segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Moishe Postone: “Crítica e Dogmatismo”

Por Anej Korsika, via Scriboman, traduzida por Aukai Leisner
Moishe Postone (nascido no Canadá, em 1942) é teórico crítico e professor de história na Universidade de Chicago. Ele é conhecido tanto por sua interpretação do antissemitismo moderno quanto por sua reinterpretação da teoria crítica marxiana.

I.

Korsika: Professor Postone, em sua revolucionária monografia Tempo, Trabalho e Dominação Social o senhor nos fornece uma releitura detalhada da crítica da economia política de Marx. Você poderia refletir sobre a evolução do seu pensamento? Sobre os eventos e tradições teóricas na Universidade de Chicago e, mais tarde, em Frankfurt, que o motivaram a se dedicar a esse projeto seminal?
Postone: Quando eu era um estudante na Universidade de Chicago, eu estava dividido entre dois interesses e objetivos, teoricamente falando. Embora eu me considerasse uma pessoa de esquerda, me parecia que o marxismo tinha muito em comum com o positivismo, por um lado, e com noções novecentistas de progresso, por outro. Eu me impressionei muito mais à época com as críticas conservadoras à modernidade. Eu achava que elas captavam os problemas da modernidade mais plenamente que o marxismo. Isso ocorria em parte porque, à época, tínhamos em Chicago muitos acadêmicos emigrados, que haviam fugido da Alemanha nazista. Eles traziam toda uma gama de discursos intelectuais que criticavam várias formas de positivismo a partir de várias direções, que achei isso muito poderoso.

Eu comecei a mudar de atitude em relação a Marx quando descobri os Manuscritos Econômico-Filosóficos, que foram fortemente recebidos nos Estados Unidos em meados da década de 1960. Nesse momento, eu me agarrei à noção de que havia um jovem Marx muito interessante e um Marx mais velho que, infelizmente, se tornou um vitoriano, tendo passado muitas horas no Museu Britânico.

Uma outra mudança para mim esteve relacionada ao grande protesto na Universidade de Chicago, em 1969. Após o protesto, estudantes que haviam participado se dividiram em vários grupos de leitura diferentes. Dois grandes que eu lembro eram Juventude como Classe (eu definitivamente não fazia parte desse, risos) e Hegel e Marx. Foi aí que eu descobri História e Consciência de Classe, de Lukács, que era completamente desconhecido aqui. Ele não foi completamente traduzido para o inglês até 1971. Apesar de desde então eu ter me tornado muito mais crítico de Lukács, lê-lo foi uma grande revelação. Sua ideia de que as categorias marxianas não são categorias de uma base econômica meramente refletidas na consciência, mas de que são de fato formas de ser social ao mesmo tempo sociais e culturais, objetivas e subjetivas, me soou enormemente poderosa e satisfatória. Era uma ideia que nos permitia lidar com o pensamento de maneira adequada à sua lógica interna e ao mesmo tempo contextualizá-lo, de maneira não-funcionalista e não-instrumental. Eu achei isso algo profundamente iluminador.

Mais ou menos ao mesmo tempo, eu li um artigo escrito por Martin Nicolaus, O Marx Desconhecido, que era uma introdução aos Grundrisse, que Nicolaus estava traduzindo. Eu o achei absolutamente fascinante! Me pareceu que o esquema que eu vinha adotando, que distinguia um jovem Marx filosófico e um velho Marx cientificista, explodia com os Grundrisse. Consequentemente, eu decidi escrever uma dissertação sobre ele. Um de meus orientadores de dissertação, Gehard Meyer, um emigrante alemão e economista político familiarizado com a Escola de Frankfurt, sugeriu que eu passasse um tempo na Alemanha. Minha pesquisa não era arquivística, no entanto ele disse que eu me beneficiaria muito do nível de discussão na Alemanha, que era muito mais elevado que nos Estados Unidos. Foi por isso que eu fui a Frankfurt.

II.

Korsika: Um dos pilares da sua reinterpretação é a noção de marxismo tradicional. Quais são as principais características dessa linha de pensamento?
Postone: Deixe-me começar a abordar essa questão descrevendo o que eu quero dizer com marxismo tradicional. Eu não me refiro a uma tendência específica identificável no pensamento marxista, tal como o marxismo da Segunda Internacional ou o Bolchevismo. Refiro-me sim a um entendimento de Marx em que o trabalho não é somente explorado no capitalismo mas constitui a perspectiva a partir da qual a sociedade (capitalismo) é criticada. O capitalismo é entendido essencialmente em termos do mercado e da propriedade privada; sua superação é assim vista em termos da superação da exploração do trabalho e o advento de sua própria noção de trabalho. Me parece que esse é o núcleo duro do marxismo tradicional. Essa descrição engloba uma vasta gama de teorias que diferem entre si de maneiras significativas. No entanto, ao criar esta categoria eu tentei especificar mais precisamente o que eu estava tentando fazer com Marx, e como meu projeto diferia daquela vasta gama de teorias, incluindo a Escola de Frankfurt.

III.

Korsika: Ao invés de tentar localizar onde o projeto do socialismo realmente existente deu errado e o que poderia ter sido feito melhor, você afirma que esse sistema nunca esteve fora da formação social capitalista, representado, ao contrário, um momento histórico específico no desenvolvimento do capitalismo. Podemos então falar da social democracia no Ocidente e dos regimes socialistas no Leste como duas expressões diferentes da mesma formação social histórica?
Postone: Sim, e eu penso que quanto mais nos afastarmos deles, mais eles nos parecerão similares. Eu não quero dizer que, num sentido político, um seja exatamente igual ao outro. Existem diferenças muito significativas – particularmente para a experiência concreta das pessoas, não estou tentando negar isso. No entanto, se passarmos a um nível mais alto de abstração, me parece que a social democracia e as economias comunistas planejadas foram realmente parte da mesma época histórica do capitalismo. Elas se desenvolveram mais ou menos ao mesmo tempo, atingiram seu ponto máximo aproximadamente ao mesmo tempo e entraram em crise e declínio no final dos anos sessenta e início dos anos setenta. Embora muitas pessoas acreditem que a crise da União Soviética começou nos anos 1980, eu penso que foi antes que as formas estatais de economia se encontraram com certos limites que não conseguiram superar. Eu ainda não me sinto em posição de especificar esses limites; a maioria dos estudos existentes dos limites históricos da configuração pós-guerra focam exclusivamente no Ocidente e em sua configuração fordista/keynesiana. Eu me interesso por uma teoria que possa englobar e analisar também a União Soviética.

Retrospectivamente, uma das diferenças entre o modelo soviético e a social democracia, foi o radical domínio nacional (estatal) sobre a economia implicado pelo socialismo realmente existente. Essa foi talvez a única maneira, durante uma certa época do desenvolvimento do capital, pela qual uma nação periférica foi capaz de desenvolver o capital nacional. Isto é, o que se desenvolveu foi o capital nacional, não o socialismo. Talvez o socialismo pudesse ter se realizado se a revolução tivesse sido mundial, mas me parece que o corolário do socialismo num só país é na verdade nacionalismo num só país. Isso também afetou profundamente a consciência da esquerda que, ao menos em sua forma comunista ortodoxa, tornou-se uma curiosa espécie de movimento nacionalista – uma que se relaciona a uma nação que está em outra parte.

Korsika: Sua teoria do anti-semitismo e do Nacional-Socialismo como tipo peculiar e fetichizado de anti-capitalismo desenvolve uma perspectiva radicalmente nova sobre a catástrofe do Holocausto. O que se estava realmente tentando eliminar nos campos de concentração e como podemos enxergar as formas contemporâneas de anti-semitismo?
Postone: Para aqueles entre os seus leitores que não estão familiarizados com o meu trabalho – eu faço uma distinção entre anti-semitismo e outras formas de racismo. Eu defendo que há uma profunda incompreensão sobre o anti-semitismo (em sua versão moderna). O anti-semitismo moderno não é bem uma teoria da inferioridade dos judeus; é uma teoria do poder dos judeus. Eu tenho defendido que, como tal, ele é uma forma fetichizada de anti-capitalismo. Isto é, a sensação de perda de controle sobre as suas vidas que as pessoas têm (que é real) é atribuída, não às estruturas abstratas do capital, que são muito difíceis de apreender, mas a uma conspiração judia. Isto é, atribui-se agência às estruturas. Eu penso que isso ajuda a iluminar o programa nazista de extermínio. Embora isso talvez não faça nenhuma diferença para as vítimas, eu faria uma distinção entre extermínio e assassinato em massa. Na Polônia, por exemplo, os nazistas assassinaram milhares e milhares de pessoas, mas sobretudo intelectuais e outros líderes sociais, tais como padres, em torno dos quais a consciência nacional polonesa poderia se aglutinar. Eles mataram os intelectuais e os padres para escravizar o resto da população. Eles não queriam escravizar os judeus, eles queriam exterminá-los. Havia uma incompreensão desse fenômeno por parte de muitos judeus. No gueto de Lodz, por exemplo, muitos judeus trabalhavam em fábricas que eram importantes para a Wermacht. Eles estavam certos de que, porque estavam fazendo um trabalho importante para o exército alemão, seriam poupados. Expressavam uma forma de racionalidade – a de que você não mata sua própria força produtiva. Eles estavam errados.

Eu estou sugerindo que é porque, dentro do quadro dessa visão de mundo, os judeus são vistos como a encarnação do mal, ao invés de inferiores, porque são vistos como representando uma tal ameaça, que eles têm que ser eliminados. Na minha compreensão, portanto, o anti-semitismo é uma forma populista reacionária de anti-capitalismo. Ele é e tem sido profundamente incompreendido por boa parte do pensamento de esquerda.

Korsika: Talvez possamos continuar com essa linha de pensamento, especialmente em relação ao artigo História e Desamparo, que você escreveu como uma reflexão sobre a guerra no Iraque, especialmente em relação à paralisia em que a esquerda se encontra.
Postone: As questões são complicadas e muitas pessoas estão bravas comigo por causa do artigo (riso). Eu penso que as reações à guerra no Iraque apontavam uma espécie de falta de orientação por parte da esquerda. O que eu penso é que, no mínimo, a esquerda deveria ter problematizado a questão como um dilema: um país imperial estava invadindo um país controlado por uma ditadura brutal e fascista. As reações de boa parte da esquerda indicaram que a oposição aos Estados Unidos é vista como critério suficiente para ser de esquerda. É como se as pessoas nunca tivessem ouvido falar da era do “anti-imperialismo” fascista nos anos 1930 e 1940.O Japão, a Alemanha e movimentos fascistas por toda parte se opunham ferrenhamente aos Estados Unidos. Existia uma forma fascista de “anti-imperialismo”. Isso foi omitido da consciência histórica. Eu mesmo era contra a guerra, mas não nos termos mais difundidos. Eu achei significativo que, até onde me é dado saber, nenhuma das enormes manifestações contra a guerra no Iraque jamais contou com uma figura de oposição iraquiana, alguém à esquerda, alguém que fosse crítico de ambos os americanos e, especialmente, do regime Baathista. Ao invés, tudo foi colocado em preto e branco, estruturado por uma forma reificada de anti-americanismo. Para mim, isso era uma indicação de um certo anti-imperialismo falido. O que eu escrevi nesse artigo é que, não importa o quão inocentes nos pareçam hoje, os movimentos de massa contra a guerra americana no Vietnã eram diferentes. Muitos eram guiados pela ideia de que os vietnamitas estavam construindo algo progressista, que os americanos procuravam impedir. O anti-americanismo aqui estava ligado ao apoio a uma ordem mais progressista, o socialismo.

Independentemente do fato de se pensar se isso foi justificado ou não, esse motivo foi completamente abandonado, especialmente em relação ao Oriente Médio. Eu acho lamentável que alguns na esquerda busquem ligar a crítica ao regime de Mubarak ao anti-americanismo, referindo-se a Mubarak como um fantoche americano. Os americanos, no entanto, não criaram o regime. Mubarak o herdou de Sadat, que o herdou de Nasser. A esquerda tendeu a excluir regimes árabes nacionalistas realmente existentes de seu âmbito crítico, o que, acredito, trouxe consequências negativas. Que algumas pessoas na esquerda – para o desgosto de muitos progressistas no Oriente Médio – estejam se alinhando com forças reacionárias como o Hezbollah e o Hamas, aponta o grau em que a esquerda perdeu sua bússola política e moral.

Korsika: Opondo-se a autores do marxismo tradicional que basicamente defendem que o trabalho precisa ser liberado do capital, sua abordagem enfatiza que o trabalho em si é o problema central, sendo uma categoria histórica específica.
Postone: Deixe-me começar com uma reflexão lateral. Uma das coisas que eu achei bastante reveladoras sobre os Grundrisse, para voltar ao início da nossa entrevista, foi que Marx não estava interessado simplesmente no fim da exploração do trabalho proletário, mas sim na abolição desse trabalho. A maioria das interpretações da mais-valia não compreendiam esse ponto. A ideia de que Marx estava interessado na auto-abolição do proletariado e não na sua realização, me levou a começar a repensar Marx fundamentalmente. Quanto mais profundamente eu explorava seus trabalhos, mais eu percebia que ele não tratava a categoria de trabalho simplesmente como uma atividade que media as interações humanas com a natureza (a maneira como Habermas entende o conceito.) Na verdade, para Marx, o trabalho no capitalismo é único na medida em que constitui uma forma muito peculiar de mediação social que é abstrata, intangível, universal e além do controle das pessoas que o criam. Então, em certo sentido, a análise de Marx sobre o trabalho em suas obras da maturidade representa um desenvolvimento da ideia de alienação, presente em suas obras de juventude. Eu acho que isso tem enormes implicações, porque significa que a noção marxista de práxis é fundamentalmente diferente das compreensões atuais de práxis em termos de imediaticidade. Tais compreensões tendem a recapitular a antinomia de estrutura versus agência. Para Marx, no entanto, a práxis está ligada a formas historicamente únicas de mediação social, que geram o que muitas vezes se consideram estruturas. Essa configuração complexa vai além da oposição entre estruturalismo e pós-estruturalismo.

Tal entendimento também lança nova luz sobre a problemática da história. O capital é para Marx o que ele chama de valor auto-valorizante, é uma categoria dinâmica. Eu sugeriria que uma teoria do capital é uma teoria da existência de uma lógica histórica. Da perspectiva da análise de Marx, a noção hegeliana do desenrolar-se da história humana é uma projeção sobre a humanidade do que na verdade é válido somente para o capitalismo. Nietzsche e pensadores que o seguem focam na contingência da história. Eles o fazem por ter a consciência de que a ideia de lógica aplicada à história significa na verdade uma forma de heteronomia. A fim de salvar a possibilidade de agência, no entanto, eles negam as reais restrições à agência que a lógica do capital realmente representa. Eles as declaram inexistentes. Como resultado, o funcionamento do capital é obscurecido. Com a justificativa de empoderar as pessoas, então, tal filosofia acaba por desempoderá-las, porque ofusca a lógica do capital. O que Marx faz, com seu conceito de capital, é tornar a história, no sentido do desenrolar de uma lógica histórica, historicamente específica. Porque é historicamente específica, tem um começo e pode ter um final. Isso é diferente de Hegel. A noção de contradição em Marx comanda essa dinâmica, mas também aponta para além dela. É claro que eu tento reformular essa contradição: não é uma contradição entre capital e trabalho (o trabalho sendo uma forma de capital na análise de Marx) mas entre o potencial que o capital gera e sua inabilidade de deixar que esse potencial se realize. A contradição é temporal.

VII.

Korsika: Qual é sua compreensão da noção de proletariado que Lukacs identificou com o sujeito-objeto da história? Porque parece que hoje em dia essa noção está sendo considerada anacronística e vários outros conceitos, tais como trabalho cognitivo, estão se desenvolvendo. Ademais, como entender a luta de classes sem cair em regressões históricas?
Postone: Eu penso que a luta de classes é uma dimensão intrínseca do capital. É uma luta contínua que está integrada às estruturas do capital. Por um tempo as pessoas pensaram que, com o sucesso de formas social democráticas após a Segunda Guerra, a luta de classes seria algo do passado. Não é. Desde o desmantelamento da síntese fordista/keynesiana, o peso está agora sobre o outro lado e a classe trabalhadora está sendo esmagada. No entanto, há uma diferença entre dizer que a luta de classes é parte constituinte do capitalismo e dizer que ela aponta para além do capitalismo, no sentido de que a abolição do capital será a vitória do proletariado. Eu acho que há muita dificuldade em conceituar a necessidade de apoiar a classe trabalhadora, de um lado, e perceber, do outro, que um movimento anti-capitalista tem que ir além da classe trabalhadora. Movimentos da classe trabalhadora foram tremendamente importantes de várias formas, a mais óbvia sendo que eles ajudaram a humanizar o capitalismo enquanto desenvolviam formas de agência política e social de massa. O fato de as pessoas terem ou não as redes de seguridade que a social-democracia desenvolveu realmente faz diferença na maneira como elas vivem. No entanto, embora os movimentos da classe trabalhadora tenham humanizado consideravelmente o capital, eles também foram parte do motor de desenvolvimento do próprio capital. Na análise de Marx da luta pela jornada de dez horas diárias, por exemplo, a vitória da classe trabalhadora leva ao que ele chamou de mais valia relativa, que é uma forma muito mais dinâmica de capital. Então há uma relação dinâmica complicada entre o capital e os movimentos operários; é um erro olhar para ela estaticamente e simplesmente declarar que os trabalhadores acabaram somente reforçando o capital. Numa tal perspectiva, o capital e os trabalhadores são retirados do tempo-espaço.

No entanto, eu penso que somos confrontados por uma crise que está fora do campo de visão das pessoas que me criticam por ter deixado a classe trabalhadora para trás. O próprio capital está diminuindo o tamanho da classe trabalhadora e estamos tendo um crescente exército de mão de obra de reserva. Marxistas mais ortodoxos costumavam presumir que a classe trabalhadora continuaria somente crescendo. Mesmo hoje em dia algumas pessoas estão dizendo que, embora o tamanho da classe trabalhadora esteja diminuindo nos Estados Unidos, está crescendo na China. No entanto, minha compreensão é de que os números da classe trabalhadora permaneceram estáticos nos últimos dez anos na China. Se esse for o caso, é incorreto presumir que o declínio do proletariado industrial no Ocidente corresponde a um crescimento da classe trabalhadora em ex-países de Terceiro Mundo, como a China. O que está acontecendo não pode ser entendido totalmente como exportação de empregos. O principal fator é o uso capitalista de tecnologia e processos de racionalização, que está destruindo vários empregos. Acho que estamos numa corrida contra o tempo e não acho que ninguém tem uma visão política acabada de superação do sistema baseado no trabalho proletário.

VIII.

Korsika: Concluamos com algumas questões relativas à situação política contemporânea. Primeiro, qual é sua perspectiva sobre a China como poder global emergente, especialmente em relação àqueles autores que defendem que estamos lidando com uma nova forma de capitalismo?
Postone: É uma forma muito interessante porque abriu-se ao capital global. Essa era a diferença entre Deng Xiaoping e Gorbachev. Gorbachev queria reformas políticas mas a União Soviética estava entrando em colapso econômico. Deng, por outro lado, desenvolveu reformas econômicas que trouxeram à China enormes quantidades de capital, enquanto mantinha o controle político. É um tipo curioso de forma mista. A informação que tenho é de que mais de 50% das empresas chinesas são propriedade de capital estrangeiro, algo que teria sido completamente impensável uma ou duas gerações atrás. Eu não acho que o Partido Comunista ainda considere isso uma ameaça. Teria sido uma ameaça antes, porque teria impedido o desenvolvimento de um capital nacional. Agora os chineses não veem as coisas assim. Talvez a formação de uma economia nacional pelo Partido tenha sido uma importante pré-condição histórica para esse desenvolvimento mais recente, que eu considero parte integrante da época neoliberal.

Mas a China é também uma hegemonia ascendente, eu acho que não se pode questionar isso. E acho que isso se tornou um fator no pensamento estratégico americano. Por exemplo, eu afirmaria que isso teve um papel na guerra americana no Iraque. As forças armadas americanas pensam que desde que controlem o Golfo Pérsico elas podem impedir a transformação de um grande competidor econômico (China) num competidor militar. Eu penso que a questão do controle do Golfo tem um papel muito mais importante no pensamento estratégico americano do que você imaginaria ao ler gente como John Mearsheimer e Stephen Walt, que parecem ver tudo no Oriente Médio pelas lentes de Israel-Palestina. A política americana em relação ao Iraque deve ser entendida contra o pano de fundo da Revolução Islâmica no Irã. Antes, os americanos podiam contar com duas grandes forças no Golfo, o Irã sob o xá Reza Pahlavi e a Arábia Saudita. O xá foi deposto e os sauditas começaram a ocupar uma posição ambígua, dado seu apoio a movimentos islâmicos radicais. Contra esse pano de fundo, eu penso que um dos motivos para a invasão do Iraque foi o de criar ali um estado cliente. Eles o fizeram não tanto porque precisassem do petróleo diretamente, mas porque eles queriam ser capazes de controlar o fluxo de petróleo. E ao mesmo tempo os chineses estão construindo uma enorme base naval no Paquistão, muito próxima da boca do Golfo Pérsico. Então, essa espécie de pensamento geo-estratégico de larga escala está movendo ambos chineses e americanos. (A fim de driblar os americanos, os chineses também estão construindo oleodutos pela Ásia.)

O que eu acho muito triste é que houve um tempo em que a esquerda tentava entender mudanças globais de poder.

Korsika: De 2008 em diante o capitalismo vem enfrentando a sua maior crise histórica. Ao invés dar razão ao argumento histórico da esquerda, parece que a crise desmascarou toda a pobreza teórica e regressões que se acumularam nessa tradição de pensamento nas últimas décadas. Sob essa chave, como você entende os levantes nos países árabes? Parece que esses eventos foram vorazmente adotados pela esquerda e serviram como cortina de fumaça para esconder o seu vazio.
Postone: Eu tenho uma visão um pouco diferente sobre as revoluções e levantes árabes. Eu acho que eles apontam o grau em que a esquerda ocidental fracassou em sua compreensão do Oriente Médio. Uma coisa é ser crítico da ocupação e das políticas israelenses, simpatizar com o movimento palestino por auto-determinação, posições das quais eu compartilho. Outra completamente diferente é comprar a linha árabe nacionalista segundo a qual a única coisa que movia as massas árabes, reificada como “rua árabe”, era Israel-Palestina. A ideia de que todos os problemas do Oriente Médio vêm de fora, especialmente de Israel, era uma ideologia de legitimação para os vários regimes autoritários. O que ela indicava era que o único problema do Oriente Médio é Israel. E a esquerda ocidental comprou totalmente essa ideia e estava disposta a relevar a supressão de movimentos progressistas no mundo árabe pelas ditaduras supostamente anti-coloniais. Eu não acho que as pessoas olharam seriamente para o nacionalismo árabe como uma formação. Com “nacionalismo árabe” eu não me refiro à ideia do direito à auto-determinação nacional. Eu me refiro ao nacionalismo árabe “realmente existente.” Me refiro aos regimes baathistas na Síria e no Iraque, Nasser/Sadat/Mubarak, Líbia, Tunísia, Argélia, Yemen. Eles são diferentes um do outro, mas eu acho que têm muito em comum. Eles são todos completamente autoritários e dependentes de polícia secreta. Mas porque eles não eram reis, boa parte da esquerda os considerou progressistas – progressistas que mataram sua própria esquerda.

Eu não entrarei no mérito do papel negativo do bloco soviético na promoção desse falso reconhecimento. É suficiente dizer que essa afirmação do nacionalismo árabe como progressista estava atrelada à Guerra Fria: o Egito e a Síria se tornaram estados clientes do Pacto de Varsóvia. Depois da derrota desses representantes em 1967, a União Soviética mudou seu foco para os movimentos palestinos. O Oriente Médio passou a ser interpretado pela lógica da Guerra Fria. Entre as muitas dimensões negativas disso estava o efeito sobre os intelectuais. Antes havia intelectuais comunistas como Doris Lessing, que eram nacionalistas da União Soviética (Lessing mais tarde se referiu a ela mesma nesse contexto como tendo sido uma “idiota útil”). Mais recentemente, muitos na esquerda ocidental se tornaram nacionalistas árabes. Uma das coisas que eu acho muito emblemáticas sobre os levantes no mundo árabe hoje é que Israel/Palestina não é uma questão central. Isso não significa que as pessoas sejam indiferentes à questão mas que, ao contrário do que ouvimos por décadas sobre a “rua árabe,” não se trata do foco dos levantes. O que é central é sua própria miséria e isso não tem nada a ver com os americanos. Tem sim a ver com o neoliberalismo, que tornou a repressão política intolerável em função da crescente diferenciação econômica que está acontecendo em todas essas sociedades (está acontecendo em Israel também). Há uma diferença muito maior entre ricos e pobres. Eu sou um pouco pessimista, porque não tenho certeza de que isso possa ser resolvido mesmo por uma sociedade democrática. É com isso que estou um pouco apreensivo.

Mas eu acho que as revoluções árabes expuseram a esquerda anti-imperialista no ocidente. Me parece que isso sublinha que estamos testemunhando uma grande crise na esquerda. O problema mais sério não é simplesmente que a esquerda faliu, mas que escondeu sua falência de si própria, com dogmatismo. Está evidente há décadas que o socialismo tradicional não é o caminho para o futuro. Por uma série de razões, eu acho que tem sido muito difícil para a esquerda pensar numa nova visão de mundo. De modo que, por exemplo, tornou-se muito fácil para muitos, em face da atual crise econômica, simplesmente regredir a uma posição anti-finanças. Mas posições anti-finanças não atacam nem a fonte da crise nem apontam para sua solução. Eu não tenho a solução, mas acredito que a esquerda tem se recusado a enxergar seriamente quão problemática é sua situação, desde o final dos anos sessenta. Uma consequência tem sido a tendência entre muitos de se tornar dogmáticos, furiosamente anti-imperialistas. Isso tornou a vida consideravelmente mais fácil – tudo o que você precisava era de um critério: se é contra os Estados Unidos, nós apoiamos! Como resultado, boa parte da esquerda foi para a cama novamente com regimes autoritários bastante repulsivos. Por mais brutal e terrível que o colonialismo tenha sido (na Líbia, por exemplo, os italianos mataram milhares de pessoas) eu não acho que isso sirva para justificar Gadafi. A esquerda deve abandonar essa visão maniqueísta, que serviu como ideologia de dominação. Eu acho que na Argélia isso ficou claro. Sim, o colonialismo francês foi extremamente brutal, mas o caráter brutal do FNL foi simplesmente ignorado, mesmo durante os anos 1990, quando mais de 200,00 argelinos foram mortos numa guerra civil.
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Fonte:  https://lavrapalavra.com/2017/08/07/entrevista-com-moishe-postone-critica-e-dogmatismo/#more-8645

Viver para sempre jovem, modificando os seus genes

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Há coisas inacreditáveis que são mesmo verdade 
e outras que parecem certas mas que não resistem 
a uma análise crítica. Costumava dizer em tom 
de brincadeira que a ciência nos vai permitir 
viver para sempre quando estivermos 
todos mortos.

Ao contrário do que o seu nome poderia indicar, o trabalho de George Church (“igreja”) pode ser considerado algo iconoclasta. O investigador da Faculdade de Medicina de Harvard acredita que dentro de cinco a seis anos poderemos conseguir reverter o processo de envelhecimento em seres humanos. Muitos antes dele o prometeram, mas todos envelheceram e acabaram por morrer. Mas desta vez talvez seja diferente. Church não é um autoproclamado génio solitário, há boas razões para que a sua previsão seja levada a sério. Os progressos da engenharia genética nas últimas décadas parecem quase ficção científica. E o título do recente livro de Sílvia Curado, investigadora portuguesa na Universidade de Nova Iorque (EUA), indicia isso mesmo: Engenharia Genética: O Futuro já Começou (Glaciar, 2017).
 
As nossas ideias acerca do envelhecimento têm vindo a mudar. Antes pensava-se que o envelhecimento resultava de uma vitória da entropia nas células, que a confusão se impunha lentamente à ordem através da acumulação de estragos e mutações genéticas ao longo da vida. Nessa perspectiva o envelhecimento é irreversível, tal como uma vela que arde não pode ser reconstituída. Afinal, parece que não é bem assim. Há hoje provas de que o envelhecimento é, pelo menos em parte, um processo programado, bastante controlado e regulado geneticamente. Para Sílvia Curado “torna-se cada vez mais claro que os genes não determinam somente a cor dos nossos olhos, do nosso cabelo, a nossa estatura, como determinam também a forma como envelhecemos”.

 Molécula de ADN

domingo, 6 de agosto de 2017

Construir, tecer

 Lya Luft*

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Alguém, muito gentil como são meus leitores através de tantos anos, me pergunta num encontro casual se concordo com a teoria de que tudo está predeterminado em nossa vida, que apenas seguimos feito manada em direção ao nosso destino. Claro que não!, eu disse. Espírito de manada é outra coisa, é o conforto de não decidir, mas acompanhar a maioria, sem refletir, sem reagir, portanto sem responsabilidade nenhuma (na nossa cabeça, claro).

Talvez seja meio a meio, respondi. Parte, sim, é determinada pela família em que nascemos, amorosa, fria e até violenta; pelas capacidades com que somos dotados geneticamente, mais bonito, mais tortinho, mais lúcido, mais sonhador, otimista ou sombrio, bom em matemática, bom em artes, ou nos dois, por que não? Corajoso ou tímido. Mil detalhes que constituem um ser humano, e que nem sempre podemos mudar. 

Outra parte é o que nós escolhemos, e vai aqui de novo uma coluna sobre escolhas. Essa é a parte complicada, porque aceitar que podemos tomar decisões significa assumir alguma responsabilidade.

Tão bom se os outros decidem e a gente apenas segue feito cordeiro para o sacrifício ou a festa. Mas, sim, temos escolhas. Posso tentar controlar um pouco, ao menos, o mau gênio, se nasci com ele. Posso ser mais humano, mais delicado, menos preconceituoso, mais gentil: olhar, abraçar, aplaudir, elogiar aqui e ali, partilhar de alguma risada ou divertimento, confortar nas horas duras, dar colo ou ombro, ou até um silêncio cúmplice e generoso. Isto é, ver algo além de mim. 

Posso tentar caprichar mais na escola, no trabalho, ser menos relaxado ou desligado, ser mais interessado. Posso tentar ouvir boa música. Posso experimentar ler algum livro e sentir que minha cabeça se abre para o mundo, para os outros, até para mim mesmo. Posso tentar esporte ou contemplação. Enfim, posso ver a natureza pela janela de casa, numa trilha ou no ônibus e ver que ainda existe beleza. Posso várias coisas, nem todas difíceis. 

Mas não posso tudo: esse é o drama. De verdade, existe o incontornável, o que não posso evitar: abandono de uma pessoa querida, desemprego, doença, morte, essas rasteiras que a vida nos passa. Posso não sair do limite da pobreza, embora lute feito um leão numa sociedade cruel. Mas posso ser mais amoroso. Posso ser melhor comigo mesmo. Posso refletir um pouco, ver saídas, descobrir jeitos, ou, se nada disso ocorrer, tentar não ser um sujeito brutal, desses meninos que se vangloriam: ?Hoje saí a fim de matar alguém, então liquidei uma velhinha na frente da casa dela, um tiro, pum, e fim?. 

Mesmo nas piores situações, podemos escolher não matar uma velhinha indefesa no portão da casa dela. Podemos não magoar a pessoa que nos ama, não descuidar dos filhos que de nós dependem, podemos levantar o lixo do chão, podemos não nos matar de bebida ou droga. Podemos pedir ajuda e construir uma vida. Podemos também não poder, se o mal que nos fizeram ? ou nos fizemos ? foi grande demais: aí, quem sabe, algum anjo da guarda etéreo ou humano apareça para nos dar aquele empurrão positivo. 

E, se nada disso acontecer, em vez de construir uma vida, podemos viver tecendo a nossa própria mortalha. Sempre podemos alguma coisa. Nisso reside a nossa dificuldade, e a nossa salvação: sermos apenas humanos.
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* Escritora
lya.luft@zerohora.com.br
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=a6a767bbb2e3513233f942e0ff24272c
Imagem da Internet

Coisas com as quais nunca me conformo

Juremir Machado da Silva*
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Sei que como todo homem da minha idade caminho para o anacronismo.

A cada dia me torno obsoleto. Sou como uma rosa que nunca teve razão de ser e que a cada segundo perde seu perfume e se desfolha sem remissão. Resta em mim uma capacidade ridícula de não me conformar. Com o quê? Com a vida que passa sem se explicar e sem explicitar seu sentido, com a indiferença dos jovens em relação ao passado, com o tratamento destinado aos velhos, com a ideologia tecnicista que coloca dispositivos criados por homens acima dos interesses humanos, com a desigualdade que condena pelo nascimento tantos a uma existência infeliz sem que eles nada tenham feito por merecer, salvo nascer no lugar “errado”, do ventre “errado”, errantes.

Não me conformo comigo e com o mundo. Não me conformo de não ter aprendido a tomar chimarrão – o gosto me é insuportável – para ficar horas mateando com a Cláudia, com meus avós e meus pais faziam entre eles em manhãs geladas ou em crepúsculos alaranjados na campanha, proseando ou vivendo em silêncio a cumplicidade de uma travessia feita de pequenos e de grandes saltos na escuridão incerta do futuro ou na luminosidade ofuscante do presente com seus holofotes enganosos. Quando fui fazer doutorado na Sorbonne, tive um medo infantil de não ser aceito na hora da inscrição.  Cláudia me tranquilizou com humor:

– Eu te boto sentado lá na sala de aula e não deixo te tirarem.

Eu não me conformo em ver amigos morrerem, companheiros partirem, políticos traírem seus eleitores, governantes roubarem, filhos não respeitarem os pais, pais não entenderem os filhos, livros não serem lidos. Não me conformo ao ver sair o sorteio: câncer para um, infarto para outro, Alzheimer para tantos. Não me conformo com as misérias do mundo, tanta sabedoria, tanta inteligência, tanta ciência, tanta tecnologia, tanta genialidade e paradoxalmente tamanha incapacidade de dar saúde, educação, comida, emprego e oportunidades reais a todos. Eu não me conformo com a minha covardia, com o que sinto e não digo, com o que digo e não sinto, com a hipocrisia que faz condenar a corrupção de uns e tolerar a roubalheira de outros, com os jeitinhos eternos, os carteiraços cotidianos, os privilégios, os “entendimentos” distintos das leis conforme os “pacientes” da justiça.

Não me conformo com o racismo, com a homofobia, com o moralismo que tolhe e tenta impor regras categóricas onde deve prevalecer a tolerância, a liberdade individual e o direito à diferença. Não me conformo com a rapacidade que “ergue e destrói coisas belas”. Não me conformo com a violência, a ganância, a perversidade e a injustiça. Não me conformo com a minha incapacidade para dar respostas rápidas e espirituosas quando me dizem coisas falsamente gentis ou verdadeiramente afrontosas que me repugnam ou indignam. Não me conformo com o desinteresse geral pela poesia, com o triunfo do divertimento banal, com a glória vã de pseudocelebridades, com tantas vidas tiradas por balas perdidas, com a condenação de crianças a uma vida sem futuro, com a hegemonia do dinheiro sobre todas as coisas.

Eu não me conformo com certas estatísticas e com as ações que as determinam: “Nove entre dez dos mortos pela polícia no Rio de Janeiro são negros ou pardos”. Não me conformo com fanatismo em futebol, terrorismo religioso, facciosismo político, panelinhas culturais. Eu não me conformo com minha falta de jeito para sambar, meu desafinamento para cantar, minha incompetência para tocar um instrumento. Não me conformo com a dor dos inocentes, a mágoa dos injustiçados, a tristeza dos abandonados. Não me conformo por não ver mais as estrelas coalhadas no céu de Palomas, não sentir no rosto a brisa suave das manhãs de setembro nos campos da minha infância, não ter dito não com firmeza quando me dobrei, tergiversei e me abaixei.

Resta em mim essa inconformidade com o tempo, meu tempo, esse inconformismo com a sorte, meu destino, essa desconformidade com a morte, que sempre se aproxima, essa perplexidade face à beleza do universo, que se expressa nas mínimas coisas, por exemplo, no sorriso desta criança que desconheço e que me fita enquanto escrevo sob o sol da imaginação. Eu não me conformo com os golpes de Estados, com os Estados que minguam, o estado das coisas, as coisas em estado terminal. Não me conformo com a crise do humanismo, não me conformo com nossa síndrome de super-homens, não me conformo com a equiparação de homens e coisas, não me conformo com a destruição da natureza.

Não me conformo com a minha pequenez diante de tudo e com a minha falta de grandeza face ao pouco que eu poderia afetar. Na solidão povoada do dia a dia, no formigueiro isolacionista da pequena cidade grande, não me conformo com o tempo perdido deixando o tempo passar sem prestar atenção ao cortejo das estações. Sobretudo, profundamente, não me conformo com meu medo de não temer e de viver. Não me conformo com esta mão que treme quando deveria apertar e amar.
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* Sociólogo. Escritor. Colunista do Correio do Povo
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/08/10110/coisas-com-as-quais-nunca-me-conformo/
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"Si Jesús se encarnó en un varón, ¿la salvación que nos trae es igual de efectiva para las mujeres?"

Por un fin a las mentalidades machistas que distorsionan la fe

"En los Evangelios la presencia de las mujeres es mucho más importante de lo que nos han hecho creer"

Las mujeres han sido más propensas a vivir el lado de sufrimiento y resignación que puede verse en la cruz, y menos el lado de profecía y compromiso
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Las mujeres, con Jesús

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(Consuelo Vélez, teóloga).- "Cristología feminista". Este concepto causa gran desconcierto. Cristología se refiere al estudio sobre Cristo. Pero, ¿feminista? El término feminista produce gran rechazo. Casi siempre se asocia a la pérdida de la "feminidad", es decir, a las mujeres que parece quieren acabar con los varones y viven un libertinaje en muchos sentidos.

No harán falta mujeres que sean así y algunas de estas que se llamen feministas. Pero no hay un solo feminismo y no todos se inscriben en esa descripción que acabamos de hacer.

En realidad, el feminismo en su significado original es un movimiento social que ha luchado por los derechos humanos de las mujeres y ha conseguido establecerlos en las legislaciones de los países, garantizando que sean reconocidos y se pueda exigir su cumplimiento. Como lo dice el Papa Francisco, "si surgen formas de feminismo que no podamos considerar adecuadas, igualmente admiramos una obra del Espíritu en el reconocimiento más claro de la dignidad de la mujer y de sus derechos" (Amoris Laetitia, 54).

Ahora bien, como en este momento, ya gozamos de estos derechos, perdemos "la memoria histórica" de un pasado de muchos siglos durante los cuales, las mujeres no fueron ciudadanas, ni gozaban de derechos. Por eso cobra sentido hablar de feminismo. Por una parte, para recordar cómo fue que llegamos a tener derechos y, por otra, para seguir trabajando porque esos derechos lleguen a todas las mujeres de todas partes del mundo.

Pero no basta que la ley brinde condiciones de igualdad. Más difícil que cambiar leyes, es cambiar mentalidades. Y la mentalidad machista -introyectada en varones y mujeres- hace más difícil esa puesta en práctica de los derechos de las mujeres en la sociedad y en la Iglesia.

Pero ¿qué tiene que ver todo eso con la teología y, concretamente, con la cristología? Pues bien, en las últimas décadas se ha tomado conciencia de que hablar sobre Dios no es algo ajeno a la realidad y por eso han surgido muchas preguntas sobre de qué manera la religión contribuye a transformar las situaciones que no son dignificantes para las personas. Y, en el caso que nos ocupa, de qué manera lo que decimos sobre Cristo contribuye a la dignidad de la mujer. En este sentido es que al tratado de cristología se le añade la palabra feminista.

Alguno pensará que no hace falta hacerse preguntas en ese sentido porque el mensaje de Cristo es liberador siempre. Por supuesto que sí. Pero, a veces, la manera cómo se enseña y cómo se vive, no ha ido en esa dirección.

De varios temas trata la cristología feminista. Tal vez el más conocido, es la relación que Jesús establece con las mujeres y la misión que les confía. Parece obvio, pero esto no ha sido siempre así. La figura de los discípulos ha sido tan sobrevalorada que la presencia de las mujeres se ha considerado accesoria.

Es en tiempos recientes que se destaca el papel de María Magdalena como la primera a la que Jesús se le aparece una vez resucitado. No es que no estuviera en la Sagrada Escritura. Pero no se le daba la importancia que tenía. O la confesión de fe que hace Marta, la hermana de Lázaro: "Yo creo que Tu eres el Cristo, el Hijo de Dios vivo" (Jn 11, 27), es igual a la que hace Pedro: "Tu eres el Cristo, el Hijo de Dios vivo" (Mt 16, 16). Pero la de Pedro se ha predicado insistentemente, la de Marta es ahora que comienza a tenerse en cuenta. Y, así se podrían invocar muchos otros ejemplos del evangelio, donde la presencia de las mujeres es mucho más importante de lo que nos han hecho creer.

Pero otros temas también son importantes. Y si Jesús se encarnó en un varón, ¿la salvación que nos trae es igual de efectiva para las mujeres? Tal vez nunca lo habíamos pensando, pero no es una pregunta irrelevante. De hecho, algunos Padres de la iglesia y teólogos tan importantes como Santo Tomás, no dudaron en decir que la mujer era un varón imperfecto o que la mujer solo se salvaría si de alguna manera su alma se hacía varonil. Todo esto hay que estudiarlo con detenimiento y es necesario hacer precisiones. Pero lo que no se puede negar es que el prejuicio contra las mujeres ha sido real y algunas posturas eclesiásticas no han favorecido la igualdad de mujeres y varones.

Sobre los títulos dados a Jesús, todos conocemos el de Mesías, Logos, Hijo de Dios, etc. Pero la Sagrada Escritura nos habla de otro título, el de "Sabiduría de Dios". Este título no se ha predicado con la misma fuerza que los demás y la ventaja que tiene es que al ser una palabra de género gramatical femenino, nos permite entender que lo femenino también expresa la realidad de Dios.

Finalmente, la cruz de Cristo siendo tan importante y central en la fe cristiana, necesita una comprensión adecuada a los condicionamientos sociales. Las mujeres han sido más propensas a vivir el lado de sufrimiento y resignación que puede verse en la cruz. Menos el lado de profecía y compromiso que fue lo que hizo que Jesús fuera condenado a la muerte en cruz. Cuando se mira la cruz desde la dinámica de recuperación de la dignidad de las mujeres se comprende que la predicación de la cruz tiene que tener más el aspecto de compromiso que el de aguante y resignación a su suerte.

En otras palabras, no es que el feminismo haga que la fe sea liberadora para las mujeres. La fe es liberadora por ella misma. Pero como la fe es encarnada, mientras culturalmente no haya transformación de mentalidades, la fe se distorsiona más de lo que pensamos. Y al intentar articular estos aspectos con las necesarias transformaciones que la realidad de la mujer hoy nos presenta, se abren nuevas dimensiones que potencian la experiencia de fe y la hacen más significativa para el mundo de hoy.

Para leer todos los artículos de la autora, pincha aquí:
 
Fonte:  http://www.periodistadigital.com/religion/opinion/2017/08/05/religion-iglesia-opinion-consuelo-velez-si-jesus-se-encarno-en-un-varon-la-salvacion-que-nos-trae-es-igual-de-efectiva-para-las-mujeres-machismo-fe.shtml

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Tantos crepúsculos perdidos

Juremir Machado da Silva*
A frase mais bonita que li na vida é um verso de Pablo Neruda: “Nós perdemos também este crepúsculo”. Quantos crepúsculos cada um de nós perdeu na vida? Eu perdi crepúsculos preenchendo formulários, uma das coisas que mais odeio no mundo. Perdi crepúsculos tentando convencer burocratas a ouvir a voz da razão, o grito da emoção ou o sussurro do desespero. Perdi crepúsculos ouvindo críticas burras e elogios insinceros. Perdi um crepúsculo por causa de um doutor que me atacava por transformar minhas lembranças em crônicas quando, segundo ele, deveria dar dicas de leitura ou ser útil à sociedade. Perdi um crepúsculo respondendo a quem me chamava de petista e outro a quem me rotulava de reacionário. Perdi tantos crepúsculos me justificando.

Perdi crepúsculos pensando em ser o que não sou para satisfazer os que gostariam de fazer de mim o que só a eles interessaria. Perdi um crepúsculo adotando estratégias de sobrevivência quando apenas desejava que a vida me levasse. Perdi muitos crepúsculos digerindo as frases condescendentes de figuras odiosas que só queriam me envenenar com suas falsas solidariedades.

Perdi crepúsculos por frases assim:

– Você é feio, mas inteligente.
– Agora, sim, fizeste um livro bom.
– Gosto quando tu não imitas o Verissimo.
­– Vai pra Cuba, comunista safado.

Já perdi crepúsculos por não suportar racismo, homofobia e brincadeiras sobre aspectos físicos das pessoas. Já perdi crepúsculos por me dar conta de que me contradigo e também cometo preconceitos. Já perdi crepúsculos quando revisores de livros tentaram mudar meu estilo de escrever por considerar minha frase e minha sintaxe estranhas. Já perdi crepúsculos quando recebi telefonemas de homens dizendo que iriam me capar por causa de meu livro “História regional da infâmia: o destino dos negros farrapos e outras iniquidades brasileiras”. Perdi um crepúsculo lindo quando me fechei para a poesia porque me disseram que ser poeta era coisa ultrapassada. Perdi belos crepúsculos moderando mensagens de ódio de haters que queriam me desestabilizar.

Eu perdi um dos mais belos crepúsculos quando não saí para caminhar por não ter tempo a perder só pensando em ganhar mais mesmo vivendo menos. Perdi um crepúsculo cheio de barras vermelhas quando me deixei dominar pelos ressentimentos e fiquei me preparando para combates que jamais deveriam ter sido travados. Perdi um crepúsculo quando não fechei o livro, não abri o coração, não estendi a mão, não abracei, não beijei e não permiti que a vida me levasse por aí como um pássaro voando de uma árvore para outra. O mais belo crepúsculo que perdi foi aquele em que esperaste por mim com um livro de poesia aberto sobre a grama, cada letra sumindo com o sol se apagando, enquanto eu manuseava uma calculadora e tentava entender o mundo da vida a partir da análise fatorial. Eu perdi tantos crepúsculos que não vi a noite chegar, o dia nascer, o tempo passar, a vida escorrer.

Só me dei conta disso quando a última lâmpada se apagou no prédio vizinho. Na escuridão, ouvia-se Charlie Parker. Era sublime. Não perdi tempo ontem com Temer. Decidi que tudo estava resolvido.
Seria um crepúsculo no pior sentido: ocaso da moralidade e da democracia.

Triunfo da obscuridade.
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* Jornalista. Sociólogo. Escritor. Prof. Universitário. 
Fonte: http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2017/08/10102/tantos-crepusculos-perdidos/
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quinta-feira, 3 de agosto de 2017

A “democracia” dos sem-vergonha

Leonardo Boff*
 Resultado de imagem para charge votação da câmara ontem
É difícil ficar calado após ter assistido à funesta e desavergonhada sessão da Câmara dos Deputados que votou contra a admissibilidade de um processo pelo STF contra o Presidente Temer por crime de corrupção passiva.

O que a sessão mostrou foi a real natureza de nossa democracia que se nega a si mesma. Se a medirmos pelos predicados mínimos de toda a democracia que é o respeito à soberania popular, a observância dos direitos fundamentais do cidadão, a busca de uma equidade mínima na sociedade e o incentivo à participação, o bem comum, além de uma ética pública reconhecível, então ela comparece como uma farsa e como uma negação de si mesma.

Nem sequer é uma democracia de baixíssima intensidade. Ela se revelou, desta vez, com nobres exceções, como um covil de denunciados por crimes, de corruptos e de ladrões de beira de estrada, assaltando os pobres níqueis dos cidadãos.

Como iriam votar a favor da admissibilidade de um julgamento de um Presidente pelo Supremo Tribunal Federal se cerca de 40% de atuais deputados respondem a vários tipos de processos na Corte Suprema? Vigora sempre um conluio secreto entre os criminosos ou acusados como tais, no estilo das “famgilias” da máfia.

Nunca em minha já longa e cansada existência ouvi que algum candidato para financiar sua campanha vendeu seu sítio ou se desfez de algum bem, mas sempre recorreu a empresários e a outros endinheirados, para financiar sua milionária eleição. O caixa 2 se naturalizou e as propinas fabulosas foram crescendo de campanha em campanha na medida que aumentavam as trocas de benefícios.

Desta vez, o palácio do Planalto se transformou no covil-mor do grande Ali-Babá que a céu aberto distribuía benesses, prometia subsídios aos milhões ou mesmo oferecia outros benefícios para comprar votos a seu favor. Só esse fato mereceria uma investigação de corrupção aberta e escandalosa aos olhos dos que guardam um mínimo de ética e de decência, especialmente de gente do povo que ficou profundamente estarrecida e envergonhada.

Efetivamente nenhum brasileiro merecia tamanha humilhação a ponto de tantos sentirem vergonha de ser brasileiros.

Os parlamentares, incluídos os senadores, representam antes os interesses corporativos dos que financiaram suas campanhas do que os cidadãos que os elegeram.

Já temos tido a distância temporal suficiente para podermos perceber com clareza o sentido do golpe parlamentar dado com a cumplicidade de parte do judiciário e do massivo apoio da mídia empresarial: desmontar os avanços sociais em favor da população mais pobre que sempre foi, desde a Colônia, no dizer do maior historiador mulato Capistrano de Abreu, “castrada e recastrada, sangrada e dessangrada”. E também alinhar o Brasil à lógica imperial dos USA no lugar de uma política externa “ativa e altiva”.

As classes oligárquicas (Jessé Souza, ex-presidente exonerado do IPEA pelo atual Presidente) nos dá o número exato:71.440 de supermilhonários, cuja renda mensal, geralmente pela financeirização da economia, alcança 600 mil reais por mês, nunca aceitarem que alguém vindo do andar de baixo e representante dos sobreviventes da histórica tribulação dos filhos e filhas da pobreza, chegasse a ocupar o centro do poder.

Ficaram assustadas com a presença deles nos aeroportos e nos shoppings-centers, lugares de sua exclusividade. Deviam ser devolvidos ao lugar de onde nunca deveriam ter saído: a periferia e a favela. Não apenas os querem distantes de seus espaços. Vão mais longe: odeiam-nos, humilham-nos e difundem este desumano sentimento por todos os meios. Não é povo que odeia, confirma-o Jessé Souza, mas esses endinheirados que os exploram e com tristeza e por obrigação legal lhes pagam os miseráveis salários. Por que pagar, sem sempre trabalharam de graça como antigamente?

Historiadores do nível de José Honório Rodrigues, entre outros, têm mostrado que sempre que os descendentes e atualizadores da Casa Grande percebem que políticas sociais transformadoras das condições de vida dos pobres e marginalizados, dão um golpe de estado por medo de perderem o nível escandaloso de sua acumulação, considerada uma das mais altas do mundo. Não defendem direitos para todos, mas privilégios de alguns, quer dizer, deles. O atual golpe obedece à mesma lógica.

Há muito desalento e tristeza no país. Mas este padecimento não será em vão. É uma noite que nos vai trazer uma aurora de esperança de que vamos ultrapassar essa crise rumo a uma sociedade, no dizer de Paulo Freire, “menos malvada” e onde “não seja tão difícil o amor”.
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* Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu A Grande Transformação, Vozes 2015.
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2017/08/03/a-democracia-dos-sem-vergonha/
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Francesco Gesualdi : O 'Overshoot Day' e os empobrecidos. Por um outro estilo de vida.

 http://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2017/07/29_07_2017_esgoto_ceu_aberto_agencia_brasil_wikipedia.jpg
“‘Eles’, os empobrecidos, poderão dar um passo à frente somente se ‘nós’ soubermos dar um passo atrás, concebendo 
um ‘nós’ mais amplo e mais verdadeiro. 
Caso contrário, poderemos até construir 
um mundo verde, mas ele terá 
o rosto cruel do apartheid.”

A opinião é do ativista italiano Francesco Gesualdi, coordenador do Centro Nuovo Modello di Sviluppo e um dos fundadores, junto com Alex Zanotelli, da Rede Lilliput. O artigo foi publicado por Avvenire, 02-08-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se não bastassem os rios em seca e as chuvas que não caem há meses para nos fazer entender que o planeta está entrando em colapso sob o peso dos nossos excessos, a confirmação nos vem do Overshoot Day, literalmente, o “dia da ultrapassagem”, o indicador que nos assinala o momento do ano em que entramos em déficit em termos de recursos.

Uma tendência que se agrava de ano em ano, considerando-se que, desde que começamos a monitorar o fenômeno, não fazemos nada mais do que retroceder, até chegarmos, este ano, ao dia de hoje: 2 de agosto.

"60% da pegada ecológica da humanidade é determinada 
pela absorção de dióxido de carbono."
 

Estamos falando da pegada ecológica que mede a quantidade de terra fértil de que precisamos para sustentar o nosso consumo. E se, instintivamente, somos levados a pensar que a terra fértil nos serve apenas para o alimento, na realidade, o consumo que afunda as suas raízes na terra fértil é muito mais amplo. Basta roupas no vestuário que utiliza algodão, na mobília que utiliza madeira, nas construções que ocupam solo, nos remédios que usam plantas medicinais.

Mas o aspecto surpreendente é que precisamos de terra fértil até para andar de carro ou para ligar uma lâmpada. Muitas vezes, esquecemo-nos de que, quando enfiamos a chave na ignição, junto com o rugido do motor, emitimos dióxido de carbono, uma substância útil e necessária, mas não em excesso, e na qual não pensamos, só porque a Mãe Natureza sempre soube regulá-la graças à atividade das plantas. Mas devemos lembrar que 60% da pegada ecológica da humanidade é determinada pela absorção de dióxido de carbono.

"Produzimos a cada ano 36 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, enquanto o sistema das florestas e dos oceanos 
é capaz de absorver 20 bilhões."
 
Em nível terrestre, a terra fértil disponível sob a forma de pastagens, florestas, terras aráveis totaliza 12 bilhões de hectares, mas o consumo alcançado pela humanidade requer 20 bilhões deles. Um déficit de 8 bilhões de hectares que o Overshoot Day representa por meio do calendário: atestado que, a cada dia, precisamos de 54 milhões de hectares de terra fértil, isso nos indica o dia do ano em que entramos na zona negativa, porque esgotamos toda a terra fértil de que a Mãe Terra dispõe. 

Um limite que alcançamos, a cada ano, alguns dias antes: em 1987, no dia 19 de dezembro; em 2009, 25 de setembro; em 2017, 2 de agosto. Os dias do ano em que vivemos sem correspondente de terra fértil já são 150, 40% de todo o período. Palavra do instituto estadunidense Global Footprint Network.

Como é possível consumir além da capacidade produtiva da terra parece ser um enigma inexplicável, ainda mais que nunca temos a percepção de ficar sem produtos naturais. Mas, paradoxalmente, o desequilíbrio não se manifesta sob a forma de penúria, mas sim, justamente, de excesso. O problema diz respeito ao dióxido de carbono, que, há várias décadas, emitimos além da capacidade de absorção do sistema natural, com um consequente acúmulo na atmosfera. Mais precisamente, produzimos a cada ano 36 bilhões de toneladas, enquanto o sistema das florestas e dos oceanos é capaz de absorver 20 bilhões, um saldo negativo anual de 16 bilhões de toneladas que, acumulando-se na atmosfera, contribui para o aumento da temperatura terrestre, com graves consequências sobre o clima.

"Hoje, os deslocados por desastres naturais já são 
em torno de 20 milhões por ano, mas, até 2050,
poderiam se tornar 150 milhões"
 
A humanidade produz dióxido de carbono desde que conhece o fogo, mas apenas desde que teve acesso aos depósitos de gás e petróleo é que ela começou a produzi-lo de maneira insustentável. Basta dizer que, de 1870 até hoje, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera aumentou mais de 40%, passando de 288 para 400 partículas por milhão.

As consequências sobre o clima ainda não são totalmente previsíveis, mas já são o suficiente para prever cenários pesados e até mesmo apocalípticos: desertificação, furacões, aumento do nível dos mares. Fenômenos com repercussões profundas sobre a produção de alimentos, sobre o habitat, em uma palavra, sobre a segurança de vida de grandes camadas da população mundial, que serão forçados a emigrar para encontrar salvação.

Hoje, os deslocados por desastres naturais já são em torno de 20 milhões por ano, mas, até 2050, poderiam se tornar 150 milhões. Um fenômeno que ninguém sabe como deter, mas que alguns poderosos “estrategistas” pensam em resolver com as armas. Por isso, eles também se ocupam com as mudanças climáticas, para entender para onde e quando apontar os canhões.

O drama da situação é que colocamos o mundo de cabeça para baixo, não para garantir a dignidade de todos, mas o bem-estar de poucos, até o desperdício. E é novamente a pegada ecológica que nos diz isso. Se dividimos os 12 bilhões de hectares de terra fértil disponível pela população terrestre, descobrimos que cada indivíduo tem à sua disposição 1,7 hectare de terra fértil.

"Se todos os habitantes do mundo vivessem 
como os cidadãos de Luxemburgo, seriam necessários nove planetas, e se vivessem como os italianos, seriam 
necessários dois e meio."
 
Esta é a pegada que ninguém deveria ultrapassar, para ficar em equilíbrio com a natureza. Na realidade, apenas 3% da população mundial se mantêm nessa linha, enquanto 54% estão acima, e 43%, abaixo. Os eritreus, por exemplo, têm uma pegada de 0,4 hectare, e os bengalis, de 0,7. No lado oposto, a pegada dos luxemburguenses é de 15,8 hectares, enquanto a dos australianos é de 9,3, dos estadunidenses, de 8,2, dos italianos, 4,6. Em conclusão, os luxemburguenses consomem nove vezes mais do que poderiam, os estadunidenses, cinco vezes mais, e os italianos, duas vezes e meia.

Em outras palavras, se todos os habitantes do mundo vivessem como os luxemburguenses, seriam necessários nove planetas, e se vivessem como os italianos, seriam necessários dois e meio.

Nós não temos nenhum planeta de sobra. Temos apenas um e, com este único planeta, devemos enfrentar dois grandes desafios expressados também pelo Papa Francisco na sua encíclica Laudato si’: permitir que os empobrecidos subam de novo a ladeira, o mais rápido possível, e deixar aos nossos filhos um planeta habitável.

"Os três bilhões de empobrecidos têm direito a viver melhor, mas a sua estrada está bloqueada enquanto os habitantes do Norte do mundo, já não mais do que 15% da população mundial, continuarmos utilizando pelo menos 75% dos recursos planetários e 40% da terra fértil disponível."
 
Para isso, não é mais suficiente nos ocuparmos apenas com regras econômicas, comerciais e financeiras que determinam a estrutura distributiva da riqueza. Devemos nos ocupar também com estilos de vida para identificar formas de produção e de consumo mais sustentáveis. Os três bilhões de empobrecidos têm direito a viver melhor, mas a sua estrada está bloqueada enquanto nós, habitantes do Norte do mundo, já não mais do que 15% da população mundial, continuarmos utilizando pelo menos 75% dos recursos planetários e 40% da terra fértil disponível.

A conclusão é que “eles” poderão dar um passo à frente somente se “nós” soubermos dar um passo atrás, concebendo um “nós” mais amplo e mais verdadeiro. Caso contrário, poderemos até construir um mundo verde, mas ele terá o rosto cruel do apartheid.
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Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/570252-estilos-de-vida-mais-sustentaveis-para-ajudar-os-empobrecidos-e-a-terra-artigo-de-francesco-gesualdi

Patologias da sociedade

Paulo Tunhas*

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 "Os projectos políticos que não se alicerçam, de forma mais ou menos reflectida, numa interrogação filosófica sobre a criação humana da sociedade tendem declaradamente para a monstruosidade, ou, pelo menos, para uma pobreza e para uma rigidez esquemática que não se recomendam."

Nem a liberdade individual se defina por oposição ao Estado, nem o Estado supõe a anulação desta. Mas os projectos políticos tendem a encaminhar-se para os extremos, conduzindo a situações patológicas

Não digo que seja a chave para o que quer que seja, mas se quisermos reflectir um pouco sobre o estado presente da nossa sociedade não é inútil pensar um pouco nas infinitas formas que as sociedades tomaram ao longo dos tempos, nas várias crenças que adoptaram, nas instituições que criaram, na maneira como a si mesmas se imaginaram, nos símbolos que escolheram para si. O espectáculo que encontramos é um pouco o do botânico que atravessa uma selva luxuriante. Há o terrível e há o maravilhoso e há muitas vezes o terrível indistinguível do maravilhoso. Encontranos astecas e súbditos de faraós, senadores romanos e profetas armados, decências vitorianas e monstruosidades totalitárias. Uma coisa é certa: tudo isso é criação humana, algo que o filósofo francês de ascendência grega Cornelius Castoriadis pensou talvez melhor e mais radicalmente que ninguém.

Serei o último a recusar qualquer pertinência à distinção entre direita e esquerda. Precisamos de opor para pensar e para nos orientarmos no pensamento, como lembrava Fernando Gil, e o pensamento político, mesmo o mais imediato e circunstancial, não escapa a esta condição geral. Mas, ao mesmo tempo, é uma oposição que tende a recalcar algo de essencial. A verdadeira interrogação sobre a natureza da sociedade não é, não pode ser, nem de “esquerda” nem de “direita”, contrariamente à pretensão de muita gente. Os projectos políticos, esses sim, deixam-se em parte definir em tais termos. Mas os projectos políticos que não se alicerçam, de forma mais ou menos reflectida, numa interrogação filosófica sobre a criação humana da sociedade tendem declaradamente para a monstruosidade, ou, pelo menos, para uma pobreza e para uma rigidez esquemática que não se recomendam.

Olhando à nossa volta, encontramos gente que, para retomar a distinção célebre de Tocqueville, é dominada pela “paixão da liberdade” e gente em que a “paixão da igualdade” é dominante. É muito duvidoso que sejam paixões naturais e universais. São, com toda a probabilidade, paixões que nascem no contexto de uma certa tradição – a nossa, a ocidental – e que têm, assim, uma raiz comum. O que, à sua maneira, significa que não são incompatíveis uma com a outra. Pessoalmente, e sem querer cair em magias dialécticas, sempre me pareceu que a liberdade não sobrevive sem uma certa forma de igualdade e que a igualdade rapidamente desaparece se não se encontrar acompanhada de alguma figura de liberdade. Não creio, de resto, que seja um pensamento excessivamente original: a maior parte das pessoas pensa assim.

Resta que a instrumentalização política dessas paixões, aquela exactamente levada a cabo pelos projectos políticos que silenciam qualquer reflexão efectiva sobre a natureza da sociedade, conduz a uma sua absolutização que impede que entre elas se forme qualquer aliança. Resulta daí o nascimento de concepções de justiça radicalmente incompatíveis entre si que formam o núcleo mais duro da oposição entre direita e esquerda. As concepções da justiça são já de si naturalmente plurais e não há filósofo algum que subscreva, de Platão a Rawls, o pensamento de um outro nessa matéria, um fenómeno que não se encontra com um peso equivalente em matérias relativas ao conhecimento ou até em questões estéticas. Mas quando o problema da justiça se encontra absorvido pelos projectos políticos que silenciam a questão da origem da sociedade essa pluralidade transforma-se numa oposição rígida e esquemática. Para uns, a justiça coloca a liberdade no seu centro. Para outros, a igualdade.

Nas nossas sociedades, essa oposição forte fornece o assento ao conflito entre liberalismo e estatismo, que é provavelmente a forma mais aparente da oposição entre direita e esquerda. Mais uma vez, trata-se de uma radicalização de algo que pode e deve ser pensado sem conduzir a posições extremas. Nem a liberdade individual é algo que se defina por oposição ao Estado, nem o Estado supõe a anulação desta. Acontece no entanto que os projectos políticos tendem a encaminhar-se para os extremos, conduzindo a situações patológicas. E há patologias da liberdade e patologias da igualdade.

Estas questões não se colocariam se fossemos astecas ou súbditos de Amenófis IV. Colocam-se (felizmente) a nós. E por isso o juízo político e a deliberação política devem buscar as soluções menos patológicas, que são aquelas que mantêm viva, por mais precária que seja essa vida, a interrogação sobre a natureza da sociedade como criação humana e a reflexão sobre a justiça. Com toda a probabilidade, o grau de nocividade das patologias varia com o tempo e a situação histórica. Em certas situações, aquilo que o filósofo conservador Roger Scruton chamou um desprezo quase nietzschiano pelos que são dependentes é mais nocivo. Noutras, é mais nocivo o projecto de uma sociedade constituída por uma massa de dependentes do Estado.

Se quisermos recorrer ao vocabulário da “esquerda” e “direita”, como temos de o fazer no dia-a-dia, é muito verosímil que aquilo que se chama “direita” ofereça hoje em dia concepções menos patológicas da sociedade do que aquilo que se chama “esquerda”. A direita evoluiu, a esquerda, pelo contrário, regrediu. A direita pensa de forma menos extremada a relação entre o indivíduo e o Estado do que a esquerda e a possibilidade de pensar a justiça social que a direita oferece encontra-se mais próxima de uma concepção pluralista desta do que aquela que a esquerda, mais rígida, permite. O estatismo (e, vá lá, o “amor pela cultura”) tornou-se quase a marca única da esquerda. A direita define-se de forma mais variada e matizada. Dito de outra maneira: faz menos mal à sociedade. Terá de ser sempre assim? Duvido. Mas no momento presente é, parece-me, assim.
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OBS. Texto em português de Portugal.

*Nasci a 18 de Maio de 1960. Licenciei-me em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e doutorei-me, também em Filosofia, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, Paris. Sou professor no Departamento de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e investigador no Instituto de Filosofia da mesma Universidade. Publiquei, entre outros livros, Impasses, seguido de Coisas vistas, coisas ouvidas, em colaboração com Fernando Gil e Danièle Cohn (Europa-América), O Essencial sobre Fernando Gil (Imprensa Nacional/Casa da Moeda), O pensamento e os seus objectos. Maneiras de pensar e sistemas filosóficos (Edições da Universidade do Porto) e As questões que se repetem. Uma breve história da filosofia, em colaboração com Alexandra Abranches (D. Quixote). Na imprensa, colaborei regularmente, entre outros lugares, na revista Atlântico (2005-2008) e no jornal i (2009-2010).
Fonte:  http://observador.pt/opiniao/patologias-da-sociedade/ 03/07/2017
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terça-feira, 1 de agosto de 2017

Alain Badiou: Sobre a Revolução Russa de Outubro de 1917

Por Alain Badiou, via Verso Books, traduzido por Rodrigo Gonsalves.

Eu gostaria de enfatizar um ponto que parece ter sido esquecido hoje em dia, depois do aparente triunfo do capitalismo em escala global: A Revolução Russa de 1917 foi evento sem precedentes na história da espécie humana.

Neste caso, vale a pena lembrarmos que a história da humanidade é relativamente curta, levando tudo em consideração. Ela soma por volta de 200,000 anos, o que não é muito se compararmos com os milhões de anos em que os dinossauros dominavam o planeta. Podemos sustentar que, nesta breve sequência, tivemos basicamente apenas uma fundamental “Revolução”: a revolução Neolítica. Essa revolução traduziu-se em ferramentas mais efetivas, estabelecimento da agricultura, uma noção estabelecida de propriedade de terras, objetos de cerâmica, a possibilidade de excesso de alimento que permitiu a existência um classe dominante ociosa, resultando na criação de um estado, da escrita, do dinheiro, de taxas, do aperfeiçoamento (graças ao bronze) de equipamentos militares, comércio a longa distância… Tudo isto, datando apenas alguns milênios atrás e ainda estamos no mesmo lugar. Mesmo se a produção industrial apoiada pela ciência moderna tenha acelerado muitos processos, o fato é que o nosso mundo ainda é o mundo da rivalidade entre estados, de guerras, da dominação de uma estreita oligarquia financeira, de decisiva importância no comércio internacional, do predatismo militarizado de matérias primas, da existência de massas gigantes de muitos bilhões de pessoas que estão totalmente destituídos e de um perpétuo movimento em massa de pobres camponeses de todas as regiões em direção das sobrecarregadas metrópoles onde eles assumem papéis subalternos.

Somente muito tardiamente, apenas há alguns séculos, a questão dos fundamentos econômicos dos estados chegou ao cerne da discussão política. A partir daí, podemos argumentar, ou mesmo demonstrar, que a mesma organização social opressiva e discriminatória poderia perfeitamente sentir-se em casa, escondia por trás de qualquer forma estatal (poder pessoal ou democracia). Ou seja, uma organização em que as decisões estatais mais importantes envolvem invariavelmente a proteção ilimitada da propriedade privada, a transmissão desta propriedade através da família e, finalmente, a manutenção de desigualdades totalmente monstruosas, mantidas como naturais e inevitáveis.

Então surgiram iniciativas revolucionárias de uma ordem completamente diferente daquelas que apenas questionaram a forma de poder político. Todo o século XIX fora marcado pelas falhas – muitas vezes sangrentas – de tentativas revolucionárias de tal orientação. A Comuna de Paris, com seus trinta mil mortos nas calçadas de Paris, continua sendo a mais gloriosa dessas catástrofes.

Sendo assim, diremos: nas condições do enfraquecimento do estado central despótico da Rússia, que incautamente se comprometeu com a Grande Guerra de 1914 a 1918; no despertar de uma primeira revolução democrática (fevereiro de 1917) que derrubou esse estado; com uma nova classe trabalhadora entrando em formação, muito dada à revolta e sem sindicatos conservadores para restringi-los; sob a liderança de um Partido Bolchevique cuja organização era em certo sentido, implacável; e com um Lenin e um Trotsky que combinaram uma forte cultura Marxista e uma longa experiência militante assombrada pelas lições da Comuna de Paris; fundindo tudo isso em outubro de 1917, veio a primeira vitória, em toda a história humana, de uma revolução pós-neolítica.

Isso significou uma revolução que estabeleceu um poder cujo objetivo declarado era a derrubada total dos fundamentos de milênios de todas as sociedades “modernas”: a ditadura oculta daqueles que possuem o controle financeiro da produção e do comércio. Esta foi uma revolução que se abriu para a fundação de uma nova modernidade. E o nome comum desta novidade absoluta era – e, na minha opinião, permanece sendo – o “comunismo”. Pessoas de todos os tipos ao redor do mundo, desde as massas populares trabalhadoras e camponesas até intelectuais e artistas, reconheceram esta revolução sob o nome de “comunismo”, recebendo-o com um entusiasmo proporcional à vingança que constituía depois das duras derrotas do século anterior. Agora, Lenin poderia declarar, chegou a era das revoluções vitoriosas.

Quaisquer que fossem os avatares posteriores desta aventura sem precedentes e qualquer que seja a situação atual em que as ‘panelinhas’ contemporâneas do Neolítico tomem as coisas em volta do mundo, a revolução comunista de outubro de 1917 continua sendo a nossa base para saber que, no nível temporal do porvir da humanidade, o capitalismo dominante é, e para sempre será algo do passado. Isso, não obstante suas aparências passageiras.
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Fonte: https://lavrapalavra.com/2017/07/31/sobre-a-revolucao-russa-de-outubro-de-1917/