sábado, 1 de fevereiro de 2014

França: um exemplo do poder destruidor que podem ter as redes sociais

Le Monde

A última crise francesa fornece uma prova ao mesmo tempo demolidora e cômica acerca da influência desses dispositivos na opinião pública.

Eduardo Febbro

Paris - As linhas que seguem são um reflexo verbal da realidade, e não uma piada forjada no coração de uma das grandes democracias do Ocidente. Se alguém duvida do poder destruidor que podem alcançar as redes sociais e os instrumentos de comunicação mais avançados, a última crise francesa fornece uma prova ao mesmo tempo demolidora e cômica acerca da influência desses dispositivos na opinião pública.

Um falso rumor propagado por católicos de ultradireita através de Facebook, Twitter e SMS fez com que dezenas de milhares de pessoas acreditassem que o Executivo se preparava para ensinar a masturbação nos jardins de infância, para dar cursos sobre a famosa teoria de gênero ao mesmo tempo em que atribuiu à senadora socialista Laurence Rossignol a seguinte frase: “as crianças não pertencem aos pais, mas sim ao Estado”.

O resultado desta campanha foi devastador: o governo se encontrou em sérios apuros quando milhares de pais decidiram participar de uma greve e se negaram a levar seus filhos às escolas. Tudo, porém, é falso. Os grupos de ultradireita e os católicos integristas que, no ano passado, saíram às ruas para se manifestar contra a lei que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo estão por trás dessa argúcia mentirosa difundida por meio das redes sociais. A mentira acertou no alvo.

A história passaria por um caso anedótico se não se tratasse de uma sociedade avançada como a francesa e se não tivesse tido nenhum impacto na realidade. Em setembro do ano passado, o ministro da Educação, Vincent Peillon, e a ministra dos Direitos da Mulher, Najat Vallaud-Belkacem, cogitaram a ideia de realizar em alguns estabelecimentos escolares do país uma operação destinada a promover a igualdade entre homens e mulheres. Reciclada pelos católicos integristas e a extrema-direita, a ideia se converteu em uma ameaça imaginária articulada em torno de um suposto programa cujo objetivo consistia em propagar nas escolas a teoria de gênero, ou seja, esse princípio segundo o qual ser homem ou mulher é uma mera construção social e não uma consequência biológica por completo.

Milhares de pais começaram a receber SMS advertindo que o governo, em nome da teoria de gênero, havia dado instruções aos professores para que estes ensinassem aos filhos a arte da masturbação e convidassem transexuais para as aulas. Muitos deles acreditaram. No dia 24 de janeiro, em uma dezena de departamentos da França, as salas de aula estavam vazias. Aterrorizados diante de semelhante barbaridade, os pais tiraram os filhos das escolas. Delirium tremens.

Os tópicos desta operação perversa realizada por pequenos grupos de extrema direita e católicos fanáticos agrupados em diversas associações: JDR, JRE 2014, os fascistas do grupo Jour de Colère (Dia de Cólera), próximo do ensaísta de extrema-direita Alain Soral e da militante Farida Belghoul, 24 heuresactu, Boulevard Voltaire, Egalité et Réconciliation, Manif pour Tous, Printemps Français, Action Française, Familles de France. Estes movimentos pertencem à órbita mais extrema da direita e vivem em uma esfera paranoica.

Em um artigo publicado em meados de janeiro, 24heuresactu, por exemplo, assegura que o governo socialista está estudando “um informe da OMS (Organização Mundial da Saúde), que propõe estimular a masturbação infantil e permitir à criança a expressão de seus desejos sexuais”. O informe existe, mas não expressa nenhuma dessas ideias. No entanto, o rumor acabou sendo tomado como verdade.

Esta nebulosa católica-fascista denuncia uma espécie de engrenagem lógica onde se associa o casamento entre pessoas do mesmo sexo com a igualdade entre o homem e a mulher, o ocaso da família tradicional com a decadência da civilização, a ampliação do direito de aborto com a intoxicação da imigração, a cultura laica com a suspeita de que se está buscando reconfigurar a família e mudar a mentalidade das crianças, a obsessão de que serão transmitidas coisas de adultos para as crianças, de que serão incitadas a mudar de sexo, a se masturbar ou se converter em pedófilos.

O catálogo é pesado. A teoria de gênero carece de todo fundamento. De fato, ela é chamada assim, mas nem sequer é uma teoria. Trata-se de um estudo de gêneros iniciado nos Estados Unidos nos anos 60 e 70. No entanto, os “anti” inventaram sua existência nas escolas da França e estão convencidos de que os socialistas querem reorientar a sociedade com base nas orientações sexuais, as quais se converteriam, assim, no fundamento do direito e da igualdade. A política governamental contra a desigualdade entre o homem e a mulher não tem nada a ver com isso, mas sim com a igualdade dos papéis sociais entre homem e mulher.

O ministro francês da Educação, Vincent Peillon, respondeu a estes delírios: “não escutem a quem quer semear a divisão e o ódio nas escolas. O que nós fazemos não é ensinar a teoria de gênero, eu a rechaço, mas sim promover os valores da República e a igualdade entre os homens e as mulheres”, disse o titular da pasta.

A chamada facho-esfera conseguiu, contudo, que muitos pais acreditassem nessas invenções. A França se viu assim sob o poder hipnótico de uma intoxicação destruidora, de um fantasma que, em pleno século XX, ganha adesões no coração de sociedades que sustentaram seus progressos em valores totalmente opostos aos que essas correntes extremistas promovem.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer
---------------
Fonte: http://www.cartamaior.com.br

Ligações mentirosas

LIVROS-ABRE-IE-2306.jpg
CONEXÃO
Simone e Sartre: segundo a autora, é difícil crer que ele não fosse antissemita

Nova biografia do casal Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre lança luz sobre a ambígua relação deles com a ocupação nazista ao rever suas preferências políticas e amorosas


A imensa produção de Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre nunca coube apenas no âmbito intelectual. Vazou e contaminou todo o movimento da contracultura como a de poucos pensadores foi capaz. Em vida, os dois assistiram a seu ideário moldar a cara da modernidade do Ocidente, que os sacramentou como exemplos da liberdade sexual e da emancipação feminina. A mais recente biografia do casal francês reúne uma farta documentação para mostrar que, na vida real, não foi bem assim. Em “Uma Relação Perigosa”, a pesquisadora Carole Seymour-Jones revela que Simone manipulou a imagem que gostaria que o mundo tivesse (e talvez ela mesma) da relação dos dois com a política, com o sexo e entre si.

Simone mentia e Sartre consentia. Segundo a autora, ela enganava não só as amantes que alcovitava para o marido como os próprios e muitos biógrafos que a entrevistaram. “Beauvoir havia pregado uma peça em seus biógrafos, conquistando-os com sua aparente confiança e tapeando-os. Superados em esperteza, eles subestimaram sua obstinação e habilidade.” Carole chega a dizer que as memórias publicadas por Simone de Beauvoir não passam muito de construções largamente profissionais. “No rastro da trilha biográfica, fiquei perplexa com a profundidade do abismo entre a lenda pública e as vidas privadas do casal”, diz.
1.jpg
Entre as passagens mais delicadas do volume está a reunião de evidências de que os intelectuais não atuaram na resistência à ocupação de Paris pelos nazistas como propagaram nos anos que se seguiram ao fim da Segunda Guerra. Gerhard Heller, censor nazista na capital francesa durante a ocupação, confirmou em seu livro de memórias que Sartre e Simone enriqueceram no período à custa de judeus. A biógrafa chegou a entrevistar Bianca Bienenfeld Lamblin, que vive até hoje com profunda mágoa do casal, com quem começou a se relacionar aos 17 anos, sendo depois abandonada com o início da guerra e a expansão do antissemitismo. A autora conclui que é difícil acreditar que o autor de “Reflexões sobre a Questão Judaica” não fosse, ele mesmo, um antissemita.

Simone decidiu abrir algumas questões publicando as cartas de Sartre para ela, em 1983, logo depois da morte do marido, de acordo com
a autora do livro, para reafirmar sua postura revolucionária e se vingar das amantes de Sartre, mulheres que, mesmo quando escolhia, ela detestava. Questionada no lançamento da correspondência reunida em “Lettres au Castor”, disse que todas as respostas redigidas por ela para o companheiro haviam sido queimadas em um bombardeio durante a Segunda Guerra Mundial. Sylvie le Bon, filha adotiva de Simone, depositária da herança intelectual da autora de “O Segundo Sexo” e uma das fontes mais importantes da nova biografia, conta que, logo depois da morte da mãe, encontrou o pacote com todas as suas respostas guardadas em um armário do estúdio da rue Schoelcher, local de trabalho de Simone em Paris até o fim da vida. Sylvie, uma das pessoas às quais a autora agradece no livro, disponibilizou uma série de documentos de seu acervo particular que nunca tinham sido publicados.
2.jpg
Para a autora, sob o pretexto do amor livre, Sartre ansiava pela intimidade que conhecera quando criança com a mãe, que o tratava com um bibelô. “O sujeitinho estrábico que cresceu incapacitado pela percepção vacilante de si mesmo, com a confiança solapada pela autoconsciência da deformação, sentiria uma necessidade obsessiva por mulheres.” Encontrou Simone, colega com um discurso antimatrimônio que o seduziu. Simone havia passado uma infância difícil, controlada por uma mãe dominadora que cerzia meias enquanto o pai trocava de amantes. Decidira por razões óbvias que casamento não era para ela.

Mas Sartre insistia, aos 24 anos, encantado com aquela mulher de 21, “que tinha a inteligência de um homem”. Por fim ela cedeu, incorporando o projeto intelectual a uma vida afetiva de 50 anos, que de fato revolucionou costumes, mas que a feriu e fez ferir como a mais tradicional das mulheres traídas. 
-------------------------
Fotos: Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images; divulgação
ana.weiss@istoe.com.br
Fonte: http://www.istoe.com.br/reportagens/

Como não perder o foco

 Foco  (Foto: ÉPOCA)
 Num mundo repleto de distrações digitais, emocionais e de carne e osso, superá-las é fundamental para fazer qualquer coisa. Por que é importante redescobrir 
a importância da concentração

Mal começa o ano e tomamos as resoluções de vida nova. Ir à academia, estudar mais, comer direito. A disposição para se tornar uma pessoa melhor e mais disciplinada é infinita nessa época do ano. E a frustração quando quebramos a promessa logo nas primeiras semanas também. O que muitas vezes não percebemos é que para cumprir qualquer resolução de Ano-Novo é preciso uma característica básica: concentração. Sem ela, a preguiça vence a obrigação da ginástica. A internet se torna uma tentação na hora de estudar e o bolo de chocolate acaba com a dieta em segundos. Sem atenção e persistência, dificilmente se atinge qualquer objetivo.

Essa é a teoria do psicólogo americano Daniel Goleman. Em seu novo livro, Foco (Objetiva, 294 páginas, R$ 39,90), que chega em janeiro às livrarias brasileiras, ele discorre sobre os benefícios que a atenção concentrada traz. Para ele, a melhor promessa que alguém pode fazer no final do ano é ter foco, e apenas isso.
Quando se trata de emoções e de como elas nos afetam, Goleman está acostumado a perceber o que ninguém repara. Ele foi um dos primeiros autores a afirmar que a inteligência não é o suficiente para nos tornar felizes e bem-sucedidos. Essa é a tese defendida por ele em seu primeiro livro, o best-seller Inteligência emocional, lançado no começo dos anos 1990. Goleman popularizou a teoria de que o controle das emoções é tão fundamental quanto uma boa formação acadêmica e um raciocínio lógico afiado. O livro vendeu mais de 5 milhões de cópias pelo mundo todo e foi traduzido para 30 idiomas.

No começo dos anos 1990, quando Inteligência emocional foi lançado, a maioria das empresas ignorava as características pessoais dos candidatos a uma vaga de trabalho. Testes de raciocínio repletos de perguntas obscuras estavam na moda e as pessoas eram obcecadas pelo quociente de inteligência (Q.I.). O livro de Goleman causou mudanças significativas. Hoje, qualquer funcionário é submetido a testes que avaliam a personalidade. E não é preciso ser psicólogo para saber que o comportamento e as características emocionais são tão importantes quanto um bom currículo. Por mais que tenha uma ótima formação, um funcionário autoritário ou egoísta demais não trará bons resultados.

Foco também é lançado num momento oportuno. A possibilidade de estarmos conectados o tempo todo com nossos smartphones e tablets tem nos tornado mais dispersivos. Pare para pensar: quantas vezes você olhou para seu celular na última conversa que teve com um amigo? E quantas vezes parou o que estava fazendo no trabalho para checar o que acontece nas redes sociais?
 
Foco em si mesmo (Foto: ÉPOCA)
Para Goleman, esse comportamento é preocupante. “Hoje, todos nós, não apenas os jovens, nos sentimos invadidos por tecnologias digitais, por smartphones e e-mails”, disse Goleman a ÉPOCA. “Todos esses recursos degradam nossa capacidade de concentração.” Goleman afirma que a capacidade de manter a concentração é, nos tempos distraídos em que vivemos, tão importante quanto a inteligência emocional. Não cumprir promessas de Ano-Novo é apenas uma – e talvez a menor – das consequências que a falta de concentração nos traz. A desatenção é o cerne de problemas graves como a falta de autocontrole, insensibilidade e falta de força de vontade. Sem foco não se mantém a dieta, nem uma amizade ou um casamento. Até a escolha entre reciclar ou não o lixo está relacionada à falta de foco. Uma pessoa focada, segundo Goleman, tem consciência de que seus atos impactam o mundo todo.

Em sua tese, o autor afirma que existem três tipos de foco. O primeiro é o foco interno. Esse tipo de atenção nos permite entender – e controlar – nossos sentimentos e emoções. O segundo é o foco nos outros, que é o que nos faz ouvir o que as outras pessoas dizem e ter a capacidade de nos colocar no lugar delas, compreendendo o que estão sentindo. Essa empatia, que só é alcançada por meio da atenção no outro, é que nos leva a ter sentimentos nobres como a compaixão. O terceiro tipo de foco é a atenção que devemos dar ao que acontece a nossa volta e como nossas atitudes impactam o resto do mundo. Esse tipo de atenção gera consciência social e sensibilidade aos problemas que afetam o mundo todo, como o aquecimento global e a fome. Apesar de serem diferentes, esses três tipos de foco estão relacionados, e as técnicas para desenvolvê-los são semelhantes. “Quem não consegue prestar atenção nas próprias emoções dificilmente compreenderá os sentimentos de outra pessoa e muito menos se sensibilizará com os problemas do mundo”, diz.

Cada um de nós tem uma infinidade de razões para perder a concentração. Goleman divide as distrações em dois tipos: a sensorial e a emocional. A primeira diz respeito aos sons, sabores, cheiros e sensações que nos roubam a atenção enquanto fazemos algo. Um trabalho pode ser subitamente interrompido por um cheiro de comida ou por uma música muito alta. A distração emocional é aquela que vem de dentro de nós. O fim de um relacionamento ou a perda de uma pessoa próxima são suficientes para tirar qualquer pessoa concentrada do prumo. O bombardeio de informações a que somos submetidos por meio de redes sociais e pela internet também contribui para a falta de atenção. Checar notícias e o que os amigos publicam nas redes sociais é quase um vício para muitas pessoas. Com tantos acontecimentos a nosso redor e no mundo virtual, manter a atenção num relatório, num trabalho da faculdade ou nos próprios sentimentos é cada vez mais difícil.

As distrações existem para todos nós, mas prestar atenção numa planilha complicada ou manter-se acordado numa aula de faculdade parece ser mais fácil para algumas pessoas. Isso se explica porque uma parte da habilidade de concentração é genética. Filhos de pais com alto grau de atenção têm mais chances de nascer com a mesma característica. Mesmo assim, construir essa habilidade depende em grande parte de nossas experiências. A epigenética, ciência que estuda como o ambiente pode interferir em nossas características genéticas, afirma que herdar um aspecto do comportamento dos pais não é o suficiente para que ele se desenvolva. Se os genes nunca são acionados, é como se não existissem. Para os geneticamente distraídos, ainda há salvação. Com esforço, a atenção pode ser treinada e aprendida, mesmo se a genética não colaborar.
 
O foco nas pessoas (Foto: ÉPOCA)
A capacidade de concentrar-se em algo por vontade própria, ignorando distrações e controlando impulsos, surge aos 3 anos de idade e pode ter uma grande influência no sucesso profissional. Num estudo feito na Nova Zelândia, 1.037 crianças foram avaliadas para medir sua tolerância a frustração, impaciência, poder de concentração e persistência. Duas décadas depois, os pesquisadores voltaram a procurá-las para saber como estavam. Quanto melhor era a atenção e o autocontrole na infância, mais bem-sucedido e saudável era o adulto. O autocontrole se mostrou um fator mais importante para o sucesso do que o quociente de inteligência ou até mesmo a classe social da família de origem.

Por ser tão importante, a capacidade de concentração deve ser ensinada e estimulada desde os primeiros anos de vida. Algumas escolas já adotam programas de aprendizagem emocional e social. Nos Estados Unidos, uma análise comparou mais de 200 escolas que adotam programas de aprendizagem social e emocional com colégios do mesmo nível, mas sem esses programas. Os resultados: a bagunça e o mau comportamento eram 10% inferiores nas escolas que ensinam técnicas de atenção e controle de emoções. A assiduidade e outros comportamentos positivos são 10% maiores. E notas em testes são 11% mais altas.
Alguns exercícios usados nessas escolas são simples e eficazes e podem ser adotados em casa também. Numa escola em Nova York, os alunos são submetidos a um exercício de respiração uma vez ao dia. Todos deitam no chão e seguem as instruções de uma voz amistosa que os guia por exercícios de respiração abdominal profunda. “Isso ajuda o aluno a relaxar e a manter o foco. Quando não fazemos o exercício, a turma parece outra. Ficam muito mais agitados e é mais difícil controlá-los”, afirma uma das professoras do colégio, Emily Hoaldrige.

Nossas emoções são em boa parte controladas por nossa atenção. “É por isso que, quando um bebê chora, imediatamente mudamos o foco de sua atenção com um brinquedo ou outra coisa qualquer”, afirma Goleman. “Desviar a atenção do que o faz chorar é uma maneira de controlar essa emoção.” É por isso que os exercícios de respiração são eficientes. Eles nos acalmam e permitem que deixemos de pensar naquilo que nos incomoda. Quando nos concentramos em nossa respiração, automaticamente esvaziamos nossa mente dos problemas que nos causam sofrimento. Com a mente tranquila, crianças e adultos conseguem focar no que é preciso.

Parece contraditório, mas uma técnica fundamental para manter a concentração é saber mudar o foco na hora certa. Num estudo clássico realizado pelo psicólogo Walter Mischel na Universidade Stanford, na década de 1970, crianças de 4 anos foram colocadas sozinhas numa sala com um marshmallow. O pesquisador dava duas alternativas: comer o doce na hora ou esperar 15 minutos e ganhar duas guloseimas. De todas as crianças que participaram, apenas um terço conseguiu resistir à tentação de atacar o marshmallow. O resultado mostrou que as que conseguiram o feito usaram artimanhas para não prestar atenção ao doce, como cantar ou cobrir os olhos. As que ficaram com a atenção focada no marshmallow dificilmente conseguiram se controlar.

Nesse caso, mudar o foco ajudou as crianças a ter autocontrole. Conseguir mudar o foco quando nos convém é uma questão de treino e persistência. O importante é saber identificar situações em que essa estratégia pode nos ajudar. A tática usada intuitivamente pelas crianças é a mesma que precisamos colocar em prática para não sucumbir ao bolo de chocolate durante a dieta ou para resistir à tentação de parar o que estamos fazendo no trabalho e checar o que os amigos estão publicando nas redes sociais.

Essas técnicas usadas com crianças também servem para os adultos. Eles também podem tentar outras táticas. Uma delas é treinar a consciência de que a concentração foi perdida. Parece um exercício banal, mas muitos de nós só nos damos conta de que não estamos concentrados no que deveríamos depois de minutos ou horas de devaneio. Quanto mais tempo nossa mente divaga durante uma atividade que exige concentração, mais difícil é retornar ao que estava sendo feito. O exercício para combater a fuga de atenção é simples: assim que perceber que o foco foi perdido, traga-o de volta. Faça isso quantas vezes forem necessárias. A atenção equivale a um músculo mental que podemos fortalecer por meio de exercícios como esse. Quando mais se faz, mais forte o músculo fica.
 
O foco no mundo (Foto: ÉPOCA)
Outra maneira de treinar a atenção para vencer as distrações é se concentrar nas pequenas tarefas do dia a dia, que costumamos fazer no piloto automático. Quando for lavar a louça, por exemplo, fique atento em como a água cai sobre a sua mão, nos movimentos que faz com a esponja e na espuma que escorre pelo ralo. É uma maneira de treinar a atenção para o aqui e agora, evitando a divagação. Quando adotamos esse comportamento em momentos banais, sem pressão e sem grandes distrações, ele naturalmente se repete nas situações mais complexas, em que manter o foco teoricamente seria mais difícil – e mais recompensador.

No ambiente profissional, é importante ter em mente que é muito mais fácil ter concentração quando fazemos um trabalho que consideramos estimulante. Não é o que costuma acontecer. Pesquisas em empresas revelam que um grande número de pessoas se encontra num estado de atenção muito longe do ideal durante a jornada de trabalho. Um estudo conduzido pelas universidades Harvard, Stanford e Claremont constatou que na maior parte do tempo os profissionais estão estressados ou entediados. Apenas 20% das pessoas analisadas demonstraram momentos de satisfação plena no trabalho. O restante costuma passar tempo demais na internet ou pensando em outras coisas que não estão relacionadas às tarefas que precisam ser feitas.

As pessoas que gostam do que fazem sentem mais facilidade para manter a atenção. O ideal seria aproximar o trabalho de algo que proporcione prazer. Como nem sempre isso é possível, manter a motivação e encontrar um propósito para o que se faz pode ser uma saída para evitar o tédio e a consequente falta de atenção.

Outro ponto defendido por Goleman é que para manter a mente concentrada é preciso descalçá-la. Ou seja, para ter foco, é preciso perdê-lo por algum tempo, de vez em quando. Parece contraditório, mas exames cerebrais recentes revelaram que durante a divagação da mente duas regiões do cérebro se ativam. Com frequência, a nossa mente divaga para nossas preocupações e questões não resolvidas – coisas em que precisamos pensar mais. Embora a divagação da mente possa prejudicar nossa concentração imediata em alguma tarefa específica, ela funciona para resolver problemas importantes para nossa vida. Uma mente vagando permite que a criatividade flua. Além disso, existem outras funções positivas em deixar a mente divagar: autorreflexão, ponderação do que está sendo aprendido, organização das lembranças, ou a mera meditação sobre a vida. Mas os benefícios da falta de atenção não a tornam menos prejudicial. “Falta de foco nunca é bom”, afirma Renata Di Nizo, autora do livro Foco e criatividade. “Mesmo para desenvolver um trabalho criativo é preciso estar compenetrado.”

O segredo é saber quando a mente pode divagar. Durante um trabalho com prazo para ser cumprido ou enquanto um amigo desabafa sobre um problema pessoal, deixar a mente ir para onde quiser é uma péssima ideia. O ideal é deixar os momentos de divagação para as horas de relaxamento, como um passeio pelo parque ou o tempo que passamos assistindo a programas sem importância na televisão

Todas essas técnicas e exercícios ajudam a desenvolver a atenção concentrada. É por meio dela que alcançamos o autocontrole, a sensibilidade de ouvir o que os outros nos dizem e de nos colocarmos em seu lugar. Sem foco, não há trabalho, dieta ou relacionamento que vá para a frente. Se seguirmos o conselho de Goleman e concentrarmos nossas energias apenas em desenvolver nosso foco em 2014, é muito mais provável que consigamos manter a dieta, ir à academia e trabalhar melhor. Com a concentração afiada, nos restarão pouquíssimas promessas para 2015. 
-------------------
 REPORTAGEM POR NATÁLIA SPINACÉ
FONTE: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/01/como-nao-bperder-o-focob.html

Domenico De Masi: "O Brasil é o país dos sociólogos"

 BRASILIANISTA De Masi, em visita  a São Paulo, no  fim do ano passado.  Para ele, o modelo brasileiro é o melhor (Foto: Olga Lysloff/Folhapress)
 BRASILIANISTA
De Masi, em visita a São Paulo, no fim do ano passado. Para ele, o modelo brasileiro é o melhor 
(Foto: Olga Lysloff/Folhapress)

Num novo livro, o pensador italiano afirma que a humanidade precisa criar um novo modelo de vida que ofereça mais bem-estar – e que o Brasil pode inspirá-lo

Os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo – até no rolezinho dos adolescentes. Talvez seja uma característica do país. “Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropológos”, diz o italiano Domenico De Masi, de 75 anos. “Tanto que vocês elegeram um sociólogo para presidente.” De Masi, que também é sociólogo, é um profundo conhecedor do Brasil. Mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda. A admiração pelo Brasil está presente em seu novo livro, O futuro chegou – Modelos de vida para uma sociedade desorientada (Casa da Palavra, 768 páginas, R$ 68).

ÉPOCA – Entre os autores brasileiros que o senhor leu, qual deles mais o impressionou?
Domenico De Masi –
O Brasil tem a sorte de ter tido no passado e ter no presente intelectuais de alto nível, que projetaram a identidade e enalteceram os valores brasileiros, ganhando respeito em todo o mundo. Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropólogos. O Brasil é o único país do mundo que teve um grande sociólogo na Presidência da República – e por duas vezes. Por isso, e por seu imenso patrimônio cultural, espero que sejam os intelectuais brasileiros a guiar a elaboração de um modelo de desenvolvimento mundial necessário para vencer a desorientação de nossa sociedade e dar uma dimensão unificada e global para as diversas regiões da Terra. Li e me apaixonei pelo pensamento de muitos intelectuais brasileiros, mas dois deles me enriqueceram de modo particular: Darcy Ribeiro, que não tive tempo de conhecer, mas de quem li toda a imensa obra; e Oscar Niemeyer, com quem tive uma profunda amizade. Ambos deram uma contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro.

ÉPOCA – O senhor afirma que o Brasil é rico materialmente e rico de esperança, por isso tem algo a ensinar ao mundo. E as sociedades que eliminaram a miséria, como o Japão, o Canadá e os países escandinavos? Não seriam eles os melhores exemplos?
De Masi –
Japão, Canadá e os países escandinavos têm muito a ensinar nos aspectos econômicos e sociais para ajudar na construção do novo modelo que o mundo precisa. Mas não se vive só de pão e bem-estar não é sinônimo de consumo. A felicidade de um povo e a excelência de seu modelo de vida não dependem apenas da riqueza. Os japoneses têm um PIB per capita de US$ 46 mil, mas se suicidam com tamanha frequência que, em 2007, o governo japonês sentiu a necessidade de publicar um Livro Branco antissuicídio. O Butão tem um PIB per capita de apenas US$ 2.400. Mas adota o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), que contempla a qualidade do ar, a saúde dos cidadãos, o ecossistema, a educação, o desenvolvimento de comunidades locais e a riqueza das relações sociais. Com base no PIB, esse pequeno Estado é um dos mais pobres da Ásia. Se levarmos em conta o FIB, passa ao primeiro lugar no continente e oitavo no mundo.
ÉPOCA – Em que o Brasil pode contribuir?
De Masi –
O Brasil tem um PIB que o coloca na sexta posição no mundo (segundo dados de 2012 do Banco Mundial, o Brasil tem o sétimo PIB mundial), e, com seus US$ 12,6 mil de PIB per capita, pode se orgulhar de ter preciosos recursos econômicos, cada vez mais escassos no resto do mundo e cada vez menos desprezíveis na construção do novo modo de vida. Penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional. A todos esses elementos positivos já presentes, hoje devemos acrescentar dois: o aumento da consciência dos grandes desafios a ser enfrentados e superados dentro do país – corrupção, violência, desigualdade, deficits educacionais –, e a percepção, agora clara, de ser um país de ponta, diferente e positivo, capaz de propor, mesmo no exterior, com orgulho, sua própria maneira de ser.
"Quando o novo modelo surgir,
o brasileiro terá orgulho
de seus ancestrais índios"
ÉPOCA – Qual foi seu objetivo ao identificar 15 modelos de sociedade? Os modelos certamente nos ajudam a entender o passado. Compreendê-los ajuda a melhorar o futuro?
De Masi –
Cada socidade formou a base de um modelo existente. A Idade Média cristã foi estruturada na pregação de Cristo e na doutrina elaborada pelos padres da Igreja do Oriente e do Ocidente. A sociedade muçulmana nasceu e se desenvolveu seguindo o padrão ditado por Maomé e pelos califas que lhe sucederam. A sociedade dos Estados Unidos se fundou com base num modelo que gradualmente influenciaria todo o Ocidente e que se inspirou em ideias protestantes, iluministas e puritanas. O modelo liberal que triunfou no século XIX e que ainda afeta nossa economia e nossa política é derivado do pensamento de John Locke, Adam Smith, Alexis de Tocqueville e outros. A sociedade soviética tentou a construção do modelo concebido por Marx, Engels e Lenin. Nenhum modelo de vida passado ou presente é capaz de tornar felizes os homens que os adotaram. Mas temos o dever de abordar a plenitude da vida, melhorando os modelos que não nos satisfazem. Não estou convencido que o bem-estar econômico seja uma meta coletiva que deva ser encampada pelo Estado, enquanto a felicidade deva ser uma meta pessoal que cabe apenas ao indivíduo atingir. Creio, no entanto, que o indivíduo não possa se aproximar da felicidade plena se o contexto social em que ele vive é violento, injusto, anárquico, desnorteado, negativo, predatório. Assim, cabe ao Estado garantir as condições essenciais para todo cidadão cultivar a própria felicidade.

ÉPOCA – Entre os modelos em que o senhor dividiu a humanidade, alguns produzem muito mais pobreza. Outros produzem muito mais abundância. Isso já não indica uma clara superioridade de alguns modelos em relação a outros?
De Masi –
Os modelos japonês e protestante produziram mais riqueza, mas os modelos clássico e católico produziram mais humanismo. O modelo dos Estados Unidos produziu mais guerras que o do Brasil, que por sua vez é mais dinâmico e positivo que o modelo de italianos e franceses. Os modelos politeístas são menos intransigentes que os monoteístas. Todos os 15 modelos analisados apresentam qualidades e defeitos. Nenhum sozinho basta para orientar o homem pós-industrial, portador de necessidades inéditas em relação àquelas das gerações que o precederam.
ÉPOCA – O senhor sugere que a humanidade deveria abraçar um novo modelo. Mas não seria mais simples copiar ou melhorar o que já existe?
De Masi –
É necessário estabelecer o modelo capaz de assegurar a maior felicidade possível para a sociedade pós-industrial. Sem esse modelo, não sabemos qual meta buscar nem como aproveitar os recursos que nos permitam chegar lá. Uma vez elaborado o modelo ideal de futuro, caberá a cada comunidade melhorar o modelo defeituoso que adota atualmente, a fim de aproximá-lo do ideal. Cada modelo atual ou do passado, sendo o resultado de um longo projeto, uma longa reflexão e testes, tem algo bom que deve ser incorporado ao novo modelo. Até agora, um “poder forte”, como Roma, a Inglaterra ou os Estados Unidos, elaborava um modelo e todos os países colonizados eram obrigados a adotá-lo. Hoje, temos as condições tecnológicas e sociais que permitem a concepção do novo modelo, assim como ocorre com as informações nas redes sociais e na Wikipédia.

ÉPOCA – O senhor diz que o novo modelo incorporará valores dos antigos índios brasileiros. Como é essa ideia?
De Masi –
Na metade do século XIX, a cidade mais industrializada do mundo era Manchester (na Inglaterra), onde apenas 6% dos trabalhadores estavam empregados. Nas atuais fábricas pós-industriais, um terço dos trabalhadores desenvolve atividades criativas. Os outros dois terços estão engajados em atividades executivas do tipo física ou intelectual, destinadas a ser absorvidas por computadores e robôs. Num futuro bem próximo, como previu (o economista britânico John Maynard) Keynes no fim dos anos 1930, só haverá trabalho criativo, enquanto a maioria dos trabalhadores não terá de trabalhar mais que 15 horas por semana. Em grande parte do mundo, a relação entre tempo e vida será muito similar àquela dos índios, centrada em atividades rituais e estéticas. Quando o novo modo de vida for desenhado e incorporar também esses valores, os brasileiros ficarão orgulhosos dos ancestrais indígenas de que hoje se envergonham. E nada impedirá nossos netos de somar os benefícios do ócio criativo, do senso estético e da sabedoria indígena aos benefícios da ciência e da tecnologia pós-industrial. 
------------------
Reportagem por  MARCOS CORONATO
Fonte: http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/01/31

A nova face da riqueza global

MAIS JOVENS QUE NÓS Estudantes na Bolsa de Valores  da Indonésia.  O país asiático  terá força de trabalho crescente por décadas (Foto: Beawiharta Beawiharta/Reuters)

Os Brics saíram de moda, os Mints estão com tudo e o Brasil caiu para o “quinteto capenga”. Como chegamos a isso?

MARCOS CORONATO
 
Há 13 anos, o economista britânico Jim O’Neill criou a sigla Bric para designar Brasil, Rússia, Índia e China. O’Neill se aposentará do banco Goldman Sachs, mas continua um empolgado vendedor do potencial das nações em desenvolvimento. Bric soa como “tijolo” em inglês, e ele afirmava, no início dos anos 2000, que esses quatro grandes países seriam as novas peças fundamentais na construção e sustentação da economia global. Hoje, os Brics estão rachados. A Rússia se revela um regime hostil ao investidor estrangeiro e o Brasil cresce pouco. Para piorar, ganhou popularidade, em 2013, um outro apelido engraçadinho para tentar agrupar países em desenvolvimento cheios de diferenças entre si. Novamente, o grupo inclui o Brasil – mas, desta vez, o rótulo não tem nada de elogioso.

Aos olhos de alguns investidores, estamos entre os Fragile Five, os Cinco Frágeis – que, por respeito à sonoridade original, chamaremos aqui de Quinteto Capenga. Formam o quinteto Brasil, África do Sul, Índia, Indonésia e Turquia. A fragilidade vista neles por especialistas é a vulnerabilidade a uma eventual fuga de dólares para outras paragens, mais especificamente os Estados Unidos (analistas mais assustados já incluem na lista Chile, Hungria e Polônia – o grupo viraria Edgy Eight, os Oito na Beirada). O apelido do quinteto original foi apresentado ao mundo pelo banco americano Morgan Stanley, num relatório em agosto. O banco convida o investidor a apostar na queda das moedas desses cinco países, que enfrentam “alta inflação, grandes saldos negativos em transações internacionais, perspectiva desafiadora de ingresso de capitais e crescimento fraco”. O’Neill, sempre um defensor dos Brics, questiona essa tese. “É interessante, mas não tem muito sentido. É esperado que economias emergentes tenham esse deficit”, afirmou a ÉPOCA. “Eu só me preocuparia com África do Sul e Turquia. Nos outros três (incluindo o Brasil), os deficits são fáceis de financiar se os países tiverem crescimento forte ou políticas melhores.” Mesmo assim, o apelido pegou.

Não se pode negar que o saldo negativo do Brasil nas transações internacionais (no jargão técnico, deficit em conta-corrente) cresceu bastante de 2012 para 2013. O avanço foi de 2% do PIB para 3,6%, um nível superior ao da maioria das nações em desenvolvimento. Mas pode-se questionar, a esta altura, a pertinência das siglas que tentam agrupar países distintos por causa de alguns traços comuns. 

O ajuntamento de países em desenvolvimento sob apelidos engraçadinhos não precisa seguir nenhum critério rígido ou com pretensões acadêmicas. Indonésia e Turquia, que aparecem entre os cinco capengas ao lado do Brasil, também formam os Mints, grupo considerado promissor, composto de México, Indonésia, Nigéria e Turquia (voltaremos a eles adiante). Nos últimos anos, além dos Brics, campeões de popularidade, entraram no debate econômico os Civets, ou Colômbia, Indonésia, Vietnã, Egito, Turquia e África do Sul (civeta, em português, é um pequeno mamífero famoso por encarecer grãos de café, ao ingeri-los e defecá-los semidigeridos). Foi uma contribuição da seriíssima Economist Intelligence Unit para o mundo das siglas engraçadinhas. O’Neill, inventor do Bric, difundiu também os Next-11, para designar outros 11 países promissores. Os quatro maiores entre eles – México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia – logo ganharam um apelido à parte, o ruim de pronunciar Mikt ou a versão mais fácil, Mist (“neblina”, na tradução do inglês. Ou “estrume”, em alemão). O’Neill, hoje, prefere tirar a Coreia do Sul dessa conversa, já que o país disparou à frente dos outros e é praticamente um país desenvolvido. Depois da moda dos Brics, o Brasil também foi elogiado ao ser incluído pelo banco Barclays Capital entre os AEM, mercados emergentes avançados. Foi a melhor sigla em que já entramos: o grupo inclui países bacanas, desenvolvidos ou quase lá, como Israel, Taiwan, Cingapura e Chile, todos com instituições mais maduras e confiáveis do que a média dos países subdesenvolvidos. Nem os países europeus escaparam da onda de apelidos. Antes e durante a crise, aqueles que pareciam oferecer mais risco de dar calote (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) foram juntados na agressiva sigla Piigs, que soa como “porcos” em inglês, ou na preconceituosa Gipsi, que soa como “ciganos”. No fim, as preocupações com as contas desses países eram pertinentes, a despeito do mau gosto dos acrônimos.

Como se vê, a proliferação de siglas, se não chega a ser uma ciência exata, tampouco é desprovida de sentido. Cada tentativa de agrupar nações atendendo a um ou outro critério nos ensina algo sobre como os investidores, emprestadores e os especialistas do mercado financeiro, especialmente nos países ricos, enxergam o resto do mundo. Para o Brasil, que depende de capital externo, essas interpretações sempre importaram muito. Neste momento, elas ganham importância ainda maior.

Após a crise econômica global que chegou ao auge em 2008, o Brasil desfrutou um período de tranquilidade na disputa planetária por capital. As oportunidades mundo afora tornaram-se raras, enquanto outros países tentavam sair dos escombros da devastação econômica. Nesse cenário de terremoto pós-crise, o Brasil seguiu oferecendo uma combinação fortíssima de oportunidades de negócio e taxas de juro altas para premiar o investidor. Como resultado, atraiu montanhas de dinheiro. Vieram a nós US$ 76 bilhões em investimento em 2012 e algo por volta de US$ 60 bilhões em 2013. No mundo, só China e Estados Unidos superam esses volumes. Só se aproximam desses níveis algumas outras poucas economias privilegiadas, como Austrália e Cingapura. Os outros países em desenvolvimento ficaram muito para trás. Esse cenário, porém, mudou.

A Europa parou de afundar. O Japão voltou a crescer. Os EUA voltaram a crescer e reduziram o ritmo de injeção de dólares na economia (o que barateava a moeda americana e valorizava as outras, incluindo o real). Voltam a surgir, nos EUA, oportunidades de negócios e a possibilidade futura de aumento de juros – eles foram zerados durante a crise, mas serão necessários, em algum momento futuro, para manobrar a inflação e incentivar a poupança. Mesmo alguns dos países europeus mais abalados pela crise, como Irlanda e Portugal, voltaram, em 2013, a atrair emprestadores.

Diante dessas novidades, o capital internacional já começou a mudar a rota que vinha seguindo nos últimos anos – e a mudança pode atrapalhar muito o Brasil. Um real fraco é bom para os exportadores, mas encarece o que o brasileiro compra e estimula a inflação. Por esses e outros motivos, não custa observar com algum carinho o que vem ocorrendo nos países reunidos sob o apelido de Mint.
CHINA NA ÁFRICA Uma usina de gás natural perto de um bairro pobre em Finima,  Nigéria. O país  vem superando expectativas (Foto: Akintunde Akinleye/Reuters)

Pode-se dizer que Mint (“menta”, na tradução do inglês) é o novo sabor oferecido aos investidores internacionais. A sigla virou moda nos círculos financeiros em 2013. Trata-se de quatro países com populações grandes, número ascendente de adultos pelas próximas duas décadas, localização geográfica estratégica e a doce possibilidade de crescer por vários anos em ritmo forte e regular. Tal é a situação de México, Indonésia, Nigéria e Turquia. Juntos, os quatro têm mais de 600 milhões de habitantes. Oferecem oportunidades reais de prosperidade a seus habitantes e aos estrangeiros dispostos a investir neles. Todos competem com o Brasil por influência política global e pela atenção dos investidores. Mas não sejamos mesquinhos – afinal, a economia internacional não é um jogo de soma zero. O sucesso econômico dos Mints terá boas consequências de ordem variada, como a redução da pobreza global, maior estabilidade política para suas regiões e até mais oportunidades de negócios e trabalho para brasileiros.

A sigla foi usada de formas diferentes em 2010 e 2011 pela fabricante de eletrônicos Panasonic e pela empresa de gestão de recursos Fidelity, ambas referindo-se ao potencial dos quatro mercados. Mas só se tornou pop no ano passado, ao ser usada por Jim O’Neill O economista afirma que os Brics, especialmente a China, continuam oferecendo as maiores oportunidades de investimento do mundo. Só que seu crescimento tende a desacelerar, em parte pelo envelhecimento de suas populações. “Os Mints contam com uma demografia fantástica”, afirma O’Neill. “Eles têm não apenas muita gente, mas também força de trabalho jovem e crescendo fortemente. Entre os Brics, só a Índia tem essa vantagem.”

Devemos receber com elegância o fato de estarmos nos tornando um país mais velho e aprender a jogar o jogo das expectativas. O Brasil receber um carimbo depreciativo e a Nigéria, muito mais pobre, um rótulo auspicioso não significa que um país seja melhor que o outro. Significa que a Nigéria vem superando as expectativas que se tinha dela, fossem altas ou baixas. Nos últimos anos, vários países em desenvolvimento, como México e Chile, colheram os bons resultados por ter feito reformas importantes e avançado. O Brasil precisa voltar a criar altas expectativas e mostrar disposição para cumpri-las. 
---------
Fonte:http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2014/01/nova-face-da-briqueza-globalb.html
Os que prometem e os que assustam (Foto: ÉPOCA)
 

Por que Cuba é pobre

Diogo Costa*


Uma dica: não é por causa do bloqueio americano

Como escreve João Pereira Coutinho: “O embargo americano existe, sem dúvida, e deve ser condenado pelo seu óbvio anacronismo [...]. Mas é preciso acrescentar a segunda parte da frase: só existe o embargo americano. Que o mesmo é dizer: todo mundo que é mundo mantém relações com Cuba e nem assim a ilha se converteu numa espécie de Suécia do Caribe”.

Antes de 1959, o problema de Cuba era a presença de relações econômicas com os Estados Unidos. Depois o problema se tornou a ausência de relações econômicas com os Estados Unidos.

O embargo americano é obsceno, mas não é a raiz da pobreza cubana. De fato, como indica Coutinho, os cubanos podem comprar produtos americanos pelo México. Podem comprar carros do Japão, eletrodomésticos da Alemanha, brinquedos da China ou até cosméticos do Brasil.

Por que não compram? Porque não têm com o que comprar. Não é um problema contábil ou monetário — o governo cubano emite moeda sem lastro nem vergonha. O que falta é oferta. Cuba oferece poucas coisas de valor para o resto do mundo. Cuba é pobre porque o trabalho dos cubanos não é produtivo.

A má notícia para os comunistas é que produtividade é coisa de empresário capitalista. Literalmente. É o capital que deixa o trabalho mais produtivo. E é pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho.

É pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho 
 
Mesmo quando o governo cubano permite um pouco de empreendedorismo, ele restringe a entrada de capital. Desde que assumiu o poder em 2007, Raúl Castro já fez a concessão de quase 170.000 lotes de terra não cultivada para agricultores privados. Só que faltam ferramentas e máquinas para trabalhar a terra. A importação de bens de capital é restrita pelo governo. Faltam caminhões para transportar alimentos. Os poucos que existem estão velhos e passam grande parte do tempo sendo consertados. Em 2009, centenas de toneladas de tomate apodreceram por falta de transporte.

Campanhas internacionais contra a pobreza global se esquecem dos cubanos. Parece que o uniforme dos irmãos Castro tem o poder de camuflar a pobreza em meio a discursos de conquista social. Dizem que Cuba tem medicina e educação de ponta. Ainda que fosse verdade, isso seria bom apenas para o pesquisador de ponta. E triste para o resto da população que vive longe da ponta, sem acesso a informação aberta ou aos medicamentos mais básicos, como analgésicos e antitérmicos. É como na saudosa União Soviética. A engenharia era de ponta. Colocava gente no espaço e tanques na avenida. Só não era capaz de colocar carro nas garagens nem máquina de lavar nas casas.

Cuba vai enriquecer quando a sua população se tornar mais produtiva para trabalhar e mais livre para empreender. Ou seja, quando houver capitalismo para os cubanos.
-------------------------------
Fonte: Instituto Mises Brasil
*  É bacharel em Direito pela Universidade Católica de Petrópolis, mestre em Ciência Política pela Universidade de Columbia e editor do site “OrdemLivre.org”. Foi um dos vencedores do primeiro prêmio Donald Stewart Jr. apresentado pelo Instituto Liberal por seu ensaio sobre Ludwig von Mises. Estagiou no Centro para Liberdade e Prosperidade Global no Cato Institute. Já escreveu para diversos jornais impressos, como “O Globo”, “O Dia”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal do Commercio”, “Digesto Econômico”, “Buenos Aires Herald” (Argentina), “El Diario Exterior” (Espanha), “Mmegi” (Botswana), e “The Panama News” (Panamá). 
Fonte: http://www.imil.org.br/artigos/por-cuba-pobre/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+org%2Fhetj+%28Instituto+Millenium%29

O Graal de Tarso Genro

Demétrio Magnoli*
 


Democracia é o regime no qual governantes não podem tudo --e aí está o problema do Brasil, na opinião dele
 
O Santo Graal dos comunistas foi a URSS e seu sistema de "repúblicas populares". As insurreições na Hungria (1956), na Tchecoslováquia (1968) e na Polônia (1980) secaram o poço do encantamento. A queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS quebraram o cálice sagrado. No último quarto de século, desorientados, os filhos do "socialismo real" empreendem a busca por um novo Graal. Como tantos outros, Tarso Genro encontrou-o na China (em "Uma perspectiva de esquerda para o Quinto Lugar", artigo escrito numa língua estranha, longinquamente aparentada com o português). As suas elucubrações teóricas não têm interesse intelectual, mas merecem um exame político. 

O governador do Rio Grande do Sul enxerga na experiência recente da China uma inspiração para a marcha do Brasil rumo ao estatuto de potência mundial. O que a China tem de especial? Um "sujeito político (Partido-Estado)" que "cria o mercado e suas relações", num processo em que "estas relações novas recriam o sujeito (Partido-Estado), que será permanentemente outro". É isso, explica-nos, que falta ao Brasil: um ente de poder capaz de reinventar a sociedade e guiar o povo até o futuro. 

Décadas atrás, um tanto tristonhos, incontáveis socialistas deploravam o poder totalitário do Partido Comunista da URSS, mas o justificavam como um mal necessário pois, no fim das contas, aquele era o motor político da economia socialista. Genro, pelo contrário, não apela ao socialismo (uma "fantasia histórica") para justificar o poder absoluto do Partido-Estado: basta-lhe um horizonte "chinês" de crescimento econômico e progresso social. E a democracia? A China triunfa graças a um "regime político não democrático para os nossos olhos", ensina o líder petista, reproduzindo os argumentos oficiais do Partido Comunista Chinês, que justifica a tirania pela invocação ritual da cultura e da tradição. 

A democracia é o regime no qual os governantes não podem tudo --e aí está o problema do Brasil, na opinião de Genro. Na sua descrição, o "mercado" malvado sabota a redução dos juros, a abominável "grande imprensa" bloqueia o aumento do IPTU e os demoníacos "cronistas no neoliberalismo abrigados na grande mídia" manipulam a opinião pública. A expressão política de opiniões conflitantes e interesses divergentes que nos acostumamos a chamar de democracia representa, aos olhos de Genro, uma intolerável balbúrdia. É preciso, para libertar a "utopia concreta presa com âncoras pesadas no fundo real da sociedade capitalista", instaurar uma ordem nova na qual o sujeito da História (o "Partido-Estado") possa conduzir a nação até o futuro redentor. 

O "levantar âncoras", propõe Genro, encontra-se na convocação de "uma nova Assembleia Nacional Constituinte no bojo de um amplo movimento político inspirado pelas jornadas de junho", mas "com partidos à frente". Esqueça, por um momento, que as "jornadas de junho" não seriam as "jornadas de junho" se tivessem "partidos à frente". Nosso pequeno, mas esperançoso, pretendente a Duce sonha com uma "marcha sobre Brasília" liderada pelo partido que exerce o poder. 

"Penso que as esquerdas no país devem abordar programaticamente estas novas exigências para o futuro, já neste processo eleitoral". Genro sabe perfeitamente que sua "utopia concreta" terá impacto nulo sobre a campanha de Dilma, que continuará focada em firmar alianças com o PMDB, o PP e o PSD, renovar os compromissos com as altas finanças e reforçar a parceria com os "movimentos sociais" estatizados. O vinho de seu cálice sagrado destina-se, exclusivamente, ao consumo interno do PT e de sua área de influência militante: é um antídoto ideológico contra as imprecações lançadas por correntes esquerdistas inquietas com o "giro à direita" do lulismo. Mas serve, ainda, para iluminar o lado escuro da alma do partido que nos governa. 
----------------------
* Jornalista. Escritor. Colunista da Folha
Fonte: Folha online, 01/02/2014
Imagem da Internet

Conheça o homem mais feliz do mundo

Folha Social


Por muitos apelidado de “o homem mais feliz do mundo”, Matthieu Ricard (foto) brindou a comunidade com a sua palestra sobre os Hábitos da Felicidade numa TEDtalk de grande importância para todos os que acreditam que é importante ser feliz.

Era para ser cientista mas acabou monge budista. Filho do filósofo Jean-François Revel e da pintora Yahne Le Toumelin, o francês Matthieu Ricard, 65 anos, cresceu no meio intelectual de Paris e doutorou-se em genética molecular. Aos 38 anos abandonou a carreira para ir viver nos Himalaias e tornar-se monge budista, mas o interesse pela ciência permaneceu.

Desde 2000 que ele é membro do Mind and Life Institute, que promove o diálogo e a investigação entre cientistas e budistas, e participa em estudos sobre a consciência e o treino da mente com investigadores de vanguarda. Numa das mais recentes, os cientistas ligaram 256 sensores ao seu cérebro enquanto meditava e as imagens mostraram o mais alto nível de atividade alguma vez registado no córtex pré-frontal esquerdo, associado às emoções positivas. A escala variava entre +0.3 a -0.3 (beatífico) e os resultados de Matthieu Ricard situaram-se fora da escala por mais de -0.45. Foi a primeira vez no mundo que isto aconteceu.

É conhecido por ser o homem mais feliz do mundo. Porquê?
Receio que isso não seja culpa minha. Um jornalista lembrou-se de usar essa expressão, mas não corresponde à verdade. Surgiu no contexto das investigações científicas sobre os efeitos da meditação feitas pelo Instituto Mind and Life Institute, nos EUA. Fui um dos participantes, mas houve outros e, de resto, os resultados são relevantes precisamente porque não se resumem a uma pessoa.

Em que consistiram essas experiências?
Basicamente no estudo do cérebro de monges experientes em meditação. Pegamos num conjunto de pessoas que nunca tinham meditado e ensinamos-lhes técnicas de meditação budista, que praticaram por um mês. Depois usamos eletroencefalogramas e ressonâncias magnéticas para comparar a atividade do cérebro dos monges e dos meditadores recentes durante a meditação. Nos recentes havia poucas diferenças, mas nos monges a meditação sobre a compaixão ativou de forma poderosa o lobo frontal esquerdo, que é a zona do cérebro associada às emoções positivas.

Quais são as implicações dessas experiências?
Mostram que é possível modificar padrões cerebrais – aquilo a que se chama neuroplasticidade – neste caso com o objetivo de sermos mais felizes. Já sabíamos que o treino modificava o cérebro em músicos ou nos taxistas londrinos obrigados a memorizar milhares de ruas. Agora sabemos que pode desenvolver zonas associadas à felicidade e ao bem-estar.

Podemos treinar a felicidade, é isso?
Sim. A felicidade é uma habilidade e pode ser cultivada. Eu não caí em nenhuma poção mágica quando era pequeno. O que conquistei foi graças a um caminho – o Budismo – que me permitiu aprender estas técnicas. Fui um adolescente perfeitamente normal, com todas as incertezas e angústias da idade. Não tive grandes dramas, mas estava confuso e, nesse sentido, não me considerava feliz. Na altura, a minha motivação era tornar-me um ser humano melhor.

Não encontrou respostas nas tradições ocidentais?
Não digo que não existam mas não as encontrei de forma satisfatória. Uma das razões foi porque as pessoas que via a ensinar não me transmitiam a coerência que vim a encontrar no Oriente. Não é que fossem más pessoas, mas não eram especialmente boas, por isso tornar-me iguais a elas não fazia sentido. Quando conheci o Dalai lama foi diferente. Pensei ‘Como é que ele se tornou assim?’. Aquilo interessou-me, porque ele era um exemplo vivo de que os ensinamentos budistas funcionavam.

O que é que temos de aprender exatamente?
A felicidade é uma forma de ser. Se não somos particularmente felizes temos de aprender a cultivar essa forma de ser. Tudo começa por eliminar as toxinas mentais, como o ódio, a obsessão, o ciúme, a arrogância, o orgulho o desejo, enfim, tudo o que nos torna seres disfuncionais, e cultivar as qualidades positivas que integram a felicidade, como o altruísmo, o amor, a compaixão ou a criatividade. Isto faz-se trabalhando a mente. Aos poucos alguns desses venenos mais grosseiros começam a esbater-se e o resultado é uma espécie de liberdade grande ou felicidade.

Esses sentimentos não são o que nos torna humanos?
A questão não é negá-los. Quando falamos de emoções positivas ou negativas não é no sentido de virtudes ou defeitos, não há aqui julgamento moral. É no sentido de que cada uma destas qualidades contribui para um sentimento de florescimento e bem-estar. Uma emoção é má se nos provoca sofrimento.

Hoje em dia nunca sente emoções negativas?
Seria arrogante dizer isso, mas posso dizer que não sinto as mais negativas como ódio. Irritação sim. Mas sinto-as com muito menos intensidade e assim que surgem estou completamente consciente delas e possuo uma serie de métodos para lidar com isso. Não as nego. Por exemplo, quando vim para aqui atrasei-me devido ao trânsito e fiquei com receio de perder o comboio, o que iria deixar várias pessoas à minha espera…

O que podemos fazer em situações dessas?
Primeiro, perceber que a ansiedade é inútil. No meu caso, não me ia deixar menos atrasado. Depois, perceber que se deixar a ansiedade encher a minha mente vou ficar num estado miserável. Uma das principais qualidades da mente é a capacidade de permanecer consciente de si mesma. Isso permite-nos tomar consciência das nossas emoções. O que é isso de estar consciente da ansiedade? É algo diferente de estar ansioso, certo? Uma mente consciente da ansiedade já não é uma mente completamente ansiosa, está ansiosa e ao mesmo tempo consciente da ansiedade, logo, já não está completamente cheia de ansiedade, há uma parte dela livre disso. Se continuarmos a a tornar a mente mais consciente, a ansiedade vai perdendo força porque deixamos de alimentá-la. Não a bloqueámos, deixámos só que se desvanecesse. Quando ficamos familiarizados com este processo, as emoções continuam a aparecer mas com menos força e gradualmente levaremos cada vez menos tempo a dissolve-las.

Cultiva-se uma espécie de desapego em relação às emoções más?
Às más e às boas. Mas é preciso ter atenção: as pessoas confundem o desapego com a indiferença e acham que se trata de não ter sentimentos, não é isso. Suponha que tem uma experiência fantástica. Isso é ótimo, não há nada de errado com o prazer, mas se começamos a agarrar-nos a ele e a transformá-lo numa necessidade, converte-se num tormento. O que acontece quando temos condições interiores para o bem-estar, é que ganhos e perdas, prazer e dor, sucessos e falhanços perdem relevância. Então, é fantástico se as coisas correm bem, mas não é um drama se correrem mal. O nosso controlo das circunstâncias exteriores é mínimo e no fim estamos sempre à mercê das nossas mentes.

Vive num mosteiro no Nepal. Trabalhar das 9 às 5 num escritório é mais ou menos desafiante?
Claro que podem dizer que é mais fácil sendo monge, mas eu trabalho sete dias por semana no mosteiro. Gosto do que faço, não sei o que significa férias e ninguém me paga. Quando vou para a minha cela o meu trabalho é meditar, não é um emprego, mas é a minha ocupação.

Fez uma mudança de vida radical…
Foi uma escolha. Antes de ser monge fazia investigação científica e gostava mas fui à Índia, senti-me melhor do que nunca e perguntei-me ‘Onde quero passar o resto da vida?’. Se estamos a fazer o que queremos está tudo bem. Hoje vivo numa cela de 2,5x por 2x9m, com uma vista fantástica sobre os Himalaias. Não tenho água quente, só uma malga e duas colheres, não sinto falta de nada. Consigo apreciar quando estou numa casa confortável, mas se não estiver também estou bem. Vivi 10 anos no Butão. O meu professor ensinava a rainha-mãe e um dia ela insistiu para ir no carro dela, um carro fantástico. Então lá ia eu de carro com a rainha-mae do Butão. No dia seguinte o meu professor mandou-me de volta ao mosteiro e tive de ir nas traseiras de um camião. Eram circunstâncias diferentes mas eu não sentia ‘Uau vou num Mercedes’ num dia para me sentir infeliz por ter de ir num camião no outro. Era divertido.

Há condicionamentos biológicos para a infelicidade?
Há predisposições que, numa pequena percentagem, podem ser genéticas, mas a epigenética ensina que os genes podem ser expressos ou não, ou seja, o facto de haver um master plan, o genoma, não significa que ele seja executado. É como ter um projeto de uma casa. Quando a construímos podemos fazer alterações. Também temos de contar com o ambiente: se crescemos sem amor, com abusos, é dramático porque somos logo forçados ao sofrimento. Mas ainda assim chega um tempo em que podemos lidar com isso. Existe sempre um potencial para a mudança.

Nas pessoas habituadas a ser infelizes esse desafio é maior?
O essencial é perceber que é sempre possível cultivar condições que nos ajudem a ser melhores. Quando estive a estudar na Universidade de Montreal havia um professor que costumava correr quando era novo. Começou a treinar novamente e o ano passado participou na maratona. A ciência demonstrou que a neuroplasticidade cerebral – a capacidade de mudar a estrutura do cérebro – é independente da idade. As pessoas mais velhas são perfeitamente capazes de mudar os seus cérebros com o treino. No Tibete há imensas histórias de pessoas que começaram a meditar aos 80 anos com ótimos resultados.

Porque resistimos à mudança?
É um grande mistério. Acho que temos um tipo de hesitação em olhar para dentro. Conheci gente nova que me disse ‘Não quero olhar para dentro, tenho medo do que vou encontrar’. É surpreendente. Não sei o que é que têm medo, mas contei isto ao Dalai Lama e ele disse ‘Há tantas coisas interessantes lá dentro. É melhor do que ir ao cinema!’. Há um fator determinante: a inspiração. Se temos uma razão para mudar é mais fácil. Pelo contrário, o maior perigo é desistir. Por um lado, as pessoas pensam sempre que podiam estar pior, por outro admitem que há coisas que gostavam de alterar mas acham que não é possível porque já são assim há muito tempo ou é muito difícil. Por isso é que a primeira coisa a fazer é reconhecer o potencial de mudar. Porque a verdade é que qualquer treino tem sempre um efeito. Sempre. Há um bocadinho de inércia, esse é o principal obstáculo. Depois precisamos de algum interesse, e este só aparece se virmos um benefício. No meu caso, foi conhecer um professor especial, porque vi os resultados do treino à minha frente, não tive de acreditar porque alguém me disse.

Como reverter o paradigma do ‘não sou capaz de mudar’?
Primeiro temos que refletir nos aspetos que nos mostram que é possível mudar. Dizemos que a raiva ou inveja são parte da natureza humana. Mas há muitas maneiras de ‘fazer parte’. Se algo faz parte da natureza intrínseca de outra coisa é impossível alterar isso. Mas se não fizer parte intrínseca posso fazer alterações. Por exemplo, em essência a água é H2O. Se lhe adicionar plantas fica medicinal, se juntar cianeto torna-se mortal, mas continua a ser H2O, o que lhe acrescentei não faz parte da sua essência e posso removê-lo. Há algo parecido na mente. As emoções negativas são como o cianeto e as positivas como as plantas medicinais, mas existe uma qualidade da mente independente disso que se chama Consciência Essencial ou Luz Clara da Mente. Esta qualidade essencial é o que nos permite ter consciência das nossas emoções.

 "Há um estudo de Michael T. Kasser que mediu os níveis de consumismo de centenas de pessoas por 20 anos 
e concluiu que quanto mais alto menos felizes somos. 
Não se trata de um julgamento moral 
mas de uma constatação."

Temos de encher a mente de ‘emoções medicinais’?
Sim. Por exemplo, se a raiva é o meu principal problema, qual é o oposto da raiva? Benevolência. Se eu cultivar a benevolência, enchendo a minha mente com este sentimento, talvez ele se torne mais forte e neutralize a raiva, porque os dois são mutuamente incompatíveis.

Não é possível ter emoções ambivalentes?
Não, o que chamamos emoções ambivalentes são de facto emoções contraditórias, mas não ocorrem ao mesmo tempo embora a oscilação possa ser muito rápida. Sempre que sentimos, nem que seja por um segundo, amor e simpatia, não podemos querer fazer mal. O que há a fazer, é aumentar o tempo em que nos concentramos nas emoções positivas e isso é uma questão de treino.

A meditação tem efeitos sobre o sofrimento físico?
Há um filósofo suíço chamado Alexandre Jollien que fala disso. É uma pessoa fantástica, fabuloso filósofo, mas incapacitado fisicamente. Hoje é um orador inspirador mas conta que todos os dias nos transportes alguém o ridiculariza. Não é fácil, ele odeia o seu corpo de certa maneira, apesar de ter ganho paz acerca disso. Nos problemas mentais pode ser mais difícil, mas a depressão é um campo onde a meditação pode ser muito poderosa. Há muitos estudos sobre isso. Obviamente é difícil começar a meditar quando se está no pico de uma depressão porque não se tem vontade, mas nas pessoas que já tiveram pelo menos dois episódios e estão realmente fartas daquilo os programas de meditação baseada na atenção plena reduziram em 40% o risco de recaída.

Se deixamos de meditar os efeitos perduram?
Perduram porque mudaram a nossa maneira de Ser. É como andar de bicicleta. Sempre que dominamos uma nova capacidade ela fica adquirida, ainda que o treino melhore o desempenho. Para aprender a andar de bicicleta tivemos de alterar circuitos neuronais, o mesmo acontece quando meditamos. No fundo, meditar é aprender uma forma diferente de experienciar o mundo. Quando estou a trabalhar não estou a meditar, mas em quase todos os momentos uso capacidades que adquiri na meditação e assim continuo a reforçá-las. Fazendo isso a vida torna-se parte da meditação.

Muitos começam a meditar e desistem. A felicidade dá trabalho?
Sim, mas é um esforço gratificante. A meditação inicialmente pode não ser divertida. Há uma expressão de tibetana que diz “No início nada vem, no meio nada fica, no fim nada vai embora”, ou seja, no início não vemos os benefícios, é quando podemos desistir; no meio vemos alguns, mas depois deixamos de ver outra vez; no fim atingimos o objetivo e nunca mais o perdemos. O tempo destas fases varia de pessoas para pessoa, mas só o facto de começar a meditar já é raro nos dias que correm.

A felicidade faz parte da natureza humana ou foi uma conquista evolutiva?
Pessoas infelizes têm menos iniciativa e até menos interesse em reproduzir-se pelo que em termos evolutivos ser infeliz não é uma vantagem para a espécie. É um facto que em termos gerais, as pessoas dizem que, apesar de tudo, estão mais satisfeitas do que não satisfeitas com a sua vida. Não estamos sempre deprimidos porque isso não seria bom para a espécie. É o que dizem os evolucionistas.

Essa satisfação mediana não é o conceito de felicidade budista…
O meu conceito de felicidade não se limita a uma satisfação mediana nem se confunde com o conceito de prazer. O prazer depende das circunstâncias, pode contribuir para a felicidade ou ir contra ela. Adoro música clássica, mas ouvir 48 horas de chopin non stop é um pesadelo. Também podemos sentir prazer a torturar pessoas. A felicidade é quase o oposto. É algo que está ali, independentemente do sofrimento ou dos prazeres passageiros. Quanto mais nos confrontamos com os altos e baixos da vida, mais a reforçamos porque ficamos menos vulneráveis às circunstâncias exteriores.

Podemos ser felizes sabendo que outros sofrem?
A tristeza é incompatível com o prazer mas não com a felicidade. Podemos estar tristes sabendo que há pessoas a morrer à fome mas não temos de estar desesperados e podemos ficar determinados a ajudar. Neste sentido a determinação em fazer algo para acabar com o sofrimento faz parte da minha felicidade.

E é possível ser feliz quando somos vítimas de violência?
Para a felicidade é muito pior fazer mal aos outros do que nos fazerem mal a nós. Não quer dizer que temos de ser passivos se nos agredirem, mas se não pudermos evitar só temos de lidar com isso. No fundo, felicidade é usar todas as circunstâncias de forma construtiva.

Então ser infeliz é uma escolha?
É uma escolha a longo prazo, não agora. Se algo mau acontece e não estamos treinados para lidar com isso, não temos escolha senão ficar angustiados. Podemos, a longo prazo, aprender a lidar com isso. Não temos que nos sentir cupados. A escolha que temos é começar um processo de mudança.

Vivemos em sociedades que nos fazem infelizes?
Há um estudo de Michael T. Kasser que mediu os níveis de consumismo de centenas de pessoas por 20 anos e concluiu que quanto mais alto menos felizes somos. Não se trata de um julgamento moral mas de uma constatação. A mentalidade consumista leva à procura dos prazeres imediatos, o que não traz felicidade. Atualmente os miúdos de dois anos já são inundados de anúncios. Isto é eticamente errado e um começo tortuoso para a felicidade.

Uma cultura de meditação pode criar gerações mais felizes?
Pessoas com mentes treinadas poderão fazer nascer crianças mais propensas a serem felizes. A cultura e a educação têm uma influência determinante na forma como o cérebro se começa a moldar.

Um budista tem mais probabilidade de ser feliz do que um cristão ou ateu?
Se aplicarmos os valores do amor e da compaixão chegamos ao mesmo sítio. São Francisco de Assis encarna todos os princípios budistas. O Dalai Lama disse uma vez que no budismo não achamos que exista um criador mas quem acredita tem de amar os outros, que são também produtos de Deus. Quando foi a Montserrat, na Catalunha, ver um eremita numa gruta, perguntou-lhe ‘Sobre o que tem estado a meditar na sua vida toda?’. Ele respondeu ‘No Amor’. E emanava tanto amor que o Dalai Lama ficou realmente inspirado. No fundo não há assim tanta diferença.
-------------------------------
* Portugal Mundial com TEDtalk e www.matthieuricard.org
(Folha Social)

Não o Sonho

 Manuel António Pina*

 Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"
* Jornalista e escritor português.

Ateu em Wall Street, crente entre os últimos

Foto
 Chris Arnade
Os média amplificaram a voz daqueles que nos Estados Unidos levaram a mal os excertos da exortação "A alegria do Evangelho" em que o papa critica a teoria da «recaída favorável», pela qual  «todo o crescimento económico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclusão social no mundo», e na qual denuncia a «cultura do bem-estar» que nos anestesia, que nos torna incapazes de experimentar a compaixão diante do grito de dor dos outros. Mas há quem, vindo do coração do capitalismo, Wall Street, tenha encontrado estas e outras palavras de Bergoglio acertadíssimas.

Chris Arnade, depois de um doutoramento em física na Universidade John Hopkins, trabalhou durante 20 anos como comprador e vendedor de aplicações financeiras para a Salomon Brothers, a banca de investimento que mais tarde foi integrada no colosso Citigroup. Em 2012 decidiu deixar o mundo da finança, uma carreira com salários de seis algarismos, exaurido a nível existencial e cansado de um mundo que deixou de sentir como seu. Permaneceu em Nova Iorque mas mudou de atividade, dedicando-se à fotografia. E em Manhattan voltou as atenções para Hunts Point, no bairro do Bronx, um dos cantos mais degradados da América, onde mais de metade dos 50 mil habitantes vive abaixo do nível de pobreza, onde a taxa de criminalidade é a mais elevada de toda a região de Nova Iorque, e onde a heroína e o crack são omnipresentes, entre tráfico e toxicodependência.

Arnade começou a documentar este mundo de rejeitados, de vidas à margem da sociedade, e começou a contar num jornal do outro lado do Atlântico, o "Guardian", aquilo que estava a aprender dia após dia. A 11 de dezembro comentou a escolha feita pela revista "Time" de nomear Bergoglio homem do ano e apresentou "A alegria do Evangelho" como uma leitura imprescindível para católicos e não católicos. A peça comparava as denúncias feitas por outra personagem do ano, Edward Snowden, com o papel idêntico desempenhado pelo papa em relação aos pobres.

«Quando eu trabalhava em Wall Street nos anos 90, viajei a negócios para o país natal do papa Francisco, a Argentina. Eu era um dos muitos estrangeiros que lhes dizia como precisavam de profundas reformas no país, abrindo-o ao mercado livres. E eles abraçaram o mercado livro. Isso resultou bem até deixar de funcionar, terminando num enorme "crash" em 2001. As taxas de pobreza subiram durante esse período», escreveu nesse artigo.

«Nós, os banqueiros, andávamos de táxi, passando ao largo das barracas que circundavam o centro de Buenos Aires. Nenhum banqueiro lá punha os pés. Dizia-se que era demasiado perigoso. Em vez disso, mexíamo-nos entre os números das folhas de cálculo, números que representavam pessoas. O papa Francisco ia realmente às barracas. Regularmente. Viu aquilo que nós não vimos. Como escreveu na sua exortação apostólica: os seres humanos são considerados bens de consumo para serem usados e depois descartados.» 

 "Nas ruas os viciados, os últimos, com as suas batalhas
 e a proximidade com a morte diárias, 
compreenderam-no visceralmente. 
Muitas pessoas de sucesso não. 
O seu sentido de si e a sua frieza emotiva anestesiaram 
a perceção da sua falibilidade».

«A vitória do mercado livre - continuava o texto - tornou a "empatia" um palavrão. É-o seguramente em Wall Street. Não se consegue fazer dinheiro se começarmos a perguntar como é que ele é feito, quem é ferido e quem fica para trás.» 

Mas as maiores atenções voltaram-se para o artigo que Arnade assinou na véspera de Natal, que até hoje recolheu mais de 2300 comentários de leitores: «As pessoas que mais desafiaram o meu ateísmo foram drogados e prostitutas».

Definindo-se ateu desde os 16 anos, desde sempre admirador da prosa cáustica de Richard Dawkins, Arnade reconsiderou a sua posição, impelido pela fé que encontrou entre os "left behind", os últimos. Aqueles que na sua perspetiva deveriam ser os mais convictos defensores da não existência de Deus, dado o inferno em que se encontravam. E no entanto... 

«Sarah, 15 anos passados na rua, traz sempre uma cruz ao pescoço. Sempre. Michael, 30 anos nas ruas, traz um terço no bolso. Sempre. E em cada casa de consumidores de crack, no prédio mais abjeto e desolado, pode encontrar-se uma Bíblia aberta entre seringas, isqueiros e cachimbos de crack.»

Takeesha, uma infância de abusos e uma vida que acabou no mercado do sexo, pediu ao seu entrevistador para ser apresentada assim: «Prostituta, mãe de seis filhos e filha de Deus». Escreve Arnade: «Somos todos pecadores. Nas ruas os viciados, os últimos, com as suas batalhas e a proximidade com a morte diárias, compreenderam-no visceralmente. Muitas pessoas de sucesso não. O seu sentido de si e a sua frieza emotiva anestesiaram a perceção da sua falibilidade».

Muito depressa o ateísmo passa a ser visto pelo ex-agente de Wall Street como uma posição intelectual acessível principalmente àqueles que tiveram sucesso na vida. Disse adeus ao "seu" Richard Dawkins, que olha agora com outra perspetiva: «Orgulhoso da sua inteligência, incapaz de compreender porque é que alguém acreditaria ou pensaria de maneira diferente da dele», «distante da humanidade e da ambiguidade da vida». «Vejo alguém que faz o que diz odiar nos outros. Pregando a partir de uma posição de vantagem egoísta.»
 -------------------------------
Andrea Galli
In Avvenire
Trad.: rjm
© FONTE: Site de Portugal - SNPC (trad.) | 31.01.14