os adereços, o andar e até mesmo o grau e limpeza, o cheiro, o relógio ou o anel - com maior ou menor peso, mas com a cor da pele, sejamos sinceros, sendo muito importante - são peças básicas no acolhimento ou na rejeição de uma emergência. Acostumados a ver as pessoas situando-as apenas como inferiores ou superiores e jamais como iguais, as emergências e os socorros (esses momentos que nos igualam como seres mortais e capazes de serem ofendidos, feridos e socorridos) passam numa primeira instância a "saber quem é a vítima" para, em seguida, dar-lhe atenção ou desamparo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Donde, o antipático, mas preventivo "Você sabe com quem está falando?" diante de balcões de repartições públicas, hospitais e postos de saúde. Nas emergências, tendemos a seguir a mesma lógica das tramoias políticas. Diante da suspeita de crime ou, como diz a presidente, do "malfeito" procuramos primeiro saber quem é para depois demitir, indiciar ou blindar! Embora, como estamos fartos de saber, o bom senso quase sempre demande providências imediatas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fala-se muito em cidadania, mas o fato é que esse papel continua sendo dependente de quem o desempenha. Se for nosso, recebe a blindagem que o torna superior às leis e fica dispensado dos socorros; se for pessoa comum, entra nas emergências. Esses atendimentos que, com ou sem plano de saúde, podem levar ao cemitério independentemente de qualquer circunstâncias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pois "socorro" e "emergência" são palavras que em todo lugar, exceto no Brasil, têm a força de suspender as circunstâncias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;&lt;strong&gt;* * * *&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em maio do ano passado tive um mal-estar e descobri, depois de uma consulta de emergência, que estava com uma crise de vesícula. Tinha que extirpá-la o mais rapidamente possível, o que fiz dois dias depois. Passei, assim, pela famosa cadeia medicinal deflagrada pelo estado de emergência, que vai do atendimento imediato ao diagnóstico; passando pela intervenção, recuperação e retorno à vida normal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas esse processo só foi feliz porque durante todo o tempo eu tive a sorte e o privilégio de estar acompanhado por médicos amigos. Recebi, desse modo, não só a competência da sabedoria médica habitual, mas uma decisiva e grata atenção. Eu pago caro por um plano de saúde, mas mesmo em plena crise, eu demorei mais ou menos seis horas para ser internado num grande hospital de Niterói porque o plano fala em Rio de Janeiro e Niterói é nele classificado como leste fluminense! Quer dizer, a contiguidade entre o Rio de Janeiro e Niterói sumiu porque o plano de saúde comporta um detalhe burocrático típico do moderno brasileiro. Esperei, mas comigo esperou a equipe médica, até que as tramas do plano fossem resolvidas e deixassem passar o doente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O fato concreto é que cheguei ao hospital às 9 da manhã e só fui operado às 6 da tarde, depois de uma troca interminável de mensagens e telefonemas entre Rio e Niterói. Felizmente tudo deu certo. Mas e se eu fosse - digamos, como hipótese - um negro desconhecido e educado na boa norma da igualdade que abomina o "Você sabe com quem está falando?", que recria a desigualdade, onde deveria reinar uma equidade plena, mas devidamente enfartado? Em caso afirmativo, eu estaria escrevendo esta crônica no outro mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue;"&gt;* * * *&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É preciso rever as condutas que tipificam o espaço público brasileiro, sobretudo no que diz respeito a emergências. Não cabe, numa democracia e num governo voltado para a justiça social e para o povo pobre, nenhuma desculpa que acaba incidindo sobre detalhes legais e que, no final, tentam demonstrar que o doente vitimou-se a si próprio. O caso da trágica morte do sr. Duvanier Paiva Ferreira, secretário de um ministério voltado justamente para os recursos humanos, e uma agência de saúde é exemplar. Primeiro, porque não houve o famoso "Você sabe quem está falando?"; depois, porque a vítima era um negro importante. Será que em todos os atendimentos os doentes devem fazer um escarcéu?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O socorro e a emergência não podem admitir demoras, desculpas e, sobretudo, esse detestável legalismo nacional que trava o mundo (e a vida) em nome de uma serenidade jurídica que simplesmente não deve existir nas crises de saúde e jamais podem prevalecer na batalha entre a vida e a morte! Bem faz a presidente Dilma em mandar averiguar o caso. Melhor ainda seria interferir, com uma maior consciência sociológica, nos protocolos dos atendimentos emergenciais.&lt;/div&gt;-------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Antropólogo. Escritor. Colunista do Estadão&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Estadão on line, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-1644488247324572063?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/1644488247324572063/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/emergencias-no-brasil.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1644488247324572063'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1644488247324572063'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/emergencias-no-brasil.html' title='Emergências no Brasil'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-2913656836161423893</id><published>2012-01-25T08:31:00.000-02:00</published><updated>2012-01-25T08:31:50.766-02:00</updated><title type='text'>Capitalismo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Antonio Delfim Netto&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.institutoesperanto.com.ar/wp-content/plugins/wp-o-matic/cache/29d12_chaplin_capitalismo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="307px" src="http://www.institutoesperanto.com.ar/wp-content/plugins/wp-o-matic/cache/29d12_chaplin_capitalismo.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;A revolução tecnológica da informação, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que apenas estamos começando a viver, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;é um novo ciclo de expansão da &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;economia de mercado.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;D&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;iante da enorme confusão sobre o diagnóstico e os tratamentos que devem ser aplicados para que sobreviva a União Europeia e sua moeda única, o euro, é importante reafirmar que a economia política, uma acumulação de conhecimentos que a história mostra, é indispensável à boa administração privada e à boa governança pública. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela não deve ser identificada com a fracassada engenharia financeira, que somou físicos de pouco sucesso na sua profissão a economistas mal preparados com inveja do "sucesso" da física. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A crise de 2007-09 tem pouco a ver com as flutuações ínsitas no próprio funcionamento da economia de mercado. Ela foi produto do eterno destempero do sistema financeiro quando não sujeito à mais estrita regulação. Mas não poderia ter amadurecido a não ser com a conivência dos Estados submetidos ao seu crescente poder. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O drama da eurolândia também não tem nada a ver com as crises periódicas que são um dos inconvenientes da economia de mercado. A explosão do Lehman Brothers colocou à luz do sol as patifarias do setor financeiro privado dos EUA e, logo em seguida, as velhacarias do setor público de alguns países da eurolândia que só foram possíveis com a conivência das agências de "risco". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isso nada tem a ver com a economia que usa os mercados cujo codinome é "capitalismo" para alocar os seus recursos na produção dos bens desejados pela sociedade. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.omeufuturo.com.br/blog/wp-content/uploads/globalizacao.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="293px" src="http://www.omeufuturo.com.br/blog/wp-content/uploads/globalizacao.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"A globalização adquire novos contornos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;e as relações sociais (principalmente o trabalho) &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;vão sofrer mudanças profundas." &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esse foi o sistema encontrado pelo homem na sua busca de métodos mais eficientes para suprir as suas necessidades e que fossem compatíveis com sua liberdade de iniciativa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É apenas um processo histórico apoiado em inovações tecnológicas que vai se reconstruindo a cada crise, das quais sai sempre renovado na direção da maior eficiência produtiva e na ampliação da liberdade individual. Não é eterno e tem defeitos que talvez possam ser amenizados pela ação da própria sociedade organizada no Estado. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A China é um exemplo de como regimes politicamente fechados podem usar o mercado como instrumento para aumentar a eficiência produtiva e explorar os benefícios de liberdade de iniciativa (ainda que controlada) dos cidadãos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A revolução tecnológica da informação, que apenas estamos começando a viver, é um novo ciclo de expansão da economia de mercado. A globalização adquire novos contornos e as relações sociais (principalmente o trabalho) vão sofrer mudanças profundas. Mais uma vez, um aperfeiçoamento na direção da redução do tempo para a sobrevivência material e um enorme passo na direção da construção da humanidade do homem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--------------------------------------------------------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;*&amp;nbsp;Economista.&amp;nbsp;Colunista da Folha.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="mailto:contatodelfimnetto@terra.com.br"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;contatodelfimnetto@terra.com.br&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Folha on line, 25/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-2913656836161423893?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/2913656836161423893/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/capitalismo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2913656836161423893'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/2913656836161423893'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/capitalismo.html' title='Capitalismo'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7295394264443944166</id><published>2012-01-24T22:58:00.000-02:00</published><updated>2012-01-24T22:58:55.401-02:00</updated><title type='text'>Slavoj Zizek: A privatização do conhecimento intelectual. A Revolta da Burguesia Assalariada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Slavoj Žižek*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-Kyp8g5LMZwk/TVf81enXcVI/AAAAAAAAAJA/D9UM1d19guE/s1600/malevich.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="342px" src="http://1.bp.blogspot.com/-Kyp8g5LMZwk/TVf81enXcVI/AAAAAAAAAJA/D9UM1d19guE/s400/malevich.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;"Hardt e Negri descrevem aqui o processo que os atuais ideólogos do capitalismo pós-moderno &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;celebram como a passagem &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;da produção material para a simbólica, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;da lógica da hierarquia centralizadora &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;para a lógica da auto-organização e &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;da cooperação multicentralizada",&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;C&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;omo foi que Bill Gates se tornou o homem mais rico dos Estados Unidos? A riqueza dele não tem nada a ver com a Microsoft produzir bons programas a preços mais baixos que a competição, ou com ‘explorar’ seus trabalhadores com mais sucesso (a Microsoft paga um salário relativamente alto a seus trabalhadores intelectuais). Milhões de pessoas ainda compram programas da Microsoft porque a Microsoft se impôs quase como um padrão universal, praticamente monopolizando o mercado, como uma personificação do que Marx chamou de “intelecto geral”, com o que ele quis dizer conhecimento coletivo em todas as suas formas, da Ciência ao conhecimento prático. Gates privatizou eficazmente parte do intelecto geral e ficou rico ao se apropriar do aluguel deste intelecto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A possibilidade de privatização do intelecto geral é algo que Marx nunca previu nos seus escritos a respeito do capitalismo (em grande parte porque ele negligenciou a dimensão social do capitalismo). Ainda assim, isso está no centro da luta atual sobre propriedade intelectual: na medida em que o papel do intelecto geral – baseado no conhecimento coletivo e na cooperação social – aumenta no capitalismo pós-industrial, a riqueza se acumula de forma desproporcional no trabalho gasto na sua produção. O resultado não é, como Marx parecia esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a gradual transformação do lucro gerado pela exploração do trabalho em renda apropriada através da privatização do conhecimento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mesmo vale para os recursos naturais, cuja exploração é uma das principais fontes de renda do mundo. Existe uma luta permanente sobre quem fica com essa renda: os cidadãos do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais. É irônico que ao explicar a diferença entre trabalho (que produz valor excedente) e outras commodities (que consomem todo seu valor no uso), Marx tenha dado como exemplo o petróleo, uma commodity ‘ordinária’. Hoje, qualquer tentativa de ligar as flutuações do preço do petróleo às oscilações de seu custo de produção ou ao preço da exploração do trabalho não faria o menor sentido: o custo de produção é insignificante como proporção do preço que pagamos pelo petróleo, preço que na realidade é a renda que os donos do recurso podem extrair graças à oferta limitada de petróleo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A consequência do aumento de produtividade causado pelo crescimento exponencial do conhecimento coletivo é uma mudança no papel do desemprego. É o próprio sucesso do capitalismo (maior eficiência, aumento de produtividade, etc.) que produz desemprego, tornando mais e mais trabalhadores inúteis: o que deveria ser uma bênção – menor necessidade de trabalho pesado – se torna uma maldição.&lt;br /&gt;Ou, para explicar de outra maneira, a oportunidade de ser explorado em um emprego de longo prazo agora é experimentada como um privilégio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mercado mundial, como disse Fredric Jameson, é “um espaço onde todo mundo já foi um trabalhador produtivo e no qual o trabalho começou, em toda parte, a se precificar fora do sistema”. No atual processo de globalização capitalista, a categoria dos desempregados não se limita mais ao “exército industrial de reserva” de Marx; ela também inclui, como nota Jameson, “essas massas populacionais do mundo que ‘despencaram da história’, que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do Primeiro Mundo capitalista e descartadas como casos terminais ou sem esperança: os chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas da fome ou de desastres ecológicos, os que caíram na armadilha pseudo-arcaica dos ‘ódios étnicos’, objetos da filantropia ou das ONGs ou alvos da guerra ao terror”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A categoria dos desempregados foi, assim, expandida para incluir uma vasta esfera de pessoas, dos desempregados temporariamente aos que não podem mais conseguir emprego e estão permanentemente desempregados, aos habitantes de guetos e favelas (quase todos esses descartados por Marx como parte do lumpemproletariado), e finalmente todas as populações e estados excluídos do processo capitalista global, como os espaços vazios de mapas antigos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Alguns dizem que esta nova forma de capitalismo oferece novas possibilidades de emancipação. Essa é a tese de “Multitude”, de Hardt e Negri, que tenta radicalizar Marx, afirmando que se nós simplesmente cortarmos a cabeça do capitalismo, teremos o socialismo. Marx, eles argumentam, estava limitado historicamente: ele pensou em termos de trabalho industrial centralizado, automatizado e organizado hierarquicamente. Como resultado, entendeu o “intelecto geral” como algo semelhante à agência de planejamento central; somente hoje, com o surgimento do “trabalho não-material”, uma mudança revolucionária se tornou “objetivamente possível”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Esse trabalho não-material se estende entre dois polos: do trabalho intelectual (a produção de ideias, textos, programas de computador, etc.) a trabalhos afetivos (desempenhados por médicos, babás e comissários de bordo). Hoje, o trabalho não-material é hegemônico, no sentido com que Marx proclamou, no capitalismo do século XIX, que a produção industrial em larga escala era hegemônica: ele se impõe não através da força dos números, mas por desempenhar um papel-chave, emblemático de toda a estrutura.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que emerge é um vasto novo domínio chamado de “commons”: conhecimento compartilhado e novas formas de comunicação e de cooperação. Os produtos da produção não-material não são objetos, mas novas relações sociais e interpessoais; a produção não-material é biopolítica, é a produção da vida social.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hardt e Negri descrevem aqui o processo que os atuais ideólogos do capitalismo pós-moderno celebram como a passagem da produção material para a simbólica, da lógica da hierarquia centralizadora para a lógica da auto-organização e da cooperação multicentralizada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A diferença é que Hardt e Negri são fiéis a Marx: eles tentam provar que ele estava certo, que o surgimento do intelecto geral é, a longo prazo, incompatível com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo pós-moderno afirmam exatamente o oposto: a teoria marxista (e a prática), argumentam, continua limitada pela lógica hierárquica do controle centralizado do estado e por isso não consegue lidar com os efeitos sociais da revolução da informação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Existem boas razões empíricas sustentando o argumento deles: o que de fato arruinou os regimes comunistas foi sua incapacidade de se acomodar à nova lógica social sustentada pela revolução da informação. Eles tentaram dirigir a revolução, fazer dela mais um projeto em grande escala de um governo centralizado. O paradoxo é que o que Hardt e Negri celebram como uma oportunidade única para derrubar o capitalismo é comemorado pelos ideólogos da revolução da informação como o surgimento de um capitalismo novo, sem ‘fricção’.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A análise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos, o que nos ajuda a entender como o capitalismo tem conseguido sobreviver ao que deveria ser (em termos marxistas clássicos) uma nova organização da produção que o tornaria obsoleto. Os dois subestimaram a extensão do sucesso do capitalismo de hoje (ao menos no curto prazo) na privatização do intelecto geral, além de subestimarem a dimensão de como os trabalhadores, mais do que a própria burguesia, estão se tornando supérfluos (com um número cada vez maior de trabalhadores se tornando não apenas desempregados temporários, mas estruturalmente não-empregáveis).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"A burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer: capitalistas reaparecem como um subsetor &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de trabalhadores assalariados, como administradores qualificados para ganhar mais pela &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;virtude de sua competência (por isso a avaliação &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;pseudocientífica é crucial: ela legitima &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;as disparidades)."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se o capitalismo antigo idealmente envolvia o empresário que investia (o seu ou emprestado) dinheiro na produção, que ele organizava e geria, e depois tirava lucro disso, um novo tipo ideal está surgindo hoje: não mais o empresário que é dono de sua companhia, mas um administrador especializado (ou um conselho de administração presidido por um CEO), que governa a empresa de propriedade dos bancos (também geridos por administradores, que não são donos do banco) ou investidores diversos. Neste novo tipo de capitalismo ideal, a velha burguesia, tornada desfuncional, é reciclada como gerenciadora assalariada: os membros da nova burguesia recebem salários, e mesmo quando são donos de parte da empresa, ganham ações como parte de sua remuneração (“bônus” pelo seu “sucesso”).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Essa nova burguesia ainda se apropria da mais-valia, mas no formato (mistificado) do assim chamado “superávit salarial”: eles recebem bem mais que o “salário mínimo” do proletariado (quase sempre um ponto mítico de referência, cujo único exemplo real na economia global de hoje é o salário dos trabalhadores na indústria têxtil da China ou da Indonésia), e é esta distinção em relação proletário comum que determina o status da nova burguesia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A burguesia no sentido clássico, assim, tende a desaparecer: capitalistas reaparecem como um subsetor &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;de trabalhadores assalariados, como administradores qualificados para ganhar mais pela virtude de sua competência (por isso a avaliação pseudocientífica é crucial: ela legitima as disparidades). Longe de se limitar aos administradores, a categoria de trabalhadores que ganha superávits salariais se estende a todo tipo de especialista, administradores, servidores públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas. O superávit assume duas formas: mais dinheiro (para gerentes, etc.), mas também menos trabalho e mais tempo livre (para – alguns – intelectuais, mas também para administradores do estado, etc.).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O processo de avaliação usado para decidir quais trabalhadores devem receber superávit salarial é um mecanismo arbitrário de poder e ideologia, sem conexão séria com a verdadeira competência; o superávit salarial existe não por razões econômicas, mas políticas: para manter uma “classe média” e preservar a estabilidade social.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A arbitrariedade na determinação da hierarquia social não é um erro, mas objetivo do sistema, com papel análogo ao da arbitrariedade no ’sucesso de mercado’.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A violência não ameaça explodir quando existe muita contingência no espaço social, mas quando se tenta eliminar a contingência. Em “La Marque du sacré”, Jean-Pierre Dupuy trata a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) que têm como função tornar não humilhante a relação de superioridade: a própria hierarquia (uma ordem imposta externamente que me permite experimentar meu status social mais baixo de forma independente do meu valor inerente); desmistificação (o procedimento ideológico que demonstra que a sociedade não é uma meritocracia, mas o produto de disputas sociais objetivas, que me permite evitar a conclusão dolorosa de que a superioridade de alguém sobre mim é resultado dos méritos e realizações do outro); contingência (mecanismo parecido, através do qual entendemos que nossa posição na escala social depende de uma loteria natural e social; os sortudos nascem com os genes certos, em famílias ricas); e complexidade (forças incontroláveis têm consequências imprevisíveis; por exemplo, a mão invisível do mercado pode me levar ao fracasso e o meu vizinho ao sucesso, mesmo que eu trabalhe muito mais e seja bem mais inteligente).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao contrário do que parece, esses mecanismos não contestam ou ameaçam a hierarquia, mas a tornam mais palatável, já que “o que dispara o tumulto da inveja é a ideia de que o outro não merece a sorte que tem e não a ideia oposta – a única que se pode expressar abertamente”. Dupuy tira desta premissa a conclusão de que é um grande erro pensar que uma sociedade razoavelmente justa, que se enxerga como justa, estará livre de ressentimento: pelo contrário, é nessas sociedades que aqueles que ocupam as posições inferiores encontrarão nas explosões violentas de ressentimento um veículo para seu orgulho ferido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isso está conectado ao impasse que a China enfrenta hoje: o ideal das reformas de Deng era introduzir o capitalismo sem uma burguesia (já que ela formaria a nova classe dominante); agora, porém, os líderes da China estão descobrindo dolorosamente que o capitalismo sem uma hierarquia estabelecida, possibilitada pela existência de uma burguesia, gera instabilidade permanente. Então, que caminho a China seguirá?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os ex-comunistas estão emergindo como os administradores mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade histórica com a burguesia como classe casa perfeitamente com a tendência atual do capitalismo de se tornar um capitalismo administrativo, sem burguesia – nos dois casos, como Stalin disse faz tempo, “os quadros decidem tudo”. (Uma diferença interessante entre a China e a Rússia de hoje: na Rússia, os professores universitários têm salários ridiculamente baixos – eles já são, de fato, parte do proletariado – enquanto na China recebem um superávit salarial confortável para garantir sua docilidade).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A noção de superávit salarial também coloca sob nova ótica os constantes protestos “anticapitalistas”. Em momentos de crise, o candidato óbvio para apertar o cinto são as classes mais baixas da burguesia assalariada: protestos políticos são seus únicos recursos se quiserem evitar se juntar ao proletariado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Apesar de seus protestos serem, nominalmente, dirigidos contra a lógica brutal do mercado, elas estão protestando, de fato, contra a erosão gradual de sua posição econômica privilegiada (politicamente).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em “Atlas Shrugged”, Ayn Rand tem a fantasia de fazer greve contra capitalistas “criativos”, uma fantasia que encontra realização pervertida nas greves de hoje, quase todas sustentadas por “burguesias assalariadas” movidas pelo medo de perder o superávit salarial. Esses não são protestos proletários, mas protestos contra a ameaça de ser reduzido a proletariado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem tem coragem de entrar em greve hoje, quando ter um salário fixo é, em si mesmo, um privilégio? Trabalhadores com baixos salários (o que resta deles) da indústria têxtil, etc., não; mas os trabalhadores privilegiados que têm emprego garantido (professores, empregados dos transportes públicos, policiais), sim. Isso também explica a onda de protestos estudantis: sua principal motivação é, sem dúvida, o medo de que a educação superior não garanta um superávit salarial mais tarde, na vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao mesmo tempo está claro que o grande renascimento de protestos no último ano, da Primavera Árabe à Europa ocidental, do Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não deve ser descartado meramente como uma revolta da burguesia assalariada. Cada caso deve ser analisado de acordo com seus próprios méritos. Os protestos estudantis contra a reforma universitária na Grã-Bretanha são claramente diferentes dos distúrbios de agosto, que foram um carnaval consumista de destruição, uma verdadeira explosão dos excluídos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pode-se argumentar que os levantes no Egito começaram, em parte, como uma revolta da burguesia assalariada (com jovens educados protestando por conta de sua falta de perspectiva), mas este foi apenas um dos aspectos de um protesto mais amplo contra um regime opressivo. Por outro lado, o protesto não mobilizou, realmente, trabalhadores mais pobres e camponeses e a vitória eleitoral dos islâmicos deixa clara a estreita base social do protesto secular original. A Grécia é um caso especial: nas últimas décadas, foi criada uma nova burguesia assalariada (especialmente na inchada administração estatal), graças à ajuda financeira da União Europeia, e os protestos, em boa parte, foram motivados pela ameaça do fim disso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A proletarização das camadas mais baixas da burguesia casa, no oposto extremo, com a alta remuneração irracional de administradores e banqueiros do topo (irracional como demonstraram as investigações nos EUA, já que ela tende a ser inversamente proporcional ao sucesso da companhia). Ao invés de submeter essas tendências à crítica moralizante, devemos lê-las como sinais de que o sistema capitalista não é mais capaz de uma estabilidade autorregulada – em outras palavras, ele ameaça ficar fora de controle.&lt;/div&gt;--------------------------------------- &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Escreve Slavoj Žižek, no London Review of Books, &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;e reproduzido pelo sítio Viomundo, 22-01-2012.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;a href="http://www.ihu.unisinos.br/"&gt;http://www.ihu.unisinos.br/&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7295394264443944166?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7295394264443944166/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/slavoj-zizek-privatizacao-do.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7295394264443944166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7295394264443944166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/slavoj-zizek-privatizacao-do.html' title='Slavoj Zizek: A privatização do conhecimento intelectual. A Revolta da Burguesia Assalariada'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-Kyp8g5LMZwk/TVf81enXcVI/AAAAAAAAAJA/D9UM1d19guE/s72-c/malevich.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-4123177435558966835</id><published>2012-01-24T17:17:00.000-02:00</published><updated>2012-01-24T17:17:34.258-02:00</updated><title type='text'>A música segundo Tom Jobim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Arnaldo Jabor*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.jb.com.br/media/fotos/2012/01/08/300w/documentario-nao-tem-palavras.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://www.jb.com.br/media/fotos/2012/01/08/300w/documentario-nao-tem-palavras.jpg" width="271px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;F&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;ui ver o ótimo filme do Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim e me lembrei da frase do Nelson Rodrigues: "Nada mais antigo que o passado recente". Perfeito; dá para ver a espantosa mudança da vida social e cultural dos últimos 20 anos. As canções, as plateias, os olhos e ouvidos ligados nos shows, o desejo de transmitir a beleza de uma reflexão sobre nossas emoções, um ritmo de vida celebrando a inocência e a delicadeza, o tema do amor sempre presente, a qualidade das letras e sonoridade (Águas de Março é um grande poema sobre o devir), em suma, tudo que não é manipulação, barulheira fácil e boçal, nessa proliferação de irrelevâncias que pululam nas redes. Tudo bem, pode ser que estejamos no caos inicial, na infância de um novo e rico tempo cultural, como preveem os garimpeiros de ouro na bosta, mas, por enquanto, acho tudo um lixo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O filme é a emocionante montagem de grandes momentos de nossa música como um discurso sem palavras. Saí do cinema como de um spa mental, no meio da poluição sonora e visual de São Paulo. Um filme terapêutico.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O documentário de Nelson e Dora me tocou muito. Sempre preferi ver fotos amareladas, filmes precários, antigos, que nos dão a sensação de nebulosas vidas mortas. As personagens do preto e branco, do trêmulo filme mudo, nos consolam com sua vetustez. Suas mortes são mais suportáveis porque pensamos: "Ah... naquele tempo se morria; hoje não". No filme moderno, o passado recente, em cores, nos mobiliza porque vira um presente implacável, embora impalpável. Vemos a alegria de festas sem som, sorrisos mudos, a juventude perdida dos rostos, as gargalhadas que não ecoam em lugar nenhum, as mulheres tão moças e lindas (e não nos dávamos conta disso) e nós mesmos, nossa saúde, nossos humores, tudo visível. Também vemos os indícios de erros que nos levarão ao fim - o corpo maltratado, a melancolia evitável, o riso amarelo, eu, você, nós todos no passado perdendo tempo, desvalorizando o que tínhamos. Mais emocionante que a tristeza de um passado é sua alegria perdida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Lembrei-me que num dia feliz, sentado ao piano, Tom tocou para mim uma música nova - era Chansong, a obra-prima com a letra anglo-francesa: "I've never been in Paris for the summer, I never drank a scotch with this bouquet". Fui das primeiras pessoas a ouvir a música - tenho esse orgulho. Sempre que a ouço, vejo-me com ele, curvado, cantando com voz arfante, como se contasse um segredo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Henri Bergson, o filósofo, declarou, quando viu os filmes de Lumière: "O cinema é importante para vermos como se moviam os antigos". Isso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sempre me emociono com esse milagre do cinema, em que as pessoas ressuscitam na tela e ficam ali, falando, como se nada tivesse acontecido. Isso me dói porque um dia serei também protagonista de um flashback de mim mesmo. Assusto-me se estou num bar e, de repente, minha saudosa comadre Nara Leão começa a cantar baixinho ali ao meu lado, como aliás canta no filme, nos lembrando de sua imensa importância.&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://src.odiario.com/Imagem/2011/12/30/m_180724305.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="296px" src="http://src.odiario.com/Imagem/2011/12/30/m_180724305.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"O tempo se acelerou brutalmente &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;nos últimos dez anos. Os filósofos vivem berrando: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Não temos mais tempo, porque &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;as coisas &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;fetichizaram o tempo!"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já sentira isso na obra-prima do Miguel Faria Jr., Vinicius, quando escrevi: "O tempo era outro, e me refiro a tempo como ritmo, timing. Movíamo-nos de outro modo, em paisagens claras, com perspectiva, distâncias nítidas, andávamos pela praia até o Leblon". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mundo estava em foco e não era esse sumidouro de hoje. Esses filmes mostram um passado que poderia ser nosso presente. Ipanema era uma ilha de felicidade num país injusto, foi um momento raro em que o desejo e o projeto se encontraram, na praia, no bar, nas ruas com amendoeiras, nos amores mais livres, na música e literatura, antes da massificação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O tempo se acelerou brutalmente nos últimos dez anos. Os filósofos vivem berrando: "Não temos mais tempo, porque as coisas fetichizaram o tempo!"&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A cada dia, os blackberries, os iPads, os iPhones aumentam de potência, e o tempo vai se comprimindo. Até onde? Esta correria seria ótima se fôssemos chegar a alguma coisa, a uma estação Finlândia, a um terminal qualquer; mas, aonde chegaremos? No início do século 20, louvamos a velocidade crescente, revolucionária na arte moderna, a beleza do futuro, mas agora está chegando a hora de buscarmos a lentidão, a paz, o silêncio, como fazem as comunidades de "slow movement". Aliás, o filme nos lembra que ainda havia silêncio. Outro dia, me falou uma "pianista" de twitters e facebook: "Hoje não há mais tédio - temos telinhas o tempo todo diante dos olhos". Talvez, mas, sem vazio não há pensamento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, não temos condição de criticar e controlar mais nada, nem pela poesia, paródia, nem por nada. As coisas estão in charge, no comando da vida. Que diria Tom sobre isso? Bem, em conversas, nas suas falas sobre a natureza e em seus gestos já dava para ver a melancolia disfarçada de ceticismo sábio, víamos que ele já sabia que a barra ia pesar ali em Ipanema e em toda parte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Talvez ele dissesse: "Você sabe, não é Jabor, você que é um árabe, um beduíno sem deserto, você sabe que a música existe no tempo. Se acelerar muito, a música vai junto, mas, depois de certo ponto, a arte perde o fôlego... Nós estamos querendo acabar com o Tempo".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isso me remete a um filme antigo, cult, o Planeta Proibido, de Fred Wilcox, com George Sanders e Anne Francis, um planeta vazio onde todas as informações de um mundo morto estavam guardadas num imenso subterrâneo, uma gigantesca máquina, um super-Google. Toda a vida do planeta, tudo que se descobriu e construiu estava ali, arquivado para a eternidade. Só não havia mais vida em volta - a raça tecnológica dos Krells tinha sido extinta.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas Tom não ia prestar atenção neste papo cabeça. Ele gostava de ver o que era vivo ainda. Ele diria: "Deixa pra lá... Olha... lá no alto, os urubus caçadores estão dormindo na perna do vento..."&lt;/div&gt;-------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Jornalista. Cineasta. Escritor. Colunista do Estadão.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Estadão on line, 24/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-4123177435558966835?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/4123177435558966835/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/musica-segundo-tom-jobim.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4123177435558966835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4123177435558966835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/musica-segundo-tom-jobim.html' title='A música segundo Tom Jobim'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7644696733488738582</id><published>2012-01-24T15:18:00.000-02:00</published><updated>2012-01-24T15:18:07.422-02:00</updated><title type='text'>Como acabar com a fome no mundo?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;José Eustáquio Diniz Alves*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://esplpalavras.files.wordpress.com/2011/10/fome-no-mundo-2011.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="282px" src="http://esplpalavras.files.wordpress.com/2011/10/fome-no-mundo-2011.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;D&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;e acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) existiam 925 milhões de pessoas com fome ou em situação de insegurança alimentar no mundo, em 2010, o que correspondia a 13% da população mundial. A escassez de alimentos e a desnutrição acontece no meio da abundância de bens e serviços na economia internacional. A humanidade já possui todas as armas para vencer a fome e já existem diversas soluções pensadas, mas falta colocar em prática.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vejamos algumas alternativas para acabar com a fome no mundo:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma primeira&lt;/strong&gt; alternativa seria a eliminação ou, pelo menos, a redução dos gastos militares no mundo que estão na ordem de US$ 1,6 trilhão de dólares ao ano. Este dinheiro seria suficiente não só para acabar com a fome como para reconstruir áreas cultiváveis degradadas. Existem alguns milhões de homens e milhares de mulheres que passam a vida ativa na caserna fazendo trabalhos inúteis ou preparando guerras e ações militares que provocam mortes e danificam o meio ambiente. Se os recursos financeiros e humanos usados em gastos militares forem redirecionados para atividades produtivas a fome poderia ser eliminada, a educação e a saúde poderiam avançar, etc. Além de tudo, o movimento pacifista mundial agradeceria.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma segunda&lt;/strong&gt; alternativa seria utilizar apenas fontes vegetais de nutrientes na alimentação. Os vegetais são seres vivos que produzem a sua própria alimentação (por meio da fotossíntese) e não possuem as capacidades de senciência dos animais. Os vegetais são capazes de fornecer tudo o que o organismo humano precisa para se nutrir: proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e sais minerais. Portanto, deixar de comer peixes, carnes e derivados não só salvaria a vida de bilhões de seres sencientes que sofrem – na vida e na morte quando vão para os abatedouros – como abriria a possibilidade de transformar as áreas de pastagens, de confinamento de animais e de produção de ração para o gado em áreas de plantação de alimentos saudáveis, orgânicos e nutritivos. Seria uma também alternativa para a evitar a degração ambiental dos solos e da água e para a redução do aquecimento global (o metano é um dos principais gases de efeito estufa). Além disto seria uma alternativa adequada à filosofia do vegetarianismo e do veganismo, além de viabilizar o fim da “escravidão animal”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma terceira&lt;/strong&gt; alternativa seria eliminar o consumo e a produção de drogas e de bebidas alcoólicas, os jogos de azar, os cassinos e os jogos que utilizam animais como touradas, rodeios, corridas de cavalos, cachorros e camelos, brigas de galos, etc. Estas atividades são prejudiciais para a saúde dos humanos e dos não-humanos e envolvem uma industria – legal ou ilegal – de trilhões de dólares. O fim destas atividades seria suficiente para acabar com a fome e a pobreza extrema no mundo, evitaria muitas mortes por overdose, cirrose e acidentes de trânsito, além de liberar recursos para investimentos na educação, saúde, ciência e tecnologia, recuperação de florestas e ambientes degradados, etc.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma quarta&lt;/strong&gt; alternativa seria proibir a produção de alimentos visando o lucro e eliminar os atravessadores na comercialização da comida e os especuladores que fazem fortunas nos mercados futuros de alimentos. Numa perspectiva socialista ou comunitária, poderia se transformar todas as empresas capitalistas de alimentos em cooperativas sem fins lucraticos, controladas pelos trabalhadores, produtores rurais e pela comunidade e consumidores. Os alimentos seriam produzidos para a vida e não para o lucro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Evidentemente, na teoria é fácil &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;acabar com a fome. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;O difícil é mexer com os inúmeros &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;interesses pessoais, locais, grupais, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;regionais e nacionais &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;envolvidos."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma quinta&lt;/strong&gt; alternativa seria eliminar ou reduzir ao máximo o desperdício na produção, transporte, armazenamento, comercialização e consumo de alimentos. Somente esta alternativa já seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Mas, evidentemente, não é fácil acabar com os desperdícios, pois os alimentos são, em geral, bens perecíveis e de difícil conservação. Evitar a perda na colheita significa investir muito para recuperar as sobras da produção, assim como seria preciso grandes investimentos para evitar perdas em toda a cadeia produtiva. Ajudaria muito promover uma educação para ensinar as pessoas a não deixarem comida no prato, não deixar passar o prazo de validade dos produtos, evitar as perdas nos restaurantes, etc. Para complicar, os desperdícios tendem a aumentar quando o preço dos alimentos caem ou quando a renda das pessoas sobe. Mas o fim do desperdício também seria o fim da fome no mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma sexta&lt;/strong&gt; alternativa seria eliminar ou reduzir ao máximo a gravidez indesejada, pois os dados mostram que a fome atinge em maior proporção as crianças e os países pobres que não possuem meios para universalizar os serviços de saúde sexual e reprodutiva, conforme acertado pelos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM). Segundo o International Food Policy Research Institute (IFPRI) o Índice Global da Fome (IGF) apresenta as categorias alarmante e extremamente alarmante, especialmente naqueles países onde existem altas taxas de fecundidade. A Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que existem 215 milhões de mulheres no mundo que não possuem acesso aos métodos modernos de regulação da fecundidade. O número de nascimentos é de 135 milhões por ano. Além disto, muitas mulheres são vitimas de violência sexual e da segregação de gênero, o que impede que elas tenham autonomia social e econômica e capacidade de autodeterminação reprodutiva. Além disto, alta dependência demográfica nas famílias aumenta a competição por alimento entre os filhos, o que prejudica os mais fracos e necessitados. O fim da gravidez indesejada ajudaria a reduzir a fome.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma sétima&lt;/strong&gt; alternativa seria uma distribuição mais justa dos alimentos. Dos 7 billhões de habitantes do mundo, pouco menos de 1 bilhão passam fome, cerca de 3 bilhões se alimentam de maneira razoável e os outros 3 bilhões consomem alimentos acima do necessário. Se estes 3 bilhões (que representam os ricos e as classes médias) reduzirem em 20% suas dietas alimentares, liberariam comida suficiente para alimentar a parcela dos 13% da população mundial que passa fome. Isto também contribuiria para diminuir a obesidade no mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Uma oitava&lt;/strong&gt; alternativa seria implementar a meta 1B dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM) que convoca os países a: “Alcançar o pleno emprego produtivo e o trabalho decente para todos, incluindo mulheres e jovens”. Se todas as pessoas do mundo tiverem emprego decente e renda então também terão dinheiro para colocar comida na mesa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ou seja, para acabar com a fome do mundo seria preciso a efetivação de pelo menos uma das oito alternativas ou a aplicação combinada de partes delas, vale dizer: reduzir gastos militares, incentivar uma dieta vegetariana, reduzir o consumo de drogas, bebidas alcoólicas e do dinheiro gasto em jogos, combater os atravessadores e especuladores de alimentos, reduzir os desperdícios, reduzir o crescimento populacional não desejado, repartir melhor o pão entre os cidadãos e cidadãs do mundo e criar políticas de pleno emprego com trabalho decente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Evidentemente, na teoria é fácil acabar com a fome. O difícil é mexer com os inúmeros interesses pessoais, locais, grupais, regionais e nacionais envolvidos. Cada pessoa pode e deve fazer sua parte. Mas sem políticas macroeconômicas e institucionais, envolvendo todos os países do mundo, o problema da fome e da degradação ambiental não será resolvido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Rascunho Zero da Rio + 20 fala muito em acabar com a pobreza e a fome no mundo. Só não mostrou o mapa do caminho. Talvez estas óctuplas alternativas possam contribuir para o documento final da Conferência ou, no mínimo, poderá ser pauta de discussão na Cúpula dos Povos da Rio + 20.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--------------------------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;* José Eustáquio Diniz Alves, colunista do EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado em Estudos Populacionais e Pesquisas Sociais da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;E-mail: &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:jed_alves@yahoo.com.br"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;jed_alves@yahoo.com.br&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;Fonte: &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://www.ecodebate.com.br/2012/01/24/"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;http://www.ecodebate.com.br/2012/01/24/&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;em&gt;Imagens da Internet&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7644696733488738582?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7644696733488738582/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/como-acabar-com-fome-no-mundo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7644696733488738582'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7644696733488738582'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/como-acabar-com-fome-no-mundo.html' title='Como acabar com a fome no mundo?'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-8855514877186697181</id><published>2012-01-24T08:24:00.000-02:00</published><updated>2012-01-24T08:24:26.525-02:00</updated><title type='text'>O poder é partilhado na revolução do século XXI</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Ricardo Abramovay*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-1SAZmRYRQzI/Tx6FjkQqyRI/AAAAAAAAIQc/Kdq3-ue7To8/s1600/abramo-d10.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="400px" src="http://2.bp.blogspot.com/-1SAZmRYRQzI/Tx6FjkQqyRI/AAAAAAAAIQc/Kdq3-ue7To8/s400/abramo-d10.jpg" width="325px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;Rifkin, articulador e ativista: prognósticos de quem conversa com personalidades &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;do mundo político e empresarial.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;N&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;ão é inocente o uso da palavra revolução no nome de batismo das eras econômicas. Mais do que técnicas e possibilidades de mercado, o que está em jogo na terceira revolução industrial anunciada por Jeremy Rifkin é um novo poder: partilhado, descentralizado, colaborativo ou, para usar a expressão do título de seu último livro, lateral. Em comum com as duas revoluções industriais anteriores, a do século XXI também emerge da convergência entre novos meios de comunicação e formas inéditas de produção de energia. A coerência dos grandes períodos históricos dos últimos dois séculos é dada por essa unidade entre comunicação e energia. O carvão e o vapor, no século XIX, abrem caminho não só para estradas de ferro, e imensas frotas navais, mas também para a massificação de materiais impressos, o que favorece o surgimento da educação pública na Europa e nos Estados Unidos. Na segunda revolução industrial, que domina todo o século XX, o petróleo e a eletricidade permitem o motor a combustão interna, o automóvel individual e, sobretudo a comunicação apoiada em grandes centrais elétricas: telégrafo, telefone, rádio e televisão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A terceira revolução industrial tem como marca central a rede de energia/internet. O fundamental não está na energia, na internet ou na noção de rede, e sim na junção das três: não só a energia, mas parte crescente da prosperidade do século XXI virá de uma organização social assinalada pela descentralização, pela cooperação e pela partilha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O prognóstico já seria intrigante se partisse de um destacado acadêmico ou de um ativista ligado a movimentos sociais globais. Mas Rifkin tem ainda a qualidade de hábil articulador voltado ao diálogo com importantes dirigentes políticos contemporâneos e personalidades centrais na formulação e execução das estratégias de empresas globais. Professor do Wharton School's Executive Education Program, da Universidade da Pensilvânia, autor de 18 livros (entre eles, já traduzidos para o português, "A Era do Acesso", "O Fim dos Empregos", "A Economia do Hidrogênio" e "O Sonho Europeu"), Rifkin, nos últimos dez anos, manteve estreito contato com figuras como Angela Merkel, Manuel Barroso e José Luiz Zapatero, o que contribuiu para que o termo terceira revolução industrial se incorporasse a inúmeros documentos da União Europeia. Ao mesmo tempo, em torno da terceira revolução industrial reúne-se hoje uma centena de dirigentes empresariais globais. Muito mais do que um conjunto abstrato de normas e prescrições, a terceira revolução industrial está na agenda de algumas das mais importantes forças sociais e políticas contemporâneas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pelas resistências que desperta e pela mobilização que exige, seu sucesso depende de uma nova narrativa. A do período que se esgota agora é clara: concentrar recursos, fortalecer os regimes exclusivos de propriedade e favorecer a busca estreita dos interesses individuais são condições para a eficiência alocativa, da qual decorreriam produção de riqueza e bem-estar crescentes. A crise desencadeada em 2008 foi a pá de cal que retirou coerência a essa narrativa, como mostra o livro em sua primeira parte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A narrativa da terceira revolução industrial, também exposta no livro, apoia-se em cinco pilares, que trazem consigo uma reorganização na cultura, nos modos de vida e nas formas de se fazer negócio. O primeiro está na passagem (nada trivial, é claro) das energias fósseis para as renováveis. O segundo, e talvez mais importante dos cinco pilares, é a transformação do estoque de construções de todo o mundo em microusinas de coleta (e de distribuição) de energia. Na União Europeia, onde essa ideia se converteu em orientação de política pública, Rifkin fala da existência de 190 milhões de microusinas. Cada edificação tem o poder de absorver e transformar localmente energia vinda dos ventos, do sol e da reciclagem daquilo que seus ocupantes produzem e consomem. O princípio é que, contrariamente aos combustíveis fósseis ou ao urânio (energias de elite, que se encontram apenas em alguns lugares), as renováveis estão por toda parte. E, embora distante do horizonte brasileiro, Rifkin cita numerosos exemplos em que esse aproveitamento das energias descentralizadas e renováveis permite novos modelos de negócio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O terceiro pilar está em tecnologias que permitirão armazenar (para se poder, então, distribuir) o produto dessas fontes inevitavelmente instáveis de energia de que são potencialmente dotadas as edificações. Rifkin prevê que, até meados deste século, a União Europeia terá uma economia do hidrogênio inteiramente apoiada em energias renováveis. Mas isso supõe - quarto pilar - que os dispositivos da economia da informação em rede possam promover a integração e a partilha desse fluxo de energia produzido de maneira descentralizada. Aí reside a nova unidade entre comunicação e energia. São redes inteligentes, mas que operam com base em energias produzidas localmente, ao contrário das duas revoluções industriais anteriores. Além de resolver um problema de oferta de energia, essas redes dão lugar a uma nova forma de poder, não mais hierárquico, mas distributivo, colaborativo, em rede. Não se trata apenas de substituir a centralização dos fósseis, da energia nuclear e das grandes hidrelétricas por gigantescas unidades solares ou eólicas. O mais importante é promover a oferta desconcentrada e partilhada de energia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O quinto pilar está no sistema de transportes, que dará maior peso aos equipamentos coletivos e também, no que se refere aos veículos individuais, aos carros elétricos e baseados em células combustíveis, integrados igualmente a esse sistema descentralizado de redes inteligentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nada garante, é claro, o triunfo do poder lateral. Mas o livro de Rifkin mostra condições especialmente privilegiadas para que colaboração social, partilha e descentralização formem a base da prosperidade no século XXI.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não é inocente o uso da palavra revolução no nome de batismo das eras econômicas. Mais do que técnicas e possibilidades de mercado, o que está em jogo na terceira revolução industrial anunciada por Jeremy Rifkin é um novo poder: partilhado, descentralizado, colaborativo ou, para usar a expressão do título de seu último livro, lateral. Em comum com as duas revoluções industriais anteriores, a do século XXI também emerge da convergência entre novos meios de comunicação e formas inéditas de produção de energia. A coerência dos grandes períodos históricos dos últimos dois séculos é dada por essa unidade entre comunicação e energia. O carvão e o vapor, no século XIX, abrem caminho não só para estradas de ferro, e imensas frotas navais, mas também para a massificação de materiais impressos, o que favorece o surgimento da educação pública na Europa e nos Estados Unidos. Na segunda revolução industrial, que domina todo o século XX, o petróleo e a eletricidade permitem o motor a combustão interna, o automóvel individual e, sobretudo a comunicação apoiada em grandes centrais elétricas: telégrafo, telefone, rádio e televisão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;A terceira revolução industrial&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; tem como marca central a rede de energia/internet. O fundamental não está na energia, na internet ou na noção de rede, e sim na junção das três: não só a energia, mas parte crescente da prosperidade do século XXI virá de uma organização social assinalada pela descentralização, pela cooperação e pela partilha.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O prognóstico já seria intrigante se partisse de um destacado acadêmico ou de um ativista ligado a movimentos sociais globais. Mas Rifkin tem ainda a qualidade de hábil articulador voltado ao diálogo com importantes dirigentes políticos contemporâneos e personalidades centrais na formulação e execução das estratégias de empresas globais. Professor do Wharton School's Executive Education Program, da Universidade da Pensilvânia, autor de 18 livros (entre eles, já traduzidos para o português, "A Era do Acesso", "O Fim dos Empregos", "A Economia do Hidrogênio" e "O Sonho Europeu"), Rifkin, nos últimos dez anos, manteve estreito contato com figuras como Angela Merkel, Manuel Barroso e José Luiz Zapatero, o que contribuiu para que o termo terceira revolução industrial se incorporasse a inúmeros documentos da União Europeia. Ao mesmo tempo, em torno da terceira revolução industrial reúne-se hoje uma centena de dirigentes empresariais globais. Muito mais do que um conjunto abstrato de normas e prescrições, a terceira revolução industrial está na agenda de algumas das mais importantes forças sociais e políticas contemporâneas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pelas resistências que desperta e pela mobilização que exige, seu sucesso depende de uma nova narrativa. A do período que se esgota agora é clara: concentrar recursos, fortalecer os regimes exclusivos de propriedade e favorecer a busca estreita dos interesses individuais são condições para a eficiência alocativa, da qual decorreriam produção de riqueza e bem-estar crescentes. A crise desencadeada em 2008 foi a pá de cal que retirou coerência a essa narrativa, como mostra o livro em sua primeira parte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A narrativa da &lt;strong&gt;terceira revolução industrial&lt;/strong&gt;, também exposta no livro, apoia-se em &lt;strong&gt;cinco pilares&lt;/strong&gt;, que trazem consigo uma reorganização na cultura, nos modos de vida e nas formas de se fazer negócio. O primeiro está na passagem (nada trivial, é claro) das energias fósseis para as renováveis. O segundo, e talvez mais importante dos cinco pilares, é a transformação do estoque de construções de todo o mundo em microusinas de coleta (e de distribuição) de energia. Na União Europeia, onde essa ideia se converteu em orientação de política pública, Rifkin fala da existência de 190 milhões de microusinas. Cada edificação tem o poder de absorver e transformar localmente energia vinda dos ventos, do sol e da reciclagem daquilo que seus ocupantes produzem e consomem. O princípio é que, contrariamente aos combustíveis fósseis ou ao urânio (energias de elite, que se encontram apenas em alguns lugares), as renováveis estão por toda parte. E, embora distante do horizonte brasileiro, Rifkin cita numerosos exemplos em que esse aproveitamento das energias descentralizadas e renováveis permite novos modelos de negócio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O terceiro pilar está em tecnologias que permitirão armazenar (para se poder, então, distribuir) o produto dessas fontes inevitavelmente instáveis de energia de que são potencialmente dotadas as edificações. Rifkin prevê que, até meados deste século, a União Europeia terá uma economia do hidrogênio inteiramente apoiada em energias renováveis. Mas isso supõe - quarto pilar - que os dispositivos da economia da informação em rede possam promover a integração e a partilha desse fluxo de energia produzido de maneira descentralizada. Aí reside a nova unidade entre comunicação e energia. São redes inteligentes, mas que operam com base em energias produzidas localmente, ao contrário das duas revoluções industriais anteriores. Além de resolver um problema de oferta de energia, essas redes dão lugar a uma nova forma de poder, não mais hierárquico, mas distributivo, colaborativo, em rede. Não se trata apenas de substituir a centralização dos fósseis, da energia nuclear e das grandes hidrelétricas por gigantescas unidades solares ou eólicas. O mais importante é promover a oferta desconcentrada e partilhada de energia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O quinto pilar está no sistema de transportes, que dará maior peso aos equipamentos coletivos e também, no que se refere aos veículos individuais, aos carros elétricos e baseados em células combustíveis, integrados igualmente a esse sistema descentralizado de redes inteligentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nada garante, é claro, o triunfo do poder lateral. Mas o livro de Rifkin mostra condições especialmente privilegiadas para que colaboração social, partilha e descentralização formem a base da prosperidade no século XXI.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.bloomberg.com/image/ihoOjUFJpJpE.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="320px" src="http://www.bloomberg.com/image/ihoOjUFJpJpE.jpg" width="210px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;"The Third Industrial Revolution"&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Jeremy Rifkin. Palgrave Macmillan. 304 págs., US$ 27,95&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;----------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;*Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de economia e do Instituto de Relações Internacionais da USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp. Twitter: @abramovay - &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://www.abramovay.pro.br/"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;www.abramovay.pro.br&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Valor Econômico on line, 24/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-8855514877186697181?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/8855514877186697181/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/o-poder-e-partilhado-na-revolucao-do.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8855514877186697181'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8855514877186697181'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/o-poder-e-partilhado-na-revolucao-do.html' title='O poder é partilhado na revolução do século XXI'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-1SAZmRYRQzI/Tx6FjkQqyRI/AAAAAAAAIQc/Kdq3-ue7To8/s72-c/abramo-d10.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-8883171736738041023</id><published>2012-01-24T08:11:00.000-02:00</published><updated>2012-01-24T08:11:35.299-02:00</updated><title type='text'>4% em 2012. Por que não?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Antonio Delfim Netto*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.formulaenlosnegocios.com.mx/wp-content/uploads/2011/08/ppg-economia-1024x830.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" gda="true" height="323px" src="http://www.formulaenlosnegocios.com.mx/wp-content/uploads/2011/08/ppg-economia-1024x830.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;Q&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;uando se olha o resultado obtido pelas políticas econômica e social de 2011, parece justo concluir que ele foi bastante razoável, tendo em vista: 1) o quadro internacional de desintegração das economias desenvolvidas; 2) as dúvidas e as críticas que elas sofreram da maioria dos analistas financeiros à medida que eram implementadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje, parece claro que a mudança da política econômica, que deu mais ênfase à fiscal, proporcionou maior grau de liberdade à monetária para usar outros instrumentos como, por exemplo, o IOF sobre transações que envolvem a taxa de câmbio. A ação do governo estava mais antenada com a realidade do mundo e com o desenvolvimento recente da economia do que uma boa parte dos seus críticos. Isso é objetivamente revelado na enorme aprovação popular do primeiro ano da presidente Dilma Rousseff.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Provavelmente o fato mais importante de 2011 seja a credibilidade crescente da política fiscal (em meio a dúvidas iniciais) pelo cumprimento do objetivo de fazer o superávit primário em torno de 3,2% do PIB. Isso deu conforto ao Banco Central para que exercesse a sua musculatura, iniciando uma queda da taxa real de juros.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O compromisso de fazê-lo em 3,1% do PIB em 2012, como prometido pelo governo, é importante para a continuação da redução cuidadosa da taxa de juros real para um nível parecido ao do mercado internacional. Essa é uma das condições necessárias para que funcione adequadamente o sistema de câmbio flutuante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É preciso lembrar: 1) que a taxa de câmbio (juntamente com adequada matriz de tarifas efetivas) determina o equilíbrio entre o valor do fluxo de bens e serviços exportados e dos importados e é um dos preços mais importantes para manter a economia num alto nível de utilização dos fatores de produção internos, inclusive o emprego da mão de obra; e 2) que ela é sensível à política fiscal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Felizmente, ninguém mais fala que &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;o produto potencial é de 3,5%&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Parece possível afirmar que uma sólida política fiscal, que controle o ritmo de crescimento das despesas de custeio e transferências, abra espaço para o investimento público e permita à política monetária continuar a reduzir a taxa de juros real e, simultaneamente, ampliar o crédito ao setor privado (não há nenhuma contradição nisso), condição fundamental para um crescimento mais robusto em 2012, com uma taxa de inflação convergindo para a meta e a sustentação de um câmbio real mais amigável com o setor industrial brasileiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com relação à situação fiscal (dívida/PIB) não há nada que no momento nos atrapalhe. Não podemos esquecer, entretanto, que a relação dívida líquida/PIB não satisfaz à condição de transparência. Melhor seria usar - como a grande maioria dos países - a relação dívida pública bruta/PIB, que hoje anda em torno de 64%, 2/3 maior que a dos emergentes, excluído o Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dito isso, como devemos tratar o problema do crescimento em 2012? A maioria dos que têm a obrigação, por motivos profissionais, de prevê-la afirma que ela será qualquer coisa entre 3% e 3,5%, mas não explicita quais as condicionalidades da profecia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Felizmente, ninguém mais fala que o "produto potencial" brasileiro é de 3,5%. Fala-se agora de 4,5%. Mas como disse numa entrevista imperdível, no Valor (20/22 janeiro de 2012), um dos nossos economistas mais bem apetrechados, o competente e sóbrio Sergio Werlang, "estou mais para 4,5% como crescimento potencial, mas se já há erro na medida do próprio PIB, imagine na medida do potencial".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já devíamos ter aprendido que a única forma segura de prever o futuro é tentar construí-lo. Honestamente, não há nenhuma razão para supor que não possamos crescer entre 4% e 4,5% (entre o último trimestre de 2011 e o seu homólogo de 2012), se o governo cumprir seu programa fiscal e ativar os investimentos do PAC, atento à flutuação estacional das despesas num ano eleitoral; transferir com rapidez o máximo possível dos investimentos em infraestrutura para o setor privado através de concessões e parcerias; prosseguir na pressão para aprovar o sistema previdenciário público e eliminar alguns absurdos tributários, que continuam a destruir nossas exportações industriais e trabalhar contra o aumento do valor adicionado das exportações agrícolas. Nada impossível com a credibilidade da presidente e sua cômoda maioria no Congresso.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para crescer 4% em 2012 com a inflação sob controle, o governo tem que fazer a sua parte. Cumprir transparentemente sua meta fiscal e cooptar o setor privado (trabalhadores, empresários e banqueiros) para tomar o risco de o acompanhar para fazê-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nota à parte. Quem ainda tem curiosidade e capacidade para surpreender-se sobre os efeitos dos IOF no mercado cambial, não deve perder o artigo "Bubble Thy Neighbor: Direct and Spillover Effects of Capital Control", apresentado numa conferência promovida pela Allied Social Sciences Association, em Chicago, pelos economistas Kristin Forbes (MIT-Sloan School of Management), Marcel Fratzscher, Thomas Kostka e Roland Straub (todos do Banco Central Europeu), em novembro de 2011.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;------------------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;* Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;E-mail &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:contatodelfimnetto@terra.com.br"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;contatodelfimnetto@terra.com.br&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Arial, Helvetica, sans-serif; font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Valor Econômico on line, 24/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Arial; font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-8883171736738041023?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/8883171736738041023/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/4-em-2012-por-que-nao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8883171736738041023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8883171736738041023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/4-em-2012-por-que-nao.html' title='4% em 2012. Por que não?'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7855660928172837455</id><published>2012-01-23T22:27:00.001-02:00</published><updated>2012-01-23T22:33:59.274-02:00</updated><title type='text'>“A causa da crise é a lógica do próprio capitalismo”</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.dewereldmorgen.be/sites/default/files/imagecache/slideshow_1680x1050/2010/07/22/francois-houtart_indymedia.be_.jpeg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="300px" nfa="true" src="http://www.dewereldmorgen.be/sites/default/files/imagecache/slideshow_1680x1050/2010/07/22/francois-houtart_indymedia.be_.jpeg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;A &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;crise que vivemos é mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, afirma o professor François Houtart. Segundo ele, sua dimensão evidentemente está vinculada ao fenômeno da globalização. Porém, ressalta que a atual crise não é nova. Não é a primeira crise do sistema financeiro e muitos dizem que não será a última. Houtart acredita que o mais importante, e isso é diferente dos anos 1929 e 1930, é essa combinação com vários tipos de crises. E afirma: a causa fundamental da crise financeira é a lógica do próprio capitalismo. “A crise financeira é devida à lógica do capital, que tenta buscar mais lucros para acumular capital, que é, dentro dessa teoria, o motor da economia”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em entrevista ao Brasil de Fato, Houtart fala também sobre as várias facetas desta crise, inclusive a crise alimentar, a qual, segundo ele, faz parte da mesma lógica. “A combinação da crise econômica com a alimentar é algo novo. Porém, são vinculadas”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Brasil de Fato – O mundo vive hoje uma crise mundial, que tem afetado principalmente os Estados Unidos e a Europa. Como o senhor avalia esse cenário?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;François Houtart –&lt;/strong&gt; Eu penso que, primeiro, se trata de uma crise do sistema econômico capitalista, que é muito similar à crise dos anos de 1929-1930 e também a muitas outras crises cíclicas do sistema capitalista onde há subprodução, subconsumo e eventualmente crises financeiras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A crise que vivemos hoje me parece mais profunda e bastante diferente da que conhecemos nos anos 1929 e 1930, porque, primeiro, sua dimensão evidentemente está vinculada ao fenômeno da globalização. Isso significa que hoje há um efeito muito mais global do que nos anos de 1929-1930 e que evidentemente afeta o conjunto da economia. Já está afetando os países emergentes e de uma maneira ou outra afetará outros países do mundo. Porém, o mais importante, e isso é diferente dos anos 1929 e 1930, é essa combinação com vários tipos de crises. Por exemplo, a crise alimentar, que foi conjuntural nos anos 2008-2009 e que correspondeu à crise do capital financeiro. Porque o capital financeiro tem buscado novos lugares de especulação e o lugar foi a alimentação, com conseqüências terríveis. E a crise alimentar é também estrutural e não somente conjuntural, porque precisamente afeta toda a maneira de fazer a agricultura. E a introdução cada vez mais forte do capital dentro da agricultura, com a concentração de terras, gera uma contrarreforma agrária mundial e o desenvolvimento de monocultivos, com todas as consequências ecológicas de destruição de ambiente e também de destruição humana; por exemplo, a exclusão dos camponeses de suas terras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A combinação da crise econômica com a alimentar é algo novo. Porém, são vinculadas. Na verdade, a crise financeira é devida à lógica do capital, que tenta buscar mais lucros para acumular capital, que é, dentro dessa teoria, o motor da economia. Se o capital financeiro é mais proveitoso do que o produtivo, ele faz a lei da economia mundial como é hoje. Assim, essa é evidentemente a lógica do capitalismo que provoca a crise financeira, que tem efeitos econômicos, porque tem efeitos sobre emprego, crédito e toda a economia. Porém, é essa mesma lógica que está provocando a crise alimentar, porque, por uma parte, há uma especulação – o preço do trigo, por exemplo, tem dobrado 100% em um ano, menos de um ano, por razões puramente especulativas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E quais são as conseqüências sociais dessa crise?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na verdade, as consequências sociais da crise financeira são sentidas além das fronteiras da sua própria origem e afetam os fundamentos da economia. Desemprego, custo de vida crescente, a exclusão dos mais pobres, a vulnerabilidade das classes médias, expandindo a lista de vítimas no mundo. Não é apenas um acidente no percurso, ou apenas de abusos cometidos por alguns atores econômicos que precisam ser punidos. Somos confrontados com uma lógica que corre ao longo da história econômica do século passado. O desenrolar dos acontecimentos sempre responde à pressão das taxas de lucro. A crise que vivemos hoje não é nova. Não é a primeira crise do sistema financeiro e muitos dizem que não será a última.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A seu ver, qual é a principal causa dessa crise mundial?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A causa fundamental da crise financeira é a lógica do próprio capitalismo, que torna o capital motor da economia. E seu desenvolvimento – essencialmente, a acumulação – leva à maximização do lucro. Se a financeirização da economia favorece a taxa de lucro e se a especulação acelerou o fenômeno, a organização da economia como um todo continua dessa forma. Mas um mercado não regulamentado capitalista conduz inevitavelmente à crise. E, como indicado no relatório da Comissão das Nações Unidas, é uma crise macroeconômica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Um dos graves problemas da humanidade hoje é a fome. Como fica essa questão frente a esse cenário de crise?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A crise alimentar tem dois aspectos, um cíclico e um estrutural. O primeiro manifestou-se com o aumento dos preços dos alimentos em 2007 e 2008. Sim, para explicar o fenômeno, houve alguma base eficiente, como alguma diminuição fraca em reservas de alimentos, mas a principal razão foi de natureza especulativa, em que a produção de agrocombustíveis não ficou imune (etanol de milho nos Estados Unidos). Assim, o preço do trigo na Chicago Board (Bolsa de Chicago) aumentou para 100%, do milho 98% e do etanol, 80%. Durante esses anos, uma parte do capital especulativo passou de outros setores para investir na produção de alimentos, na busca por lucros rápidos e significativos. Consequentemente, segundo o diretor da FAO, em geral, a cada ano, em 2008 e 2009, mais de 50 milhões de pessoas ficaram abaixo da linha da pobreza e o total de pessoas que viviam nessa situação em 2008 atingiu um valor nunca antes conhecido – de mais de um bilhão de pessoas. Essa situação foi claramente o resultado da lógica do lucro, a lei capitalista do valor.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O segundo aspecto é estrutural. É a expansão durante os últimos anos da monocultura, resultando na concentração da terra, ou seja, uma verdadeira contrarreforma. A agricultura familiar foi destruída em todo o mundo sob o pretexto de sua baixa produtividade. Na verdade, as monoculturas têm uma produção que às vezes pode ir até 500% ou mais de 1000%. No entanto, dois fatores devem ser levados em conta. A primeira é a destruição ecológica dessa forma de produzir. Florestas são removidas, solo e água contaminados pelo uso maciço de produtos químicos. Agricultores são forçados a deixar suas terras e há milhões que têm de migrar para as favelas das cidades, aumentando a crise urbana, e aumentando a pressão da migração interna, como no Brasil, ou externa, como em muitos outros países.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Então a fome no mundo não tem nada a ver com a produção de alimentos, com a capacidade de produzir?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não. Não tem nada a ver com a produção. A questão é somente especulativa. É a Bolsa de Chicago que fixa os preços internacionais dos grãos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E como o senhor vê as afirmações de alguns estudiosos de que o planeta, com uma população na casa dos 7 bilhões de pessoas, se torna incapaz de produzir alimentos para nutrir tanta gente?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isso é totalmente falso. Segundo a FAO, teoricamente a Terra pode facilmente nutrir 10 ou 12 bilhões de habitantes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E a questão energética, também faz parte desse cenário de crise?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A crise de energia vai além da explosão conjuntural dos preços do petróleo e faz parte do esgotamento dos recursos naturais explorados pelo modelo de desenvolvimento capitalista. Uma coisa é clara: a humanidade vai ter que mudar a fonte de sua energia nos próximos 50 anos. Os picos de petróleo, urânio e gás podem ser discutidos em termos de anos precisos, mas ainda assim sabemos que esses recursos não são inesgotáveis e que as datas não estão longe. Com o esgotamento, inevitavelmente vem o aumento dos preços das commodities, com todas as consequências sociais e políticas. Além disso, o controle internacional de fontes de energia fósseis e outros materiais estratégicos é cada vez mais importante para as potências industriais, que não hesitam em usar a força militar para se apropriar deles. É no contexto de escassez de energia no futuro que se insere parte do problema dos agrocombustíveis. Diante da expansão da demanda e da redução esperada em recursos energéticos fósseis, há uma certa urgência de se encontrar soluções. Como novas fontes de energia exigem o desenvolvimento de tecnologias ainda não muito avançadas (como a solar ou à base de hidrogênio) e outras soluções são interessantes, mas economicamente marginais ou não rentáveis (mais uma vez, a solar e a eólica), a dos agrocombustíveis pareceu interessante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mas a produção dos agrocombustíveis traz também graves consequências.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A produção de agrocombustível é feita na forma de monocultura. Em muitos casos, isso envolve a remoção de grandes florestas. Na Malásia e na Indonésia, em menos de 20 anos 80% da floresta original foi destruída pelas plantações da palma e eucalipto. A biodiversidade é removida, com todas as consequências sobre a reprodução da vida. Para produzir é usado não só muita água, mas um monte de produtos químicos, como fertilizantes ou pesticidas. O resultado é uma poluição intensiva de água subterrânea, dos rios que desembocam no mar, e um perigo real de falta de água potável para as populações. Além disso, os pequenos agricultores são expulsos e muitas comunidades indígenas perdem suas terras ancestrais, causando uma série de conflitos sociais, até mesmo violentos. O desenvolvimento de agrocombustíveis corresponde à negligência das externalidades ambientais e sociais, típicas da lógica do capitalismo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"A solução é dentro do capitalismo, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;um sistema historicamente esgotado, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;mesmo que tenha ainda muitos meios de adaptação. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;A gravidade da crise é tal que devemos &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;pensar em alternativas,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;não &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;somente em regulações."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E como o senhor vê a questão climática nesse cenário atual?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A crise climática é bem conhecida e as informações estão se tornando mais precisas, graças a várias conferências da ONU sobre clima, biodiversidade, geleiras etc. Enquanto o atual modelo de desenvolvimento continuar emitindo gases de efeito-estufa (especialmente CO2), destruindo os sumidouros de carbono, ou seja, sítios naturais de absorção desses gases, especialmente florestas e os oceanos, a crise continuará. A pegada ecológica é de tal ordem que, de acordo com estimativas, em 2010, em meados de agosto, o planeta tinha esgotado a sua reprodução natural. Além disso, de acordo com o relatório do Dr. Nicholas Stern para o governo britânico, em 2006, se as tendências atuais continuarem na metade do século existirão entre 150 e 200 milhões de migrantes climáticos, e os mais recentes números são ainda mais elevados.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E como o senhor avalia as medidas adotadas pelas elites e governos para tentar superar essas crises? E quais são as soluções?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A primeira solução é a do sistema. Alguns, principalmente preocupados com a crise financeira, propuseram mudar e punir os responsáveis. Essa é a teoria do capitalismo (teoria neoclássica em economia), que vê elementos positivos na crise, porque eles permitem a liberação de elementos fracos ou corruptos para retomar o processo de acumulação em bases saudáveis. Atores são alterados, e não se muda o sistema. Evidentemente não é solução. A segunda visão é propor regulamentos. É reconhecido que o mercado regula a si mesmo e que os organismos nacionais e internacionais têm necessidade de executar essa tarefa. Os Estados e organizações internacionais devem ser envolvidos. O G8, por exemplo, propôs certos regulamentos do sistema econômico global, mas ligeiros e temporários. Em vez disso, a ONU apresentou uma série de regulamentações muito mais avançadas. Propôs a criação de um Conselho de Coordenação Econômica Global, em pé de igualdade com o Conselho de Segurança, e também um painel internacional de especialistas para acompanhar permanentemente a situação econômica global. Outras recomendações tratadas foram a abolição dos paraísos fiscais e do sigilo bancário e, também, maiores requisitos de reservas bancárias e um controle mais rígido das agências de notação de crédito. A profunda reforma das instituições de Bretton Woods foi incluída, bem como a possibilidade de se criar moedas regionais em vez de ter como referência única o dólar. Os regulamentos propostos pela Comissão Stiglitz para reconstruir o sistema financeiro e monetário, apesar de algumas referências a outros aspectos da crise, tais como clima, energia, alimentos – e apesar do uso da palavra sustentável para qualificar o crescimento – não têm a profundidade suficiente para fazer a pergunta: para que reparar o sistema econômico? Para desenvolver, como antes, um modelo que destrói a natureza e é socialmente desequilibrado? É provável que as propostas para reformar o sistema monetário e financeiro serão eficazes para superar a crise financeira, e muito mais do que o que foi feito até agora, mas é suficiente para responder a desafios globais contemporâneos? A solução é dentro do capitalismo, um sistema historicamente esgotado, mesmo que tenha ainda muitos meios de adaptação. A gravidade da crise é tal que devemos pensar em alternativas, não somente em regulações.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Porque socialismo não é uma palavra. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;É um conteúdo. E eu penso que devemos &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;redefinir o conteúdo do socialismo."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E, quais seriam, por exemplo, essas outras alternativas?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Questionar o próprio modelo de desenvolvimento. A multiplicidade de crises que foram exacerbadas nos últimos tempos é resultado da lógica de mesmo fundo: uma concepção de desenvolvimento que ignora as “externalidades” (danos naturais e sociais); a ideia de um planeta inesgotável; o foco no valor de troca em detrimento do valor de uso; e a identificação da economia com a taxa de acumulação de lucro e do capital que cria, consequentemente, enormes desigualdades econômicas e sociais. Esse modelo resultou em um crescimento espetacular da riqueza global, mas seu papel histórico se perdeu, devido à sua natureza destrutiva e da desigualdade social que resultou. A racionalidade econômica do capitalismo, escreve Wim Dierckxsens, não apenas tende a negar a vida da maioria da população mundial como também destrói a vida natural.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Temos que discutir alternativas ao modelo econômico capitalista prevalecente hoje e os meios para rever o próprio paradigma (orientação básica) da vida coletiva da humanidade sobre o planeta, conforme definido pela lógica do capitalismo, que hoje é global. A vida coletiva é composta por quatro elementos que chamamos de base, porque as exigências são parte da vida de toda sociedade, desde as mais antigas até as mais contemporâneas: a relação com a natureza; a produção da base material da vida física, cultural e espiritual; a organização social e política coletiva; e a leitura do real e autoenvolvimento dos atores na sua construção da cultura. Ou seja, cada sociedade tem essa tarefa para realizar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Mas as alternativas necessariamente passam pelo envolvimento do conjunto da sociedade organizada, dos movimentos sociais.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Exatamente. As alternativas são tão importantes que não vão chegar por si só. É somente pela pressão dos movimentos sociais, movimentos políticos também, que podemos esperar chegar a redefinir os objetivos fundamentais da presença humana no planeta e o desenvolvimento humano no planeta. E isso significa transformar a relação com a natureza. Passar da exploração ao respeito. Significa outra definição da economia. Não somente produzir um valor agregado senão produzir as bases da vida. Da vida física, cultural, espiritual de todos os seres humanos no planeta. Isso é a economia. Porém, isso não corresponde à definição do capitalismo. Também é preciso generalizar a democracia a todas as instituições, não somente políticas e econômicas mas também na relações humanas, relações entre homens e mulheres etc. É necessário também não identificar desenvolvimento com civilização ocidental e dar a possibilidade a todas as culturas, religiões, filosofias de participar dessa construção. Isso é o que chamo de construir o bem comum da humanidade, que é a vida; assegurar a vida, a vida do planeta e a vida da humanidade. Isso é um projeto alternativo, que pode parecer utópico. Porém não é utópico porque existem milhares de organizações e movimentos sociais que já trabalham para transformar esses aspectos da vida comum da humanidade, para melhorar a relação com a natureza, para ter outro tipo de economia, para ter uma participação, uma democracia que seja participativa e para renovar a cultura. Existem muitas iniciativas. Isso posso chamar de construção do socialismo. Porque socialismo não é uma palavra. É um conteúdo. E eu penso que devemos redefinir o conteúdo do socialismo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como o senhor analisa a América Latina neste contexto da crise e qual é o papel dos movimentos sociais?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É muito interessante porque a América Latina é o único continente do mundo onde temos tido alguns avanços. Não ainda na opção de novo paradigma, nova orientação fundamental, porém, pelo menos avanços, que não existem em outros continentes até agora. Mas não é algo generalizado na América Latina. Há alguns países que só reproduzem o sistema, com sua dependência ao capital internacional, particularmente do norte do continente americano. São países como México, Colômbia, Chile, Panamá, Costa Rica, Honduras etc. São países onde a burguesia local está totalmente vinculada com o sistema internacional e, nesse sentido, não tem outro projeto senão um projeto muito repressivo contra as populações.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Subordinação total.&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Exatamente. Há uma segunda realidade, que são os países que podemos chamar de “adaptações ao sistema”. E aí existem dois tipos de países. Há os que dizem: sim, o sistema necessita de mudanças fundamentais e devemos nos adaptar à lógica do capitalismo. E para se ter mais justiça social e repartir parte do lucro, como já dizia Marx, com o rápido avanço das forças produtivas, temos um aumento dos lucros e da destruição da natureza. Nesse tipo de desenvolvimento se inserem Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, que possuem programas sociais eficazes. Com resultados indubitáveis porque milhões de pessoas saíram da pobreza, o que não podemos desprezar, porém, esse modelo não transforma profundamente a sociedade; isso representa apenas uma redistribuição de parte do lucro. Não podemos dizer que é uma mudança de paradigma. Entretanto, há países como Venezuela, Equador e a Bolívia, que têm outro discurso, o do socialismo do século 21, que pelo menos faz uma alusão a uma transformação fundamental. Pelo menos no Equador e na Bolívia, entre o discurso e a prática eu vejo grande avanços, em que as práticas dos governos seguem uma orientação das demandas sociais apresentadas pelos movimentos sociais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Então, neste contexto de crise, os países que estão mais vulneráveis sofrem mais as consequências?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não estou seguro. Teoricamente pode-se dizer que sim, esses países serão mais afetados em médio prazo. Porém, no momento é igual em todas as partes. Mas, evidentemente, os países mais vinculados ao sistema serão mais afetados em médio prazo. Entretanto, desgraçadamente, países como Venezuela e Bolívia também são indiretamente dependentes do sistema global e sofrerão as consequências. O que eu acho que é cedo demais pra se dizer, com diz Samir Amin, que eles conseguiram fazer uma desconexão. Não, não conseguiram. Mas é óbvio que as economias mais vinculadas à economia do Norte sofrerão as consequências a curto prazo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;No caso da América Latina, uma maior integração dos países seria uma alternativa frente a esse cenário mundial? O papel do Estado é fundamental neste contexto?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Absolutamente. Mas, para encerrar a tipologia, eu penso que a Venezuela é um país que avança para um novo modelo, onde as mudanças são mais aprofundadas. O papel do Estado não pode ser concebido sem levar em conta a situação dos grupos mais marginalizados socialmente, os sem-terra, as castas mais baixas ignoradas por milênios, os povos indígenas da América e os excluídos de ascendência africana; e, nesses grupos, as mulheres são muitas vezes duplamente marginalizadas. A expansão da democracia também se aplica para o diálogo entre os movimentos políticos e sociais. A organização de instâncias de consulta e diálogo pertence ao mesmo conceito, respeitando a autonomia mútua. O projeto de um conselho de movimentos sociais na arquitetura geral da Alba é uma tentativa original nessa direção. O conceito de sociedade civil muitas vezes utilizados para esse fim ainda é ambíguo, porque ela é também o lugar da luta de classes: há realmente uma sociedade civil de baixo e de cima e o uso do termo de forma não qualificada permite muitas vezes a criação de uma confusão e a apresentação de soluções que ignoram as diferenças sociais. Por outro lado, as formas de democracia participativa, como os encontrados em vários países latino-americanos, também entram na mesma lógica da democracia em geral. Todas as novas instituições regionais latino-americanas, como o Banco do Sul, a moeda regional (o sucre) e a Alba, serão objeto de atenção especial na direção de propagação da democracia. E o mesmo vale para os outros continentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;---------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;*François Houtart é sociólogo e professor da Universidade Católica de Louvain (Bélgica). É diretor do Centro Tricontinental, entidade que desenvolve trabalho na Ásia, África e América Latina&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;strong&gt;Reportagem por&amp;nbsp; &lt;/strong&gt;Nilton Viana, do Brasil de Fato&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://mercadoetico.terra.com.br/23/01/2012"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://mercadoetico.terra.com.br/23/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7855660928172837455?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7855660928172837455/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/causa-da-crise-e-logica-do-proprio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7855660928172837455'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7855660928172837455'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/causa-da-crise-e-logica-do-proprio.html' title='“A causa da crise é a lógica do próprio capitalismo”'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7647386929632784453</id><published>2012-01-23T11:14:00.000-02:00</published><updated>2012-01-23T11:14:10.783-02:00</updated><title type='text'>Por que devemos voltar para Jesus.</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Hans Küng*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://media.news.de/resources/thumbs/55/7b/855191955_800x600/f13b050b1e137d919a904b89c7e3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="298px" nfa="true" src="http://media.news.de/resources/thumbs/55/7b/855191955_800x600/f13b050b1e137d919a904b89c7e3.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Só seguindo o Messias, pode-se agir, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;sofrer e morrer de modo humano".&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;M&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;ediante o livro Ser cristão (Ed. Imago, 1976), inúmeras pessoas encontraram a coragem para serem cristãs. O autor sabe isso por causa das inúmeras resenhas, cartas e colóquios. Muitas pessoas, de fato, afastadas da prática e da pregação de alguma grande Igreja cristã, buscam caminhos para continuarem sendo cristãos confiáveis, buscam uma teologia que não seja abstrata para eles e alheia ao mundo, mas explique de modo concreto e próximo da vida em que consiste ser cristão.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ser cristão não pretendia "seduzir" as pessoas com a retórica ou agredi-las com um tom de pregação. Nem queria simplesmente fazer proclamações, declamações ou declarações em sentido teológico. Pretendia motivar, explicando que, por que e como uma pessoa crítica também pode ser responsavelmente cristã perante a sua razão e o seu ambiente social.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não se tratava de uma simples adaptação ao espírito do tempo. Certamente, sobre questão discutíveis como os milagres, o nascimento virginal e o túmulo vazio, a ascensão ao céu e a descida aos infernos, sobre a práxis eclesial e o papado também era preciso assumir posições críticas. Isso, porém, não para seguir uma fácil tendência inclinada à hostilidade contra a Igreja ou ao pancriticismo, mas sim para purificar, a partir do próprio Novo Testamento como critério, a causa do ser cristão de todas as ideologias religiosas e para apresentá-la de maneira credível.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A originalidade do livro não está, portanto, nas passagens críticas; está em outro lugar, no fato de ter fixado critérios que, para muitos, representam desafios em teologia. Em Ser cristão, de fato, eu tentei: apresentar toda a mensagem cristã no horizonte das ideologias e religiões contemporâneas; dizer a verdade sem resguardos de natureza político-eclesiástica e sem me preocupar com inclinações teológicas e tendências da moda; não partir, por isso, de problemáticas teológicas do passado, mas sim das questões do ser humano de hoje e, a partir daí, apontar para o centro da fé cristã; falar na língua do ser humano de hoje, sem arcaísmos bíblicos, mas também sem recorrer ao jargão teológico da moda; destacar o que é comum às confissões cristãs, como o renovado apelo ao entendimento no plano prático-organizativo; dar expressão à unidade da teologia de modo que não possa mais ser negligenciado o nexo inabalável entre teoria confiável e práxis vivível, entre religiosidade pessoal e reforma das instituições.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A esse livro não faltaram reconhecimentos públicos. Além disso, também foi uma oportunidade para as Igrejas e, nesse nível, ele encontrou um amplo consenso igualmente. No entanto, não pode ser silenciado o fato de que os membros da hierarquia alemã e romana fizeram de tudo para esvaziar essa oportunidade. Não se envergonharam – diante do sucesso do livro até mesmo entre o clero – de pôr publicamente em dúvida ou, melhor, de difamar a ortodoxia do autor. De nada serviu ao autor o fato de ter declarado amplamente, mais uma vez, a sua fé em Cristo no livro Deus existe? (1978), que apareceu quatro anos depois de Ser cristão. A hierarquia romana e alemã tomaram a cristologia aqui exposta como pretexto para retirar do autor a “missio canonica” para o ensino da teologia, pouco antes do Natal de 1979, embora jamais tenha sido realizado um processo magisterial contra Ser cristão e Deus existe?. Dessa forma, buscou-se desviar a discussão da embaraçosa questão da infalibilidade à questão cristológica, não por último para envolver os cristãos evangélicos. Além disso, para os expoentes da hierarquia contrários às reformas eram indigestas as exigências de reforma na Igreja que eram propostas nesse livro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"A minha crítica à Igreja, assim como a de &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;muitos cristãos, brota justamente &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;do sofrimento pela discrepância entre &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;o que esse Jesus histórico foi, pregou, viveu, lutou, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;sofreu, e o que hoje a Igreja institucional, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;com a sua hierarquia, representa."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim, a hierarquia alemã apoiou o percurso de restauração do papa polonês que estava então se impondo e teve que pagar um alto preço por isso: a perda de credibilidade e uma difundida hostilidade contra a Igreja na opinião pública.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Com toda a modéstia: algumas coisas na pregação e na pastoral cristã seguramente teriam sido diferentes e não tivesse sido recusada a oferta de Ser cristão. Mas, como sempre acontece: para mim, Ser cristão tornou-se ponto de partida para um novo desenvolvimento teológico e para uma espiritualidade à qual, apesar de todas as dificuldades do presente, o futuro devia pertencer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como inúmeros outros católicos antes do Concílio Vaticano II, eu também cresci com a imagem tradicional de Cristo da profissão da fé, dos concílios helênicos e dos mosaicos bizantinos: Jesus Cristo, "Filho de Deus", sentado em um trono, um "Salvador" amigo dos seres humanos e, ainda antes, para a juventude, o "Cristo Rei". Sobre isso, eu depois acompanhei, em Roma, um curso de um semestre inteiro sobre "cristologia". Certamente, eu passei sem problemas por todos os exames em latim, não exatamente simples – mas a minha espiritualidade? Isso era outra coisa totalmente diferente, permanecia insatisfeita. A figura de Cristo só se tornou decisivamente interessante para mim quando eu pude conhecê-la, com base na moderna ciência bíblica, como real figura da história.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A essência do cristianismo, de fato, não é nada de abstratamente dogmático, não é uma doutrina geral, mas sim, desde sempre, é uma figura histórica viva: Jesus de Nazaré. Ao longo dos anos, elaborei o perfil singular do Nazareno com base na riquíssima pesquisa bíblica dos últimos dois séculos, refleti sobre tudo com apaixonada participação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De Ser cristão em diante, sei do que estou falando quando, de modo totalmente elementar, eu digo: o “modelo de vida cristã” é simplesmente esse Jesus de Nazaré enquanto messias, christós, ungido e enviado. Jesus Cristo é o fundamento da autêntica espiritualidade cristã. Um exigente modelo de vida para a nossa relação com o próximo, assim como com o próprio Deus, que, para milhões de seres humanos em todo o mundo, tornou-se critério de orientação e de vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem é, portanto, um cristão? Não é aquele que diz apenas "Senhor, Senhor" e apoia um "fundamentalismo" – seja ele de tipo bíblico-protestante, ou autoritário-romano-católico ou tradicionalistaoriental-ortodoxo. Ao contrário, cristão é aquele que, em todo o caminho pessoal de vida, se esforça para se orientar praticamente para esse Cristo Jesus. Não se exige nada mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A minha vida pessoal e, assim, qualquer outra vida, com seus altos e baixos, e também a minha lealdade à Igreja e a minha crítica à Igreja só podem ser compreendidas a partir dessa referência. A minha crítica à Igreja, assim como a de muitos cristãos, brota justamente do sofrimento pela discrepância entre o que esse Jesus histórico foi, pregou, viveu, lutou, sofreu, e o que hoje a Igreja institucional, com a sua hierarquia, representa. Essa discrepância tornou-se muitas vezes insuportavelmente grande. Jesus, nas cerimônias pontifícias da basílica papal de São Pedro? Ou na oração com o presidente George W. Bush e o papa na Casa Branca? Inconcebível!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O mais urgente e mais libertador para a nossa espiritualidade cristã, consequentemente, é nos orientar pelo nosso ser cristão, tanto em nível teológico quanto prático, não tanto segundo as formulações dogmáticas tradicionais e os regulamentos eclesiásticos, mas sim de novo e cada vez mais segundo a singular figura que deu nome ao cristianismo.&lt;/div&gt;---------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Teólogo suíço-alemão Hans Küng, em artigo para o jornal Corriere della Sera, 20-01-2012. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;A tradução é de Moisés Sbardelotto.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: IHU on line, 23/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7647386929632784453?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7647386929632784453/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/por-que-devemos-voltar-para-jesus.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7647386929632784453'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7647386929632784453'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/por-que-devemos-voltar-para-jesus.html' title='Por que devemos voltar para Jesus.'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-6407998566356296926</id><published>2012-01-23T09:09:00.000-02:00</published><updated>2012-01-23T09:09:38.221-02:00</updated><title type='text'>"Seu Catatumba"</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Luiz Felipe Ponde* &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://www.artefolk.com.br/wp-content/uploads/2008/10/exu-01.jpg" width="290px" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Ríamos juntos, o 'sobrenatural' e eu, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;levando um papo sobre mulher. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Já falou com um exu?&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;C&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;onversava eu com um exu numa festa num terreiro de candomblé quando, de repente, ele começou a falar de mulher. Grande especialista. Para quem é "consumidor" do sexo frágil, exus são grandes mestres. Você já conversou com um exu? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Recomendo conversar. Pura sabedoria popular, daquelas que marxistas menos obcecados chamariam de espírito menos alienado porque mais "orgânico". No caso, a palavra "espírito" tem duplo sentido, e um deles é espírito como "fantasma incorporado". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não, exus não são demônios, são mais uma espécie de orixá que media as relações entre nós e os deuses. Alguns os relacionam a Hermes (Grécia), Mercúrio (Roma) e Thot (Egito), todos os três deuses mensageiros entre os homens e os deuses. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como ele está em meio ao nosso mundo, é "melado" com ele, claro. Ocupa-se de nossas demandas e, por isso, são famosos por "trancarem ou abrirem as encruzilhadas da vida". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Claro que existe aí um sincretismo, porque este exu também tem um nome próprio de "quando viveu na Terra", e orixá africano "puro" nunca "viveu na Terra" como um encarnado. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As parceiras dos exus são as "pombagiras", mulheres que gostam de falar de amor e sexo, que, quando vivas, tiveram muitos amantes e que representam, assim como os exus, a dimensão mais carnal e erótica da vida. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando elas "descem" e começam a dançar, é bonito de ver e de escutar suas músicas de lamento de amor e de desejo de sexo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Incrível como também nessa religião de origem africana, as mulheres são especialistas em amor e sexo e só pensam "naquilo". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ingenuidade masculina pensar que somos mais obcecados por sexo do que elas. Se um dia você, meu caro leitor, tiver a chance de ouvir um papinho entre mulheres, você provavelmente vai se sentir um santinho inexperiente. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Então me dizia "Seu Catatumba", o nome que ele escolheu para si mesmo depois de assumir sua função na "falange" dos exus: "Não dá para entender as mulheres!". Imagine só: o cara é um deus numa religião africana e me disse isso num papo em que ele e eu fumávamos charutos cubanos e bebíamos cerveja. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Até os deuses sabem disso, menos elas. As mulheres são incompreensíveis. Mas essa incompreensibilidade não as atinge prioritariamente quando atuam como profissionais, mas principalmente quando relações de afeto estão envolvidas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Dizia "Seu Catatumba": "Quando você está dizendo a verdade, ela não acredita; quando você está mentindo, ela acredita; quando chora, é porque ri por dentro; quando ri, é porque está triste; quando você acha assim, ela acha assado, quando você acha assado, ela acha assim; quando você vai para cá, ela vai para lá; quando você vai para lá, ela vem para cá; quando diz sim, é não; quando diz não, é sim". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ríamos juntos, o "sobrenatural" e eu. Uma delícia levar um papo sobre mulher com o "sobrenatural", fumando legítimos cubanos (presente meu para ele) e cerveja, e ver que nem ele sabe nada sobre o que as mulheres querem. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Meu caro Freud, você está perdoado: nem deuses africanos sabem o que a mulher quer. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Seu Catatumba", pelo que me disse, "morreu de mulher" (por causa de mulher). Aliás, morte bem dramática e digna de ópera: esfaqueado pelas costas. Como se dizia antigamente, "crime passional", hoje seria apenas "crime de gênero". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Teoria de gênero é a teoria segundo a qual não existe mulher e homem, mas sim "construções sociais" a serviço da opressão, assim como o mito do Papai Noel está a serviço das lojas de brinquedos. Para os tarados da teoria de gênero, um exu é apenas mais um machista. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Continuava "Seu Catatumba": "Morri de mulher; passei a vida atrás delas; tentei sempre fazer o que elas queriam; sempre amei as mulheres; sempre no meio delas, atrás delas; coisa gostosa é mulher; a gente homem é bicho bobo por mulher, e sempre acaba morrendo por causa de uma". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não é novo o que me disse o exu, mas é encantadora a ideia de que mesmo ele, meio homem, meio deus, aliás, como uma espécie de Eros platônico em versão africana, confirma: não dá para entender as mulheres. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Você pergunta se eu acredito em exus? "Yo no creo en las brujas pero que las hay las hay." &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Filósofo. Prof. Universitário. Escritor. Colunista da Folha&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="mailto:ponde.folha@uol.com.br"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;ponde.folha@uol.com.br&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Folha on line, 23/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-6407998566356296926?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/6407998566356296926/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/seu-catatumba.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6407998566356296926'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6407998566356296926'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/seu-catatumba.html' title='&quot;Seu Catatumba&quot;'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-1613757292008876887</id><published>2012-01-23T08:25:00.000-02:00</published><updated>2012-01-23T08:25:04.275-02:00</updated><title type='text'>Como mudar o mundo?</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Esther Vivas*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-wy7QGTC6vlk/Tx003lxmf9I/AAAAAAAAIQM/BQ-cGLT8dRc/s1600/esthervivas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="187px" nfa="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-wy7QGTC6vlk/Tx003lxmf9I/AAAAAAAAIQM/BQ-cGLT8dRc/s400/esthervivas.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;C&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;omo mudar o mundo? Esta é a pergunta que se fazem milhares de pessoas empenhadas em mudar as coisas, a pergunta que se repete frequentemente nos encontros sociais alternativos… uma pergunta que como bem dizia o filósofo francês&lt;em&gt; Daniel Bensaïd&lt;/em&gt; não têm resposta porque &lt;em&gt;“Não nos enganemos, ninguém sabe como mudar o mundo”.&lt;/em&gt; Não temos um manual de instruções mas sim temos algumas pistas de como fazê-lo e algumas hipóteses de trabalho.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A luta na rua e nos movimentos sociais é a primeira premissa, já que não haverá mudanças espontâneas desde cima. Aqueles que hoje ostentam o poder não renunciarão sem mais a seus privilégios. Qualquer processo de mudança será fruto da tomada de consciência dos de baixo e do combate para recuperar nossos direitos desafiando desde a rua os que mandam. Assim demonstra a história.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas também é necessário construir alternativas políticas que avancem mais além da mobilização social, já que não podemos limitar-nos a ser um lobby daqueles que mandam. É necessário ser capaz de propor opções políticas alternativas antagônicas às hoje dominantes e que tenham seu centro de gravidade nas lutas sociais. Sendo muito conscientes de que o sistema não se muda desde dentro das instituições mas sim desde a rua, mas que não podemos renunciar a espaços que também nos pertencem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje as instituições estão sequestradas pelos interesses privados e do capital. Uma minoria social, que é a que detém o poder econômico, está totalmente sobre representada nas mesmas e conta com o apoio incondicional da maior parte de quem ostenta cargos eletivos. A dinâmica de ‘portas giratórias’: aqueles que na atualidade estão nas instituições e amanhã nos conselhos assessores das principais empresas do país é uma constante e uma realidade. Nos apresentam a ideologia neoliberal como socialmente dominante… e isto é falso. E por isso pensamos que vocês anti-capitalistas e anti-sistema seriam úteis nas instituições rompendo com o discurso político hegemônico. Demonstrando que “outros mundos” são viáveis e que “outra prática política” é tão possível como necessária.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Nosso modelo de consumo se baseia &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;na lógica de um sistema capitalista &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que produz mercadorias em grande escala &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;e que necessita que alguém as comprem &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;para que o modelo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;siga funcionando."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há que avançar em ambas direções e subordinar esta última a primeira, criando mecanismos de controle de baixo para cima e aprendendo com os erros do passado tanto da esquerda política como social. Partindo de que ninguém tem verdades absolutas, de que o processo de mudanças será coletivo ou não será, de que há que aprender uns com os outros, de que é necessário trabalhar sem sectarismos nem seguidismos e que frequentemente os rótulos separam mais que unem. Sem por isso cair em relativismos nem em renúncias ideológicas. Seguramente estas sejam as lições mais difíceis: romper com o domínio moral e ideológico do sistema capitalista e patriarcal.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E como mudar o mundo não é coisa de dois dias… mas sim que é uma tarefa de longo percurso, se requer constância, perseverança e de uma “lenta impaciência”, como assinalava de novo Daniel Bensaïd, é necessário ir avançando em nossas utopias desde o cotidiano em paralelo a mobilização social contra as políticas atuais e em defesa de outras medidas. Modificando o mundo em nosso dia a dia. Demonstrando com nossa prática que “outra maneira de viver” é tão possível como desejável. Alternativas desde a economia cooperativa e autogestionária, o consumo crítico e agroecológico, as finanças éticas, os meios de comunicação alternativos… são iniciativas imprescindíveis para caminhar até outro modelo de sociedade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sendo conscientes de que estas não são um fim em si mesmo mas sim um meio para avançar sem perder de vista um horizonte de sociedade mais justa e equitativa para todas e todos. Apostar por uma economia solidária no dia a dia e reivindicar também uma economia fiscal progressiva, que os que mais têm paguem mais, que se eliminem as SICAV, se combata a fraude fiscal; construir projetos agroecológicos e trabalhar também para que se proíbam os transgênicos, a favor de um banco público de terras; ter nossas poupanças em uma cooperativa de crédito mas reivindicar um sistema bancário público a serviço dos de baixo. O caminho se demonstra andando e não podemos esperar amanhã.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ainda que não esqueçamos que uma mudança de modelo social requer a mobilização consciente da maioria da população e um processo de ruptura com o atual marco institucional e econômico. A irrupção da “revolução” no panorama político, a raiz das revoluções de Túnez e Egito, a pesar de suas debilidades e limites, é por isso uma magnífica e inesperada notícia que nos deparamos neste 2011.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Assim mesmo temos que situar nosso papel no mundo e o impacto de nossas práticas no ecosistema. Vivemos em um planeta finito, ainda que o sistema capitalista se encarregue de que nos esqueçamos frequentemente disso. Nosso consumo tem um impacto direto ali onde vivemos e se todo o mundo consumir como fazemos aqui um só planeta não bastaria. Mas igualmente nos estimulam a um consumismo desenfreado e compulsivo, prometendo-nos que quanto mais consumo mais felicidade, ainda que a promessa depois nunca se cumpra. Há que começar a propor que talvez possamos “viver melhor com menos”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De todos modos, nos querem fazer culpados da práticas que nos impõem. Nos dizem que vivemos em uma sociedade consumista porque as pessoas gostam de comprar, que existe agricultura industrial e transgênica porque assim queremos… mentira. Nosso modelo de consumo se baseia na lógica de um sistema capitalista que produz mercadorias em grande escala e que necessita que alguém as comprem para que o modelo siga funcionando. Nos querem fazer cúmplices de políticas que somente eles se beneficiam. Afortunadamente o mito do mais e melhor começou a romper-se. A crise ecológica que vivemos acendeu as luzes de alarme e sabemos que esta crise climática tem suas raízes em um sistema produtivista e de curto prazo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje uma onda de indignação recorre a Europa e o mundo… rompendo o ceticismo e a resignação, que durante anos tem prevalecido em nossa sociedade, e recuperando a confiança en que a ação colectiva serve e é útil para mudar a atual ordem das coisas. Aprendemos da Primavera árabe, do “não pagaremos sua dívida” do povo islandes, do levante popular, greve geral após greve geral, na Grécia e agora o grito de Occupy Wall Street no “coração da besta” que assinala que frente ao 1% que manda somos o 99%. Os tempos se comprimem e se aceleram. Sabemos que podemos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-----------------------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;*Esther Vivas, colaboradora internacional do EcoDebate, é co-autora de “Resistencias globales. De Seattle a la crisis de Wall Street”, entre outros livros. Artígo publicado na revista Iglesia Viva.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Tradução: Paulo Marques. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;a href="http://www.ecodebate.com.br/2012/01/23/"&gt;http://www.ecodebate.com.br/2012/01/23/&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-1613757292008876887?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/1613757292008876887/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/como-mudar-o-mundo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1613757292008876887'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1613757292008876887'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/como-mudar-o-mundo.html' title='Como mudar o mundo?'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-wy7QGTC6vlk/Tx003lxmf9I/AAAAAAAAIQM/BQ-cGLT8dRc/s72-c/esthervivas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-4347635651583790738</id><published>2012-01-22T16:10:00.000-02:00</published><updated>2012-01-22T16:10:07.261-02:00</updated><title type='text'>Corpo &amp; alma</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;Roberto DaMatta*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hIOhMc-eLXw/S8Etjdp9qAI/AAAAAAAAAVU/0aUGRCwpE7g/s1600/perispirito.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_hIOhMc-eLXw/S8Etjdp9qAI/AAAAAAAAAVU/0aUGRCwpE7g/s400/perispirito.jpg" width="307px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Nada perturba tanto quanto ser diferente e, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;na maioria dos casos, ser diferente para menos.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;O ser diferente e o ser igual &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;é o problema.&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Ao&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; tentar fazer minha memória falar, seguindo o exemplo de Vladimir Nabokov do Speak, Memory - uma das mais belas narrativas que li em minha vida -, ouço o seguinte:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Robertinho é canhoto!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi como canhoto que eu comecei a atuar no mundo. E o meu problema era saber a natureza daquele qualificativo. Logo descobri que ser canhoto era ser errado. Nada perturba tanto quanto ser diferente e, na maioria dos casos, ser diferente para menos. O ser diferente e o ser igual é o problema. Pois todos somos feitos de semelhanças e diferenças e sabemos que crescer é aprender esse complicado diálogo entre o que nos iguala e o que nos diferencia. Ficou uma lembrança: eu era tão radicalmente canhoto que podia escrever como o grande Leonardo da Vinci, da esquerda para a direita. Quem me guiava no mundo, arrumando-o e construindo-o, o meu lado e a minha mão esquerda. Confirmei que ser canhoto era ser errado porque a professora me obrigava a escrever com a mão direita. Essa direita dos politicamente corretos e 'bem resolvidos', que foi a minha primeira inimiga neste mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi essa polaridade entre as mãos, cujo intenso simbolismo estudei depois num texto clássico de Robert Hertz, quem primeiro sinalizou como o corpo falava mais alto do que alma e com ela lutava.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * * *&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As oposições são simplificadoras. Não resolvem, mas - como dizia Lévi-Strauss - são saborosas para pensar. Sem elas, não há orientação, conforme descobri ainda menino quando ia pegar alguma coisa e um olho interno me via e dizia que eu estava usando a mão torta. A mão do coração e não a da cabeça.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Faz, pois, parte do meu aprendizado que o corpo e alma batalham. Muitos amigos não viveram tal luta. Os que eu mais invejava eram os que aparentemente só tinham alma e - é claro - escreviam com a mão direita. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * * *&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Homem feito, aprendi que o corpo era mais confiável do que a alma. Tal como a minha mão esquerda é, até hoje, muito mais garantida do que todo o meu lado direito. Como esses nossos políticos especializados em enchentes, sou muito mais confiável pelo lado esquerdo ou errado do que pelo meu lado direito e correto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A prática esportiva e uma tentativa de construir uma estante, bem como tantas outras coisas, me mostraram como o corpo não permite o abuso ou o erro. Que falem os meus eventuais excessos com o mero e mortal álcool; que o digam os meus planos de estudar a noite toda; que testemunhem os meus pigarros carregados de nicotina quando eu abusava do fumo. E que confirme tudo isso as vezes em que, durante um exercício físico, minha alma coloca diante do meu corpo algum objetivo mais ambicioso. A alma cobiça, mas o corpo não acompanha. Não porque não queira, mas porque não pode. Afinal, o corpo parece fácil: ele tem um assento físico, concreto, visível e verdadeiro; ao passo que a alma é abstrata, intangível, fugaz e ganha concretude mais quando recusa ou ilude do que quando acompanha o corpo.&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-BVGtrL3-ufI/TjXPrpL1NzI/AAAAAAAAAEw/JQ6ev0G_9QM/s1600/VOAR.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="342px" nfa="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-BVGtrL3-ufI/TjXPrpL1NzI/AAAAAAAAAEw/JQ6ev0G_9QM/s400/VOAR.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Porque é o corpo que permite a &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;peregrinação da alma. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;A alma é difícil de encontrar. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Quantas pessoas sem alma você já &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;encontrou na sua vida?"&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * * *&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era um corpo velho e sua alma tinha sido dilacerada por mil e uma memórias e experiências - por muitos sofrimentos advindos da inveja, da generosidade, da compaixão, do ressentimento, do esforço e da comiseração. Mas - Deus do céu! - era um corpo impávido na sua beleza e no seu orgulho de estar vivo. Um corpo que nos abria para o amor e nos tornava orgulhosos de pertencer àquela casa. Havia uma alma habitando aquele corpo, sem dúvida. Seu fulgor iluminava-o, dando-lhe um equilíbrio conquistado. Ali não havia ódio nem ressentimento. Corpo e alma estavam em paz, mas - eis a surpresa - estavam vivos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;* * * *&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu sentei ao lado dela, que havia se transformado numa figura de campo de concentração e extermínio, tal a sua fragilidade física e mental. Mas o rosto... Ah! O rosto, embora pálido, guardava a face da mulher amada. Da jovem cujo sorriso abriu o caminho para a felicidade neste mundo. E, quem sabe, no outro, conforme logo descobrimos com os nossos experimentos corporais. Porque é o corpo que permite a peregrinação da alma. A alma é difícil de encontrar. Quantas pessoas sem alma você já encontrou na sua vida? O Diabo (aquele Canhoto) leva as almas. Antigamente ele as comprava caro, com moedas de ouro; hoje elas estão se oferecendo num vasto mercado e valem menos do que um político blindado. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Deus, por outro lado, quer o corpo que, conforme diz a nossa esperança, voltará a viver para sempre no dia da ressurreição. Eis uma imagem amada por um menino canhoto. No dia em que os mortos acordarem do seu longo sono haverá a reconciliação de todos os dualismos. A vida vai englobar a morte. Nesse dia glorioso todos vamos nos ver de novo e nos abraçar enternecidos. Seremos então jovens, fortes, bonitos, puros, alegres, e sem conflitos, debaixo daquela luz gloriosa que virá de um céu que não conhecemos. Esse é o dia do encontro com todos os nossos mortos queridos. A experiência do corpo e com o corpo nos leva para essa imagem mágica e redentora de todas as nossas dúvidas e sofrimento. Amém.&lt;/div&gt;----------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Antropólogo. Escritor. Colunista do Estadão&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Estadão on line, 18/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagens da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-4347635651583790738?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/4347635651583790738/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/corpo-alma.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4347635651583790738'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4347635651583790738'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/corpo-alma.html' title='Corpo &amp; alma'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hIOhMc-eLXw/S8Etjdp9qAI/AAAAAAAAAVU/0aUGRCwpE7g/s72-c/perispirito.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-483703343089281630</id><published>2012-01-22T15:43:00.000-02:00</published><updated>2012-01-22T15:43:14.481-02:00</updated><title type='text'>Não canse quem te quer bem</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;MARTHA MEDEIROS*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-nFGrthMUsjY/TxxKRDWrzII/AAAAAAAAIQE/4qY924rl5G8/s1600/12904742.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="161px" nfa="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-nFGrthMUsjY/TxxKRDWrzII/AAAAAAAAIQE/4qY924rl5G8/s400/12904742.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Uns mais, outros menos, todos passam &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;dos limites &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;na arte de encher os tubos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;F&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;oi durante o programa Saia Justa que a atriz Camila Morgado, discutindo sobre a chatice dos outros (e a nossa própria), lançou a frase: Não canse quem te quer bem. Diz ela que ouviu isso em algum lugar, mas enquanto não consegue lembrar a fonte, dou a ela a posse provisória desse achado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não canse quem te quer bem. Ah, se conseguíssemos manter sob controle nosso ímpeto de apoquentar. Mas não. Uns mais, outros menos, todos passam do limite na arte de encher os tubos. Ou contando uma história que não acaba nunca, ou pior: contando uma história que não acaba nunca cujos protagonistas ninguém ouviu falar. Deveria ser crime inafiançável ficar contando longos causos sobre gente que não conhecemos e por quem não temos o menor interesse. Se for história de doença, então, cadeira elétrica.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não canse quem te quer bem. Evite repetir sempre a mesma queixa. Desabafar com amigos, ok. Pedir conselho, ok também, é uma demonstração de carinho e confiança. Agora, ficar anos alugando os ouvidos alheios com as mesmas reclamações, dá licença. Troque o disco. Seus amigos gostam tanto de você, merecem saber que você é capaz de diversificar suas lamúrias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não canse quem te quer bem. Garçons foram treinados para te querer bem. Então não peça para trocar todos os ingredientes do risoto que você solicitou – escolha uma pizza e fim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seu namorado te quer muito bem. Não o obrigue a esperar pelos 20 vestidos que você vai experimentar antes de sair – pense antes no que vai usar. E discutir a relação, só uma vez por ano, se não houver outra saída.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Se não consegue resistir a dar uma chateada, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;seja mala com pessoas que não te conhecem. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;te dar um chega pra lá."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sua namorada também te quer muito bem. Não a amole pedindo para ela posar para 297 fotos no fim de semana em Gramado. Todo mundo já sabe como é Gramado. Tirem duas, como lembrança, e aproveitem o resto do tempo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não canse quem te quer bem. Não peça dinheiro emprestado pra quem vai ficar constrangido em negar. Não exija uma dedicatória especial só porque você é parente do autor do livro. E não exagere ao mostrar fotografias. Se o local que você visitou é realmente incrível, mostre três, quatro no máximo. Na verdade, fotografia a gente só mostra pra mãe e para aqueles que também aparecem na foto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não canse quem te quer bem. Não faça seus filhos demonstrarem dotes artísticos (cantar, dançar, tocar violão) na frente das visitas. Por amor a eles e pelas visitas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto. Você não implica com quem te esnoba, apenas com quem possui laços fraternos. Se um amigo é barrigudo, será sobre a barriga dele que faremos piada. Se temos uma amiga que sempre chega atrasada, o atraso dela será brindado com sarcasmo. Se nosso filho é cabeludo, “quando é que tu vai cortar esse cabelo, guri?” será a pergunta que faremos de segunda a domingo. Implicar é uma maneira de confirmar a intimidade. Mas os íntimos poderiam se elogiar, pra variar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não canse quem te quer bem. Se não consegue resistir a dar uma chateada, seja mala com pessoas que não te conhecem. Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, te dar um chega pra lá. Quem te quer bem vai te ouvir até o fim e ainda vai fazer de conta que está se divertindo. Coitado. Prive-o desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de você.&lt;/div&gt;-------------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Jornalista. Cronista. Escritora&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: ZH on line, 22/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-483703343089281630?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/483703343089281630/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/nao-canse-quem-te-quer-bem.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/483703343089281630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/483703343089281630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/nao-canse-quem-te-quer-bem.html' title='Não canse quem te quer bem'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-nFGrthMUsjY/TxxKRDWrzII/AAAAAAAAIQE/4qY924rl5G8/s72-c/12904742.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-1318478269319670876</id><published>2012-01-22T12:55:00.001-02:00</published><updated>2012-01-22T12:58:18.640-02:00</updated><title type='text'>Contra a ética do varejo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Frederico Rozário/TV Globo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-wPGoTdWvgC0/Txwgl2QkJ9I/AAAAAAAAIP8/WtML4oUIf34/s1600/big1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="294px" nfa="true" src="http://2.bp.blogspot.com/-wPGoTdWvgC0/Txwgl2QkJ9I/AAAAAAAAIP8/WtML4oUIf34/s400/big1.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Crítica à embriaguez presente nas novelas da emissora contrasta &lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;com o estímulo à bebedeira no BBB&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Mais importante que debater o suposto &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;estupro no Big Brother Brasil é refletir &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;sobre a violação da intimidade &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;nos reality shows, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;diz filósofo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; polêmica sobre a natureza e a intensidade das carícias sob um certo edredom, numa certa madrugada, ao longo da 12ª edição do Big Brother Brasil, da Rede Globo, perdeu força com o depoimento à polícia da participante supostamente vítima de estupro. Sem se lembrar bem do que ocorrera na noite anterior, num quarto escuro vigiado por câmeras, a moça disse que tudo fora consentido. Mas a discussão não saiu do ar - especialmente entre internautas mais exaltados, via redes sociais. Justificam-se manifestações tão apaixonadas? "Eu jamais defenderia o fim dos reality shows, mas esta é uma oportunidade de discutir os limites desse tipo de programa", avalia o filósofo e professor da Universidade de São Paulo &lt;strong&gt;Renato Janine Ribeiro&lt;/strong&gt;. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mestre pela Universidade Paris 1 em 1973 e doutor pela USP em 1984 - ano-título do romance de George Orwell que imortalizou o termo 'Grande Irmão', que dá nome ao programa - Janine Ribeiro concebeu e apresentou uma série de televisão sobre Ética na TV Futura, depois exibida na Globo, e notabilizou-se, em diversos artigos, pela crítica de produtos dos meios de comunicação de massa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na entrevista a seguir ele questiona a exploração da intimidade como artifício para alavancar audiência, especula se o direito individual à privacidade é renunciável e repudia o recurso à embriaguez para elevar a temperatura entre participantes de uma competição - aspecto contra o qual se manifestara, na quarta-feira, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-guardião do 'padrão Globo de qualidade' e pai de Boninho, diretor do BBB: "Não me atrai esse conceito que eles pegaram da Holanda, em que ficam dando bebida alcoólica e promovendo festinhas". &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para Renato Janine Ribeiro, é preciso tirar o olho da fechadura dos pequenos escândalos para vislumbrar o que está por trás dessa controvertida fórmula de entretenimento televisivo. "Não adianta abrir mão da ética no atacado e depois exigir um preceito ético num detalhe." &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Por que o sr. diz que reality shows são 'não éticos no atacado'?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Boa parte explora um tipo de paixão humana que não é positiva. Eles estimulam a vontade de aparecer, de se exibir, com uma sexualidade carregada. As pessoas são incitadas por esse tipo de programa a ficar cada vez mais interesseiras e fazer uso da intimidade para subir na vida. A sexualidade, algo do mundo íntimo, ligada a um aprofundamento da relação com o outro, passa a ser vista como simples instrumento de conquista. Não é um programa que contribua de alguma forma para as pessoas serem melhores, mais felizes ou mais inteiras. Nesse sentido, entrar na discussão do que chamei de 'varejo', os escândalos e 'injustiças' do programa, é acreditar que a regra geral é boa. Não adianta abrir mão da ética no atacado e depois exigir um preceito ético num detalhe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Em que sentido?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A expressão de (filósofo prussiano Immanuel) Kant de que o ser humano deve ser considerado fim e não meio é totalmente violada nesse tipo de programa. E, embora essa formulação valha muito mais como ideal do que como realidade, aqui o próprio ideal - mesmo que de difícil consecução - é abandonado. O outro passa a ser simplesmente um instrumento, a ser seduzido e conquistado. É por isso que existe todo um preparo dos candidatos para ir ao programa, que consiste em malhar, ficar sarado, aprender a manipular o sentimento dos outros, formar um casal para capturar a atenção do público. Os romances se repetem artificialmente. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Como determinar o que é ou não ético em um programa de televisão?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A discussão parece aquela boneca russa que quando a gente abre tem outra dentro. No caso em questão, o rapaz é acusado de um estupro que segundo a própria moça ele não teria cometido. Nós poderíamos discutir, então, se foi correto ou não expulsá-lo do programa. Mas, a meu ver, isso é o varejo, um debate de pouco interesse, pois significa antes aceitar a regra geral do programa. E quando você vai para um programa desses, que exibe a sua intimidade e no qual vai usá-la como moeda para conquistar alguém ou alguma coisa, corre o risco de abrir mão da dignidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Entre as diversas críticas que surgiram na blogosfera, uma argumentava que, embora alguém que coloque uma webcam em sua casa e explore a própria intimidade não possa ser questionado legalmente, se a exploração é feita por terceiros então há um problema. O sr. concorda?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O argumento de que o direito à privacidade seria irrenunciável é bom. Existem direitos dos quais não se pode abrir mão. Por exemplo, não posso entender que a liberdade que tenho sobre mim mesmo me autorize a me escravizar. Ou a autorizar outra pessoa a me matar - isso continua sendo um crime. Da mesma forma, existe um elemento da dignidade que não deveria ser violado. Um exemplo são os campeonatos de arremesso de anões (o da Flórida, nos EUA, foi proibido em 1989). Os anões estavam de acordo com o jogo. Mas por quê? Certamente por necessidade. Se você admitir que uma sociedade possa acuar as pessoas até a fome e, nessa situação, elas aceitem situações degradantes para divertir outras, está admitindo o sadismo e a crueldade como coisas normais. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;Há aspectos positivos nos reality shows?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Houve pelo menos um bom momento na história do BBB, quando o (atual deputado federal pelo PSOL) Jean Wyllys tomou conta dele. Ele é uma pessoa muito inteligente, tinha uma visão interessante do que fazer lá dentro e houve um enfrentamento entre o preconceito e o homossexualismo. Isso foi positivo. &lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_LHpBHKSzgo0/S9o-mzLEvMI/AAAAAAAAC7M/fncNd5iUoo4/s1600/Renato+Janine+Ribeiro+2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="285px" nfa="true" src="http://4.bp.blogspot.com/_LHpBHKSzgo0/S9o-mzLEvMI/AAAAAAAAC7M/fncNd5iUoo4/s400/Renato+Janine+Ribeiro+2.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"...se abrirmos mão do ideal kantiano &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de ver o ser humano como fim e não como meio, acabou. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;O outro vira um mero objeto,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;um meio para se ganhar, aparecer,&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;tornar-se alguém de sucesso. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Eu jamais defenderia a proibição desses programas, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;mas o que ocorreu acaba sendo &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;uma oportunidade de &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;se discutir seus limites." &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;E outros reality shows, como Mulheres Ricas, Casa dos Artistas, etc.?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sei dizer, porque não os assisti. Em termos gerais, eu diria que um programa que coloca a intimidade como mercadoria é complicado e preocupante. Nos primeiros BBBs, aparentemente, você tinha outros critérios de seleção, uma diversidade maior de pessoas. Se pegar o reality da Globo que o precedeu, No Limite, quem ganhou foi uma cabeleireira gorda (Elaine Cristina Cosmo de Melo). Hoje, parece ter mudado o critério pelo qual as pessoas são selecionadas para participar. No formato atual, uma Elaine dificilmente ganharia. Ela nem entraria no jogo, provavelmente. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Antes de afastar o participante acusado de estupro, o diretor do programa, Boninho, saiu em defesa dele, afirmando que estaria sendo vítima de racismo. Há uma banalização da denúncia de preconceito racial no Brasil?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O que acontece é o seguinte: toda sociedade tem uma linguagem. A linguagem, 50, 60 anos atrás, seria em grande parte religiosa. Os militares deram o golpe em nome da 'civilização ocidental e cristã'. Eles às vezes falavam em democracia, mas muito mais em civilização ocidental e cristã. Ninguém hoje, apesar de sermos um país de maioria católica, teria coragem de mencionar o 'cristão' porque isso significaria excluir judeus, cultos afro-brasileiros, budistas... Então, hoje nós temos uma linguagem que passa pela igualdade de gênero, das pessoas, pelo antirracismo. E qualquer discussão hoje vai incluir essa linguagem. Não sei se há banalização - ela é simplesmente a linguagem do nosso tempo. Se sobre o episódio em questão no BBB alguém evocasse 'uma conduta ofensiva a Deus', dificilmente o argumento teria repercussão. Ao passo que a questão do racismo ou do gênero acaba sendo mais eficaz. Isso tem um lado positivo pois significa a vitória de um discurso um pouco melhor. Outra coisa é verificar se ele se aplica ao caso. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O comportamento dos internautas que criticaram o programa nas redes sociais também teve desvios. Chegou a ser veiculado um texto sobre o assunto falsamente atribuído ao escritor Luís Fernando Verissimo...&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Você não pode entrar numa discussão ética e entender que o fim justifique os meios - que, para denunciar um erro, um texto com a grife do Veríssimo seja bom. Aliás, é algo que me intriga na internet. Há um texto atribuído a (escritor argentino Jorge Luis) Borges que é até interessante. Mas a maior parte deles é indigente. O (jornalista Arnaldo) Jabor também é vítima disso e os chama de textos de "sentimentos fáceis". O que me intriga é o seguinte: por que certos textos precisam ser publicados com autoria alheia? E por que as pessoas têm tanta dificuldade em identificar as finger prints do autor que costumam ler e gostar? Elas nem notam! E é curioso que haja algo neles coincidente com os reality shows. Se nesses programas a questão é "aparecer, ser prestigiado, repercutir na mídia", o mesmo ocorre nesses textos, em que a argumentação não é tão importante quanto a falsa autoria. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Os fatos da semana levantaram um debate sobre o consentimento nas relações sexuais. Como se define o que é ético ou não nesse terreno?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É muito difícil. O que está presente na legislação hoje é o princípio liberal de que a vontade do indivíduo é soberana no que diz respeito a sua vida pessoal. O problema é que quando se lida com a sexualidade a questão da vontade é muito complexa. Tudo depende do contexto e é decidido à posteriori. A Suécia tem uma das legislações mais duras do mundo em relação ao estupro e o resultado disso é que os índices desse tipo de crime lá são relativamente altos. Uma pessoa lá, depois da relação sexual, pode voltar atrás da decisão. Foi o que ocorreu com (ativista e criador do Wikileaks Julian) Assange (acusado de estupro por uma mulher que inicialmente havia consentido em se relacionar com ele). A sexualidade lida com a dimensão do desejo, não da vontade. A vontade é consciente, quase racional, e tem a ver com a dimensão do ego. Já o desejo é algo que pode aparecer inclusive contrariando o que a vontade diz. A nossa legislação sobre o tema parece ter uma contradição e uma impossibilidade. A contradição é: por um lado, tudo foi remetido ao mundo do privado, se sou homossexual, se quero participar de uma orgia ou um encontro sadomasoquista, nada disso é ilícito. O que é correto. Por outro lado, como a questão passa a ser de vontade, fica muito difícil saber em que isso consiste. E os fatos tornam-se muito difíceis de se apurar: é palavra contra palavra. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A ambiguidade da situação de consentimento sexual não foi agravada pelo fato de que os integrantes do programa ingeriram álcool?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Isso é um grande problema. Especialmente porque temos hoje toda uma sociedade - e a própria emissora - fazendo campanha contra a embriaguez. Mesmo nas novelas, se você for ver os princípios éticos que elas sustentam, que de alguma forma estão modulando a ética neste país, atacando crimes de ódio, etc. e tal, nota que há um conflito. Está claro que a bebedeira promovida no BBB tem o objetivo justamente de provocar atos sexuais como o que resultou nessa polêmica toda. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O culto ao hedonismo e ao exibicionismo, por parte dos integrantes, e o estímulo ao voyeurismo, por parte do público, são eticamente justificáveis?&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não sou contra o hedonismo como busca de prazer e mesmo o exibicionismo e o voyeurismo têm seu lugar, na experiência humana. Um voyeurismo discreto entre pessoas que estão de acordo pode ser muito interessante e estimulante. O complicado é isso em rede nacional. Pois passa a ser uma espécie de recomendação. E, como eu disse antes, se abrirmos mão do ideal kantiano de ver o ser humano como fim e não como meio, acabou. O outro vira um mero objeto, um meio para se ganhar, aparecer, tornar-se alguém de sucesso. Eu jamais defenderia a proibição desses programas, mas o que ocorreu acaba sendo uma oportunidade de se discutir seus limites. &lt;/div&gt;-------------------------------------- &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Reportagem por Ivan Marsiglia - O Estado de S.Paulo&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: Estadão on line, 22/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagens da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-1318478269319670876?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/1318478269319670876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/contra-etica-do-varejo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1318478269319670876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1318478269319670876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/contra-etica-do-varejo.html' title='Contra a ética do varejo'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-wPGoTdWvgC0/Txwgl2QkJ9I/AAAAAAAAIP8/WtML4oUIf34/s72-c/big1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-1661958354809477367</id><published>2012-01-22T09:10:00.000-02:00</published><updated>2012-01-22T09:10:50.809-02:00</updated><title type='text'>Adote um americano</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;Moisés Mendes*&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.zaroio.com.br/i/o/2007070901340014.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="313px" nfa="true" src="http://www.zaroio.com.br/i/o/2007070901340014.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;V&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;eja as escolhas que você poderá fazer daqui a pouco: ter um pedreiro haitiano, uma diarista peruana, um cozinheiro grego, ou um gerente de finanças americano. Os executivos financeiros, expurgados em 2008 de bancos de investimentos e outros birôs de maracutaias, estão vindo para cá. Chegam com enxames de trabalhadores de todas as áreas (dizem que até toureiros espanhóis) atraídos pelo Brasil potência.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os zumbis desempregados de Wall Street vêm para um paraíso. Vão operar no país do mais alto juro do mundo, que paga (na proporção do que cobra), para quem aplica em alguma coisa, o juro mais baixo do mundo. No ano passado, a poupança teve ganho real de 1% no confronto com a inflação. Um por cento num ano. Outras aplicações renderam em torno de 3%. O meu, o seu, o nosso Fundo de Garantia “rendeu” pouco mais da metade da inflação.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;FGTS não é aplicação financeira, é poupança assegurada pelas empresas. Mas rende ganhos para o governo. Todos ganham com o nosso FGTS, menos nós. O governo lucrou mais de R$ 13 bilhões com o Fundo no ano passado. Os empresários ficam quietinhos porque fazem empreitadas pagas com o dinheiro do Fundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O ex-presidente do Banco Central Pérsio Arida trata o “rendimento” do FGTS, pago ao trabalhador, como “um roubo”. E identifica um pacto de silêncio entre governo, empresários e sindicatos, enquanto o roubo acontece.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Arida diz que o FGTS é denunciador de cinismos. A esquerda no poder se aproveita do Fundo enquanto ainda fala em socialização de ganhos para os trabalhadores. E a direita dita liberal perde a chance de brigar pela distribuição dos lucros do Fundo como belo exemplo de que o capitalismo é virtuoso na partilha de oportunidades.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"São as famílias americanas, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;sem casa e sem grama, que nos enviam &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;agora seus filhos sem-banco. &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;O Brasil deve acolhê-los, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;porque há grama para todos."&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os executivos extraviados de NY vêm para este país de juros e rendimentos exóticos, bem adequado ao que faziam até a quebradeira. Há bancos contratando os meninos. É como se uma construtora brasileira absorvesse equipes de engenheiros de prédios que acabaram de ruir nos EUA – e sem que ninguém seja culpado. O que eles nos ensinarão? Qual é sua expertise, como se diz hoje?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O filme &lt;em&gt;O Dia antes do Fim&lt;/em&gt; mostra como o comando de um grande banco, que seria o Lehman Brothers, o primeiro a falir em 2008, tenta entender o que se passa às vésperas da quebradeira. O chefão pede a um garotão da área de gestão de riscos que explique o que se passa, mas que fale como se estivesse se dirigindo a uma criança. O chefão é a criança. O filme tem o tom de um documentário. Homens abobalhados e garotos agressivos, perseguindo resultados a qualquer custo com cestas de tomates podres, quase quebraram o mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pois os boys do Lehman Brothers estão vindo para o país dos lucros bancários mais fantásticos da Terra. É assim que o mundo funciona. Executivos financeiros impulsivos são bem pagos para, de vez em quando, arrasar economias, desempregar, roubar sonhos e continuar tudo de novo em algum lugar acolhedor. Nada os controla.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nos anos 80, Leminski escreveu para Caetano cantar: De repente vendi meu filho/ Para uma família americana/ Eles têm carro, eles têm grana/ Eles têm casa e a grama é bacana./ Só assim ele pode voltar/ E pegar um sol em Copacabana.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;São as famílias americanas, sem casa e sem grama, que nos enviam agora seus filhos sem-banco. O Brasil deve acolhê-los, porque há grama para todos. Mas confie mais nos cozinheiros gregos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-----------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;*Jornalista&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="mailto:moises.mendes@zerohora.com.br"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;moises.mendes@zerohora.com.br&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: ZH on line, 22/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-1661958354809477367?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/1661958354809477367/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/adote-um-americano.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1661958354809477367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/1661958354809477367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/adote-um-americano.html' title='Adote um americano'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-6712710967781776055</id><published>2012-01-22T08:37:00.000-02:00</published><updated>2012-01-22T08:37:05.171-02:00</updated><title type='text'>Rubem Alves - do Universo à Jabuticaba</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Rubem Alves*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://kristallwelten.swarovski.com/Content.Node/images/eingangshalle-dali-uhr.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://kristallwelten.swarovski.com/Content.Node/images/eingangshalle-dali-uhr.jpg" width="303px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;strong&gt;MOMENTOS EFÊMEROS&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;í, de repente, os meus olhos se abriram, e vi como nunca havia visto. Senti que o tempo é apenas um fio. Nesse fio vão sendo enfiadas todas as experiências de beleza e de amor por que passamos. Aquilo que a memória amou fica eterno. Um pôr do sol, uma carta que recebemos de um amigo, os campos de capim-gordura brilhando ao sol nascente, o cheiro do jasmim, um único olhar de uma pessoa amada, a sopa borbulhante sobre o fogão de lenha, as árvores de outono, o banho de cachoeira, mãos que se seguram, o abraço de um filho: houve muitos momentos de tanta beleza em minha vida que eu disse para mim mesmo: “Valeu a pena eu haver vivido toda a minha vida só para poder ter vivido esse momento. Há momentos efêmeros que justificam toda uma vida”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;ESTAÇÕES&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_v6B4sRjXREI/SaXRWCqNURI/AAAAAAAADO0/VGTVAAC3x5M/s400/mAGO.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="278px" nfa="true" src="http://1.bp.blogspot.com/_v6B4sRjXREI/SaXRWCqNURI/AAAAAAAADO0/VGTVAAC3x5M/s400/mAGO.JPG" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;U&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;m amigo nos havia convidado a passar alguns dias na Motanha Pocono, nos Estados Unidos. Não havia nevado ainda: as árvores estavam despidas de folhas, as birch com suas cascas brancas, as outras vestidas de negro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Naquela noite nevou. Nevou muito. Tudo se arredondou com a neve: as árvores, os arbustos, os campos, os caminhos. A camada de neve deveria ter mais de quarenta centímetros de fundura. Tudo absolutamente liso. Dava dó caminhar sobre a neve, porque os nossos passos estragavam a perfeição do lençol branco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao escrever este texto dei-me conta de que talvez, inconscientemente, eu tivesse me inspirado nessa casa – e faz mais de trinta anos! – quando descrevi para a minha filha Raquel, arquiteta, a casa com que eu sonhava: um grande espaço sem paredes que o dividissem, janelas de vidro, cozinha, sala de jantar, sala de televisão e música, varanda, tudo se comunicando para que ninguém ficasse excluído do convívio. Só faltou a lareira.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quem sonhou aquela casa na montanha sonhou com o aconchego. Todos juntos, crianças, velhos, adultos, convidados, rindo, comendo, bebendo, conversando. Pois não é para isso que se constrói uma casa? Para a comunhão e o amor?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aí, olhando para fora através do vidro vi um homem que andava ao redor da casa, fazendo coisas, mas não participava do nosso convívio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Quem é esse homem?” perguntei ao meu amigo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Ele é o dono da casa. Ele está alojado num apartamento no porão da casa. E, sendo amigo, nos cedeu a parte de cima...”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aí ele fez silêncio e acrescentou: “Sua mulher arranjou um novo amor e agora está sozinho...”&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Enchi-me de compaixão. Mas pensei que na vida das pessoas acontece como a natureza. O tempo passa. As estações se sucedem. E depois do inverno a primavera volta...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;-------------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: ALVES, Rubem. Do universo à jabuticaba. SP, Editora Planeta do Brasil, 2010, pp. 144/145.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagens da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-6712710967781776055?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/6712710967781776055/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/rubem-alves-do-universo-jabuticaba.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6712710967781776055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/6712710967781776055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/rubem-alves-do-universo-jabuticaba.html' title='Rubem Alves - do Universo à Jabuticaba'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_v6B4sRjXREI/SaXRWCqNURI/AAAAAAAADO0/VGTVAAC3x5M/s72-c/mAGO.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-4543156768196252384</id><published>2012-01-21T23:15:00.000-02:00</published><updated>2012-01-21T23:15:10.093-02:00</updated><title type='text'>Profissão Filósofo – todo apoio!</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Paulo Ghiraldelli Jr*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://ghiraldelli.pro.br/wp-content/uploads/2012/01/Truth-Fil%C3%B3sofos-Trabalhando.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;inda não entendi a razão de alguns estudantes de filosofia (e certos professores!) estarem tão preocupados (no sentido que estão) diante de projetos que tramitam na Câmara dos Deputados no sentido de regulamentar a profissão de filósofo. São contra! Mas, são contra o que, especificamente? Acho que eles não sabem. Aliás, em geral, quando fornecem seus argumentos, aí sim eu fico preocupado com o tipo de gente que procura a filosofia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Querem que a filosofia não seja profissão. Ora, em parte, ela já é, pois os filósofos acabam fazendo licenciatura – são professores. E se fizerem o bacharelado, também serão professores (embora alguns estudantes achem que não). Mas então ficamos com uma coisa esquisita: historiadores são historiadores e professores de história, e assim vale para vários outros intelectuais, mas para o filósofo isso não vale?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fazer o filósofo em nossa sociedade não ser um profissional e, então, ser um marginal, para poder idolatrá-lo como sábio ou como louco ou como santo ou como bom moço ou como Zen, é estranho – muito estranho! É querer viver fora do tempo. Sim, sim, eu sei que a filosofia é inimiga da história e seu desejo, ao menos originalmente, é escapar do tempo, da morte e tudo que é humano. Mas, isso é a filosofia em sua origem, não precisa ser a postura do filósofo atual – aliás, a filosofia contemporânea, quase toda ela, tem tentado fazer as pazes com a história. E o filósofo, todos, estão já como profissionais nas universidades! O projeto vai possibilitar que o filósofo participe de outras instâncias de trabalho de modo a não ficar só com deveres, mas também com direitos – direitos trabalhistas! Claro!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acho que o estudante que é contra isso foi mordido pela mosca azul da filosofia. Essa mosca morde alguns professores universitários que se acham filósofos – e que de fato são – mas que querem impedir que outros o sejam! Acham que essa atividade é tão importante que não pode ser tocada por ninguém, nem pelo Estado e nem pelo próprio candidato a filósofo. É como se filósofo não fosse mais o amante do saber e, sim, o sábio! Um sábio acima dos sábios.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Realmente, se a filosofia não for profissão, será necessário contratar os filósofos para trabalhar sob a uma rubrica falsa (pois o mercado quer filósofos!), o que, na nossa sociedade moderna, significa simplesmente não contratar. Uma editora ou uma rádio ou uma TV ou um hospital (uma empresa), por exemplo, podem contratar historiadores como historiadores ou sociólogos como sociólogos, mas o filósofo não então aí! Ora, será que os filósofos querem a “reserva de mercado” às avessas, ou seja, o direito de não se engajar em nada? É o direito de não se engajar em nada para poder se engajar como mendigo em tudo? Será que todo filósofo universitário é sempre tonto? Ou seja: como boa parte dos filósofos surgem da Igreja ou do marxismo (ou coisa parecida), eles logo condenam a “sociedade de mercado”. Então, querem ficar de fora dela. Mas querem isso não individualmente, querem que todos os colegas fiquem fora! Ora, ficam fora e, depois, acabam se empregando numa universidade e acham que podem continuar blasé! Isso é chato. Querer ser blasé na nossa sociedade? Ora, podem ser, mas não com um diploma de filosofia na mão, dado por uma universidade – este que tem um diploma na mão entrou e saiu de uma universidade burguesa, uma universidade que se organiza a partir do “mundo do trabalho”, não do mundo do ócio.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu sempre digo que filosofia não é profissão, mas isso em termos de sua origem, no entanto, na nossa sociedade moderna ela é sim profissão. Um filósofo filosofa. E essa sua capacidade de contar histórias que não são histórias contadas por outros intelectuais, já foi absorvida pelo mercado. Querer negar isso é fazer a filosofia continuar no mercado, mas sem os direitos do mercado, só com os deveres. E é isso que ocorre.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Os professores universitários que fizeram o curso de filosofia precisam sim apoiar a medida de fazer o filósofo ser um profissional de mercado numa sociedade de mercado, mesmo que eles, individualmente (por fé ou ideologia ou burrice), sejam contra a sociedade de mercado. Pastores, padres, artistas etc. já estão nessa faz tempo! Nenhum crítico de sorveteria precisa não conversar mais com a esposa porque ela toma sorvete! Nem é lícito proibir todas as esposas de tomar sorvete, para que elas não criem desejo na sua esposa, que você não quer que tome sorvete.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu realmente estou cansado de lidar com estudante de filosofia e com professor de filosofia quando estes querem se fazer de diferentes para além do que a palavra “diferente” implica. Esse pessoal que adora ser diferente em um sentido tolo da palavra “diferente” cansa qualquer um! Ora, o que estão os filósofos fazendo de diferente no Brasil? O que estou vendo por aí é a mesma ANPOF de sempre pedir para seus garotos irem até lá com um livrinho publicado pela sua própria universidade, um livrinho que não tem leitores, que serve apenas para “fazer currículo”. Chegam lá para ler um “paper” como se aquilo fosse uma novidade ou algo original. Meu Deus! Está na hora de filósofo virar gente e parar de achar que sendo um pária, é especial. Pária é pária, não é especial. Para posar de diferente é necessário fazer algo diferente mesmo, ou então se transformar em um trabalhador comum. Um trabalhador comum: filósofo, profissão filósofo. É honroso isso! É honroso ser um trabalhador comum.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nós filósofos temos de entender que o Seminário não vai mais acolher todos e mantendo a garotada (sim, os eternos garotos) sob cuidados como na casa da mamãe, em realidade ou sonho. Nós filósofos devemos de entender que o Partido também não vai fazer o que fazia, acolher a garotada como o Seminário. Ser filósofo para se manter na Igreja ou em uma igreja ou algo parecido, ou no partido de esquerda ou algo parecido, é alguma coisa do passado – acabou! Acabou no mundo todo! Está na hora do filósofo acordar e dizer para si mesmo: eu sou um cara normal e vou parar de frescura. Vou trabalhar. Vou trabalhar sim como filósofo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É claro que não defendo nada que tramita na Câmara que dê prerrogativas para instâncias que não a universidade. Não sou favorável que qualquer outra instância possa dar diploma ou certificado de “filósofo” que não a universidade. E nisso, o projeto que vi andando na Câmara tem defeitos. Mas, a idéia de tornar o filósofo um profissional como outro qualquer é boa, necessária e promissora.Vai trazer mais responsabilidade e visibilidade para o filósofo. Vai colocá-lo em condição igual a de sociólogos e outros profissionais do mesmo tipo. Pronto. Isso vai gerar cobranças específicas, o que será muito bom para filósofos e para não filósofos. Cobranças objetivas quanto a serviços são sempre boas para a performance de qualquer atividade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;----------------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;* Filósofo, escritor e professor da UFRRJ&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://ghiraldelli.pro.br/2012/01/21/"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://ghiraldelli.pro.br/2012/01/21/&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-4543156768196252384?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/4543156768196252384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/profissao-filosofo-todo-apoio.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4543156768196252384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/4543156768196252384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/profissao-filosofo-todo-apoio.html' title='Profissão Filósofo – todo apoio!'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-8923337019484049696</id><published>2012-01-21T18:07:00.000-02:00</published><updated>2012-01-21T18:07:27.226-02:00</updated><title type='text'>Amor de perdição</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;Maria Regina Canhos Vicentin*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-jgHQRJNw3nE/TxsacKuaSsI/AAAAAAAAIP0/fY9sBbrIwbU/s1600/amor_deseo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="292px" nfa="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-jgHQRJNw3nE/TxsacKuaSsI/AAAAAAAAIP0/fY9sBbrIwbU/s400/amor_deseo.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;P&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;recisamos aprender a amar com desprendimento, afeição, e não perdição. O outro não nos pertence, nunca será nosso. Ele surge em nossa vida para torná-la mais bonita e atraente. Ele nos faz rir e apaixonar. Traz dois olhos brilhantes para dentro do nosso coração e uma mão amiga diante dos desafios e dificuldades, mas nem sempre vem para ficar. Algumas pessoas passam horas conosco, outras passam dias e meses, há as que vivem ao nosso lado por anos e aquelas que, mesmo após a morte, sentimos tão próximas que parecem não ter nos deixado. Essa ligação depende muito de cada um e da sintonia que existe entre os dois. Algumas pessoas estão próximas e é como se estivessem distantes; outras estão separadas por quilômetros e é como se estivessem lado a lado. O amor nasce de uma cumplicidade de almas, e perdura enquanto é alimentado por interesses comuns, sinceridade, perdão, alegria e tolerância. Ele é livre e quem quiser aprisioná-lo com certeza irá perdê-lo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Repito sempre que o amor é opcional e não obrigatório. Tem gente que pensa poder domesticá-lo impondo horários e obrigações, fazendo exigências ou uma série de cobranças que, quase sempre, acabam por sufocá-lo e, por que não dizer, matá-lo. Se o amor não for livre, não tem graça. Não há como ter certeza de que é amor. Muitos têm medo de perdê-lo, mas caso se vá, será que era amor mesmo? Quantos relacionamentos se mantêm pela dependência, pelo medo, pelo comodismo, pela conveniência... Que chato ter um amor assim! Pensamos ser amados, mas no fundo, apenas mascaramos a carência do outro e a nossa própria carência. Não há olhares brilhantes, não há sorrisos espontâneos, não há abraços reconfortantes nem beijos acalorados. O dia a dia se desenrola na mesmice e na chateação. Será que alguém é feliz assim?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pare de “morrer” de ciúmes e infernizar a vida do outro. Ele não lhe pertence mesmo e, se desejar, tem todo o direito de “cair fora”. Ninguém é obrigado a ficar com alguém. Vê se acorda pra vida e deixa a possessividade de lado. Todos têm o direito de viver em liberdade, inclusive de sentimentos. Quem ama quer ficar perto; quer partilhar momentos e coisas. Quer também ficar em silêncio quando não está bem, e isso não quer dizer que esteja distante, apenas magoado, em dúvida ou deprimido. É nessas horas que, talvez, sua presença seja mais importante, para confirmar seu amor, renovar sua disponibilidade em ajudar ou simplesmente para dar força e esperança. Amar também é isso, aprender a servir e estar disponível para ajudar nos momentos difíceis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora, se o seu amor não é assim, desprendido. Se ele é egoísta, opressor, maldoso, violento, colérico, imoral ou pegajoso; sinto muito, mas isso não é amor. Pode ser ciúme, dependência, desconfiança, defeito, vício, afetação, vaidade, mas não amor. Deixe isso ir embora. É verdade, deixe ir. Você não precisa disso em sua vida. Tais sentimentos apenas escravizam e aprisionam. Fazem sofrer profundamente e sem necessidade. Isso é amor de perdição. Liberte-se desses sentimentos, deixe-os ir, e você ficará bem mais leve e feliz.&lt;/div&gt;----------------------&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;*Psicóloga Judiciária. Dedica-se ao Atendimento Clínico e Aconselhamento Psicológico em consultório particular, dentro da Abordagem Centrada na Pessoa. Possui os títulos de Profissional Especialista em Psicologia Clínica e em Psicologia Jurídica. É autora de diversos livros e colaboradora em vários jornais no território nacional, além de algumas revistas, como "O Mensageiro de Santo Antonio" e "Família Cristã".&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;a href="http://www.mariaregina.com.br/21/01/2012"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;http://www.mariaregina.com.br/21/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-8923337019484049696?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/8923337019484049696/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/amor-de-perdicao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8923337019484049696'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/8923337019484049696'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/amor-de-perdicao.html' title='Amor de perdição'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-jgHQRJNw3nE/TxsacKuaSsI/AAAAAAAAIP0/fY9sBbrIwbU/s72-c/amor_deseo.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-7978330028719305520</id><published>2012-01-21T17:36:00.000-02:00</published><updated>2012-01-21T17:36:51.455-02:00</updated><title type='text'>Cristinaismo vive "a mais grave crise" em 2 mil anos. O apelo urgente de um teólogo jesuíta</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://1.bp.blogspot.com/-SoXfvg5ySG4/TxsRzdkCmBI/AAAAAAAAIPs/suCSNYxhEM4/s400/eRXL.jpg" width="333px" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Com as devidas proporções, o sucesso do último livro &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de Joseph Moingt se assemelha ao do famoso &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Indignai-vos!, de Stéphane Hessel. Em ambos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;os casos, trata-se de um velho senhor &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que não tem mais nada a temer nem a demonstrar &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;e que pode se permitir, com a legitimidade &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;que lhe conferem as décadas de trabalho &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;e de compromisso corajoso, dizer em voz alta &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;o que muitos apenas pensam ou &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;dizem em voz baixa.&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;No&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; entanto, esse jesuíta de 96 anos deseja dizer aos seus leitores, às vezes tentados a deixar a Igreja, não tanto Indignai-vos! mas sim Ficai!.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Croire quand même, publicado no fim de 2010 [1], vendeu mais de 8.000 cópias e está em curso a segunda edição. "Recebi muitas cartas de agradecimento de leigos e de padres, mas curiosamente nenhum eco do episcopado", diz, divertido, o padre Moingt, estreitando os travessos olhos azuis. Os leitores "sentem confusamente que a opção escolhida por Roma de um retorno ao passado não é a melhor forma de preparar o futuro do cristianismo. Depois de me terem lido, dizem-se fortalecidos na sua fé e encorajados a permanecer na Igreja". Há um ano, Croire quand même também suscita muitos grupos de leitura em toda a França e é motivo de muitos convites para conferências.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um sábado, lá está ele com a sua figura miúda na abadia de Saint-Jacut-de-la-Mer (Côtes-d'Armor) para uma jornada aberta ao grande público. Diante de 150 pessoas, a maior parte de cabelos grisalhos, ele começa a percorrer a sua obra de teólogo, marcada pelos "dois grandes choques", o do Vaticano II e o de Maio de 68. "Desde então, os teólogos não se dirigem mais apenas a futuros padres, mas são convocados no meio dos fiéis para esclarecer seus problemas", aponta, antes de expor a sua análise da crise na Igreja.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma crise que, segundo ele, é "a mais grave" que o cristianismo já conheceu há dois milênios, porque trata-se de uma crise civilizacional. "O nosso mundo está prestes a rejeitar Deus", resume, citando Dietrich Bonhoeffer, que, antes de morrer na prisão nazista, percebia que o mundo "estava se libertando da ideia de Deus". É através dessa chave de leitura que Moingt fala da "primavera árabe", sinal não da "destruição do Islã, mas sim da desagregação de um espaço social que havia sido cimentado pela lei religiosa". Porque, lembra, "a vontade de Deus é que o homem se liberta de seus entraves, incluindo aqueles postos em nome de Deus".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Pedagogia&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Como dizer a humanidade de Cristo se &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;ele nasceu de uma mulher virgem? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Como explicar a Trindade? Como falar da &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Revelação, da Encarnação, da Redenção, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;se considerarmos que os textos do Antigo Testamento &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;são apenas relatos inventados? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Como pronunciar em cada Eucaristia: &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;"Isto é meu corpo", se se trata de uma metáfora? &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Em que basear o sacerdócio, já que nenhum &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;dos Apóstolos foi feito padre &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;ou bispo por Jesus?... "&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Pe. Moingt não foge das perguntas que lhe são feitas, porque também são as suas perguntas. Com pedagogia, permite que seus interlocutores se beneficiem com a sua visão histórica sobre o longo prazo, para relativizar as atuais tensões dentro da Igreja. Algumas semanas depois, em seu quarto-escritório da Rue Monsieur, no 7º arrondissement de Paris, ele continua as suas reflexões sobre o futuro da Igreja. "Tenho um grande temor de que um número crescente de fiéis só queira respostas com um 'sim' ou com um 'não', e não consigam entrar nas sutilezas teológicas", resume.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como dizer a humanidade de Cristo se ele nasceu de uma mulher virgem? Como explicar a Trindade? Como falar da Revelação, da Encarnação, da Redenção, se considerarmos que os textos do Antigo Testamento são apenas relatos inventados? Como pronunciar em cada Eucaristia: "Isto é meu corpo", se se trata de uma metáfora? Em que basear o sacerdócio, já que nenhum dos Apóstolos foi feito padre ou bispo por Jesus?... São todas perguntas complexas que efetivamente requerem respostas aprofundadas e que ocupam a mente do teólogo há mais de 60 anos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela tinha 23 anos, no fim de 1938, quando entrou na Companhia de Jesus. Não tendo tempo, antes da mobilização, de terminar os 12 meses do noviciado, teve que refazer um ano inteiro em Laval (Mayenne) no grande noviciado da época.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Durante a guerra, o aprendiz de jesuíta ficou prisioneiro em vários stalags para suboficiais que se recusavam a trabalhar para o Terceiro Reich. Ele conseguiu escapar de um campo na Suábia, foi depois enviado para Kobierczyn, perto de Cracóvia, depois para um outro campo do qual foi libertado em 1945 pelo exército do general Patton... Mas, de repente, o Pe. Moingt interrompe o relatos das suas memórias: "Não tenho o hábito de me delongar sobre a minha biografia, não interessa a ninguém", sorri ele, com aquela gentileza divertida que o caracteriza. Antes de acrescentar que, "desde o retorno do cativeiro, por princípio, não retorno ao passado".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Marcado por Henri de Lubac&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Conseguimos saber apenas que, depois de dois anos de filosofia em Villefranche-sur-Saône e depois de quatro anos de teologia em Fourvière, na colina de Lyon onde a Companhia de Jesus tinha uma faculdade até 1974, ele foi nomeado professor de teologia. Foi então enviado para a Universidade Católica de Paris para preparar uma tese sobre A teologia trinitária em Tertuliano, que defendeu, três anos depois, sob a orientação do jesuíta e futuro cardeal Jean Daniélou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Entre os jesuítas daquela época, fui marcado sobretudo por Henri de Lubac, que lecionava na Universidade Católica de Lyon e com quem eu trabalhei sobre Clemente de Alexandria", diz, antes de acrescentar a essa lista de grandes figuras os nomes de Gaston Fessard, Henri Bouillard, Xavier Léon-Dufour e Donatien Mollat...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois de doze anos de ensino em Fourvière, o Pe. Moingt pediu um ano sabático na Paris de 1968, para "por-se a par das novidades em teologia, filosofia e ciências humanas". Mas a Universidade Católica de Paris, que começou em 1969 o seu Ciclo C, um curso noturno de formação para leigos, deu-lhe o cargo de professor de cristologia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele também lecionou na Centro Sèvres a partir de 1974, e em Chantilly (Oise), tradicional lugar de formação da Companhia de Jesus. Isso lhe permitiu afirmar que "todos os jesuítas que entraram na Companhia depois de 1960 e até muitos bispos atuais" passaram por ele. Nesses mesmos anos, Pe. Moingt assumiu a direção da prestigiosa revista Recherches de Science Religieuse, que comemorou os seus 100 anos em 2010. A partir de 1980, tendo deixado a Católica para se aposentar aos 65 anos, o jesuíta continua lecionando no Centro Sèvres, fazendo suas pesquisas teológicas e a publicando importantes obras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"Eu tenho outra obra em construção, mas não será um livro para o grande público", especifica, sabendo que não terá o tempo para popularizar o seu trabalho: "Outros se encarregarão disso depois da minha morte".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Ser cristão&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje, ele continua se relacionando com as comunidades de base das quais participou, seja no âmbito do catecumenato, seja durante as suas experiências paroquiais em Châtenay-Malabry (Hauts-de-Seine) por 12 anos, depois em Poissy (Yvelines) e em Sarcelles (Val-d'Oise), respectivamente por três anos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Trata-se de "leigos que frequentam a Eucaristia, mas que precisam se encontrar fora da sua paróquia para partilhar o Evangelho ou releituras de vida"; leigos cada vez mais preparados que "sentem que ser cristão nada mais é do que ser homem, e que assumem a responsabilidade do seu ser-cristão assumindo a responsabilidade do destino da humanidade".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Porque, para Joseph Moingt, não é se concentrando na instituição eclesial que se poderá realizar uma reforma radical do catolicismo, mas sim voltando ao Evangelho. "Há a urgência de repensar toda a fé cristã para dizer 'Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem' na linguagem de hoje e em continuidade com a Tradição", repete, baseando-se na sua imensa cultura teológica e bíblica para confirmar que a Igreja não poderá mais seguir em frente com respostas dogmáticas e que é preciso que, dentro dela, os teólogos "façam coisas novas sem ser serem ameaçados de excomunhão". Quanto a ele, a sua prudência nunca foi motivada pelo medo de uma sanção eclesial, mas sim pelo desejo de escrever de acordo com a sua fé. E, depois, "na minha idade, já não se corre muito risco".&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;Nota:&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;1 - Croire quand même, Libres entretiens sur le présent et le futur du catholicisme, com Karim Mahmoud-Vintam e Lucienne Gouguenheim. Ed. Temps Présent, Coleção "Semeurs d’avenir", 245 páginas&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;-----------------------------&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;A reportagem é de Claire Lesegretain, publicada no jornal La Croix, 14-01-2012. &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;A tradução é de Moisés Sbardelotto.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Fonte: IHU on line, 21/01/2012&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-7978330028719305520?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/7978330028719305520/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/cristinaismo-vive-mais-grave-crise-em-2.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7978330028719305520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/7978330028719305520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/cristinaismo-vive-mais-grave-crise-em-2.html' title='Cristinaismo vive &quot;a mais grave crise&quot; em 2 mil anos. O apelo urgente de um teólogo jesuíta'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-SoXfvg5ySG4/TxsRzdkCmBI/AAAAAAAAIPs/suCSNYxhEM4/s72-c/eRXL.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-3978185342993119353</id><published>2012-01-21T09:49:00.000-02:00</published><updated>2012-01-21T09:49:51.722-02:00</updated><title type='text'>Decifrando o gauchismo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;ESTUDOS GAÚCHOS&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-5kpo_alUopo/TxqiY9_29wI/AAAAAAAAIPU/H1ZrSjkNcBQ/s1600/gaucho0.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="275px" nfa="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-5kpo_alUopo/TxqiY9_29wI/AAAAAAAAIPU/H1ZrSjkNcBQ/s400/gaucho0.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: #38761d; font-size: xx-small;"&gt;De forma pioneira, Oliven mostrou que o gauchismo era uma entre múltiplas formas &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: #38761d; font-size: xx-small;"&gt;de afirmar identidade regional e reagir à homogeneização cultural do país&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Na abertura da série sobre interpretações do Estado, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Cultura aborda “A Parte e o Todo”, &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de Ruben Oliven, publicado &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;há 20 anos&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; que é ser gaúcho e o que torna um gaúcho diferente dos demais brasileiros? Quando e de que maneira nasceu o Rio Grande do Sul? O que, em sua história, economia, cultura e folclore, distingue nosso Estado dos demais da federação? Qual é a relação existente entre o Rio Grande e o Brasil hoje e o que mudou nessa relação ao longo dos anos? Gerações de pensadores de dentro e de fora do Rio Grande do Sul formularam essas e outras perguntas semelhantes ao longo dos anos e tentaram respondê-las em livros, manuais, textos acadêmicos ou não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Até dezembro, em Zero Hora, no terceiro sábado de cada mês, a série Visões do Rio Grande abordará 12 obras contemporâneas que tiveram impacto para a compreensão do Rio Grande em distintas áreas de conhecimento.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O primeiro livro da série é A Parte e o Todo – A Diversidade Cultural no Brasil Nação, de Ruben Oliven, professor titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A gênese da obra coincide com o final do regime militar, com a emergência da antropologia como campo de estudo e com a consolidação dos movimentos tradicionalista e nativista no Estado. Desde então, o fenômeno do gauchismo ganhou uma dimensão global imprevista por seus fundadores. Em entrevista concedida a Zero Hora em sua casa, no bairro Petrópolis, em Porto Alegre, no dia 22 de dezembro do ano passado, o autor comentou:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– No Estado de Massachusetts, vizinho àquele onde estou vivendo nos EUA (Oliven é professor visitante na Brown University, em Rhode Island), existem vários CTGs e está sendo criada uma federação de CTGs.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Parte e o Todo foi publicado em 1992 pela Vozes, teve segunda edição em 2006 e foi editado na Argentina e nos EUA. Esgotado na editora, o livro está disponível em bibliotecas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;A PARTE E O TODO A DIVERSIDADE CULTURAL NO BRASIL NAÇÃO &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-_XOvxvyaCbA/Txqiu-EDQZI/AAAAAAAAIPc/8esIz9xUHwE/s1600/gaucho.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-_XOvxvyaCbA/Txqiu-EDQZI/AAAAAAAAIPc/8esIz9xUHwE/s400/gaucho.jpg" width="292px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O LIVRO&lt;/strong&gt;: “A Parte e o Todo” apareceu em 1992, pela editora Vozes, e teve uma segunda edição em 2006. O livro foi traduzido nos Estados Unidos (“Tradition Matters – Modern Gaúcho Identity in Brazil”, Columbia University Press, 1996) e na Argentina (“Nación y Modernidad – La Reinvención de la Identidad Gaúcha en el Brasil”, Eudeba, 1999). Recebeu o Prêmio Melhor Obra Científica do Ano concedido pela Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais (1993). &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;O AUTOR&lt;/strong&gt;: Ruben George Oliven nasceu em 24 de outubro de 1945, em Porto Alegre. É professor titular do Departamento de Antropologia da UFRGS. Atualmente, é professor visitante na Brown University (Rhode Island, EUA). Atualmente realiza pesquisa sobre identidades refletidas na música do Brasil e dos EUA na primeira metade do século 20. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Gaúchos e brasileiros&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red; font-size: x-small;"&gt;&lt;strong&gt;MARIA EUNICE MACIEL*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_WlC5rnqeCfk/TEEKkfZlQWI/AAAAAAAAACg/SfU5rqFf0SQ/s1600/gaucho.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400px" nfa="true" src="http://2.bp.blogspot.com/_WlC5rnqeCfk/TEEKkfZlQWI/AAAAAAAAACg/SfU5rqFf0SQ/s400/gaucho.jpg" width="332px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; livro de Ruben G. Oliven A Parte e o Todo não é apenas mais um livro sobre o Rio Grande do Sul. Trata-se de um marco nos estudos antropológicos sobre os fenômenos sociais que tratam do problema da relação entre região e nação a partir da relação entre o Rio Grande do Sul e o Brasil.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Diferentemente dos inúmeros trabalhos que expressam ideias correntes sobre identidade (procurando uma “essência” na maneira de viver de determinado grupo), ao estudar a chamada “identidade gaúcha” o autor nos traz uma perspectiva na qual o que é chamado de “identidade” é, antes de tudo, uma construção social efetuada através de uma espécie de jogo de semelhanças e diferenças entre a Parte (a região, mais precisamente, o Rio Grande do Sul) e o Todo (o Brasil). Sua ideia é de que ela se constrói em relação ao Brasil e, desta forma, desfaz a concepção de existência de uma identidade cristalizada no tempo e no espaço. Assim, não procura dizer “o brasileiro é assim ou assado” ou entrar na polêmica que procura dizer “como (ou quem) é o gaúcho”, e sim nos mostrar como estas ideias são construídas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O livro nos mostra como diversos grupos participaram da construção do que é chamado de “identidade gaúcha” e como essa é um objeto de disputas entre esses grupos, disputa que envolve ideias (e critérios) sobre o que é verdadeiro/falso ou autêntico/espúrio na identidade regional. Ao analisar essas disputas dentro do cenário histórico onde ocorrem, o autor procura mostrar não apenas a polêmica em torno do assunto mas, sobretudo, quem tem o poder de estabelecer esta identidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O autor aborda questões fundamentais para a compreensão dos processos de pertencimentos. Somos gaúchos e brasileiros. Ou brasileiros e gaúchos. E não é apenas um caso de sobreposição, duplicidade ou de diferentes identidades. Trata-se de dois aspectos da mesma moeda. Que o Brasil tem como uma de suas mais fortes representações o fato de apresentar uma grande e significativa diversidade cultural, não há dúvidas. Mas o Brasil, ao mesmo tempo em que as comporta, é bem mais do que um somatório de identidades, o que faz com que os estudos das questões que envolvem essa relação entre o regional e o nacional tenham uma importância muito grande. E mostrar como isso é feito é um dos grandes méritos da obra.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;--------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;*Professora do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;Rara compreensão&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;CERES KARAM BRUM*&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-z5zJY-2m2-M/TxqmHOofINI/AAAAAAAAIPk/iv9WZORkGUo/s1600/gaucho2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="280px" nfa="true" src="http://3.bp.blogspot.com/-z5zJY-2m2-M/TxqmHOofINI/AAAAAAAAIPk/iv9WZORkGUo/s400/gaucho2.jpg" width="400px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;Imagem da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: large;"&gt;A&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;o longo dos últimos anos tem crescido no Rio Grande do Sul e em alguns países platinos a preocupação com a análise sobre o gaúcho e os gauchos em uma perspectiva histórica e arqueológica. Estes estudos têm afirmado sua real existência nos espaços correspondentes a Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul. Igualmente é farta a bibliografia que critica a eleição e apropriação excludente da figura do gaúcho, frente a outros tipos sociais, como tipo característico, a partir de análises tendentes à ideologização dos movimentos que o cultuam.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Frente ao conjunto desta produção o livro A Parte e o Todo – A Diversidade Cultural no Brasil Nação, do antropólogo Ruben George Oliven, enfoca o tema de uma maneira tão inovadora que, mesmo passados 20 anos da primeira edição, continua sendo uma leitura fundamental para se entender a complexa diversidade da cultura gaúcha, em suas várias interfaces com o estado-nação brasileiro.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Seu livro, ao analisar o gauchismo como um fenômeno sociocultural riograndense e platino, bem como suas diásporas pelo Brasil através da presença do fenômeno do tradicionalismo para além das fronteiras do Estado enfoca o gaúcho através de sua construção simbólica e o analisa como mito. Esta bela análise se constrói via apresentação de um farto conjunto de dados históricos e etnográficos que nos ensinam sobre as várias significações que o gaúcho como mito passa a adquirir ao longo dos séculos 19 e 20, para os grupos que o acionam, na elaboração de suas identidades individuais e coletivas quer em espaços ditos nacionais, regionais ou globais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A interpretação destes diálogos nos conduz, para além da dicotomia das oposições entre o local e o nacional, a pensar a cultura em suas utilizações simbólicas, suas imbricações inter-étnicas e suas sublimações. O imaginário partilhado sobre a figura do gaúcho no Rio Grande do Sul é um bom exemplo disto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na perspectiva da interpretação do mito do gaúcho adotada pelo autor, a apropriação de suas qualidades heroicas na composição da figura remete à seleção de fatos históricos e personagens, à leituras do passado e a sua utilização no presente. Refiro-me, por exemplo, à utilização simbólica da Guerra Guaranítica (1754-1756) com as alusões ao índio heroico Sepé Tiaraju, a quem se atribui o brado de “Esta terra tem dono”, bem como aos festejos da Revolução Farroupilha como mito fundador do gauchismo e sua popularização.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Neste cenário onde se entrelaçam passado e presente em situações ritualizadas, festejos ou concursos de que participam gaúchos, seus descendentes e simpatizantes dentro e fora do Rio Grande do Sul, vale lembrar a sábia máxima de Oliven de que, para além da falsidade ou da veracidade de uma representação vale sua capacidade de ecoar no imaginário de quem a aciona.&lt;br /&gt;--------------------&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;* Professora do Departamento de Ciências Sociais da UFSManteriorlista &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;FONTE: ZH/CULUTRA on line, 21/01/2012&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;Imagens da Internet&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/1573693655200632246-3978185342993119353?l=zelmar.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://zelmar.blogspot.com/feeds/3978185342993119353/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/decifrando-o-gauchismo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3978185342993119353'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/1573693655200632246/posts/default/3978185342993119353'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://zelmar.blogspot.com/2012/01/decifrando-o-gauchismo.html' title='Decifrando o gauchismo'/><author><name>Zelmar Guiotto</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10579134129139610201</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-5kpo_alUopo/TxqiY9_29wI/AAAAAAAAIPU/H1ZrSjkNcBQ/s72-c/gaucho0.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-1573693655200632246.post-5227084610576661980</id><published>2012-01-21T09:10:00.000-02:00</published><updated>2012-01-21T09:10:29.423-02:00</updated><title type='text'>Deus e Hitchens na terra do sol</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: red;"&gt;&lt;strong&gt;GUNTER AXT*&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;BALANÇO DE UMA TRAJETÓRIA&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;"&gt;&lt;tbody&gt;&lt;tr&gt;&lt;td style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-52sdYBe6xyo/TxqcMO7ku-I/AAAAAAAAIPM/I0oM4JratWw/s1600/12906592.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"&gt;&lt;img border="0" height="640px" nfa="true" src="http://4.bp.blogspot.com/-52sdYBe6xyo/TxqcMO7ku-I/AAAAAAAAIPM/I0oM4JratWw/s640/12906592.jpg" width="416px" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;tr&gt;&lt;td class="tr-caption" style="text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;O argumento central de “Deus Não É Grande”, &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;exposto por Hitchens em Porto Alegre, &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: xx-small;"&gt;era de que a religião havia se tornado descartável e inconveniente após o advento da ciência&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;/td&gt;&lt;/tr&gt;&lt;/tbody&gt;&lt;/table&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;Historiador gaúcho que recepcionou &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;polêmico escritor britânico na passagem&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;por Porto Alegre em 2007 relembra um&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;&amp;nbsp;instigante diálogo sobre o significado &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: large;"&gt;&lt;strong&gt;de crenças e práticas religiosas&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size: x-large;"&gt;O &lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;grande polemista britânico Christopher Hitchens, morto em 15 de dezembro, desprezava obituários sanitarizados. Lamentou não poder sobreviver às mortes de Henry Kissinger e Bento XVI para torpedeá-los sem clemência. Tripudiou sobre os editores do The New York Times quando do obituário tépido do odiado político racista Earl Buz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Numa pousada, em Paraty, em 2006, passeava de meias brancas, no café da manhã, com um transbordante copo de uísque caubói na mão. Na cidade, participou de sessão com Fernando Gabeira. Ambos vinham da esquerda, de cuja versão doutrinária se apartaram.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hitchens insurgiu-se contra a timidez com que a esquerda europeia reagira em 1989 à sentença de morte do regime iraniano a Salman Rushdie. Desde então, rompera ruidosamente com velhos camaradas, como Noam Chomsky e Tariq Ali, e investira contra celebridades, como Madre Teresa de Calcutá, Lady Di, Bill Clinton e, finalmente, Deus.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele militara contra a Guerra do Vietnã, mas surpreendera em 2003 ao celebrar a invasão do Iraque. Os neocons de Bush não poderiam ter sonhado com melhor garoto-propaganda. Desde o 11 de Setembro, obcecara-se pela ameaça de um islamo-fascismo, parecendo absorver a frágil, mas mobilizadora, lógica do choque das civilizações de Samuel Huntington. Garantiu que as provas da existência das armas de destruição em massa ainda apareceriam e achava que o custo em milhares de vidas e em dólares tinha valido a pena.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Em 1982, rompera com o socialismo ao apoiar a Grã-Bretanha no conflito com a Argentina pelas Ilhas Malvinas, pois esperava que os ingleses depusessem o ditador Leopoldo Galtieri. Nos anos 1990, alertou para a iminência de um genocídio na Bósnia pelo menos um ano antes de Srebrenica, clamando por uma intervenção militar que só chegou depois da morte de 200 mil pessoas. Mas, com o Iraque, se equivocou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Considerando a amplitude de sua voz, Hitchens tinha sangue nas mãos e se regozijou com isso em alguns artigos, o que vem sendo minimizado por conta de sua posição de destaque no establishment da mídia global. Errar é humano, mas insistir no erro, apesar de todas as evidências, é, na melhor das hipóteses, burrice.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: blue; font-size: lar
