quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

O futuro não é mais o que era



apresentação de ADAUTO NOVAES
O verdadeiro fim do mundo é a destruição
do espírito, o outro é condicionado pela
experiência que consiste em saber se o mundo
subsistirá depois da destruição do espírito.
Karl Kraus, Apocalipse
OBSERVAÇÃO PRELIMINAR

Um leitor de grandes pensadores sabe que jamais pode levar ao pé da letra suas boutades; mais que apenas enunciar o fim de uma civilização, a célebre frase de Paul Valéry O futuro não é mais o que era nos propõe uma infinidade de problemas: fim da ideia de futuro ou fim das ideias de futuro tal como o pensamento moderno soube construir? O que se conserva ainda hoje nos fatos e nas ideias? O mundo, tal como ele é, desdobra-se em um mundo tal como será? Como interrogar de outra maneira as proposições herdadas dos estóicos e de Santo Agostinho para quem o tempo é sempre um enigma vertiginoso: “Como seriam o passado e o futuro – escreveram eles – uma vez que o passado não existe mais e o futuro não existe ainda”? Mais sutilmente exatas são as propostas de Valéry: o que não existe mais está no coração do que existe. O futuro – o que não existe ainda – se faz no ver. E “ver é prever”.

O que Valéry diz sobre o tempo e o futuro jamais é simples: “O objeto próprio, único e perpétuo do pensamento é: o que não existe”. Tendemos a pensar que, nesta passagem, Valéry retoma o Livro XI de Santo Agostinho que escreve: “O futuro não existe, quem o nega? Mas, apesar disso, sua espera já está em nosso espírito. O passado não existe mais, quem duvida? Mas apesar disso a lembrança está ainda em nosso espírito. O presente é sem extensão, é apenas um ponto fugidio, quem o ignora? Mas apesar disso a atenção é duradoura”. Notamos, portanto, que o espírito – ou o trabalho permanente da inteligência como potência de transformação – é a chave para abarcar as três dimensões do tempo. O que acontece com o pensamento – portanto com a idéia de futuro – quando Valéry afirma que a modernidade está transformando o espírito em coisa supérflua?

Ao escrever no prefácio às Cartas persas, de Montesquieu, que a barbárie é a era dos fatos e que nenhuma sociedade se estrutura sem as coisas vagas – os ideais de futuro – Valéry dialogava com outros pensadores: lemos, por exemplo, no Tractatus, de Wittgenstein, que a principal conquista da ética consiste na afirmação da intemporalidade da vida, isto é, ao seu não pertencimento ao universo dos fatos. 

Mais radical e sombria é a visão de Heidegger sobre o futuro. Na famosa entrevista aos editores do semanário alemão Der Spiegel, publicada no dia seguinte à sua morte em l976, Heidegger afirma que a técnica planetária dos tempos modernos transformou-se na potência que determina a história. Diante desta nova realidade, diz ele, “não estamos assustados. Digo que não temos nenhum caminho que corresponda ao ser da técnica”. Mais: no movimento mundial que conduz ao advento do Estado absolutamente técnico, “a filosofia não poderá produzir efeito imediato que mude o estado presente do mundo… mas isso não vale apenas para a filosofia; vale também para tudo o que é preocupação e aspiração do lado do homem… a filosofia dissolve-se em ciências particulares: a psicologia. a lógica, a politologia… agora, a cibernética toma o lugar da filosofia”. Sobre o estado atual e o futuro do pensamento, Heidegger, para quem a ciência não pensa, diz que “talvez” o único caminho do pensamento seja o silêncio, para impedir que ele seja espetacularizado: “Talvez sejam necessários também trezentos anos antes que haja ‘um efeito’”.

Por fim, ao falar de maneira enfática sobre o papel do pensamento no futuro, Heidegger conclui assim a entrevista: “Não conheço nenhum caminho que leve a mudar de maneira imediata o estado presente do mundo, a supor que tal mudança seja possível aos homens… O pensamento não chega a pensar até o fim a incerteza na qual está. Mas sua maior incerteza consiste em dizer que hoje, tão longe quanto se possa ver, não existe ainda um “grande” pensador … aquilo que se exige do que é dado a pensar é muito grande. Podemos talvez nos por apenas numa passagem: construir caminhos estreitos, não indo muito longe”. 

Não sei dizer se seria correto esperar pelo “grande pensador”, “síntese” do pensamento, que apresentaria idéias diretivas e organizadoras do mundo. Muitos pensadores, observa Jacques Bouveresse no ensaio O que é orientar-se no pensamento, vêem vantagens nesta ausência quase total de idéias diretivas: “Musil fala de uma espécie de “democracia dos fatos”que nenhuma síntese consegue mais organizar a partir de agora. É preciso acrescentar hoje, visivelmente, uma espécie de “democracia das idéias” entre as quais nenhuma, e principalmente as idéias da ciência, pode mais ser autorizada a impor às outras sua superioridade, sua autoridade ou sua lei”.

As observações de Musil/Bouveresse não seriam o reconhecimento, no plano dos conceitos, de que o futuro não é mais o que era?

A tradição nos diz que reinventamos sem cessar o futuro, o tempo do possível. Seria assim hoje, quando se sabe que a técnica é capaz de desencadear processos sem controle e sem volta sem nossa intervenção, sem nossa reinvenção? Em um ensaio escrito para o livro coletivo Repensar a democracia, o filósofo Jean-Pierre Dupuy cita as observações feitas por Kevin Kelly sobre o descontrole no processo de convergência entre a nano e a biotecnologia: “Foi preciso muito tempo para compreender que a potência de uma técnica era proporcional à sua “incontrolabilidade” (out-ofcontrolness) intrínseca, à sua capacidade de nos surpreender engendrando o inédito. Na verdade, se não nos inquietamos diante da técnica é porque ela não é revolucionária o bastante”.

***

1. DO “SENTIMENTO” DE MUTAÇÃO À EXPERIÊNCIA
Não se trata principalmente de atar o fio
rompido da tradição ou de inventar um
sucedâneo ultramoderno destinado a preencher
o intervalo entre o passado e o futuro. Ao longo
desses exercícios, o problema da verdade é deixado
em suspenso; preocupa-se apenas em saber como
mover-se nesse intervalo – a única região talvez
na qual a verdade poderia aparecer um dia.
Hannah Arendt
Ao escrever sobre o futuro, o poeta Paul Valéry expressava um sentimento partilhado por muitos pensadores de sua época: a célebre frase “nós, civilizações, sabemos agora que somos mortais” prenuncia e enuncia o início do fim da civilização ocidental (civilização europeia), escrita logo após a Primeira Guerra Mundial, época de grandes invenções – aviões, armas químicas etc. Foi preciso muita ciência, escreve Valéry, para matar tantos homens e arrasar tantas cidades em tão pouco tempo, transformar as mentalidades, alterar a política e a ética. Mas tudo era obscuramente pressentido. Um dos sintomas é descrito por Karl Kraus como indício da militarização definitiva e radical da sociedade: o soldado que volta para casa não se deixará integrar facilmente à vida civil: “…a guerra terá sido para ele um brinquedo de criança comparada à paz. Deus nos livre da ofensiva que nos espera! Uma atividade terrificante, que não mais será dominada, porá as mãos sobre as armas e prazeres em todas as situações da vida. Ver-se-á chegar ao mundo mais morte e doença do que a guerra exigiu dele”. Uma doença particular é apontada por Musil como o “egoísmo organizado” que, para Walter Benjamin, traduz-se no fim da faculdade de trocar experiências: “Uma das razões desse fenômeno salta aos olhos – escreve ele em O narrador – : o valor da experiência caiu de cotação. E parece que a queda continua indefinidamente. Basta abrir o jornal para constatar que, desde a véspera, uma nova queda foi registrada, que não apenas a imagem do mundo exterior, mas também a do mundo moral sofreram transformações que jamais pensamos serem possíveis. Com a guerra mundial vimos o início de uma evolução que, desde então, nunca mais parou”. Era apenas o esboço do que viria a ser a civilização tecnocientífica (191 milhões de mortos em guerras e massacres no século 20), um tempo já marcado por audaciosas descobertas através das quais a ciência passou à ação. Foi também um tempo no qual “a atitude contemplativa ou descritiva” e os valores cederam o lugar à vontade de potência. Menos de 30 anos depois, novos acontecimentos deixavam mais claro o “sentimento” de mutação: era o tempo da ameaça de uma guerra atômica mundial depois de Hiroshima e a crença no fim do homem e do humanismo, como pensavam a Escola de Frankfurt e a filosofia de Heidegger. Pode-se dizer, sem o risco de errar muito, que presenciamos não a derrocada desta ou daquela ideologia, mas de todas as ideologias. A menos que, como diz Musil, o domínio dos fatos se transforme em uma “ideologia não oficial”. A filosofia, escreve ele, ganhou um ligeiro (!) atraso diante dos fatos, “o que a induziu a pensar que o espírito voltado para os fatos era antifilosófico; na realidade, não ter filosofia é a filosofia que convém ao nosso tempo”. Sem ideologia, sem filosofia. E também sem experiência porque, como nos lembra Agamben, “sabemos que, para a destruição da experiência, uma catástrofe não é de modo algum necessária; a pacífica existência cotidiana em uma grande cidade é, para esse fim, perfeitamente suficiente… É esta incapacidade de se traduzir em experiência que torna hoje insuportável – como em momento algum no passado – a existência cotidiana… Uma visita a um museu ou a um lugar de peregrinação turística é, desse ponto de vista, particularmente instrutiva. Posta diante das maiores maravilhas da terra (digamos o patio dos leones, no Alhambra) a esmagadora maioria da humanidade recusa-se hoje a experimentá-las: prefere que seja a máquina fotográfica a ter experiência delas. Não se trata aqui, naturalmente, de deplorar essa realidade, mas de constatá-la”. Em um comentário aos textos de Agamben, Didi-Huberman atribui outro sentido à ideia de experiência. Não se pode dizer, afirma ele, que a experiência tenha sido destruída: “é preciso dizer, ao contrário, que a experiência é indestrutível, mesmo que se encontre reduzida às sobrevivências e clandestinidades de simples lampejos na noite”. É neste sentido também que ele atribui o termo L’expérience interieur em Bataille: fissura, não saber, prova do desconhecido, errância nas trevas. Seria esta a experiência que nos resta, sem expressão e sem nome, “simples lampejo” nas trevas? Hoje, com o domínio global da tecnociência, passamos do “sentimento” à “experiência”, ainda que errática, das mutações, verdadeira revolução que abarca todos os domínios: basta passear pelos novos vocábulos: correntes trans-humanistas, pós-humanistas, convergências das nonotecnologias-informática-ciências cognitivas, robótica etc. ligadas a desenvolvimentos recentes das biotecnologias.

Ao dizer que o futuro não é mais o que era, Valéry estava apenas reconhecendo que as imagens que tínhamos do futuro perderam sentido e que a modernidade não pode mais desdobrar seu pensamento: “ninguém mais sabe que ideias e que modos de expressão estarão inscritos na lista das perdas, que novidades serão proclamadas”. Valéry põe no centro de suas preocupações a questão do tempo e escreve que a dificuldade de reconstituir o passado, mesmo o mais recente, é comparável à dificuldade de construir o futuro: “O profeta está no mesmo saco que o historiador. Deixemos os dois aí”. Ou seja, o profeta – aquele que anuncia o futuro – e o historiador – aquele que pensa o passado – estão em baixa. Eis nosso problema: porque estamos em meio a dois mundos, temos dificuldade de ver o presente e futuro: “Os físicos nos ensinam que em um forno incandescente, caso nosso olho pudesse subsistir – nada veria… Esta formidável energia leva à invisibilidade, à igualdade insensível. Ora, uma igualdade desta espécie não é outra coisa senão a desordem em estado perfeito”. Não sabemos, portanto, ver a desordem do mundo atual. Vivemos a era dos fatos, o “presente” eterno, sem passado nem futuro, e isso obscurece a visão do mundo. Mais: até mesmo a ideia do presente não é mais a mesma: em um mundo acelerado, sem o tempo lento do pensamento, o presente é substituído pelo imediato – mais precisamente pela imediatez das coisas -, pelo provisório, e pelo o fim das grandes narrativas e fim da idéia de estilo nas artes. Dou um exemplo, inspirado em Musil, não no sentido de elogio do arcaico, mas como tentativa de entender o que acontece com a ideia de presente: dispomos, diz ele, de uma organização técnica e comercial que nos permite construir uma catedral gótica em alguns anos, ou até mesmo em algumas semanas. Mesmo que ela seguisse, coerente, o plano original, ainda assim seria uma obra pobre: faltaria a ela o aporte do tempo e das gerações sucessivas, “o ilogismo, o caráter orgânico que só aparece no inorgânico e outras qualidades da mesma ordem. A duração impressionantemente longa dos impulsos da vontade inerente à expressão da alma gótica decorre, pois, da lentidão…”. (Uma catedral exigia, muitas vezes, 300 anos para ser concluída). Musil considera que este novo gosto da imediatez denota um espírito grosseiramente mecanicista, uma civilização sem cultura e cínica. Um ganho do saber técnico e uma perda do sentimento lento e impreciso da vida. Tomemos outro exemplo, no plano político, que era o uso da sátira. Ela tende a desaparecer? Antes, a sátira anunciava o que podia acontecer não como o adivinho, mas, diz Jacques Bouveresse, “como um sentimento de tentar desesperadamente impedir que a realidade lhe dê razão”. Agora é o momento, como escreve Musil, no qual o capitalismo invade o domínio do espírito com suas formas mais grosseiras e imediatas; o passado é posto no esquecimento e o futuro é a antecipação sistemática de acontecimentos presentes. Ou seja, as noções originais de tempo são substituídas. 

Devemos, entretanto, ler com cuidado o que Valéry escreve sobre as noções de tempo. Ele nos diz, por exemplo, que, por uma generalização imaginária do instante, o homem, criando o tempo, constrói não apenas perspectivas aquém e além de seus intervalos de reação, mas muito mais: ele vive muito pouco no próprio instante. Seu pensamento sobre o tempo é cheio de nuances: Valéry não chega a afirmar com clareza, mas nos induz a pensar que a modernidade aboliu “uma das mais extraordinárias invenções da humanidade – o passado e o futuro”, para em seguida dizer que o “o objeto próprio, único e perpétuo do pensamento é: aquilo que não existe”. É o mesmo sentido que Nietzsche dá à ideia de passado. Viver naquilo que outros viveram e não apenas no que eles deixaram, “assumir na alma tudo isso, o que há de mais antigo e o que há de mais novo, as perdas, as esperanças, as conquistas, as vitórias da humanidade; reunir tudo isso enfim em uma única alma e condensá-lo num só sentimento: eis que deveria resultar em uma felicidade que o homem, até agora, ignorava ainda – a felicidade de um deus”. O pensamento trabalha a partir daquilo que se conserva do passado nos fatos e nas ideias. Ao analisar os ensaios de Valéry sobre passado e futuro, Édouard Gaède pergunta: O que a memória faz sobreviver? O que guarda este fenômeno prodigiosamente banal e obscuro da repetição? Como, enfim, “os dados da sensibilidade, concebíveis de início unicamente na sua extensão espacial adquirem profundidade temporal? Como o mundo, tal como ele é, desdobra-se de um mundo tal como ele foi e o eu presente se reconheça em um eu passado?” Uma das respostas possíveis é dada por Agamben: em seu livro, escrito originalmente em francês, Les corps à venir. Lire ce qui n’a jamais été écrit, ele desloca o centro da atenção das referências históricas para dar atenção ao curso das coisas fora das grandes teleologias conceituais. Aqui, diante da visão “apocalíptica” do mundo contemporâneo, ele se dedica a pensar a noção de gesto e sua temporalidade profunda, como observa o filósofo francês Georges Didi-Huberman: “Como certos textos seus mais recentes, Giorgio Agamben é um filósofo, não do dogma, mas dos paradigmas: os objetos mais modestos, as imagens mais diversas tornam-se para ele… a ocasião de uma ‘epistemologia do exemplo’ uma verdadeira ‘arqueologia filosófica’ que, de maneira ainda bastante benjaminiana, ‘retoma em sentido inverso o curso da história, assim como a imaginação’ restabelece o curso das coisas fora das grandes teleologias conceituais. A revelação das fontes aparece aqui como a condição necessária – e o exercício paciente – de um pensamento que não procura de imediato tomar partido, mas que quer interrogar o contemporâneo na medida de sua filologia oculta, de suas tradições escondidas, de seus impensados, de suas sobrevivências”.

Somos, portanto, herdeiros de pesada herança e de obras grandiosas tanto como sujeitos individuais como seres universais porque o homem que reflete sobre seu passado “é levado, apesar dele, a refletir sobre o passado do Homem”. Sem nostalgia. Quando se proclama que falta síntese ao nosso tempo, dominado pelos fatos, corre-se o risco do elogio aos “bons velhos tempos” com sua síntese de uma “filosofia” vulgarizada do liberalismo com a crença cega na racionalidade técnica e no progresso. Não é isso que pretendemos no novo ciclo de conferências.

Mas sabemos, por definição e pela prática da história, que é impossível criar uma imagem do futuro sem a lembrança do passado e sem a percepção e dados do presente de maneira crítica. O que se quer dizer é que presente, passado e futuro formam uma trama indissociável. Retiremos um destes tempos e a idéia de tempo desaparece. Vemos apenas acontecimentos e não o presente, como se supõe. Em um ensaio – A situação de nossa geração -, Musil narra que, apesar da grande crise do Ocidente na passagem de 1900, ainda assim foi um período de grande atividade ética e estética: “Acreditava-se no futuro, em um futuro social e a em uma nova arte. Esta, é certo, apresentava aspectos mórbidos e decadentes; mas estes dois caracteres negativos eram apenas a tradução circunstancial da vontade de ser outro, de agir de maneira diferente da do homem do passado; acreditava-se no futuro, desejava-se suscitá-lo…” 

Para ver o presente, precisamos, pois, recorrer às lembranças do passado e imaginar o futuro. Ver é rever e prever. Apenas um exemplo do abandono da ideia de tempo: antecipar de maneira acelerada os acontecimentos ganhou hoje a forma de especulação em todas as áreas da atividade humana, não apenas na economia, a mais evidente delas. Como escreve Frédéric Gros, especular é antecipar um valor a fim de extrair benefícios das variações deste valor: “Não se compram mais bens. Compram-se e vendem-se possibilidades de lucro”. Especula-se também sobre a sensibilidade, sobre as afetividades…

Até há pouco, recorríamos a três modalidades quando falávamos do tempo:

. o passado como existência necessária: nem Deus pode desfazer o que foi feito;

. o presente como existência factual: ele é assertivo: o que é, é;

. o futuro como existência contingente: o tempo do possível.

Estas três modalidades serão melhor explicitadas mais adiante.

Temos, hoje, condições de responder à velha questão: “para onde vamos”? É isso que os conferencistas do ciclo o futuro não é mais o que era pretendem esclarecer. Tendemos a concentrar a reflexão do ciclo sobre a idéia de futuro a partir de três eixos:

1. breve incursão sobre a natureza do tempo. O que é o tempo? ;

2. uma análise da relação geral que os homens estabeleceram com o futuro ao longo da história: mitologias e mitos originários, profetismos políticos, milenarismos etc; 

3. que relação podemos ter hoje com nosso futuro quando os ideais revolucionários e a própria ideia de esperança estão em baixa e quando a tecnociência, a biotecnologia e a informática se apresentam como videntes e pretendem (nova ideologia) dar resposta a tudo e a tudo prever? 

Mas, ao propor uma reflexão sobre o futuro, é preciso fugir da armadilha ou risco de prédeterminar a história. Sabemos que o curso da história permanece imprevisível e incontrolável. É o que diz, por exemplo, Wittgenstein: “Quem conhece as leis segundo as quais a sociedade se desenvolve? Estou convencido de que o espírito mais inteligente não tem a mínima ideia. Se você combate, você combate. Se você espera, você espera. Pode-se combater, esperar, e mesmo crer, sem crer cientificamente”. Um comentário do filósofo Jacques Bouveresse ajuda a esclarecer nossos propósitos. Ele diz que Wittgenstein recusa qualquer interpretação intelectualista da história e afirma que a evolução das sociedades “resulta essencialmente de desejos, esperanças, crenças, recusa e aceitação que nada têm de científico…” Eis o problema: hoje, as promessas científicas de futuro abolem desejos, esperanças e até mesmo as crenças, como foi analisado no ciclo e livro A invenção das crenças.

Para tentar entender o enigma de “o futuro não é mais o que era”, leiamos ainda Valéry: o futuro é a parte mais sensível do instante, ou seja, o que não existe ainda revela-se no coração daquilo que existe, como sua “mais sensível parcela”. Espírito e vida, comenta Édouard Gaède em seu ensaio “Máscara e espelho”, juntam-se assim em um movimento em direção ao novo ao qual se engajam todas as coisas e mesmo todas as ideias. Gaède cita Valéry: “Todo nosso ser, e não apenas nosso espírito, ocupa-se com o que será, uma vez que ele só procede por atos, mais ou menos ativos, mais ou menos complexos. Respirar, nutrir-se, mover-se é antecipar. (…) O futuro confunde-se, em cada um de nós, com o próprio ato de viver. (…) A vida, em resumo, não é senão a conservação de um futuro”. Para projetar nosso futuro, perguntemos, pois: como vivemos hoje?

2. ENTRE PASSADO E FUTURO

Comecemos com um diagnóstico.

Lemos no prefácio de Hannah Arendt ao livro Between past and future que “o apelo ao pensamento se faz esperar no estranho entre-dois” que afeta o tempo histórico. Temos consciência, diz ela, de que este intervalo de um tempo é “inteiramente determinado por coisas que não existem mais e por coisas que não existem ainda”. O intervalo impensado entre dois mundos cria enigmas que só o espírito, esta “potência de transformação”, pode desvendar. Mas, como escreve ainda Hannah Arendt, “razões misteriosas” levam o espírito hoje a deixar de exercer suas funções. Ela cita Tocqueville: “Porque o passado não esclarece mais o futuro, o espírito anda nas trevas”. Ou, como escreve o poeta Paul Valéry de forma elegante, o “futuro não é mais como era”. Seremos anacrônicos se fazermos o elogio das “duas maiores invenções da humanidade, o passado e o futuro”? Agamben nos ajuda ao dizer, em sua conferência O que é o contemporâneo, que é contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com seu tempo, “nem está adequado às suas pretensões; neste sentido, ele é inatual; mas, exatamente por isso, exatamente através desse deslocamento e desse anacronismo, ele é capaz, mais do que os outros, de perceber e apreender o seu tempo”. 

Sejamos, pois, anacrônicos.

Hannah Arendt fala do impensado. Entendemos por impensado não apenas o que não foi pensado ainda, e que nos convida a uma retomada a partir dos vestígios que se abrem para outro vir a ser do conhecimento. O impensado hoje, momento de passagem entre dois mundos, dá-se também no “vazio de pensamento”. É certo que vivemos um momento de mutação produzido pela revolução tecnocientífica. É difícil negar o predomínio da técnica no mundo contemporâneo. Tendemos a concordar com Heidegger quando ele diz que há uma cisão entre ciência e técnica de um lado, e pensamento de outro. Aceitemos sua frase ousada: “a ciência não pensa”. Esta “constatação” é, segundo ele, parte da estrutura interna da ciência: “‘A ciência não pensa’ não é um reproche, mas uma simples constatação da estrutura interna da ciência: é próprio de sua essência que, de uma parte, ela dependa daquilo que a filosofia pensa, mas que, de outra parte, ela mesma esqueça e negligencie o que exige ser pensado”. Mais: “No que se refere à técnica, minha definição da essência da técnica é, para dizer em termos concretos, que as ciências modernas da natureza fundam-se no quadro do desenvolvimento da essência da técnica moderna e não o inverso”. 

Diante das grandes transformações produzidas pela tecnociência, resta-nos a tentativa de entender o que nos acontece, como aconselha o poeta e filósofo Michel Déguy. E assim, diz ele, um último traço de inquietação e de autovigilância se impõe: “pode ser que a mutação em curso seja tão integral, tão complexa, afetando todos os campos, setores, instrumentos, conceitos, e eu, seu interlocutor, seja tão ignorante, tão marginal e ‘inativo’, que me torne incapaz de compreendê-la convenientemente e até me referir a ela – para além dessas generalidades que acompanham, sem incomodá-la, a pan-metamorfose que está em curso…” 

3. ESPÍRITO DO TEMPO

A decadência da civilização europeia, os primórdios da civilização técnica e suas grandes mutações são definidos como o momento no qual o espírito torna-se coisa supérflua. Frase mais espantosa se pensarmos que por espírito Valery entendia não apenas “potência de transformação” mas também e principalmente a inteligência das coisas. As ideias de espírito e tempo sempre estiveram juntas no pensamento de Valéry: “O que há de superior, de melhor em nós, tem sempre o valor de futuro”. Como o passado é o tempo da impotência, o futuro é o tempo do possível, “do poder em estado puro, o tempo do espírito”, observa Édouard Gaède, leitor de Valéry: se o passado fez o homem, é ele quem fará o futuro. Mais: “O valor do futuro consiste em ser universal porque, se somos diferentes por nosso passado, somos iguais diante do futuro”. Iguais em possibilidade de invenções. Sabemos também que, no fundo, o espírito é aquilo que tem o poder de duvidar de tudo. Como diz Alain, ele está acima de todos os mecanismos – ordem, virtudes, deveres, dogmas – e, por isso, pode “julgá-los, subordiná-los, substituí-los pela própria liberdade, que nada deve a não ser a si mesma”. Ora, se o fundamento do espírito consiste em duvidar, nada é mais contra o espírito do que o “espírito” do nosso tempo. Tempo de certeza científica. A primeira de todas as certezas garante que tudo pode ser explicado e provado e que a ciência nada pode ignorar.Tal maneira de pensar torna-se por si só um sistema. Lemos a cada dia um anúncio da ciência sobre o futuro das coisas. Ela promete até mesmo dizer, a partir das análises da neurociência feitas no momento do nascimento, quando a pessoa vai morrer. É uma maneira de dizer que não podemos mudar o futuro – nenhuma ação do homem conta. Até mesmo o acaso é abolido. Eis a fonte de resignação e passividade na vida quotidiana, com reflexos na política, nos costumes, na moral: somos chamados a nada fazer para mudar o que acontece e o que acontecerá. Esta pode ser uma das possíveis explicações para a idéia de espírito como coisa supérflua. Mas cientistas e neurocientistas insistem em dizer que há espírito no trabalho da técnica. Pode ser. Resta, entretanto, a pergunta: onde está o espírito que nega? 

Dois pensamentos de Valéry, aparentemente enigmáticos, podem servir de resposta: durante toda uma eternidade, o anjo (o próprio Valéry, segundo Dégas) “não cessou de conhecer e não compreender”. A tradição nos descreve a figura do anjo como o mensageiro, o feliz mensageiro que vem anunciar o novo, novos tempos. Ora, o que Valéry, Wittgenstein e muitos outros anunciam são catástrofes não compreendidas porque “entramos no futuro de costas” (Valéry). O anjo de Valéry nos remete ao Angelus Novus de Walter Benjamin, anjo que “parece querer afastar-se daquilo que está olhando”, anjo da história voltado para o passado, que vê apenas catástrofes e ruínas e parece não compreender o que vê. Mas a “tempestade o impele de maneira irresistível para o futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto diante dele o monte de escombros cresce até o céu”. Relacionemos a frase “o anjo não cessou de conhecer e não compreender”, talvez a última frase do último poema do poeta, a outra: “O espírito nada realiza por si mesmo”, o que significa que o que foi feito não foi feito pelo espírito apenas. A ideia da experiência jamais toma o lugar da experiência, adverte Alain. Mas o problema é que o espírito vem sempre a reboque e, por isso, conhece as coisas, mas não as compreende. Ele precisa de um segundo momento para re-fazer as coisas através da análise, fazê-las de outra maneira. O pensamento das coisas nasce desta experiência em vez de precedê-las. O espírito cinde-se, pois, em dois, como escreve Michel Déguy: “Da mesma forma que as leis do ‘livro da natureza’ não são lidas a olho nu, as leis do intelecto não são lidas imediatamente nas produções do espírito falante; existe aí uma diferença irritante uma vez que nada parece mais próximo, mais homogêneo, do que os pensamentos do espírito e as leis do espírito”. Da mesma maneira, o “Eu” de Valéry cinde-se em dois – aquele que se deixa levar por toda sorte de fabricações do pensamento, e aquele que controla, restabelece. Seriam as leis do espírito o pensamento do pensamento? Ora, tudo hoje se processa no campo da evidência imediata. A vida social e a vida política estruturam-se no já feito, na representação apenas e nos símbolos sem reconhecer que existem nelas um “segredo”, coisas desimbolizadas que devem ser chamadas à expressão. A tecnociência não quer e não pode penetrar nas leis do espírito.

A tarefa política primordial consiste, pois, em desdobrar o trabalho do espírito, não ficar apenas nos pensamentos propostos pelo espírito (isso a tecnociência faz de forma admirável), mas ir às leis do espírito e das próprias coisas. Mais: é evidente que vivemos a era dos fatos. Falta ao mundo aquilo que Valéry designa, no ensaio A política do espírito, como mitos, ou coisas vagas (ideais políticos, utopias etc.). Não há política sem mitos, diz ele, uma vez que toda sociedade só existe, funcionalmente, à base de mitos: “…toda estrutura social é fundada sobre a crença ou sobre a confiança. Todo poder se estabelece sobre propriedades psicológicas. Pode-se dizer que o mundo social, o mundo jurídico, o mundo político são essencialmente mundos míticos, isto é, mundos cujas leis, as bases, as relações que as constituem, não são dados, propostos pela observação das coisas, por uma constatação, por uma percepção direta; mas, ao contrário, recebem sua existência, sua força, sua ação de impulsão e de repressão; esta existência e esta ação são tão mais potentes quanto mais ignorarmos que elas vêm de nós, de nosso espírito”. 

4. TEMPO E HISTÓRIA

A idéia de decadência ganhou força na virada do século XX e conquistou a imaginação de muitos pensadores e poetas. No centro de tudo está o domínio da civilização científico-tecnoindustrial do Ocidente em contraposição ao espírito, isto é, à cultura, às artes e ao pensamento. Ainda que volte seu olhar para um passado perdido, Wittgenstein pensa que o espírito de alguns poucos pode sobreviver: “Disse um dia, e talvez estivesse certo: da antiga cultura só restará um amontoado de escombros, e para terminar, um amontoado de cinzas, mas haverá espíritos que flutuarão sobre essas cinzas”. Em outra frase, “fortemente agressiva”, como observa Bento Prado Júnior, ele conclui: “Que eu seja compreendido ou apreciado pelo cientista ocidental típico, isto me é indiferente. Porque ele não compreende o espírito segundo o qual escrevo”. E mais: “Meu próprio pensamento sobre a arte e os valores é muito mais desencantado do que podia ser o dos homens de há cem anos. O que não quer dizer que, por isso, seja mais justo. Isto significa apenas que, no primeiro plano de meu espírito, estão os fenômenos da decadência, o que justamente não era o caso para eles”. Isso, Wittgenstein escreveu em 1948. Ora, sobre 1848, cem anos antes, Paul Valéry escreve a célebre frase: “O fim do mundo finito começa”. Por mundo finito pode-se entender o mundo da cultura europeia ou mesmo o humanismo iluminista. Talvez seja mais apropriado concordar com Michel Déguy: é o “fim do mundo ‘finito’”. A era da globalização, que começa em 1500 com os descobrimentos, conclui seu trabalho com o domínio da tecnociência.

Como estamos entrando no futuro de costas, como diz Valéry, tendemos a concentrar o novo ciclo de conferências no “tempo futuro”. De que maneira a ideia de futuro é traduzida hoje no mundo dominado pela técnica? Repetimos: o “futuro” está não apenas banalizado, mas, antes, dominado por “certezas científicas”: ele aparece como absolutamente predeterminado. Haveria uma passagem da idéia de probabilidade ao das estatísticas? No projeto de um livro – A forma do tempo -, Jean-Pierre Dupuy dedica um capítulo à idéia de futuro. Ele descreve o que denomina “metafísica do futuro” e analisa também o que chama de profecia no sentido puramente laico e técnico. Os profetas formam hoje “uma legião nas sociedades fundadas na ciência e na técnica: a experiência do tempo da profecia – escreve Dupuy – é facilitada, encorajada, organizada e mesmo imposta por muitos elementos de nossas instituições. Por todo lado, vozes mais ou menos autorizadas proclamam o que seria o futuro mais ou menos próximo: o tráfego da estrada do dia seguinte, os resultados das próximas eleições, as taxas de inflação e crescimento do próximo ano”. Profecias mais espetaculares são feitas pela biotecnologia e pela neurociência: breve, a inteligência artificial será equiparada à inteligência humana; no futuro, dizem os cientistas, será possível criar a relação direta cérebro/cérebro, conectar dois ou mais cérebros uns aos outros. É o que eles denominam “neurociência da interação social”. Para fundamentar sua “profecia laica”, Dupuy parte da idéia central proposta por seu primeiro grande teórico, Pierre Massé, que diz: a planificação “visa a obter, pela concentração e pelo estudo, uma imagem do futuro suficientemente otimista para ser desejável e suficientemente crível para desencadear as ações que engendrarão sua própria realização”. Por fim, Dupuy escreve sobre destino e acaso a partir do que aconteceu durante a Guerra Fria ao relembrar que, por dezenas de vezes, faltou muito pouco para que a humanidade desaparecesse em vapores radiativos. Dupuy apoia-se nas Memórias escritas por Robert McNamara. Fracasso da política de dissuasão?, pergunta Dupuy que conclui: “É o contrário: foram exatamente estas incursões na vizinhança do buraco negro que deram à ameaça de aniquilamento mútuo seu poder dissuasivo. Foi este flerte repetido com o apocalipse que nos salvou. Acidentes são necessários para precipitar o destino apocalíptico mas, contrariamente ao destino, um acidente pode não se produzir”.

As primeiras palavras de Hans Jonas no seu livro O princípio responsabilidade nos advertem que Prometeu, a quem a ciência confere forças jamais conhecidas, está definitivamente desacorrentado. O vazio do pensamento, que se expressa também através do atual relativismo dos valores, segundo Jonas, só pode ser curado com a “antecipação da própria ameaça” tecnocientífica que nos cerca: “É apenas nos primeiros clarões de sua tempestade que nos vem do futuro, na aurora de sua amplidão planetária e na profundeza de suas apostas humanas, que podem ser descobertos os princípios éticos… A isso dou o nome de ‘heurística do medo’. Apenas a previsão da deformação do homem nos fornece o conceito do homem que nos permite premunir”. Diante da ameaça da própria existência do humano, Jonas vai além: a fundação de tal ética deve estender-se até a metafísica; só ela permite ao homem se perguntar por que homens devem existir no mundo e, “portanto, porque vale o imperativo incondicional de preservar sua existência para o futuro”. A ética, para Jonas, consiste em garantir a existência do futuro. Mais: garantir a existência do futuro para o outro através da noção de medo. Reconheçamos o alcance limitado de tal proposta diante do tamanho do problema. 

5. O QUE É ESTE TEMPO DE PASSAGEM OU INTERVALO?

Duas questões se põem de início: por que a ideia de tempo está ligada ao trabalho do espírito? (sem passado nem futuro, o espírito anda nas trevas); por que o tempo presente está em luta em duas frentes – contra a rememoração e contra a experiência – e tende ainda a abolir o passado e o futuro, transformando, assim, o espírito em coisa supérflua, descartável e impossível? Que mundo é este que se contenta em existir apenas no presente eterno? Como não dar razão a Kierkegaard quando afirma que “os filósofos têm inteira razão ao dizer que não se pode compreender a vida senão retornando ao passado. Mas eles se esquecem desta proposição não menos verdadeira, a saber, que a vida só pode ser vivida projetando-se no futuro”?. 

Logo depois da Primeira Grande Guerra, ponto de partida da mutação tecnocientífica que domina hoje todas as áreas da atividade humana, uma idéia torna-se central no pensamento de Valéry, Musil, Hannah Arendt, Spengler, Wittgenstein, Adorno, Walter Benjamin, a Escola de Frankfurt e muitos outros: O Espírito está em perigo mortal. A pergunta é: de onde vem este perigo? É que estamos vivendo, como define Valéry, “uma imensa transformação das ideias e dos valores. O saber é, a partir de agora, dominado pelo poder de ação”. O trágico, como nos lembra Édouard Gaède no ensaio O paradoxo da civilização, é que aquilo que o espírito produziu de mais racional “provoca uma separação cada vez maior entre as forças postas a serviço do homem e as inteligências que as comandam”. No mundo no qual predomina a idéia de força, o que é feito do espírito? A resposta de Valéry é clara: o espírito torna-se impossível – impossível porque supérfluo. Lemos em quase todos os seus escritos sobre a atualidade a advertência: O Espírito está em perigo mortal. É certo também que o resultado do trabalho do espírito, isto é, a fabricação dos objetos técnicos que estão à nossa disposição, volta-se contra o próprio espírito: há mais de 60 anos, Hannah Arendt alertava: cientistas afirmam que computadores podem fazer coisas que um cérebro humano não pode compreender. Proposição alarmante, diz ela, “porque a compreensão é verdadeiramente uma função do espírito, jamais o resultado automático da inteligência. Se estamos cercados de máquinas que não podemos compreender o que fazem, ainda que as tenhamos concebido e construído… isso significa que embaraços teóricos das ciências da natureza em seu mais alto nível invadiram nossa vida quotidiana”. Valéry vai além: “As mais perigosas máquinas talvez não sejam aquelas que rodam, que transportam ou transformam matéria ou energia. Existem outros engenhos que não são de cobre ou de aço batido, mas de indivíduos estritamente especializados: organizações, máquinas administrativas, construídas imitando o espírito naquilo que ele tem de impessoal”. O que há de mais aterrador para o espírito no mundo contemporâneo não são apenas as guerras e massacres, mas aquilo que se pode denominar, como nos lembra Jacques Bouveresse, a mobilização administrativa total em tempos de paz, o “triunfo definitivo da organização” que corresponde ao advento do Estadoformigueiro de que fala Valéry de maneira premonitória: “Uma confusão reina ainda; mais um pouco de tempo e tudo se aclarará; veremos enfim aparecer o milagre de uma sociedade animal, um perfeito e definitivo formigueiro”. Mais trágica para a ideia deste “tempo futuro” é a relação que faz Wittgenstein entre ciência e futuro. Ele escreve em 1947: “A concepção apocalíptica do mundo consiste em dizer que as coisas não se repetem. Não é desprovido de sentido, por exemplo, pensar que a época científica e técnica é o começo do fim da humanidade; que a idéia do grande progresso é uma cegueira, como aquela do conhecimento finito da verdade; que no conhecimento científico nada existe de bom ou de desejável e que a humanidade que se esforça em buscá-lo precipita-se numa armadilha. Não é claro que este não seja o caso”. Esta visão trágica do mundo está muito próxima dos catastrofistas atuais que anunciam o “desaparecimento do tempo”, segundo Jean-Pierre Dupuy, isto é, o autoaniquilamento da humanidade, em decorrência da utilização da tecnociência de maneira autônoma (em relação ao pensamento e à ética) e sem nenhum limite. 

Ora, o triunfo “impessoal” da organização mais que tornar o trabalho do espírito coisa supérflua leva a seu aniquilamento uma vez que aquilo que verdadeiramente podemos saber não é senão o que nós mesmos podemos fazer: “a obra do espírito só existe em ato” e a ciência tende a abrir mão do trabalho do espírito. Em relação ao tempo, vivemos hoje o mundo das facilidades admiráveis, como narra Valéry no seu Balanço da inteligência, que reduzem cada vez mais a força da atenção e da capacidade mental e da duração. É o momento da “impaciência, da rapidez de execução, da variação brusca da técnica que apressa as obras”. Tempo da velocidade. 

6. TEMPO E ACONTECIMENTO

No prefácio às Cartas persas de Montesquieu, Paul Valéry escreve que a barbárie é a era dos acontecimentos e que nenhuma sociedade se estrutura, se organiza sem as coisas vagas. Devemos entender por coisas vagas, como já dissemos, os ideais políticos, as artes, as utopias, os mitos, – enfim, as abstrações – e também a noção simultânea de tempo, isto é, a junção de presente-passado- futuro. Vivemos hoje o império dos acontecimentos. No livro Les transformations silencieuses, François Jullien nos diz que a filosofia ocidental dedicou o melhor do seu pensamento a esta “obscuridade fascinante” que é a noção de tempo. Sem me referir às várias noções analisadas por ele, destaco uma que nos interessa mais de perto – a relação entre tempo e acontecimento: “O erro da linguagem comum, dizem os físicos, consiste em atribuir ao próprio tempo as características dos fenômenos temporais alojadas nele; isto é, confundir o “tempo” com o se desenrola nele. A física só reconhece este curso do tempo desvestido de tudo o que nos acontece, independente de tudo o que se passa nele, e cuja estrutura garante o mesmo estatuto a todos os instantes; enquanto é apenas segundo a flecha temporal dos fenômenos, constituindo o vir-a-ser e do qual a física não se ocupa, que se entendem os ‘acontecimentos’”. Por flecha do tempo entenda-se aquilo que não se refere ao próprio tempo, mas àquilo que se desdobra em seu seio. Ora, o que se desdobra no “seio do tempo” hoje é não apenas a sucessão de acontecimentos sem história, mas o recalque “na sombra, tornando secundários e dependentes, todos os momentos adjacentes”. A conclusão é de François Jullien: “É verdade que é do acontecimento que se fala e, mesmo, só se fala dele; ou, dito de maneira inversa e valendo como definição: a partir do momento que se fala dele, a própria fala “faz o acontecimento”. Esta ideia de acontecimento que nos cerca redefine a noção de “tempo”. Em que medida, no mundo veloz e volátil, “o acontecimento não seria feito de aparecimento abrupto, como ele mesmo se define (e-venit) mais que uma maturação? Ou, em que medida devemos conceber como um encontro com aquilo que ela supõe de Exterior, e mesmo de não integrável, no lugar de ser um resultado?”. Entendamos por resultado aquilo que diz Valéry: o que não existe mais está no coração do que existe,“o passado sendo o próprio ser”. Por “encontro Exterior”, Jullien quer certamente dizer acontecimento sem fundamento, sem passado nem futuro.

7. O SONHO, RELIGIÃO, FETICHE

Borges não cessou de escrever sobre o tempo e o sonho. Mais do que contrapor realidade e imaginação, o sonho é fusão de tempos ou de estados alterados do próprio tempo. O sonho de Coleridge é um belo exemplo. Borges narra que, no verão de 1797, o poeta inglês Samuel Taylor Coleridge, momentos depois da leitura de uma passagem de Purchas, que se referia à edificação de um palácio por Kublai Khan, caiu em sono e sonhou. O texto de Purchas germinou sonhos: imagens visuais e palavras; “ao cabo de algumas horas acordou com a certeza de ter composto, ou recebido, um poema com cerca de 300 versos. Recordava-os com singular clareza e pode transcrever o fragmento que perdura em suas obras. Uma visita inesperada o interrompeu e lhe foi impossível, depois, recordar o resto”. Em outro texto, Borges cita ainda Coleridge: “Se um homem atravessa o Paraíso em um sonho e lhe derem uma flor como prova de que lá esteve e, ao acordar, encontra uma flor em sua mão… Então?” Coleridge possuído por outro tempo. 

A Igreja, por seu lado, teme mais o devaneio que o sonho. No combate ao devaneio e ao tempo livre, ela propõe formas muito eficazes que têm como efeito ocupar o corpo e fatigar o espírito – controlar o tempo –: “Rezar e trabalhar”. Em um ensaio sobre a melancolia, Jean Starobinski mostra que, sem tempo para pensar e ter prazer, ou melhor, sem “tempo vazio”, o homem que reza e trabalha aprisiona o devaneio e a melancolia. Com efeito, escreve ele, o trabalho tem por tarefa ocupar inteiramente o tempo que não é dado à oração e aos atos de devoção: “Sua função consiste em tapar as fendas por onde o demônio poderia entrar, por onde também o pensamento preguiçoso poderia escapar. Assim, o devaneio, que se arriscaria a tornar-se vagabundo e culpado, absorve-se e se fecha em uma atividade fixa: uma implantação salutar se realiza. O trabalho orienta, em um sentido concreto e inocente, energias que sem ele se dispersariam a todos os ventos e a todas as tentações. Ele interrompe o vertiginoso diálogo da consciência com seu próprio vazio, interpõe resistências e obstáculos…”. Simplificando: tempo livre é coisa do diabo. 

Muitos autores associam a religião ao mito. É certo que os dois trabalham com a ideia de futuro: uma e outro sempre buscaram obscuros métodos para que o homem pudesse conjurar a sorte e, de certa maneira, sabem de antemão o que acontecerá: céu para os bons, inferno para os desavisados; matarás o pai e transarás com a mãe… Os mitos são intemporais porque impenetráveis: para falar da origem do mundo ou do homem, das instituições ou mesmo dos costumes, recorre-se a heróis, deuses e lendas imemoriais. O caráter anistórico – outro tempo, outro mundo – seria o traço peculiar do mito?
Podemos, também, de certa maneira, estabelecer uma relação entre mito e fetiche e, assim, falar de fetichismo religioso, fetichismo dos objetos míticos, da mesma maneira que podemos falar do fetichismo da mercadoria: todos são dotados de propriedades mágicas sem relação com seu uso ou sua utilidade. O fetichismo, neste sentido, é promessa de realização de felicidade futura sempre adiada. 

8. MAS, AFINAL, O QUE SE ENTENDE POR TEMPO?

Muitas são as imagens que temos do tempo: dizemos com simplicidade: “o tempo passa”, ou, como quer Pascal, “o tempo cura as dores”. Seria mais correto dizer com Ronsard, que não é o tempo, mas somos nós que passamos? Ainda assim, está posta, para estes autores, a prevalência do tempo sobre o sujeito (Pascal) ou sujeito sobre o tempo (Ronsard). Penso que um poeta – Jorge Luis Borges – desfaz esta contradição: “O tempo é a substância da qual sou feito. O tempo é um rio que me leva, mas sou o rio; é um tigre que me dilacera, mas sou o tigre; é um fogo que me consome, mas sou o fogo”. Melhor síntese, impossível. O poeta diz expressamente que o tempo não é uma coisa (o rio que flui), nem pura subjetividade. A subjetividade é o próprio tempo, da mesma maneira que “o mundo… é o núcleo do tempo”, como escreve Merleau-Ponty na Fenomenologia da percepção: “o tempo natural, diz ele, não é um tempo das coisas sem subjetividade”. Mas MP nos alerta: a subjetividade não é a origem: “É visível, com efeito, que não sou autor do tempo… não sou eu quem toma a iniciativa da temporalização… ele funciona sozinho… repousa sobre si mesmo… ele é apenas esboço natural de uma subjetividade”. Merleau-Ponty fala de um “naturante eterno”, no qual “cada presente reafirma a presença de todo o passado e antecipa todo o futuro”. Lidamos, pois, permanentemente com o tempo natural e o tempo histórico. Mais: o tempo natural funda o tempo histórico “no sentido de que ele é seu solo” da mesma maneira que o tempo histórico funda o tempo natural no sentido de que ele é condição de sua aparência: “a alternativa do naturado e do naturante transforma-se pois em uma dialética do tempo constituído e do tempo constituinte”. O tempo seria, pois, uma construção de linguagem, o que levou Faulkner a escrever que “o passado jamais morreu, ele nem mesmo passou”. O espírito de síntese de Alain nos diz: o tempo é a forma universal da mudança: “Sabemos muitas coisas sobre o tempo, por exemplo, que jamais existem dois tempos simultâneos, que o tempo não tem rapidez, que o tempo não pode ser revertido, que não existe tempo imaginário; que o tempo é comum a todas as mudanças e a todos os seres e que, por exemplo, para se chegar à próxima semana é preciso que todos os homens e todo o universo caminhem juntos. Há abundância de axiomas sobre o tempo, mas que são obscuros como todos os axiomas. O próprio Deus, diz Descartes, não pode fazer com que o aconteceu deixe de ter acontecido”. É certo que o tempo existe em nós e que pode ser medido, por exemplo, na distância entre o desejo e a posse do seu objeto que não é outra senão o sentido da duração, “este sentimento do tempo que antes se contentava com a velocidade da corrida dos cavalos e hoje pensa que a rapidez é muito lenta e que as mensagens elétricas nos fazem morrer de tédio”. (Paul Valéry). O tempo toma forma, pois, através dos nossos sentidos. Os estóicos nos dizem que temos apenas o presente a suportar. Passado e futuro não podem nos atormentar “uma vez que um não existe mais e o outro não existe ainda”. Alain nos adverte: aqueles que se torturam com o passado e o futuro deveriam pensar no presente: “Este amoroso maltratado, que rola na cama sem dormir e que pensa em vinganças, o que restaria da tristeza se ele não pensasse no passado nem no futuro?… Os acontecimentos jamais são aqueles que esperamos; quanto à pena presente, justamente por ser muito viva, você pode estar certo de que ela diminuirá. Tudo se transforma, tudo passa. Esta máxima nos deixou triste muitas vezes; consolar-nos é o mínimo que às vezes ela pode fazer”.

Eis o problema: estaríamos vivendo a disjunção entre tempo naturado e tempo naturante? Relembremos Merleau-Ponty: o sujeito é naturante na medida em que é “o movimento de uma vida que desabrocha” e no qual “ele faz o tempo no lugar de se submeter a ele”. Até bem pouco, vivíamos tempos plurais – naturado e naturante: pergunta-se: vivemos hoje a instauração de um tempo sem relação com o tempo histórico que toma forma no veloz, no volátil, na rapidez técnica que acelera nossas vidas? Tempo naturado quer dizer tempo fixo, “acabado”, que pode “esquecer” passado e futuro. Tempo imóvel. Ora, como diz Bergson, jamais existe imobilidade verdadeira se entendermos, com isso, uma ausência de movimento. Talvez o que se passa hoje é uma cisão entre pensamento e ciência que dificulta a percepção do tempo. Esta cisão pode ser expressa na bela imagem de Bergson tomada aqui, não no seu caráter científico, mas como uma metáfora: “O movimento é a própria realidade, e o que chamamos imobilidade é certo estado de coisas idêntico ou análogo ao que se produz quando dois trens andam na mesma velocidade, no mesmo sentido, em duas vias paralelas: cada um dos trens aparece então como imóvel aos viajantes em cada trem. Mas uma situação deste gênero, que é excepcional, parece-nos uma situação regular e normal, porque é a que nos permite agir sobre as coisas e que permite também as coisas agirem em nós: os viajantes dos dois trens só podem se dar as mãos através da porta e dialogar se estão “imobilizados”, se andam no mesmo sentido e na mesma velocidade”. O trem do pensamento vem a reboque do trem da tecnociência. O trem da tecnociência age sobre nós, mais que agimos sobre ele. 

O certo é que hoje, espaço livre e tempo livre tendem a desaparecer; assim, com a perda do tempo livre, o homem perde também a liberdade: para sentir o tempo, ele busca excitantes: “a fadiga, a confusão mental às vezes nos dominam tanto que tendemos a lamentar ingenuamente os Taiti, os paraísos de simplicidade e preguiça, as vidas na forma lenta e inexata que jamais tínhamos conhecido. Os primitivos ignoram a necessidade de um tempo finamente dividido. Não havia minutos nem segundo para os antigos…

Mas nossos movimentos hoje são regulados em frações exatas do tempo… Nosso corpo é submetido a uma trepidação perpétua; a partir de agora, ele precisa de excitantes brutais, bebidas infernais, emoções breves e grosseiras para sentir e agir”. Em última análise, o que está posta em questão é a liberdade do espírito. 

A noção de tempo é uma das mais problemáticas: ela é, dizem vários pensadores, uma construção de linguagem e, ao mesmo tempo, uma palavra que guarda grande diversidade de sentido e forma. Seu enigma é assim pensado por Valéry: “Uma vez que as coisas se transformam, nós o percebemos apenas em parte. Chama-se tempo esta parte oculta, sempre oculta, de qualquer coisa”. Traduzamos esta “parte oculta” como a passagem de um regime de funcionamento a outro, “passagem que diversos signos nos tornam sensíveis”. Durante uma crise, escreve ainda Valéry, o tempo não tem o mesmo papel que no estado ordinário das coisas. No lugar de medir a permanência, ele mede a variação – “medida que dá o tempo longo ou o tempo curto. A marca limite do tempo curto é o retorno do espírito sobre o que aconteceu para se dar conta do que aconteceu – (Surpresa). Houve desordem por densidade”. Ninguém é capaz de negar que vivemos um tempo de desordem por densidade. Maravilhosas máquinas que “economizam o trabalho de cálculo, os símbolos e os métodos que permitem fazer entrar toda uma ciência e alguns signos, as facilidades admiráveis criadas para fazer ver o que era preciso antes fazer compreender, o registro direto e a restituição à vontade de imagens”, produzem também outro funcionamento temporal: a aceleração do tempo. Valéry pergunta se tantas potências auxiliares não viriam a reduzir pouco a pouco a força de nossa atenção e a capacidade mental contínua ou a duração ordenada. O exemplo que ele dá do tempo acelerado que afeta o trabalho de criação de obra de arte e de obra de pensamento é o da ausência de estilo.

“Como se criaria um estilo, isto é, como seria possível a aquisição de um tipo estável, de uma fórmula geral de construção e décor (que são frutos apenas de experiências muito longas e de certa constância nos gostos, necessidades, meios), se a impaciência, a rapidez na execução, as variações bruscas da técnica pressionam as obras… De onde vem esta impaciência do novo?” Eis a resposta: “É que passou o tempo no qual o tempo não contava”. Hoje o tempo é contado em números através de máquinas que nos governam. Elas moldam seus criadores, isto é, os homens contemporâneos, segundo elas mesmas. As ideias de precisão e exatidão, que são sua essência, “não podem tolerar o vago e o capricho social; seu bom funcionamento é incompatível com situações irregulares”. Eis a grande mutação por que passa a ideia de tempo: como somos o tempo, ou melhor, como o homem é a encarnação e o ser que dá forma aos tempos (“O tempo é a substância da qual sou feito; o tempo é um rio que me leva, mas sou o rio…”) a tecnociência tende a eliminar os indivíduos “imprecisos, do seu ponto de vista, e a reclassificar os outros, sem levar em conta o passado – nem mesmo o futuro da espécie”. Passado e futuro deixam de participar do tempo; enfim, é a potência de um presente eterno que nos domina. Esta hipótese – por mais radical que possa parecer – é bem menos trágica que a hipótese proposta por Jean-Pierre Dupuy em seu projeto de livro sobre o Tempo: ele não afasta a ideia de uma catástrofe última que seria o desaparecimento do tempo no sentido do autoaniquilamento da humanidade. O que, de certa maneira, não deixa de ser uma tautologia: se o tempo é o próprio homem, o fim do humano…Pensamos que, ainda que dominado pela tecnociência, o homem guarda ainda vestígios de humano, vestígios do tempo. Pelo menos, ele não consegue definir “o tempo que nos resta”.

Sejamos, pois, imprecisos, não programados e de duração infinita. Mais: somos, sim, o presente, sujeitos a flutuações: eis a trajetória proposta por Valéry: “Afastamentos. Distrações. Intensidades. A lembrança, o retorno ao Presente. O presente é disputado por seus conteúdos possíveis… É aquilo que tenho em comum comigo mesmo. Todo o “tempo” está contido no presente do qual ele constitui, sob diversos aspectos, a forma grosseira dos desvios… A lembrança é uma das vibrações da corda cuja tensão é o presente. A ideia e a invenção são uma outra. A variação da tensão dá a idéia da rapidez ou da lentidão do tempo?… O tempo verdadeiro não é sucessão de acontecimentos mas ao contrário sucessão do Mesmo. A restituição do Mesmo, o re-conhecimento do Mesmo pelo mesmo é o ato fundamental… O presente seria o sistema de forças que resistem à dispersão, à propagação ao infinito das excitações. Ele é forçado a não se distanciar mais do que certa grandeza, de certo ponto. Todo tempo é compreendido no intervalo de duas tensões.” Em outro fragmento do seu Cahier, Valéry anota: “A duração é da natureza de uma resistência. O homem que sustenta um peso no braço estendido opõe-se a algo. A que? – Não diretamente à queda do peso – mas à dor crescente”. 

9. TEMPO E PERCEPÇÃO

Em suas notas de trabalho para um curso sobre a passividade, Merlau-Ponty escreve sobre a relação entre tempo e percepção e nos alerta a não nos limitarmos à imagem estática do mundo percebido presa a um instante: “considerar, escreve ele, não percepções abstratas, em atitude isolante… mas retomar a análise do mundo percebido mais que sensorial. Por exemplo, toda minha percepção, a cada momento, não é senão relação de uma ação humana, a plenitude absoluta é resultado de análise isolante; (o) mundo sensível (está) cheio de lacunas, de elipses, alusões, os objetos são ‘fisionomias’, ‘comportamentos’ – ( existe) espaço antropológico e espaço físico”. Merleau-Ponty nos mostra ainda que a noção de instituição da verdade exige que a subjetividade não seja inicialmente para si, “mas o titular = X de uma experiência… idealização ou generalização lateral”. Em conseqüência, “que o objeto seja não correlato a meus atos apenas, mas provido de um duplo horizonte através do qual ele pode tornar-se objeto para outrem e não para mim apenas”. Por fim, Merleau-Ponty evoca Paul Valéry para reafirmar que o sujeito, ao entender a percepção do mundo desta maneira, dá mais do que ele tem porque propõe aos outros enigmas a serem decifrados, e os faz trabalhar. Estes enigmas estão no passado e no futuro. Recebe-se apenas incitação ao novo. 


10. FAZER, REFAZER, RECRIAR
Paul Valéry é um pensador que tratou o tempo de maneira original, durante todo o tempo. Ele ocupa grande parte de seus famosos Cahiers. São dele as famosas frases que um olhar atento vê mais que boutades: “Entramos de costas no futuro”, “O futuro não é mais o que era”, “Passou-se o tempo no qual o tempo não contava”, “Ao criar o tempo, o homem constrói não apenas perspectivas aquém e além de seus intervalos de reação. É mais que isso, ele vive muito pouco no próprio instante. Sua morada principal está no passado ou no futuro”. Como nos lembra Édouard Gaède em um dos ensaios sobre a relação Nietzsche e Valéry, as perguntas postas por Valéry são: o que se conserva do tempo nos fatos e nas ideias? O que a memória faz sobreviver? O que guarda o fenômeno prodigiosamente banal e obscuro da repetição? Como Bergson, Valéry propõe a idéia de duração para falar do tempo das coisas. Ele escreve, por exemplo, no Preâmbulo para uma exposição de arte italiana no “Petit Palais” em 1935, sobre os efeitos de confusões e dissipações que nos inflige o movimento desordenado do mundo moderno. As artes, escreve ele, não se acomodam com a precipitação e, horrorizado, sem poder imaginar o que nos acontece hoje, quando as coisas duram dias, e, na melhor das hipóteses, meses, Valéry exclama: Nossos ideais duram dez anos! Em outro texto, Peças sobre a arte, ele escreve ainda: “O cuidado da duração das obras já se enfraquecia e cedia, nos espíritos, ao desejo de espantar: a arte se viu condenada a um regime de rupturas sucessivas. Nasceu um automatismo sem freio… Enfim, a Moda, que é a mudança em alta freqüência do gosto de uma clientela, substituiu sua mobilidade essencial às lentas formações dos estilos, das escolas, dos grandes renomados. Mas dizer que a Moda se encarrega do destino das Belas Artes equivale a dizer que o comércio aí se mistura”.

Mas eis uma das questões fundamentais: “Como os dados da sensibilidade, concebíveis de início unicamente na sua extensão espacial, adquirem uma profundidade temporal? Como o mundo, tal como ele é, desdobra-se de um mundo tal como ele foi e o eu presente se reconhece no eu passado?” É que o espírito está sempre em busca de coisas vagas, e isto o afasta do instante porque “o objeto próprio, único e perpétuo do pensamento é: o que não existe”. Enfim, “somos feitos de dois momentos e como atraso de uma ‘coisa’sobre si mesma”. 

No mesmo ensaio, Gaède cita a segunda Consideração intempestiva de Nietzsche que nos faz lembrar a situação de um mundo que se basta no presente, sem buscar pensar a condição humana: “Veja a manada que pasta e passa diante de você: ela não sabe o que é ontem, o que é hoje. Ele se movimenta, come, repousa, digere, movimenta-se de novo e assim, de manhã à noite, e a cada dia, conhecendo apenas prazeres e dores efêmeras que o sujeitam ao instante ignorando em consequência a melancolia e a saciedade… Assim, o animal vive de maneira a-histórica: porque sua existência resume-se inteiramente no presente, tal como um número sem que subsista uma estranha fração; ele não sabe enganar, nada dissimula e aparece em cada momento tal como é: só pode, portanto, ser sincero”. 

Mas a originalidade de Valéry está na forma material que ele dá à noção de tempo. Para ele, tudo acontece através do fazer. Mais: tudo gira em torno do que ele denomina “Função RE”: repensar, rever, reconhecer, reencontrar etc. Como nota Jean- Michel Rey no seu livro Paul Valéry – l’aventure d’une oeuvre, tudo acontece na retomada e no retorno, na repetição intensiva: “O efeito mais geral desta função é o movimento da ordem de uma re-composição que se efetua no tempo, dando sentido às diferentes interpretações… O fazer não anda sem o desfazer e o eventual re-fazer”. À diferença do que acontece com a geração atual para quem o que importa é a ideia de que o tempo deve ser medido, reduzido ao instante presente, e mesmo dominado pelo time is money, Valéry adota a ideia de refazer o tempo e a duração como método: “O uso, ou a mania, o método de muitos ‘jovens’ de minha geração era a de não aceitar de si mesmo nada que não fosse longamente estudado, feito e refeito em um número infinito de vezes, como no tempo no qual o tempo nada custava quando os artistas consumiam sua duração a completar suas obras”. Pacientemente, pensadores e artistas buscam nas obras feitas significações novas que elas guardam em estado de vestígios. Isso exige tempo.

Muito se escreveu sobre a ideia que os estóicos têm do tempo. Eles dizem: “Só temos o presente a suportar. Nem passado nem futuro podem nos afligir uma vez que um não existe mais e outro não existe ainda”. É verdade, comenta Alain. Passado e futuro só existem quando pensamos. São opiniões e não fatos e temos muito trabalho “para fabricar nossos lamentos e nossos temores”. Isso não quer dizer que não podemos ou devemos pensar o passado e o futuro. Se o tempo é uma “ficção”, a ausência de pensamento sobre ele – passado, presente e futuro – é o grande problema do nosso tempo. 
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Adauto Novaes
Rio, junho de 2011
Fonte:  http://ofuturonaoemaisoqueera.com.br/?page_id=54
Imagem da Internet

Lendo e anotando...


 
"Tudo o que é alegre é bom; tudo o que é bom é alegre. A ideia de uma boa tristeza é contraditória em si. Assim diz o Espinosa, “o amor é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior”; logo, o amor é bom.
Compreende-se então que um amor triste é contrário à sua natureza, isto é, já não é exatamente amor, ou misto de ódio ( é o caso do ciúme).
Não amor infeliz."
 ( COMTE-SPANVILLE, André. Do corpo. Pg. 49 – Ed. Martins Fontes, SP, 2013) 

(...) Assim, o místico é um poeta pelo avesso: ele agradece o seu canto por tê-lo criado!
O poeta, ao contrário, é um místico pelo direito: ele crê no que faz. Sua fé é sua criação.
No princípio era a página branca. E o imenso caos da linguagem. (Idem, pg. 62).

"O amor não pode existir sem o reconhecer-se em um outro, a liberdade não pode existir sem o reconhecimento recíproco". (HABERMAS, Jurgen. Fé e saber. Pg. 24. Ed. UNESP, SP, 2013.)

"O verdadeiro fim do mundo é a destruição do espírito, o outro é condicionado pela experiência que consiste em saber se o mundo subsistirá depois da destruição do espírito". - Karl Kraus, Apocalipse.  ( Citado. NOVAES, Adauto: O futuro não é mais o que era. Pg. 11, Ed. SESC/SP, 2013.)

Feliz Ano-novo!

 CÉLIA FARJALLAT*
 
”Para ganhar um Novo Ano, 
que mereça este nome , 
você meu caro,
 tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo; 
eu sei que não é fácil . 
Mas tente, experimente, 
consciente... “ 
(Carlos Drummond de Andrade)

Clima de festa e de esperança , mas também de muitas expectativas , de certo pessimismo , de saturação. No cenário tecnológico e científico, a antevisão de fabulosas conquistas, Vejam , por exemplo , como já se pesquisa a produção de órgãos com células tronco . Dia chegará em que teremos fígado e rins , miolos e o resto reconstituídos .

Neste clima, de um lado a esperança mais inocente , de outro a incredulidade, despede-se o Ano Velho, que encarquilhado já deu seus últimos sinais de vida . Nós o empurramos , sem cerimônia, para um canto da memória e lá o deixamos com os despojos de outros anos, vividos e sofridos. Agora, não o queremos mais , pois preferimos os anseios , as louvações, os afagos para o Novo Ano.

É tempo de retrospectivas pelos jornais , tevês e rádios. Tempo de entrevistados deitarem falação, de políticos enaltecerem seus planos infalíveis, a serem executados no “Dia de São Nunca“. Alguns deles ainda conseguem ser originais ; mas a maioria repete banalidades e chateações , e fazem calorosos votos de felicidades , que provocam bocejos e sorrisos de ironia.

As coisas nem sempre mudam de ano para ano . Ou melhor, mudamos nós , como lamentava o poeta. Temos olhos mais frios e argutos , às vezes, cínicos. Não é que não se acredite em novos planos, em novos tempos mais felizes e calmos , e sobretudo, mais honestos. Acreditamos, sim, mas em termos. Hoje, já desconfiamos de políticos sorridentes, de legisladores em causa própria , de enfatuados medalhões; de gente medíocre e ainda chata , de uma chatice de arrepiar.

Mas o Ano Novo está aí, com mil promessas. Que seja o portador de dias mais sossegados , sem pivetes e sem meninos drogados . Que as crianças encontrem seu espaço e muita ternura, muita paciência , além de boa dose de senso comum.

Que no Novo Ano, os jovens percebam que os tempos exigem esforço, trabalho e colaboração . Por exemplo, que respeitem a escola onde estudam, que ela seja seu segundo lar e que quando partirem saibam que lá estão deixando os melhores anos de sua vida.

Que, enfim, homens e mulheres não se robotizem , nem esperem apenas as respostas que saem dos terminais dos computadores sem sentimento e emoção . Que as alegrias sejam repartidas, as responsabilidades divididas; que o egoísmo, a ingratidão, a ganância sejam banidos para sempre. Espero tudo isso no decorrer do próximo ano. Tudo isso e o céu também.
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* Célia é jornalista e atualmente cronista do Correio Popular.
e-mail: correiopontocom@rac.com.br
Fonte: Correio Popular online
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ENFRENTAR 2014

João Batista Libânio*


Enfrentar 2014 (Foto: Reprodução)
 
duas experiências antagônicas. O novo ora atemoriza, ora seduz. Atemoriza, porque não se sabe o que virá. “É melhor um pássaro na mão do que dois voando”. 2013 está nas nossas mãos. Já o conhecemos, já o sofremos. 2014 são pássaros voando. Para onde, como, com que perigos?

Por sua vez, a novidade seduz. Talvez alguém se recorde ainda do tristemente célebre “Bateau mouche”. Lá os turistas compraram um bilhete sem saber o que iam fazer. A pura surpresa. Para muitos foi a morte.

Não há adivinho, nem pitonisa, nem búzios, nem cartomante ou quiromante capazes de ler o que nos vai acontecer no próximo ano. Os prognósticos estatísticos cobrem maiorias, mas dentro delas cada um de nós é uma peça imprevisível. Os horizontes gerais são sombrios. Nuvens escuras cobrem os céus da economia. Anunciam-se o marasmo da recessão, estagnações de crescimento, atrofias de vida. Saúde, educação, previdência social, aposentadorias, empregos estão na mira negativa do novo ano.

Mas nem todas essas realidades juntas compõem a totalidade de nossa existência. Outros fatores imprevistos e imprevisíveis entrarão em jogo fazendo pender o braço da balança para a dor: doenças, mortes, acidentes. Ou, pelo contrário, o pêndulo pode inclinar-se para o lado da alegria e felicidade: experiências religiosas e afetivas gratificantes, novas amizades, cenas inesquecíveis de beleza, bondade e ternura, que se desenharão na gratuidade imerecida de nossa vida.

Jesus, sabendo dessas nossas terríveis preocupações com o futuro, conhecendo nossa insaciável curiosidade, já nos alertou com um toque de singeleza e poesia. “Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste as alimenta...Aprendei dos lírios do campo, como crescem, e não trabalham e nem fiam. E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em todo o seu esplendor, se vestiu como um deles”. E, prosseguindo sua reflexão, Jesus deixa-nos um conselho para enfrentar as ansiedades diante do novo ano que desponta: “Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que existe hoje e amanhã será lançada ao forno, não fará ele muito mais por vós, homens fracos na fé? (Mt 6, 26.28-30).

A fé nos oferece duas certezas que nos iluminam qualquer que seja o desenrolar do novo ano. De um lado, sabemos que Deus não brinca de intervir na história deslocando os acontecimentos, mas entregou-os à nossa responsabilidade. Portanto, muito de 2014 será o que fizermos dele. Nossas liberdade, consciência e responsabilidade pessoais e cívicas construirão, da nossa parte, a história e a sociedade. Doutro lado, sabemos que somos um fator muito pequeno, diria mínimo, no emaranhado das causas cósmicas e humanas que constituem o enredo da realidade. E sentimo-nos impotentes diante da maioria dos acontecimentos. Aí a fé nos diz outra palavra. “E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos!”, promete-nos Jesus (Mt 28, 20). A presença do Senhor não significa modificação no curso da história, mas uma nova percepção interior dos acontecimentos. Essa nos traz a paz porque nenhuma desgraça será a última palavra sobre nós, mas a do Deus da vida e salvação. Podemos entrar, portanto, confiantes e tranqüilos nas ondas do ano novo certos de que o timoneiro de nosso barco é o Senhor. E se as vagas agitarem demais nossa nau, recordemo-nos da cena do lago de Tiberíades e ouçamos dentro de nós a frase de Jesus:  “Tende confiança. Sou eu. Não tenhais medo! (Mc 6,50).

João Batista Libânio é teólogo jesuíta. Licenciado em Teologia em Frankfurt (Alemanha) e doutorado pela Universidade Gregoriana (Roma). É professor da FAJE (Faculdades Jesuítas), em Belo Horizonte. Publicou mais de noventa livros entre os de autoria própria (36) e em colaboração (56), e centenas de artigos em revistas nacionais e estrangeiras. Internacionalmente reconhecido como um dos teólogos da Libertação.
Fonte: 

A MENINA, A GAIOLA E A BICICLETA

 Rubem Alves*
Chegaram-me chegaram pelo correio esboços de bordados. Quem me enviava, desconhecida, era uma bordadeira chamada Ângela Dumont, de Brasília, com as suas irmãs também bordadeiras, Antônia Diniz, Marilu, Martha, Sávia. Elas bordavam o que o irmão Demóstenes traçava. Me fazia um pedido estranho. O normal é que o escrito venha primeiro e o desenho depois. O que se pedia de mim era a inversão da ordem. Me enviavam os esboços sem palavras e pediam que eu lhes desse nomes. No princípio, os bordados mudos. O verbo viria depois. Lembro-me do momento: após o café da manhã, os desenhos sobre a mesa e eu, à procura das palavras. Até que sorri: havia conseguido fazer os desenhos contar essa estória... E foi isso que os desenhos disseram:

“Olhem para o menino. Ele está feliz. Ganhou uma bicicleta. Era o seu maior desejo. É a primeira vez que monta numa. Ainda não sabe andar direito. Mas não importa. Uma vez tem de ser a primeira.

O menino ama a menina. Convidou-a para passear com ele de bicicleta. Ela aceitou, com uma condição: queria levar consigo o seu pássaro, dentro de uma gaiola enorme.

O menino preferia que ela fosse sozinha com ele. Ficou triste. Mas concordou. A gaiola era grande demais. Não cabia na bicicleta. A menina teve de fazer o passeio olhando para trás. Quem carrega gaiolas olha sempre para trás. O menino olhava para frente. Olhando para trás a menina não podia ver as mesmas coisas que o menino via.

A bicicleta ficou com dó do pássaro. Pensou que morreria de tristeza se alguém a prendesse numa gaiola. Resolveu ajudá-lo. Aproveitando-sedo fato de que o menino ainda não sabia andar direito, virou o guidão, endureceu o freio e foi bater direto numa árvore.

Tudo se espalhou pelo chão. O menino caiu. A menina caiu. A gaiola caiu. O que estava grudado desgrudou. O que estava amarrado desamarrou. O que estava embrulhado desembrulhou. A porta da gaiola se abriu. O pássaro saiu.

Saiu e parou. Não voou. Queria ter a certeza de que a menina e o menino não haviam se machucado. Viu que eles estavam bem. Cantou, então, para eles, o canto da despedida e voou.

A menina ficou triste porque o pássaro se foi. Mas era preciso consertar a bicicleta para continuar o passeio. Ela e o menino trabalharam juntos e a bicicleta ficou como nova.

Mas nem a menina e nem o menino sabiam que, quando uma gaiola é aberta, as borboletas saem dos casulos que as prendem e se põem a voar. Borboletas, milhares de borboletas, de todas as formas, cores e tamanhos, começaram a seguir o menino, a menina e a bicicleta. Elas tinham estado dormindo na árvore e acordaram com o canto do pássaro.

Agora o menino, a menina e a bicicleta pareciam um cometa, com uma longa cauda colorida de borboletas. É isso que é o arco-iris.

Sem gaiola para atrapalhar, a menina abraçou o menino. Um menino abraçado é melhor que um pássaro engaiolado.

Abraçados, os dois olhavam para a frente. Conversavam sobre as coisas bonitas que viam. O menino ficou feliz. A menina ficou feliz. A bicicleta ficou feliz.

Quanto ao pássaro, foi transformado num anjo, com a missão de proteger o menino, a menina, e a bicicleta, guardando os seus caminhos, os desvios, as trilhas e até mesmo as forquilhas onde os fantasmas fazem amor...”
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* Educador. Escritor. Teólogo.
Fonte: Correio Popular online, acesso 02/01/2014
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A moral do prazer e o imaginário “consumista” contemporâneos

Jurandir Freire Costa* 

 

A tendência da cultura atual de trocar o prazer dos ideais e sentimentos elevados pelos prazeres sensoriais é o principal trunfo do imaginário consumista. As pessoas passam a depender cada vez mais da diversidade e da constância dos objetos para ter prazer, os quais, uma vez adquiridos, já portam o signo da obsolescência e perdem o potencial de estímulo.
 
 1. Imaginação e desejo “consumistas”

Vou abordar o tema proposto no que tem de mais próximo da disciplina a que me dedico: subjetividade e cultura. Nesse sentido, a primeira observação a ser feita é que a concepção de sociedade regida pela economia de mercado é tão imaginária quanto qualquer outra do gênero. Dizer que uma concepção é imaginária não significa dizer que ela é impotente para alterar a realidade. Ao contrário, boa parte do que condiciona os ideais de vida e as condutas cotidianas é crença imaginária. Imaginário não é sinônimo de “ilusório”, mas do que não tem existência independente da imaginação. Ou seja, diferentemente das coisas materiais, que independem dos desejos e aspirações humanos para existir, as crenças culturais são produtos de nosso modo de agir e dar sentido a nossas ações.

Assim, a sociedade de mercado, como qualquer artefato cultural, depende das atitudes e disposições psicológicas dos indivíduos para agir e pensar “como se ela existisse”. As disposições e atitudes que contribuem para a reprodução da sociedade de mercado atual são, em linhas gerais, as seguintes: o sujeito 1) deve se deixar seduzir pela propaganda de mercadorias; 2) deve possuir uma identidade pessoal flexível, compatível com as novas relações de trabalho; 3) deve estar convertido à moral das sensações, ou seja, ter pretensões a satisfação em curto prazo, em detrimento de satisfações que exigem projetos de longo alcance.

As três características são indicativas da maneira como estamos nos relacionando a) com o mundo dos objetos, b) com nossa história pessoal e c) com nosso corpo. Analisemos cada uma em particular. Tomemos a primeira, a relação com os objetos. Para que o mercado funcione é preciso que o sujeito esteja sempre disposto a adquirir os novos produtos criados pela indústria. A isso se costuma chamar “consumismo”. A palavra consumismo, entretanto, é inadequada para designar o hábito econômico ao qual se refere por dois principais motivos: primeiro, por nos fazer crer que consumimos coisas que, de fato, compramos; segundo, por dar a entender que somos todos iguais diante da possibilidade de comprar mercadorias produzidas e vendidas em larga escala.

Na verdade, as únicas coisas que consumimos são substâncias metabolizáveis como alimentos, fármacos etc. Por conseguinte, ao empregar a palavra consumir, querendo ou não, estamos salientando nossa condição de organismos físicos naturais. Desse ponto de vista, obviamente, somos todos razoavelmente iguais, dado que nossas necessidades biológicas são razoavelmente idênticas. Entretanto, se olhamos o consumo como equivalente a poder de comprar, não é isso que acontece. Comprar não é uma ação regida por necessidades biológicas, mas um ato com implicações sociais. Diante de atos desse tipo somos todos diferentes e desiguais.

Adquirir mercadorias por meio de compra já define “quem é quem” no universo social. A maior parte da população tem um poder de compra extremamente reduzido e alguns, para possuir o que desejam, roubam ou furtam. Os chamados objetos de consumo, dessa forma, nem são consumíveis nem estão igualmente disponíveis para todos os indivíduos. A produção de objetos é seletivamente organizada de maneira a ser seletivamente distribuída pelos que têm muito dinheiro, pouco dinheiro ou nenhum dinheiro.

Os dois primeiros grupos, os dos compradores, estão incluídos na sociedade e, por isso mesmo, são os defensores e propagandistas da ideia de mercado como uma realidade independente dos hábitos individuais; o terceiro, formado pelos excluídos da economia e da sociedade, é diretamente estimulado a possuir o que não pode comprar e indiretamente incitado a se apropriar de forma criminosa do que é levado a desejar. Consumismo, portanto, é o modo que o imaginário econômico encontrou de se legitimar culturalmente, apresentando as mercadorias como objetos de necessidades supostamente universais e pré-culturais, e ocultando, por esse meio, as desigualdades econômico-sociais entre os potenciais compradores.

Pode-se perguntar, porém: por que as pessoas se deixam convencer por crenças racionalmente inconsistentes, quando não disparatadas? A resposta usual aponta para a influência da publicidade e da moda. A publicidade e a moda, diz-se, criam “desejos artificiais”, que, pela repetição e pela sedução, são integrados ao repertório de aspirações dos sujeitos. Há algo de verdadeiro nessa afirmação. Mas não da forma como é entendida de modo corrente. Em primeiro lugar, não é verdade que nos comportamos como compradores sonâmbulos, manipulados pelo “eixo do mal” da publicidade e da moda. Essa imagem pejorativa dos sujeitos não se sustenta em nenhum argumento empírico ou teórico. As pessoas, em geral, sabem o que estão fazendo ao sair de casa para comprar objetos em supermercados, lojas, butiques ou centros de compra. Ao comprar, estão adquirindo o que julgam importante possuir, por uma ou outra razão. Se essas razões são moralmente reprováveis por muitos, esse é outro problema. O que não se pode mostrar é que o hábito de comprar produtos industriais seja uma “compulsão” irracional por possuir “coisas supérfluas”. Se assim fosse, nossa sociedade teria se transformado em um imenso consultório psicológico-psiquiátrico, o que é manifestamente inverossímil. Em segundo lugar, nem tudo que compramos nos foi apresentado pela publicidade. As drogas ilegais são um exemplo gritante de objetos industriais consumidos em grandes proporções que têm sua venda e sua publicidade juridicamente proibidas. Em terceiro lugar, mesmo admitindo que a moda pudesse nos obrigar a fazer coisas das quais não estamos conscientes, ainda restaria explicar por que acreditamos que “comprar” é o mesmo que “consumir”.

Esse é o ponto que pretendo explorar. Por que nos deixamos convencer de que somos consumidores, a ponto de criar códigos de defesa específicos e a assumir alegremente tal identidade social? A explicação padrão para esse fenômeno diz o seguinte: comprar se tornou equivalente a consumir porque o ritmo de produção das mercadorias nos obriga a descartá-las depois de um breve uso. Consumo é uma metáfora que alude à rapidez com que adquirimos novos objetos e inutilizamos os velhos. Ou seja, tratamos os objetos industriais como tratamos substâncias que se prestam à reprodução dos ciclos biológicos, donde a assimilação do ato de comprar ao de consumir.

A explicação elucida o “quê”, mas não o “porquê”. Entendemos o sentido metafórico da palavra consumo aplicado ao ato de comprar, mas não as causas do hábito que o tornam inteligível. Por que os sujeitos adotam atitudes consumistas se podiam se conduzir de modo diferente? A resposta usual é, nesse caso, decepcionante: por causa da moda! A moda, no entanto, não é um fenômeno moderno. Moda e propaganda existem desde o início do capitalismo industrial. A réplica a isso é que a produção em larga escala ainda não existia. Depois das grandes revoluções tecnológicas e econômicas, a produção capitalista, para ser escoada, teve e tem de ser vendida em um fluxo contínuo. Os indivíduos, portanto, têm de comprar as mercadorias para que a máquina do lucro não pare. Entretanto, o que significa a expressão “ter de comprar”? Não conhecemos, no Ocidente capitalista, casos de pessoas arrastadas à força para adquirir objetos industriais. É claro que não, pode-se argumentar contra! Os consumidores não são fisicamente forçados a comprar o que não desejam, são “seduzidos” pela propaganda comercial!

Voltamos ao ponto zero. O que determina a força do apelo consumista é o fato de os indivíduos se deixarem seduzir pela propaganda de mercadorias. Mas por que eles se deixam seduzir? Por que se deixam converter à prática econômica que trata os objetos como coisas descartáveis? Para avançar na compreensão da questão, é preciso aprofundar as características psicológicas dos sujeitos que são o motor do imaginário do mercado e do consumo.

Sugiro que os indivíduos se deixam seduzir pelo consumismo porque esse hábito atende a reais necessidades psicossociais. Essas necessidades derivam, entre outros fatores, da nova moral do trabalho e da nova moral do prazer. Dito de outro modo, a publicidade não é onipotente. Os indivíduos não são fantoches manipulados pela propaganda, como se costuma pensar. Se grande parte deles se deixa persuadir pela propaganda é porque, em certa medida, encontra na posse dos objetos industriais um meio de realização pessoal. Essa aspiração à realização é o motivo do anseio pelos objetos ditos de consumo. Vejamos, assim, como as morais do trabalho e do prazer contribuem para a produção do desejo de consumir.

 2. Indivíduos desenraizados e demanda por novos produtos

Observemos, inicialmente, a nova moral do trabalho. As mudanças nas relações de trabalho foram bem estudadas por Richard Sennett em A corrosão do caráter (Rio de Janeiro, Record, 1999). Segundo o autor, as transformações econômicas das três últimas décadas alteraram a tradicional imagem do “trabalhador”. Os indivíduos, afetados pela competição crescente por empregos inseguros, começaram a adaptar suas condutas psicológicas ao perfil social do “vencedor”. O “vencedor” deve ser maleável, criativo, afirmativo e, sobretudo, superficial nos contatos pessoais e indiferente a projetos de vida duradouros. Para ganhar mobilidade no volátil mundo do emprego, ele deve aprender a não ter elos sólidos com família, lugares, tradições culturais, antigas habilidades e, por último, com o próprio percurso biográfico. Sennett define essa nova identidade como a do indivíduo “desenraizado” e Zygmunt Bauman, em O mal-estar da pós-modernidade (Rio de Janeiro, Record, 1998), como a do “turista”. O turista ou o desenraizado é o indivíduo que não se fixa em identidades passadas, que vê o mundo como um espaço de circulação permanente e que jamais projeta o futuro a partir das condições de vida presentes. Esse é um dos principais motivos pelos quais o desejo de possuir objetos industriais se acentuou. Os objetos passaram a ser aquilo que o turista pode ter, ao mesmo tempo, de mais estável e mais mutável. De mais estável porque são as únicas coisas que o sujeito transporta consigo onde estiver e para onde for, de mais mutável por serem facilmente trocáveis se a nova condição social de trabalho assim exigir. Em outros termos, a posse de mercadorias permitiu ao indivíduo preservar a necessidade psicológica de estabilidade sem renunciar à elasticidade pessoal exigida pelo mundo dos negócios.

Além disso, os objetos continuaram sendo o que sempre foram desde que surgiram no cenário da economia capitalista, ou seja, a marca do sucesso profissional e social. A aparência do sujeito afluente é determinada pela maneira como se veste, pela qualidade dos objetos de adorno pessoal, pelo tipo de automóvel, de artigos eletroeletrônicos e de objetos de decoração doméstica que possui, pelos restaurantes que frequenta e tipos de esporte que pratica, pelos lugares onde desfruta o lazer, pelas viagens que faz etc. Os objetos de consumo “agregam” valor social aos seus portadores. Eles são o crachá que identifica “o turista vencedor” em qualquer lugar, situação ou momento de vida.

O consumo de objetos, portanto, não se impõe apenas pela invasão da moda publicitária nas vidas pessoais. O aparato de objetos caros e elegantes é o signo, por excelência, da distinção social de seus possuidores. Por isso passaram a fazer parte da identidade pessoal dos mais abastados e, por extensão, da imensa maioria da sociedade. É entendível, assim, que a compra incessante de novos produtos se torne uma “demanda imaginária” tão coercitiva quanto qualquer “necessidade biológica”. Afinal, ninguém se contenta em sobreviver fisicamente, pelo consumo de nutrientes. Somos seres de cultura que não têm apenas fome de pão, mas também de prestígio social. A satisfação de se sentir aprovado e admirado é um item indispensável para o equilíbrio emocional de todos nós.

3. A moral do prazer

Passemos, agora, à moral do prazer, o outro coadjuvante no enredo imaginário do mercado e do consumo. Esse tópico é, sem dúvida, uma criação inédita da cultura atual. A moral do prazer é o maior trunfo do imaginário consumista. Por meio dela, a ideia do consumismo ganha um curioso semblante de plausibilidade. Vejamos de que maneira.

Toda cultura, para permanecer viva, deve abrir canais de satisfação a seus participantes. Satisfação é o estado físico-mental alcançado ao levarmos a bom termo nossas intenções. As formas pelas quais nos “sentimos satisfeitos” são variadas, mas um dos propósitos fundamentais e constantes da existência humana é obter prazer e evitar dor. Os prazeres, por seu turno, são formas de satisfação que se exprimem de diversas maneiras. Podemos sentir prazer em realizar “ações cívicas”, em experimentar emoções sentimentais voluptuosas ou agradáveis, em fruir emoções estético-religiosas, em gozar com sensações corporais de bem-estar e de êxtase etc. Esses e outros modos de satisfação prazerosa são componentes indispensáveis ao funcionamento da cultura e à formação de identidades pessoais.

Cada cultura, no entanto, permite a realização de certas condutas e interdita outras. Uma cultura na qual tudo fosse igualmente possível não seria “uma cultura”. Cultura é delimitação de possibilidades e impossibilidades. No convívio humano existem sempre comportamentos que são incentivados e aprovados e outros desestimulados e condenados. Em nossa época, a grande inovação em matéria de condutas é a busca do ideal de prazer corporal ou do prazer das sensações. Hoje procuramos os prazeres sensoriais como há dois ou três séculos perseguíamos os prazeres sentimentais do romantismo e da vida familiar, os prazeres do reconhecimento pela operosidade e pela honestidade do trabalho, os prazeres da admiração pelos grandes feitos políticos e militares, os prazeres da alma no exercício das virtudes religiosas etc.

Duas observações são, contudo, necessárias, antes de prosseguir. Em primeiro lugar, afirmar que, atualmente, elegemos o prazer sensorial como um ideal nem significa dizer que antes não o usufruíssemos nem que hoje tenhamos aberto mão dos antigos ideais de prazer cívico, sentimental, religioso etc. Agora, como anteriormente, continuamos a buscar realizações sentimentais e satisfações sensoriais. O que mudou foi o valor que passamos a atribuir às sensações físicas prazerosas na constituição das subjetividades. Esse valor foi enormemente inflacionado e veio a se tornar um ponto de apoio privilegiado na constituição das identidades pessoais.

A importância que a boa forma física, a boa saúde, o gozo com drogas ou com sexo tinham na formação psicológico-moral dos sujeitos era, até bem pouco tempo, comedida. No reinado da clássica moralidade burguesa, ninguém era particularmente admirado por ser capaz de se manter belo, jovem ou saudável além do que o correr do tempo permitia. Do mesmo modo, a liberdade sexual que hoje usufruímos era quase impensável há três ou quatro décadas, assim como eram impensáveis a extensão e a intensidade que o consumo de drogas psicoativas veio a ter. O que definia a qualidade moral e o apreço social de uma pessoa era a vida sentimental rica, a excelência na vida pública, a integridade religiosa, as qualidades artísticas ou científicas etc. Os prazeres físicos do corpo eram apenas a matéria bruta que devia ser modelada para dar lugar aos ideais de perfeição moral, intelectual, espiritual ou emocional etc.

Em segundo lugar, ao falarmos de culto às sensações prazerosas, estamos diagnosticando um estado de coisas, e não desaprovando, de forma puritana, tais aspirações. A atitude moralista que se refere à “busca do prazer” como um “pecado secular” me parece equivocada. Essa atitude insinua que o prazer físico é, por si, condenável e que os indivíduos hoje vivem em um eterno festim de comida, sexo e droga. A meu ver, além de imprópria, essa imagem é, principalmente, falsa. Ela é imprópria porque, se os indivíduos decidirem que deverão viver para os prazeres físicos, e isso não vier a destruir os compromissos com o Bem comum, não vejo nenhum bom motivo para que se os desaprove; é falsa porque simplesmente não é verdade que a maioria dos praticantes da moral do prazer sensorial se comporte como o moralismo conservador e pequeno-burguês fantasia que ela se comporta. Por tudo que podemos constatar, o ideal do prazer físico continua sendo um “ideal”, ou seja, algo que se almeja e dificilmente se alcança.

Assim, o problema da felicidade das sensações não reside nos pretensos excessos sensuais de seus partidários – afirmação que ninguém vê ou prova –, mas nas contradições que ela produz. Isto é, esse ideal promete o que não dá e dificulta a participação e o compromisso do sujeito com os objetivos do Bem comum. Essas são as razões pelas quais podemos criticar, do ponto de vista ético, a nova moral do prazer, e não por fantasias despropositadas como as que atribuem aos indivíduos excessos sensuais inexistentes.

Feita a ressalva, voltemos ao ponto central: a relação do ideal do prazer com o imaginário consumista. A moral contemporânea do prazer, como a nova moral do trabalho, dá origem à demanda por objetos descartáveis. Uma diferença, no entanto, separa as duas. No registro do trabalho, os objetos são desejados porque compõem a aparência social do turista ou do desenraizado “vencedor”. Pelo fato de serem portáteis e intercambiáveis, eles se tornaram instrumentos cômodos de exibição do sucesso profissional e social.

Na moral do prazer sensorial, a função dos objetos é outra. O prazer das sensações se baseia fundamentalmente nas disposições físicas do corpo para ser estimulado. Diferentemente do prazer sentimental, que pode durar na ausência dos estímulos sensório-motores, o prazer sensorial depende do estímulo físico imediato e da presença do objeto fonte da estimulação.

A única maneira de fazer o prazer físico durar é prolongar a excitação. Nesse caso, entretanto, o sujeito esbarra no limiar de excitabilidade biológica: se o estímulo for forte e durar demasiadamente, dará lugar à dor; se for fraco, ao desinteresse. Resta, então, ao sujeito recorrer aos objetos como fonte de reestimulação permanente do corpo.

É nesse ponto que o consumo entra no script da felicidade das sensações. O sujeito, para escapar da enfermidade do prazer físico, passa a depender, cada vez mais, da diversidade e da constância dos objetos para ter prazer. Como sem objetos não há prazer e como um mesmo objeto esgota rapidamente sua capacidade de despertar a excitação sensorial, é preciso ter sempre à mão algo com que gozar. Além disso, esse algo deve ser permanentemente substituído, para que o hábito não enfraqueça a intensidade do estímulo e elimine o gozo. Por esse motivo, o ciclo de consumo dos objetos se tornou interminável. Além de procurar objetos próprios à excitação dos sentidos relacionais, ou seja, os cinco sentidos, os sujeitos procuram manter em alta intensidade o gozo sexual, o frisson das experiências motoras violentas e o êxtase sensorial neurofisiologicamente induzido por drogas psicoativas etc.

Os objetos são cada vez mais solicitados a superar os limites da excitação física do corpo. E, graças a isso, começaram a assumir um semblante que nunca tiveram, qual seja, o de objetos consumíveis. A metamorfose ocorreu por dois principais fatores. Primeiro porque é mais fácil imaginar o consumo de coisas que experimentamos sensorialmente do que de coisas que, apenas indireta e secundariamente, excitam nossas sensações. Pensar que consumimos imagens visuais excitantes ou drogas psicoativas é mais verossímil do que pensar que consumimos relógios, móveis, roupas ou automóveis. Segundo porque o impulso para comprar objetos, de fato, se fortaleceu à medida que nos tornamos mais dependentes deles para ter prazer. A insaciabilidade por comprar se acentuou porque o ideal de prazer hegemônico fez do objeto a via real da satisfação pessoal.

Como se vê, o imaginário do mercado e do consumo não se sustentaria sem que contribuíssemos ativamente para sua perpetuação. São nossos ideais de felicidade que nos empurram para a aquisição permanente de objetos que, ao ser adquiridos, já portam o signo da obsolescência. O tipo de satisfação ao qual aspiramos pede uma renovação incessante das fontes de estimulação sensorial. Os objetos são os meios que encontramos para alcançar os fins que desejamos.

 4. Sociedade, classes e ideais

Não saberia responder com segurança à indagação de vocês sobre a apropriação diferenciada da ideologia do consumo pelas diferentes classes sociais. Acho, no entanto, que a atitude consumista não depende do nível de renda. É uma atitude diante da vida, e, por conseguinte, diante dos objetos que se pode possuir. No Brasil, a maioria tem uma renda pessoal ou familiar desprezível, mas, mesmo assim, se comporta como se tivesse uma renda alta, quando se trata de usar objetos com coisas descartáveis.
Não consumir significa perceber os objetos como coisas que devem durar, que devem significar algo mais que a satisfação imediata de necessidades passageiras. Significa adotar diante do mundo uma atitude de cuidado. Significa estar consciente de que a sociedade ou o planeta não são um depósito infindável de recursos que podemos saquear, sem respeito ou preocupação com o que virá depois de nós. Por esse aspecto, não vejo grandes diferenças entre os pobres e os ricos. Os mais poderosos e influentes, pela persuasão ou dissuasão, terminam por impor a quase todos seus ideais de sucesso econômico, apreço social e satisfação psicológico-moral.

Não penso que o fundamental na moral do consumo seja a posse de objetos por meio de compra. É entendível que, hoje em dia, com o progresso tecnológico, as crianças, por exemplo, disponham de mais brinquedos e meios de lazer do que dispunham antes. O problema não está na quantidade de coisas que podemos ter, nem mesmo na quantidade de coisas que podemos acumular. A questão é a atitude irresponsável para com o patrimônio material e moral da sociedade em que vivemos. Ter poucos objetos e tratá-los como os que possuem muitas coisas e as tratam de modo “consumista” resulta na mesma consequência ética: tudo que existe é para ser devorado e jogado fora, pouco importa o efeito desse gesto perdulário.

No início do capitalismo industrial, por exemplo, os indivíduos compravam muitas coisas, se considerarmos o montante de riquezas disponíveis e o desenvolvimento técnico da produção industrial. Se vocês observarem com atenção os costumes das famílias burguesas no século XIX, verão que as casas eram apinhadas de objetos de decoração, brinquedos de criança, sem contar os infinitos adereços do vestuário masculino e feminino. Mas nada disso impedia os sujeitos de pensarem que o que possuíam devia durar. Nada disso impedia os sujeitos de viverem não apenas para si, mas para as futuras gerações de filhos e netos. Nada disso impedia que os burgueses mantivessem vivos ideais de progresso científico, de dignidade do trabalho, de honra familiar, de crença na história, de sentimento de responsabilidade para com a nação etc. Bem entendido, não quero, com isso, idealizar o modo de vida burguês oitocentista. Sei bem que muita coisa disso tudo foi construída em cima de preconceitos sexuais, raciais, religiosos, de classe social ou outros. O principal, entretanto, é o compromisso com o Bem comum, com algo que transcenda nossas vidas passageiras e o fugaz prazer de nossos corpos.

A atitude consumista moderna é dissoluta desses ideais. Essa é sua maior nocividade. Ela rompe o fio da tradição e nada põe no lugar. É uma cultura do imediato, do descompromisso consigo, com o outro e com o devir de todos.

5. Resistências e alternativas

Entretanto, nenhuma construção cultural, por persuasiva que seja, é monolítica. A ideologia do mercado e do consumo não é exceção. Todo poder desperta resistências, como disse Michel Foucault. As resistências suscitadas pelo imaginário do mercado são de duas ordens. A primeira é a resistência pela fraqueza dos excessos; a segunda, pela força da criação de alternativas às ideias dominantes. Como exemplo da primeira, cito os vários distúrbios psicológicos derivados do modo de viver atual. A pressão pela boa forma, pela saúde e pela longevidade vem produzindo, em escala crescente, uma série de sintomas hipocondríacos, transtornos da imagem corporal e síndromes de dependência química. Além disso, o estilo de vida competitivo, a insegurança nos postos de trabalhos e a ansiedade pelo sucesso econômico vêm gerando um rol de sintomas típicos do estresse físico e mental: insônia e dores musculares crônicas, desânimo, depressões mitigadas, síndromes de pânico e fobias sociais etc.

Os indivíduos, com maior ou menor clareza, sabem que o preço pago para ser “vencedor” é extorsivo. Muitos começam a buscar refúgio em práticas corporais, de natureza leiga ou espiritual, que os afastem dos ideais de satisfação que dominam o imaginário do mercado e do consumo. Mesmo sem perceber, esses sujeitos criam focos de contestação ao modo de vida hegemônico pelo simples fato de redefinirem seus ideais de felicidade. Aos poucos, os sinais sociais de superioridade de classe deixam de ter apelo para uma parcela significativa de pessoas para as quais as experiências pessoais de sofrimento acabaram produzindo um relativo distanciamento da moral dominante.

Portanto, se nos perguntarmos quais as perspectivas para as pessoas na sociedade de mercado, diria que são muitas, mas que todas convergem para duas saídas principais: 1) continuar a perpetuar um modo de vida que me parece pobre, por estreitar os horizontes da ação humana em uma só direção, qual seja, a do sucesso econômico, do cuidado obsessivo com o próprio prazer e da indiferença em relação ao mundo; 2) voltar-se para o outro, construir uma sociedade na qual todos tenham direito ao mínimo necessário à satisfação das necessidades elementares, para que, então, possamos ser, de fato, livres para criar tantas formas de sermos felizes quantas possamos imaginar.

Como exemplo de resistência pela força da criatividade, cito o surgimento das preocupações ecológicas e o ressurgimento de preocupação política na modalidade da responsabilidade social. O movimento ecológico vem mostrando quão predatória é a prática do consumismo compulsivo e indiscriminado. O argumento da dilapidação dos recursos naturais do planeta vem conquistando adeptos, que veem no consumismo a inconsequência dos que não conseguem pensar no futuro das novas gerações. Esse movimento, embora incipiente, e muitas vezes cooptado pelos poderosos, vem se afirmando como algo digno de respeito, o que não acontecia há duas ou três décadas. Uma grande quantidade de pessoas, sobretudo as mais jovens, se sente atraída e entusiasmada por profissões que lidam com o cuidado ambiental, e isso é um indício importante de mudanças nas mentalidades coletivas.

No que tange à política de responsabilidade social, é impressionante observar o número de pessoas que vêm se dedicando a trabalhos do chamado terceiro setor. São pessoas com visões de mundo, trajetórias de vida e origens de classe bastante diferentes, mas que encontram nos ideais de justiça e respeito pelo outro um objetivo que merece ser perseguido. Todas elas acreditam que o estilo individualista de preocupação exclusiva com o próprio corpo e o sucesso social não basta para dar sentido à vida. O número de participantes nesse tipo de atividade social cresceu de forma impressionante no Brasil dos últimos 20 anos e torna-se uma opção também para os jovens. Os efeitos dessa nova maneira de pensar ainda são, por enquanto, tímidos, mas tudo leva a crer que estamos diante de uma mudança de hábitos de vida na qual os ideais do Bem comum voltaram a ter o respeito que merecem.

* * *

Mas vocês me perguntam como acelerar as mudanças? Obviamente não há receitas. Primeiro porque não acredito em mudanças pensadas por um só. Mudança é uma questão de prática, de experimentação de muitos ou de todos. Segundo porque os próprios horizontes da mudança precisam ser rediscutidos dia a dia. Uma coisa, contudo, me parece importante realçar. Toda mudança, para ser estável, duradoura e produtiva, tem de ser contínua e lenta. As grandes transformações históricas que conhecemos, e que se deram de forma brusca, em meio a banhos de sangue, em geral retrocederam ao que temos de pior. Portanto, a paciência e a persistência são as melhores armas para as mudanças responsáveis e humanamente frutíferas. Ora, o que a sociedade de consumo vem justamente minando por baixo é a confiança que temos na história e em nosso valor como agentes de transformação social.
O grande exercício e o grande desafio que enfrentamos é o de continuar acreditando em um mundo melhor para nós e para as gerações futuras. Sei que pode parecer duro ter que suportar regimes econômicos exploradores e concentradores de riquezas sem pensar em tomadas de poder pela violência. Mas, ao olharmos a história, veremos que as aquisições sólidas que fizemos, em matéria de progresso no convívio social, foram todas construídas com tempo a paciência. Foi assim que mudamos os valores familiares, religiosos, políticos, econômicos, sentimentais, artísticos, morais etc. Não vejo outra saída, exceto recobrarmos a confiança em nosso poder de transformação, como criadores que somos. Repito, no entanto, que para isso é preciso recuar da posição na qual fomos postos, qual seja, a de indivíduos exclusivamente voltados para o próprio umbigo. A mudança, portanto, exige que pensemos que o que todos fazemos no dia-a-dia, em qualquer atividade profissional ou cultural, é importante. O que cada um de nós faz ou diz importa, e importa muito! O mundo se faz de pequenos gestos cotidianos e das grandes crenças que os sustentam.

1. Nota do editor: Este texto foi editado pelo autor a partir da transcrição de gravação de uma conferência por ele proferida no âmbito do curso Juventude, Cultura e Cidadania, organizado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em parceria com o ISER (Instituto de Estudos da Religião). Foram também incorporadas ao texto algumas das respostas do autor a perguntas formuladas pelos jovens que participaram do curso. Texto também publicado em Regina NOVAES e Paulo NABNUCHI, Juventude e Sociedade: trabalho, educação, cultura e participação, São Paulo, ed. Fundação Perseu Abramo/Instituto Cidadania, p. 75-88, e gentilmente cedido para publicação em Vida Pastoral tanto pelo autor como por parte da editora.

2. De agora em diante, evitarei colocar aspas nos termos consumir, consumo, consumismo e consumidor para não sobrecarregar o texto e cansar o leitor. Fique entendido, portanto, que, ao empregar tais palavras, não estarei concordando com seu sentido corrente, mas procurando criticá-lo.

3. Ao utilizar a expressão “prazeres físicos” não estou sendo redundante. Os prazeres corporais são físicos e mentais. Mas, enquanto os prazeres físicos se limitam ao corpo, os prazeres sentimentais podem ser projetados em outros objetos ou sujeitos do mundo ambiente. Especifico, ainda, que o limite entre o físico e o mental é arbitrário, e depende do ângulo de observação e do objetivo pragmático da investigação. Uma investigação neurofisiológica, por exemplo, tenderá a dar relevo aos aspectos físicos dos sentimentos, como uma investigação psicológica ou cultural tenderá a enfatizar a dimensão mental dos mesmos eventos.
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* Formado em medicina, livre-docente em medicina social e psicanalista por profissão. Professor do Instituto de Medicina Social da UERJ. Autor de vários livros e artigos científicos. 
Fonte:  http://vidapastoral.com.br/acesso 01/01/2014
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O HOMEM E O TEMPO

 Mauro Santayana*
 
Sem poder dominar o tempo, e o inevitável ciclo da vida, o homem passou a medi-lo, e tentar compreendê-lo, a partir da observação da natureza. O primeiro relógio foi o Sol - e disso nos deixaram testemunho os arabescos rabiscados nas paredes das cavernas e as civilizações antigas. Separados, na imaginação humana, os dias e as noites - ou melhor, feita a luz, no gesto primevo de que  fala o Genesis - passamos a dividir a existência pelas estações, as chuvas e as secas - que ganharam importância com o advento da agricultura - pelo movimento dos astros, os relógios de sombra, de água e de areia,  os solstícios e as festas da colheita. O fascínio pelo tempo levou-nos ao pêndulo e às engrenagens, à vibração dos átomos, à matemática e à física, à computação, às teorias, como a da Relatividade, ao microcosmo que se mede em nanômetros, ao universo quântico.
 
Neste terça, completamos, pelo Calendário Gregoriano, mais um ano, o de  2013. Isso nos faz lembrar que sem os algarismos e a noção de tempo, a História, provavelmente, não existiria. Não teríamos como datar o passado da nossa espécie. Nem como compreender o presente fugaz e complexo que nos cerca. E nossas visões de futuro estariam relegadas - como no passado - à leitura das vísceras dos pássaros e à interpretação das profecias dos xamãs e das sacerdotisas.

Guardadas as devidas proporções, a história humana continua sendo a de um frágil conjunto de átomos, organizado em células e neurônios, perplexo diante do milagre da vida, e dedicado a postergar ou trapacear o fim inexorável.

Há aqueles, como Alexandre o Grande, Átila, ou César, que  conquistam ilhas, montanhas, continentes, e constroem pirâmides e cidades para permanecer além do tempo. Há os que buscam o poder para exercê-lo sobre quem o cerca, valendo-se de seus bens ou de sua posição, como se cada instante de controle sobre outro ser humano, dilatasse os seus próprios momentos neste mundo.

Há, ainda, como Homero, Caravaggio, Lorca, Michelangelo, Picasso, Violeta Parra, Chaplin, Aleijadinho, quem prefira legar ao mundo o seu talento e o seu espanto, a beleza dos versos e das formas, das cores, dos gestos e do sonho.

E há, finalmente, aqueles, entre os quais se incluem também certos artistas e poetas, que preferem enfrentar a morte, olhando-a nos olhos e combatendo tudo que a representa. A miséria e a injustiça, a fome, a desigualdade. O racismo e o ódio, o egoísmo, a violência, a brutalidade.

Esses são os que curam os pobres e humildes, os que ensinam a ler e a pensar a quem não sabe; que desvendam os males dos vírus e bactérias; os que forjam novas idéias e movimentos. E criam vacinas, alimentos e fontes de energia mais baratas, não com a intenção do lucro, mas para mostrar que é possível. Que a vida pode ser vitoriosa,

Muitos deles morreram neste ano - e não poucos foram perseguidos e assassinados - outros alcançaram grandes vitórias e conquistas e temos certeza de que seguirão lutando.  Continuaremos dependendo deles no futuro. São eles que fazem caminhar a humanidade.
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* Jornalista. 
Fonte: JB online, 01/01/2014
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Século 21 - Igreja Católica dá guinada e entra numa nova era



Papa Francisco na praça São Pedro, em outubro. Vaticano tem ficado lotado nos últimos nove meses

Papa Francisco na praça São Pedro, em outubro. Vaticano tem ficado lotado nos últimos nove meses

Quebra de tabus mostra que o mundo mergulha de fato numa fase de grandes transformações


Uma das transformações mais significativas acontece na Igreja Católica Apostólica Romana. Com suas doutrinas seculares, ela também não ficou imune a tantas mudanças em diversas esferas. 

A mesma que ajudou a levantar e derrubar reis e rainhas, que fez a inquisição para julgar e condenar com suas leis, que foi ligada ao domínio do conhecimento, elege agora um jesuíta latino-americano para assumir a função de papa, que chegou, vale lembrar, a ser chamado recentemente de marxista por ultra-conservadores americanos, depois de fazer duras críticas ao nosso sistema capitalista, ao consumismo e à idolatria do dinheiro - na primeira exortação apostólica, Evangelii Gaudium. Em resposta, o Papa Francisco disse que considera a ideologia marxista "equivocada", mas que não se sentiu ofendido por ter sido chamado como tal. "Na minha vida conheci tantos marxistas bons como pessoas que não me ofendo", disse o Pontífice ao jornal La Stampa.

Jorge Mario Bergoglio, assim que assumiu o papado, em março de 2013, deu sinais de que mudanças poderiam surgir ao recusar os luxuosos cômodos do Palácio Apostólico no Vaticano e escolher a Casa de Santa Marta, para ficar “junto com os outros membros do clero”. É lá que hoje o papa costuma tomar café da manhã, além de celebrar missa para os funcionários locais. Dispensou também o carro oficial e os seguranças. No início de dezembro, eram crescentes os rumores de que ele costuma "escapar" do Vaticano durante a noite, vestido como padre, para encontrar pessoas necessitadas de Roma. Autoridades do Vaticano negaram.

O novo chefe supremo da igreja católica assumiu depois da renúncia de Bento XVI, a primeira dos últimos 600 anos. Entre as atitudes que soam como início de mudanças profundas, Francisco formou uma comissão para reformar a cúria, outra para acompanhar as operações do Instituto para as Obras de Religião (IOR) e declarou que os homossexuais não deveriam ser julgados ou marginalizados. "Se alguém é gay e busca o Senhor de boa fé, quem sou eu para julgar?", comentou. Medidas e palavras impensáveis para uma Igreja Católica de séculos atrás.

Entre as publicações que lhe renderam o título de personalidade do ano está a revista "The Advocate", a mais tradicional da comunidade gay norte-americana. Quando foi eleito personalidade do ano pela Time, o secretário de Estado do Vaticano, padre Federico Lombardi, afirmou que o título "é um sinal positivo" que demonstra "entendimento" das mensagens religiosas e morais do papa.
Historiadores e sociólogos especializados no estudo da igreja ajudam a esclarecer um pouco as mudanças que essa instituição vem passando e o que elas significam para a sociedade, e também para a própria instituição. Eles ressaltam a retomada de uma maior força, até com ateístas e agnósticos. Até pouco tempo taxada de atrasada e/ou engessada, a igreja agora percebe um crescimento rápido de fiéis e simpatizantes, ao falar de questões que antes não encontravam voz na entidade. O Vaticano tem ficado lotado de pessoas nos últimos nove meses, motivadas pelo discurso inovador do papa Francisco, acredita-se.

Mario Jorge da Motta Bastos, doutor em História Social pela USP e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica sobre a presença da Igreja Católica na Idade Média. Vertente da historiografia francesa, ligada a Alain Guerreau, aponta que a supremacia da Igreja naquele período seria decorrência de vários níveis: controle do espaço - pela multiplicação dos templos, criação das paróquias e inserção em comunidades; controle do tempo - com os sinos marcando as principais jornadas diárias; controle da cultura erudita - com atuação nas universidades; controle dos principais rituais cotidianos e ritos de passagem - como o casamento; e sacralização da estrutura social. 

"Esta instituição tem séculos de existência, ao longo dos quais instituiu uma base material incomensurável, articulou-se com e reproduziu-se no interior de sistemas e estruturas de poder diversas. Se, na Idade Média, foi enorme o seu papel na sacralização do sistema feudal, também são clássicas as análises que articulam o cristianismo - e não só a sua vertente protestante - à implantação do sistema capitalista. De qualquer forma, a hegemonia gozada em toda a Idade Média sofreu consideráveis e sucessíveis abalos relacionados, é claro, com a Reforma protestante e a consecutiva proliferação de vertentes religiosas. De minha parte, contudo, creio que um abalo importante foi decorrente do processo de 'perda de potência sagrada', de laicização das sociedades contemporâneas, que pôs em xeque a ascendência da religião como instrumento incontestável e socialmente generalizado de compreensão do mundo", comentou.  

Papa posa para foto com jovens
Papa posa para foto com jovens
Para Mario Jorge, a escolha de Bergoglio como papa foi "bastante consequente", devido à crise institucional e de crença que afetava a igreja. "A guinada à direita do episcopado de João Paulo II teve como efeito colateral o recuo do catolicismo nas áreas pobres dos países periféricos. Bento XVI foi uma aposta na sequência daquela orientação, que se mostrou equivocada e redundou na sua renúncia. Esse quadro geral ajuda a entender a escolha de um latino-americano - frente há muito mais importante, no que se refere à quantidade de crentes, de sustentação da Igreja do que a própria Europa". 

Maurício Vieira Martins, professor do Departamento de Sociologia da UFF, destacou que existe hoje um debate entre os especialistas tentando explicar os diferentes motivos que levaram o papa Francisco a assumir posições próximas ao que, num outro momento da Igreja Católica, ficou conhecido como uma opção preferencial pelos pobres. "A rigor, ainda não existe uma resposta segura para isso, até porque o início do pontificado de Bergoglio é muito recente."

O professor considera errôneo afirmar um suposto caráter marxista do papa, por várias razões. Suas declarações contra uma "economia de exclusão e desigualdade" representam o mínimo que se espera de um homem comprometido com o bem estar da população mais pobre. "Em outras palavras, podemos dizer que não é o papa que é marxista, mas sim que ele está lidando com adversários tão conservadores que se sentem ofendidos mesmo com iniciativas moderadas de redistribuição da riqueza social", ressaltou.

Ivo Lesbaupin, professor na UFRJ, graduado em Filosofia e doutor em Sociologia pela Université de Toulouse-Le-Mirail, da França, acredita por sua vez, que a igreja está, sim, totalmente diferente. Até a metade do século 20, ressalta, ela tinha papel de hegemonia cultural no ocidente inteiro e parte do oriente médio, e extremo oriente. "Ainda tem um poder da igreja, de um modo geral, em relação ao curso da nação, aparelho jurídico, a certa datas comemorativas".

No início da década de 1960, explica Lesbaupin, aconteceu um processo de reforma na igreja que abre as portas para o diálogo com as ciências, com as demais igrejas cristãs, com judeus e muçulmanos, minimização do discurso monárquico por excelência. "Isso flexibilizou um pouco mais a igreja. Se ela não tinha ainda a coragem de dialogar com radicalidade sobre assuntos como aborto, homossexuais, pelo menos não tínhamos prática persecutória".

"Na metade da década de 1980, no entanto, a igreja volta a algumas práticas, houve moralização do discurso da igreja, mas aí o discurso já não era mais tão audível", aponta. "Até que chega Francisco com ideia de diálogo da igreja, do ecumenismo, com um novo assento não mais na moralidade, mas na revolução afetiva, no serviço ao outro, que ganha alguma voz ainda hoje, neste mundo de esfacelamento quase geral de alguns valores que até o século 20 eram estáveis."

Questionado sobre se o discurso do papa estaria em sintonia com o novo momento da Europa e Estados Unidos, o professor responde que sim. Neste sentido, então, o papa tem dado lugar de proeminência, com discursos sobre a desumanização do curso econômico do mundo. "Ele não veio com uma resposta antiga, ele veio dizer que temos que dialogar para dar conta de todo este absurdo."
Lesbaupin ressalta que a igreja, em seu início, era altamente pobre, ligada a populações excluídas do império romano, até que os romanos a assumiram e formou-se a aliança entre poder civil e eclesiástico. No entanto, ele acredita que há uma série de limitações das ações do papa, para que se possa adotar mudanças grandes.

"A longo prazo, a gente não sabe bem o que vai acontecer. Mas me parece que, se essa postura durar por mais 10 anos, vamos começar a ver certas mudanças", disse Lesbaupin.
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Reportagem Jornal do Brasil Pamela Mascarenhas
Fonte: JB online, 01/01/2014