terça-feira, 6 de junho de 2017

Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti debatem a sociedade do hiperconsumo no Fronteiras do Pensamento

Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista
Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista 
LUIZ MUNHOZ/FRONTEIRAS DO PENSAMENTO/DIVULGAÇÃO/JC

Bárbara Lima

O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o economista brasileiro Eduardo Giannetti debateram, na noite desta segunda-feira (5), em frente à plateia lotada do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da Ufrgs, em Porto Alegre, questões sobre a sociedade contemporânea, o hiperconsumo e as consequências da economia desse sistema para o meio ambiente. Após a apresentação do tema, os dois conferencistas responderam as perguntas do público.

Lipovetsky, que lançou recentemente o livro Da Leveza, iniciou seu discurso comparando a lógica do viver pesado, relacionado ao trabalho e sacrifício, princípios que influenciavam mais o comportamento do século XX, com a lógica do viver leve, do hiperconsumo – que prioriza o lazer, viagens, jogos e experiências. O leve se tornou um valor e um ideal. A busca pelo zen, pela desaceleração e pelo equilíbrio são temas caros a sociedade atual.

Segundo Lipovetsky, no entanto, há um paradoxo na sociedade “light”: ao mesmo tempo em que se utiliza a tecnologia dos carros, por exemplo, para viagens rápidas – algo que tornaria a vida mais leve, ligeira e prática – os motoristas estão presos e estressados no trânsito.

As pessoas consomem, para ele, porque “o apetite da novidade se tornou a nossa nova droga” e quando desejos consumistas não são saciados frequentemente, o sentimento de vazio é “avassalador”. Países desenvolvidos economicamente apresentam altos índices de ansiedade, depressão e suicídios.

Apesar da constatação aparentemente pessimista, o francês disse que não se deve condenar o hiperconsumo, nem o elogiar, a fim de encontrar um equilíbrio real. “Consumo também é saúde, boa alimentação e remédios, então, não podemos demonizar tudo”, afirmou. Antes de passar a palavra para Giannetti, Lipovetsky propôs algumas possíveis soluções para este equilíbrio. “Eu acho que a humanidade espera outra coisa além da fuga para o consumismo. Isso não é o diabo, mas não é o melhor para o século XXI. Precisamos de menos paixão pelo consumo e de mais paixão pelo conhecimento. Precisamos do gosto pelo pensar. Precisamos de escola”, concluiu.

Já Giannetti ressaltou a importância de pensar a economia pelo viés ambiental. Para compor sua fala, ele se utilizou da proposição do Papa Francisco e de dados a respeito da emissão de gás carbônico no mundo. Conforme ele, de 7 bilhões de humanos, apenas 1 bilhão é responsável por cerca de 50% do total da emissão do gás poluente.

Segundo o economista, os “bens posicionáveis”, aqueles que conferem status por sua exclusividade, são os mais requisitados por todas as classes: pessoas em situação de pobreza desejam ascender à classe média, e a classe média que quer se tornar rica. A consequência desse hiperconsumismo é o descontrole das bases naturais da Terra.

Complementando Lipovetsky, o economista evidenciou outro paradoxo. A ciência, que prometia desvendar o mundo, trouxe ainda mais dúvidas para humanidade, tornando a existência vazia e sem propósito. “A tecnologia que pretendia dominar a natureza provoca destruição e descontrole das bases naturais da vida”, disse. 

No final da conferência, quando pegou o microfone para responder a uma das questões da plateia, Giannetti recebeu aplausos ao ressaltar a brasilidade das tendências mundiais. “O brasileiro, por ser fortemente influenciado por culturas afros e indígenas, me parece, cultiva valores menos consumistas, buscando valorizar o momento”, concluiu.
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Fonte: - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/geral/566628-gilles-lipovetsky-e-eduardo-giannetti-debatem-a-sociedade-do-hiperconsumo-no-fronteiras-do-pensamento.html)
Cultura Alterada em 05/06 às 23h22min Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti debatem a sociedade do hiperconsumo no Fronteiras do Pensamento Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista LUIZ MUNHOZ/FRONTEIRAS DO PENSAMENTO/DIVULGAÇÃO/JC Bárbara Lima O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o economista brasileiro Eduardo Giannetti debateram, na noite desta segunda-feira (5), em frente à plateia lotada do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da Ufrgs, em Porto Alegre, questões sobre a sociedade contemporânea, o hiperconsumo e as consequências da economia desse sistema para o meio ambiente. Após a apresentação do tema, os dois conferencistas responderam as perguntas do público. Lipovetsky, que lançou recentemente o livro Da Leveza, iniciou seu discurso comparando a lógica do viver pesado, relacionado ao trabalho e sacrifício, princípios que influenciavam mais o comportamento do século XX, com a lógica do viver leve, do hiperconsumo – que prioriza o lazer, viagens, jogos e experiências. O leve se tornou um valor e um ideal. A busca pelo zen, pela desaceleração e pelo equilíbrio são temas caros a sociedade atual. Segundo Lipovetsky, no entanto, há um paradoxo na sociedade “light”: ao mesmo tempo em que se utiliza a tecnologia dos carros, por exemplo, para viagens rápidas – algo que tornaria a vida mais leve, ligeira e prática – os motoristas estão presos e estressados no trânsito. As pessoas consomem, para ele, porque “o apetite da novidade se tornou a nossa nova droga” e quando desejos consumistas não são saciados frequentemente, o sentimento de vazio é “avassalador”. Países desenvolvidos economicamente apresentam altos índices de ansiedade, depressão e suicídios. Apesar da constatação aparentemente pessimista, o francês disse que não se deve condenar o hiperconsumo, nem o elogiar, a fim de encontrar um equilíbrio real. “Consumo também é saúde, boa alimentação e remédios, então, não podemos demonizar tudo”, afirmou. Antes de passar a palavra para Giannetti, Lipovetsky propôs algumas possíveis soluções para este equilíbrio. “Eu acho que a humanidade espera outra coisa além da fuga para o consumismo. Isso não é o diabo, mas não é o melhor para o século XXI. Precisamos de menos paixão pelo consumo e de mais paixão pelo conhecimento. Precisamos do gosto pelo pensar. Precisamos de escola”, concluiu. Já Giannetti ressaltou a importância de pensar a economia pelo viés ambiental. Para compor sua fala, ele se utilizou da proposição do Papa Francisco e de dados a respeito da emissão de gás carbônico no mundo. Conforme ele, de 7 bilhões de humanos, apenas 1 bilhão é responsável por cerca de 50% do total da emissão do gás poluente. Segundo o economista, os “bens posicionáveis”, aqueles que conferem status por sua exclusividade, são os mais requisitados por todas as classes: pessoas em situação de pobreza desejam ascender à classe média, e a classe média que quer se tornar rica. A consequência desse hiperconsumismo é o descontrole das bases naturais da Terra. Complementando Lipovetsky, o economista evidenciou outro paradoxo. A ciência, que prometia desvendar o mundo, trouxe ainda mais dúvidas para humanidade, tornando a existência vazia e sem propósito. “A tecnologia que pretendia dominar a natureza provoca destruição e descontrole das bases naturais da vida”, disse. No final da conferência, quando pegou o microfone para responder a uma das questões da plateia, Giannetti recebeu aplausos ao ressaltar a brasilidade das tendências mundiais. “O brasileiro, por ser fortemente influenciado por culturas afros e indígenas, me parece, cultiva valores menos consumistas, buscando valorizar o momento”, concluiu. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/geral/566628-gilles-lipovetsky-e-eduardo-giannetti-debatem-a-sociedade-do-hiperconsumo-no-fronteiras-do-pensamento.html)
Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti debatem a sociedade do hiperconsumo no Fronteiras do Pensamento Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista LUIZ MUNHOZ/FRONTEIRAS DO PENSAMENTO/DIVULGAÇÃO/JC Bárbara Lima O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o economista brasileiro Eduardo Giannetti debateram, na noite desta segunda-feira (5), em frente à plateia lotada do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da Ufrgs, em Porto Alegre, questões sobre a sociedade contemporânea, o hiperconsumo e as consequências da economia desse sistema para o meio ambiente. Após a apresentação do tema, os dois conferencistas responderam as perguntas do público. Lipovetsky, que lançou recentemente o livro Da Leveza, iniciou seu discurso comparando a lógica do viver pesado, relacionado ao trabalho e sacrifício, princípios que influenciavam mais o comportamento do século XX, com a lógica do viver leve, do hiperconsumo – que prioriza o lazer, viagens, jogos e experiências. O leve se tornou um valor e um ideal. A busca pelo zen, pela desaceleração e pelo equilíbrio são temas caros a sociedade atual. Segundo Lipovetsky, no entanto, há um paradoxo na sociedade “light”: ao mesmo tempo em que se utiliza a tecnologia dos carros, por exemplo, para viagens rápidas – algo que tornaria a vida mais leve, ligeira e prática – os motoristas estão presos e estressados no trânsito. As pessoas consomem, para ele, porque “o apetite da novidade se tornou a nossa nova droga” e quando desejos consumistas não são saciados frequentemente, o sentimento de vazio é “avassalador”. Países desenvolvidos economicamente apresentam altos índices de ansiedade, depressão e suicídios. Apesar da constatação aparentemente pessimista, o francês disse que não se deve condenar o hiperconsumo, nem o elogiar, a fim de encontrar um equilíbrio real. “Consumo também é saúde, boa alimentação e remédios, então, não podemos demonizar tudo”, afirmou. Antes de passar a palavra para Giannetti, Lipovetsky propôs algumas possíveis soluções para este equilíbrio. “Eu acho que a humanidade espera outra coisa além da fuga para o consumismo. Isso não é o diabo, mas não é o melhor para o século XXI. Precisamos de menos paixão pelo consumo e de mais paixão pelo conhecimento. Precisamos do gosto pelo pensar. Precisamos de escola”, concluiu. Já Giannetti ressaltou a importância de pensar a economia pelo viés ambiental. Para compor sua fala, ele se utilizou da proposição do Papa Francisco e de dados a respeito da emissão de gás carbônico no mundo. Conforme ele, de 7 bilhões de humanos, apenas 1 bilhão é responsável por cerca de 50% do total da emissão do gás poluente. Segundo o economista, os “bens posicionáveis”, aqueles que conferem status por sua exclusividade, são os mais requisitados por todas as classes: pessoas em situação de pobreza desejam ascender à classe média, e a classe média que quer se tornar rica. A consequência desse hiperconsumismo é o descontrole das bases naturais da Terra. Complementando Lipovetsky, o economista evidenciou outro paradoxo. A ciência, que prometia desvendar o mundo, trouxe ainda mais dúvidas para humanidade, tornando a existência vazia e sem propósito. “A tecnologia que pretendia dominar a natureza provoca destruição e descontrole das bases naturais da vida”, disse. No final da conferência, quando pegou o microfone para responder a uma das questões da plateia, Giannetti recebeu aplausos ao ressaltar a brasilidade das tendências mundiais. “O brasileiro, por ser fortemente influenciado por culturas afros e indígenas, me parece, cultiva valores menos consumistas, buscando valorizar o momento”, concluiu. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/geral/566628-gilles-lipovetsky-e-eduardo-giannetti-debatem-a-sociedade-do-hiperconsumo-no-fronteiras-do-pensamento.html)
Gilles Lipovetsky e Eduardo Giannetti debatem a sociedade do hiperconsumo no Fronteiras do Pensamento Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista Lipovetsky refletiu sobre a filosofia da "leveza" na sociedade contemporânea hiperconsumista LUIZ MUNHOZ/FRONTEIRAS DO PENSAMENTO/DIVULGAÇÃO/JC Bárbara Lima O filósofo francês Gilles Lipovetsky e o economista brasileiro Eduardo Giannetti debateram, na noite desta segunda-feira (5), em frente à plateia lotada do Fronteiras do Pensamento, no Salão de Atos da Ufrgs, em Porto Alegre, questões sobre a sociedade contemporânea, o hiperconsumo e as consequências da economia desse sistema para o meio ambiente. Após a apresentação do tema, os dois conferencistas responderam as perguntas do público. Lipovetsky, que lançou recentemente o livro Da Leveza, iniciou seu discurso comparando a lógica do viver pesado, relacionado ao trabalho e sacrifício, princípios que influenciavam mais o comportamento do século XX, com a lógica do viver leve, do hiperconsumo – que prioriza o lazer, viagens, jogos e experiências. O leve se tornou um valor e um ideal. A busca pelo zen, pela desaceleração e pelo equilíbrio são temas caros a sociedade atual. Segundo Lipovetsky, no entanto, há um paradoxo na sociedade “light”: ao mesmo tempo em que se utiliza a tecnologia dos carros, por exemplo, para viagens rápidas – algo que tornaria a vida mais leve, ligeira e prática – os motoristas estão presos e estressados no trânsito. As pessoas consomem, para ele, porque “o apetite da novidade se tornou a nossa nova droga” e quando desejos consumistas não são saciados frequentemente, o sentimento de vazio é “avassalador”. Países desenvolvidos economicamente apresentam altos índices de ansiedade, depressão e suicídios. Apesar da constatação aparentemente pessimista, o francês disse que não se deve condenar o hiperconsumo, nem o elogiar, a fim de encontrar um equilíbrio real. “Consumo também é saúde, boa alimentação e remédios, então, não podemos demonizar tudo”, afirmou. Antes de passar a palavra para Giannetti, Lipovetsky propôs algumas possíveis soluções para este equilíbrio. “Eu acho que a humanidade espera outra coisa além da fuga para o consumismo. Isso não é o diabo, mas não é o melhor para o século XXI. Precisamos de menos paixão pelo consumo e de mais paixão pelo conhecimento. Precisamos do gosto pelo pensar. Precisamos de escola”, concluiu. Já Giannetti ressaltou a importância de pensar a economia pelo viés ambiental. Para compor sua fala, ele se utilizou da proposição do Papa Francisco e de dados a respeito da emissão de gás carbônico no mundo. Conforme ele, de 7 bilhões de humanos, apenas 1 bilhão é responsável por cerca de 50% do total da emissão do gás poluente. Segundo o economista, os “bens posicionáveis”, aqueles que conferem status por sua exclusividade, são os mais requisitados por todas as classes: pessoas em situação de pobreza desejam ascender à classe média, e a classe média que quer se tornar rica. A consequência desse hiperconsumismo é o descontrole das bases naturais da Terra. Complementando Lipovetsky, o economista evidenciou outro paradoxo. A ciência, que prometia desvendar o mundo, trouxe ainda mais dúvidas para humanidade, tornando a existência vazia e sem propósito. “A tecnologia que pretendia dominar a natureza provoca destruição e descontrole das bases naturais da vida”, disse. No final da conferência, quando pegou o microfone para responder a uma das questões da plateia, Giannetti recebeu aplausos ao ressaltar a brasilidade das tendências mundiais. “O brasileiro, por ser fortemente influenciado por culturas afros e indígenas, me parece, cultiva valores menos consumistas, buscando valorizar o momento”, concluiu. - Jornal do Comércio (http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2017/06/geral/566628-gilles-lipovetsky-e-eduardo-giannetti-debatem-a-sociedade-do-hiperconsumo-no-fronteiras-do-pensamento.html)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Juízes se julgam deuses, procuradores santos e advogados, a ética pura

Luiz Felipe Pondé*
 para segunda-feira, dia 05/06/2017 - 05.jun.17
A política é um circo. Quanto menos você tiver esperança política, menos você se iludirá sobre a realidade política. O ceticismo em filosofia sempre aconselhou uma postura mais conservadora e cuidadosa quanto às promessas políticas. Desde que a política se tornou objeto de fé, passamos a ter expectativas salvacionistas através da política. E a política não passa da conquista, gestão, manutenção e distribuição do poder. 

Não há nenhuma dimensão "ética" na política, nem nunca houve. O que há são sociedades mais ricas em que seus políticos destruíram outras sociedades no mundo para garantir o aspecto de santos nas suas próprias (e a população goza dessa santidade na mesma medida). 

Eu, pessoalmente, espero o mínimo da política. Que não nos atrapalhe em demasia, por isso, que seja mínima. 

O erro crasso de quem espera uma redenção política é não prestar atenção na política mais próxima dele. É comum grandes canalhas cotidianos agirem de modo politicamente canalha nas instituições em que trabalham, mas sustentarem um discurso "ético" na "grande política" (esse mito de gabinete). 

Por exemplo, mentir, manipular o cotidiano institucional, usurpar ganhos alheios, destruir carreiras de colegas em universidades, igrejas, sindicatos de classe, grupos artísticos, corporações de todos os tipos, enfim, fazer política real. Mas quando se trata de falar da "grande política", enche os olhos de lágrimas em nome da justiça social. 

A redenção do mundo via política virou um mercado para canalhas específicos. Pense bem e verá que há um perto de você. 

O mundo não é perfeito, claro. Mas o Brasil parece, nos últimos tempos, trabalhar duro para destruir nosso cotidiano. O homem é um animal frágil moralmente, sempre foi e sempre será. Mas vivemos agora, de fato, a ruína moral dos Poderes no país. 

Em matéria de Poderes da República no Brasil, o Executivo sempre teve vocação getulista, ou seja, a vocação de ser o "pai ou mãe dos pobres". A miséria no país sempre foi um importante capital para correntes coronelistas-populistas como a do PT. 

O Legislativo é a representação perfeita do fisiologismo corrupto. Trabalha para si mesmo. Basta ver a corrida dos insetos em busca das misérias pós-Temer. Dane-se a estabilidade econômica. Querem a miserável Presidência por alguns meses. 

A economia é a única coisa que importa nisso tudo, mas, infelizmente, semiletrados de todos os tipos pensam que, quando se diz que é a economia que importa, estamos a defender "O Capital". Chega a ser ridícula a força desse mito ("Das Kapital") no pensamento. 

Não, "economia" aqui significa que você perde o emprego, deixa de comprar coisas, e os outros perdem o emprego porque você deixou de comprar coisas. Estágios são fechados, lojas também. Tudo para de circular. Mas você, que acredita em Papai Noel, ainda não entendeu que é a economia que sustenta tudo, inclusive coisas fofas, como os direitos humanos. E o dinheiro nunca foi produzido pela Chapeuzinho Vermelho. 

E o Poder Judiciário? Esse mesmo que até pouco tempo muita gente pensava ser um produto real da Marvel. Uma mistura de Batman, Super-Homem, Capitão América, Homem de Ferro e Thor. Não. O Poder Judiciário não é um monólito de pureza. 

Se o Executivo tem vocação ao populismo, e o Legislativo à corrupção pedestre, o pecado do Judiciário é a arrogância e a onipotência. Juízes se julgam deuses, procuradores santos, advogados representantes da ética nacional. Risadas? 

Para ingênuos talvez, mas não para quem já leu mais do que dois livros na vida. O Poder Judiciário, inclusive, ou principalmente o STF, é também um poder "político" na medida em que sofre a mesma pressão para articular, privilegiar, perseguir, em nome dos interesses materiais ou ideológicos de seus membros. 

E em meio a isso tudo, vem a moçada das diretas já, como num surto de gozo dos anos 1980. Como se a maioria desses (afora os ingênuos) não fossem os fanáticos da soberania popular "pura" ou não fossem os coronelistas do PT apostando na ressurreição do seu Drácula de bolso. 
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 * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/06/1890200-juizes-se-julgam-deuses-procuradores-santos-e-advogados-a-etica-pura.shtml

domingo, 4 de junho de 2017

Existe 'literatura de esquerda'? Escritores brasileiros opinam

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Damián Tabarovsky confronta autores do cânone literário para investigar se existe uma literatura de esquerda 
 Foto: Bárbara Scotto

Livro do autor argentino Damián Tabarovsky questiona a existência de uma literatura marginal e como ela se dá

Ronaldo Bressane *, Colaboração para o Estado
03 Junho 2017

“Esquerda anda, direita para”, eu avisei na escada rolante do metrô, e o dinossauro encastelado no degrau à frente virou para mim já com o punho erguido. Entendo: é que falar em esquerda e direita anda deixando todo mundo à beira de um ataque de pelanca. Dependendo do ângulo em que se esteja, chamar alguém de esquerdista ou direitista pode ser mais ofensivo que xingar a mãe. Deve ser por isso que, dos 20 escritores que procurei para perguntar, candidamente, “existe literatura de esquerda?”, só quatro se dignaram a me responder – os outros 16 vieram com desculpinhas tipo “Estou sem tempo para pensar nisso”, “Está tudo muito confuso”, “Me inclua fora dessa” etc. Notório isentão, O(A) Escritor(a) Brasileiro(a) mantém-se com um pé em cada ponta da escada rolante – e num passo em falso vai acabar se estabacando. 

Por essas e outras faz falta ao Brasil um escritor como o argentino Damián Tabarovsky. Ficcionista, ensaísta, editor e tradutor, Tabarovsky publicou em 2004 o ensaio Literatura de Esquerda, atraindo, na mesma proporção, palmas entusiasmadas e narizes torcidos (crítica comum foi “Não se mistura literatura e política”). O texto forma um livro homônimo que contém outros ensaios provocativos – e só 13 anos depois é lançado no Brasil, em edição charmosa, pela valente Relicário. De cara, previno o leitor de que “literatura de esquerda” não significa submissão às velhuscas categorias nascidas na Revolução Francesa muito menos ao limitado Fla-Flu PT versus PSDB que tem separado os dois neurônios pátrios. O buraco é mais embaixo. 

Tabarovsky divide os escritores entre os que ficam parados do lado direito e os que sobem ligeiros pelo lado esquerdo da escada rolante. Sua preocupação não é a estática, é a estética: “A literatura de esquerda suspeita de toda convenção, inclusive as próprias (...) Não busca inaugurar um novo paradigma, mas pôr em xeque a própria ideia de paradigma, a própria ideia de ordem literária.” O ensaísta usa “esquerda” como sinônimo de transgressão, de ousadia, de tesão suicida pela vanguarda, de desfaçatez tanto para com o mercado quanto para a academia; de negativismo, de corrosão; de um amor desmesurado pela inventividade e pela linguagem. “A literatura de esquerda é escrita pelo escritor sem público, pelo escritor que escreve para ninguém, em nome de ninguém, sem outra rede além do desejo louco de novidade.”
O texto de Tabarovsky tem a paixão pela frase brilhante de um Mencken e pela citação bem-sacada de um Benjamin (autores de polos ideológicos opostos). Ele exalta quem “escolhe a própria linguagem para perfurá-la, para buscar esse lado de fora – o lado de fora da linguagem – que nunca chega, que sempre se posterga, se desagrega (a literatura como forma de digressão), esse fora, ou talvez esse dentro inalcançável: a metáfora do mergulho (a invenção de uma língua dentro da língua); não mais o mergulho como busca da palavra justa, bela, precisa (o coral iluminado submerso), mas como o momento em que a caça submarina se extravia e se converte em lataria, ácido, vidro moído, coral de vidro moído (a exploração de um navio afundado)”. 

Em pouco mais de cem páginas, o argentino passeia entre 143 autores diversos, movido a parênteses dentro de parênteses, frases que se alongam até o paradoxo ou até redundarem em epifanias como “a literatura é uma tumba sem sossego”. O bicho é bom de briga. Chama para o octógono de Borges a Aira, passando por Cortázar, Pizarnik, Piglia e Saer: não sobra monstro sobre monstro sagrado. Se entrou para o cânone, Tabarovsky já calça as luvas – ele dá a preferência a lutadores gauches como Lamborghini e Copi. Exibe igual desprezo tanto por autores performáticos que valorizam o estrelato pop quanto soturnos nefelibatas que cabalam os votos da glória universitária. Irrita-o a percepção de que o pragmatismo, a mistificação e o fetiche de mercadoria na busca por uma “literatura café com leite” (“esses romances ‘bem escritos’, ‘inteligentes’, com insípidas gotas de experimentação, sem que por causa disso deixem de ser ‘emocionantes’, ‘arrebatadores’ e ‘profundos’, esses romances medianos como os de Kundera, Tabucchi, Saramago, Auster ou os novos novelões americanos como os de Franzen (...) são romances belos, agradáveis: não incomodam ninguém”) façam com que o escritor se contente em ser um mero “publicador de livros”. Tabarovsky propõe o risco e o abismo.  

“A graça da literatura está em derrubar: estava surfando quando uma onda me engoliu.” Para cortar o complexo de vira-latas, é a coisa mais parecida com o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade ou os Problemas Inculturais Brasileiros de Osman Lins que os hermanos já entregaram. Num momento em que a acomodação literária quase não ecoa a guerra polarizada das redes e das ruas do Brasil, Literatura de Esquerda é uma bem-vinda bofetada na cara de todo escritor: um golpe de ar, desses que nos fazem cair do conforto da escada rolante. 

A opinião dos autores brasileiros. Existe literatura de esquerda? E de direita? Quatro autores elegem três livros de cada espectro político: 

Angélica Freitas (Um Útero É do Tamanho de Um Punho): “Me ocorreram três que consideraria ‘de esquerda’, pelo que têm de preocupação com o outro: Habitante Irreal, do Paulo Scott, Treme Ainda, do Fábio Weintraub, e Coquetel Motolove, da Luiza Romão. Deve haver mais. Mas de direita por enquanto não me ocorre nenhum.” 

Joca Reiners Terron (Noite Dentro da Noite): “Toda a literatura brasileira é de esquerda, inclusive a de direita. Escrevemos em português, língua praticamente só falada aqui, país onde ninguém lê. Por esse descompromisso – com o mercado, que não a vende; com a academia, que não a interpreta –, a literatura brasileira está vinculada com a vanguarda. Nossos grandes referentes são vanguarda: Brás Cubas, Grande Sertão: Veredas. Comparada com Silvina Ocampo, Clarice é pura vanguarda. Diferentemente da Argentina, que desde os anos 1940 produziu ficção comercial, só agora começamos essa experiência: nossas chaves de leitura simbólica estão em campos contrários. Somos experimentais desde Pero Vaz de Caminha, enquanto eles produziram westerns desde o Martín Fierro.” 

Noemi Jaffe (Írizs: As Orquídeas): “Penso que ‘literatura de esquerda’ é a literatura que perturba os poderes estabelecidos: literários, políticos, sociais, culturais. No Brasil, talvez a coisa venha se agravando porque, como os poderes instituídos atuais são ilegítimos, creio que, se houver alguma literatura que os confirme, será não só de direita, mas de extrema direita, ou até burra. Literatura de direita, portanto, seria uma literatura burocrática, fática, enfim, um livrinho do Temer. Três livros de esquerda: Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, da Clarice Lispector; Os Ratos, do Dyonélio Machado; Formas do Nada, do Paulo Henriques Britto. De direita: putz, complicado. Sem citar Sarney, Temer, quem seriam? Algum do Paulo Coelho. Literatura só para efeito embelezador, essas moças que vendem que nem água, sabe? Zibia Gasparetto...” 

Marcelino Freire (Nossos Ossos): “Literatura de esquerda é de resistência, está sendo feita pelos saraus da periferia de São Paulo; a literatura das pequenas editoras; os livros lançados por selos independentes; o livro livre, solto pelos botecos, esquinas, feiras alternativas. De direita? Qualquer livro de autoajuda; qualquer um que pregue a alienação; as biografias chapas-brancas; os parágrafos escritos por padres festivos; os poemas reunidos do presidente golpista; Os Marimbondos de Fogo, do Sarney. De esquerda, citaria o Meio Intelectual, Meio de Esquerda, embora o autor, Antônio Prata, diga que é só metade de esquerda (rararará!); qualquer um do João Antônio; tudo o que estiver à margem. De direita: perdão, dá preguiça listar. Rarararará! Coloca aí os do Lobão. Credo!”
*Ronaldo Bressane é de esquerda, mas escreve com a mão direita. É autor de 'Mnemonáquina' (Romance, ed. Demônio Negro) e 'Metafísica Prática' (poesia, Oito e Meio)
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Capa do livro 'Literatura de Esquerda', de Damián Tabarovsky
Literatura de Esquerda
Autor: Damián Tabarovsky
Tradução: Ciro Lubliner e Tiago Cfer
Editora: Relicário
112 páginas
R$ 35
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Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,existe-literatura-de-esquerda-escritores-brasileiros-opinam,70001823969

Viet Thanh Nguyen: 'Fiquei atônito', revela escritor vietnamita vencedor do Pulitzer


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 Viet Thanh Nguyen, autor de 'O Simpatizante', vencedor do prêmio Pulitzer em 2016 
Foto: Oriana Koren/The New York Times

Viet Thanh Nguyen, autor de 'O Simpatizante', fala sobre como foi crescer distante de sua pátria

Paulo Nogueira*, Colaboração para o Estado

Viet Thanh Nguyen, como seu nome entrega, nasceu no Vietnã em 1970, mas vive desde os quatro anos nos EUA, onde é professor de literatura na Universidade da Califórnia. O Simpatizante, seu romance de estreia, não fez cerimônia: chegou chegando e embolsou em 2016 o mais icônico prêmio literário americano, o Pulitzer, para assombro – quase constrangimento – do próprio autor.  

A história começa em abril de 1975, em Saigon (hoje Ho Chi Minh), no epílogo da Guerra do Vietnã. Com a derrota sulista e de seus aliados norte-americanos, milhares de pessoas tentam fugir do país. Um capitão do Vietnã do Sul, jamais nomeado, é um agente duplo comunista e o protagonista do romance (Em tempo: hoje o Vietnã vive uma espécie de milagre econômico, no modelo comunista chinês, com quase metade da economia privatizada – se bobear, mais do que o Brasil –, mas regime de partido único e censura draconiana). 

A própria literatura universal veio ao mundo com um pé na estrada. Seja por imperativos políticos, econômicos ou artísticos, os escritores sempre bateram perna. Já no século 1, o poeta Ovídio foi desterrado para o Mar Negro, por pisar nos calos do imperador Augusto. Depois, rola um cortejo incessante: de Dante a Bolaño, de Joyce a Nabokov, passando pela “geração perdida” batizada por Gertrude Stein. Com a globalização, o fato de que o gênero romance floresceu como afirmação das identidades nacionais soa quase inverossímil.

O incipit (a abertura de uma obra literária) de O Simpatizante é memorável: “Sou um espião, um infiltrado, um agente secreto, um homem de duas caras.” O leitor poderá confiar na palavra – e nas quase 400 páginas – de um narrador na primeira pessoa que se assume como mentiroso? Se as aparências enganam, que dirá um camaleão? Ainda por cima uma confissão compulsória, destinada ao Comandante do campo vietcongue de prisioneiros onde o protagonista está confinado, depois de uma rocambolesca estadia em Los Angeles.  

Um romance de espionagem, tipo O Espião que Saiu do Frio, de John Lé Carré? Ou de guerra, como Os Nus e os Mortos, de Norman Mailer? Ou um thriller ideológico, como O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler? O Simpatizante é tudo isto, e não é nada disto, na medida em que este todo não está contido em suas partes. Trata-se, isto sim, de uma saga sobre o desenraizamento, a busca de um lugar no mundo, seja no sentido físico ou metafísico: o simpatizante está sempre em dúvida se olha para o passado ou para o futuro – e é este seu presente eterno. 

Como diz uma descendente de japoneses em L.A., a senhora Mori: “Por um bom tempo me senti mal. Ficava pensando por que não queria aprender japonês, por que não sabia falar japonês, por que preferia ir para Paris, Istambul ou Barcelona, em vez de Tóquio. Mas aí pensei: ‘Que se dane’. Alguém perguntava a John F. Kennedy se ele falava gaélico, visitou Dublin, comia batata toda noite ou colecionava quadros de gnomos? Então por que a gente não pode esquecer a nossa cultura? Minha cultura não é essa mesma, já que nasci aqui?” O protagonista discorda: “A coisa mais importante que nunca podíamos esquecer era que nunca podíamos esquecer.” O que não é fácil: “Um jovem vietnamita enamorado da América provou Coca-Cola, por assim dizer, e descobriu que era doce.” 

Este caleidoscópio cultural, jamais fixado, é refletido na polaridade Ocidente-Oriente, inclusive literária: o simpatizante escreveu uma tese sobre O Americano Tranquilo, de Graham Greene, devidamente espinafrado, assim como uma citação do indefectível Kipling (autor do poema O Fardo do Homem Branco) se revela uma platitude obtusa.  

Nguyen poderia ter assinado o enésimo romance panfletário e unidimensional sobre o imperialismo. Ou não – como notou alguém, certos livros são mais inteligentes que seus autores. Apesar dos momentos de amargura e dilaceração, O Simpatizante não se reduz a um libelo contra o sonho americano. Até porque a literatura lida com indivíduos, e não coletivos. Como ensinou Aristóteles: “Só há conceito no geral, mas só há existência no particular.” E, como os melhores personagens, este simpatizante é prismático até a raiz dos cabelos. Mata inocentes para o inimigo, para que o inimigo pense que ele é amigo: no mundo rarefeito da espionagem, o amigo do meu inimigo pode ser meu amigo... Ou, como o simpatizante admite, a respeito de uma dessas execuções: “Ele era um homem relativamente inocente, que é o máximo que se pode esperar neste mundo.” Aliás, ambos os lados da barricada torturam. Os fins justificam os meios, ou, como corrigia Camus, os meios comprometem os fins? 

A vacina de Nguyen contra o panfleto raso e ralo é um humor impagável, uma verve picaresca espelhada no fato de o protagonista ser um bastardo (mãe vietnamita, pai francês), um avatar de ilustre linhagem literária, a união precária de duas metades que nunca encaixam. Como observa a mãe dele: “Você não é a metade de algo, você é o dobro de tudo” – o que é provavelmente demais e de menos para qualquer um.  

Qual a relação do ser humano singular com as grandes marés históricas? Pelo menos na literatura, quem reina é o único, o idiossincrático – o protagonista que é uma minoria de um. Daí a crítica do Comandante à confissão do simpatizante, que lhe consumiu um ano: “A boa notícia é que ela mostra vislumbres de consciência revolucionária coletiva. A má é que sua linguagem trai você. Não é clara, não é sucinta, não é direta, não é simples. É a linguagem da elite. Precisa escrever para o povo!” 

O Comandante está certo, claro. Mas o simpatizante também está, ao cumprir ficcionalmente aqueles versos de um poeta brasileiro: “Minha pátria é a infância/Por isso vivo no exílio.” Felizmente, Viet Thanh Nguyen está mais certo do que todos eles. Ponto para os leitores. 

Confira abaixo a entrevista exclusiva com Viet Thanh Nguyen: 

Entre outras coisas, ‘O Simpatizante’ aborda a glamourização da violência e da guerra por Hollywood. O senhor abre uma exceção para ‘Apocalyse Now’, de Francis Ford Coppola?
Creio que Apocalypse Now é a apoteose do que Hollywood faz, pois é uma grande obra de arte. Mas também é um exemplo do que é a indústria americana do cinema. Por um lado, o filme de Coppola é contra a guerra e o papel que os americanos desempenharam no Vietnã. Por outro, é um reflexo do etnocentrismo americano. Porque é totalmente sobre os EUA e os americanos, e não sobre o Vietnã e os vietnamitas, que não passam de um pano de fundo, de uma desculpa para o drama americano. Creio que isso é emblemático de Hollywood, e foi o que pretendi satirizar. Mas também quis evocar especificamente Apocalypse Now, tanto pela sua proeminência artística, quanto pelo seu próprio desinteresse inconsciente pelas pessoas do Vietnã. 

Sua família imigrou para os EUA quando o senhor tinha quatro anos de idade. Tem alguma lembrança concreta de viver no Vietnã nessa época?
Não, mas penso no Vietnã ciclicamente. E acho que isto significa que não me vejo como um exilado, mas como um refugiado. Nos EUA, a imigração faz parte da mitologia do sonho americano, ao passo que os refugiados são muito mais assustadores para os americanos médios, e para os cidadãos em geral de outros países do mundo. Acho que isto ocorre porque os refugiados são mais ameaçadores: transgridem costumes e fronteiras, e trazem consigo imagens de medo, fracasso e contaminação. Minhas lembranças americanas começam num campo de refugiados nos EUA, onde fui separado dos meus pais. Isto constitui uma parte importante da minha identidade, e moldou tudo o que escrevi até hoje. 

A meu ver, o protagonista de ‘O Simpatizante’ é uma espécie de herói picaresco, fazendo o melhor que pode sob circunstâncias adversas e estranhas, ao mesmo tempo cômico e comovente. E, como muitos dos clássicos heróis picarescos, ele é um bastardo... 
Exato. Quando escrevi o romance, o gênero picaresco estava de fato na minha mente, e queria criar uma história que tivesse a ressonância das narrativas picarescas, com o protagonista percorrendo inúmeras terras e vivendo aventuras e desventuras. No fundo, ele é um pária à procura de um lar. Fazer dele um bastardo, alguém com origens étnicas misturadas, foi crucial. Porque não queria escrever sobre alguém que fosse completamente vietnamita, na medida em que isso facilitaria a identificação dos leitores vietnamitas com o protagonista. Queria que meus leitores vietnamitas também se sentissem desconfortáveis, para que assim reconhecessem que também tinham um papel naquilo que torna meu protagonista um bastardo. O fato de ele ser visto como um bastardo seja por franceses, americanos e vietnamitas é o que faz com que se sinta ao mesmo tempo em casa e perdido em todas aquelas culturas, movendo-se fluentemente por elas mas também sendo rejeitado por todas.  

O senhor às vezes pensa sobre o fato de ter nascido no Vietnã e, embora conserve muitas das suas raízes asiáticas, escreve em inglês – a atual “língua franca” do mundo – e talvez um dia possa fazer parte do cânone americano?
Sim. Vim do Vietnã criança, e hoje sou fluente no inglês, mas não no idioma vietnamita. Muita gente pode julgar que perdi minhas raízes. Naturalmente, as circunstâncias em que minha vida se desenvolveu não aconteceram por minha culpa – elas são o produto da história, e não sou incomum: existem muitas pessoas como eu. Mas é um estranho privilégio ser fluente em inglês – como você diz, a língua franca contemporânea –, o que significa que tenho a oportunidade, como o meu narrador/protagonista, de ser ao mesmo tempo parte e crítico desta cultura. Portanto, escrever em inglês significa que minha obra terá um alcance mundial, o que por sua vez me permite não apenas enaltecer mas também criticar a cultura americana, a maneira como aquele poder se constituiu. E se O Simpatizante um dia integrar o cânone americano, acredito que será graças a essas críticas que ele contém... 

Bem, o senhor já ganhou o prêmio Pulitzer, que é muito importante... 
Engraçado, não é? Um romance é crítico em relação a uma cultura, e esta mesma cultura lhe dá um prêmio prestigioso. Confesso que fiquei atônito. Mas não é tão surpreendente do ponto de vista da história literária, porque a função de escritores como eu é praguejar na língua que nos foi concedida, porque isto confirma para este país aquilo que os EUA acham que são: a terra do sonho americano, em que todos são livres para criticar o ‘american way of life’. É tanto uma maneira de premiar a crítica ao país quanto de enquadrá-la.
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Capa do livro 'O Simpatizante', de Viet Thanh Nguyen Foto: Companhia das Letras
O Simpatizante
Autor: Viet Thanh Nguyen
Tradução: Cássio de Arantes Leite
Editora: Companhia das Letras
392 páginas
R$ 59,90
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 *Paulo Nogueira é autor do romance 'O Amor é um Lugar Comum' (Editora Intermeios)

As ilusões da corrupção

 DELTAN DALLAGNOL*
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"A corrupção suga, por meio de mais e mais impostos, a energia da produção brasileira e, por meio de mais e mais desvios, 
a qualidade do serviço público."   


A corrupção vende ilusões. No espelho, o Brasil se enxergava mais bonito do que era, mas a Lava Jato revelou uma dura realidade. 

A cada mês, pencas de novos políticos e empresas são implicados, de diferentes partidos e setores. Grande parte da elite política e boa parte da elite econômica se uniram para lucrar e manter o poder por meio da corrupção. 

Fazer política e ser amigo do "rei" se tornou um excelente negócio no país. Além de enriquecerem juntos, os grandes corruptos sempre se protegeram, desde que o Brasil é Brasil, e não se deixaram punir. 

A explicação é simples: o mecanismo da punição é a lei. Os donos do poder garantem sua própria impunidade porque influenciam tanto o conteúdo da lei como quem a aplica. 

Olhando para além do espelho, observam-se distorções na percepção de níveis de igualdade, democracia e estabilidade política no Brasil. 

A República evoca a ideia do governo "entre iguais". Igualdade perante a lei existe no papel, mas na realidade estamos presos à máxima de Maquiavel: "Aos amigos os favores, aos inimigos a lei". 

Quando circunstâncias históricas excepcionais violam a proibição de prender criminosos da elite, os Poderes são conclamados a restabelecê-la. O Supremo é demandado a rever posições -alguém altera seu voto-, pois é preciso mudar para que tudo fique igual. 

O governo então se move para drenar a equipe policial, até que ela se torne infrutífera. O Congresso avança projetos para "estancar a sangria". É necessário sufocar a rebelião da lei contra o establishment. 

Outra ilusão é a de que há, no Brasil, uma democracia substancial. O povo escolhe seus representantes, mas, no mar de candidatos, desponta quem aparece mais. Aparece mais quem gasta mais. Gasta mais, frequentemente, quem desvia mais. 

A "seleção natural" faz com que os corruptos tendam a sobreviver na política. A Lava Jato revelou que partidos receberam mais em propinas do que em verbas do fundo partidário. A sociedade se tornou prisioneira de um sistema corrupto. 

Como consequência, aqueles que deveriam representar a população se ocupam de agradar as grandes empresas em troca de leis, subsídios e contratos públicos. 

Por fim, a estabilidade política, necessária para a economia prosperar, revelou-se precária. Em troca dela, o país é chantageado a aceitar a corrupção dos donos do poder. 

A chave para a recuperação econômica é usada como moeda de troca, para garantir a impunidade dos grandes corruptos e a continuidade dos esquemas. 

Vende-se uma dupla ilusão. A estabilidade é falsa. Seus pilares estão corroídos, apodrecidos, prontos a desmoronar a cada próximo escândalo. Além disso, estudos internacionais mostram que a corrupção sistêmica é incompatível com o desenvolvimento econômico e social. 

A corrupção suga, por meio de mais e mais impostos, a energia da produção brasileira e, por meio de mais e mais desvios, a qualidade do serviço público. 

O país está desiludido, mas o problema não está na descoberta da ilusão. É a realidade que está distorcida. Ao mesmo tempo, o Brasil vive uma grande chance de se reconstruir sobre novas bases. 

A lei não precisa se ajoelhar diante dos barões; o país não tem que caminhar sobre uma ponte instável; a população não está condenada a ser governada pela cleptocracia. 

Este é o momento para ir além da mera alternância no poder dos corruptos de estimação -ou dos menos rejeitados. 

É preciso coragem e perseverança, insistindo em reformas que, em meio a indesejáveis dores do parto, possam nos trazer um novo Brasil. 

Podemos e desejamos eliminar a grande corrupção e alcançar mais igualdade, estabilidade e democracia. É essa a bela imagem que desejamos ver no espelho, mas não na forma de uma ilusão. 
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DELTAN DALLAGNOL, mestre em direito pela Harvard Law School (EUA), é procurador da República e coordenador da força-tarefa da Lava Jato

SEM PERDÃO


Nestes tempos de desemprego em alta, a mestre em Psicologia Cognitiva Cláudia Moscovich identificou os SETE PECADOS CAPITAIS no TRABALHO. Fuja da tentação.

Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/tulio-milman/noticia/2017/06/os-sete-pecados-capitais-no-ambiente-de-trabalho-9807091.html 
 Endereço da imagem: http://zh.rbsdirect.com.br/imagesrc/23358644.jpg?w=640

DAENA

Mário Corso* 
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Não é Diana, é Daena mesmo, tira a mão daí, revisor. Diana é minha mulher, anseio encontrá-la. Quanto a Daena, não quero conhecê-la tão cedo. Não é falta de curiosidade, mas só posso vê-la em uma condição específica: no último minuto do meu derradeiro dia no planeta. Aliás, não só para mim, isso é o destino de todos. Cada um de nós possui e, ao mesmo tempo gesta, a Daena que o espera.

Já explico, essa entidade foi descrita nos antigos cânticos do zoroastrismo, antiga religião monoteísta que influenciou todas as outras. É uma mulher belíssima que, acompanhada de seus cães, nos conduzirá à nova morada no além. Antes que penses que Daena é a rainha das fadas que vem te buscar, saiba que existem condições: a que te foi dada é linda, mas só se manterá bela caso tua vida tenha sido uma obra de justiça e ponderação; se foi uma vida de trapaças, mentiras e violência, a tua será uma bruxa disforme, mais feia que a mulher do medonho.

Recebemos nossa Daena ao nascer e dela nada podemos esconder. Ela é como um duplo, uma testemunha muda porém atenta, que vai sendo modelada pelos nosso atos. Não intervém na nossa vida, guarda-se toda para a terminal e apoteótica aparição. Podemos enfeá-la, torná-la bonita outra vez, mas sempre restarão as cicatrizes do que fizermos a ela. Daena é a história plástica da nossa vida moral. E é assim que seria explicado por que as mortes são ora suaves, ora agitadas, depende de como teria sido o encontro com ela.

"Creio que, como viemos de uma mulher, 
e a mãe terra que nos acolhe, 
as figuras que lembram a morte costumam
ficar no espectro do feminino, 
pois são as mulheres que guardam 
o mistério da fertilidade, 
portanto da vida e 
do seu fim."

Como vemos, associar beleza à virtude é prática de longa data. Neste caso, no mínimo dois milênios e meio, mas aqui um detalhe: só haverá beleza se houver virtude. Aqui a beleza não é grátis, só a sabedoria a garante.

Ignoro se Oscar Wilde conhecia essa história persa quando escreveu O Retrato de Dorian Gray. A julgar pela sua erudição, eu diria que sim, e essa obra seria uma versão laica desse estranho anjo, tão íntimo e tão distante de cada um.

Sei o que muitas leitoras devem estar pensando: não poderia ser, por acaso, um Daeno para mim? Infelizmente não é assim que funciona. Creio que, como viemos de uma mulher, e a mãe terra que nos acolhe, as figuras que lembram a morte costumam ficar no espectro do feminino, pois são as mulheres que guardam o mistério da fertilidade, portanto da vida e do seu fim.

Sempre acreditei que nosso medo da morte guarda mais mistérios que o mero horror ao desconhecido ou a angústia de deixar de existir. Daena vem associada a isso, mas vai além, encarna o pavor do encontro com nosso extrato moral, ao vermos quem realmente somos e o que fizemos com a vida que ganhamos. Na psicanálise, nos acostumamos à dor de mergulhar em nossas humanas misérias. A contragosto, entendemos por que enxergar a si mesmo, sem filtro ou maquiagem, pode muito bem ser equiparado à morte.
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* Psicanalista - Interino
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9807352.xml&template=3916.dwt&edition=31284&section=70 03/06/2017
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A duração dos erros

Martha Medeiros* 
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Grande parte das pessoas já foi entrevistada ou deu um simples depoimento em frente a uma câmera. Pode ter sido um comentário rápido durante uma enquete ou uma participação num vídeo. Se você nunca, nunquinha, foi filmado ou gravado, entendo, mas já deve ter falado em público alguma vez, feito um discurso ou participado de uma peça de teatro na escola. Haverá quem nunca tenha segurado um microfone diante de uma plateia de olhos atentos? Em algum momento da vida isso aconteceu, e, se você ficou um pouco constrangido, envergonhado (sem rodeios: em pânico), vai entender a situação. É quando a gente está construindo um raciocínio na frente dos outros e a palavra que necessitamos não vem. Isso acontece durante nossas conversas cotidianas e ninguém repara, mas, se há uma câmera ou um grupo à sua frente, a impressão que dá é de que aqueles três segundos de vacilo estão durando 10 minutos, 20 horas, uma vida inteira. Você pensa: ferrou, que mico, como é que foi dar um branco justo agora que todos estão prestando atenção em mim?

Isso já me aconteceu algumas dezenas de vezes, e sempre fico com a sensação de que a minha hesitação durou uma eternidade e meia. Quando, mais tarde, tenho a oportunidade de rever a cena que foi ao ar, percebo que durou um par de segundos e que minha reputação saiu ilesa. Ninguém notou. Foi mais uma desimportância que eu promovi a gafe do século.

Usei esse exemplo de falar em público porque me dei conta de que nossos erros – ou aquilo que consideramos um erro – ganham uma dimensão desproporcional se comparados com nossos acertos. Por quanto tempo lembramos daquilo que fizemos bem? A lembrança se esvai assim que cessam os tapinhas nas costas. No entanto, nossos erros seguem nos infernizando por um prazo indefinido. Há quem leve semanas e até meses conjecturando sobre aquilo que foi uma bobeada, apenas uma bobeada. Não mereceria tanta relevância de nossa parte, mas vá explicar isso para o crítico feroz que nos habita.

Trazemos dentro um ombudsman particular, e ele não é nada gentil. Tudo o que depõe contra nós é amplificado. O maior exemplo disso é que rapidamente esquecemos os elogios que nos fazem, mas as ofensas são levadas para a cama e doem como uma perfuração no fígado. O mesmo acontece com todos os escorregões, mal-entendidos, indelicadezas, lapsos e demais percalços de conduta que levam nossa assinatura. Nossos erros custam a sair de cena. Já nossos acertos... que acertos?

Agora veja minha situação: não faço a menor ideia de como encerrar esta coluna. Cheguei ao final do texto sem uma solução para tirar da cartola. Bem feito pra mim. Frustrei você e irei me torturar até sábado que vem.
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* Jornalista. Escritora.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9806898.xml&template=3916.dwt&edition=31284&section=1026 03/06/2017

Não “temos de”

Lya Luft*
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Vivemos sob o império do “ter de”. Portanto, vivemos num mundo de bastante mentira. Democracia? Meia mentira. Pois a desigualdade é enorme, não temos os mesmos direitos, temos quase uma ditadura da ilusão dos que ainda acreditam. Liberdade de escolha profissional? Temos de ter um trabalho bom, que dê prazer, que pague dignamente (a maioria quer salário de chefe no primeiro dia), que permita grandes realizações e muitos sonhos concretizados? “Teríamos”. No máximo, temos de conseguir algo decente, que nos permita uma vida mais ou menos digna.

Temos de ter uma vida sexual de novela? Não temos nem podemos. Primeiro, a maior parte é fantasia, pois a vida cotidiana requer, com o tempo, muito mais carinho e cuidados do que paixão selvagem. Além disso, somos uma geração altamente medicada, e atenção: muitos remédios botam a libido de castigo.

Temos de ter diploma superior, depois mestrado, possivelmente doutorado e no Exterior? Não temos de... Pois muitas vezes um bom técnico ganha mais, e trabalha com mais gosto, do que um doutor com méritos e louvações. Temos de nos casar? Nem sempre: parece que o casamento à moda antiga, embora digam que está retornando, cumpre seu papel uma vez, depois com bastante facilidade vivemos juntos, às vezes até bem felizes, sem mais do que um contrato de união estável se temos juízo. E a questão de gênero está muito mais humanizada.

Temos de ter filho: por favor, só tenham filhos os que de verdade querem filhos, crianças, adolescentes, jovens, adultos, e mesmo adultos barbados, para amar, cuidar, estimular, prover e ajudar a crescer, e depois deixar voar sem abandonar nem se lamentar. Mais mulheres começam a não querer ter filho – e não devem. Maternidade não pode mais ser obrigação do tempo em que, sem pílula, as mulheres muitas vezes pariam a cada dois anos, regularmente, e aos cinquenta, velhas e exaustas, tinham doze filhos. Bonito, sim. Sempre desejei muitos irmãos e um bando de filhos (consegui ter três), mas ter um que seja requer uma disposição emocional, afetiva, que não é sempre inata. Então, protejam-se as mulheres e os filhos não nascidos de uma relação que poderia ser mais complicada do que a maternidade já pode ser.

Temos de ser chiques, e, como sempre escrevo, estar em todas as festas, restaurantes, resorts, teatros, exposições, conhecer os vinhos, curtir a vida? Não temos, pois isso exige tempo, dinheiro, gosto e disposição. Teríamos de ler bons livros, sim, observar o mundo, aprender com ele, ser boa gente também.

Temos, sobretudo, de ser deixados em paz. Temos de ser amorosos, leais no amor e na amizade, honrados na vida e no trabalho, e, por mais simples que ele seja, sentir orgulho dele. Basta imaginar o que seriam a rua, a cidade, o mundo, sem garis, por exemplo. Sem técnicos em eletricidade, sem encanadores (também os chamam bombeiros), sem os próprios bombeiros, policiais, agricultores, motoristas, caminhoneiros, domésticas, enfermeiras e o resto. Empresários incluídos, pois, sem eles, cadê trabalho?

Então, quem sabe a gente se protege um pouco dessa pressão do “temos de” e procura fazer da melhor forma possível o que é possível. Antes de tudo, um lembrete: cada um do seu jeito, neste mundo complicado e vida-dura, temos de tentar ser felizes. Isso não é inato: se tenta, se conquista, quando dá. Boa sorte!
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* Escritora.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9807423.xml&template=3916.dwt&edition=31284&section=70 03/06/2017
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sexta-feira, 2 de junho de 2017

A SINA DE POBRES SOBRANTES

José de Souza Martins*
 

 "O caso brasileiro é claramente do tipo em que os agentes políticos dos problemas que temos sabem perfeitamente que esta sociedade é baseada na igualdade jurídica, que justamente faz de alguns mais iguais do que os muitos que são menos iguais, como diz George Orwell, em sua fábula sobre uma fazenda dominada pelos porcos."

Um dos grandes problemas da sociedade contemporânea é o das populações sobrantes, as que não conseguem emprego permanente ou que não têm acesso aos direitos sociais supostamente garantidos a todos, as que não têm acesso aos benefícios da Previdência Social ou não o terão senão tardiamente, as que não têm onde morar, não têm terra para plantar, não têm acesso à assistência médica e hospitalar que lhes garanta a duração da vida no que a vida deve durar. As que morrem de doenças paras as quais há remédio e cura. Gente cujos carecimentos são descabidos.

Temos, também, os descabimentos: em cidades como São Paulo, em que há tanta gente que passa fome, cujo lixo, porém, contém desperdícios alimentares suficientes para alimentar outra cidade do mesmo tamanho. Cidades em que animais de estimação já têm assistência médica que gente ainda não tem.
Vivemos numa era de insuficiências programadas, apoiadas em técnicas econômicas e técnicas políticas de gestação de carências lucrativas. O conhecimento científico de que dispomos permite conhecer previamente no que vão dar certas medidas e certas decisões. O caso brasileiro é claramente do tipo em que os agentes políticos dos problemas que temos sabem perfeitamente que esta sociedade é baseada na igualdade jurídica, que justamente faz de alguns mais iguais do que os muitos que são menos iguais, como diz George Orwell, em sua fábula sobre uma fazenda dominada pelos porcos.
A economia política da insuficiência, em países como o Brasil, decorre do contínuo revigoramento e modernização de técnicas de acumulação de capital derivadas do rentismo pré-capitalista, de quando a riqueza se baseava na renda da terra, que é exatamente o oposto do capital. A renda fundiária é tributo que o proprietário cobra de quem da terra precisa para trabalhar e viver, o que é possível porque a terra é um bem finito. Ele recebe pagamento pelo monopólio de um pedaço do planeta. Mesmo quando é um proprietário capitalista e produtivo, e não raro pequeno proprietário, embute no preço de seus produtos a parcela correspondente ao tributo da renda fundiária.

Essa mentalidade é no Brasil transplantada para outros setores econômicos. É uma questão cultural, coisa de um empresariado em que muitos têm o capital, mas não conhecem a cultura capitalista, o que dela é próprio.
Aqui as coisas e os serviços tendem a ser artificialmente insuficientes, menos do que o necessário a que todos se saciem. A consciência infeliz do nosso tempo é produto deliberado de insuficiências manipuladas para gerar o ser característico e necessário ao funcionamento do sistema, o sobrante. "Não há vaga" na porta de uma fábrica diz a quem bate com o nariz na porta que é uma pessoa além do necessário. No hospital lotado e sem vagas para novos enfermos, diz que é uma pessoa além da vida a que deveria ter direito.

A compreensão dos problemas sociais brasileiros depende de que se compreenda os mecanismos que continuamente e cada vez mais expulsam das relações sociais estáveis parcelas crescentes da população. Estáveis são aquelas relações que justificam e motivam as pessoas a sentirem-se felizes porque por meio delas sabem que fazem parte da sociedade. As relações que lhes asseguram o trabalho e os meios para viver, comer, morar, sustentar a família, ouvir uma música de Ivan Vilela ou de Bach, ler um livro de Renata Pallottini ou de Mafra Carbonieri. Autores do encontro entre o pequeno mundo da vida cotidiana e o grande mundo da cultura. O encontro que nos liberta das banalidades e da vulgaridade. É isso que nos inclui, e não apenas as meras três refeições por dia do discurso populista.

Alguns invertem a ordem lógica da história política para fazerem de conta que são estadistas lúcidos e competentes. Governam em nome do ontem, e não em nome de hoje e do amanhã, governam para vingar a infelicidade dos que já morreram e que não lhes delegaram o mandato da vingança. Um presidente da República, durante oito anos, encheu o vazio da política com o mantra "Nunca antes neste país...". Governou em nome dos mortos.

No entanto, se apurarmos o olhar, veremos que as categorias de sobrantes se multiplicam. Sobrantes diz muito mais e de modo mais apropriado do que excluídos, designação fácil e  superficial sem validade explicativa. Uma categoria de sobrantes é a dos que já trabalhavam quando ainda não tinham acesso aos direitos trabalhistas. A lei dizia que não podiam trabalhar porque ainda crianças. Mas a lei fechava os olhos quando, para sobreviver, ingressavam no que os recenseamentos chamam de população economicamente ativa. Essa é apenas uma lasca na cruz da nossa existência, uma ruga e mais em nossa face cansada.
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* José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de “A Sociologia como Aventura” (Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/4989512/sina-de-pobres-sobrantes 02/06/2017

quinta-feira, 1 de junho de 2017

A transição religiosa na América Latina e no Brasil



José Eustáquio Diniz Alves 
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participação de católicos, protestantes e sem religião - America Latina e Caribe: 1910 a 2014

[EcoDebate] A colonização da América, abaixo do Rio Grande, foi marcada pela força do catolicismo que acompanhou o domínio espanhol e português no continente. A América Latina e Caribe (ALC) é a casa de cerca de 425 milhões de católicos – aproximadamente 40% de todos os católicos do mundo. Pela primeira, a Santa Sé tem um Papa de origem latino-americana.
Mas a ALC está passando por uma grande transição religiosa que se manifesta em 4 aspectos:
1) Declínio absoluto e relativo das filiações católicas;
2) Aumento acelerado das filiações evangélicas (com diversificação das denominações e aumento dos evangélicos não institucionalizados);
3) Crescimento do percentual das religiões não cristãs;
4) Aumento absoluto e relativo das pessoas que se declaram sem religião;
De maneira mais resumida e muito generalizada, pode-se dizer que a ALC está passando por duas grandes transformações agregadas, que devem se prolongar ao longo do século XXI:
1) Mudança de hegemonia entre católicos e evangélicos (protestantes);
2) Aumento da pluralidade religiosa, com queda no percentual de filiações cristãs (católicas + evangélicas), aumento de outras religiões e aceleração do processo de secularização.
O gráfico acima, do Instituto PEW, mostra que, na média da América Latina e Caribe, os católicos representavam mais de 90% da população antes de 1970 e caíram para 69% em 2014. Os protestantes (evangélicos) representavam somente 1% em 1910, 3% em 1950, 4% em 1970 e deram um salto para 19% em 2014. As pessoas que se declaram sem religião (unaffiliated) eram menos de 1% até 1970 e pularam para 8% em 2014.
Os países que estão mais adiantados no primeiro aspecto da transição religiosa (alternância de hegemonia entre católicos e evangélicos) na ALC são Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador. O país mais adiantado no segundo aspecto da transição religiosa (aumento da pluralidade e secularização) é o Uruguai. O número de uruguaios que se declaram sem religião está próximo de 40%
O país mais resiliente à transição é o Paraguai, onde os católicos mantêm um percentual em torno de 90% da população. Os países Equador, México, Colômbia e Bolívia também estão numa fase inicial da transição religiosa. Enquanto o Chile e a Costa Rica estão em uma fase parecida com a do Brasil.
O gráfico abaixo – com dados dos censos demográficos do IBGE – mostra que a transição religiosa brasileira é parecida com a transição da ALC, mas o Brasil está mais adiantado nesse processo do que a média da ALC, pois o percentual de católicos estava em 64,6% em 2010, o percentual de evangélicos em 22,2% e o percentual de sem religião estava em 8%.

participação de católicos, evangélicos e sem religião, Brasil: 1940-2010

Infelizmente, não temos dados das pesquisas do IBGE desde o último censo de 2010. Mas dados do Instituto Datafolha, de dezembro de 2016, mostra que a transição religiosa no Brasil tem se acelerado na atual década (Alves, 18/01/2017). A última pesquisa do Datafolha mostra que houve um crescimento muito grande do número de pessoas que se declaram sem religião.
O Brasil é o maior país católico do mundo e a ALC é o continente mais católico. Uma mudança no panorama religioso da região vai ter uma grande implicação para a correlação de forças internacionais entre as grandes religiões. Resta saber se o Papa Francisco, bastante conhecedor dos problemas da região, vai conseguir reverte essa situação de declínio relativo da influência da Igreja de Roma sobre os povos que foram colonizados e convertidos há cerca de 500 anos.
Referências:
ALVES, JED. Ventos secularizantes: ateus, agnósticos e pessoas sem religião no censo brasileiro de 2010, Ecodebate, RJ, 04/10/2017
http://www.ecodebate.com.br/2015/04/10/ventos-secularizantes-ateus-agnosticos-e-pessoas-sem-religiao-no-censo-brasileiro-de-2010-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. Chuí: a capital brasileira dos sem religião, Ecodebate, RJ, 06/02/2017
http://www.ecodebate.com.br/2013/02/06/chui-a-capital-brasileira-dos-sem-religiao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
ALVES, JED. A transição religiosa em ritmo acelerado no Brasil, Ecodebate, RJ, 18/01/2017
https://www.ecodebate.com.br/2017/01/18/transicao-religiosa-em-ritmo-acelerado-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
PEW. Religion in Latin America. Widespread Change in a Historically Catholic Region, PEW, November 13, 2014
http://www.pewforum.org/2014/11/13/religion-in-latin-america/
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* José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br
Fonte:
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2017
"A transição religiosa na América Latina e no Brasil, artigo de José Eustáquio Diniz Alves," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 31/05/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/05/31/transicao-religiosa-na-america-latina-e-no-brasil-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

Uma instigante explicação da violência

 Leonardo Boff*
 Resultado de imagem para Imagens desejo mimético

"A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Filósofos, cientistas e sábios tentaram fornecer-nos algum esclarecimento sem, entretanto, fechar a questão".

Vivemos no nível nacional e mundial situações de violência que desafiam nosso entendimento. Não apenas de seres humanos contra outros seres humanos, especialmente no Norte da África, no Sudão e no Oriente Médio, mas também contra a natureza e a Mãe Terra. O Papa Francisco em sua encíclica ecológica, Cuidando da Casa Comum chega a afirmar que “nunca maltratamos e ferimos a nossa Casa Comum como nos últimos dois séculos”(n.53). Não sem razão que está se impondo a ideia de que inauguramos uma nova era geológica, o antropoceno segundo o qual o grande meteoro rasante ameaçador da vida no planeta é o próprio ser humano. Ele se fez o Satã da Terra quando foi chamado a ser o anjo bom e cuidador do Jardim do Éden.

A existência da violência, não raro sob forma de aterradora crueldade, representa um desafio para o entendimento. Filósofos, cientistas e sábios tentaram fornecer-nos algum esclarecimento sem, entretanto, fechar a questão.

Quero apresentar, sumariamente, a proposta de notável pensador francês que viveu muitos anos nos EUA e que faleceu em 2015: René Girard (1923-2015). Apreciava a Teologia da Libertação a ponto de ele mesmo ter organizado em Piracicaba-SP um encontro (25-29 de junho de 1990) com vários teólogos e teólogas, pois via nos propósitos deste tipo de teologia a realização de sua visão da violência e um caminho de sua superação.

De sua vasta obra destaco duas principais: “O sagrado e a violência” (Rio 1990) e “Coisas escondidas desde o princípio do mundo”(Rio 2005). Dedicou toda sua vida no esforço de entender o mecanismo avassalador da violência.

Qual é a singularidade de Girard? Ele parte da tradição filosófico-psicanalítica que afirma ser o desejo uma das forças mais estruturantes do ser humano. Somos seres de desejo. Este não conhece limites e deseja à totalidade dos objetos. Por ser indeterminado, o ser humano, não sabe como desejar. Aprende a desejar, imitando o desejo dos outros (“desejo mimético” na linguagem de Girard).

Isso se vê claro na criança. Não obstante os muitos brinquedos que possua, o que mais ela quer é o brinquedo da outra criança. E ai surge a rivalidade entre elas. Uma quer o brinquedo só para si, excluindo a outra. Ocorre que outras crianças ou outros também concorrem com ela, desejando também o mesmo objeto. Origina-se daí um conflito de todos contra todos.

Esse mecanismo, afirma Girard, é paradigmático para toda sociedade. Supera-se a situação de rivalidade-exclusão, quando todos se unem contra um, fazendo-o bode expiatório. Ele é feito culpado de querer só para si o objeto. Ao se unirem contra ele, esquecem a violência entre eles e convivem com um mínimo de paz.

Com efeito, as sociedades vivem criando bodes expiatórios. Culpados são sempre os outros: o Estado, o PT, os políticos, a polícia, os corruptos, os pobres, os terroristas, os anti-globalização e por ai vai. Importa não esquecer que o bode expiatório apenas oculta a violência social, pois todos continuam rivalizando entre si. Por isso, a sociedade goza de um equilíbrio frágil. De tempos em tempos, com ou sem sem bode expiatório explícito, a violência se manifesta especialmente naqueles que se sentem prejudicados e buscam compensações.

 "A publicidade apresenta os produtos como sacramentos produtores da graça da felicidade completa.
 Ela enfatiza que alguém é mais alguém 
quando consome um produto exclusivo 
que os outros não têm. Cria-se um fator de inveja,
 de desejo mimético de se apossar do bem do outro. 
Enquanto perdurar esta lógica 
 perdura a violência."

Bem o expressou Rubem Fonseca em seu livro “O Cobrador”. Um jovem de classe média empobrecida, por força das circunstâncias, pratica atos ilícitos. Sente-se roubado pela sociedade dominante e confessa: “Estão me devendo colégio…sanduíche de mortadela no botequim, sorvete, bola de futebol…estão me devendo uma garota de vinte anos, cheia de dentes e perfume. Sempre tive uma missão e não sabia. Agora sei… sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo”.

Aqui busca-se uma solução individual para um problema social. Na medida em que permanece individual não causa grande medo. Pelo contrário, os causadores principais da violência estrutural são as classes dominantes que acumulam para si à custa da marginalização dos outros. Quanto mais duramente se aplicam as leis contra os marginais, mais seguras se sentem. Destarte, conseguem ocultar o fato de serem elas as principais causadoras de uma situação permanente de violência.

Mais ainda, vivemos num tipo de sociedade cujo eixo estruturador é a magnificação do consumo individualista. A publicidade apresenta os produtos como sacramentos produtores da graça da felicidade completa. Ela enfatiza que alguém é mais alguém quando consome um produto exclusivo que os outros não têm. Cria-se um fator de inveja, de desejo mimético de se apossar do bem do outro. Enquanto perdurar esta lógica perdura a violência.

Mas o desejo não é só concorrencial, diz Girard. Ele pode ser cooperativo. Todos se unem para compartilhar do mesmo objeto. De concorrentes se fazem aliados. Tal propósito supõe outro tipo de sociedade, mais cooperativa que competitiva, com democracia participativa e não apenas delegatícia. Aqui Girard via o sentido político da Teologia da Libertação. O caminho mais curto e seguro para tal propósito é a educação crítica, acessível a todos. Por ela as pessoas se civilizam, socializam valores e aprendem a não criar bodes expiatórios mas a assumirem elas mesmas a tarefa de construção de uma sociedade mais igualitária e justa. Então sim haverá mais paz que violência.
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* Teólogo. Filósofo. Escritor.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/568225-uma-instigante-explicacao-da-violencia 01/06/2017
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