segunda-feira, 26 de junho de 2017

Michael Heinrich: 'Socialismo marxista ainda é utopoa'

 Divulgação


Nascido em 1957, o cientista político alemão Michael Heinrich lê "O Capital" há 43 anos e não acha chato. "Li outras coisas também nesse período", diz em tom de brincadeira. Ele reconhece que Marx sozinho não dá conta de explicar a realidade hoje, mas acha engraçado o sucesso do francês Thomas Piketty, o célebre autor do "O Capitalismo do Século XX ". "Ele descobriu o que os marxistas sabiam", diz Heinrich, autor de nova biografia sobre Marx, a ser lançada no Brasil pela Boitempo em setembro.

Valor: Qual é o principal legado de Karl Marx e de "O Capital"?
Michael Heinrich: Ler "O Capital" como uma análise, e não como um previsão. Nos últimos cem anos, Marx foi lido por suas previsões sobre o colapso do capitalismo, sobre a revolução. Esse tipo de leitura perde o ponto crucial: Marx traz uma análise sobre a estrutura da sociedade capitalista, de suas contradições básicas e da impossibilidade de evitar crises. Marx realmente explica o mundo em que estamos vivendo, não faz uma previsão do que vai acontecer em 50 ou 70 anos. Para entender nossa situação concreta hoje, Marx sozinho não é suficiente, mas sem ele não entendemos nada.

Valor: O que há de novo na sua biografia de Marx?
Heinrich: Eu olho para a vida e obra de Marx. A maioria das outras biografias só foca na vida e cita as obras, não se ocupam do conteúdo das obras. Levo em conta também as muitas pessoas que circulavam em torno de [Friedrich] Engels e Marx - [Pierre-Joseph] Proudhon, [Ferdinand] Lassalle, anarquistas como [Mikhail] Bakunin. Também procurei mostrar que a vida de Marx não era uma linha reta do começo ao fim, teve muitos "turning points" acidentais ou premeditados. Por exemplo: após a derrota da revolução alemã, Marx foi para o exílio em Paris, e o governo russo forçou a sua expulsão. Com isso, ele teve de ir para Londres, sem falar inglês e sem possibilidade de trabalhar. Só que lá Marx achou no British Museum as fontes - livros, jornais, relatórios parlamentares - que precisava. Foi um acaso, mas se não acontecesse, talvez ele não escrevesse "O Capital".

Valor: O fracasso da União Soviética e as dificuldades em Cuba abalaram o marxismo? 
Heinrich: A primeira questão é se a União Soviética teve um socialismo relacionado com as teorias de Marx. Sou muito cético sobre isso. Na União Soviética, no início, havia muitos conselhos de trabalhadores, algo próximo ao conceito de Marx do socialismo. Mas, muito rapidamente, esses conselhos perderam poder para um partido autoritário, que não tem nada a ver com o socialismo. O fracasso da União Soviética é o fracasso de um sistema autoritário e repressivo, montado em torno do Estado, que não tem nada a ver com o conceito de Marx sobre socialismo ou comunismo. Cuba é mais complicado. É um país muito pequeno, com recursos limitados e permanentemente ameaçado pelos Estados Unidos. Por isso, não teve o tempo de criar seu próprio modelo e acabou virando um regime autoritário também. Socialismo no sentido marxista continua uma utopia, é uma meta ainda não alcançada.

Valor: O senhor acredita na revolução?
Heinrich: Não acho que é uma questão de acreditar, talvez aconteça, mas é imprevisível. Acredito que o capitalismo é um sistema de exploração e de destruição do homem e da natureza. Para a sobrevivência da humanidade, é importante abandonar o capitalismo.

Valor: Onde o senhor vê essa possibilidade? Os países de capitalismo avançado vivem o contrário do que Marx previu: a extrema direita ganha força, os sindicatos se enfraquecem e as fronteiras são reforçadas.
Heinrich: Não é uma surpresa. Já vimos isso nos anos 30 na Europa, com os regimes fascistas na Alemanha e Itália. A situação na época era muito pior que hoje. Agora, temos o crescimento da extrema direita, mas também um grande movimento contra esses partidos. Acho que não existe chance, por enquanto, de uma extrema direita próxima ao fascismo tomar o poder.

Valor: Não acha que a burguesia teve uma capacidade de adaptação não prevista por Marx? E por outro lado, o proletariado incorporou os valores burgueses?
Heinrich: Sim, parte da classe trabalhadora incorporou os valores dos capitalistas. Mas eles serão demitidos na próxima crise, quando não tiverem mais utilidade. Os capitalistas têm o poder e, não importa o que cada um pensa, proletariado e burguesia serão postos numa situação de conflito a cada crise. 

Valor: O que acha do olhar do economista francês Thomas Piketty sobre o capitalismo hoje?
Heinrich: Ele é engraçado, usou muitos números e os métodos da economia moderna para afirmar que temos desigualdade nos dias de hoje. O "refund" de Piketty não é uma surpresa para alguém que estuda Marx, é so para alguém que acredita na capacidade do capitalismo de criar desenvolvimento e riqueza. Concordo com ele que a desigualdade está crescendo, mas não me surpreendo.
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Reportagem por Helena Celestino

Uma repactuação social necessária

 Leonardo Boff*
 Resultado de imagem para A refundação do Brasil: rumo a uma sociedade biocentrada
Seguramente não estou enganado se disser aquilo que está passando na cabeça das pessoas e se ouve por todas as partes: assim como está, o Brasil não pode continuar. A corrupção generalizada, porque foi naturalizada, contaminou todas as instâncias públicas e privadas. A política apodreceu. A maioria dos parlamentares não representa o povo, mas os interesses das empresas e dos grupos que finaciaram suas campanhas eleitorais. São velhistas, perpetuando a política tradicional das coligações espúrias, das negociatas e dos conchavos a céu aberto.

O atual presidente não mostra nenhuma grandeza, pois não pensa no povo e nas graves consequências de suas medidas sociais, mas em sua biografia. Entrará seguramente na história. Mas como o presidente das anti-reformas, o presidente ilegítimo do anti-povo que desmantelou os poucos avanços sociais que beneficiavam as grandes maiorias sempre maltratadas. Sua passagem pela Noruega nos envergonhou a todos.

O projeto dos que deram o golpe parlamentar é do mais radical neoliberalismo, em crise no mundo inteiro, que se expressa pelas aceleradas   privatizações e pelo atrelamento do Brasil ao projeto-mundo para o qual o povo e os pobres são estorvo e peso morto. Esta maldição eles não merecem. Lutaremos para que haja ainda um mínimo de compaixão e de humanidade que sempre faltou por parte dos herdeiros da Casa Grande.

Estamos num voo cego em um avião sem piloto. Há poucos que ousam apresentar um novo sonho para o Brasil. Mas tenho para mim, que o cientista politico, de sólida formação acadêmica, Luiz Gonzaga de Sousa Lima, o tentou com seu livro A refundação do Brasil: rumo a uma sociedade biocentrada((Rima, São Carlos 2011). Infelizmente até agora não recebeu o reconhecimento que merece. Mas aí se vislumbra uma visão atualizada com o discurso da nova cosmologia, da ecologia e contra o pensamento único, refletindo as alternativas para um outro mundo possível.

Permito-me resumir seu instigante pensamento que o expus, com mais detalhes, neste Jornal do Brasil em maio de 2012.

O desafio, para ele, consiste em gestar um outro software social que nos seja adequado e que nos desenhe um futuro diferente. A inspiração vem de algo bem nosso: a cultura brasileira. Esta foi elaborada mormente pelos escravos e seus descendentes, pelos indígenas que restaram, pelos mamelucos, pelos filhos e filhas da pobreza e da mestiçagem. Gestaram algo singular, não desejado pelos donos do poder que sempre os desprezaram e nunca os reconheceram como sujeitos de direitos e filhos e filhas de Deus.

O que se trata agora é refundar o Brasil, “construir, pela primeira vez, uma sociedade humana neste território imenso e belo; é habitá-lo, pela primeira vez, por uma sociedade humana de verdade, o que nunca ocorreu em toda a era moderna, desde que o Brasil foi fundado como uma empresa mundializada; fundar uma sociedade é o único objetivo capaz de salvar nosso povo”.Trata-se de passar do Brasil como Estado economicamente globalizado, como querem os atuais governantes depois do golpe parlamentar, para o Brasil como sociedade biocentrada,vale dizer, cujo eixo estruturador é a vida em toda sua diversidade; a ela se ordena tudo mais, a economia e a política.

Ao refundar-se como sociedade humana biocentrada, o povo brasileiro deixará para trás a modernidade, apodrecida pela injustiça e pela ganância, e que está conduzindo a humanidade, por causa da falta de sentido ecológico, a um caminho sem retorno. Não obstante, a modernidade entre nós, bem ou mal, nos concedeu forjar uma infra-estrutura material que pode nos permitir a construção de uma biocivilização que ama a vida humana e a comunidade de vida, que convive pacificamente com as diferenças, dotada de incrível capacidade de integrar e de sintetizar os mais diferentes fatores e valores, estes que estão sendo negados pela onda de ódio e de preconceito surgida nos últimos tempos e que contradiz nossa matriz fundamental.

É neste contexto que Souza Lima associa a refundação do Brasil às promessas de um tipo novo de sociedade, diferente daquela que herdamos do passado, agora com a atual crise, agonizando, incapaz de projetar qualquer horizonte de esperança para o nosso povo. Para este propósito se faz urgente uma reforma política que embasará uma nova repactuação social.

Para esta repactuação dever-se-á colocar a nação como referêrencia básica e não os partidos e contar com a boa-vontade de todos para, finalmente, gestar algo novo e promissor. Nessa repactuação os movimento sociais não poderão estar excluidos, pois neles se encontram os germens do sonho possível e desejado para o Brasil

Minha esperança não arrefece e se traduz no verso de Thiago de Mello dos tempos sombrios da ditadura militar:”faz escuro, mas eu canto”.
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* Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu:”O livro dos elogios: o significado do insignificante” (Paulus 2017).
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2017/06/25/uma-repactuacao-social-necessaria/
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Por que devo confiar em quem se oferece como mediador da verdade?

Luiz Felipe Pondé*




Coluna Luiz Felipe Pondé 26.jun.2017

A recusa do mundo sempre foi um clássico na filosofia. Talvez os mais famosos nisso tenham sido os estoicos romanos, como Marco Aurélio (121-180) e Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.). Um imperador, outro senador, gente de posses, como dizia minha avó. Se gente de posses diz que o mundo é uma farsa, há algo de verdade nisso. Uma das maiores razões para se recusar o mundo sempre foi a ideia que ele era o lugar da mentira. 

Várias espiritualidades pregam essa recusa do mundo. Das mais profundas até aquelas que no lugar do mundo recusado colocam viver fazendo geleia em Gonçalves. 

A moçada que recusa o mundo hoje não abre mão do wi-fi. O mundo pode ser o lugar da mentira, mas o wi-fi é, seguramente, o lugar da vida. Você pode ser um "monge contemporâneo" que se comunica via mídias sociais. Antão (251 - 356) e Pacômio (292 - 348), que ruminavam trechos dos Salmos nos desertos do Egito, jamais imaginariam uma vida de monge assim. 

Mas o mundo como lugar da mentira é mesmo uma questão muito séria em filosofia. Se num vilarejo onde moram dez pessoas pode ser difícil se saber o que é a verdade, como podemos falar em buscar a verdade num mundo com 7 bilhões de Sapiens ligados nas mídias sociais? Sei que nem todo mundo tem boa internet no mundo, mas isso vai mudar com o tempo. 

Timothy Snyder, em seu excelente e didático "Sobre Tirania" (Companhia das Letras), chama-nos a atenção para o risco de abdicarmos da verdade, entre outras formas de risco da tirania dissolver a democracia. Jamais devemos abdicar de conhecer os fatos: "investigue", diz ele. Concordo. 

Mas, em nosso mundo contemporâneo, "buscar os fatos" é, sempre, em si, um fato mediado. Isto é, temos de confiar em alguma instituição (ele também diz que devemos defender as instituições), seja ela o governo e seus Poderes da República, seja ela a mídia (as grandes marcas, quero dizer), seja ela uma ONG, uma igreja, ou qualquer outra instituição. E aqui o problema se recoloca. Por que devo confiar nas instituições que se oferecem como mediadoras da verdade ou dos fatos? 

Grande parte dos agentes atuantes nas mídias sociais (nome chique para todo mundo ligado nelas) vê sua atuação como forma de "resistência" à manipulação dos "fatos" pela grande mídia ou pelas instituições públicas, ou, no mínimo, o que dá na mesma, como forma de "liberdade de opinião". 

A grande mídia, por sua vez, coloca na conta das mídias sociais grande parte do problema conhecido como "pós-verdade": todo mundo pode veicular o que quiser em suas mídias sociais, mesmo mentiras.
Este é um círculo vicioso interminável que aponta, entre outras coisas, para o seguinte: as mídias sociais pressionam as instituições constituídas (do governo à grande mídia, das escolas às igrejas) de forma desconhecida até hoje. 

A "soma total" desse impacto ainda é desconhecida por nós. Do ponto de vista da percepção que temos das instituições políticas representativas existentes, as mídias sociais podem, em alguma momento, desconstruí-las ou redefini-las de forma ainda desconhecida por nós. Portanto, o risco da tirania (dissolução da democracia) nesse aspecto de busca da verdade e defesa das instituições pode ser "pior" do que pensa Snyder. 

Faça um teste local: caso Joesley x Temer. Delação, vídeos, entrevista na revista "Época", GloboNews (ambos veículos da TV Globo). O que você acha? 

É tudo verdade o que diz Joesley? O Ministério Público e a Procuradoria-Geral da Republica agiram de forma imparcial? O grupo Globo só quer informar você da melhor forma possível? Ou todos citados anteriormente (por "n" razões que nunca saberemos de fato) querem proteger de alguma forma o PT e o Lula? Ou querem apenas "ferir" o governo Temer? Ou é apenas "melação com a delação"? 

A súbita divulgação dos primeiros vídeos após depoimento do Lula foram coincidência ou visava levar a opinião pública a esquecer o "case Lula"? O fato de a JBS ter crescido tanto na era PT é indicativo de que esta hipótese tem validade? Crer nesta hipótese é paranoia, postura crítica ou viés ideológico anti-PT? O que diz o Face? 
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
ponde.folha@uol.com.br
@lf_ponde 
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/06/1895946-por-que-devo-confiar-em-quem-se-oferece-como-mediador-da-verdade.shtml

domingo, 25 de junho de 2017

Pai do ensaio, filósofo Michel de Montaigne ganha reedição

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Além de 'Ensaios', guia de leitura do filósofo Ali Benmakhlouf também chega ao País

Rodrigo Petronio*, 
 Colaboração para o Estado
24 Junho 2017

Resenhar um livro de Michel de Montaigne é uma tarefa ingrata. Como falar com objetividade sobre o autor mais subjetivo de toda literatura? Como falar em sistemas em um autor que liquidou todos os sistemas? Como pensar em escolas filosóficas em um autor que mescla todas as escolas no cadinho do eu? Talvez o caminho seja seguir seu lema: “Que sei eu?” Reconhecer nossa ignorância.
Há duas novas oportunidades para uma aproximação dessa dúvida radical que chancela o universo de Montaigne. A reedição da brilhante tradução de Sergio Milliet dos Ensaios, levada a cabo pela Editora 34, com ótimas apresentação de Andre Scoralick e revisão técnica de Edson Querubini. E o importante guia de leitura do filósofo Ali Benmakhlouf intitulado Montaigne, que a Estação Liberdade acaba de publicar na coleção Figuras do Saber. Ambos são boas portas de acesso à obra e ao pensamento de um dos maiores escritores e pensadores de todos os tempos. 
Essa singularidade surge de um fato central operado por Montaigne: a revolução do eu. Muitos autores antigos, como Sêneca e Marco Aurélio, valeram-se da reflexão em primeira pessoa. Foucault rastreou esse compromisso que o pensamento antigo sempre manteve com a franqueza (parrhesia): a expressão de si. O cristianismo não abandou essa premissa. As Confissões de Agostinho também são um emblema desse método. Testemunhar a si mesmo. Desnudar-se para chegar a Deus.  

Contudo essa expressão da subjetividade antiga e medieval quase sempre esteve a serviço de alguma finalidade edificante. Queria conduzir o leitor ao reconhecimento de uma verdade transcendental, fosse essa verdade Deus, as ideias ou a razão. Montaigne escreve os Ensaios a partir de uma concepção nova. O eu não é mais uma fonte de saber e de autoridade, como o era para os antigos e como será para Descartes e Kant. Tampouco o eu é um meio de chegar à verdade. O eu é esfera da dúvida radical.  

Se, como diz Montaigne, a consciência não unifica na mesma proporção com que a natureza diversifica, o eu é uma flutuação infinita de percepções da constante dissolução da natureza. Ou seja: o eu é, ao mesmo tempo, o palco de encenação dos conceitos e o fundo vazio do pensamento e da linguagem. A tarefa do pensador é nos revelar o caleidoscópio de imagens que emerge nesse processo. Se o eu é infinitamente instável, a verdade é eternamente inacessível.  

A partir desse axioma, Montaigne criou um novo gênero da literatura: os ensaios. E não o criou apenas por causa do teor reflexivo dessa forma. O ensaio seria a forma mesma de sua filosofia. Uma forma inacabada por excelência. Tensionado entre a filosofia e a literatura, trouxe também outros domínios do conhecimento para a escrita: a pintura e o teatro. Como bem ressalta Scoralick, um aspecto nuclear da obra-prima de Montaigne diz respeito à técnica do retrato. Mais especificamente: o autorretrato.  

Montaigne diz que seu objetivo nos Ensaios foi pintar um retrato fiel de si mesmo. A metáfora do teatro do mundo atravessa todos os ensaios. E eis-nos aqui no cerne de sua sutileza. Concentrar-se no eu não é descobrir um eu autêntico sob as camadas de véus e vaidades do mundo. Concentrar-se no eu é perceber algo terrível: não há uma ancoragem possível para o mundo e o pensamento. O eu é um tecido de paisagens passageiras que atravessam a consciência. Um tecido que se trama e se desfaz. Sem centro e sem final.  

Como falar de filosofia em um autor que dilui problemas da filosofia nas reclamações de suas dores de gota, nas memórias de seu acidente a cavalo e nas lembranças do amigo Étienne de la Boétie? Como ser solene com um autor que se apoia em Licurgo, Cicero e Horacio para refletir sobre a função dos dedos polegares, dos peidos e dos correios? As perguntas se multiplicam. A dúvida não se erradica. 

Não por acaso, de Pascal a Nietzsche, de Cioran a Voltaire, de Proust a Camus, de Sloterdijk a Derrida. Todos os autores que se ocuparam da falência geral dos caminhos que conduzem à verdade podem encontrar em Montaigne um pai amoroso. Um pintor de si mesmo que descobriu no fundo da tela o absoluto vazio. Um vazio que espelha cada um de nós. Um vazio que traço algum poderia revelar.  
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*Rodrigo Petronio é escritor, filósofo, doutor em literatura comparada pela Uerj e professor da Faap
Fonte:  http://alias.estadao.com.br/noticias/geral,pai-do-ensaio-filosofo-michel-de-montaigne-ganha-reedicao,70001853857 24/06/2017

Contra o pesadelo, falta um sonho

Clovis Rossi*

Já dizia Calderón de la Barca (1600-1681), lá pelos idos de 1635, que "toda la vida es sueño, y los sueños, sueños son". Bem que o Brasil está precisando de um sonho, mergulhado que anda em um pesadelo que parece não ter fim e só faz ficar mais assustador. 

Pelo menos na França, seu novo presidente, Emmanuel Macron, pôs Calderón de la Barca na agenda, embora sem citá-lo.

Não se trata somente de aplicar políticas a países ou a povos. É preciso que sejamos capazes de convencê-los, de fazê-los sonhar", disse em entrevista coletiva a jornais europeus. 

O sonho que Macron oferece à França e à Europa nem é novo, embora seja de fato sedutor: ele quer recuperar o que chama de "círculo virtuoso" capaz de defender "a liberdade e a democracia, a capacidade das pessoas e de nossas sociedades de serem autônomas, de continuar sendo livres, de garantir a justiça social e de proteger nosso planeta por meio do clima". 

Para o presidente francês, "sem esses bens comuns, não há futuro desejável nem duradouro". 

O problema com esse sonho é que todos os grupos políticos, à direita, à esquerda ou ao centro, defendem tais "bens comuns", exceto meia dúzia de tarados. 

É natural, portanto, que Macron, embora vitorioso nas três eleições que já disputou (dois turnos da presidencial e o pleito legislativo encerrado no domingo, 18), encontre dificuldades para vender suas ideias. 

Na presidencial, acabou ficando com apenas 38% dos votos possíveis, se descontados os votos na adversária, a abstenção, brancos e nulos. No legislativo, pior ainda: só 43% dos eleitores se deram ao trabalho de comparecer às urnas. 

É justamente entre os eleitores que mais precisam do "círculo virtuoso" que o "macronismo" obtém menos votos. Pesquisa do Instituto Ipsos mostra que a Frente Nacional (extrema direita xenófoba) ficou com 25% dos votos, contra 17% para o partido de Macron, entre os eleitores mais pobres (com renda de até € 1.250, ou R$ 4.656).
Feitas essas indispensáveis ressalvas, parece claro que o humor na Europa mudou, com a eleição de Macron e com o mau resultado dos conservadores no pleito britânico: "O Reino Unido perdeu seu compasso, e a França tem um novo sentido de propósito", escreve Philip Stevens, colunista do "Financial Times", jornal que não se deixa seduzir facilmente por novidades. 

Mudança de humor é tudo o que de mais precisa o Brasil. Não só está encalacrado na crise política, social e econômica, como a coalizão governante trata de vender reformas como panaceia universal. 

Podem até ser necessárias, mas claramente fogem dos parâmetros desenhados por Macron, o de convencer e o de fazer sonhar. 

Ao contrário: a maioria do público é contra as reformas trabalhistas e previdenciária, o que quer dizer que não sonha com elas. Consequência inescapável: o humor da maioria da sociedade não mudará se elas forem aprovadas (tampouco mudará se não forem). 

Falta, pois, pôr na roda "um novo sentido de propósito" ou um projeto de país. Um sonho, enfim, que "la vida es sueño".
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*  É repórter especial. Ganhou prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Escreve às quintas e aos domingos.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/clovisrossi/2017/06/1895800-contra-o-pesadelo-falta-um-sonho.shtml

Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz: “Juiz tem de falar em momentos fundamentais”

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Presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4)

Integrante de uma das mais tradicionais famílias do Judiciário gaúcho, Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, 54 anos, assumiu na sexta-feira a presidência do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) defendendo uma Justiça mais rápida e acessível. No comando do tribunal que julga os recursos da Lava-Jato, ele acredita que o Judiciário conduz uma revolução pacífica no país ao protagonizar inédita ofensiva à corrupção.

O magistrado, porém, critica a exposição demasiada dos membros da Justiça. Expoente da 18ª geração de juízes entre os Thompson Flores e com a experiência de quem atuou durante 11 anos no Ministério Público Federal e há 16 anos é membro do TRF4, defende a liturgia do cargo, segundo a qual juiz fala nos autos.

– Saímos de um extremo de muita discrição para uma superexposição – afirma o magistrado, parente distante do ex-prefeito Telmo Thompson Flores, que governou a Capital de 1969 a 1975.

O TRF4 é uma Corte de poucas ações originárias. Como torná-la mais acessível à população?

A Justiça ainda é muito hermética em relação à população mais pobre. Embora o livre acesso esteja na Constituição, ainda não se tornou realidade. À medida que os processos chegam aos tribunais, se distanciam ainda mais da população. Quando é no foro de primeira instância, as partes vão lá, é mais fácil esse acesso. Quando os processos vão subindo, cresce o custo das ações. Julgamos processos dos três Estados do Sul. Imagina alguém lá do interior do Paraná, quase em São Paulo: óbvio que encarece demais. Já tomamos uma medida para nos aproximarmos: turmas descentralizadas, que começam a funcionar segunda-feira.

Essas turmas vão julgar ações? A parte não precisa mais vir a Porto Alegre?

Considero isso uma experiência inovadora no Brasil. São seis juízes, três em cada capital. Eles só vêm a Porto Alegre uma vez por mês, para participar de alguma sessão de plenário e corte especial.

Uma das principais críticas à Justiça é a lentidão. Como agilizar processos e decisões?

Teríamos de fazer uma reforma na legislação processual. O novo código não ajudou em nada. Infelizmente, nós, juízes, ficamos à margem dessa construção. Deixamos seguir no Congresso, sem nos fazer ouvir. Mas, acima de tudo, há o elemento humano: juízes e servidores. Se não houver empenho, de nada adianta ter uma lei maravilhosa.

O processo eletrônico, desenvolvido aqui no tribunal, deu fluidez à Justiça e virou modelo de exportação para outras Cortes. Há outro projeto semelhante em desenvolvimento?

Eu mesmo fui cético se o processo eletrônico ia dar resultado. Hoje, reconheço que estava errado. O juiz delibera de casa, as partes consultam de qualquer lugar. Ele está em constante aperfeiçoamento e agora estamos com tecnologia semelhante para os processos administrativos, como remoção de servidores, por exemplo. Muitos tribunais estão firmando convênios para adotar o modelo.

O tribunal ganhou mais atenção com a Lava-Jato e tem se caracterizado em ser mais rígidos na fixação de penas do que o juiz Sergio Moro, que julga os casos em primeira instância. O Judiciário brasileiro vive um novo momento?

O Brasil fez uma revolução pacífica através da Justiça. Eventuais excessos o próprio Judiciário tem podado. Já passaram aqui pelo tribunal 701 recursos da Lava- Jato. Não chegam a 10 os casos de decisões alteradas no Supremo Tribunal Federal ou no Superior Tribunal de Justiça. Veja o grau de seriedade.

Como o senhor vê a espetacularização dos atos judiciais e exposição de alguns juízes?

Venho de uma família de 18 gerações de juízes. O perfil se alterou muito nos últimos tempos. Antes, o juiz raramente escrevia um artigo de doutrina, porque amanhã ou depois seria chamado a julgar uma ação sobre aquela matéria e, em tese, já teria ideia preconcebida. Caímos no extremo oposto. A magistratura tem uma liturgia. Não se deve comentar casos judiciais que estão sob julgamento. O senhor conhece algum nome de juiz da Corte Suprema dos Estados Unidos? Lá, eles se preservam tanto, têm atuação tão discreta que não vulgariza sua presença e não fala sobre tudo. Um juiz da Suprema Corte tem de falar em momentos fundamentais da nação e em lugares apropriados. Saímos de um extremo de muita discrição para uma superexposição. O tempo vai nos levar para o meio do caminho.

O senhor enxerga esse protagonismo exacerbado também no Ministério Público (MP)?

É a mesma situação. Fui do MP, atuei como procurador da República por 11 anos. A Lava-Jato tem um mérito inegável que foi primeiro conquistar a população. Isso lhe deu capital muito grande. Agora, vão ter de trabalhar com isso. Não pode extrapolar, tornando as pessoas popstar. É necessário discrição à investigação. Houve um caso que chegou ao Conselho Nacional do Ministério Público por causa das palestras dos procuradores. Creio que essa situação deve ser repensada, inclusive com relação a magistrados. Acho inadmissível palestra remunerada. Quem tem problema de dinheiro, gosta muito de dinheiro ou está mal de dinheiro, não pode ser juiz da Suprema Corte. Não é forma de aumentar renda.

O Supremo está em vias de julgar a questão do cumprimento de pena a partir de condenação em segunda instância novamente. Qual sua posição?

Sempre foi essa a jurisprudência do Supremo. A partir de um certo tempo que se criou o entendimento que teria de se esgotar todas as instância. Em nenhum lugar do mundo existe direito adquirido a quatro instâncias. Com base naquela decisão do Supremo, editamos súmula em que se autoriza a prisão a partir de segunda instância. Parece que o Supremo agora quer rever. Acho que ainda estamos muito próximos da decisão anterior. Não houve nenhum fato novo, não houve alteração legislativa, não mudou a Constituição, nada. Só mudança de composição. Se for assim, cada vez que entra novo ministro no Supremo, teremos de alterar tudo. Aí se compromete a segurança jurídica.
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fabio.schaffner@zerohora.com.br
Reportagem por: FÁBIO SCHAFFNER
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9824295.xml&template=3898.dwt&edition=31392&section=3595 24/06/2017

Não é culpa da internet

Sabrina Passos*

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Estive mergulhada nas últimas semanas nas profundezas das métricas da internet e em como de fato medir audiência online. O estudo é parte de uma disciplina do Master que faço aqui em Madri, em Mídias Digitais e Visuais. O professor, diretor do projeto MediaCloud, do MIT, nos EUA, tratou com pompa e circunstância a história recente da internet, desde a sua origem e as primeiras técnicas de medição até sua importância social e econômica nos dias de hoje. Nos explicou por que não tem conta no Facebook e não faz downloads de apps que pedem acesso às informações guardadas no celular. E deixou um elefante branco na sala – ou um nó no estômago – quando questionado sobre os desafios do mundo digital que vivemos hoje: não, não é culpa da internet!

A internet não nasceu na biblioteca de uma universidade americana para conectar pessoas. Ela também não nasceu como arma de guerra, para espionar os russos. Antes dela, a Arpa (sigla para Advanced Research Projects Agency) foi na verdade a primeira rede operacional a conectar computadores militares e departamentos de pesquisa, em 1969. Seu objetivo era ser indestrutível. Paul Baran foi contratado para a missão de desenvolver tal sistema que pudesse manter a comunicação entre dois pontos, mesmo se o pior acontecesse. O medo era de um possível ataque nuclear, em plena Guerra Fria.

Logo depois, a Nasa usou o invento para lançar a Arpanet, provável mãe da internet. A Arpanet então se dividiu – parte continuou com fins militares e outra parte pública, rebatizada de internet e gerenciada pela Fundação Nacional de Ciência (NSF) dos EUA. Nos anos 1980, as redes todas passaram a respeitar um protocolo comum de transmissão, o famoso IP, e os primeiros computadores pessoais passaram a existir. Lá em casa, só chegou perto dos anos 1990, mesma época em que os EUA decidiram privatizar o invento e a internet como a conhecemos hoje, de fato, nasceu. Não há estudos claros explicando por que os americanos optaram pela privatização.

Se a mãe da internet foi a Arpanet, o pai é o físico Tim Berners-Lee. Antes dele, a internet era apenas a internet mesmo – e não a “rede mundial de computadores”. Em Genebra, trabalhando no Cern, um centro europeu de pesquisa nuclear, ele desenvolveu a primeira comunicação bem-sucedida entre um cliente HTTP (um protocolo que transfere hipertextos e, portanto, informação) e um servidor, usando a internet. Foi ele também o criador do primeiro “navegador”. Berners-Lee entregou o invento da web ao domínio público. Não tinha nem tem objetivos comerciais. Hoje, ele trabalha no MIT e continua, de certa maneira, supervisionando de longe o desenvolvimento da sua criação.

A NSF também tinha uma política clara para o uso da internet, que não permitia atividades comerciais. Mas, com a privatização e a velocidade de replicação do invento de Berners-Lee, tudo isso virou história. Os provedores de internet começaram a aparecer, dando àqueles computadores de casa a chance de se conectar à rede. Em 1994, nascia a Netscape, considerada uma das primeiras empresas da bolha da internet (Altavista e Yahoo vieram logo depois). Diferentemente da ideia de Berners-Lee, que criou um browser editável e aberto, a Netscape entregava um serviço fechado. Não se criaria nada, apenas se “receberia”, passivamente, via web. Tudo isso muito bem explorado comercialmente.

O Google só nasceria em 1998. A missão inicial de organizar a informação da internet passa longe do que o buscador se tornou hoje, quase 20 anos depois. No artigo The Anatomy of a Large-scale Hypertextual Web Search Engine, Larry Page e Sergey Brin apresentaram em 11 páginas o protótipo do Google, explicaram como ele funcionaria e, naquela época, criticaram outros buscadores com viés de uso comercial. Bem diferente do que existe hoje. Sua natureza comercial é inegável. E seu negócio claramente se sustenta no controle que tem dos passos (digitais) dos usuários e em nossas buscas.

A web 2.0, focada em participação e colaboração, ficou popular no início dos anos 2000. Não se tratou de uma implementação técnica na rede, mas sim na maneira como as páginas passaram a ser desenhadas e usadas. Blogs se popularizaram e as redes sociais, enfim, nasceram. Fotolog em 2002, Delicious, LinkedIn e MySpace em 2003, Orkut e Flicker em 2004, Twitter em 2006, Tumblr em 2007, WhatsApp em 2009, Instagram em 2010, Google+, Pinterest e Snapchat em 2011… Para lembrar apenas aquelas nas quais eu tive ou ainda tenho conta.

O Facebook também é de 2004, e nasceu com o objetivo simples de conectar estudantes universitários. A missão ambiciosa de “dar às pessoas o poder de compartilhar informações e fazer do mundo um lugar mais aberto e conectado” veio depois. E, assim como o Google, ele não veio ao mundo com os objetivos maléficos de colocar em risco a democratização da informação, espalhar fake news, espionar nossos passos, armazenar nossas memórias, nos isolar em comunidades e bolhas, controlar nossos desejos e impulsos e fazer ofertas de produtos e conteúdos baseadas nas nossas escolhas prévias ou nas escolhas dos amigos (ou nem tão amigos assim). Eles não foram criados para decidir arbitrariamente, com regras próprias e fora do nosso controle, o que devemos ler e assistir, como grandes editores daquilo a que devemos ou não ser expostos.

Mas tudo isso e muito mais acontece hoje. Aparentemente, nada estava nos planos das duas maiores empresas de tecnologia (e mídia) do mundo, este duopólio responsável hoje por quase metade do market share de publicidade e consumo digital global onde todos nós estamos mergulhados.

Agora que o jogo virou e tudo isso é sim uma assustadora verdade, de quem é culpa – e consequentemente a responsabilidade de manter o ambiente digital seguro, isento, livre e democrático?

Da internet, aquela criada por Berners-Lee para garantir que eu consiga me conectar e trocar informações com você, tenho certeza de que não é!
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* Gerente de produto digital. Jornalista.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9823823.xml&template=3916.dwt&edition=31392&section=4572 24/06/2017 Cad. Proa p.21

AMÓS OZ: MUITOS DOS MAIORES MALES DESTE MUNDO COMEÇAM COM A CORRUPÇÃO DA LINGUAGEM

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Amós Oz é provavelmente o maior e mais conhecido escritor israelense vivo. É também autor de uma obra umbilicalmente ligada à história de Israel: alguns de seus grandes romances, como Uma Certa Paz (1982), A Caixa Preta (1987), Fima (1991) e Pantera no Porão (1995), fazem uma crônica artística da trajetória do país, suas crises e marés políticas, suas guerras. Ao mesmo tempo, Oz é um dos escritores mais controversos dentro da própria nação de Israel, dado que sua militância pela paz na região e as críticas duras que costuma dirigir a governos israelenses (como o do primeiro-ministro da direita linha-dura Benjamin Netanyahu) provocaram ataques virulentos de seus próprios compatriotas.

Oz, 78 anos, é o palestrante desta quarta-feira no ciclo Fronteiras do Pensamento, e vem a Porto Alegre falar de sua literatura e de suas visões políticas. Ele é cofundador do movimento de esquerda Paz Agora, com outros políticos e acadêmicos de Israel, e já tratou do conflito na região em ensaios e artigos. Um volume selecionando três desses ensaios mais longos será lançado pela Companhia das Letras durante a vinda do autor: Mais de uma Luz, no qual Oz retoma e amplia questões de que já havia tratado em Como Curar um Fanático. Em entrevista concedida por telefone de Israel, Oz falou sobre a pecha de “traidor” com a qual é rotulado pelos seus adversários políticos, de sua visão da literatura como uma necessidade humana e da adaptação para o cinema feita recentemente por Natalie Portman de seu livro de memórias, De Amor e Trevas (2003).

Que temas o senhor pretende abordar em sua palestra em Porto Alegre?

Eu vou falar, primeira e principalmente, a respeito de meu país, Israel, e vou compartilhar com a audiência um pouco da minha visão política, que é bem diferente da política do governo israelense. E também vou falar sobre a minha obra literária.

O senhor comentou as diferenças de sua visão política com relação ao governo de Israel. O senhor e outros escritores israelenses, como seu amigo David Grossman, já foram ferozmente criticados pela direita israelense e tachados de inimigos do país. Como o senhor se sente a respeito desse tipo de acusação?

Me sinto triste e orgulhoso. Sinto-me triste porque muitos israelenses não entendem minhas ideias ou não as aceitam. Mas também me sinto orgulhoso porque, a cada vez que alguns de meus compatriotas me chamam de “traidor”, eles me colocam em muito boa companhia, ao lado de alguns dos grandes escritores, poetas, profetas, intelectuais e estadistas na História que foram chamados de traidores por seus próprios contemporâneos. A cada vez que alguém aqui me chamar de traidor, eu usarei esta comenda na minha lapela, como um distintivo de honra, ao lado da Legion d’Honneur que (o então presidente francês) Jacques Chirac me concedeu há cerca de 10 anos. Assim, penso que ser considerado traidor por alguns de seus compatriotas é uma honra.

Essa é a razão pela qual o senhor decidiu escrever um romance sobre Judas?

Sim, eu escrevi sobre lealdade e traição, e quão complicada é a relação entre lealdade e traição e sobre o fato de que, algumas vezes, o que muitas pessoas chamam de traição parece a outras uma lealdade mais profunda. No meu romance Judas, há muitas personagens que traem outras pessoas, mas Judas não é uma delas. Judas é, no livro, extremamente leal a seu mestre, Jesus. Judas acredita em Jesus mais do que o próprio Jesus acredita em si mesmo.

Nesse sentido, o Judas apresentado em seu romance é um pouco o retrato que o senhor também já fez do fanático.

Sim. Judas no romance acredita em redenção instantânea. Ele gostaria de apressar a chegada do Reino dos Céus. Ele queria pôr os eventos em ação de tal modo que a salvação universal ocorreria imediatamente. E esse é um pensamento típico de fanáticos que perseguem a salvação instantânea.

E o que atraiu em um personagem como esse?

Bem, muitas pessoas, não apenas as religiosas, mas também as revolucionárias e radicais acreditam em salvação instantânea. Muitos dos meus personagens têm crenças que eu não compartilho. Não acredito nas mesmas coisas que meus protagonistas. Alguns deles acreditam em salvação instantânea, eu acredito em soluções práticas. Alguns deles acreditam em fraternidade global, eu acredito mais na coexistência pragmática entre vizinhos, não em amor universal. Com frequência, escrevo sobre protagonistas que não compartilham minhas ideias e crenças políticas, mas como figuras elas me entusiasmam e eu escrevo a respeito.

Qual é o alcance social da atividade de um escritor em Israel e no Oriente Médio, dada a situação atual de conflitos na região?

Eu não gosto de fazer generalizações a respeito do papel social de escritores ou da literatura. Eu prefiro falar sobre o dom da literatura. Penso que romances, contos, poesia podem abrir para o leitor diversas janelas para o mundo exterior e para dentro de si mesmo. Então, em vez de discutir o papel da literatura e dos escritores, eu prefiro falar sobre o presente que é a literatura. Para mim, como leitor, os livros que eu gosto foram um presente. Não são apenas veículos para carregar ideias ou conclusões ou algum tipo de manifesto político. Não, primeira e principalmente foram uma fonte de deleite. Acredito que contar e ouvir histórias são necessidades humanas básicas. Quando temos dois anos de idade, gostamos de ouvir histórias antes de dormir. Um pouco mais e estamos querendo que as pessoas ouçam as histórias que contamos. É uma necessidade humana, como o sonho ou o sexo. Não sinto que a literatura seja algum tipo de veículo carregando mensagens de um ponto a outro ou de uma pessoa para outra. Não é sobre manifestos ou balanços. A literatura é um jogo, e eu adoro esse jogo.

Sim, mas eu pensava mais em dois papéis diversos que o escritor assume. O senhor é um narrador, publica romances e histórias, são sua literatura, mas também publica ensaios e discursos a respeito de política e fanatismo.

Certamente. E nessas obras o que me move é principalmente uma responsabilidade para com a linguagem. Eu sou um escritor, trabalho com palavras todos os dias, do mesmo modo que um carpinteiro trabalha com a madeira ou um pedreiro com tijolos. Assim, eu sinto uma responsabilidade para com a linguagem. Penso que muitos dos maiores males deste mundo começam com a corrupção da linguagem, e é meu dever gritar a cada vez que vejo alguém usando uma linguagem contaminada. Quando algumas pessoas chamam outras de “estrangeiros indesejáveis”, “elementos negativos”, “câncer social” ou “parasitas”, sei que é sempre aí que começam a violência, a perseguição e a crueldade. Daí meu senso de dever de trabalhar como o corpo de bombeiros do idioma, ou como um detector de fumaça, eu preciso gritar “fogo” sempre que leio ou ouço essas palavras que, mais cedo ou mais tarde, vão gerar violência.

Em 2016, seu amigo David Grossman veio a Porto Alegre para a mesma série de palestras. Ele disse, em uma entrevista: “Gosto da ideia de um Estado binacional para israelenses e palestinos, mas não acho apropriado agora, porque exigiria uma verdadeira maturidade política que não temos”. Esse é o motivo por que o senhor defende dois Estados, um para israelenses e outro para palestinos?

É preciso não confundir um Estado binacional com uma solução binacional. A solução binacional significa dividir a casa em dois apartamentos menores, um para israelenses e outro para palestinos. Um Estado binacional é um sistema que parece ter levado a derramamento de sangue em toda parte, na antiga Iugoslávia, no Chipre ou na antiga União Soviética. Há muito poucos exemplos de um Estado binacional funcionando de forma pacífica: Suíça, Suíça e, novamente, Suíça. Outros Estados binacionais hoje enfrentam problemas, como na Espanha e na Catalunha, e mesmo no Reino Unido. Então não acho que a solução para Israel e Palestina é se tornar um único estado. Eles devem se tornar duas nações vizinhas separadas.

Mas as duas propostas parecem soar utópicas, devido à escala de agressividade do conflito.

Não acho que ambas sejam utópicas. Acho que é utópico presumir que Israel e Palestina possam, após cem anos de conflito, partir em lua de mel e dividir o leito nupcial. Isso é utópico. Mas a ideia de dividir a terra em dois Estados soberanos, Israel e Palestina, em paz e coexistindo, não é utopia, é apenas uma saída pragmática e realista. Se você me perguntar quando isso deve acontecer, responderei que não sei, porque isso depende de uma liderança corajosa em ambos os lados e ao mesmo tempo.

O senhor falou de ser rotulado de traidor no início da entrevista. O senhor fala do tipo de liderança que não tem medo de ser odiada e rotulada da mesma forma?

Certamente. É o tipo de liderança de Abraham Lincoln, que insistiu para que os Estados Unidos abolissem a escravidão, e milhões de americanos se voltaram contra ele, que acabou morto por um deles, no fim. É o tipo de liderança apresentada por Charles de Gaulle quando retirou a França da Argélia, contra a opinião dos colonos franceses. É o tipo de liderança demonstrada por Anwar Sadat e Menachem Begin quando assinaram a paz entre Egito e Israel. É o tipo de liderança que Yitzhak Rabin e Shimon Peres demonstraram quando assinaram o acordo de Oslo com Yasser Arafat. Isso significa ter coragem. E significa também que algumas pessoas de seu próprio povo o chamarão de traidor.

O senhor mencionou Lincoln. Como a presença de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos pode complicar esse cenário?

É muito cedo para dizer. Sei muito pouco a respeito de Trump a não ser o fato de que ele tem um temperamento extravagante e mesmo adolescente, mas ele não é um fanático, ao menos comparado com outros candidatos republicanos ao mesmo cargo. Ele não é um fanático, é um hedonista, é mais parecido com Berlusconi do que com Hitler ou Mussolini. Não é segredo que eu, se fosse um cidadão americano, não teria votado nele, nem o estou defendendo, mas acho que ainda é cedo para saber o que ele vai fazer. Acho que nem ele sabe ainda. Algumas vezes, coisas muito inesperadas são realizadas por pessoas de quem ninguém gostava ou esperava alguma coisa, e elas surpreendem todo mundo. Sou velho o bastante para ter visto um quadro produzido no dogmático Komsomol comunista, Mikhail Gorbatchov, desmantelar todo o bloco soviético. Não sabemos. Pessoas são capazes de surpreender não apenas aos outros, mas a si mesmos, todos nós somos, não apenas Trump. Eu, você, qualquer ser humano, já nos surpreendemos uma ou duas vezes na vida, já fizemos coisas que nos fizeram perguntar: “Fui eu mesmo que fiz aquilo?”. Eu ganho a vida baseado no fato de que as pessoas são imprevisíveis, que as pessoas podem ser surpreendidas. Se elas fossem como blocos de lego, ninguém leria ou escreveria romances.

O senhor tem uma visão do escritor como um otimista, então?

Nem sempre otimista, apenas consciente do fato de que as pessoas mudam. Com muita frequência, escrevi romances sobre pessoas que mudam. Elas não nascem de novo, não se tornam anjos, não se tornam o oposto do que eram, apenas mudam. Mesmo meu último romance, Judas, é sobre três pessoas que, no decorrer de um inverno, mudam umas às outras. A Pantera no Porão é sobre como um jovem muda no decorrer de umas poucas semanas.

O senhor já disse em uma entrevista que a personagem Atalia, de Judas, lembrava a Jerusalém de sua juventude: “Ela não é jovem. Ela é muito bonita. Ela está profundamente ferida. Ela é ferozmente independente e está muito brava”. Como o senhor definiria a Jerusalém atual?

A Jerusalém em que eu nasci e passei a infância era uma cidade triste. Excitante, fascinante, mas muito triste. Jerusalém ao longo da história atraiu todos os tipos de messias inspiradores, redentores, reformadores, judeus, cristãos, muçulmanos, radicais, intelectuais, é uma cidade fascinante, mas muito difícil. Por muitos anos, foi uma cidade dividida, com arame farpado, campos minados, snipers atirando em quem cruzasse as divisas, então era uma cidade dolorosa, mas muito atraente. Em alguns aspectos, ela ainda é assim. Jerusalém não é um lugar em que você vai apenas para se divertir e fazer compras.

O senhor relembrou essa Jerusalém de sua infância no livro de memórias De Amor e Trevas, que foi recentemente adaptado por Natalie Portman para o cinema, dirigindo o filme e interpretando o papel sua mãe. Como foi rever essa história tão sua por essa perspectiva?

Foi uma experiência muito inusitada, mas acho que Natalie Portman desenvolveu um trabalho de amor em De Amor e Trevas. Ela era de fato devotada ao livro, realmente o amava, realmente amou o personagem que estava interpretando, minha mãe. Claro que foi uma experiência muito estranha para mim, mas provavelmente sou o último homem que pode julgar e criticar este filme, porque eu conheci as pessoas reais, os lugares reais, suas esquinas. Vou repetir: para mim, o filme dela é um verdadeiro trabalho de amor, e eu sou muito grato a ela.

Nas últimas décadas, houve uma sensação de que o mundo estava progredindo no caminho da democracia e da modernização. O que pensa deste momento de ascensão do terrorismo islâmico, de volta da xenofobia e de extremismos políticos?

Acho que há um aumento do fanatismo no mundo todo. Não apenas o fanatismo islâmico. Há muitos tipos diferentes de fanatismo em várias partes do mundo: fanatismo islâmico, judaico, cristão, radical, revolucionário, até mesmo ambiental. Acho que nós todos desfrutamos de algumas boas décadas porque Stalin e Hitler nos deram um presente inadvertido. Depois deles, por talvez 50 ou 60 anos, a maioria de nós aprendeu a temer os extremismos, os fanatismos e as ideologias totalitárias. Acho que agora, infelizmente, esse “presente” está expirando seu prazo de validade e a humanidade está voltando ao normal: fanática, militante e bastante violenta. Logo, o curto episódio de moderação muito relativa está desaparecendo.
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Reportagem por CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9823817.xml&template=3898.dwt&edition=31392&section=4572 Cad.Doc ZH Fim de semana. 24/06/2017 p. 14 e 15

A GRATIDÃO TEM PRAZO DE VALIDADE?

J.J.Camargo*
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A necessidade que as pessoas sentem de anunciar gratidão eterna com frases padrão como “O senhor vai estar para sempre nas minhas orações” ou a menos religiosa “Enquanto eu viver, vou agradecer todos os dias o que o senhor fez por mim!” expressa apenas o desejo inicial de que este sentimento se perpetue além do prazo exíguo que o tempo, um incorrigível borrador das boas lembranças, permitirá.

Baseado na minha larga experiência, a gratidão deixada quietinha, sem reforços periódicos, se dissipa numa proporção de mais ou menos 20% ao ano. De onde essa cifra? Da observação de que, a cada cinco anos, os presentes de Natal são progressivamente substituídos pelos dos novos agradecidos. E não seja inconveniente de se oferecer para refrescar a memória do agraciado, porque pior do que não ser lembrado é perceber que o outro está tentando, com um discurso sem emoção, parecer minimamente educado diante da saia justa do esquecimento involuntário. O tempo e a intensidade da gratidão também são variáveis e claramente diferentes entre pacientes que pagaram pelo atendimento, e se comportam com frequência como se no pacote dos custos estivesse incluída a disponibilidade ilimitada do médico, e o paciente do sistema público de saúde que, na sua humildade e subserviência, se mostra infinitamente grato pelo atendimento que recebeu com a consciência de que, por ele, nunca poderia pagar. Claro que as regras e as exceções moram dos dois lados da cerca, mas em geral, de onde menos se espera, daí mesmo é que não sai nada.

A Eulália trabalhava como representante de uma marca de produtos de beleza, que vendia de porta em porta. Numa dessas andanças, foi atropelada, sofreu lesões graves, esteve intubada durante semanas, recebeu uma traqueostomia e, depois de dois meses, foi para casa com esse buraco no pescoço porque um estreitamento alto na traqueia impedia a passagem de ar. Respirando por essa abertura e incapaz de emitir qualquer som, foi aposentada por invalidez. Cinco anos depois, quando a conheci no ambulatório do SUS e lhe disse que era possível reconstruir a passagem do ar de modo que ela pudesse respirar pela via normal e voltar a falar, ela me abraçou agradecida. Mesmo descontada a taxa de exagero que muitas vezes macula essas reações, aquele choro parecia do bem. Uma semana depois da cirurgia, respirando pelo nariz e se comunicando com uma voz levemente rouca, ela teve alta hospitalar. Na despedida, profundamente emocionada, jurou amor eterno, beijou-me as mãos abençoadas, e voltou para a vida. Ela parecia muito feliz, e eu estava, por ela e por mim.

Oito meses depois, recebi uma intimação para depor numa audiência em que uma paciente requeria indenização por danos morais porque, como consequência de uma operação que eu fizera, ela ficara com uma voz rouca, que lhe reduzia a condição funcional como vendedora. O advogado leu o arrazoado enquanto a Eulália encarava o assoalho. A juíza, estupefata e incrédula, pediu que ela resumisse a história e perguntou o que a movera a entrar com esta ação, e ela confessou: “Eu não queria processar o doutor porque ele foi muito bom comigo, mas o meu vizinho, que é advogado, me explicou que eu tinha direito a indenização porque o doutor deve ter feito alguma coisa errada, senão a minha voz teria ficado normal”. Arquivada a denúncia por ridícula e improcedente, fomos liberados. O tom de voz alto e forte com que ela anunciou a justificativa era o meu melhor elemento de defesa. Com aquela voz, ela venderia qualquer coisa. Menos dignidade, porque o estoque tinha acabado.

Voltei para o hospital aliviado, mas desconfortável. O desafeto machuca mais do que qualquer pedido de reparação financeira. Desconfio que a Eulália sabia disso, porque em nenhum momento ela me olhou. A vergonha, como se sabe, coloca chumbo nas pestanas dos envergonhados.
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* Médico. Cirurgião torácico 
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?edition=31392&local=1&section=1028&source=a9823750.xml&template=3916.dwt&uf=1 24/06/2017
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As cracolândias da vida

 Lya Luft*
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 ''Talvez o ser humano tenha desde sempre necessidade 
de sair do seu registro dito normal 
para algo mais intenso.''

Não acho graça nenhuma em drogas. Tenho, eu sei, pouca tolerância com isso. É tremendo, terrível, trágico o assunto adição, seja de drogas que incluem o álcool, droga estimulada em propagandas e marketing. Falo em adição, não em experimentar de vez em quando, como acontece em certas turmas e festinhas, ou mesmo a sós, para quem julga que alterado fica mais inteligente, mais sensual, mais engraçado e mais interessante. Muitas vezes criticada, digo e escrevo o que qualquer bobo sabe: existe o traficante porque existe o consumidor. Pior: cada vez que um de nós fuma seu cigarrinho de maconha, cheira sua fileirinha de coca ou injeta em suas veias seja lá que veneno for, está fazendo continência a um traficante – que um dia pode mandar meter uma bala em seu filho ou em outra pessoa amada.

A Cracolândia de São Paulo existe não só por aqueles, quase lixo humano, deitados no chão entre urina, fezes e vômito, alienados, atordoados e doentes – mas os que ali compram uns gramas de sua loucura e sua morte talvez para fazer uso dela em qualquer outro lugar, que pode até ser caro e chique, por que não? Sei de grandes festas em que papelotes de cocaína são oferecidos em bandejas junto com champanha francês.

Talvez o ser humano tenha desde sempre necessidade de sair do seu registro dito normal para algo mais intenso. Uma bela taça de vinho pode ter essa motivação: relaxar, ficar mais alegrinho, menos tenso. Uma taça, não várias garrafas, e regularmente. Comidas, bebidas, substâncias, remédios, em si, são inocentes: seu uso pode ser mortal. Visitei, anos atrás, várias vezes, uma chiquésima carésima clínica de recuperação de drogados, em outro Estado. Lá estava a filha de conhecidos meus, que me pediam que fosse junto, a menina chamava por mim. Eram quase todos jovens, quase todos com olhar vazio, muitos com curativos nos pulsos, muitos tendo saído e voltado muitas, muitas vezes: sem esperança, parecia estar tatuado em sua testa.

Alguns conseguiam lá dentro a droga que quisessem, transando com um funcionário, jardineiro ou operário que consertava telhados; muitos, voltando para casa, eram assediados por traficantes que chegavam a jogar papelotes de coca pela janela do quarto da vítima. Há quem possa usar droga aqui e ali, sem se viciar. Muitos, muitíssimos, não conseguem. E para esses, começar, ainda que de brincadeira, ainda que com a dita inocente maconha, é assinar seu atestado de morte prematura e horrenda.

Não é possível vigiar alguém constantemente. Sem ter receitas nem conselhos, talvez o exemplo, o afeto, a alegria, a confiança, certo conhecimento da turma, dos locais frequentados, se for um jovenzinho, umas boas conversas nada moralistas, mas amigas, podem ajudar. Porém, não há garantias: famílias amorosas e atentas podem ter drogados graves. Famílias doentes podem ter filhos saudáveis.

E se, apesar do amoroso cuidado, tudo der errado, então sofrem todos, então fortalecem-se as cracolândias pelo país, enriquecem os traficantes, multiplica-se o crime, e passeia com suas longas vestes a Senhora Morte recolhendo as vítimas de uma sociedade fútil e incompetente – ou da própria incurável condição humana.
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* Escritora.
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9824242.xml&template=3916.dwt&edition=31392&section=70 24/06/2017
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A simulação do futuro

miguel manso
A Sociedade dos Sonhadores Involuntários: o futuro simulado, em Agualusa, só pode ser o do fim do 
regime de José Eduardo dos Santos.
Somos sempre observadores não participantes, recebendo notícias em segunda mão sobre a sua coragem, sobre a actividade que irá pôr em causa o regime, sobre a sua detenção, a greve de fome, sobre tudo aquilo que poderíamos ler nos jornais. Dos heróis deste livro sabemos do seu heroísmo, menos da sua humanidade. Representam papéis, elevam-se de entre os outros sem chegar a ser de carne e osso.

Não ajuda o ponto de vista escolhido para narrar a história, o de Daniel Benchimol, alguém que, como lhe diz um amigo, pertence a esses que “estão aqui em Luanda, mas não vivem aqui connosco. Não sofrem connosco”. Um ponto de vista por sua vez necessário para que o sonho se simule em futuro, quando os do “silêncio cúmplice”, como Benchimol, finalmente se apercebem do imperativo de gritar.
O décimo quarto romance do escritor angolano, nascido no Huambo em 1960, é um livro engajado, para usar uma palavra muito cara em Angola, sem perder a ambição de ser poético e a vontade de saber mais sobre o mundo dos sonhos. É um livro de quem continua a acreditar em utopias, de quem vê Angola como “a feroz alegria que sobrevive entre ruínas”. 
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Fonte: https://www.publico.pt/2017/06/21/culturaipsilon/noticia/a-simulacao-do-futuro-1775840