sábado, 6 de maio de 2017

Inspiração


Lya Luft*
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O que é inspiração, como lhe vem a inspiração...? – pergunta que persegue artistas criadores a vida inteira. Que músicas escuta para se inspirar? Que pessoas o inspiram? Cada escritor (falo do meu território) dará uma resposta diferente. Alguns precisam de silêncio, outros, de música, outros escrevem em qualquer parte, alguns ainda só na sua toca, seu escritório: mil maneiras de trabalhar.

Há quem diga que inspiração é bobagem, o que importa é a transpiração. Não é bem assim. Importa uma harmonia entre as duas coisas, pois, sem esse chafariz de ideias e emoções que se organiza quando escrevemos e acaba num romance, um conto, um poema, dificilmente se faz um bom trabalho.

Qualquer pessoa com alguma fantasia e bom conhecimento do seu português consegue fabricar um texto, até um livro. Mas arte não é assim, e possivelmente vai faltar a centelha que diferencia uma obra fabricada conforme os esquemas vigentes de uma obra de arte, por mais fraquinha que seja. Sim, obras de arte podem ter gradações de “bom, médio, ótimo, incrível”...

Não acredito também que artista tenha de sofrer para produzir. Em tempos muito difíceis de minha vida (sim, também os tive), passei seis anos sem escrever, só traduzindo. Pensei ter ficado afásica para sempre, e, como já tinha escrito vários livros, deduzi que a fonte tinha secado. E de repente, caminhando na beira da praia sem pensar em nada importante, voltou a história que eu tinha começado a fantasiar seis anos antes. Sem computador, sem máquina de escrever ali, corri para a papelaria, comprei canetas e papel em profusão e comecei a escrever feito desvairada. Voltando para casa, botei tudo no computador ou na máquina de escrever, não lembro, e publiquei A Sentinela, em 1994.

De onde vem, enfim, a tal inspiração? Cada caso é um caso, cada autor é um autor. Comigo, é como se tudo o que vivo, olho, sonho dormindo, sonho acordada, me contam, assisto, se depositasse em mim através dos anos, como aquela lamazinha no fundo de um aquário. Quando alguma coisa me toca especialmente (ou não), é como se mexessem com um lápis nessas águas tranquilas, e todo o depósito do fundo sobe à superfície: feita a inspiração, a história que estava meio pronta nas neblinas do inconsciente começa a emergir. Eu lhe dou nomes e formas, trabalho, escrevo e reescrevo, e com sorte tenho um texto.

Também quero dizer que, para ser escritor, coisa que me perguntam incessantemente, é preciso, primeiro, ler muito. Ler sempre. Segundo, dominar o mais possível o idioma, pois o bom escritor é como o cirurgião que sabe manejar o bisturi, conhece anatomia, a doença, e o resto. Ninguém escreve “de ouvido”. E atenção: português ou qualquer língua não se aprende decorando regras, mas lendo. Além disso, é bom abusar de simplicidade, paciência, humildade, autocrítica sem neurose, e usar dessa maravilhosa liberdade que o texto nos dá.

É difícil? É difícil. Porque, além disso, precisa de sorte, persistência, nada de ressentimento do tipo “ninguém se interessa por meu livro, ninguém quer me publicar”, pois quase todos nós levamos várias recusas, esperamos algum ou muito tempo para finalmente iniciar (iniciar...) o caminho dessa arte e dessa profissão que serão o chão por onde caminharemos, amados, criticados, abominados ou estimulados, pelo resto da nossa vida.
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Imagem da Internet

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Delfim Netto: 'Sem reforma da Previdência, é esperar pelo precipício'

Delfim Netto

Para o economista, o desequilíbrio das contas fiscais é 'brutal' e não há mágica para resolver este problema



SÃO PAULO - O economista Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda, afirma que a aprovação da reforma da Previdência é fundamental para evitar que o Brasil fique insolvente e volte a ter crescimento econômico. O desequilíbrio das contas fiscais brasileiras é "brutal" e não há mágica que resolva este problema, é preciso fazer o ajuste e avançar com as reformas. Se a sociedade não quiser mudanças na aposentadoria, é só esperar pelo precipício, disse ele ao Broadcast em seu escritório nesta quarta-feira, 2.

Delfim avalia que o presidente Michel Temer está indo no caminho certo, mas vai ficar só com o ônus das reformas. O bônus, disse ele, vai ficar para o próximo presidente, eleito em 2018, e para "nossos filhos e netos”. Leia a seguir trechos da entrevista:

Broadcast: A reforma da Previdência proposta pelo governo é correta?
Delfim Netto: Eu acho que foi uma boa proposta. Está sendo corrigida no Congresso e aqui é preciso dizer o seguinte. Quando o Congresso corrige uma proposta do Executivo, não significa que o Executivo está perdendo, que está cedendo. O poder supremo de legislação está no Congresso. Portanto, o Legislativo, que foi eleito legitimamente, representa a sociedade na formulação destas reformas. O que o Legislativo decidir é o máximo que a sociedade quer.

A reforma da Previdência nos moldes que ficou vai contribuir para melhorar as contas fiscais?
Sim, sem dúvida. É claro que não terá o mesmo efeito que teria a reforma original. Mas é aqui que eu digo, a reforma que vai sair é a reforma consistente com a vontade da sociedade e mais do que isso, se a sociedade disser, "não quero reforma", não há o que reclamar, é esperar o precipício. Depois não se queixa na hora que cair. Sem o ajuste fiscal, vai juntar pé com cabeça, vai destruir tudo, no final nem as aposentadorias serão pagas. Como já vem acontecendo no Rio. Vamos continuar desregrados e caminhar para a insolvência. Ou seja, o final de tudo é que a defesa intransigente de uma Previdência generosa é a morte da Previdência.

Broadcast: Se houver muitas concessões na reforma da Previdência, vai ser preciso ser feita outra nos próximos anos?
Mesmo com esta reforma, se sair agora como está, daqui a 5 anos vai precisar de outra. Aqui eu queria chamar atenção para um fato. A aprovação não vai dar nenhuma bônus para o Temer, pelo contrário, o Temer só vai levar o ônus. O bônus quem vai levar são os próximos governos e nossos filhos e netos. Você teve que acomodar a regra de transição, o que é natural, é normal. A regra feita pelo burocrata era muito dura.

Qual o principal ponto da reforma?
A idade mínima é fundamental. É difícil você entender a histeria do combate à reforma, porque ela esconde uma única coisa, o interesse dos histéricos. A oposição é o estamento estatal que se apropriou do poder no Brasil. Pode observar, a maioria dos opositores são funcionários públicos, bem acomodados e que não compreendem uma coisa elementar, que aliás o Brasil esqueceu. Para ser funcionário público você tem que passar por um teste de honestidade, tem um concurso. Depois do concurso você tem a garantia da estabilidade, dos salários, a irredutibilidade dos salários, tem a aposentadoria integral. Por que em todo lugar do mundo é proibida a greve do funcionalismo público? Ele não tem o que reivindicar. A sociedade deu pra ele tudo o que era preciso.


A reforma da Previdência e outras medidas vão permitir que os juros reais caiam mais no Brasil?
Ninguém sabe qual a taxa de juros real de equilíbrio no Brasil. É evidente que esta taxa depende da conjuntura. Ora, a reforma da Previdência junto com o teto dos gastos, junto com as medidas microeconômicas, vai provocar uma queda na taxa da taxa de juros real de equilíbrio, se é que ela existe. O custo da dívida pública vai encolher. Este encolhimento mais os recursos promovidos por uma correção justa da Previdência vai liberar recursos para a saúde, educação, investimento em infraestrutura, sem os quais o Brasil nunca mais vai voltar a crescer.

O Banco Central está agindo corretamente no ciclo atual de corte de juros?
O que eu vejo com muita alegria é que o BC, que recebeu plena autonomia do Temer, está agindo com muito cuidado, soube esperar a oportunidade, resistiu, na verdade, aos apelos afoitos de que reduzisse mais rapidamente a taxa de juros. Isso não funciona. Isso cria surpresas no mercado financeiro que se voltam contra você mesmo. Eu acredito que o BC tem consciência deste problema. Ele tem que ir como está indo.

Porque a retomada da economia está sendo tão lenta?
Na verdade, o desarranjo fiscal é brutal. Nós queremos ignorar este fato e insistir como se existisse mágica. Você destruiu, na verdade, o equilíbrio fiscal do Brasil, mas destruiu de maneira muito profunda. As implicações desta destruição são enormes na economia. Eu acho que a escolha que o Temer adotou é correta. É corrigir alguns desequilíbrios que são tão visíveis e que têm implicação global. Um é no nível macroeconômico, que é na verdade o problema da Previdência, e o outro é no nível micro, que é o problema trabalhista. Os dois devem conduzir lentamente para melhorar as condições da economia. Por que você não pode ampliar o investimento hoje? Porque você está consumindo parte importante do Produto Interno Bruto (PIB) em uma Previdência Social extremamente generosa.

Como o senhor avalia a reforma trabalhista aprovada na Câmara na semana passada?
É correta. Você pode ter uma divergência aqui e ali, mas é óbvio que o axioma da justiça do trabalho, que é ela mesma um pouco extravagante, é de que o trabalhador é um hipossuficiente e não sabe quais são seus interesses e que todo empresário é ladrão. Portanto, precisa de um juiz honesto para arbitrar estas relações. Isto é produto de uma concepção absolutamente equivocada. E no fundo esta legislação foi avançada para o momento em que ela foi feita, no tempo do (presidente ) Getúlio (Vargas), mas que hoje obviamente está (desatualizada), porque mudou a qualidade do trabalho, mudou a natureza do trabalho. 
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Reportagem por 
Altamiro Silva Junior
03 Maio 2017 | 
Fonte:  http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,sem-reforma-da-previdencia-e-esperar-pelo-precipicio-diz-delfim-netto,70001762125?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=manchetes
Foto: Hélvio Romero/Estadão

BAUMANN: assim chegamos à RETROTOPIA

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Sai em breve, em português, livro póstumo do filósofo, morto em janeiro. Numa de suas últimas entrevistas, ele alerta: estamos involuindo de uma crença tola no futuro para a mistificação infantil do passado

Por Zigmunt Bauman, em diálogo com a Spyked Review  | Tradução: Inês Castilho

As nove décadas de Zygmunt Bauman foram vividas próximo à medula da história. Nascido em 1925 de pais judeus poloneses não-praticantes em Poznan, sua família foi para União Soviética em 1939, quando os tanques nazistas invadiram a Polônia. Tendo servido no Exército Vermelho com distinção, retornou à Polônia depois da Segunda Guerra Mundial para estudar sociologia na Universidade de Varsóvia. Mas, com o comunismo tendo há muito perdido seu brilho e sua carreira impedida pelo antissemitismo, ele emigrou para a Grã Bretanha em 1968, onde assumiu uma cadeira de sociologia na Universidade de Leeds. 

Mas foi depois de sua aposentadoria, em 1990, que sua inteligência inquisidora, pela qual ele é tão renomado, começou a gerar livro após livro. “O Mal Estar da Pós-modernidade” (1992); “Ética pós-moderna” (1993), “Globalização: as Consequências Humanas” (1998), “Modernidade Líquida” (2000), “Amor Líquido” (2003); “Ensaios sobre o conceito de Cultura” (2012)… A lista é enorme. De fato, no último quarto de século ele publicou cerca de 40 livros, não por escrever, mas porque o mundo como ele é não é como ele sente que deveria ser. Ou, como afirmou em 2003: “Por que escrevo livros? Por que eu penso? Por que eu deveria ser apaixonado? Porque as coisas poderiam ser diferentes, deveriam ser melhores.”

A conversa abaixo aconteceu no ano passado. Instigada por uma questão sobre o Brexit, acabou levando a um diálogo sobre o futuro, o passado e o destino do projeto iluminista.
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“Retrotopia”, obra póstuma de Bauman que a Editora Zahar promete publicar em breve, em português

Você falou sobre a desilusão popular com a política nacional num mundo globalizado, e o sentimento popular de que políticos nacionais não têm poder para influenciar mudanças. Suas posições mudaram à luz do referendo sobre a União Europeia na Inglaterra, e a perspectiva do Brexit?
Acredito que o colapso da confiança na capacidade de todo o establishment político, em todo o mundo desenvolvido, para realizar as mudanças desejadas (ou qualquer mudanças prometida) é o que, paradoxalmente, sedimentou o fenômeno Brexit.

Com a completa frustração dos eleitores com a elite política, e sua recusa total de investir confiança em qualquer segmento da elite política, o referendo ofereceu uma oportunidade sem precedentes para as escolhas em votação coincidissem com os sentimentos que precisavam exprimir-se. Foi uma ocasião única, nesse sentido, e tão diferente das eleições parlamentares de rotina!
Numa eleição geral, você pode expressar sua frustração e raiva contra o mais recente de uma longa linhagem de detentores de poder e fazedores de promessas. Mas o preço que se paga por esse alívio emocional é meramente convidar a Oposição, parte inseparável do establishment político, a assumir os gabinetes ministeriais como o Governo. Nesse infinito jogo de cadeiras, você não chega nem perto de expressar a natureza geral da sua discordância.

A oportunidade oferecida pelo referendo sobre o Brexit foi completamente diferente. Com quase todos os setores do establishment político posicionados em favor da permanência na União Europeia, podia-se usar um único voto, Sair, para descarregar, de uma só vez, a raiva contra todos eles. Quanto mais abrangente a frustração, mais tentador torna-se fazer exatamente isso — agarrar essa oportunidade única para desabafar.

Você tem escrito sobre o fim do progresso e a perda da crença na ideia de que o futuro será melhor que o passado. Há algo no fenômeno do Brexit (e, por certo, em outros movimentos populistas do continente) que promete uma era nova, talvez melhor, para a Europa?
Nós ainda acreditamos em “progresso”, mas agora o vemos tanto como bênção quanto como uma maldição — com o aspecto de maldição crescendo progressivamente, enquanto o lado bênção fica menor. Compare isso com a atitude de nossos ancestrais mais recentes – eles ainda acreditavam que o futuro seria o espaço mais promissor para as esperanças. Nós, contudo, tendemos a projetar nossos medos, ansiedades e apreensões no futuro: um futuro de crescente escassez do emprego; de queda da renda e portanto também de declínio das oportunidades de vida, nossas e dos nossos filhos; de crescente fragilidade das nossas posições sociais e da provisoriedade de nossas realizações na vida; de uma fenda que aumenta desenfreadamente entre as ferramentas, os recursos e as competências à nossa disposição e a enormidade dos desafios colocados pela vida; do controle de nossas vidas, que escapa das mãos. É como se nós, indivíduos, estivéssemos sendo rebaixados ao status de peões, à margem de um jogo de xadrez entre pessoas desconhecidas. Elas são indiferentes às nossas necessidades e sonhos, quando não francamente hostis e cruéis, e estão todas completamente prontas a nos sacrificar para alcançar seus próprios objetivos.

O que o pensamento do futuro tende a trazer à mente hoje, portanto, é a crescente ameaça de ser descoberto e rotulado como inapto para a tarefa, com seu valor e dignidade negados, marginalizados, excluídos e banidos.

Uma crescente maioria de pessoas já aprendeu, a essa altura, pela própria experiência e pela dos que lhe são próximos e caros, a desacreditar de um futuro desigual, instável, imprevisível e notoriamente decepcionante, como o lugar para investir esperanças. Meu último livro, Retrotopia, aborda precisamente essas questões. Permita-me citar um trecho de sua introdução:

Eis o é o que Walter Benjamin tinha a dizer em suas Teses da Filosofia da História, escritas no início dos anos 40, sobre a mensagem transmitida por Angelus Novus (renomeado Anjo da História), uma pintura de 1920 de Paul Klee:

“A face do Anjo da História está voltada para o passado. Onde nós percebíamos uma cadeia de eventos, ele vê uma catástrofe única que continua empilhando destroços e jogando-os diante dos seus pés. O anjo gostaria de ficar, acordar os mortos, e tornar inteiro o que foi esmagado. Mas uma tempestade está soprando do paraíso; o anjo ficou preso em suas asas com tal violência que não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impulsiona irresistivelmente em direção ao futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto a pilha de escombros cresce, diante dele, rumo ao céu. A tempestade é o que chamamos progresso.”
Fosse alguém olhar de perto a pintura de Klee, um século, quase, depois que Benjamin produziu seu insight insondável e incomparavelmente profundo, poderia mais uma vez capturar o Anjo da História em pleno voo. O que mais pode impactar, a ele ou a ela, é o anjo mudando de direção – o Anjo da História apanhado no momento de uma volta de 180º. Sua face está girando do passado para o futuro, suas asas sendo puxadas para trás pela tempestade, golpeando esse tempo do futuro imaginado, precipitado e antecipadamente temido em direção ao paraíso do passado (ele próprio imaginado retrospectivamente, depois de ter sido perdido e reduzido a ruínas). E as asas estão agora sendo pressionadas, como eram pressionadas antes, com violência igualmente poderosa, de modo que agora, como então, “o anjo não pode mais fechá-las”.

Passado e futuro, pode-se concluir, estão no processo de trocar seus respectivos vícios e virtudes, relacionados – como sugeriu Benjamin – por Klee há cem anos. Agora, o futuro é que está marcado no lado do débito, denunciado inicialmente por sua não-confiabilidade e por ser incontrolável, com mais vícios que virtudes; enquanto a volta ao passado, com mais virtudes que vícios, é marcada na coluna do crédito – como um lugar ainda de livre escolha e do investimento ainda não-desacreditado de esperança.

Penso que o episódio Brexit, assim como “outros movimentos populistas no continente” são manifestações da “tendência à retrotopia” discutida acima. Na ausência de ferramentas efetivas de ação capazes de enfrentar os problemas de nossa presente situação, e dado o crescente desapontamento trazidos por sucessivos futuros creditados com o desenvolvimento dessas ferramentas de ação, não surpreende que a proposta de exploração do giro de 180º pareça ilusoriamente atrativa. A possibilidade de “uma nova, talvez ainda melhor era para a Europa” que emerge do resultado do Brexit, pode ainda aparecer, como sua consequência não-antecipada, embora plausível. Mas isso ocorrerá porque nos frustramos com o uso de tribalismos antiquados para lidar com os desafios do presente, gerados pela emergente condição humana de interdependência mundial.

Faz sentido a ideia de uma tendência retrotópica, dado o medo generalizado do futuro. Mas como você considera a tendência coexistente de ver o passado como uma moral absolutamente negativa, um tipo de moralidade, se você quiser, que orienta o presente dizendo “sabemos que somos contra aquilo” ou “nunca mais”? Estou aqui pensando na centralidade do Holocausto na política contemporânea e no discurso histórico, nos últimos 20 anos. E estou também pensando no recente, mas contínuo foco nos crimes sexuais históricos do Reino Unido, onde frequentemente parece que o passado relativamente recente está se transformando numa visão de corrupção e imoralidade difíceis de acreditar, e contra o qual nos afirmamos no presente. O futuro certamente parece desacreditado, hoje, mas o passado não o é igualmente?
Isaac Newton insistiu em que cada ação dispara uma reação… E Hegel apresentou a história como um conflito/fricção entre oposições, que provocam e reforçam mutuamente oposições (o processo interconectado de dissolução e absorção conhecido por “dialética”). Se vocês fossem partir de Newton ou Hegel, chegariam à mesma conclusão: ou seja, de que seria de fato bizarro se a tendência retrotópica não fosse alimentada por e alimentadora da entronização e destronamento do futuro (sua pergunta, aliás, é um bom exemplo dessa dialética).

A retrotopia, assim como a utopia-Futura ortodoxa, refere-se a uma terra estrangeira: um território desconhecido, não-visitado, não-testado e, em suma, não-experimentado. Essa é precisamente a razão pela qual se recorre a retrotopias e utopias, de forma intermitente, sempre que se procura uma alternativa ao presente. Ambas são, por essa razão, visões seletivas, e em ambos os casos são visões seletivas passivamente e obedientemente suscetíveis de manipulação. Em ambos os casos, os holofotes da atenção são focalizados em alguns aspectos de, para citar Leopold von Ranke, como era realmente (wie es ist eigentlich gewesen), mas numa densa sombra. Isso possibilita a ambos ser territórios ideais (imaginados) onde localizar o estado de coisas (imaginado) ideal, ou ao menos uma versão corrigida do presente estado de coisas.

Até aqui, utopia e retrotopia não diferem – pelo menos em seus processos e na parcialidade dos resultados. O que realmente separa os dois é a mudança de lugar entre confiança e desconfiança: a confiança sendo movida do futuro para o passado, a desconfiança na direção oposta. Seu próprio exemplo captura esse processo, implicando que a inevitabilidade da “tendência retrotópica” coincide com a popularidade do “nunca mais”. Afinal, a retrotopia deriva sua atração, entre outros fatores, do senso de que o futuro pode “nunca mais”, e é provável que “faça isso novamente”. Aquela “centralidade do Holocausto na política contemporânea e no discurso histórico, que realmente manifestou-se nos últimos 20 anos”, como você notou tão corretamente, de outra forma não teria acontecido. Ela testemunha o colapso da confiança na capacidade do futuro elevar os padrões morais.

Você fala corretamente, acredito, dessa intensa desconfiança do futuro, que por sua vez gera esses sonhos retrotópicos de um passado que nunca foi. Mas, por que o futuro deixou de ser o lugar de nossas esperanças, o espaço em que imaginamos e prevemos as coisas como deveriam ser? Você responde a isso parcialmente, quando nota que “uma grande e crescente maioria de pessoas… aprendeu… a desacreditar do futuro desigual, inconstante, imprevisível e notoriamente desapontador”. Mas a história europeia está marcada pela experiência de diversos eventos horrendos, que não necessariamente resultaram numa perda de fé generalizada no futuro. Por exemplo, a Guerra dos Trinta Anos foi seguida pelas primeiras inspirações do Iluminismo, um dos momentos culturais mais otimistas e orientados ao futuro. Até mesmo depois da catástrofe das Guerras Mundiais e do Holocausto, no período pós-guerra, até os anos 1970, foi seguramente marcado por um grau de otimismo, de que as coisas estavam melhorando, de fato, “de que você nunca esteve tão bem”. Então, é claro, houve os anos sessenta, um momento de grande experimentação social e política.
Então, o que acontece na vida em sociedade hoje que transformou o futuro em algo a se desconfiar, a temer?
Pensar no futuro “como alguma coisa suspeita, a ser até mesmo temida”, não é de forma alguma novo na história humana. De fato, remonta aos tempos pré-socráticos, mais precisamente ao século 8 AC – ao Trabalhos e os Dias de Hesíodo, particularmente à sua história “Idades dos Homens”. É uma história de contínua decadência, corrupção e degradação, do pico dos “anos de ouro” aos “anosde ferro”, o fundo dos fundos, no qual Hesíodo se coloca junto com seus contemporâneos. Sua descrição da condição e dinâmica dos habitantes dos anos de ferro era marcantemente reminiscente das características que nossos próprios contemporâneos imputam às condições do nosso próprio século 21, quando embarcamos na jornada retrotópica; ou seja, era atroz, horripilante e repulsiva.

Na visão de Hesíodo, a “raça do ferro” estava destinada a “nunca descansar do trabalho e da tristeza durante o dia, e da destruição à noite”. Na idade do ferro, “o pai não concordará com seus filhos, nem seus filhos com seus pais, nem hóspedes com seu anfitrião, nem companheiros com companheiros” e “não haverá privilégio para o homem que mantém seu juramento ou para o justo ou para o bom; mas, ao contrário, os homens vão louvar os malfeitores e seus negócios violentos. A força será certa, e não haverá mais reverência. E os ímpios ferirão o homem digno, falando falsas palavras contra ele, e jurarão infâmias sobre eles”. Na idade do ferro, aidos (a palavra grega para o sentimento de reverência, e também para a vergonha que coíbe as pessoas de cometerem malfeitos) será cada vez mais notória, apenas por sua ausência.

Em sua reação à herança da Grécia pagã, a Europa cristã introduziu um terceiro elemento ao ciclo Hesiodíaco de declínio e queda: a redenção, a perspectiva de reversão cronológica das eras de ouro e de ferro. Santo Agostinho, por exemplo, introduziu um conceito linear de tempo que fluía da Cidade do Homem inferior, devorada por traços indeléveis de pecado original e, como a era de ferro de Hesíodo, endemicamente corrupta, à perfeição da Cidade de Deus, guiada pela igreja cristã, a vanguarda e a praça das armas. Da Idade Média até a Idade Moderna, contudo, o modelo predominante do fluxo de tempo estava mais próximo de Hesíodo do que de Santo Agostinho.

Durante a Renascença, as coisas mudam. Francis Bacon ousou visualizar a casa da lei de Salomão, a faculdade ideal em seu trabalho utópico New Atlantis, como a culminação da longa, vacilante e espinhosa escalada ascendente da humanidade a uma nova era de ouro. E numa tentativa de ir além da disputa entre antigos e modernos (querelle des anciens et des modernes), Isaac Newton tentou colocar varas em dois formigueiros em guerra, proclamando, numa carta a Robert Hooke em 5 de fevereiro de 1675: “Se vi mais longe, foi por me colocar sobre ombros de gigantes”.

Interessados em simplificar esta complicada história de entrecruzamentos, geminação, linhas de pensamento mutuamente inspiradoras e reciprocamente depreciativas, sugiro o ano de 1755 como o marco que separa as duas visões em competição. De um lado, a de declínio apocalítico, desde o início, de uma história projetada e guiada pelos homens. De outro, a emergência, isto é, a visão de progresso contínuo, essencialmente incontrolável. Naquele ano, a combinação de um terremoto, seguido de fogo e sucedido por um tsunami apagou a cidade de Lisboa da face da terra. Àquela altura, Lisboa era admirada e reverenciada como uma das cidadelas mais ricas e poderosas econômica e culturalmente daquilo que, por sua própria definição, constituía a vanguarda do mundo civilizado. Em poucas palavras, a natureza, agora acusada por sua indiscriminação endêmica, entorpecimento e estupidez moral, bem como indiferença à ética e valores humanos – aquela ordem estabelecida por Deus precisava ser tomado sob nova gestão humana.

A nova administração olhava à frente firme e resolutamente. “Novo” transformou-se na tautologia de “maior” e “melhor”, da mesma forma que “velho” tornou-se um pleonasmo para “fora de moda” e “ultrapassado”. No processo, isso transformou o vigente e vir-a-ser velho no reino da imperfeição condenável, destinado à deposição de lixo. E expandiu o espaço de novidades desejáveis e bem-vindas até que os mercados consumidores fizessem tudo instantaneamente. A vida tornou-se orientada para o futuro e ainda mais apressada.

Mas progressivamente, os sintomas sugerem que aquela era de gestão humana é mais uma aberração temporária do que um novo paradigma. Eu me sinto tentado a sugerir que quando percebida com o benefício da retrospecção, a “vida voltada ao futuro”, como posto por Ernst Block, entrará para os anais da história humana como um episódio na verdade pouco usual e por certo atípico – uma aventura romântica, fervorosamente apaixonada, mas breve.

Você está certo sobre quão significativo foi o terremoto de Lisboa. Talvez a resposta mais famosa – e que ecoa sua afirmação de que a resposta ao terremoto era para tomar a natureza abandonada por Deus sob gestão humana – é o Cândido, de Voltaire. A linha final, uma resposta aos apóstolos do progresso panglossiano, ressoa aqui: “Precisamos cultivar nosso jardim.” Ela exprime bem a ideia do Iluminismo, seugndo a qual a humanidade pode emergir de sua “tutela autorrealizada”, como colocado por Kant, a noção de que por meio de nossa própria razão (e não há/havia maior autoridade que nossa própria razão!) podemos agarrar as leis do mundo natural e social, e modelar o mundo de acordo com os nossos objetivos racionalmente escolhidos. Por que, então, no século 21, num tempo em que é nossa habilidade de administrar a natureza “para cultivar nosso jardim” para “viver voltados ao futuro” é mais forte que nunca,  o projeto do Iluminismo (se é que posso chamá-lo assim) aparece como um “breve” interlúdio?
George Steiner disse certa vez que o privilégio de Voltaire, Diderot, Rousseau, Holbach, Condorcet e sua turma era sua ignorância: eles não sabiam o que sabemos e não podemos esquecer. A descendência da “Nova Jerusalém” de Isaias – relutantemente e não sem resistência – do futuro paradisíaco, fará isso a partir de Auschwitz, Kolyma e Hiroshima. Tudo isso foi fruto do cultivo entusiasmado e engenhoso do “nosso jardim”.

Você mesmo compara a relação progressiva com o tempo, e com a natureza, a um caso apaixonado. Você acha que, depois desse caso, estamos retornando à nossa prolongada relação com a temporalidade, o antigo, concepção de tempo quase teológica e alegórica, de queda e apocalipse, de decadência e redenção? Afinal, tanto ao ambientalismo quanto ao radicalismo islâmico, não falta a ideia de Fim dos Tempos.
Repito o que disse antes: o futuro (outrora a aposta segura para o investimento de esperanças) tem cada vez mais sabor de perigos indescritíveis (e recônditos!). Então, a esperança, enlutada, e desprovida de futuro, procura abrigo num passado outrora ridicularizado e condenado, morada de equívocos e superstições. Com as opções disponíveis entre ofertas de Tempo desacreditadas, cada qual carregando sua parte de horror, o fenômeno da “fadiga da imaginação”, a exaustão de opções, emerge. A aproximação do fim dos tempos pode ser ilógica, mas por certo não é inesperada.
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Fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/bauman-assim-chegamos-a-retrotopia/ 05/05/2017

quinta-feira, 4 de maio de 2017

"Os cargos na Igreja, do Papa e bispos, deveriam ser temporários"

O teólogo Anselmo Borges apresenta hoje em Lisboa o seu novo livro, 'Francisco - Desafios à Igreja e ao Mundo', durante um debate com dois presidentes sobre a atuação do Papa Francisco na Gulbenkian
Além da coluna semanal que publica neste jornal, o teólogo Anselmo Borges edita frequentemente uma análise transversal da sociedade atual - com enfoque principal a partir de preocupações religiosas - sob o formato de livro. Hoje, em Lisboa, modera um debate na Fundação Gulbenkian em que participam dois presidentes da República e duas reconhecidas personalidades da vida cultural (ler programa no fim). O tema do encontro é a atuação do Papa Francisco enquanto líder político-moral global, assunto em que muitas das perguntas e respostas podem ser lidas no novo ensaio, Francisco - Desafios à Igreja e ao Mundo. Ao colocar-se como moderador nestas apresentações do seu novo livro, uma "digressão" de escrutínio público a que raros teólogos se sujeitam, percebe-se que mais uma vez não receia o palco de um complexo debate nacional por ocasião da visita papal a propósito do polémico centenário de Fátima.

Inicia o seu livro com as grandes perguntas da humanidade. Num tempo como o atual ainda têm lugar?
O que une verdadeiramente a humanidade são estas perguntas essenciais, com que o filósofo Ernst Bloch inaugura a sua obra monumental, Das Prinzip Hoffnung (O Princípio Esperança): "Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? O que é que esperamos? O que é que nos espera?". Qual é o fundamento de tudo? A vida, a história, têm sentido, sentido último? Parece que hoje estas perguntas estão obturadas. A mim o que me preocupa mais não é que não haja respostas ou que não coincidamos nas respostas, mas que muitos já não as façam, que são constitutivas do ser humano. Não colocá-las é sinal de decadência e desumanização. A racionalidade instrumental do ter sobrepôs-se ao ser, aos valores e à dignidade.

"Pensar a fé implica coerência interna da doutrina". Refere-se à fé dos católicos ou às restantes religiões também?
A todas. Porque, embora a fé não seja uma pura dedução ou conclusão da razão, ela não pode contradizer a razão, tem de ser razoável. Assim, por exemplo, no catolicismo, não se pode continuar a pregar o pecado original, de que aliás Jesus não falou. Porque essa doutrina não é admissível no quadro da evolução: quem foram os "primeiros pais"? Como é incoerente afirmar que Deus precisou da morte do próprio Filho para se reconciliar com a humanidade. Esta doutrina expiatória da morte de Jesus contradiz a afirmação essencial do Evangelho: que "Deus é amor incondicional". No caso do islão, não se pode invocar o Deus Clemente e Compassivo e matar em seu nome.

Coloca-se contra perante os milagres. Ora, sendo o principal "acontecimento católico português" o Milagre do Sol de 1917 não está a posicionar-se do lado errado da Igreja nacional?
Os únicos milagres em que creio são os milagres do amor. Não acredito que haja milagres no sentido estrito da palavra, isto é, que Deus suspende ou intervém nas leis da natureza. Porquê? Eu acredito que Deus é o Criador por amor e a partir do nada. Portanto, Ele é transcendente ao mundo mas está infinitamente presente no mundo enquanto força infinita de criar, de tal modo que, se Ele se retirasse, tudo voltaria ao donde veio: ao nada. Ora, os milagres supõem que Deus está fora do mundo e de vez em quando vem dentro e, arbitrariamente, intervém a favor de uns e não de outros. Isso implica ateísmo. Digo que, precisamente porque tudo é milagre - o milagre do ser e de se ser -, não há "milagres". Quanto ao chamado "milagre do Sol", remeto para os cientistas, que deverão explicar. Neste contexto, noto que a Igreja exige "milagres" para a canonização. De facto, a única coisa que se pode dizer em relação a esses "milagres" é que a ciência ainda não explica. E, neste quadro, concretamente sobre a canonização de Francisco e Jacinta, gostaria de acrescentar que todas as crianças são santas e só posso desejar que a sua canonização seja uma oportunidade para a tomada de consciência disso e que se aja em consequência: que se acabe com o rapto de crianças para o tráfico de órgãos e com todo o género de exploração: sexual, trabalho infantil, violência física e/ou psicológica, que de modo nenhum se continue a tolerar que mais de dez mil crianças morram diariamente de fome. O fim da exploração destes inocentes e a luta pela sua dignidade é que seriam milagres nos quais acredito.

Elogia a decisão de Joseph Ratzinger em resignar. É a única solução para ser verdadeiro sucessor de Pedro?
O novo livro
Foi um ato de inteligência, lucidez e coragem, que fica para a história. Penso aliás que os cargos na Igreja, no caso do Papa e dos bispos, concretamente, deveriam ser temporários, isto é, por tempo determinado.

Acredita que o Papa recuperará a metade dos católicos esquecidos pela Igreja - as mulheres - e atualizará as questões da sexualidade perante o olhar do Vaticano ou desistirá?
A Igreja caminha muito lentamente e já o cardeal Martini, outro jesuíta, inspirador de Francisco, se queixava, dizendo que a Igreja anda atrasada 200 anos. E pensava também na relação da Igreja com as mulheres, que nada impede teologicamente de receberem a ordenação sacerdotal. É uma questão de direitos humanos. O Papa Francisco condenou o "machismo" na Igreja e está abrir a porta da ordenação a homens casados; não estou a vê-lo fazer o mesmo com as mulheres. Ele não quer criar cismas na Igreja. A Igreja tem muita dificuldade em lidar com a sexualidade, por duas razões fundamentais: está muito marcada pela heresia gnóstica e porque à frente da moral católica tem estado o clero de celibato obrigatório. Mas Francisco abriu portas, quanto aos gays, que não devem ser discriminados, aos métodos de contraceção (os católicos não devem "reproduzir-se como coelhos"), à possibilidade da comunhão para os recasados, ao respeito para com as novas formas de casamento...

Afirma que a Francisco cabe "renovar a Igreja", uma "missão decisiva". Pelo que observa da sua ação desde que foi eleito ainda acredita que cumpra?
Considero que é uma missão decisiva, porque a Igreja é depositária da mensagem mais humanizadora que conheço: o Evangelho. Infelizmente, como bem viu Nietzsche, a Igreja transformou-o muitas vezes, num Disangelho, uma triste e má notícia. Francisco não conseguirá tudo, mas o essencial está em marcha: abertura da Igreja às "periferias", um estilo novo de papado: simplicidade, proximidade, humanidade. E, institucionalmente, tolerância zero para pedofilia, transparência no Banco do Vaticano, reforma profunda da Cúria a caminho, não há condenação de teólogos, descentralização no governo da Igreja, passos gigantescos no diálogo entre as confissões cristãs, elogiando Lutero, e também no diálogo inter-religioso, exige que seja a pessoa humana a ocupar o centro da economia e não o deus-Dinheiro, a exortação Laudato si" sobre uma ecologia integral fará história.

À página 337 coloca o seguinte título provocador: "O dever moral de ser ateu". O que pretende?
Tão-só que na religião se não perca a dignidade. Face a um deus que humilhasse o homem, o aterrorizasse, face a um deus que mandasse fazer terrorismo, só haveria uma atitude humanamente digna: ser ateu. Seria indigno de um ser humano sadio acreditar nesse deus.

Não ignora uma das principais questões que se põem ao Papa Francisco: "o que poderá suceder a seguir ao seu pontificado". É uma questão que já está em cima da mesa?
O antigo superior geral dos jesuítas, A. Nicolás, revelou que Francisco lhe disse que "pede ao Bom Deus que o leve só quando as reformas forem irreversíveis".

Neste seu ensaio olha com muita atenção a imposição da tecnologia na sociedade. Até que ponto a religião pode conviver com a transformação numa nova humanidade?
Com as novas tecnologias NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas e do cérebro em geral) em conjunção e entrecruzamento exponencial, estamos ou podemos estar à beira de uma realidade nova como nunca houve e cujo futuro ainda desconhecemos, mas que leva a colocar as questões do chamado trans-humanismo e pós-humanismo. Isso levanta problemas para os quais os espíritos mais atentos têm chamado a atenção. Apenas faço eco disso, de modo a provocar debates urgentes, também entre nós: qual é o futuro do homem?, o que é que verdadeiramente queremos? Evidentemente, a religião/religiões não podem estar afastadas destes debates decisivos, pois está em causa o humanismo e o futuro do homem e, consequentemente, de Deus e da religião também.

A escritora Lídia Jorge surpreende-se com o seu pensamento livre no que respeita às grandes questões com que a Igreja se confronta. É esta a sua missão?
Diria que Lídia Jorge não se surpreende propriamente. Ela constata com satisfação. Há um passo do Evangelho que diz "a verdade libertar-vos-á". Ora, a busca da verdade só se pode fazer com um pensar aberto e livre, exercido com honestidade e rigor.
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Fonte:  http://www.dn.pt/sociedade/interior/os-cargos-na-igreja-do-papa-e-bispos-deveriam-ser-temporarios-6258908.html

terça-feira, 2 de maio de 2017

O QUE É QUE O PODER FAZ ÀS PESSOAS?

REUTERS/John Gress
Foto REUTERS/John Gress
 
Há um lado negro do poder. Uma investigadora portuguesa da University College de Londres analisou vários estudos feitos nos últimos 15 anos para perceber como são e o que fazem as pessoas que chegam ao poder. 

São geralmente as primeiras pessoas a falar num grupo, falam mais, falam mais alto, muitas vezes interrompem os outros, são confiantes, dominadoras, podem ser egocêntricos e reagir de forma agressiva quando ameaçados. Definem metas, correm mais riscos, agem e decidem depressa. Em determinadas circunstâncias podem ser corrompidos e corromper, trair e negligenciar as necessidades de terceiros. Conhece alguém assim? Este é o retrato resumido (e simplificado) de uma pessoa com poder, segundo um artigo publicado na edição deste ano da revista Annual Review of Psychology.
Ana Guinote é professora de psicologia experimental na University College de Londres e publicou o estudo com o título: “Como o poder afecta as pessoas: Accionar, Procurar e Definir Metas”. A investigadora analisou diversos artigos publicados nos últimos 15 anos de várias áreas, desde a psicologia às neurociências, passando pela gestão. No artigo há vários exemplos de experiências realizadas. Há por exemplo um inquérito feito a deputados do Parlamento inglês, que revelou que a capacidade de decisão de um primeiro-ministro é mais valorizada do que a honestidade. A investigadora fala também de estudos que associaram o exercício de poder à activação de circuitos cerebrais relacionados com a recompensa, o que se reflecte na libertação do neurotransmissor dopamina.
O artigo de revisão faz cair algumas máscaras do poder. Exemplos? Mais importante do que ser verdadeiramente inteligente, revela, será mesmo só parecer inteligente. A investigadora nota que a inteligência foi inicialmente considerada como um bom indicador para prever uma posição de poder mas os estudos indicam, que, afinal, a relação entre uma coisa e outra é fraca. Basta a reputação de inteligente – que se consegue através da extroversão e comportamentos confiantes – para ser um candidato mais forte a ocupar uma situação de poder.
E o mesmo vale para a competência. “No contexto social, as pessoas dominadoras são assertivas e decididas. Esta assertividade cria a impressão de competência, mesmo quando elas não são necessariamente mais competentes e a competência (ou apenas a sua aparência) é o factor-chave para chegar até um lugar de poder.”

A relação entre testosterona e poder também tem o que se lhe diga. “Ao nível hormonal, a testosterona tem sido associada a personalidades dominadoras”, refere o artigo esclarecendo, no entanto, que a relação entre a hormona masculina e o poder também é frágil. O que terá mais peso são factores como a produção da hormona cortisol em resposta a situações de stress. Por outro lado, nota a investigadora, a relação seria sempre recíproca porque ter poder também pode aumentar os níveis de testosterona.

Quem chega lá?

 Na cabeça de Donald Trump

 Na cabeça de Trump

https://www.publico.pt/2016/06/12/mundo/noticia/na-cabeca-de-donald-trump-1734563

Se tivéssemos que escolher os principais traços de personalidade de um forte candidato a uma posição de poder, a autoconfiança, o optimismo e um carácter dominador tinham de surgir no topo da lista. “São as pessoas que sabem dar uma resposta às necessidades de um grupo que tendem a emergir como líderes mais facilmente”, refere Ana Guinote ao PÚBLICO, acrescentando que “têm uma grande autoconfiança, que aumenta quando têm poder”.

Os estudos que faz em laboratório confirmam que estas pessoas “são muito voltadas para a acção, tomam decisões mais rápido, com mais determinação e com uma visão clara”. Tudo isto é bom. No entanto, o facto de serem muito voltadas para os seus objectivos e metas faz com que muitas vezes descurem outros aspectos “como o contexto social e as necessidades das pessoas à volta”.

Nota-se assim, “uma certa tendência, um certo enviesamento” para o egoísmo. “Mas não é por causa do poder em si próprio, mas geralmente porque alguma coisa já existe nessas pessoas. O poder abre as portas, dá espaço para defendermos o que achamos importante que, nesse caso, podem ser os próprios interesses. O poder aumenta a personalidade das pessoas.”

Desfaça-se o possível equívoco: o poder não é um território frequentado apenas por más pessoas. “Uma pessoa que não seja egoísta quando tem poder não vai ficar mais egoísta por isso. Há muitos líderes que servem a sociedade e que são muito voltados para o interesse dos outros”, esclarece a investigadora, que conclui: “o poder é sempre um risco.”

Um dos perigos mais evidentes é também a vulnerabilidade à corrupção, acrescenta Ana Guinote, que reconhece que as pessoas com poder são corrompidas e corrompem mais facilmente. Não só porque o poder lhes dá “espaço de manobra” mas também porque são como são: dominadoras, focadas nos objectivos. Porém, mais uma vez é a personalidade da pessoa que acaba por ser o factor mais determinante, sendo, por isso, necessário que exista já uma tendência para a corrupção e que, numa situação de poder, ganha força.

A separação entre o lado negro do poder e o lado mais positivo do poder faz-se muitas vezes com a interferência do ambiente, do grupo, da cultura em que a liderança é exercida. “A cultura organizacional, social, é importante porque no fundo os poderosos em termos evolutivos surgem porque defendem os interesses dos grupos. Normalmente, as pessoas com poder assumem metas organizacionais, metas relacionadas com o seu papel.” E, constata, há organizações que são mais voltadas para as pessoas, outras mais voltadas para a produção, para o lucro.

“Os que têm poder são focados em objectivos e se a organização, por exemplo, estiver muito centrada no produto, na parte financeira, os líderes vão ter isso como objectivo principal e podem negligenciar os trabalhadores, as pessoas à sua volta ou outros aspectos. Por isso, a cultura é uma maneira de ter algum controlo sobre as pessoas que têm poder”, defende Ana Guinote. Um dos estudos citados no artigo da investigadora envolveu um questionário a empresários de 15 países a quem foi pedido que fizessem uma lista com os seus principais objectivos. O crescimento do negócio estava no topo da lista seguido da continuidade do negócio e dos lucros. Os interesses familiares estavam no último lugar.

Mais infiéis?

Entre os vários trabalhos analisados pela professora de psicologia experimental também há os que se dedicaram a avaliar a vida pessoal das pessoas com poder. Focadas em perseguir os seus objectivos, as pessoas com poder também colocam uma dedicação especial na satisfação dos seus desejos, incluindo simples experiências recompensadoras como comer bem ou fazer sexo, constata Ana Guinote. Resultado: há mais infidelidade e casos de assédio sexual entre os “poderosos”, nota a investigadora. “As pessoas no poder são mais autoconfiantes e isso manifesta-se em vários contextos, também no domínio romântico. Mas é importante referir que é algo que acontece a homens e mulheres. As mulheres que têm poder também são mais infiéis”, explica, acrescentando que “o poder parece abrir as portas para tudo o que se possa desejar”.

E pode tornar-se um vício? “As pessoas quando têm poder não querem perdê-lo. Pode ser uma espécie de um vício. A questão é saber se o poder dá prazer.” Os estudos com modelos animais que olharam para dentro do cérebro, e que revelaram que este tipo de papel desencadeia a produção de dopamina e a activação dos circuitos cerebrais associados à recompensa, parecem indicar que sim: o poder dá prazer.

Há muitas formas de poder que jogam com múltiplos traços de personalidade. Mas há traços comuns no arriscado exercício do poder, como mostra Ana Guinote que em Junho deverá lançar um livro em co-autoria com Arménio Rego, da Faculdade de Economia e Gestão da Católica do Porto (ou Católica Porto Business School, no nome oficial), e Miguel Cunha, da Faculdade de Economia e Gestão da Nova (Nova Business School, no nome oficial), com o título: “Poder: Veneno e Remédio”. Para já, acredita que o artigo de revisão agora publicado na revista Annual Review of Psychology pode ser útil para evitar o veneno ou o “lado negro do poder”. “É importante que, através do treino, se contrarie a tendência das pessoas que estão no poder para serem demasiado focadas nas metas, organizacionais ou pessoais. O treino, de facto, funciona. Depois pode-se alterar a cultura das organizações para que estejam mais conscientes e vigilantes para este tipo de perigos associados ao poder: a tendência para a corrupção ou outros. Devemos também ter o cuidado de seleccionar pessoas para ocupar cargos de poder que tenham um certo perfil pessoal que favoreça as relações com os outros, o respeito.”

O artigo de Ana Guinote não faz distinções de idades no que toca a poder. Porém, a investigadora adianta que as crianças têm um código diferente e que, até por volta dos sete anos, é a força física que distingue quem tem ou não tem poder. Depois, o “estatuto” no grupo começa a ganhar importância. E os mais velhos? “Neste momento, estou a comparar os efeitos do poder ao longo do desenvolvimento adulto. Por exemplo, casos como Donald Trump ou Theresa May que são pessoas com poder e que são mais velhas. Não se sabe muito bem como é que o poder afecta as pessoas depois da meia-idade. Os estudos são feitos normalmente com pessoas mais novas.” Para já, Ana Guinote descreve o actual Presidente dos Estados Unidos como alguém que “parece uma pessoa bastante dominadora e muito voltada para o uso de força”. Alguém discorda?
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Fonte:  https://www.publico.pt/2017/05/01/ciencia/noticia/o-que-e-que-o-poder-faz-as-pessoas-1769022

Caroline Chan, engenheira da computação: 'O 5G não é apenas uma evolução tecnológica'


"Apesar de a rede 5G trazer mais velocidade para telefones, o foco é conectar todos os outros dispositivos", diz Caroline Chan. Foto: Guito Moreto / Agência O Globo
 "Apesar de a rede 5G trazer mais velocidade para telefones, o foco é conectar todos os outros dispositivos", diz Caroline Chan. - 
Guito Moreto / Agência O Globo

Chinesa veio ao Rio participar da 5G Latin America Conference para discutir as redes de nova geração

Últimas de Conte algo que não sei
"Nasci em Nanjing, na China. Sou formada em engenharia da computação pela Universidade de Texas (Austin) e tenho MBA em engenharia elétrica pela Universidade de Massachusetts Amherst. Estou na Intel há oito anos. Tenho quase 25 anos de experiência no setor de telecomunicações"

Conte algo que não sei.
O 5G não é apenas uma evolução tecnológica. Vai transformar indústrias e produzir novos modelos de negócios. O 5G possibilitará experiências incríveis trazendo o fluxo de dados em tempo real para realidade virtual e realidade aumentada.

Após o 4G, o que podemos esperar da tecnologia 5G?
Na era do 5G, serão mais de 50 bilhões de dispositivos conectados, de carros autônomos a equipamentos de realidade virtual 8K (de alta definição de imagem). Eles se conectarão à nuvem, através de um conjunto de tecnologias. Apesar de a rede 5G trazer mais velocidade para telefones, o foco é conectar todos os outros dispositivos. Este será um ponto de inflexão histórico para a indústria, trazendo conectividade perfeita, poder de computação maciça e acesso rápido para pessoas e objetos.

Então será como no mundo imaginário do desenho animado os Jetsons?
No desenho, eles viviam em um mundo onde conversas por vídeo eram comuns. O 5G será essencial se quisermos cumprir a promessa de um mundo inteligente, conectado e seguro. O 5G permitirá conexões mais fáceis entre objetos e uma variedade de aplicações. As cidades vão precisar da onipresença e do desempenho do 5G para conectar dispositivos, dos postes de luz nas ruas aos carros. Essas conexões ajudarão a tornar nossa vida cotidiana mais fácil.

Com os carros conectados haverá melhoria na mobilidade urbana?
Uma rede 5G vai ajudar a conectar milhões de automóveis autônomos, revolucionando a mobilidade urbana e reduzindo o número de acidentes e os congestionamentos nos grandes centros urbanos. Permitirá uma comunicação rápida entre os carros, a infraestrutura e as coisas ao seu redor, tornando possível detectar o que está acontecendo na próxima esquina ou quilômetros à frente. Muitas indústrias serão impactadas, como saúde, varejo e educação.

Mas como essa rede vai suportar trafegar volume tão alto de dados?
Essa rede é crucial para suportar não só o aumento do tráfego de dados, mas também as diversas necessidades de entrega de novos casos de uso que o 5G permitirá. Estamos investindo em inteligência artificial e analítica que vão melhorar a tomada de decisões e abrirão novos caminhos para que as indústrias rentabilizem os dados que coletam e usam.

Quando vamos ver esse novo mundo?
As tecnologias que permitem a implementação do 5G estão sendo definidas agora. Veremos testes em 2018, com implantações padronizadas previstas para 2020.

E como está o Brasil nesse cenário?
Precisamos avançar na discussão sobre como implementar o 5G no Brasil, especialmente em termos de definição de frequências nas quais a tecnologia irá operar, para aproveitar plenamente todo o poder da rede. Aqueles países que são capazes de implementar essas novas normas vão liderar o caminho. Para países emergentes, como o Brasil, onde a infraestrutura com fio é muito cara, o 5G tem a possibilidade de mudar a forma como trabalhamos e vivemos, como cultivamos nossos alimentos, comunicamos uns com os outros, como viajamos e trabalhamos.
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REPORTAGEM POR Bruno Rosa 02/05/2017

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Luta de classes, século XXI

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Zygmunt Bauman avisou, apoiando-se em Gramsci: a democracia torna-se cada vez mais oca, quando a aristocracia financeira impõe seu poder e resta à sociedade participar de eleições cosméticas

Por Gustavo Henrique Freire Barbosa

A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo não pode nascer; neste interregno, aparece uma grande variedade de sintomas mórbidos”, escreveu Antonio Gramsci durante o longo período em que ficou encarcerado na prisão de Tudi di Bari, na Itália.

Sobre os dizeres do pensador italiano, escritos entre os anos 1920 e 1930, Zygmunt Bauman sugere que a atual situação do planeta corresponde a um novo interregno. O velho, assim, estaria morrendo, de maneira que se encontraria moribunda a antiga ordem baseada no entrelaçamento entre o território, o Estado e a nação enquanto referências de organismos operacionais soberanos. Neste contexto, a prevalência do capital financeiro e a transnacionalização das relações econômicas, características fundamentais da globalização, vêm sucessivamente transferindo os núcleos de decisão política dos Estados nação para entidades internacionais como o FMI e a Comissão Europeia. Tais entidades, no afã de atingir seus predatórios objetivos de acumulação, adotam como modus operandi a sistemática subjugação de soberanias nacionais e a incontida subversão de ordenamentos jurídicos, conseguindo escapar do princípio clássico de que “aquele que governa tem o poder e faz as leis”. 

Eis onde se encontra, conforme refletiu Gramsci, o nascituro impossibilitado de sair do ventre: os organismos políticos herdados de tempos anteriores à globalização vêm se mostrando inadequados e insuficientes para lidar com uma realidade na qual as novas formas de organização política e econômica escapam do controle local por meio de leis e da própria Constituição. Veja-se o recrudescimento das medidas de austeridade aplicadas no Brasil, consagradas com a PEC da previdência e com a mais recente aprovação da PEC 55: para atender aos reclamos do rentismo internacional, comprometeu-se a normatividade de uma série de direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988, restringindo, assim, o aporte de recursos imprescindíveis para as suas concretizações. Munidos da tecnocracia vulgar, ignoraram as alternativas palpáveis ao arrocho fiscal e optaram por seguir à risca a cartilha da espoliação pós-moderna, na qual recursos são drenados para o mercado financeiro ao completo arrepio dos mecanismos de controle e dos objetivos programáticos encartados no texto constitucional.

 "...se problemas globais requerem soluções globais, está correto o bilionário norte-americano Warren Buffet quando reconhece que “claro que há luta de classes, e é a minha classe, 
a dos ricos, que está vencendo.”

Assim, toda a estrutura decisória que fundamenta esta nova ordem global passa a gravitar em torno das corporações internacionais, deixando um “déficit democrático” nos parlamentos, governos e instituições voltadas à participação popular direta, de maneira que as expressões de uma democracia eficaz costumam ser vistas com manifesta desaprovação. Basta atentarmos para a histeria com que foi recebido o Decreto nº 8.243/2014, que visa instituir a Política Nacional de Participação Popular na gestão pública, e as paradigmáticas experiências da Argentina, Equador e Eslovênia: enquanto os credores internacionais encararam com preocupação o fato dos países latino-americanos terem, em momentos diversos, demonstrado condições de saldar suas dívidas, preocupando-se com a possibilidade da liberdade econômica e a independência financeira adquiridas serem usadas para rechaçar a aplicação de medidas de austeridade, a suprema corte eslovena impediu a realização de um referendo constitucional convocado contra as imposições do mercado financeiro. Alegou que colocaria em perigo outros valores constitucionais que deveriam ter prioridade em uma situação de crise econômica. Que valores são estes? Os oriundos da racionalidade das autoridades financeiras internacionais que pressionavam o país europeu para que adotasse o austericídio que vêm destruindo nações como o Chipre, a Grécia e a Espanha. 

Falar de um livre mercado nestas circunstâncias é uma piada de péssimo gosto, concluiu Chomsky em uma de suas entrevistas ao jornalista David Barsamian compiladas no livro A Minoria Próspera e a Multidão Inquieta. Sua declaração faz total sentido no momento em que é completamente estranha ao mapeamento cognitivo dos think tanks liberais a compreensão de que a verdadeira liberdade está indiscutivelmente ligada à efetiva soberania nacional, livre de pressões e ameaças. A abertura de canais para interferências externas na autodeterminação dos Estados nacionais, cuja desregulamentação é vista com satisfação pelos ideólogos do neoliberalismo, é tida por estes como uma expressão da “liberdade econômica” ainda que se trate de um descarado atentado ao poder e a liberdade das nações decidirem seus rumos conforme os interesses do que Rousseau definiu como “vontade geral”. Não assusta que o economista Friedrich Hayek, referência intelectual da apologética globalitária, tenha afirmado em uma reveladora visita ao Chile de Pinochet que sua “preferência se inclina na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo”.

No artigo “O mundo da ordem”, publicado em setembro de 1984 na Folha de S. Paulo, Marilena Chauí afirmava que a perenidade do pensamento conservador autoritário no Brasil apoia-se não apenas no conjunto das instituições e práticas sociopolíticas, mas também na interiorização de certas imagens. Uma destas imagens é a peculiar visão que se tem da luta de classes, que aparece simplesmente como um confronto armado provocado pelo andar de baixo contra o andar de cima da sociedade. Esta perspectiva reducionista da insolubilidade de interesses entre classes sociais não consegue observar que o conflito gira, sobretudo, em torno da conservação das formas de dominação através das instituições, leis e costumes. Os embates por maiores fatias do orçamento geral – hoje destinado quase em sua metade ao pagamento de juros e amortização da dívida – e contra a drenagem de recursos públicos em favor do mercado financeiro, por exemplo, correspondem a claras manifestações das lutas de classes, pois englobam postulações inconciliáveis acerca de quem o Estado deve servir. Ademais, se problemas globais requerem soluções globais, está correto o bilionário norte-americano Warren Buffet quando reconhece que “claro que há luta de classes, e é a minha classe, a dos ricos, que está vencendo.”
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Fonte:  http://outraspalavras.net/destaques/luta-de-classes-seculo-xxi/ 30/04/2017

Delicadeza é a virtude necessária para a percepção do amor no mundo

Luiz Felipe Pondé*

 "O gosto do amor é a confiança nas coisas que ele 
dá a quem o experimenta."

Muitos duvidam da existência do amor. Muitos afirmam ser ele uma invenção da literatura. Outros, que se trata de uma projeção neurótica imaginária. Uma patologia da família das manias. Há quem suspeite de que seja uma doença da alma. Estão errados. 

Quem conhece o amor sabe que ele habita entre nós. E sua presença nos faz sentir vivos. Por isso, o ressentimento é cego ao amor. Pode ser raro, randômico, frágil muitas vezes, mas nem por isso menos marcante quando percebido. 

Este é o tema do filme sueco "Um Homem Chamado Ove", de Hannes Holm, que foi indicado para melhor filme estrangeiro no Oscar deste ano. O cinema escandinavo está sempre entre os melhores do mundo. Poucos lidam com temas do afeto de forma tão elegante, do desespero à beleza, mas sempre elegante. 

A história é um clássico: a morte de uma esposa amada e a solidão decorrente. O filme narra a "cura" do homem chamado Ove, principalmente, pelas mãos de sua vizinha grávida iraniana, e suas filhas, além de todos os vizinhos em volta, lembrando, em muitas cenas, uma máxima rabínica: Deus está nos detalhes. 

E o Messias entra pela fresta da porta. O amor também, como diz o livro bíblico "Cântico dos Cânticos". A falta de atenção para com os detalhes torna qualquer pessoa obcecada pela falta de sentido das coisas. A delicadeza é a virtude cognitiva necessária para a percepção do amor no mundo.
Só quem conhece o amor sabe o desespero que pode ser perder a quem se ama. O amor é incomum. 

Claro, nada tem a ver necessariamente com o casamento. Pode, inclusive, morrer pelas mãos do casamento. Casa-se com quem se ama porque o amor pede o convívio. A presença viva de que ele existe. 

Estar longe de quem se ama implica uma falta que beira a asfixia. Na verdade, o amor está entre as formas mais poderosas de significado na vida. E vai muito além do amor romântico propriamente dito. 

A percepção repentina do amor pode dar a quem o vê a sensação de estar diante de um milagre, dada a sua leveza, humildade e generosidade. 

A falta de amor na vida produz um certo ceticismo em relação ao mundo. Ou pior: o sentimento de inexistência. O mundo fica escuro, e você, vazio. A falta de amor beira a descrença. Perde-se a confiança nas coisas. Mesmo nas árvores e nos pássaros. 

Um dos pecados maiores da inteligência é chegar à conclusão de que o amor é uma ficção. Mas não é a inteligência que aí fala, mas a tristeza de um coração em agonia.

Muitas vezes, pessoas supostamente inteligentes consideram o amor algo ingênuo e pueril e quem ama um equivocado. 

Não há razões pra amar, uma vez que o mundo parece provar a cada minuto que ele é o terreno da raiva, do rancor e do ressentimento. A ciência do mundo parece mesmo ser um tratado sobre a desconfiança.

Søren Kierkegaard (1813-1855), em seu "As Obras do Amor", da editora Vozes, alerta aos inteligentes que não confundam o amor com alguma forma de ignorância da mentira e dos riscos.
A desconfiança se acha a mais completa das virtudes morais ou cognitivas. A armadilha de quem desconfia sempre é que ele mesmo se sente inexistente para o mundo porque este é sempre visto com desprezo. É da natureza do amor olhar para fora e não para dentro. O amor não é apaixonado por si mesmo. 

Outra suposta arma contra o amor é o fato de a hipocrisia reinar no mundo. A hipótese de a hipocrisia ser a substância da moral pública parece inviabilizar o amor por conta de sua cegueira para com esta hipocrisia mesma. 

É verdade: o amor não vê a hipocrisia. Kierkegaard diz que há um "abismo escancarado" entre eles. Este abismo é de natureza, isto é, a diferença de postura entre os dois torna o amor tão distante da hipocrisia, que sua pantomima, fruto do desprezo pelas coisas, é invisível aos olhos do amor que une as coisas. 

O amor é concreto como o dia a dia. Engana-se quem o considera abstrato e fantasioso. Kierkegaard nos lembra em seu primeiro ensaio como o amor só se conhece pelos frutos. Isso implica que não há propriamente uma percepção do amor que não seja prática. O gosto do amor é a confiança nas coisas que ele dá a quem o experimenta. 
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 * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
FONTE:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/03/1869990-delicadeza-e-a-virtude-necessaria-para-a-percepcao-do-amor-no-mundo.shtml