domingo, 9 de julho de 2017

J. R. R. Tolkien fala a verdade

Entrevista com o autor Joseph Pearce sobre “O Senhor dos Anéis” 

NOVA YORK, NOV. 15, 2001 (Zenit.org) .- O convertido católico Joseph Pearce é autor de dois livros populares sobre JRR Tolkien, “Tolkien: Man and Myth” (Tolkien: O homem e o mito) e “Tolkien: A Celebration” (Tolkien: Uma celebração, ambos pela Ignatius Press).

Com o lançamento do filme O Senhor dos Anéis” programado para o próximo mês, Pearce meditou sobre Tolkien (1892-1973) e seu trabalho nesta entrevista com o ZENIT.

P: Houve críticas de algumas histórias de fantasia por causa de sua orientação supostamente pagã. Você vê as obras de Tolkien como parte desse gênero ou é diferente?
Pearce: Tolkien falou de mitos e histórias de fadas, em vez de “fantasia”. Ele foi um católico e devoto praticante de toda a vida que acreditava que a mitologia era um meio de transmitir certas verdades transcendentes que são quase inexprimíveis dentro dos limites factuais de um romance “realista”.

Para entender a “filosofia do mito” de Tolkien, é útil começar com uma máxima de GK Chesterton: “não são os fatos primeiro, a verdade primeiro”. Tolkien e Chesterton tiveram a intenção de diferenciar entre fatos, que são puramente físicos e verdade, que é metafísico.

Assim, um mito ou uma história de fadas pode transmitir amor e ódio, egoísmo e auto-sacrifício, lealdade e traição, bem e maldade – todas as quais são realidades metafísicas, ou seja, mesmo se transmitidas em um cenário mitológico ou de conto de fadas.

Não há necessidade de os cristãos se preocuparem com o papel da “história” como um transmissor da verdade. Afinal, Cristo foi o maior contador de histórias de todos. Suas parábolas podem não ser factuais, mas são sempre verdadeiras.

Pegue, por exemplo, a parábola do filho pródigo. Provavelmente, Cristo não estava se referindo a um filho particular, nem a um pai indulgente particular, nem a um irmão envidioso particular. O poder da história não reside em ser factual, mas em ser sincero.

Não importa que o filho pródigo nunca tenha existido como uma pessoa real; Ele existe em cada um de nós. Somos todos, de uma vez ou outra, um filho pródigo, um pai indulgente ou um irmão invejável. É “aplicável” a todos nós. É a verdade da história, não são fatos, isso importa.

Este era o ponto de Tolkien. Além disso, há mais verdade em “O Senhor dos Anéis” do que em muitos exemplos de realismo fictício.

P: Nos últimos anos, a magia em diversas formas, como jogos, programas de TV, etc., tem sido muito popular entre os jovens. Dada a forma como os poderes mágicos são apresentados no “Senhor dos Anéis”, você acha que poderia haver perigos para os jovens?
Pearce: Há muito pouco do que poderia ser chamado de magia em “O Senhor dos Anéis”. Há muito que é sobrenatural, mas apenas no sentido de que Deus é sobrenatural, ou que Satanás é sobrenatural, ou que o bem e o mal são sobrenaturais.

Seria mais preciso descrever a chamada magia em “O Senhor dos Anéis” como milagrosa, quando serve o bem e demoníaco, quando serve ao mal.

A Terra Média de Tolkien, o mundo em que “O Senhor dos Anéis” está definido, está sob o poder supremo do Deus Único. Também está sob a influência corruptora de Melkor, o anjo caído, o Satanás de Tolkien.

O maior dos servos de Satanás, Sauron, é o Senhor das Trevas, que é o inimigo em “O Senhor dos Anéis”. Em outras palavras, a Sociedade do Anel está em uma luta até o final com os servos de Satanás.

Como os cristãos podem eventualmente se opor a uma missão, cujo objetivo é frustrar os maus projetos do inimigo demoníaco? Longe de ser uma “fantasia”, “O Senhor dos Anéis” é um thriller teológico.

P: Você acha que essa foi a intenção de Tolkien?
Pearce: Não há dúvida de que “O Senhor dos Anéis” é um mito profundamente cristão, mas isso não é o mesmo que dizer que é uma alegoria.

Tolkien não gostou da alegoria porque a via como uma forma literária bastante grosseira. Em uma alegoria, o escritor começa com o ponto que ele deseja fazer e depois faz uma história para fazer o seu ponto de vista. A história é muito pouco mais do que um meio de ilustrar a moral.

Tolkien acreditava que um mito não deveria ser alegórico, mas que deveria ser “aplicável”. Em outras palavras, a verdade que emerge na história pode ser aplicada à verdade que emerge na vida.

Há, portanto, uma grande quantidade de verdade em “O Senhor dos Anéis”, embora seu autor nunca tenha intencionalmente apresentá-lo alegoricamente. Esta é, talvez, uma distinção sutil, mas que Tolkien acreditava ser importante.

P: Que valores você acha que “O Senhor dos Anéis” tem que nos ensinar?
Pearce: Os valores que surgiram em “O Senhor dos Anéis” são os valores que emergem nos Evangelhos.
Na caracterização dos Hobbits, os heróis mais relutantes e os mais improváveis, vemos a exaltação dos humildes. Na figura de Gandalf, vemos o arquétipo de um patriarca do Antigo Testamento, seu cajado aparentemente tendo o mesmo poder que o possuído por Moisés.

Na sua aparente “morte” e “ressurreição”, o vemos emergir como uma figura semelhante a Cristo. Sua “ressurreição” resulta em sua transfiguração.

Antes de deixar a vida por seus amigos, ele era Gandalf o Cinzento; Depois, ele se torna Gandalf o Branco. Ele é lavado em branco na pureza de seu auto-sacrifício e emerge mais poderoso em virtude do que nunca.

O personagem de Gollum é degradado pelo seu apego ao Anel, o símbolo do pecado do orgulho. O possuidor do Anel é possuído por sua posse e, em conseqüência, é despojado de sua alma. O usuário do Anel sempre se torna invisível para aqueles que são bons, mas ao mesmo tempo torna-se mais visível aos olhos do mal.

Assim, vemos que o pecador se excomunata da sociedade do bem e entra no mundo de Satanás.
Em última análise, o porte do Anel por Frodo e sua luta heróica para resistir à tentação de sucumbir aos seus poderes doentios, é semelhante ao Levar da Cruz, o supremo ato de abnegação.

Em todo o “O Senhor dos Anéis”, as forças do mal são vistas como poderosas, mas não todas-poderosas. Há sempre a sensação de que a providência divina está do lado da Sociedade e que, em última análise, prevalecerá contra todas as probabilidades. Como Tolkien colocou sucintamente, “Acima de todas as sombras, está o sol”.

P: Muitos lamentam a depravação nos meios de comunicação hoje. O que podemos aprender com Tolkien sobre melhorar a qualidade do entretenimento?
Pearce: A maior lição que aprendemos de Tolkien é a natureza objetiva da verdade. O mal é real; Assim como o bem.

A bondade é a presença real de Deus; O mal é a sua verdadeira ausência. Tolkien não tem tempo para o relativismo amoral que é tão prevalente em grande parte do que passa como entretenimento moderno.

O fato de que o mito de Tolkien contém mais verdade do que a maioria do que passa como realismo serve como uma acusação condenatória da visão falsa que está sendo apresentada pelos meios de comunicação de hoje.
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© Innovative Media, Inc.
Reimpresso com permissão.
Fonte: http://www.catholicqanda.com/LOTR2.html
Tradução: Emerson de Oliveira

sexta-feira, 7 de julho de 2017

PACOTES DE SILÊNCIO


Tatiana Salem Levy*
 Resultado de imagem para "Pape Satàn Aleppe" (Ed. Record).
Umberto Eco era um dos últimos sobreviventes de uma espécie em extinção. Escritor, crítico, filósofo, semiólogo, ensaísta, historiador, bibliófilo e, ao mesmo tempo, grande analista da contemporaneidade. Morreu no ano passado, mas ainda nos deixou um derradeiro livro, "Pape Satàn Aleppe" (Ed. Record). O título é uma citação de um verso do Inferno de Dante. Embora vários comentaristas tenham tentado encontrar um sentido para ele, a maioria concluiu que não tem nenhum significado preciso. Pronunciado por Pluto, ele confunde as ideias. Por isso, Eco o escolheu como título dessa coletânea de textos publicados na revista "L'Espresso" entre 2000 e 2015 - suas famosas Bustinas -, que, assim como o nosso tempo, "é desconexa, vai do galo ao asno e reflete a natureza líquida destes quinze anos". 

É de Zygmunt Bauman - outro grande nome desaparecido recentemente - que ele toma emprestada a ideia de sociedade líquida. As crises do Estado, das ideologias, dos partidos e, em geral, "de qualquer apelo a uma comunidade de valores que permita que o indivíduo se sinta parte de algo capaz de interpretar suas necessidades" fez surgir um individualismo desenfreado, em que ninguém é mais companheiro de ninguém. Sem qualquer ponto de referência, tudo se dissolve numa espécie de liquidez. No desespero, as únicas saídas para esse novo indivíduo são o aparecer a qualquer custo e o consumismo. 

Com a bagagem de um escritor que atravessou a maior parte do século XX - quando ainda se acreditava no Estado, na comunidade, na ideologia -, Eco interpreta nosso estado líquido em divagações que tratam dos mais variados assuntos, em geral inspiradas pela atualidade, mas não só, pois não são poucas as vezes em que passeia por um livro antigo, um acontecimento passado ou até mesmo uma revistinha do "Popeye".

Os pequenos ensaios podem ter temas variados, mas há certas ideias que permeiam o livro todo. Comecemos pela do "aparecer a qualquer custo". Ao pensar no neto, que em 2002 tinha dois anos, Eco sentencia: "para este menino que cresce, parecerá natural viver num mundo onde o bem primário será a visibilidade. (...) todos farão de tudo para aparecer, na televisão ou naqueles canais que até lá terão substituído a televisão". O desespero das pessoas em quererem obter seus segundos de fama, dar um tchauzinho na tela a qualquer custo, atormenta o autor.

Há nem tanto tempo assim, existia uma diferença entre ser famoso e ser falado. "Todos queriam ser famosos como o melhor arqueiro ou a melhor bailarina, mas ninguém queria cair na boca do povo como o maior corno da cidade", lembra Eco. Hoje, essa distinção está a um fio de desaparecer: "Para serem vistas ou faladas, as pessoas estão dispostas a fazer qualquer coisa". Qualquer coisa mesmo, desde que no dia seguinte se consiga ser reconhecido pelo padeiro ou pelo banqueiro. Por um pouco de fama, as pessoas se dispõem a se declarar um falsário, um assassino, um corrupto. Tudo pelo espetáculo - confesso que aqui, e em vários outros momentos do livro, fiquei pensando no que se tornou a nossa política, um verdadeiro espetáculo de pessoas que, longe de pensar no bem comum, mais parecem palhaços desesperados por abocanhar não apenas os seus milhões, mas também seus minutos de fama. Muito pior do que um "Big Brother", que a gente sabe que é feito para isso. Já a política...

"Basta olhar o ar orgulhoso do corrupto ou do espertalhão quando aparece no telejornal, talvez no dia mesmo da prisão: aqueles minutos de notoriedade valem a cadeia, melhor ainda se tiver prescrição, e eis por que o acusado ri", comenta Eco. Poderia a atual política brasileira ser menos parecida com essa descrição, e nós agradeceríamos.

A questão do ser visto não passa apenas pela fama, mas também por uma sociedade que tem cada vez mais um controle quase absoluto de seus cidadãos. Antes, era preocupante que soubessem o que havíamos consumido, quando e onde pelo extrato do cartão de crédito. Agora, o controle é muito maior. Já sabemos há um tempo que as redes sociais (sobretudo o Facebook) são utilizadas pelos vários poderes com funções de controle, muitas vezes graças à contribuição dos seus usuários. "Pela primeira vez na história da humanidade, os espionados colaboram com os espiões", diz Eco.

Quem nunca foi pesquisar um assunto na internet e não viu chover nos dias seguintes, em suas contas de e-mail, Facebook ou Instagram, anúncios relacionados ao tema? Experimentem pesquisar acerca de um mito grego para ver se não vão receber ofertas imperdíveis de cruzeiros na Grécia? E agora basta irmos a um lugar com o celular ligado para saberem que lá estávamos e nos bombardearem com mais anúncios. Lembram do panóptico de Bentham, sobre o qual Michel Foucault tanto discorreu em "Vigiar e Punir"? Virou brincadeira de criança, perto do que se tornou a sociedade..

Outro tópico que perpassa o livro é a nova tecnologia e as conseqüências delas nas relações, seja entre professor e aluno, seja entre amigos. O interessante é perceber como, por um lado, ele defende valores pré-internet e, por outro, mostra-se aberto à nova realidade. Eco toca com freqüência no fato de que os estudantes deixaram de consultar livros didáticos e enciclopédias para buscar informações diretamente na internet. Sugere, então, que a nova e fundamental matéria que deveria ser ensinada nas escolas é "uma técnica de seleção das informações on-line". E ainda defende que o aluno que copia bem deve ganhar uma nota alta, pois a arte de copiar bem é uma tarefa difícil..

Ele tem razão. As escolas precisam se adaptar ao mundo de hoje em vez de combatê-lo como se fôssemos voltar atrás. Ensinar a encontrar as informações mais relevantes, as informações falsas, ensinar a relacionar os conteúdos, a ler e interpretar. Um bom professor e um aluno inteligente sabem que não basta copiar e colar. É preciso saber fazê-lo. Afinal, "a internet nos diz quase tudo, exceto como buscar, filtrar, selecionar, aceitar ou rejeitar as informações".

Mas às vezes voltar para trás é importante. "O progresso não consiste necessariamente em ir sempre adiante a qualquer custo", reflete Eco. E continua: "o progresso também pode significar dar dois passos atrás, como voltar à energia eólica no lugar do petróleo e coisas do gênero". Saber desligar o celular e retomar a solidão, a reflexão silenciosa sobre nós mesmos, é outro passo para trás em direção ao progresso. Umberto Eco costumava deixar o celular desligado e só o ligava quando precisava consultar a agenda ou telefonar a alguém. Seu argumento: "Quando meu pai morreu, há mais de quarenta anos, eu estava viajando e só pude ser contatado muitas horas depois. Pois bem, estas horas de atraso não mudaram nada".

Outro problema do celular: a máquina fotográfica. O presencialismo de um olho mecânico à custa do cérebro alterou o comportamento das pessoas. Fotografamos tudo o que vemos para ver depois o que acabamos por não ver na hora. Trocamos a experiência pela fotografia que, em realidade, mais tarde. Provavelmente se perderá na nuvem... A incapacidade atual de estarmos presentes faz com que deixemos de ter experiências fundamentais para o amadurecimento. Eco relata a primeira vez em que se viu diante da morte, da dor e do desespero. Tinha onze anos quando viu um caminhão bater numa carroça de um camponês e sua esposa. A mulher foi parar no asfalto, com o cérebro para fora. Se fosse hoje, os que estavam à volta tirariam o celular do bolso. Naquela época, Eco guardou a imagem na memória. Imagem que, "mesmo a setenta anos de distância, continua a atormentar-me e a educar-me, transformando-me num partícipe não indiferente da dor dos outros".

"Pape Satàn Aleppe" fala ainda de política - e a política italiana muitas vezes nos faz pensar na nossa -, de literatura, de educação, mas eu queria terminar com um tema muito caro a Eco que coloca em desespero todos aqueles que o apreciam: o silêncio. "Compraremos pacotes de silêncio?" pergunta o título de uma bustina. O silêncio é um bem em via de desaparecimento. Há músicas (quase sempre ruins) nos elevadores, nos aeroportos, nos táxis, nos restaurantes. Televisões ligadas em todo lado. Todo mundo com seus fones de ouvidos. O rumor do trânsito está cada vez pior. Pessoas, aterrorizadas pelo silêncio e pela solidão, buscam "rumores amigos no celular".

"O silêncio está prestes a se tornar um bem caríssimo e, de fato, só está à disposição de pessoas abastadas que podem pagar mansões em meio ao verde ou místicos da montanha com mochilas nas costas", diz Eco. Pode ser que gerações futuras estejam mais adaptadas ao barulho, mas, para um percentual de indivíduos que se adaptam, milhares morrem pelo caminho. Eu, com certeza, serei um deles. A não ser que me torne rica o suficiente para comprar pacotes diários de silêncio. "Ainda vamos chegar ao momento em que aqueles que não aguentam mais o barulho poderão comprar pacotes de silêncio, uma hora num quarto forrado como o de Proust ao preço de uma poltrona no Scala de Milão", ironiza - ou profetiza - Umberto Eco.
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Tatiana Salem Levy, doutora em letras e escritora, escreve neste espaço quinzenalmente 
E-mail: tatianalevy@gmail.com

terça-feira, 4 de julho de 2017

Como é que as notícias falsas se tornam virais?

 Travar a propagação de notícias falsas também depende dos utilizadores de redes sociais, basta uma leitura mais crítica
 Travar a propagação de notícias falsas também depende dos utilizadores de redes sociais, 
basta uma leitura mais crítica REUTERS/Dado Ruvic

 O excesso de informação e a nossa limitada atenção faz com que as notícias falsas tenham as mesmas hipóteses que as verdadeiras de se tornarem populares nas redes sociais, conclui um artigo publicado na revista Nature Human Behaviour .

Abra a sua conta do Facebook, ou de outra rede social, e confira a quantidade de posts que se acumulam no ecrã e, já agora, verifique quais os que lê e quais os que lê e partilha. Verificou a fonte de informação? Muitos não o fazem. A nossa atenção limitada e o excesso de informação explicam como as notícias falsas, mais conhecidas pela versão em inglês fake news, se tornam virais nas redes sociais, segundo um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour. Os investigadores analisaram o comportamento de um milhão de utilizadores de redes sociais e dois milhões de memes (uma informação, imagem ou vídeo que se espalha via Internet).
Os autores deste estudo adiantam que, no campeonato da popularidade na Internet, as notícias falsas estão em pé de igualdade com as verdadeiras. Solução? Limitar o recurso a bots (vem da palavra inglesa robot), um programa de computador que espalha de forma automática uma notícia a um ritmo impossível para um ser humano.

As notícias falsas e os boatos sempre existiram mas as redes sociais deram-lhes um imenso palco com espaço para crescer sem limites aparentes. Neste “espectáculo” social, podemos fazer uma escolha: ou somos apenas espectadores ou participamos, saltando para o palco com uma publicação ou uma partilha. Independentemente do papel que escolhemos, bombardeados com tanta informação sobre tanta coisa torna-se muito difícil conseguir distinguir a informação de qualidade das notícias falsas ou embustes. Há um permanente concurso neste palco: ver quem tem mais sucesso, mais partilhas, quem é mais popular.

Num trabalho que envolveu a análise de comportamento de um milhão de utilizadores e o sucesso de dois milhões de memes falsos e verdadeiros, um grupo de investigadores da Universidade de Indiana (EUA) e do Instituto de Tecnologia de Xangai (China) concluiu que as publicações com mais qualidade têm as mesmas probabilidades de se tornarem virais, quando comparadas com as informações de baixa qualidade e falsas. Para constatar a sobrecarga de informação a que somos sujeitos e a nossa capacidade limitada de atenção, os autores desenvolveram um modelo de difusão de memes com dados reais de algumas redes sociais, como o Facebook, o Tumblr ou o Twitter.

“O parâmetro que descreve a quantidade de informações a que somos expostos foi obtido a partir do comportamento de 1.000.000 de utilizadores do Twitter onde constatámos o número de posts originais e o número de retweets”, explica ao PÚBLICO Diego Fregolente Mendes de Oliveira, investigador na Escola de Informática e Computação, na Universidade do Indiana (EUA) e um dos principais autores do estudo. Por outro lado, adianta, os dados sobre a atenção foram obtidos a partir de dez milhões de sessões de scrolling em telemóveis de utilizadores do Tumblr durante um período de duas semanas em 2016. Foi registado o número de vezes que cada utilizador passou por 500 pixels de dados (no mínimo) e onde parou durante, pelo menos, um segundo.

Mais crítica e menos bots

“Finalmente, os resultados mostram que informações de baixa e alta qualidade têm as mesmas probabilidades de se propagar se forem obtidas a partir de dados do Facebook. Neste último caso, recorremos aos dados de uma organização chamada Emergent.info que tem uma relação dos URL de notícias falsas, classificadas como de baixa qualidade, assim como as notícias que desmascaram as notícias falsas, classificadas como notícias de alta qualidade”, refere o investigador, adiantando que, depois de contarem o número de partilhas, foi avaliado o sucesso de dois milhões de memes.

No modelo teórico desenvolvido pelos investigadores existe a possibilidade de assegurar uma boa relação entre diversidade e qualidade. No entanto, os autores do estudo acabam por concluir que, na prática, este modelo acaba por não funcionar nas redes sociais por causa da grande quantidade de informação a que somos expostos. “Mesmo que sejamos capazes de reconhecer tipos de informações confiáveis nas nossas redes sociais, elas raramente prevalecem”, defende Diego Oliveira.

E agora? Estamos condenados a redes sociais que garantem o mesmo sucesso às notícias verdadeiras e falsas? Não há forma de controlar isto? Apesar de ser um mundo de difícil controlo, os investigadores sugerem uma medida que podem “enfraquecer” as fake news e embustes nas redes sociais e que passa, resumidamente, por “limitar de forma agressiva” a utilização de bots. “Detectar bots sociais é uma tarefa muito desafiadora. Há todos os tipos de bots, e muitos são benignos. Os ‘bots’ com a finalidade de enganar podem ser bastante sofisticados e difíceis de serem reconhecidos mesmo por seres humanos. E um grande número deles pode ser gerenciado via software, tornando-se ainda mais difícil sua identificação”, admite o investigador, que nota ainda que a equipa de que faz parte desenvolve métodos (baseados em algoritmos) que são bastante precisos na detecção de “bots” sociais. Porém, Diego Oliveira nota que estas técnicas têm de ser usadas com algum conservadorismo porque o risco de detectar um falso positivo (suspendendo uma conta legítima) é muito maior do que o de um falso negativo. “São necessárias mais pesquisas para desenvolver sistemas de detecção que sejam precisos, rápidos, adaptáveis e robustos”, conclui.

Sobre eventuais filtros que um utilizador poderá usar para “separar o trigo do joio”, o investigador dá algumas ideias que partem do princípio de que o uso das redes sociais como fonte de notícias não é confiável, “a menos que se concentre apenas em publicações de fontes de media que sigam práticas de jornalismo estabelecidas”. "Geralmente, as pessoas querem usar as redes sociais para manter contacto com amigos e familiares, e é difícil pedir uma para reduzir essa actividade. Mas os problemas começam a aparecer quando começamos a usar as mesmas redes para aceder a notícias", alerta Diego Oliveira.

 “Devemos ter em mente que nossos amigos provavelmente não são bons editores e são mais impulsionados por emoções do que objectividade e confiabilidade. Há muitas coisas que podemos fazer para diminuir o volume de informações de baixa qualidade, como, por exemplo, verificar as fontes de informações, evitar assumir que algo partilhado por um contacto social é confiável e, finalmente, devemos também evitar partilhar algo sem uma leitura crítica. Acredito que se começarmos a avaliar bem as informações a que somos expostos antes de as transmitir isso ajudaria a reduzir a quantidade de fake news que encontramos online".
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Reportagem por

Ainda temos empregos, são é empregos diferentes”

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Em entrevista ao Observador, os economistas David Autor e Anna Salomons dizem que os robôs não nos roubaram empregos, mas quem tem menos qualificações está cada vez 
pior e deve ser apoiado.
Desde que o homem inventou a máquina que o medo de que os robôs tomem conta do mercado de trabalho assusta trabalhadores por todo o mundo. Numa era em que cada vez mais funções estão a ser desempenhadas por máquinas, computadores e inteligências artificiais, em que as populações das zonas industriais se queixam de terem sido esquecidas e em que os políticos populistas usam a frustração destas populações, dois economistas decidiram ver se este discurso bate certo com a realidade.

David Autor, economista do MIT e um dos maiores especialistas em emprego, e Anna Salomons, economista da Universidade de Utrecht e que muito se tem dedicado a esta tema, apresentaram na semana passada as suas conclusões no Fórum do Banco Central Europeu em Sintra. O resultado? Há mais emprego que antes de toda esta inovação. Mas o emprego é diferente, o mercado de trabalho está polarizado e quem tem menos qualificações tem cada vez menos oportunidades ou empregos piores.

Os dois economistas falaram com o Observador em Sintra para explicar as conclusões a que chegaram e para oferecer algumas soluções para estes problemas.

Devemos preocupar-nos que as máquinas fiquem com os nossos empregos?

David Autor: O que o nosso artigo explica é que o aumento da produtividade é, normalmente, uma coisa boa e que, como ponto de partida, devemos reconhecer que queremos mais e não menos. É possível que também tenha causado deslocalização [de emprego] e as nossas conclusões apontam para isso. Nas indústrias que se tornam mais produtivas há uma queda no emprego. Olhando individualmente para isto diríamos “uau, estão a trazer robôs para o meu trabalho e os trabalhadores estão a desaparecer”. É disruptivo e percebo porque as pessoas sentem que é uma coisa má. Mas, como muitas coisas em economia, o que é verdade a nível individual, é o contrário ao nível agregado.
A produtividade reduz emprego no setor onde o aumento da produtividade acontece, mas gera riqueza, que aumenta o rendimento de quem consome, que aumenta a procura de bens de outros setores. E também, claro, as indústrias estão ligadas, o que quer dizer que se a produtividade aumentar no setor automóvel, podem começar a empregar menos pessoas, mas também a comprar mais pneus, ou começam a comprar mais componentes para os sistemas de som dos carros, isso também afeta a procura. A nossa conclusão não é que não há nada com que nos preocuparmos, de todo…

Anna Salomons: É a ideia de desaparecimento de empregos em massa, que tem contribuído para nos distrair daquilo em que nos devíamos focar, que é a relocalização e esse tipo de ajustamentos. Funciona como distração para aquilo que entendemos que tem sido o foco errado desta questão.

"A ideia de desaparecimento de empregos em massa tem contribuído para nos distrair daquilo em que nos devíamos focar que é a relocalização. Está a funcionar como distração para aquilo que entendemos que tem sido o foco errado desta questão" -- Anna Salomons 
 
Mas mesmo os setores de maior aumento de produtividade estão a abrandar…

David Autor: A indústria teve um enorme crescimento da produtividade e tem uma muito menor percentagem de empregos na maioria dos países desenvolvidos do que no final da Segunda Guerra Mundial. Parte deve-se à deslocalização destas indústrias para a Ásia, mas o emprego nestas indústrias também está a diminuir na China, por exemplo. Uma parte importante também é a industrialização: à medida que a tecnologia tem melhorado, a quota parte gasta em salários tem caído.
Anna Salomons: Outra forma de ver a questão é: se não tivesse havido qualquer aumento de produtividade desde 1900 ainda estaríamos todos a trabalhar na agricultura, certo? Nós ainda temos empregos, são é empregos diferentes.

E como nos adaptamos a estas mudanças?

David Autor: Esse é, sem dúvida, o grande desafio. O que a nossa análise sublinha é que os setores que estão a contrair são aqueles que funcionam à base de trabalho não qualificado, o setor primário e a indústria. Os que estão a crescer são os que tipicamente trabalham com pessoas com mais qualificações. Esse processo desequilibrado de crescimento mudou a procura de uma forma que não é favorável aos trabalhadores menos qualificados. Não se trata do número de empregos, mas sim do tipo de empregos disponíveis e das qualificações dos trabalhadores. Esse é um problema muito grande.

Há muitas pessoas com menos qualificações a ficarem para trás. Como se resolve este problema?

Anna Salomons: Antes de mais, o crescimento faz subir todos os rendimentos, por isso, o que queremos ter é crescimento da produtividade e o rendimento disponível a aumentar, que deixa todos melhor. Essa é a principal razão para querermos aumentar a produtividade, certo? Para nos deixar mais ricos. Depois, claro, há um papel importante reservado para as políticas públicas, como o salário mínimo e a redistribuição. Este tipo de medidas é crucial para garantir que existe uma distribuição equitativa dos ganhos. Há também quem defenda formas diferentes de redistribuir, como uma espécie de programa de propriedade, se estivermos a falar de robôs especificamente. Richard Freeman, da Universidade de Harvard, defende que quem trabalha nestas empresas devia ser dona de parte dos meios de produção para que pudessem colher os benefícios destes aumentos de produtividade.

"Há um papel importante reservado para as políticas públicas, como o salário mínimo e a redistribuição. Este tipo de medidas é crucial para garantir que existe uma distribuição equitativa dos ganhos" -- Anna Salomons 
 
David Autor: É um desafio real e que todos os países industrializados estão a enfrentar. As oportunidades nunca foram tão boas para adultos com mais qualificações, pessoas com especialidades, criatividade e talento, mas é um mundo cada vez pior para as pessoas que só têm competências básicas. A situação provavelmente não vai melhorar por si só. Há coisas que podem ajudar. Uma delas é o crescimento acelerar, o que ajuda toda a gente. Se a produtividade crescesse, mais rapidamente criaria mais riqueza, que por sua vez cria mais procura e, independentemente do que as pessoas fazem, os salários tendem a aumentar. Os salários vão aumentar na restauração, apesar de a produção desses trabalhadores não estar a aumentar, porque os clientes estão dispostos a pagar mais.

Uma segunda hipótese, e no longo prazo a mais importante, é a educação. Se tivéssemos a mesma força de trabalho que tínhamos no século XX, muitas pessoas teriam dificuldade em encontrar emprego, porque não teriam as qualificações necessárias. Não só educação superior, mas também ensino vocacional, que tem sido eficaz em países como a Suécia, Alemanha, Áustria e Suíça, países que investem de forma robusta em formação profissional básica, em pessoas que fazem reparações ou que trabalham em logística, por exemplo.

E alguma destas medidas teria impacto no curto prazo?
David Autor: Nada disto tem impacto imediato. O crescimento é a única coisa que tem impacto no imediato, mas, claro, não sabemos como conseguir crescimento. Se conseguíssemos, tudo seria melhor da noite para o dia. Resolveria tantos problemas de uma só vez, até porque também aumenta as receitas fiscais. Todos os problemas que enfrentamos sobre a limitação de recursos tornam-se menos problemáticos quando os recursos estão a crescer.

Anna Salomon: Sabemos que a aposta nas qualificações é um grande investimento, porque sabemos que as pessoas que têm mais deste tipo de qualificações básicas conseguem adaptar-se às mudanças do mercado de trabalho. Podemos treiná-los, mesmo que daqui a dez, quinze anos precisem de fazer outra coisa, porque têm um conjunto de competências a partir do qual podem desenvolver outras, e assim são mais capazes de se adaptar.

Era por isso que dizia que a educação precisa de criar pessoas mais adaptáveis?

David Autor: Essa é a mais fundamental das capacidades do ser humano: a capacidade de nos adaptarmos, de nos depararmos com uma situação para a qual não fomos programados e saber qual é a coisa certa a fazer. Vemos o mercado de trabalho a recompensar cada vez mais as pessoas, não por saberem cálculo, mas por terem capacidades pessoais e interpessoais para trabalhar numa equipa, para liderar pessoas, para pensar de forma criativa e flexível sobre novos problemas. Há quem imagine que no seu mundo focado no ensino de um currículo STEM [à base de ciência, tecnologia, engenharia e matemática] que quem vai mandar no mundo serão os tecnocratas, mas não, o mundo é liderado por atores…e charlatães [risos].

David Autor, apresenta o artigo na conferência do BCE em Sintra. 

Isso é uma referência a Donald Trump?

David Autor: Essa é uma conclusão a que tu é que tens de chegar… Mas são fakenews. [risos]

Falou também da questão da concentração e do impacto das super empresas. Que impacto estão a ter no emprego?

David Autor: As grandes empresas são sempre mais centradas no fator capital do que no fator trabalho. As pequenas empresas tendem a ter muitos trabalhadores para o nível de investimento que têm e as empresas maiores são o contrário. O que parece é que, em vez de o nível de emprego destas empresas estar a descer, o nível de produção está a aumentar. Como são mais produtivas, estão a ter uma maior parte de todas as vendas, do valor acrescentado. Uma consequência mecânica é que a percentagem de despesa dessas empresas com salários está a cair, mas como esta situação vai evoluir ao longo do tempo, não sabemos. Estando bem, estas empresas ganham vantagem, porque são mais produtivas. À primeira vista é uma coisa boa, mas se ganharem demasiado poder no mercado, podem começar a pensar que não precisam de investir, porque já estão na frente, e guardar o dinheiro em vez de investir, focando-se em impedir a entrada de outras empresas no mercado…

Como a Apple nesta altura?

David Autor: Precisamente.

Anna Salomon: Sabemos que o papel das empresas na desigualdade tem vindo a aumentar ao longo do tempo. Agora, importa mais a empresa em que se trabalha. Mesmo que tenhamos o mesmo emprego, há uma grande diferença [em termos salariais] se trabalhar numa dessas empresas mais produtivas. Esta é parte da razão pela qual a desigualdade está a aumentar e pode ser importante perceber o que se passa.

Como poderíamos gerir o impacto destas super empresas na desigualdade e no emprego? Mais regulação?

David Autor: A política fiscal seria uma melhor forma de o fazer, em vez de regulação propriamente dita. Ainda é cedo para decidir, porque não conhecemos as razões. O que Thomas Philippon defendeu foi que isto se deve às diferenças de regulação entre os EUA e a Europa, mas há estudos que argumentam que isto está a acontecer em muitos países simultaneamente, países com diferentes tipos de regulação. A ser verdade, é improvável que se trate apenas de uma questão de regulação. É muito importante diagnosticar o problema antes de o tratar. Se for mesmo um problema económico profundo, com vida própria, então a resposta é difícil. Se for só uma distorção, então podemos aprovar uma lei. Agora, se for uma dinâmica natural económica então há um trade-off em fazer isto. Se as empresas são economicamente eficientes e se a sua liderança do mercado é merecida não queremos dizer só “ah, vocês são bons demais”. As alternativas são taxar os lucros e redistribuir. Podemos dar mais incentivos às empresas para reinvestir em vez de guardar dinheiro. Mas não é, certamente, um problema simples.

Anna Salomon: Não queremos que as pessoas usem o motor de busca do Yahoo se eles preferem usar o do Google, certo?

Anna Salomons, ao meio, durante a Fórum do Banco Central Europeu em Sintra, 
que decorreu entre 26 e 28 de junho.

E como se ajudariam os “perdedores” destes avanços tecnológicos?
 
David Autor: No longo prazo, a educação é o mais importante e não apenas para os adultos que ficaram sem emprego. Temos de nos concentrar na próxima geração. Temos de garantir que estarão preparados, porque são eles que vão estar no centro dessas oportunidades.

Temos de mudar a forma como ensinamos, o que ensinamos?

David Autor: Penso que essas coisas podem ser acrescentadas. Não acho que tenhamos de deitar fora o que temos vindo a fazer. Continuo a acreditar que haverá sempre procura para pessoas que têm capacidades analíticas. O que é importante não é se somos capazes de fazer contas de cabeça, mas se conseguimos pensar, pessoas que têm conhecimento de História, que sabem falar bem, apresentar… As competências fundamentais como ler, escrever, a matemática e o pensamento científico e analítico são mais importantes que nunca. O que se diz agora é que toda a gente devia perder tempo a aprender a programar. Acho que isso não é correto, de todo.

Alguns participantes diziam-me que o vosso trabalho é um pouco otimista. O que responde a essas críticas?

Anna Salomon: Não nos dizem isso na cara, só nas nossas costas (risos).

David Autor: Quem são essas pessoas? Quero nomes (risos).

Não acham que estão a ser um pouco otimistas sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho?

David Autor: Eu diria que são pessimistas.

Anna Salomon: A nossa mensagem não é que não precisamos de nos preocupar, mas sim que o cenário apocalítico de Robocalypse não é a questão em que nos devíamos estar a concentrar. Na verdade, acaba por desviar a atenção dos verdadeiros problemas. Estão preocupados que os empregos vão desaparecer, mas não é provável que aconteça. Não podemos prever o futuro, mas para já não parece estar a acontecer e há razões económicas claras para isso não acontecer: é devido à resposta do consumo e aos empregos que estão a ser criados noutros sítios da economia. O que nós dizemos é que não é nisso que deviam concentrar o seu pânico, mas sim nestes efeitos redistributivos que estão a acontecer e que devem continuar a acontecer no futuro.

Quão profundo é o impacto nos setores mais afetados por estas mudanças?

David Autor: Os maiores impactos têm sido na redução de oportunidades nos cargos de produção, operacionais e administrativos. O mercado de trabalho está cada vez mais polarizado devido ao aumento das profissões para pessoas com mais qualificações e esse é um problema muito sério, porque muitos dos empregos que têm sido criados são uma porcaria, sem grande segurança económica e grande rotatividade. Frequentemente, há quem ache que se as máquinas fizerem mais trabalho, as pessoas tem menos trabalho. Mas isso não tem sido verdade nos últimos 200 anos. Estamos no ponto da história de maior desenvolvimento tecnológico e aumento da produtividade, e há economias perto do pleno emprego, mas o resultado são vidas muito melhores. Temos padrões de vida mais altos, empregos mais estáveis e interessantes, muitos deles dentro de portas. Tem sido maioritariamente bom.

"O mercado de trabalho está cada vez mais polarizado, devido ao aumento das profissões para pessoas com mais qualificações e esse é um problema muito sério, porque muitos dos empregos que têm sido criados são uma porcaria, sem grande segurança económica, e grande rotatividade. Frequentemente, há quem ache que se as máquinas fizeram mais trabalho, as pessoas tem menos trabalho. Mas isso não tem sido verdade nos últimos 200 anos" -- David Autor 
 
Anna Salomon: É irónico. Por um lado, temos os pessimistas a dizer que não há crescimento suficiente da produtividade e que isso vai criar grandes problemas, vamos entrar em estagnação. Depois, os defensores do Robocalypse, que dizem que temos tanto crescimento de produtividade que vamos ficar todos sem emprego.

Vocês estão no meio?

Anna Salomon: Não podem estar os dois certos, essa é a primeira parte da boa notícia. A segunda é que podem estar os dois errados. A mensagem do nosso artigo não é “não se preocupem, a situação resolve-se sozinha”. Haverá empregos, mas os empregos que existirão podem não ser os que combinam com o tipo de qualificações que as pessoas têm. Não nos devíamos focar na quantidade, devíamos focar-nos na qualidade e de onde surgirão essas oportunidades.

Há algum país que se tenha adaptado bem a este problema?

Anna Salomon: Historicamente temo-nos adaptado a esta questão bastante bem.

David Autor: Em termos contemporâneos, diria que a Alemanha, a Suíça, que tem uma taxa de desemprego de 1% e uma grande participação, a Noruega… uma grande parte da Europa do Norte parece estar em boa posição. Nos Estados Unidos é um pesadelo de falta de regulação e de liberdade… [risos]

Anna Salomon: É, o mau tempo que temos resolve todos os nossos problemas… [risos]
David Autor: Muitos dos Estados sociais e dos Estados germânicos funcionam relativamente bem. Conseguem manter uma grande participação da força de trabalho — nem toda a gente está a trabalhar 4000 horas por ano mas por escolha própria —, têm usado o desenvolvimento tecnológico e conseguem partilhar a prosperidade. Os problemas que enfrentamos nos Estados Unidos, e em grande parte da Europa continental, não é um problema de riqueza em si, mas de distribuição de rendimento. E depois, claro, de baixo crescimento da produtividade, que torna tudo pior.

Como se aumenta a produtividade?
 
David Autor: Educação, boas instituições, tecnologia. Há muitas coisas que podem ser feitas.

Se mandassem num país como Portugal, o que fariam?
 
Anna Salomon: Tenho de ser mesmo eu a responder a esta? [risos] Penso que muitos dos problemas da Europa foram agravados pela austeridade. A austeridade tornou a situação muito pior do que teria de ser. Muitas pessoas sofreram desnecessariamente. A maior parte dos países europeus está a fazer algum tipo de reformas laborais para facilitar a contratação pelas empresas, mas isso não devia acontecer à custa da qualidade dos empregos. Têm de pensar em outras formas de manter Estados sociais valiosos.

"Muitos dos problemas da Europa foram agravados pela austeridade. A austeridade tornou a situação muito pior do que teria de ser. Muitas pessoas sofreram desnecessariamente. A maior parte dos países europeus está a fazer algum tipo de reformas laborais para tornar facilitar a contratação pelas empresas, mas isso não devia acontecer à custa da qualidade dos empregos" -- Anna Salomons 
 
David Autor: É difícil encontrar exemplos onde reformas do mercado de trabalho tenham tornado as economias incrivelmente dinâmicas. O exemplo mais próximo que encontramos são as reformas Hartz na Alemanha (implementadas entre 2003 e 2005).

Anna Salomon: E mesmo essas tiveram custos.

David Autor: A vantagem para um país como Portugal é que, não estando na vanguarda, quer dizer que tem mais produtividade para recuperar. Como lá chegar? É um problema complicado. É preciso atrair investimento estrangeiro, garantir que as instituições estão a funcionar de forma correta, e não falo apenas do mercado de trabalho, mas da falta de corrupção, educação superior, infraestruturas, o uso dos tribunais, a lei dos contratos, a política fiscal, e depois, sim, ver o que é que este país faz bem em comparação com os outros. Imagino que uma parte seja turismo, mas não pode ser tudo turismo.

Nesta altura é uma parte importante..

David Autor: Ótimo. Tornem este país ainda mais bonito.
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Reportagem por Nuno André Martins - 03 Julho 2017
Fonte:  http://observador.pt/especiais/ainda-temos-empregos-sao-e-empregos-diferentes/

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Deixar os pais na casa de repouso é um 'direito do cidadão' que quer ser feliz

Luiz Felipe Pondé

Contra de Pondé de 03.jul.2017






Acho a autoajuda e o politicamente correto duas formas de mau-caratismo. Minha crítica máxima aos dois nasce da minha certeza (tenho poucas) de que o sofrimento é fonte inexorável do amadurecimento, coisa rara em épocas retardadas como a nossa. O projeto contemporâneo é chegar aos 60 anos com cabeça de 15. Logo, retardo mental como projeto de vida. Uma conquista contra a inteligência. 

Um dos temas prediletos do mau-caratismo é a chamada "terceira idade". Um mercado, claro, devido à longevidade da espécie nos últimos anos. Já se tratou a velhice como "melhor idade" também. Uma ofensa à experiência humana real.

A longevidade estendida é um dos casos mais claros da famosa ambivalência descrita por Zygmunt Bauman (1925-2017). Um bem evidente por um lado, um drama humano gigantesco por outro, sem solução, como toda ambivalência que se preze. O mais sábio dos meus amigos costuma dizer que uma das versões do inferno no futuro será a impossibilidade de morrer. Você vai querer morrer e não conseguirá.

Sem fazer referência necessariamente a toda gama de pessoas que vegetam por aí em leitos aparelhados com tecnologia de "primeira linha" para a humanidade vegetativa, a longevidade puramente fisiológica, muitas vezes acompanhada pela perda de funções cognitivas essenciais, atormentará o humano daqui para a frente.

A maravilhosa peça "O Pai", de Florian Zeller, com direção de Léo Stefanini, cujo elenco é encabeçado por Fulvio Stefanini (brilhante como o pai da peça, vencedor do Prêmio Shell de melhor ator em 2016), em cartaz no teatro Fernando Torres, em São Paulo, é essencial para pensarmos o tema da longevidade para além do marketing da longevidade.

Este é caracterizado por um discurso, como (quase) sempre no marketing, de facilitação da realidade em nome de um otimismo besta.

O impacto dos avanços tecnológicos, científicos e médicos criaram uma sobrevida na espécie humana jamais imaginada. Vivemos mais, mas somos cada vez mais solitários. Muito metabolismo para uma alma cada vez mais dissociada de si mesma. A peça tem, entre outras qualidades, a capacidade de levar você para dentro dessa alma idosa longeva e solitária, graças ao texto, às interpretações e à direção.

A solidão é uma epidemia contemporânea, em meio ao maior surto de histeria já enfrentado pela humanidade. Solidão e histeria, juntas, formam uma mistura explosiva em termos epidemiológicos.

Os avanços sociais e políticos, passo a passo com os avanços técnicos citados acima, produzem uma sociabilidade cada vez mais egoísta —o egoísmo é a grande revolução moral moderna. As pessoas emancipadas tendem ao egoísmo como forma de autonomia.

Inteligentinhos não entendem isso muito bem porque são as maiores vítimas do marketing de comportamento que se pode imaginar. Emancipados pensam em si mesmos, antes de tudo, como consumidores do direito ao egoísmo.

Sempre soubemos que os idosos sofrem na mão dos filhos homens e de suas mulheres, que quase nunca suportam seus sogros, que insistem em ficar vivos. As filhas, que quase sempre suportaram o ônus da lida com os pais, agora se libertam e também querem vida própria (claro que existem exceções ao descrito acima, que filhos, filhas, genros e noras ofendidinhos não fiquem nervosos em demasia).

As filhas também têm o direito de cuidar de si mesmas, é evidente. Deixar os pais na casa de repouso é um "direito de todo cidadão" que quer ser feliz sem ter que viver cuidando de pais que nunca morrem. Por isso que o mercado gerontológico só cresce.

Além disso, a crescente queda na natalidade, que caracteriza os mesmos países de crescente população longeva, só tende a agravar o quadro. Baixa natalidade e alta longevidade são ambas frutos da mesma riqueza instalada na sociedade: alta tecnologia e direitos sociais são manifestações diretas dessa riqueza. Filhos únicos serão idosos longevos solitários, dependentes de serviços que ocupam o vazio deixado pelas famílias.

Qual a solução pra isso? Não há. Um mundo de velhos solitários é o futuro de um mundo de ricos autônomos e amedrontados.
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*  Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/07/1897850-deixar-os-pais-na-casa-de-repouso-e-um-direito-do-cidadao-que-quer-ser-feliz.shtml

O besteirol no poder

 Luiz Antônio Araujo*
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 Naomi Klein

Se você está pensando “A que ponto chegou a política” ao assistir ao presidente dos Estados Unidos derrubando um homem com o logotipo da CNN sobre o rosto, faça uma pausa e reveja a peça. As imagens na sua tela são tão autênticas como o vídeo comemorativo que o Facebook lhe oferece e no qual sua foto de formatura aparece ao lado da selfie do churrasco de domingo passado.

Trump reciclou um trecho do programa de TV Batalha de Bilionários, exibido em 2007 e no qual fazia o papel de si mesmo. A atração era produzida pela companhia de eventos de luta livre World Wrestling Entertainment (WWE), especializada em espetáculos do gênero. No programa, Trump derrubou Vince McMahon, dono da WWE – o homem que, na versão deste domingo, aparece com o logo da CNN no lugar do rosto.

Essas são as informações por trás do vídeo de sete segundos tuitado pelo presidente dos EUA nesta antevéspera de 4 de Julho, Dia da Independência. Mas há um contexto mais amplo e interessante em torno dessas imagens.

A escritora canadense-americana Naomi Klein acaba de publicar um dos mais importantes livros escritos contra Trump. Inédita no Brasil, a obra tem um título que poderia ser traduzido como É Insuficiente Dizer Não. No livro, a autora afirma, em síntese, que Trump é um político diferente porque se guia pelas regras do marketing e não da política.

Concorde-se ou não com essa e outras ideias, o importante aqui é notar que, a certa altura, a autora enfatiza o uso político que Trump faz da... luta livre. Isso mesmo: luta livre.

Citando Klein (tradução minha): “Trump não apenas levou a experiência de reality show para a política eleitoral – ele a misturou com outro megagênero de sucesso no entretenimento que também é baseado numa falsa performance de desenho animado da realidade: luta livre profissional. É difícil superestimar o fascínio de Trump pela luta livre. Ele fez seu próprio papel (o magnata milionário) em aparições no WWE por pelo menos oito vezes, suficientes para lhe garantir um lugar no Hall da Fama do WWE. Em Batalha de Bilionários, ele fingiu nocautear o rei da luta livre Vince McMahon e depois celebrar a vitória ao raspar em público a cabeça de McMahon diante de uma plateia alucinada. Ele também atirou milhares de dólares em dinheiro para a audiência de fãs em gritaria. Agora, ele nomeou a ex-diretora-executiva da WWE Linda McMahon (mulher de Vince) para seu gabinete como chefe da Administração de Pequenos Negócios, um detalhe que se perdeu em meio ao dilúvio diário (de notícias)”.

A escritora prossegue fornecendo inúmeros exemplos de como Trump utiliza a luta livre como anabolizante nos negócios e, agora, na política.

Trump é um idiota – para cunhar uma expressão. Seu fascínio pela luta livre é muito mais antigo do que seu interesse pela política. Em comum, porém, ambos têm para ele o fato de servirem como máquinas de fazer dinheiro.

Alguns imaginaram que faria da presidência dos EUA uma espécie de Ilha de Caras. Foram frustrados em seu otimismo. O governo do homem do topete laranja transformou a Casa Branca em cassino de Las Vegas. E está apenas no 164º dia.
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* Jornalista. Colunista da ZH 
Fonte: http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a9831320.xml&template=3916.dwt&edition=31434&section=3595
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domingo, 2 de julho de 2017

Ruy Fausto: Grupos independentes apontam para reorganização da esquerda, diz filósofo

RuyFausto, que lançará o livro 'Caminhos da Esquerda'

Ruy Fausto, 82, que lançará o livro 'Caminhos da Esquerda'

Iniciativas independentes e pequenos novos grupos apontam para uma forma positiva de reorganização da esquerda, afirma Ruy Fausto, professor emérito da USP e doutor em filosofia pela Universidade Paris I. 

À Folha, Fausto critica a idealização do PT e fala sobre sua perspectiva eleitoral. "Não creio que o melhor candidato seja o Lula, embora espere que ele não seja condenado e que possa concorrer." 

Nesta segunda (3), ele lança o livro "Caminhos da Esquerda", uma extensão de artigo publicado na revista "Piauí" em 2016, em que analisa os erros e propõe um novo trajeto da esquerda no país.
*
Folha - Qual caminho a esquerda precisa seguir?
Ruy Fausto - Um dos pontos principais é a exigência democrática. A gente precisa de democracia. Mesmo uma democracia deformada é um ponto de partida e é preciso preservar. Eu tenho algum medo de uma ruptura do processo democrático, não sei o que a extrema-direita trama. A esquerda se acostumou com a ideia de que quanto mais democrático, menos anticapitalista você é. Queria uma outra junção: ser muito democrata e muito crítico do capitalismo. 

A mesma coisa com o populismo. Se supõe que fazer a crítica do populismo, da desonestidade administrativa, implica esquecer a crítica do capitalismo. Dizem que quem faz a crítica da corrupção é a direita –isso é um engano. Somos nós que temos o maior interesse possível em um Estado que funcione 100%. 

O que estou propondo é redefinir esquerda e direita. Se organizar esse discurso e tiver clareza a respeito disso, a gente ganha setores importantes. Sem essa clareza, não conseguimos fazer o trabalho com a massa. Se tivermos a massa e contarmos que é uma beleza a Venezuela, Cuba, isso só atrapalha. 

A reconstrução da esquerda que o senhor fala exclui o ex-presidente Lula?
Não exclui de jeito nenhum, mas deixa de pôr o Lula no centro do universo. Não há por que idealizar o PT, essa espécie de fetichização dos dirigentes partidários é um absurdo. Os partidos podem ser alavancas e podem ser freios. Não creio que devemos pôr as fichas nesse partido e nem que o melhor candidato seja o Lula, embora espere que ele não seja condenado e que possa ser candidato. 

Não é para jogar fora [o PT], eles fizeram muitas coisas importantes, uma política de redistribuição... Houve uma espécie de aliança de classes que, conforme a condição, poderia até ser aceitado. Não houve autoritarismo do tipo chavista, peronista. 

O pior ali foi a corrupção. Eles se recusam a reconhecer isso tudo. O que existe de fetichização de partidos e dirigentes nos meios intelectuais me assusta. O pessoal se recusa a pensar por conta própria porque acha que quem pensa são os dirigentes do partido. 

O sr. propõe dissociar a esquerda dos governos que se disseram representativos dela, mas que não teriam seguido sua ideologia. Uma teoria que nunca foi posta em prática não entra no terreno da fé?
Não é uma questão de fé. Toda opção política implica uma decisão, que não vem simplesmente da leitura do que se passa –é muito pensada. Houve grandes deformações da esquerda, algumas notórias, como o stalinismo e o leninismo. Isso custou milhões de mortos, não foi brincadeira. É evidente que a esquerda tem que se dissociar disso, é preciso levar até o final essa crítica. 

Por outro lado tem a questão do populismo, que é mais complicada. Há muita ilusão a respeito do chavismo, que levou a uma catástrofe na Venezuela. Vemos gente qualificada fazendo elogios, ouvimos enormidades do tipo "o PT poderia ter ido pelo menos até onde foi o Chávez [Hugo, ex-presidente da Venezuela]". Isso seria um desastre. 

Para os pós-modernos, a queda do Muro de Berlim representou o fim da história. A esquerda mundial conseguiu recuperar o otimismo em algum momento nas décadas posteriores?
A queda do muro foi uma boa coisa. Aquilo era um peso para a esquerda, um governo despótico, antidemocrático, uma regressão histórica. O certo é não reivindicar aquilo. Se a direita ataca tanto, é porque a esquerda não foi capaz de definir bem o que foi a queda do muro. Tem todos os viúvos, mas foi ótimo o que aconteceu. O que veio depois é difícil, complicado, mas pelo menos agora temos condições para lutar. 

O senhor escreveu o artigo [que baseou o livro] em outubro do ano passado. Oito meses depois, a esquerda ganhou alguma perspectiva ou está tão perdida quanto antes?
Houve bastante mobilização da esquerda, apesar de tudo. Tem muita confusão, mas existe gente buscando uma saída. Muitos jovens pensando, gente de boa vontade. Não estou muito pessimista, não. Às vezes faço lista das pessoas de esquerda que poderiam ajudar, é gente muito qualificada. 

Eles [a direita] ganharam o impeachment [da ex-presidente Dilma Rousseff], mas ganharam mal porque houve resistência. O impeachment foi um desastre, quaisquer que tenham sido os erros da Dilma. A direita e a extrema direita levantaram a cabeça. Houve um momento de muita pressão deles, hoje está um pouco mais controlado. Em parte porque a esquerda se movimentou, em parte porque eles se desmoralizaram quando apareceu a corrupção como uma coisa geral. 

Como a esquerda pode trazer para si a massa que despertou para a política em 2013?
Não vou dar fórmulas gerais, mas a primeira coisa é não perder de vista o trabalho da classe média. É preciso encontrar a linguagem para se dirigir a eles. A campanha do Freixo [Marcelo, segundo lugar nas eleições para a Prefeitura do Rio de Janeiro em 2016], por exemplo, me contaram que teve muita qualidade, não teve demagogia, mas que não atingiu o eleitorado do Crivella [Marcelo, prefeito do Rio], não se dirigiu a essa gente. É preciso conversar. 

Depois, que relação ter com essa base. Não podemos idealizar a massa, achar que a solução é essa. A massa tem de tudo, tem muita confusão, às vezes muita violência. Ao mesmo tempo, não se pode incutir doutrinas. Às vezes a base é que tem razão. 

A esquerda consegue se reconstruir a tempo de disputar 2018?
A esquerda está se mexendo. Vai se organizar até lá? Não posso dizer, mas teríamos que fazer o melhor possível, pôr clareza o quanto a gente puder. Vejo o meu livro como uma pedrinha nisso, uma contribuição. É a minha tentativa de situar o problema num plano mais geral. 

Haverá um problema de encontrar candidatos, é difícil prever. O que espero é que haja essa eleição e que se chegue a alguma solução, mesmo que a esquerda perca. A direita joga muito com a história do não político, com o Doria [João, prefeito de São Paulo], o Macron [Emmanuel, presidente da França]. Não vai ser muito fácil. 

Há um dado muito sério que é o crescimento do Bolsonaro [Jair, deputado federal, com 16% das intenções de voto para presidente]. Tem que denunciar essa história, estudar o fenômeno e como vamos enfrentar. 

Temos pelo menos dois novos partidos liberais no cenário nacional: o Novo e o Livres. O que falta para a esquerda se organizar dentro da política?
Vai surgir um novo partido? Acho difícil. Por hora é se mobilizar, discutir com o pessoal. De imediato penso em estruturas em que entra muita gente independente e gente do PT e do PSOL. Pegar os melhores do PSOL, o Freixo, por exemplo, e os melhores do PT, o Fernando Haddad, o Tarso Genro... tipos condenados pelo PT atualmente. Fazer reuniões, explorar os contatos... É o que se pode fazer agora. Vai ter que se chegar à ideia de um candidato, mas não dá para prever. Esses pequenos grupos se organizando já acho muito positivo. 

Pensando na forma que a política é organizada hoje, com as campanhas milionárias, o fisiologismo, o clientelismo, é provável que um partido governe o Brasil de forma ética?
Há uma ideia que domina muito hoje que chamei de a miragem do negativo. É a necessidade de usar de métodos ilegítimos de governar. O papo que vem do PT é muito esse. No fundo é o "rouba, mas faz". Não quero dizer que a política é toda racional, que não vai haver retórica, alianças. Precisa apelar para os afetos, é verdade, mas a partir de um discurso que é justo. Minta o menos que você puder, jogue o jogo mais limpo e isso vai muito longe. Pode fazer alianças, mas definir o tipo, com a exigência de não-corrupção e de democracia. 

É possível ter um partido de esquerda e que seja ético. Isso significa que não vai ter nenhum pilantra? Não, vai aparecer, mas a perspectiva tem que ser reprimir esse tipo de coisa. Você muda a política, faz outra política. Ou somos capazes de enfrentar isso ou é melhor não pensar em partido e coisa nenhuma. 

A Lava Jato pode servir como um freio à corrupção a partir de agora?
Não sou contra a Lava Jato, a princípio sou favorável. Era corrupção em um nível que não sabíamos. Só serei contra se acabar dando numa ditadura militar. Há três perigos grandes. A extrema-direita, que utiliza a Lava Jato pensando em golpe, a direita que também usa, sem que a Lava Jato seja da direita, e a húbris dos próprios juízes, que vão, prendem, pegam o Lula para depor... 

Tenho um pouco de medo do que possa acontecer, há muita confusão, uma espécie de vazio. Tenho receio da extrema direita nessa história, mas é absolutamente errada a perspectiva daqueles que recusam a luta contra a corrupção, achando que é coisa da direita. Temos que apoiar todas as iniciativas contra a corrupção. Levou muito tempo, mas o Aécio [Neves, senador] e o Serra [José, senador] apareceram também. 

O senhor diz que a esquerda precisa construir um projeto de bem-estar social, o que pressupõe investimentos do Estado, no caminho contrário da PEC do teto. Como recuperar a arrecadação e viabilizar esses gastos em um cenário de desaceleração econômica?
Precisaria muito da ajuda dos economistas críticos. Primeira coisa é rever a legislação fiscal brasileira. Eles inventam essa história de que o imposto é muito alto. É alto para quem? O imposto sobre a herança é baixíssimo. E tem um trabalho contra a corrupção que se for simétrico deve ajudar também. 

É possível que seja preciso fazer reformas, mas que não sejam contrarreformas. A situação do povo é muito ruim, não há como limitar os gastos de saúde, educação, e as garantias todas. Tem que mexer em outras coisas. Evidente que isso tem que ser feito no lápis. A ortodoxia econômica passa por cima disso tudo, não considera os fatos sociais e a desigualdade brutal do Brasil. É importante formar muita gente de esquerda em economia para fazer a crítica. A economia oficial está aí, fala alto e tenta se impor. 
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Reportagem por 

sábado, 1 de julho de 2017

Vale a pena

Lya Luft*

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Viver é andar de conflito em conflito, buscando a harmonia que nos dê sossego ao coração sempre agitado, em raras ocasiões ancorado num momento tranquilo. Na vida pessoal ou profissional, lutamos. Buscamos. Perseguimos. Achamos, perdemos, realizamos, fracassamos, às vezes desacreditamos ou pensamos desacreditar de tudo: “Eu não acredito em mais nada”, me pego afirmando – era mentirinha. Porque, afinal, vivemos de acreditar: que teremos comida na mesa, teto sobre a cabeça, alguém amado perto, porta para entrar e para sair, alguma ocupação e, mais do que tudo, alguma importância... ainda que para uma só pessoa.

“Com as perdas, só há um jeito, perdê-las” – escrevi certa vez, não lembro onde. Acredito nisso. Há que se persistir por algum tempo, mas há que se ter a sabedoria, ainda que rara e rala, de saber quando é hora de deixar que a corrente da vida carregue o que não pôde (ou não pode mais) ser nosso.

Alguns andam desanimados, e não é para menos. Além dos horrores da coisa pública, quando se tem algumas décadas de vida, amigos adoecem ou se vão em definitivo. Talvez a pior coisa do tempo passando seja perder amados e amigos, alguns de uma vida inteira. Mas os que ainda sobram, não apenas sobram: eles vivem, se agitam, pelo menos em emoção e pensamento, leem seus livros, veem sua televisão, convocam seus filhos, amam seus netos, lembram as amizades e telefonam ou, em geral – viva eles –, comunicam-se no WhatsApp.

E ainda conseguem ter os seus conflitos: briguinhas, fofocas indevidas, curiosidades infantis, reclamar do açougueiro, do cabeleireiro, do jornal, da TV, do filho que demora a ligar, dos netos que, vibrando em suas idades magníficas, não se lembram de que alguém, ali, vai adorar ver suas belas carinhas e se divertir com suas conversas que às vezes nem entendem. Surpreendo-me pedindo aos netos e netas que falem mais devagar ou mais alto, “porque a vovozinha aqui tá meio surda”, e todos achamos graça. Brincadeira minha, e a velocidade dessas jovens e belas vidas me livra de qualquer tédio. Aliás, ando cada vez mais contemplativa. Feliz olhando a paisagem, feliz ouvindo a chuva, feliz lendo esse novo livro bastante difícil, feliz porque ainda consigo pintar nuvens e mar e até começar a escrever um novo livro... Feliz porque daqui a pouco a chave na porta de entrada anunciará que o maridão chega do trabalho.

Incrível como, a certa altura, se não formos do tipo lamuriento e resmungão, as coisas mínimas nos dão prazer: não precisamos mais visitar as ilhas gregas, andar na bela Londres, percorrer de carro a amada Itália, visitar os mais espetaculares museus, voltar aos jardins de Giverny aspirando Monet, um de meus prediletos. Ao menos, não sofremos por isso.

Ficar quieto (não demais) também é bom: curtindo o tesouro acumulado na alma – porque o que se perdeu continua ali, se a gente souber ver: os afetos, as memórias, as descobertas, as alegrias e a capacidade de novas alegrias –, por que não? Então, mesmo que o mundo ande confuso e ameaçador e estejamos quase todos mais pobres, se a gente não bobear, toda a conturbada, fascinante, assustadora, intrigante vida humana continuará se desenrolando diante de nós.

E minha lulu da Pomerânia, Melanie, deitada no tapete a meu lado, nunca deixa de me contemplar com esse ar de adoração – que já faz valer a pena iniciar o dia.
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* Escritora.
Fonte:  http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?edition=31429&local=1&section=70&source=a9830236.xml&template=3916.dwt&uf=1
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O Iluminismo britânico e a sociologia da virtude

Rodrigo Constantino*
Quando se fala em Iluminismo, costuma-se pensar em Voltaire, no racionalismo francês, na própria Revolução Francesa. Mas esse foi apenas um lado do fenômeno. No Reino Unido, especialmente na Escócia, ocorria uma fervilhante troca de ideias também, mas com abordagem bem distinta. No fundo, faz sentido falar em Iluminismos, pois foram mais de um. E esse aspecto acaba sendo ignorado inclusive por muitos professores de História. Mas esse Iluminismo britânico também ajudou a moldar a era moderna, e merece maior atenção.

É o que sustenta a historiadora Gertrude Himmelfarb em seu magistral O caminho da modernidade, em que divide o legado iluminista em três: o francês, o britânico e o americano. De forma resumida, as principais diferenças poderiam ser definidas como a “ideologia da razão” (França), a “sociologia da moral” (Reino Unido) e a “política da liberdade” (Estados Unidos). Na síntese de Luiz Felipe Pondé feita no prefácio da edição brasileira, “o Iluminismo foi uma tentativa de examinar três formas básicas da experiência humana a partir do exercício livre do pensamento, a saber, a moral, o conhecimento e a política”.

A ênfase dada ao lado francês fica clara quando se fala da “era da razão”, o que já soa um tanto prepotente, como se até então a humanidade vivesse no obscurantismo das superstições, e finalmente tivesse acordado para o poder do raciocínio. Mas é justamente essa a ideia que muita gente tem desse período de intensa produção intelectual, ignorando a maior cautela dos britânicos. Não que fossem irracionais; certamente não eram. Mas porque defenderam ideias mais moderadas, que não combinaram muito com aquele clima revolucionário.

Ocorre que houve revoluções e “revoluções”. Não é possível colocar no mesmo saco a Americana e a Francesa, por exemplo. Uma teve influência de pensadores britânicos mais conservadores, e pretendeu resgatar valores perdidos e preservar as liberdades existentes na própria metrópole inglesa, enquanto a outra buscou destruir todos os pilares até então existentes, declarar guerra à aristocracia e à religião, e criar um mundo novo praticamente do zero.

Enquanto a Revolução Americana produziu uma das nações mais livres e prósperas do mundo, a Francesa levou ao Terror jacobino e ao regime ditatorial de Napoleão. O “Templo da Razão” acabou se revelando um tanto irracional. Muitos foram sacrificados em nome da Liberdade. Em boa parte, argumenta a autora, isso se deve ao esquecimento de certas lições defendidas pelos pensadores britânicos, como David Hume, para quem a razão era facilmente dominada pelos afetos e paixões.

Ou seja, o ceticismo britânico alertava para um ensinamento básico que foi jogado para baixo do tapete pelos racionalistas franceses: o de que os “hábitos são essenciais para nos mover num mundo do qual não temos grandes certezas contínuas”, no resumo de Pondé. Uma razão excessivamente autoconfiante pode produzir utopias perigosas, fruto dessa “arrogância fatal”, como diria Hayek, algo que o “espírito conservador” dos britânicos procurava evitar.

Os britânicos eram mais empíricos, reconheciam os limites da razão, com base na própria razão, e por isso rejeitavam ideias revolucionárias de um “mundo novo” parido do nada, como se a natureza humana fosse uma tábula rasa. Essa postura levava a um foco maior nas virtudes, não necessariamente as virtudes individuais, mas as “virtudes sociais”, tais como compaixão, benevolência, simpatia. Para os britânicos, elas naturalmente unem as pessoas, mais do que a razão, que teria um papel secundário, instrumental, diferente do papel primário e determinante dado a ela pelos philosophes.

Claro que tais distinções não são tão claras e estanques assim, e havia comunicação entre esses diferentes pensadores. Em alguns casos, um pensador francês poderia estar mais alinhado com o ponto de vista anglófilo, e vice-versa. Mas em linhas gerais essa divisão define bem o fator predominante em cada ala iluminista. O ódio contra a religião, por exemplo, era uma característica basicamente francesa, e foi Voltaire quem lançou sua famosa declaração de guerra conta a Igreja – “esmague o infame!” –, enquanto Diderot propôs “enforcar o último rei com as tripas do último padre”.

Esse não era, nem de perto, o clima dos Iluminismos britânico e americano, que foram liberais em termos de religião, compatíveis com um amplo espectro de crença e descrença. E, se a “era da razão” levou à guilhotina dos jacobinos, é preciso considerar que a “era da benevolência” dos britânicos não só garantiu maior estabilidade política como produziu uma incrível proliferação de atos filantrópicos. Para Himmelfarb, os britânicos confrontaram o mundo moderno com bom senso – o “senso comum” –, e seus filósofos dele se serviram em um período tumultuado e que ecoa ainda hoje em um estágio posterior da modernidade.

Isso ajudou a evitar derramamento inútil de sangue, assim como a impedir modelos totalitários no Reino Unido, cuja monarquia parlamentar sobrevive até hoje. “Piedade”, “empatia”, “benevolência”, esses foram conceitos marcantes para o Iluminismo britânico, para pensadores como Hume, Adam Smith e Burke. O “senso moral” era ainda mais importante que a razão para esses filósofos com forte senso prático.

Numa era de individualismo exacerbado, de tantos buscando monopolizar a razão, e da velha arrogância racionalista de que é possível e desejável se criar um “novo mundo” a partir do zero, com base em conceitos abstratos paridos do conforto do escritório de “intelectuais” e abandonando completamente as antigas tradições, talvez seja mais prudente deixar um pouco o fervor revolucionário dos novos jacobinos de lado e escutar o alerta dos britânicos. Mais prudência, mais ceticismo, menos utopia e menos febre revolucionária.

O mundo não começou hoje, tampouco com Voltaire e companhia. Seria bom um pouco mais de respeito por nossos antepassados e pela formação de nossas instituições, especialmente a moral, tão combalida nos dias de hoje, quase considerada “ultrapassada”.
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* Economista liberal. Blogueiro.
Fonte:  http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos/o-iluminismo-britanico-e-sociologia-da-virtude/