quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

UM NATAL SIMPLES

 Henrique Monteiro*
Católicos, cristãos, agnósticos - e atrever-me-ia a dizer ateus - todos somos filhos da cultura judaico-cristã, sobretudo do legado que Cristo veio ao mundo dar testemunho: o amor entre os seres humanos.
Todos sabemos que entre as palavras ditas e a prática ao longo de séculos existiram grandes contradições. O ódio sobrepôs-se ao amor na Inquisição; a riqueza à frugalidade em muitas organizações das igrejas; a ganância à fraternidade em inúmeras ações que deveriam ser de caridade; a hipocrisia à verdade libertadora que Cristo ensinou.

Mas, ainda que conheçamos todas as imperfeições dos homens e das suas construções, não podemos, do meu ponto de vista, esquecer duas coisas muito importantes. A primeira, é que Cristo, que agora se celebra, não pregou apenas a resignação do "dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus". É certo que nos ensinou a viver com a sorte que temos e o modo de o fazermos o melhor possível, sem ressentimentos nem ódios; mas naquilo que de nós depende, também lembrou que os vendilhões podem e devem ser expulsos do Templo, justamente porque há uma vida além da vida quotidiana, além dos orçamentos, das economias, das contas e dos lucros. Há uma luz, um dom espiritual que cada pessoa pode cultivar, sem medo, porque essa luz, esse espírito, que é o amor fraterno da dádiva, continua a ser a mais revolucionária das mensagens, como aliás o Papa Francisco tem parecido indiciar. 

Se Moisés recebeu os 10 Mandamentos no monte Sinai que impunham aos homens um conjunto de regras de sociedade que hoje ainda se aplicam, no essencial, em qualquer civilização - não matarás, não roubarás, não cobiçarás o que é de os outros - Cristo acrescentou o mais belo, comovente, fraterno e difícil dos mandamentos: "Amai-vos uns aos outros". Sem restrições, sem querer saber das convicções de cada um, das etnias de cada um, das preferências pessoais de cada um.

É esta uma das mensagens centrais do Natal. Não me interessa tanto saber das partes históricas - Existiu Jesus? Era divino? A sua mãe era virgem? Fez milagres? - mas do significado da história. Todos os seres humanos - e hoje a ciência confirma-o - são uma grande família. Como em todas as famílias, há preferidos, melhores e piores, mas não há ninguém que não mereça a nossa compaixão, o nosso apoio quando dele necessita, a nossa fraternidade, a nossa mão.

Não me podendo, em consciência, considerar católico, fazendo parte, como já referi diversas vezes, da Maçonaria Universal, sou profundamente crente nesta mensagem que nos obriga, a cada momento, a pormo-nos no lugar do outro e olharmos para nós mesmos interrogando-nos sobre o bem que fizemos aos outros, o mal que lhes pudemos evitar, o que deles compreendemos, o que de nós próprios compreendemos. 

E assim, aqui têm os votos de um Feliz Natal. Para todos sem a mínima exceção.
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* Jornalista português.
Fonte:  http://expresso.sapo.pt/24/12/2013
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O espírito do Natal, segundo o papa Francisco

Foto
Numa banda desenhada recentemente publicada, uma menina contava à sua amiga que, para este Natal, tinha pedido aos pais que não lhe dessem presentes, mas apenas “espírito natalício”, e que os pais tinham ficado desconcertados, sem entender nem saber que fazer. A mensagem parece-me muito pertinente e coloca-nos certamente a pergunta: o que é o espírito natalício? 

Dá a impressão de que para responder haveria que empreender uma corrida de obstáculos através de muitas barreiras, entre outras as que nos impõe o acelerado consumismo de fim de ano. Mas a pergunta está aí. Ao longo dos tempos, a arte procurou expressá-lo de mil maneiras e conseguiu avizinhar-nos muito do significado desse espírito natalício. Quantos contos de Natal nos oferecem histórias que nos aproximam dele! As belíssimas narrativas de Andersen, Tilich, Lenz, Böll, Dickens, Gorki, Hamsun, Hesse, Mann e muitos outros conseguiram abrir horizontes de significado que nos fazem entrar por este caminho de compreensão do mistério, porém são insuficientes.

E, no entanto, é precisamente um relato, um relato histórico, que nos abre as portas ao real significado do “espírito natalício”. Um relato simples e preciso. Diz assim: «Por aqueles dias, saiu um édito da parte de César Augusto para ser recenseada toda a terra. Este recenseamento foi o primeiro que se fez, sendo Quirino governador da Síria. Todos iam recensear-se, cada qual à sua própria cidade. Também José, deixando a cidade de Nazaré, na Galileia, subiu até à Judeia, à cidade de David, chamada Belém, por ser da casa e linhagem de David, a fim de se recensear com Maria, sua esposa, que se encontrava grávida. E, quando eles ali se encontravam, completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lucas 2, 1-7).

Trata-se de um relato histórico, simples e com marcada referência ao caminho percorrido pelo povo de Israel. Quando Deus elegeu o seu povo e começou a caminhar com ele, fez-lhe uma promessa; não lhe vendeu ilusões, mas semeou a esperança nos seus corações; a esperança nEle, Deus que se mantém fiel pois não pode desdizer-se a si mesmo; deu-lhe essa esperança que não defrauda. Baseados no relato acima transcrito, nós, cristãos, sustentamos que essa esperança se consolidou. Consolida-se e lança-nos para diante, até ao momento do reencontro definitivo. Assim se manifesta o “espírito natalício”: promessa que gera esperança, consolida-se em Jesus e projeta-se, também na esperança, até à segunda vinda do Senhor.

O relato citado continua a narrar a cena dos pastores, a aparição dos anjos e o cântico que é mensagem para todos: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens por Ele amados». A esperança consolidada não aponta só para o futuro, mas também transborda no próprio presente e expressa-se em desejos de paz e fraternidade universal que, para se converterem em realidade, têm de se enraizar em cada coração nosso.

Cada vez que leio o relato e contemplo a cena, penetrando neste espírito de esperança e de paz, penso em todos os homens e mulheres, crentes ou não crentes, que percorrem o caminho da vida e trilham a senda de muitas procuras, na esperança ou na desesperança, e em mim brota o desejo de me aproximar, de desejar paz, muita paz, e também de a receber; paz de irmãos, pois todos o somos, paz que constrói. Desejar e receber essa paz que definitivamente possibilita, no meio de tantas névoas e noite, podermos reconhecermo-nos e reencontrarmo-nos como irmãos, podermos reconhecermo-nos no nosso rosto que nos reflete criados à imagem de Deus. Será isto parte do espírito natalício que aquela menina da banda desenhada reclamava ao seus pais?

Este texto, intitulado "O espírito do Natal", foi publicado em 23.12.2011 no jornal argentino "La Nación", assinado pelo cardeal Jorge Mario Bergoglio, hoje papa Francisco, à época arcebispo de Buenos Aires.
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In AICA (Agencia Informativa Católica Argentina)
Fonte: © SNPC (trad.) | 24.12.13

Tarso comemora crescimento do RS e prevê luta ideológica acirrada em 2014

Imprensa/Palácio Piratini
 Em entrevista à Carta Maior, o governador gaúcho faz um balanço de três anos de governo, responde críticas da oposição e avalia cenários para 2014.
 

Porto Alegre - Em entrevista à Carta Maior, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, faz um balanço de três anos de governo e responde críticas de partidos de oposição. Tarso prevê um debate programático e ideológico em 2014 e avalia que luta política e luta ideológica estão plenamente fundidas no Estado que foi governado recentemente pelo PSDB mais puro (com Yeda Crusius) com apoio de um “polo ideológico mais histórico, originário da ditadura militar, a velha Arena representada pelo PP”. Respondendo às críticas de que o atual governo estaria “gastando demais”, o governador afirma:“Nosso programa parte do pressuposto que é possível fazer o Estado sair da crise, qualificar os seus serviços, combater a pobreza extrema, com crescimento que gere empregos e não com encolhimento que gera pobreza e desemprego. Ele se opõe a este olhar simplista e medíocre, representada especialmente pelo Governo Yeda, cuja síntese foi a visão meramente contábil do "déficit zero", que, aliás, é uma invenção midiática”.

E enfatiza os atuais números da economia do Estado, cujo desempenho foi superior à média nacional em 2013. O Produto Interno Bruto gaúcho deverá fechar 2013 em torno de 6%, mais que o dobro do índice nacional. No segundo trimestre, enquanto a média brasileira apontou um crescimento de 3,3%, a economia gaúcha cresceu mais de 15%. O acumulado no primeiro semestre chegou a 8,9%, de acordo com a Fundação de Economia e Estatística (FEE), índice superior aos 2,6% registrado para o conjunto de regiões do Brasil. O valor exportado do ano alcançou a cifra de US$ 17,5 bilhões, um aumento de 28,6%, o terceiro Estado em exportação. A safra gaúcha bateu recordes este ano e a indústria cresceu 6,1%, o maior crescimento segundo pesquisa do IBGE, enquanto a média brasileira situa-se em 1,6%.

Na entrevista, Tarso também fala sobre as eleições de 2014 e diz que a sua candidatura à reeleição ainda não está definida. “Estamos criando as condições externas e internas para declarar, ou não, a minha candidatura. Penso que não serei o candidato mais indicado, por exemplo, se  o nosso partido, nacionalmente, decidir que a Presidenta deverá ter aqui dois palanques”, afirma.

Carta Maior: O Rio Grande do Sul apresenta o maior índice de crescimento do país este ano. No entanto, partidos de oposição como o PP e o PSDB criticam a orientação do atual do governo dizendo, entre outras coisas, que está gastando demais? Qual a sua resposta a essas críticas?

Tarso Genro: Talvez o nosso Estado seja aquele em que a luta política e a luta ideológica estejam mais plenamente fundidas, não somente porque recentemente o Governo esteve nas mãos do mais "puro" PSDB - que se elegeu num lance de sorte e com um  apoio galopante da maioria da mídia - mas também porque tem um polo ideológico mais histórico, originário da ditadura militar, a velha Arena representada pelo PP,  que aqui sempre fez opções à direita e não ao centro, como eventualmente ocorre em outras unidades da Federação.

Desta união de partidos e setores de classes, articula-se, ora ganhando para seu campo outros partidos tradicionais, um bloco com apoio majoritário dos grandes empresários locais e cujo centro programático parte sempre do seguinte: as finanças públicas estão em ruína porque o Estado tem funcionários demais, os incentivos fiscais devem predominantemente atrair grandes montadoras para "puxar" o desenvolvimento, o salário mínimo regional faz o Estado "perder competitividade", os agentes públicos em geral são incompetentes, o mal do "corporativismo" é que sempre impediu o Estado de decolar e o que nós precisamos é de mais incentivos fiscais, menos impostos, mais obras de infraestrutura e mais privatizações.

Como se funde, no concreto, a política e a ideologia?  De uma parte, reduzindo as funções públicas do Estado para mostrar, a partir daí, que ele é uma máquina lenta que só atrapalha os bons empresários e, de outra, criticando os gastos públicos de natureza social e os que são destinados a recuperar aquelas funções públicas, que eles desbaratam quando estão no Governo.

Carta Maior: Em que aspectos fundamentais sua visão de governo difere da oposição?

Tarso Genro: O nosso programa de governo só foi possível ser implementado com apoio do Governo Federal. Ele se opõe a este olhar simplista e medíocre, representada especialmente pelo Governo Yeda, cuja síntese foi a visão meramente contábil do "déficit zero", que, aliás, é uma invenção midiática. Nosso programa parte do pressuposto que é possível fazer o Estado sair da crise, qualificar os seus serviços, combater a pobreza extrema, com crescimento que gere empregos e não com encolhimento que gera pobreza e desemprego. Para tanto, é preciso atrair investimentos públicos e  privados que energizem a base produtiva local, que se acoplem nela - por exemplo ajustando as  encomendas dos seus  insumos para dentro do Estado - e  saindo do sufoco financeiro pela reestruturação da dívida pública, o que já está em curso.

É preciso, neste novo contexto político e econômico, não sucatear, mas ampliar os  direitos sociais: melhorar os salários dos servidores, ampliar o quadro de funcionários de acordo com as reais necessidades da prestação de serviços e utilizar as agências financeiras do Estado para incentivar a produção de baixo para cima, ou seja, desde a agricultura familiar, até as médias e pequenas empresas locais, que aqui no Rio Grande do Sul compõem uma vasta rede com centenas de cooperativas de grande importância na história econômica e produtiva  do Estado.

Sair da crise crescendo, não caindo na armadilha funesta do neoliberalismo, que reza ser um dever penalizar os mais pobres, para melhorar a vida de todos num dia inatingível. As grandes empresas pautam, hoje, seus investimentos mais pelo ambiente social e político das regiões, do que exclusivamente por incentivos unilaterais que elas sabem que nem são bem recebidos pelas comunidades em que elas se instalam.

Carta Maior: Considerando os governos anteriores, quais são, na sua opinião, as principais mudanças alcançadas nestes três anos de governo? Foi possível fazer alguma mudança qualitativa?

Tarso Genro: Nosso Estado está crescendo mais do que o dobro do Brasil, a nossa rede de microcrédito já financiou milhares de pequenas e microempresas com 262 milhões de reais, incorporamos no nosso programa de renda para combate à miséria extrema 62 duas mil famílias e queremos chegar a 100 mil em 2014.

Nosso Pronatec é o maior do Brasil em termos absolutos; promovemos aumentos inéditos no salário mínimo regional para aumentar o consumo de mais de um milhão de trabalhadores que dependem deste salário;  reformamos o sistema de incentivos fiscais e adotamos uma política industrial específica para o Estado, tendo atraído já quase trinta bilhões de reais de investimentos privados - alguns em andamento e outros já feitos, como o da Companhia Rio-grandense de Celulose, o maior da história do Estado, com 5 bilhões de reais.

Dobramos os recursos para a saúde pública e estamos chegando a uma mortalidade infantil com menos de um dígito por mil nascituros; a resolução dos homicídios pela Polícia Civil, reequipada e reformada, subiu de em torno de 20 por 100, para 70 por 100. Já montamos três planos Safras Regionais, com mais de três bilhões de reais em cada ano para financiar a agricultura familiar e de porte médio, no Estado; retomamos os investimentos em estradas através de financiamentos obtidos em agências nacionais e internacionais.

Instituímos uma espécie de "passe livre" estudantil, nas regiões que o Estado tem o controle do transporte coletivo com recursos do Tesouro do Estado; instituímos, aqui,  um sistema de participação popular inédito, integrando Orçamento Participativo, Consulta Popular Direta através da forma "plebiscitária", a participação virtual pela internet  (via Gabinete Digital), Conselhos Regionais de Desenvolvimento e Plenárias Consultivas no interior.

Essas são mudanças feitas dentro da democracia, que conseguimos graças a um sistema de alianças que nos permitiu governar com maioria e ir até o limite do possível. Algumas delas são mudanças qualitativas, que terão reflexos no futuro, inclusive para oxigenar as classes empresariais locais, que são extremamente conservadoras, cuja agenda é praticamente sempre a mesma: menos impostos e arrocho no salário mínimo regional.

Carta Maior: A oposição já está apresentando seus argumentos e críticas. Quais devem ser, na sua avaliação, os principais pontos do debate eleitoral no Estado em 2014?

Tarso Genro: O debate será programático e também ideológico. Hoje é impossível desconectar a oposição a nós, aqui no Estado, do que foi o Governo Yeda e o Governo Britto,  governos mais expressivos das posições programáticas e ideológicas desta turma. Não estou falando, aqui, de competência nas gestões nem de questões penais. Estou falando de programas mesmo, de ações de governos, de tratamento das aspirações populares, de visão de desenvolvimento dentro do sistema capitalista e dentro do regime democrático.

É de se notar, por exemplo, que nas lutas mais corporativas  - radicalizadas por uma extrema-esquerda carente  de programa e sem propósitos de governar o Estado - esta oposição da direita ideológica sempre deu cobertura política ao esquerdismo voluntarista, seja na Assembleia Legislativa, seja junto ao movimento das categorias profissionais.

Estamos plenamente preparados para o debate, no terreno dos números, no terreno ideológico e nas questões de natureza programática, para debater com os dois extremos, a partir de uma visão de esquerda que aceita a responsabilidade de governar e governa dentro da ordem democrática da Constituição de 88.

Carta Maior: O calendário eleitoral vem se acelerando nas últimas semanas, com os partidos se movimentando em torno de possíveis alianças. O pré-candidato do PDT ao governo do Estado, Vieira da Cunha, estaria cogitando uma aliança com Aécio Neves em nível federal. Qual sua opinião sobre essa possibilidade?

Tarso Genro: Vieira da Cunha é uma liderança histórica do PDT do Estado, que esteve conosco, no Governo, até há poucos dias atrás e que governou conosco totalmente integrado e leal, com três secretários importantíssimos: esportes, saúde e relações federativas. Estranhei este movimento do Vieira e creio que se trata, na verdade, apenas de um tiro de pólvora seca, pois o Aécio, em especial, não significada nada para as bases eleitorais do PDT aqui no Estado, pelos menos do PDT de Brizola.

De qualquer forma não devo fazer qualquer juízo de valor, pois esta é uma questão que deve ser analisada nas instâncias internas do PDT, partido que eu respeito e considero nosso aliado estratégico. O fato é que nós, da esquerda, devemos nos preparar para um  novo período histórico no Brasil, a partir de 2015, quando o modelo lulo-desenvolvimentista, como eu gosto de chamar, estará esgotado. Esgotado porque deu certo, não porque deu errado. Isso significa que deveremos reciclar, não só o nosso sistema de alianças, mas também preparar as condições políticas e econômicas para acabar, não mais somente com a miséria extrema no país, mas acabar com a pobreza e com as humilhantes desigualdades sociais que permanecem uma marca bem brasileira.

Creio que nem Aécio nem Eduardo Campos, estão preocupados efetivamente com isso, pois o que se tem visto quando se une choque de gestão com desenvolvimentismo liberal, é mais riqueza e poder concentrados e mais desigualdades sociais e regionais. O México, o Chile, o Peru e outros já passaram por isso.

Carta Maior: Quando será anunciada a sua decisão sobre a candidatura à reeleição ao governo do Estado?

Tarso Genro: Estamos criando as condições externas e internas para declarar, ou não, a minha candidatura. Penso que não serei o candidato mais indicado, por exemplo, se  o nosso partido, nacionalmente, decidir que a Presidenta deverá ter aqui dois palanques. Isso seria contraditório com o papel que eu assumi aqui no RS, inclusive  no confronto político com os partidos adversários mais duros da Presidenta. É preciso levar em consideração, inclusive, que não só o nosso Estado é um dos mais politizados no país, como também aqui, os votos que saem do nosso campo não tem ido  em direção à direita, mas em direção a posições  tidas como de "esquerda", como, por exemplo, em direção à Marina e ao PSOL.
Quando comento este assunto estou tratando de estratégia eleitoral e de tática eleitoral no plano local, não de fidelidades abstratas ou sentimentais e, muito menos, do meu futuro político pessoal. O meu futuro possível eu já estou vivendo plenamente, com muita responsabilidade.
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Reportagem por  Marco Aurélio Weissheimer
Fonte: Carta Maior online, 24/12/2013

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

APENAS NATAL

João Pereira Coutinho*
 

Simplificando, existem dois grupos: para os ansiosos, o Natal é uma prova; para os deprimidos, uma provação 

Anos atrás, comprei em Londres uns cartões de Natal que faziam uma paráfrase do célebre "Keep Calm and Carry On" (fique tranquilo e continue). No caso, a frase era apenas um "Keep Calm, It's Only Christmas" (fique tranquilo, é apenas Natal). 

Foi sucesso de bilheteria: as pessoas agradeciam o cartão e depois começavam um longo rol de misérias pessoais que a quadra traz consigo. Simplificando, existem dois grupos: os ansiosos e os deprimidos. 

Os ansiosos começam a sofrer em finais de outubro, inícios de novembro. Com os presentes que é preciso comprar (ou evitar); mas sobretudo com a logística que é preciso respeitar: noite de 24 na mãe dele; almoço de 25 na mãe dela; jantar de 25 na própria casa; dia 26 no manicômio da cidade.
O "espírito de Natal", para esses infelizes, é muito semelhante a uma prova universitária que é preciso fazer todos os anos, com os mesmos professores, sobre a mesma matéria. O eterno retorno da etiqueta. E com possibilidade de reprovação. 

Os deprimidos são outra história: incapazes de viver o Natal presente, eles são como Mr. Scrooge, o personagem de Dickens, só que perpetuamente condenados a viverem apenas os Natais passados. 

Aproxima-se o dia 24 e é vê-los, meditabundos e lacrimejantes, recordando as companhias que tiveram e já não têm; as oportunidades que surgiram e já não surgem; os lugares por onde passaram e onde já não passa nada. 

Para os ansiosos, o Natal é uma prova; para os deprimidos, uma provação: uma forma de serem novamente esfolados vivos pelos fantasmas do fracasso e do arrependimento. 

Um amigo meu, usualmente solar, hiberna sempre dia 24 e só ressuscita dia 26. Hiberna em hotéis ("são mais impessoais") ou, de vez em quando, cruzando os céus quando as famílias terráqueas se reúnem cá em baixo. "É mais fácil assim", dizia-me ele há uns meses, recusando qualquer convite para um jantar lá em casa. E a sentença final: "Eu só quero que o Natal passe depressa, João". 

E quando não são as provações pessoais, são as profissionais. Não sei quando começou a moda das "festinhas de escritório". Mas espanto-me por não haver notícias na TV de chacinas em massa durante esses encontros. 

Colegas que não se falam e até se apunhalam todo o ano surgem nessas "vernissages" com um amor pelo próximo que faz das figuras de cera do Madame Tussauds verdadeiros seres de carne e osso. 

Pergunta-se pelos filhos (cujos nomes se desconhece) e pela saúde dos progenitores (entretanto já falecidos e enterrados). Brinda-se ao nada. Tiram-se fotos, muitas fotos, para vender alegria "sincera" no Facebook. E depois regressa-se a casa com os músculos do rosto doridos. 

Quando janeiro começa, o escritório é o que sempre foi: um ringue de inimigos e estranhos. Como sobreviver a tudo isso? 

Primeiro que tudo, apagando o verbo "sobreviver" da gramática natalina. Não há nada de que sobreviver se o dia 24 for igual ao 23. E a única forma de o tornar igual é retirar do 25 os contornos de "juízo final" com que nos danamos ou salvamos. 

No fundo, devemos ser o oposto de Logan Mountstuart, o personagem de "Any Human Heart", a série de TV inspirada no livro (mediano) de William Boyd. Não sei se já falei dela nesta Folha. Provavelmente. 

Mas nunca é demais repetir, até como sugestão natalina: na série, Mountstuart é um escritor torturado pelos erros que ensombram os seus dias. As mulheres que perdeu. Os amigos que o deixaram. E, claro, os romances que ele nunca conseguiu escrever. 

Ao longo da vida, ele vai anotando esses erros nas páginas do diário --um exercício confessional a que ele, o grande romancista, concede diminuta importância. 

E, no entanto, são os diários que ficam depois da morte. Como se os diários fossem o resumo mais autêntico de uma vida verdadeiramente autêntica: uma vida que é feita de toda a sorte e de todo o azar. Mas que também é definida pela forma como gostamos de a ver e contar. 

Porque é sempre possível contar a mesma vida de duas perspectivas distintas: a perspectiva derrotista de Logan Mountstuart; e a perspectiva de sucesso que a posteridade concedeu aos seus diários --e, no limite, à sua vida e até aos seus erros. 

Não se martirize, leitor. Raramente somos os melhores juízes em causa própria. Brindar ao Natal deveria ser, tão simplesmente, brindar ao pouco que sabemos --e ao muito que um dia se contará sobre nós. 
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* José João Pereira Coutinho é um jornalista, escritor, historiador e comentador e cientista político português. É professor da Universidade Católica Portuguesa e comentador do Correio da Manhã e da TVI24
Fonte: Folhe online, 24/12/2013
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O sobrenatural e o real

 Martha Medeiros*
 

Há algum tempo venho pensando na função das religiões, e a cada reflexão me convenço de que não precisamos de templos, rituais, mandamentos, pecados, penitências e de intermediários falando em nome dos deuses – e nem de deuses precisamos. É tudo opcional. O que precisamos está dentro de nós.

Templos são belos e podem ser úteis na busca por sossego espiritual, já que costumam ser silenciosos (a natureza também pode cumprir essa função, diga-se). Rituais são igualmente belos e podem confirmar nossas melhores intenções perante a vida (mas sem plateia também podemos confirmá-las, você sabe). Pecados e penitências, eu pulo. São manipulações que só servem para gerar culpa. Intermediários? É bonito contar com a figura de um pai, seja real ou simbólico, e nesse sentido a figura do Papa, de um Buda, de um monge ou de qualquer pessoa de carne e osso com um projeto pacificador pode cumprir a função de extrair de nós a humildade necessária para não virarmos uns tiranos. Quanto aos mandamentos, bastaria um só, um único, que, se fosse obedecido, solucionaria boa parte dos problemas do mundo: “Não faça aos outros o que não gostaria que fizessem a ti”. Há muitas versões da mesma frase, mas essa vem sem metáfora, desembalada e pronta para usar.

Já pensou se ela fosse aplicada na política? No universo corporativo? Eu sei, é utopia demais, mas se fosse aplicada ao menos nas nossas relações cotidianas, já faríamos uma revolução.

Pena que ela apresente uma solução simples, e as pessoas rechaçam o simples. O simples não gera comoção, não dá pauta, não é suficientemente bombástico. A encrenca, a dificuldade, o jogo de poder, a competitividade, a vingança, isso tudo, sim, torna a vida menos monótona. Se as coisas derem certo, qual é a graça? Do que iremos nos queixar?

Eu, que adoro uma vida mansa, sou totalmente partidária do simples, do óbvio, do fácil, do comum – dentro do que ambiciono, eles me servem muito bem. Minha religiosidade é desenvolvida através de valores que não dependem de representatividade formal, constituída e sacra. Gentileza, tolerância, respeito, elegância moral (ouvi essa expressão outro dia e adotei), honestidade, paciência, troca, afetividade e desapego de mágoas e rancores: disso tudo provém a verdadeira espiritualidade transmitida de pai para filho, de avós para netos, de amigos para amigos, sem necessidade de carteirinha de adesão a qualquer igreja.

Neste Natal (e amanhã, e depois de amanhã...), reze, é um conforto para a alma. Ou não reze, se não possui o hábito. Não vai fazer diferença nenhuma para o mundo. O que faz diferença para o mundo é como você se comporta com os outros, não com Deus. Deus, muitas vezes, serve apenas para transferir responsabilidades. Assuma a sua, e amém: estaremos todos em paz.
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* Jornalista. Escritora. 
Fonte: ZH online, 24/12/2013
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Cada um de nós é uma personagem do presépio e tem de sentir-se envolvido nesta história

 
 O padre José Tolentino Mendonça, poeta e biblista, 
analisa os primeiros capítulos do Evangelho de São Lucas, 
à luz do atual tempo do Natal, onde todos os símbolos, 
como os animais no presépio ou a manjedoura, 
são importantes e contextualizados

Agência Ecclesia (AE) – São Lucas é o evangelista que nos dá uma narrativa mais completa e talvez com um rosto mais humano destes episódios do nascimento de Cristo?
Padre José Tolentino Mendonça (JTM) – Dentro dos evangelhos, apenas Mateus e Lucas têm o Evangelho da infância e é muito interessante porque ambos os evangelhos, contando a mesma realidade, situam-se em ângulos diferentes. Mateus escolhe falar de Jesus a partir de São José porque lhe interessava apresentar Jesus sobretudo para as comunidades judaicas, que eram cristãs, e então ali o papel do pai, do pai adotivo era o papel principal.
Lucas dá-nos duas grandes curiosidades, por um lado quem é o guia até ao presépio é Maria, a figura de Nossa Senhora no Evangelho da Infância de Lucas é aquela que abre as portas ao entendimento do primeiro mistério de Jesus. E depois o próprio Evangelho da Infância em Lucas, e isso é muito interessante, é como um musical, é uma polifonia, no final de cada grande cena nós temos um canto. Temos o canto do Benedictus, depois da anunciação a Zacarias que ia ser pai de João Batista, temos o cântico do Magnificat, quando Maria e Isabel se encontram, e temos o cântico do Nunc dimittis quando Simeão tem ao colo o menino na primeira apresentação no templo. De maneira que é também um Evangelho com muita alegria e temos também o coro dos anjos que vêm anunciar aos pastores que hoje lhes nasceu um salvador. É um Evangelho guiado por Maria, atravessado por uma profundidade teológica enorme mas também por um tom alegre, musical, quase como que se Lucas construísse uma polifonia de todas as nossas vozes num louvor ao menino que nasce.

AE – A narrativa da anunciação, Maria surpreendida pelo anjo que lhe aparece e faz esta revelação. Como podemos contextualiza-la, como surge esta narração ou este processo escolhido por Deus para se anunciar a uma rapariga de Nazaré (Galileia, Israel)?
JTM – As anunciações fazem parte da religião de Israel, também no Antigo Testamento nós temos anjos enviados a transmitir uma notícia de Deus, de maneira que quando Maria viu um anjo não morreu de susto porque de certa forma, no coração e na fé dela existia essa prática de Deus, de enviar dessa forma as suas mensagens. E o anjo é sempre condutor de uma mensagem muito importante da parte de Deus.
O texto da anunciação é um texto formidável a vários pontos de vista. Um deles é porque estabelece de facto um diálogo, não é uma imposição, é uma proposta que Deus faz aquela rapariga de Nazaré. O anjo revela-lhe o plano de Deus e Maria coloca questões, pergunta como é que isso pode ser, quer perceber o mandato de Deus e só quando o seu coração é ganho pela confiança na palavra de Deus e nesta racionalidade na fé que ela vai construindo no diálogo com o anjo Gabriel é que ela diz o seu sim: “Eis escrava do Senhor faça-se em mim segundo a sua palavra”. É um texto de facto fantástico porque situa a mensagem de Deus numa história concreta, o nome da donzela é Maria, ela vive em Nazaré num contexto que é muito identificado, o seu esposo chama-se José, estão todos bem identificados e é assim uma história concreta que Deus se dirige, com a qual Deus dialoga e convida Maria e também José, porque é agregado a esta história, convida-os a viverem a emergência da aventura do divino na história pelo mistério da encarnação de Jesus.

AE – Este “faça-se em mim”, esta resposta de Maria é um aceitar de uma realidade maior, não vemos aqui uma preocupação com pormenores da parte dela. Ela tem a perceção que será difícil?
JTM – Ela quer perceber o essencial. Maria quer perceber o essencial, pergunta “como poderá ser” e quando ela percebe que o próprio Deus virá em auxílio da fragilidade humana, que o próprio Deus conduzirá essa história, ela abre o seu coração numa atitude que para nós é um grande modelo. A palavra de Maria continua a ser inspiradora para a Igreja de todos os tempos, Maria no fundo sabendo uma parte mas não sabendo tudo dispõem-se na confiança a viver como parceira esta história sagrada.

AE – É um relato que no remete algo idêntico para o anúncio de Zacarias. O anúncio do nascimento de João que é quase o apresentador de Jesus.
JTM – É interessante porque São Lucas conta precisamente a história de Jesus sempre em paralelo com a história de João Batista. E nós podemos encontrar no Evangelho da Infância, nos primeiros três capítulos do Evangelho de São Lucas uma espécie de pandã de sincronia, a palavra exegética síncrise, uma comparação à anunciação Zacarias à anunciação Jesus: Zacarias canta, Maria também canta; à uma missão confiada a João batista, à uma missão confiada a Jesus; João Batista nasce, Jesus nasce. Depois acabam por se encontrar no capítulo terceiro, na cena do batismo de Jesus precisamente por João Batista mas onde João Batista se assume como percursor, como aquele que prepara o caminho deste Deus que vem em Jesus de Nazaré.

AE – Existe aqui um dado interessante que é a proposta do anjo a dois casais quase impossíveis: Zacarias casado com uma mulher de idade avançada e Maria que era virgem, que não estava casada, que estava apenas prometida.
JTM – Essa é de facto uma palavra muito interessante porque são dois nascimentos que têm o seu quê de problemático. Não são evidentes e isso mostra de facto que o modo como Deus vem à nossa história não é evidente, não é pelo caminho mais imediato e previsível mas há a imprevisibilidade de Deus. Aquilo que o anjo explica a Maria, a Deus nada é impossível. E de facto o que nós vemos é Deus vencer os impossíveis da história. A história concreta destes dois casais, Isabel e Zacarias, Maria e José para revelar a sua palavra.

AE – Esta visita de Maria a sua prima Isabel, que leitura podemos fazer deste pôr-se a caminho?
JTM – É uma cena extraordinária que diz muito de Maria: Maria pôs-se a caminho, apressadamente pelas montanhas da Judeia para ajudar Isabel. Por um lado há um fundo histórico normal, uma mulher grávida e uma pessoa já com alguma idade como Isabel precisa de uma presença amiga, feminina, nos trabalhos do parto que a ajude nos últimos tempos da sua gravidez e nos primeiros dias em que é mãe. Isabel precisava de ajuda mas Maria leva no seu seio uma ajuda maior que não é apenas a ajuda que uma mulher amiga pode dar a outra. Que uma parenta pode dar a outra mas é transportar o menino no seu seio, Jesus vai em socorro de Isabel e de João Batista que está para nascer como vem em socorro da nossa humanidade.

AE – É neste contexto que surge o Magnificat que é um cântico de exortação, de louvor, de reconhecimento.
JTM – É um cântico extraordinário, conta o abraço, o encontro daquelas duas mulheres e é como que uma dança em que se recupera a grande tradição do cântico feminino que anuncia a ação libertadora de Deus. De facto muitas palavras do Magnificat não são originais na boca de Maria, elas já nos aparecem, por exemplo, na boca de Ana, a mãe do profeta Samuel, e em outros passos da escritura e é um texto como uma força de fé extraordinária porque Maria enuncia a libertação de Deus, a alternativa de Deus. Este Deus que rebusca a história, que a revira mostrando as possibilidades inauditas que a história conserva. Ele reira os soberbos dos seus tronos, ele despede os ricos de mãos vazias, ele exalta os humildes, ele realiza as promessas de misericórdia feitas a Abraão e a nossos pais. É o cântico da alternativa de Deus, é de facto um cântico de uma beleza extraordinária e é interessante lembrar que Sofia de Mello Breyner quando lhe perguntavam qual é o poema mais lindo que conhece respondia sempre que “é o Magnificat no Evangelho de São Lucas”. É de facto o mais belo poema da humanidade em que se canta não apenas o passado mas canta-se o presente atuante redentor de Deus nas nossas histórias.

AE – Depois o nascimento. Numa primeira parte o texto fala da determinação das autoridades civis, o édito de recensear de César Augusto, de alguma forma também é uma forma de contextualização histórica e é um dado que aconteceu?
JTM – Lucas tem essa preocupação histórica de situar Jesus nas coordenadas do tempo e do lugar. E esse prólogo ao nascimento de Jesus é de uma enorme importância porque esse recenseamento de facto aconteceu, é um dado histórico e como em todos os recenseamentos as pessoas tinham de se deslocar de um lado para o outro. A razão pela qual Maria e José vivendo em Nazaré têm Jesus em Belém é cheia de uma grande verossemelhança histórica por causa deste recenseamento.

AE – Depois a questão do não haver lugar, como podemos ler esta situação, mesmo na realidade dos nossos dias em que as pessoas não criam lugar, não há lugar?
JTM – Podemos dar-lhe uma conotação histórica que tinha. Eles não estão na sua terra, estão ali deslocados, visitantes, forasteiros. Uma mulher grávida e em trabalhos de parto não é uma mulher que se possa acolher em qualquer lugar e é natural que naquela situação eles tenham tido muita dificuldade em encontrar essa hospitalidade mas tem também evidentemente uma leitura simbólica. Como se diz no prólogo de São João, “Ele veio ao que era seu e os seus não o reconheceram”. Este não reconhecimento há de marcar a vida de Jesus desde o primeiro instante da sua passagem pela terra.

AE – É escolhida aquela gruta, aquele lugar, não se especifica…
JTM – É um lugar de pastores, podia ser um piso térreo onde estavam os animais, podia ser uma gruta onde também os animais se recolhiam, mas era de facto um lugar marginal.

AE – Esta marginalidade tem uma carga que poderemos interpretar?
JTM – Tem também uma forte carga simbólica muito interessante. Tudo o que a narrativa descreve tem um grande sentido, por exemplo, a presença dos animais, o burro e o boi são muito importante no presépio ao contrário do que se pensa porque têm a ver com uma passagem do início do livro do profeta Isaías que diz, “o burro conheceu o seu dono e o boi conheceu aquele que o alimenta mas Israel não conheceu o seu Senhor”. A presença dos animais tem também quase que um sentido escriturístico, é quase como que um ato de fé para dizer que Jesus cumpre de facto aquela palavra e o facto de ser deitado numa manjedoura tem a ver com Jesus ser o alimento e se fazer dom. O seu último grande gesto, aquele que se perpetua no tempo é a eucaristia em que Jesus se torna alimento. Ele é colocado por Maria na manjedoura que é o lugar da comida, dos impuros. Jesus é alimento que se oferece e por isso também a manjedoura é um sinal que mais tarde vamos entender perfeitamente.

AE – Depois há o episódio dos pastores a quem o anjo anuncia este nascimento. O facto de serem pastores também podemos fazer uma leitura noutro prisma? Os pastores não são uma classe sacerdotal.
JTM – Há dois sentidos. Um é esse Evangelho da alegria, os anjos que dizem “anuncio-vos uma grande alegria que o será para todo o povo, hoje nasceu para vós um salvador”. É a grande alegria do nascimento de Jesus e o anúncio de uma salvação para todos, não para os eleitos mas uma salvação que chega a todos os homens e por isso veem os últimos. Isto é, aqueles que socialmente têm uma menor dignidade. Os pastores viviam fora das cidades, viviam a cuidar dos animais, eram considerados impuros e é interessante que são esses os últimos na escala social que primeiro chegam, que primeiro acolhem a adorar o Deus que nasce. Isso também já diz alguma coisa do ministério de Jesus que é o salvador de todos mas que abre o seu coração de uma maneira muito particular para os últimos de cada tempo e de cada sociedade.

AE- Estes últimos e no caso dos pastores também não se puseram com grandes perguntas para saberem ao certo o que tinha acontecido. Eles perceberam o mistério e puseram-se a caminho. Mais uma vez alguém que está a caminho?
JTM – Uma das coisas extraordinárias no Evangelho de Lucas é muitas vezes coloca-nos como modelo, os pecadores, os impuros porque ele diz: “os que se julgam santos justificam-se a si mesmos”, vivem numa autossuficiência e são aqueles que precisam de salvação que nos explicam o que é acolher a salvação. Também hoje podemos viver o mistério do Natal de uma forma muito autossuficiente, dispensando o próprio Jesus, como se o Natal fosse apenas uma conversa entre nós.

AE – No anúncio aos pastores a criança que nasceu é o salvador, já não é o filho de José e Maria. O que interessa é o salvador dado à humanidade?
JTM – Isso mostra a capacidade de ver o invisível. Quando os pastores se inclinam diante de Jesus estão a ver para lá daquilo que os olhos veem e o mistério da encarnação de Jesus pede de nós essa capacidade. Jesus é um de nós, vive a nossa história mas temos de ser capazes de olhar nele o Deus connosco, o Deus que se faz presente nas nossas vidas.

AE – O papel dos pastores não termina no facto de irem visitar porque eles regressam exultantes e anunciando aos outros o que viram. Este nascimento, esta mensagem não é para guardar no segredo, na satisfação pessoal de cada um é para comunicar aos outros?
JTM – Um dos traços muito belos na narrativa da infância é essa espécie de propagação. Eu vi e vou chamar outro a ver e vou dizer o que vi e vou contar e tece-se como uma espécie de polifonia. É como que uma luz que não se pode esconder e a propagação é hoje para nós um compromisso muito grande. No fundo vemos, ouvimos e lemos o que tocamos acerca do mistério da vida é aquilo que vo-lo anunciamos.

AE – É o desafio hoje passados estes anos nas conjunturas históricas, económicas e sociais que vivemos de nos deixarmos fascinar, emocionar, tocar por este nascimento do salvador que se revisita todos os anos?
JTM – Nós cristãos não vivemos estes acontecimentos apenas como acontecimentos históricos de um passado. Vivemo-los também na sua dimensão de presente e de futuro. Jesus não nasceu, nasce. Jesus não foi apenas contemplado por aqueles personagens que nós colocamos no presépio, cada um de nós é uma personagem do presépio e tem de sentir-se envolvido nesta história sentindo que ele nasceu para si. Jesus nasceu para que cada um de nós tenha a possibilidade de nascer mesmo sendo velho, mesmo sentindo que até já viveu coisas contraditórias mas somos chamados a sentir que Jesus nasce hoje para nos fazer nascer neste momento.

AE – Na forma de viver o Natal, os presépios já estiveram mais fora do imaginário do que agora?
JTM – Há um regresso. Penso que o texto de São Lucas pode ajudar muito. Era importante não cair numa estilização do presépio que o deslocasse do seu fundo bíblico porque há uma série de elementos que são muito importantes, como: o burro, o boi, a manjedoura. Pode parecer de facto que são supletivos mas são de facto elementos essenciais, tal como claro o menino, Maria e José. É interessante a tradição do presépio que é como o grande teatro do mundo, representam a vida nas aldeias e vemos os presépios populares portugueses, o de Machado de Castro mas mesmo esses de barro anónimos que todo o mundo é colocado no presépio. É muito bonito porque é acreditar que Jesus nasce neste mundo concreto e é muito curioso.
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Fonte: Site português:  http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=98315

domingo, 22 de dezembro de 2013

Anfetamina espiritual

Sérgio Augusto*

Maratona: A redatora Mita Diran morreu após três dias de esforço ininterrupto - Reprodução
Reprodução
Maratona: A redatora Mita Diran morreu após três dias de esforço ininterrupto

Trabalhar demais nos incute a ilusão de que não somos tão insignificantes assim

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Em sua última postagem no Twitter, no dia 14, Mita Diran cantou vitória: "30 horas de trabalho e continuo fooorte". Horas depois, já nada forte, Diran morreu. Redatora de publicidade da Young & Rubican da Indonésia, Diran foi a mais recente vítima do que os japoneses batizaram de karoshi (overdose letal de trabalho) a ganhar destaque no noticiário internacional. No mesmo dia, a revista britânica New Statesman publicou um vigoroso ensaio de Steve Poole, Por Que o Culto ao Trabalho Intenso é Contraproducente, que Diran não teve tempo de ler.
 
Se a jovem publicitária sucumbiu a um autoimposto desafio ou a uma disputa subliminarmente estimulada por seus patrões é detalhe secundário. O fato concreto é que ela, com ou sem o aditivo de uma bebida energética, morreu por trabalhar demais e repousar de menos. Ou seja, por incidir no mesmo erro que milhões de pessoas cometem diariamente no mundo inteiro.

A impressão que se tem é que a humanidade nunca esteve tão "ocupada", tão "sem tempo pra nada", "trabalhando alucinadamente", "morta de cansaço". O desemprego grassa, mas também por isso trabalha-se mais e por mais tempo: no subemprego, nos frilas, na faina informal; fora e dentro de casa, em plantão permanente, inclusive nas horas de lazer. E ainda exigem que sejamos mais rápidos. Em prol de um inquestionado valor de nosso tempo, a produtividade.

Daí o astucioso neologismo busyness, amálgama de ocupado (busy) e negócio (business), supostamente criado por Andrew Smart, no livro manifesto Autopilot: The Art and Science of Doing Nothing, e popularizado por Tim Kreider, na página de opinião do New York Times, no ano passado. "Ocupação" seria a tradução perfeita se já não significasse, em português, qualquer tipo de trabalho. Adotemos o busyness.

Até as crianças andam mais "busy" hoje em dia, metidas em atividades extracurriculares, terapias ocupacionais e solicitações eletrônicas, sem folga para as folganças de gerações passadas, sem tempo para o dolce far niente contemplativo, para o ficar bestando sabidamente regenerativo e potencialmente criativo. E como é de pequenino que se torce o pepino, já existem manuais de autoajuda para se educar crianças a administrar bem seu tempo, vale dizer, ajustá-las precocemente à lógica do capitalismo moderno, do "tempo é dinheiro", da eficácia regida por algoritmos e outros prodígios da tecnologia da informação corporativa. Que, aliás, não são infalíveis, embora intensa e piamente utilizados na contratação de funcionários por empresas do Vale do Silício.

A presente e histérica sobrecarga de afazeres, salienta Tim Kreider, nem sempre é uma necessidade ou uma inevitável condição de vida; é uma opção, voluntária ou aquiescente, alimentada por uma espécie de consolo existencial, um antídoto contra a sensação de vazio e a solidão. Uma agenda cheia, ainda que de compromissos tão ou mais dispensáveis que a maioria das ligações feitas ou recebidas pelo celular, é uma anfetamina espiritual, um placebo que nos incute a ilusão de que afinal não somos tão prescindíveis e insignificantes assim.

Crescemos e nos multiplicamos ouvindo toda sorte de platitudes em favor do trabalho, que ele enobrece o homem, dá sentido à vida. Mas Deus, como gostava de lembrar Millôr Fernandes, só falou em trabalho depois que o homem comeu a maçã, o que configura duas coisas: que o trabalho foi um castigo (a palavra trabalho vem do latim tripalium, um instrumento de tortura) e o destino humano era a vagabundagem. Ou a ociosidade criativa preconizada pelos filósofos gregos, por Sêneca, Montaigne, Lafargue, Russell e toda uma linhagem de sábios, que passa por Ascenso Ferreira e alcança Camus ("Os ociosos é que transformam o mundo, porque os outros não dispõem de tempo para fazê-lo"), Milan Kundera e Thomas Pynchon. O Princípio de Arquimedes, não custa lembrar, nasceu num banho de banheira. E a Lei da Gravidade, quando Newton relaxava debaixo de uma macieira.

Em plena vigência do moralismo cristão ("Ganharás o pão com o suor do teu rosto", etc.), radicalizado pela ética do trabalho protestante, e dos primeiros desdobramentos do taylorismo, Cesare Pavese proclamou: "Lavorare stanca" (trabalhar cansa). Publicou um livro com esse título, na Itália fascista, mas não foi preso por isso. O fascismo, apesar de tudo, não fez da ergolatria uma doutrina de Estado como os nazistas (que afixaram nos pórticos de seus campos de concentração o mote "Arbeit Macht Frei", o trabalho liberta), os comunistas soviéticos (que inventaram o stakanovismo), e a ditadura do Estado Novo (que proibiu sambas e marchinhas simpáticos à malandragem).

O stakanovismo foi um movimento de massa visando a elevar os níveis de produtividade na União Soviética. Inspirou-se no recorde sobre-humano de extração de carvão batido pelo mineiro Alexei Stakanov, em 1935, que Stalin manipulou como "um exemplo para mostrar ao mundo a eficácia do sistema de trabalho socialista". Em 1976, o cineasta polonês Andrzej Wajda fez um ótimo filme sobre um pedreiro da Cracóvia acometido de stakanovismo, O Homem de Mármore. Está na hora de alguém abordar o stakanovismo do nosso tempo, o karoshi digital. Ou será que Mita Diran morreu em vão? 
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* Colunista do Estadão
Fonte: Estadão online, 22/12/2013

A CULTURA DA DESONESTIDADE

 
Pode parecer desimportante, mas o sumiço de 26 dos 32 guarda-chuvas colocados à disposição do público para empréstimo pela prefeitura de Santa Cruz do Sul diz muito sobre a resistência da cultura da esperteza entre os brasileiros. Compartilhar equipamentos públicos é sempre um teste de cidadania. Envolve a ideia do uso comum de instalações e objetos que só cumprem sua finalidade quando preservados e devolvidos para que outras pessoas também possam utilizá-los. Mas as depredações de prédios, equipamentos de praças e sinalização de trânsito evidenciam a falta de educação e de espírito de solidariedade de parcela expressiva da população. Além disso, algumas experiências de oferta de equipamentos para o público, como o empréstimo de guarda-chuvas e o aluguel de bicicletas, resultam com fre-quência em comportamentos de egoísmo e até mesmo de desonestidade explícita.

Não é regra geral, cabe reconhecer. Os danos e a subtração de bicicletas nas cidades que adotaram o sistema de aluguel são pouco significativos na relação com a maioria, que respeita as regras e devolve o equipamento em bom estado, no período contratado. Mas sempre aparecem os espertalhões para comprometer o avanço coletivo.

A sociedade e as próprias autoridades costumam ser demasiado tolerantes com desvios éticos. É um erro. São pequenos delitos que geram a cultura da apropriação indébita e da corrupção, tão repudiada pela população quando ocorre nos altos escalões da governança do país. Políticos que se comportam mal, porém, costumam ser apenas a representação proporcional dessa parcela de brasileiros que desrespeitam as regras e os direitos de seus semelhantes. Embora o país já se tenha habitua- do à generalização, até mesmo porque as irregularidades cometidas por governantes e políticos sempre ganham maior visibilidade quando flagradas, a verdade é que os agentes públicos infratores representam de alguma forma os maus cidadãos, aqueles que também roubam e destroem o que é de todos.

A diferença entre apropriar-se de um guarda-chuva emprestado e desviar recursos públicos para o próprio bolso é apenas quantitativa, pois a qualificação é a mesma: furto. Furtar, explica o dicionário, é subtrair fraudulentamente coisa alheia. Pois a pátria mãe tem sido subtraída não apenas pelos poderosos, com suas tenebrosas transações, mas também por larápios de todos os segmentos sociais, que acabam contribuindo para essa cultura da indecência.

Mas a revolta que tais comportamentos despertam na maioria honesta mantém acesa a esperança de que, como cantou Chico Buarque, um dia tudo isso vai passar. A pátria mãe tem sido subtraída não apenas pelos poderosos, com suas tenebrosas transações, mas também por larápios de todos os segmentos sociais.
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EDITORIAL INTERATIVO
Fonte: ZH online, 22/12/2013
Imagem da Internet

O anel que tu me deste

 Martha Medeiros*
 
Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. É seu. Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas alianças: desde então nossa amizade só cresceu.

Certa vez Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes, mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.

Diante de tanto acúmulo e posse, gestos de desprendimento são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo de que gosta e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas fazem isso por inúmeras razões. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Pelo senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.

Estou falando deste assunto não porque também seja assim desprendida. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. De supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia.

Devo estar me transformando numa sentimentaloide, mas acredito que estes pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos próprios bens é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não estaria aí a fórmula do tal “mundo melhor” que tanto perseguimos?

Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo para testar se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas. É com esse espírito de compartilhamento que encerro esta crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes – mas no sentido de presença. Que, junto aos seus afetos, você comemore o que lhe for mais tocante: seja o nascimento de Jesus, seja a reunião familiar, seja apenas mais uma noite festiva de dezembro, seja um momento de paz entre tanto barulho, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
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* Jornalista. Escritora.
Fonte: ZH online, 22/12/2013

Marx Selvagem de Jean Tible: outro olhar sobre o velho barbudo

Germany - Karl Marx 125th obit - Busts of Karl Marx
Livro põe o dedo na ferida de uma velha “doxa” do mundo intelectual: aquela que coloca em lados opostos do ringue “marxistas” e “antropólogos”
 
Marx Selvagem, vetusta tese de doutorado de Jean Tible, finalmente deveio livro. Seu lançamento, no Teatro Oficina da trupe do antropofágico Zé Celso Martinez Corrêa, foi uma feliz escolha para uma obra desse naipe – e tornou-se, no fim das contas, um verdadeiro acontecimento em Novembro último. Tible lançou um olhar sobre um Marx menor – em contraste com um Marx grandioso, civilizado e arrogante – que se revela, não por acaso, na virada dada pelo filósofo alemão na compreensão do colonialismo e das chamadas sociedades sem classes: isto é, quando Marx se livra, ou tenta se livrar, do  paradigma ilumino-modernista, algo que no plano conceitual se dá na forma de seu afastamento definitivo da filosofia da consciência hegeliana rumo a uma ontologia do sensível, no qual a temática da subjetividade torna-se horizonte visível.
 
A opção do autor pela problemática do pensamento marxiano face aos selvagens é uma curiosa, e pertinente, forma de abordar essa transição de Marx, justamente pelo significado disso no plano das lutas. A escolha de Tible, quando este poderia simplesmente optar por discutir os desdobramentos ontológicos desse processo, é reveladora do seu ímpeto político e iconoclasta. Em algo, ele ecoa o espírito de obras como Anomalia Selvagem de Toni Negri, isto é, fazer justiça com as próprias mãos contra a apropriação majoritária e civilizatória de um grande pensador – no caso de Negri, Spinoza, enquanto aqui, Marx. É, pois, uma proposta original e audaciosa, que merece ser lida — e, obviamente, deglutida da melhor forma.
 
Convém, a título de explicação, expor a maneira como essas “sociedades”, esses selvagens todos, se articulariam no interior do pensamento marxiano, o que implica em questões importantes e delicadas no que toca à obra do filósofo alemão: (I) no plano dos conceitos, a afirmação de que o grau de abertura de Marx para a subjetividade, e consequentemente para as temáticas da filosofia contemporânea, é mesmo maior do que poderiam suportar, por exemplo, marxistas ortodoxos, modernistas e/ou iluministas — como algum bolshevik genérico, Hobsbawn e/ou Elster; (II) no plano das lutas, trata-se de uma rearticulação da maneira como se toma o colonialismo, o capitalismo e formas de resistência, o que oporia Marx à sujeição incondicional ao processo civilizatório — sujeição tal que não poucos marxistas se apegam e se apegaram, basta lembrar da União Soviética ou mesmo de um (ex?)trotskysta como Hitchens defendendo a Guerra do Iraque. Conceitos e lutas, nem preciso dizer, estão intimamente ligados na práxismarxista.
 
Logo, é evidente que Marx Selvagem põe o dedo na ferida de uma velha doxa do mundo intelectual: aquela que coloca em lados opostos do ringue “marxistas” e “antropólogos” — em uma arenga interminável e sem solução. O motivo da querela é justamente a segunda razão acima apontada: Marx, segundo os “antropólogos”, seria aliado da civilização e seu aparente radicalismo significaria, apenas e tão somente, uma variação possível dentro do paradigma organizativo judaico-cristão do ocidente — mais ou menos aquilo que Pierre Clastres trouxe à baila em seu Sociedade contra o Estado. E que para alguns “marxistas” é isso mesmo: a história é linha reta determinada pelo o desenvolvimento dos meios de produção, o que exige um compromisso profundo com a “civilização” e seu avanço — mesmo com certos, digamos, “sacrifícios” em nome do bem maior, sendo o comunismo, ele mesmo, apenas o estágio superior da civilização.
 
Pois bem, o livro de Tible é bom porque se livra dessas falácias, insere-se na alegremente na polêmica — ainda que por ser um tese de doutorado, antes de um livro, carregue um estilo às vezes demasiado acadêmico, mais pesado do que uma obra com essa temática demanda. A obra em questão está articulada em três capítulos: o primeiro, sobre a relação de Marx e o colonialismo e a América Indígena, o segundo, a respeito da práxis antiestatal de Marx — aproximando-o do Clastres que lhe criticou tão duramente — e, por fim, o melhor e mais relevante capítulocosmologias, no qual Tible delinea o ponto de conexão entre Marx e o pensamento ameríndio — aqui, na forma da antropologia reversa de Davi Copenawa –, o que é precisamente a relação entre a noção marxiana de fetiche da mercadoria e o de feitiço: os brancos civilizados, pois, não estão menos isentos de serem enfeitiçados, ao contrário, vivem imersos na atração fatal que nutrem por seus objetos técnicos, na medida em que lhe atribuem feições humanas – no mesmo movimento em que desumanizam a si mesmos e aos outros, sendo que só a partir daí tais objetos devêm mercadoria.Sim, Marx, ao contrário de Engels, emergiu gradualmente do fetiche civilizatório e modernista. E é em torno disso que giro o primeiro capítulo do livro. E isso não é generosidade demasiada, uma apropriação arbitrária ou wishful thinking do autor de Marx Selvagem para com Marx: Tible demonstra isso com obstinação ao expor o giro marxiano em relação à questão colonial; o velho Marx possuía uma posição inicial sobre o imperialismo, segundo a qual o processo de colonização era visto como uma chance de povos como os indianos entrarem na História para, depois, chutarem os colonizadores britânicos, unindo-se aos trabalhadores do mundo num processo que desembocaria na revolução; isso muda, no entanto, quando Marx assume uma posição absolutamente hostil ao colonialismo, o qual passa a ser enxergado como mero meio de retroalimentação da máquina capitalista mundial: seria um dispositivo marcado pela dialética centro (progresso) e periferia (atraso), na qual os civilizados explorariam os selvagens e bárbaros, que lhes eram contemporâneos. A partir daí, a própria luta de classes tornaria-se uma modalidade da exploração geral, a qual em escala global era dada pelo processo de parasitagem do colonialismo.Grande parte desse giro marxiano se dá em razão da leitura marxiana do antropólogo americano Lewis Henry Morgan: e a novidade que Morgan trouxe à antropologia foi de não apenas deixar de lado o discurso colonial-racista dos seus pares, mas também — e sobretudo — de afirmar que as as coletividades humanas selvagens não eram necessariamente piores. Ao contrário. Isto é, ainda há uma certa linearidade em Morgan — como há em Marx –, mas o que certamente lhe fascinou em Marx foi que os selvagens não estão postos em uma condição hierarquicamente inferior aos civilizados, consistindo em formas diferentes de coexistência — ambas sincrônicas, diga-se de passagem. Tible, aliás, é particularmente competente em demonstrar isso.
 As coisas esquentam mesmo no segundo capítulo, quando Tible faz uma leitura do anti-estatalismo na obra de Marx e de Pierre Clastres, ousando estabelecer um ponto de conexão entre ambos — o que, a um primeiro olhar, seria tarefa impossível. Pois bem, a hipótese que o autor traça é conectar a sociedade sem Estado de Marx a a sociedade contra o Estado de Clastres, encontrando um comum em meio à (aparente?) dissonância. Sim, ambos, Marx e Clastres, são pensadores anti-Estado. A partir daí, ele traça o anti-estatalismo na obra dos dois para, logo mais, promover o encontro entre eles. A transição revolucionária de Marx, o que há entre o Estado burguês e o comunismo, como o esconjuramento atual do Estado em Clastres?

E Tible faz bem isso ao nos lembrar que Marx não é Lassalle, para quem a ideia de um Estado popular e proletário já aparecia com O caminho: isto é, para Marx, o Estado não é solução, mas resultado funesto da sociedade de classes, o que pode ser definido na seguinte fórmula. A sociedade de classes é causa efetiva do Estado, pois este é o local por excelência, no qual a classe dominante reprime/media as tensões causadas pela resistência da(s) classe(s) dominadas. De tal forma, ao assumir a posição da classe trabalhadora como a classe revolucionária, ele acreditava que esta ao assumir o poder seria capaz de promover a universalização da qual os burgueses jamais seriam, ou foram, capazes: esta universalização levaria a uma sociedade sem classes, ao fim do capitalismo, e consequente esvaecimento gradual do Estado. Essa talvez seja a maior diferença entre Marx e Engels, uma vez que o segundo via o Estado como causa, ao menos relativa, uma vez que ele era instrumento de repressão nas mãos da classe dominante: no engelianismo, uma vez a revolução sobreviesse e a reação a esta cessasse, o Estado perderia utilidade. 

Mas é nas polêmicas com Bakunin que chegamos ao ponto que interessa. No que se refere ao combate político-intelectual com o anarquista russo, Marx defende sempre uma transição revolucionária para a sociedade de classes — e estatal — e sociedade sem classes, por não acreditar na abolição estatal “por decreto” como defendida por Bakunin; no entanto, Bakunin da sua parte responde a Marx — e não a nenhum marxista, contemporâneo ou futuro – que a transição proposta culminaria na prevalência do Estado de um modo tão ou mais autoritário — não é que Bakunin discordasse da libertação dos trabalhadores, mas sim de que a hegemonia proletária no Estado não seria capaz de gerar a liberação humana e que, ainda, entendia que o Estado gerava, ou sustentava, a sociedade de classes, logo, a sociedade sem Estado era condição prévia para a sociedade sem classes — e não o contrário.

Tible, no entanto, poderia ter feito um esforço mais conceitual do que descritivo no que diz respeito à inversão Bakuniniana e suas implicações.  E poderia ter mergulhado com mais profundida na dicotomia marx-bakuniniana sobre a sociedade de classes e o Estado. Isso fica claro quando Tible prefere rebater a crítica de Bakunin ao estatismo colateral do plano de transição revolucionário de Marx, vejamos nós, pela exposição da falta de um plano de ação à proposta teórica de Bakunin, o que teria sido comprovado por seus fracassos práticos — ou quando procurar explicar a certeza da antevisão (cruel? auspiciosa?) do anarquista, sobre o que seria a experiência histórica do “socialismo real”, pelo viés de sua eventual razão em relação “a um certo marxismo já existente”, e não em relação a conceitos marxianos efetivos. A crítica ao modo como a polêmica marx-bakuniniana foi pouco enfrentada consta do próprio posfácio e, convenhamos, é justa.

Quando trata de Clastres, Tible nos lembra que para o antropólogo francês, o Estado sempre existiu, mas nas sociedades indígenas existentes,  este era esconjurado por uma série de práticas que esvaziam o desenvolvimento do poder. Isto é, longe de Engels, que concebeu o Estado como evolução histórica da divisão do trabalho em As Origens da Família, da Propriedade Privada e do Trabalho, para Clastres o Estado estava posto desde sempre, mas práticas como o nomadismo e a relação entre a tribo e seus guerreiros e chefes, ele restava apenas latente. O que os povos estudados por Clastres nos apontavam era a possibilidade de esconjurarmos o Estado aqui-agora. Isso seria possível, pois os povos de Estado, já foram, algum dia sem Estado, não por falta de evolução, mas pelos agenciamentos coletivos que produziam, o que estaria à nossa mão aqui-agora — e, sim, você há de ter lido algo do gênero, não por acaso, em Deleuze-Guattari.

Mas Marx, em dado momento, já antevia as sociedades sem Estado existentes hoje como um símbolo do passado (europeu), mas, sobretudo, como flecha apontando para o comunismo do porvir. Eis o que seria o casamento (possível) entre a sociedade sem Estado e a sociedade contra o Estado, atadas por um fio vermelho. Mas Tible perdeu a oportunidade para adensar algo que ele mesmo suscitou, quando lembrou o comentário de Gustavo Barbosa sobre o contratualismo em Hobbes: faltou, entretanto, definir o que seria, ontologicamente, “sociedade”, ou qual o motivo de naturalizarmos o termo como a própria essência da coletividade humana; se o próprio Marx via o contrato social como um mecanismo de expropriação, seria possível haver sociedadesem contrato social? E poderia haver sociedade — A Sociedade –, sem haver um Estado para fazer valer — à força, se necessário — tal contrato? Como os selvagens, que em toda a literatura contratualista não travaram contrato social algum, poderiam constituir uma forma de sociedade?

São questão que ambos, Marx e Clastres, não enfrentaram a seu tempo, logo, Tible não teria obrigação, em tese, de fazê-lo descritivamente em um trabalho acadêmico. Mas poderia ter adensado a crítica nessa direção. Deleuze e Guattari, eles mesmo, acertaram ao falar, no Anti-Édipo, no acerto de Marx ao tratar a história como a história dos cortes e das contingências, mas apontavam que o pensador alemão errou ao fazer leitura da história como luta de classes — quando isso pode se revelar apenas a história desde o advento da burguesia –, o que causava a ilusão de ótica de ver a burguesia, em algum momento, como realmente revolucionária — o que implica em desconhecer os próprios descaminhos da revolução passada e, consequentemente, das revoluções futuras. Por outro lado, no entanto, D&G esvaziaram isso ao, em Mil Platôs, surgirem com a ideia da existência de um Estado, ou um fantasma estatal, que percorreria a história do humana. A própria noção de socius, já no Anti-Édipo, é parte dessa contradição em termos, uma vez que o pensamento social, ao contrário do que parece, é eminentemente burguês.

Ainda que Marx e Clastres digam “sociedade” como expressão de qualquer coletividade humana, o fato de não esmiuçar o conteúdo específico do termo leva ao desconhecimento dos efeitos dessa naturalização. Não, os índios não vivem em sociedade por que não partilham um contrato, isto é, não vivem em regime negocial. O ócio, isto é, trabalhar para viver e não viver para trabalhar é o que – acima de tudo – distingue os índios de nós, pobres ricos ocidentais. Os selvagens não travam sociedades entre si, tampouco vivem sob a égide de A Sociedade — portanto, do Estado. A dificuldade de Marx e Clastres em articular contrato social, sociedade e Estado, possuem um desdobramentos importantes. O que por trás da naturalidade, no sentido de normalidade, da sociedade é algo que poderia ter sido respondido. Entender a história para além dos termos em que seu deu a luta na sociedade hegemonizada pela burguesia exige, também, uma genealogia profunda do contratualismo.

O ponto forte do livro está mesmo no terceiro — e último – capítulo. Copenawa e Marx, separados por dois séculos — e um imenso oceano — de diferença, mas que veem na relação mágica — e teológica — dos homens com seus objetos a chave para a crítica à economia política e ao capitalismo. Assertiva perfeita de Tible. O liame da relação entre homem e mercadoria é, precisamente, afetivo, dada pelos efeitos reais de um discurso imaginário. É precisamente essa liame subjetivo que permitiu a virada do capitalismo industrial para o capitalismo financeiro e cognitivo. A mágica devém absoluta, justamente porque os objetos técnicos já eram laterais antes, até se tornarem quase que completamente obsoletos nos dias atuais: o que gera valor são conceitos, abstrações, marcas.

E certíssima a crítica de Tible a Viveiros de Castro, alguém cujo ponto feliz de sua antropologia está em relacionar a metafísica deleuzo-guattariana — que é sim marxista — com uma pesquisa etnográfica densa — e Viveiros concorda com o Marx da virada mais do que gostaria, e poderia admitir, como Tible felizmente demonstra. O que Tible não adensou, novamente, é que se Viveiros, via D&G, vê bem o erro marxiano (dar uma demasiada universalidade à história burguesa), por outro lado, novamente por meio dos dois, repetiram o erro de Marx ao dar, p.ex., uma existência extra-histórica na História ao Estado (sempre houve Estado), o que polui o pensamento de neblina na hora de destrinchar, e desmontar, dispositivos específicos  – os quais estão a serviço da escravidão universal do regime do Capital.

Por fim, Marx Selvagem, que desemboca em Oswald no final, é uma obra divertida. Passa por muitos autores, questões e polêmicas caros ao pensamento-prática da esquerda atual. Mas importante de tudo, é a leitura correta de Marx presente no livro, ao levantar a bola para onde o pensador alemão mirava no século 19º, e não para o seu retrovisor, isto é, a própria tradição majoritária alemã. O Marx maior, felizmente, foi jogado na lata do lixo da História, primeiro com a queda do Muro de Berlim, depois com a crise do colaboracionismo de esquerda ao neoliberalismo, agora, mais do que nunca, é hora de pôr em prática um outro Marx, o que, a nosso ver, é imprescindível. Hoje, mais do que nunca, é o momento de bradar: Selvagens do Mundo, Uni-vos!

TIBLE, Jean. Marx Selvagem
São Paulo: Editora Annablume, 
2013, 242 páginas.
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Texto Por Hugo Albuquerque, em O Descurvo
Fonte:  http://outraspalavras.net/outrasmidias/19/12/2013

NATAL BRANCO

 
Quando Jesus foram dois 

QUIM MONZÓ*

 
NO PRINCÍPIO TUDO continuava normal, se por normal se entende que um ser fabuloso, de cabelos encaracolados louros até os ombros e asas de pena de ganso, como as que às vezes escapolem pelas costuras dos edredons, descesse até a casa de Maria e, lá, no átrio de colunas românicas --isso sim é que era estranho: colunas românicas em Nazaré-- lhe anunciasse a boa-nova. 

Mas, de fato, tudo continuava exatamente desse jeito: o ser fabuloso, de cabelos encaracolados louros até os ombros e asas de pena de ganso, com olhos amendoados entre o azul, o verde e o rosa, e de uma beleza, mais que inenarrável, assexuada, desceu até a casa de Maria --uma casa humilde, mas limpa e bem cuidada, com vasos de gerânio ao longo do átrio de colunas, românicas tal como dissemos-- para anunciar-lhe a boa-nova: que era cheia de graça e bendita entre todas as mulheres. Maria ficou boquiaberta. 

O arcanjo, vendo a perturbação da mulher, entendeu que o aparato cênico tinha sido realmente impressionante; talvez tivesse pesado um pouquinho a mão. Para tranquilizá-la disse que não precisava ter medo, que somente tinha vindo anunciar-lhe que teria um filho que se chamaria Jesus. A mulher --claro-- aceitou a notícia de bom grado, e o arcanjo desapareceu instantaneamente, com a mesma desenvoltura com que havia aparecido. Horas mais tarde, quando o marido, José, voltou da oficina --era carpinteiro--, Maria lhe contou o que havia acontecido. José ficou pasmo. 

Também fica dentro da normalidade mais absoluta a disposição do imperador Augusto, que ordenava que todos os súditos do Império Romano se recenseassem, cada um no povoado ou na cidade de onde a família fosse originária. Por isso, José e Maria pegaram o burro e seguiram rumo a Belém. Maria ia sobre o animal, sentada de lado, e José a pé, puxando as rédeas. 

O que --como as colunas românicas-- também não era nada normal era aquela história toda de neve. Quando chegaram a Belém viram que o povoado inteiro estava coberto de neve, até o horizonte, sobre o qual pairava um céu negro e com estrelas de cinco e seis pontas, imóveis e como que recortadas. Na Palestina a neve era um fenômeno meteorológico quase ignorado. Gerações e gerações de cidadãos nasciam e morriam sem tê-la conhecido, sem que isso os preocupasse nem um pouco. E se já tinham ouvido falar, era por viajantes de países distantes, que mencionavam até mesmo montanhas onde a neve é eterna. Os nativos os escutavam encantados, mas, assim que os viajantes terminavam a narrativa, voltavam ao trabalho sem que a neve lhes tirasse nem uma hora de sono. Por outro lado, agora tudo estava nevado: as montanhas, as ruas, os terraços das casas, a barraca da vendedora de castanhas... Era neve em pó, tão em pó que parecia farinha. 

Por causa da afluência de gente para se recensear, não encontraram nenhum quarto livre em toda Belém. Os habitantes não eram muito acolhedores; nem a imagem de uma mulher grávida os movia à piedade. Por isso se viram forçados a instalar-se em um estábulo abandonado. Limparam um canto, perto de um boi adormecido e do burro que levavam. Foi lá que, no dia 25 de dezembro, Maria deu à luz. Era um menino lindo, saudável e chorão. José pegou-o nos braços para limpá-lo. Mas Maria reclamou novamente sua atenção. Estava nascendo um segundo menino. 

Eram dois meninos lindos, e cada um com sua auréola tipo holograma sobre a cabeça. Depois de alimentá-los e pôr as fraldas --sorte que Maria tinha previsto algumas de reserva--, deitaram-nos sobre um monte de palha, um ao lado do outro. Moviam as mãos. O boi e o burro contemplavam a cena com o rabo do olho. 

-- Você tem certeza de que ele falou em um menino? Será que não eram dois e você não prestou atenção? 

José não entendia o que tinha acontecido. Que fossem dois perturbava todos os planos. Até mesmo uma coisa tão pouco importante como a questão do nome. O arcanjo tinha noticiado que havia de se chamar Jesus. Era um nome que não os desagradava: tampouco os entusiasmava, se temos de ser sinceros. Naquela época, os nomes predominantes eram Sandra, Vanessa, Kevin, Jonathan e mesmo Sue Ellen, que lhes pareciam frívolos e pretensiosos. José e Maria haviam considerado outros nomes e até tinham feito uma lista dos que preferiam: Davi, Samuel, Alexandre, Abel, Moisés, Ivã... 

De todos, o que mais lhes agradava era Alexandre. Era um nome sonoro e vibrante. Se o arcanjo não tivesse deixado tão claro que haviam de chamá-lo Jesus, teriam-lhe posto Alexandre, sem nenhuma sombra de dúvida. Mas, enfim, como não podia se chamar Alexandre, para Maria o nome de Jesus já parecia bom. Em algum momento, José tinha proposto que se chamasse como ele: José. Muitos amigos seus punham seu nome no primogênito. Por que não ele? Maria não tinha nem querido ouvir falar de uma possível troca. 

-- O arcanjo disse que se chamaria Jesus e vai se chamar Jesus. 

Não falaram mais nisso. Iria se chamar Jesus; estava decidido. Mas agora se viam com dois meninos, o dobro do que esperavam. Que nome colocariam neles? Depois de muito ruminar sobre o tema, encontraram a solução. Um se chamaria Jesus Maria e o outro Jesus José. Assim respeitavam a ordem de dar o nome de Jesus e de passagem satisfaziam o desejo de José: ao menos um dos dois se chamava como ele, ainda que fosse o segundo nome. 

Esse era apenas o princípio das duplicações. A partir daquele momento --refletia José-- tudo seria duplo. As fraldas, as roupinhas, as chupetas, o consumo de baby wipes. 

Um barulho de cascos o tirou da reflexão. Eram camelos que atravessavam, por uma frágil ponte de madeira, as águas do rio, que pareciam imóveis e de papel prateado. Quando chegaram ao estábulo, os três Reis Magos ficaram atônitos. Era a mesma surpresa que Maria e José tinham visto nas caras dos pastores que haviam se aproximado para adorar o menino e, em vez de um, tinham encontrado dois. Um dos pastores, que tinha trazido como presente um carrinho de bebê Chicco de um assento, correu para trocá-lo por um modelo duplo. Melchior, Gaspar e Baltazar --homens acostumados a mil batalhas e destros em tomar decisões-- reagiram de modo rápido e, sem que nem Maria e José percebessem, fazendo como se procurassem os presentes, dividiram em duas partes mais ou menos iguais o ouro, o incenso e a mirra. 

Os dois eram filhos de Deus? Ou só um deles era? A pergunta não tinha resposta clara porque, embora um deles (Jesus Maria) caminhasse sobre as águas quando os lavavam na banheira --deixando admirado não só seu irmão como também os pais--, era o outro (Jesus José) que, quando tinham acabado os danoninhos, os multiplicava sem problemas. Essa dualidade --calculava Alexandre enquanto colocava o "caganer"1 ao lado do padre com guarda-chuva-- os manteria ao longo dos anos, até o fim de suas vidas. Alexandre voltou a alinhar os dois bercinhos, contemplou outra vez o presépio e correu gritando para seu pai, reputado membro da Opus Dei, que fosse vê-lo. Estava certo de que o deixaria feliz por seu engenho: em vez de jogar fora a figurinha do menino Jesus do antigo presépio (uma das poucas que não estavam trincadas), incorporou-a às novas, que haviam comprado um dia antes na feira de Santa Lúcia. Não sabia que, naquela noite, seu engenho lhe custaria ir dormir sem jantar.