domingo, 27 de agosto de 2017

A fé move alucinações


TRANSE - Culto em igreja pentecostal nos EUA: experiências de devaneio podem se expressar individual ou coletivamente 
(Timothy Fadek/Corbis/Getty Images)

Estudo de psiquiatras americanos conclui que ter algum tipo de crença — religiosa ou não — costuma levar as pessoas a ouvir sons que não existem 
Por Filipe Vilicic
access_time 25 ago 2017

A heroína francesa Joana D’Arc (1412-1431), líder de seu país durante a Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra e santa da Igreja Católica, dizia ouvir vozes — mais de uma vez por semana — que a guiavam em suas estratégias militares, invariavelmente ousadas. Para os fiéis, o fenômeno alimentaria sua íntima ligação com Deus, revelada ainda na infância. A ciência, no entanto, acaba de acenar com outra explicação para o fato. “Figuras históricas, como Joana D’Arc, talvez sofressem de alucinações, que, embora sejam comuns — em média, uma em cada vinte pessoas apresenta esse sintoma —, são associadas por alguns a experiências espirituais”, disse a VEJA o psiquiatra americano Philip Corlett, professor da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Corlett coordenou um estudo, publicado no início deste mês, cujo objetivo era justamente provar como os seres humanos são suscetíveis a alucinações, ou seja, “percepções sem estímulos externos”, quando possuem alguma crença, qualquer crença. Na maioria das vezes de cunho religioso, mas nem sempre.

Os indivíduos costumam ser suscetíveis a enganos, imaginando, por exemplo, que ouviram algo, mesmo em meio ao mais absoluto silêncio. E tal coisa ocorre — é bom frisar — não apenas em casos de vivências místicas. “A pessoa pode sentir o celular tocar no bolso, quando, na verdade, ele permaneceu mudo. Isso acontece porque se crê que alguém estaria prestes a ligar”, explicou Corlett. Na pesquisa de Yale realizou-se um teste em que voluntários foram divididos em quatro grupos, com cerca de quinze pessoas cada um. Num desses times, incluíram-se somente indivíduos que haviam sido diagnosticados com alguma doença psicótica, circunstância que os levava a ouvir sons inexistentes. Em outro grupo ficaram aqueles que sofriam de algum distúrbio psíquico, porém não escutavam vozes; no terceiro, pessoas completamente saudáveis; e, por fim, apenas indivíduos que não tinham sido clinicamente diagnosticados com nenhum problema de natureza psicológica mas declaravam ter alucinações auditivas e as atribuíam a experiências místicas, espirituais ou religiosas. Durante o experimento, por meio da repetição, os cientistas levavam os voluntários a acreditar que poderiam ouvir estímulos sonoros específicos toda vez que vissem uma luz. Ocorre que nem sempre os sons eram ativados. A intenção era detectar se as pessoas iriam notificar que haviam ouvido o barulho, mesmo sem ele existir.

 
CRUZ E ESPADA – Joana D’Arc (em cena de filme de 1999): militarismo celeste? (//Reprodução)

O trabalho pilotado por Corlett não é exatamente original. Ele se baseou em um teste similar realizado há 125 anos também em Yale. A diferença crucial é que, desta vez, foi possível analisar, por meio de ressonância magnética, o que ocorria no cérebro das pessoas durante o estudo. Conclusão: as que mais ouviram sons inexistentes estavam no primeiro grupo (dos psicóticos) e no último (dos místicos). Naturalmente, o resultado do primeiro grupo era esperado, mas o do último foi uma surpresa. Corlett definiu, assim, que alucinações são mais frequentes entre indivíduos que já possuem crenças — o que poderia justificar, por exemplo, os devaneios da heroína Joana D’Arc.

Existem alucinações inofensivas, claro. O problema está naquelas que representam autênticas ameaças, caso das que levam pessoas a cometer atos indevidos, supostamente ordenados por vozes do além. Nos idos de 1970, por exemplo, o americano Marshall Applewhite (1931-1997) fundou, ao lado da companheira Bonnie Nettles (1927-1985), a seita Portão do Paraíso, após alegarem ter visto alienígenas que lhes disseram que eles eram profetas de Cristo. Uma das crenças do culto era que a Terra estaria prestes a ser “reciclada” e que a única saída seria deixar o planeta. Em março de 1997, Applewhite convenceu 38 seguidores a acompanhá-lo no suicídio, dizendo que assim seriam teletransportados para um óvni que lhes garantiria a entrada no paraíso cristão. Pelas conclusões do estudo de Yale, ele devia sofrer de delírios motivados por suas crenças.

É curioso notar, entretanto, que, em geral, alucinações que levam à prática de atos violentos são com frequência associadas, popularmente, a indivíduos não crentes. Uma pesquisa, publicada em junho por cientistas de diversas nacionalidades, com 3 000 indivíduos de treze países, perguntou se eles achavam que um serial killer fictício, cujas ações imaginárias eram descritas pelos cientistas, seria ateu, ou se essa condição seria irrelevante. Resultado: 60% apostavam que se tratava de um ateu. Ao mesmo tempo, os pesquisados foram indagados se o mesmo serial killer poderia ser um religioso, e só 30% responderam afirmativamente. Há, na conclusão desse levantamento, uma percepção muito comum: a de atribuir a boa postura moral à religião, como se o apego a crenças sobrenaturais fosse condição para o bom comportamento em sociedade. Nesse caminho, a moral seria filha única da fé religiosa. Não é bem assim. O que o conjunto das pesquisas mostra é que os bons e os maus podem tanto estar entre os crentes como entre os ateus, sendo que os primeiros têm maior inclinação a alucinações auditivas.
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Com reportagem de Carla Monteiro
Publicado em VEJA de 30 de agosto de 2017, edição nº 2545 pg. 82 e 83
http://veja.abril.com.br/revista-veja/a-fe-move-alucinacoes/

Talvez por refluxo cristão, a autoficção é vista como o que temos de pior

Cristovão Tezza*




Vânia Medeiros de 27 de ago de 2017
"Shônagon ressoa hoje como uma estranha Eva num paraíso antes do fruto do bem e do mal, dando nome às 
coisas pela primeira vez e pelo exclusivo 
arbítrio de seu próprio olhar."

"A única coisa que o interessava profundamente era sua própria pessoa e sua própria vida; foi inteligentemente, deliberadamente, integralmente egoísta." Seria essa uma boa definição do gênero literário que nos últimos anos se convencionou chamar de "autoficção" –a ficção em que o escritor faz de si mesmo personagem, elidindo a fronteira entre verdade e mentira que, por intuição, costumamos marcar nos textos que lemos? Talvez.

Na verdade, trata-se de um trecho de um estudo sobre Michel de Montaigne (1533-1592) do teórico alemão Erich Auerbach publicado na década de 1940 ("Introdução aos Estudos Literários", Cosac Naify).

A revolução de Montaigne em seus célebres "Ensaios", um best-seller do século 16, estava em se colocar, sem nenhum pudor, como régua de referência para julgar os fatos do mundo. E retratava-se no chão comezinho da existência, em seu instante biográfico presente, das pedras do rim às dificuldades conjugais, sem tomar de empréstimo nenhum modelo sublime de algum quadro filosófico ou religioso estabelecido a priori.

"Meus atos", diz Montaigne, "condicionam-se ao que sou; não posso fazer mais nem melhor, e o arrependimento não se aplica às coisas que estão acima de nossas forças. Em suma: "Não é uma mancha que há em mim; é minha cor natural". Depois de séculos de constrição medieval religiosa, em que a condição humana só podia ver a si mesma como algo desprezível que se reduz a pó, entende-se a força renovadora do sopro de Montaigne. Ele reinaugura uma valorização da independência do indivíduo que não teria mais retorno na consciência do Ocidente.

Por essa característica marcante, poderia ser nomeado o santo padroeiro da autoficção, esse gênero que, talvez por um refluxo cristão tardio, seja ainda visto como expressão do que temos de pior, como os blogues da internet. A ideia de alguém que se dedique inteiramente a si mesmo –embora seja isso, metáforas à parte, o que todo mundo faça o tempo todo– soa desagradável ou mesmo inaceitável. O mundo inteiro vê a si mesmo moralmente solidário, comunitário ou socialista; e, do ponto de vista científico, como objetivo e neutro. A chamada autoficção parece quebrar as duas regras ao mesmo tempo.

Bem, para não me acusarem de eurocêntrico, ou, mais grave, sexista, ou quem sabe ainda pior, de elitista, lembro uma mulher do outro lado do mundo, no Japão, cerca de 500 anos antes de Montaigne, e de um estrato social muito abaixo deste senhor de terras e títulos.

Trata-se de uma simples dama da corte do período Heian, de nome Sei Shônagon (c. 966-1020), que escreveu uma obra-prima chamada "O Livro do Travesseiro" (editora 34). Shônagon pode ser considerada a precursora mundial do gênero de Montaigne.

(Parêntese: há as "Confissões" de santo Agostinho [354-430 d.C.], mas nele –nessa classificação arbitrária que faço aqui– falta o tempero laico do verdadeiro individualismo, que não se entrega a um fechamento externo.)

Sei Shônagon escreve coisas assim: "O homem, sim, é um ser deveras singular e de coração bem suspeito. É estranho como ele pode abandonar uma mulher muito bonita para viver com uma feia".
Veja-se este trecho, que curiosamente reverbera ainda hoje: "Os Tenentes da Direita e da Esquerda da Guarda do Portal foram apelidados de 'Oficiais de Polícia', de tão terrivelmente temidos e reverenciados que eram".

Na relação de "coisas que provocam invejam", ela lembra "homens e mulheres que leem com fluência e facilidade" e especula sobre se será como eles algum dia. Na lista de "coisas que constrangem", ela diz: "Ser obrigada a ouvir, sem poder impedir, assuntos indiscretos comentados num aposento dos fundos". Ou, ainda, o que vem bem a calhar aqui: "Ignorantes com ares de conhecedores que citam autores célebres".

É claro que há um abismo intransponível nessa comparação: a ausência da herança cristã e da concomitante enciclopédia greco-romana que formataram o Ocidente. Shônagon ressoa hoje como uma estranha Eva num paraíso antes do fruto do bem e do mal, dando nome às coisas pela primeira vez e pelo exclusivo arbítrio de seu próprio olhar. O ponto em comum é o gesto fundamental da escrita, que é o ato de duplicar o mundo para torná-lo habitável.
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*  Crítico literário e um dos principais ficcionistas em atividade no país. Já venceu alguns prêmios literários brasileiros com o livro 'O Filho Eterno' (Record). 
Foto:  Vânia Medeiros/Vânia Medeiros Editoria de Arte/Folhapress
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/cristovao-tezza/2017/08/1913155-talvez-por-refluxo-cristao-a-autoficcao-e-vista-como-o-que-temos-de-pior.shtml

sábado, 26 de agosto de 2017

Konrad Korning: "Quase tudo que sabemos sobre o cérebro humano está errado", ressalta neurocientista alemão


"Quase tudo que sabemos sobre o cérebro humano está errado", ressalta neurocientista alemão Tulio Milman/Agência RBS

Em conversa com Tulio Milman na Universidade da Pensilvânia, o pós-doutor Konrad Korning compartilhou alguns segredos da mente humana

Eram 16h02min quando o professor Konrad Kording chegou apressado, pedindo desculpas pelo atraso. Havíamos marcado a entrevista para as 16h.

Eu esperava havia dez minutos do lado de fora da sala 106 do Hayden Hall da Universidade da Pensilvânia, na Filadélfia. Um prédio antigo e charmoso, com portas trancadas e porteiro eletrônico, algo não muito comum por aqui.

Tentei explicar que, no Brasil, chegar 15 minutos atrasado é normal. Meia hora, aceitável. Foi demais para a cabeça dele. Recebi de volta uma expressão de simpática estranheza, daquelas que a gente faz quando não sabe se o interlocutor está brincando ou falando sério.

Kording é alemão. Pós-doutor com passagens pelo MIT, pela University College London e pelo Instituto Federal de Tecnologia de Zurique. O currículo engana quem espera encontrar um geniozinho de paletó e cabelo lambido.

Geniozinho, sim. Mas a aparência é de um garotão.

Ele foi logo avisando, educadamente: "Hoje é o dia da imprensa. Às cinco horas chega o The New York Times". Kording é bem mais objetivo do que eu imaginava. Prefere as questões práticas às filosóficas.A resposta à minha segunda pergunta comprova.

Conversamos por 50 minutos. Uma conversa densa, que me exigiu concentração total. Foi quando, juro, vi o dinossauro pendurado na parede piscar o olho esquerdo pra mim. Foi aí que me dei conta. Hora de ir embora.

O que é a neurociência?Basicamente, é o estudo do funcionamento do cérebro humano. É muito sobre o "como" e não sobre o "quê¿. Nosso cérebro produz, em 30 segundos, mais informações do que o telescópio Hubble em todo o seu tempo de vida. É essa produção que nos faz pensar. As informações são tantas que um ser humano não consegue compreender. Precisamos dos computadores para nos ajudar.

Aonde o senhor quer chegar com suas pesquisas? Qual o seu sonho dourado?Compreender para corrigir doenças como o Parkinson, por exemplo. Quero compreender de um jeito que eu possa explicar para todo mundo. Sabemos quase nada sobre o cérebro. Hoje, quase tudo que pensamos compreender está errado. Há muito, muito mais para descobrir.

Qual o principal erro?Usamos técnicas de análises de sistemas simples para análises de sistemas muito complexos. 

Diante da complexidades, os computadores serão melhores do que os cérebros?Em muitas áreas, já são. E serão mais. Teremos carros sem motoristas e os melhores filmes e poemas serão criados por programas de computador. Serão personalizados, feitos de acordo com as preferências de cada um. Deixaremos de fazer muitas coisas que fazemos hoje porque as máquinas farão melhor.

 "Os humanos hackeiam uns aos outros o tempo todo. 
Imitam e melhoram. O computador 
faz o mesmo, mas melhor."

O cérebro humano ficará obsoleto?De certa forma, sim. A neurociência produzirá muitas questões éticas e filosóficas. Teremos que lidar com elas. Eu não tenho muitas respostas. Tenho muitas perguntas. Mas sei que os computadores fazem o que mandamos eles fazer.

E se nós mandarmos eles decidirem por nós?Eles usam o que nós criamos. Os humanos hackeiam uns aos outros o tempo todo. Imitam e melhoram. O computador faz o mesmo, mas melhor.

Há uma dimensão moral na tomada de decisões, relacionada não apenas à cultura e à experiência individual de vida, mas também aos nossos genes, de acordo com muitos estudiosos. Se isso é verdade, há limitações para as decisões de computadores em áreas mais subjetivas?Os computadores não têm como saber, de forma alguma, o que eles devem otimizar. Em outras palavras, eles não têm capacidade de resolver problemas normativos de uma forma significativa. É melhor que todos estejam bem financeiramente ou que algumas pessoas sejam muito ricas? É melhor viver bem na "matrix" ou batalhar do lado de fora?

Computadores não podem resolver esse tipo de questão. Eles só podem diferenciar um objetivo do outro. O nosso genoma contém aquilo que otimizamos. Curiosidade, inveja e busca pela felicidade são alguns exemplos. Não tem como um computador adquirir essas características a não ser que a gente programe. Então, em última análise, os computadores, diferentemente de nós, têm dificuldade de resolver problemas que exijam padrões de avaliação subjetivos.
E nós, humanos, faremos o que enquanto os computadores escrevem poesias e dirigem nossos carros?Tenho certeza de que encontraremos alguma coisa com que nos ocupar. Isso não é novo. No passado, por exemplo, garrafas eram feitas por humanos. Eles sopravam o vidro, moldavam. Hoje, as máquinas fazem isso sem qualquer intervenção nossa. É o mesmo processo, numa dimensão diferente. Quem sabe moveremos nossas consciências para espaços simulados, ou estaremos em algum outro lugar do espaço.

Quanto falta para termos cérebros artificiais?Já temos. O Google é um exemplo. É só o começo.

 "Vejo a religião como uma grande cadeia formada 
por pequenos elementos. Torna nossas fraquezas 
menos doloridas e nossas conquistas maiores, porque 
são para o coletivo. Dá para encontrar isso em 
outros lugares, mas eu encontrei 
na religião."

O senhor vê o futuro com otimismo?Sim. Há muitas formas de pegar o destino em nossas mãos. Podemos ser melhores. Há perigos, mas podemos melhorar. Coisas ruins vão acontecer, mas teremos ferramentas para nos defender.

Qual foi a sua maior descoberta, aquele momento em que ficou sem ar?Sinto isso quase todos os dias. Mas meu momento de perder o fôlego foi quando me dei conta de que o cérebro, no nível não consciente, é muito bom em estatística. O movimento humano é a prova. Quando você estica a mão para pegar um objeto, está fazendo contas sofisticadas numa velocidade gigante, usando probabilidades e, quase sempre, acertando. Isso é muito bonito.

Há quem diga que a beleza é divina. Existe necessariamente uma oposição entre ciência e religião?De jeito nenhum. Eu sou religioso. Para mim, a religião é o antídoto do ceticismo. Conceitualmente, é impossível provar que Deus existe, mas também é impossível provar que não existe. Se houvesse uma prova, não haveria mais crença. Seria um fato científico.

Vejo a religião como uma grande cadeia formada por pequenos elementos. Torna nossas fraquezas menos doloridas e nossas conquistas maiores, porque são para o coletivo. Dá para encontrar isso em outros lugares, mas eu encontrei na religião.
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Reportagem Por: Tulio Milman 25/08/2017
Foto: Tulio Milman / Agência RBS   
Fonte:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/tulio-milman/noticia/2017/08/quase-tudo-que-sabemos-sobre-o-cerebro-humano-esta-errado-ressalta-neurocientista-alemao-9878737.html

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

O DESAFIO DE LUTAR CONTRA A BARBÁRIE ATUAL

Fernando Abrucio*
 Daniel Caballero

Vinte anos após o fim da Segunda Guerra, o filósofo alemão Theodor Adorno fez uma palestra que se tornou célebre. Intitulada "Educação após Auschwitz", aquela fala buscava entender o fenômeno terrível do genocídio nazista e propor medidas para tentar evitar a repetição de algo similar. Entre as soluções apresentadas, estava a da criação de um modelo educacional que ultrapassasse à própria escola e fosse voltado à construção da autonomia do indivíduo contra formas opressoras de homogeneização, bem como ao respeito da diversidade. Essas ideias são, infelizmente, cada vez mais atuais ante a manifestação concreta de diversas formas de barbárie no momento atual.

As lições trazidas pelo totalitarismo do século XX estão sendo esquecidas em várias partes do mundo. A expansão do jogo democrático nas últimas décadas gerou a (errônea) impressão de que, enfim, uma civilização mais liberal e pluralista tinha vencido a batalha.

Foi a ilusão contida no célebre artigo de Francis Fukuyama no fim da Guerra Fria. O paradoxal é que houve, desde os anos 1990, diversos avanços tecnológicos, econômicos e mesmo sociais que se globalizaram, melhorando a vida de milhões de pessoas, fato que tem convivido com uma regressão cultural com múltiplas faces.

Não faltam exemplos nas últimas semanas das barbáries do século XXI. O episódio de ódio racial em Charlottesville, nos Estados Unidos, comandado pelos chamados supremacistas brancos, nos fez lembrar o quanto a história pode retornar aos seus piores momentos. Supremacismo branco é um termo que traduz com perfeição a ideia contida no "Minha Luta", de Adolf Hitler: existe uma raça superior e ela deve se sobrepor às demais, custe o que custar. Por isso, nem precisa procurar suásticas pois a filosofia de extrema direita dos supremacistas é intrinsecamente nazista.

O ato de terrorismo em Barcelona, tal qual o 11 de Setembro, foi uma forma de crime contra a humanidade. Pessoas de diversas nacionalidades foram mortas, muitas de países cuja relação com a o conflito no Oriente Médio é próxima de zero. O Estado Islâmico, assim como a Al-Qaeda, é inimigo de tudo aquilo que não pensa como ele. Não se imagina que qualquer atentado na Europa será capaz de gerar o Grande Califado, para lembrar o pretenso objetivo último dos terroristas.

No fundo, o que está em jogo não é território, mas a luta contra o modo de vida ocidental, que, embora não seja superior aos demais, merece o respeito e o direito à expressão como as outras formas civilizacionais.

O Brasil não está livre dessa proliferação de barbáries. Duas notícias da semana que passou revelam bem isso. A primeira realçou o tamanho do feminicídio em São Paulo, o Estado mais desenvolvido do país: no primeiro semestre de 2017, um terço dos 272 homicídios contra mulheres foram praticados pelos namorados ou maridos. E ainda há muita gente nas redes sociais considerando que a defesa do direito das mulheres é algo que tem sido feito de forma exagerada. Em que lugar vivem essas vozes da internet? Tais pessoas admitiriam tal violência contra sua mãe, filha ou mulher que amam?

A outra notícia junta um punhado de preconceitos que têm se expandido nessa era de radicalismos. Em Santa Catarina, uma professora foi espancada por um aluno, de 15 anos de idade. A imagem de seu rosto ensanguentado é aviltante. Mas a surpresa maior veio depois: muitos comentários na internet a culpavam pelo ato, em razão de suas opiniões políticas. Um dos comentadores disse uma frase lapidar dos tempos atuais: "Se a senhora e vários outros professores se preocupassem em ensinar ao invés de imbecilizar os alunos, cenas como essa não existiriam nas escolas. Você é culpada por incentivar o desrespeito, a falta de educação, o vitimismo e o coitadismo".

O que é o vitimismo e o coitadismo? São duas expressões contemporâneas advogadas por aqueles cuja concepção de mundo não admite retomar o debate sobre injustiças e barbáries, pretéritas ou mesmo contemporâneas. Alguém que falar do efeito da escravidão sobre o racismo atual estará alimentando o vitimismo - afinal, já faz tanto tempo a abolição, e isso já não nos diz mais respeito, modernos que somos.

Apontar o dedo para as barreiras que existem para a ascensão social é puro coitadismo, porque basta o esforço pessoal que todos vencerão. Essa posição de uma nova direita que cresce na internet seria condizente com a dos historiadores revisionistas antissemitas, para os quais o Holocausto não foi tão cruel quanto se imagina e que não há provas completas sobre os mortos nas câmaras de gás.

Ao comentarista da internet citado acima, cuja resposta à violência é pedir que os professores se limitem a ensinar as matérias, Theodor Adorno já sabia como responder, criticando o pretenso modelo objetivo de pedagogia: "Qualquer debate acerca de metas educacionais carece de significado e importância frente a essa meta: que Auschwitz não se repita”.

Adorno tinha razão: para evitar que surjam novos horrores como o de Auschwitz, é preciso combater os valores que geram a barbárie. Um deles é o preconceito frente ao diferente, que se transforma em ódio - é preciso eliminar quem não é como a gente, pregam os fascistóides de várias épocas. A incapacidade de lidar com a diversidade de opiniões e culturas torna tais pessoas e grupos incompatíveis com a democracia.

Quando a liberdade de expressão se assenta na possibilidade de propagar a superioridade de alguns, que devem vencer a qualquer custo (incluindo a violência ou morte de seus 'inimigos'), aumenta o risco da perversão da lógica democrática. Esse argumento vale para os extremismos à direita ou à esquerda..

Outro ponto realçado por Adorno como perigoso é o poder que o coletivo pode exercer sobre os indivíduos, especialmente sobre os mais jovens. Nada mais atual do que esse comentário do filósofo alemão, passados mais de 70 anos de sua palestra. Quando observamos a juventude que apoiou a candidatura de Donald Trump, por exemplo, fica muito claro o sentido de manada: todos os participantes do grupo devem se comportar como uma seita cujo objetivo é eliminar o que pensa diferente.

Dessa maneira, é preciso encontrar bodes expiatórios, causadores dos males sociais. Se no nazismo foram principalmente os judeus, na América trumpiniana são os imigrantes, os negros, os homossexuais e todos que possam atrapalhar o sonho idílico de um país puro.
Variantes desse fenômeno se espalham pelo mundo afora, incluindo o Brasil, onde jovens se escondem na internet para defender ideias que os aproximam do totalitarismo, sem que eles saibam disso. A raiva daqueles que não se sentem, de algum modo, incluídos no mundo de hoje, a vontade de expressar um ideário perfeito e homogêneo - a perigosa ilusão totalitária das utopias, diria o grande pensador liberal Isaiah Berlin - e a própria crença no poder da tecnologia como mecanismo que produz transformações completas são alguns dos combustíveis dos radicalismos intolerantes que prosperam cada vez mais.

Como enfrentar as múltiplas faces da barbárie produzidas nesse início de século XXI? Novamente recorrendo a Adorno, um primeiro passo é, desde a primeira infância, ensinar valores de convivência coletiva e responsabilização individual condizentes com uma civilização tolerante e justa. É interessante notar como tal proposta se alinha ao conhecimento científico atual. As pesquisas empíricas têm revelado não só que o ensino na tenra idade tem enorme efeito sobre o desenvolvimento educacional dos indivíduos como também é necessário preparar todos, desde cedo, para a construção de competências socioemocionais fundamentais para criar pessoas e sociedades melhores.

O ensinamento de comportamentos e valores relacionados à empatia, ao trabalho em equipe, à resiliência, à visão crítica em relação a qualquer ideia totalizante de mundo, entre os principais aspectos das competências socioemocionais, são peças-chave do discurso pedagógico elaborado na última década. Se isso for efetivamente implementado, talvez tenhamos menos radicalismos e intolerâncias nas próximas gerações. Também será preciso desmitificar o poder demiurgo da tecnologia, mostrando que o cara a cara das relações humanas continua sendo a melhor maneira de aprender a como respeitar os outros nos processos de comunicação.

Mas Adorno alertou que a educação contra comportamentos totalitários deveria ir além das escolas. Esse talvez seja o maior desafio: fazer com que as várias organizações da sociedade, do trabalho à igreja, passando pelos meios de comunicação, sejam capazes de construir relações humanas baseadas no respeito mútuo. Boa parte da nossa sociedade não foi educada, ao longo das últimas décadas, para esse tipo de convivência. No fundo, as barbáries do século passado, como o nazismo e o stalinismo, ficaram mais nos livros de história do que no DNA dos valores da sociedade contemporânea. Porém, nunca é tarde para mudar. Por isso, leitor, comece essa nova trilha conversando com quem você não concorda, sem que isso vire um jogo de ódios. Se todos derem esse pequeno passo, Auschwitz ficará mais longe de nossas vidas - e das de nossos filhos e netos.
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* Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e coordenador do curso de administração pública da FGV-SP.
E-mail: fabrucio@gmail.com

A REPÚBLICA MINIMALISTA


José de Souza Martins
 Carvall

O chocho debate sobre a reforma política é dominado por políticos que advogam pela forma oligárquica da reforma. Os que notoriamente não a querem senão para assegurar-se a permanência no poder. É mais um debate em favor da oculta monarquia de régulos de província que domina até hoje o poder político do país, tenha a forma que tiver. Se for de direita, estão lá. Se for de esquerda, estão lá também.

A coisa vem dos primeiros tempos do Brasil, e persiste. O Brasil independente não teve como se livrar dessa herança. O Brasil republicano, tampouco. A Revolução de Outubro de 1930, menos ainda. A ditadura de 1964 instrumentalizou-a. A redemocratização de 1985 só foi possível compondo-se com ela. O PT só chegou ao poder beijando-lhe a mão esquerda. O governo atual tem que beijar-lhe a mão que sobrou, a direita.

Nestor Duarte, jurista, publicou em 1939 "A Ordem Privada e a Organização Nacional", em que expõe a fragilidade do Estado em face do patriarcalismo e dos interesses privados que representa. Victor Nunes Leal, que foi jurista e ministro do Supremo Tribunal, cassado pelo regime militar, escreveu um livro esclarecedor - "Coronelismo, Enxada e Voto" (1948) - sobre as raízes profundas de nossas dificuldades para construir uma ordem política que nos una como povo em torno de um projeto de nação. Contra ele conspira o localismo municipal. Ramos diversos da mesma árvore do controle do que é público pelo privado.

Seja no presidencialismo de coalizão, seja no presidencialismo de cooptação, o que temos é a ordem política nacional subjugada pelo minimalismo municipal e regional. A ordem política brasileira é governada por um sistema de troca de favores entre os Estados, a União e os municípios, entre as grandes famílias e o Estado, um sistema de compra e venda de poder.

O Brasil nasceu como colônia de uma metrópole que não tinha meios para bancá-la. Dependeu, durante todo o período colonial, da ordem privada, de um sistema de poder controlado pelas grandes famílias, baseado numa economia predatória mediante tributos ao monarca que legitimava simbolicamente o saque. O poder privado construía a Colônia para o rei, que em troca legitimava o saque e aquilo que chamamos hoje de corrupção. Era uma recompensa do governo aos poderosos. No Brasil, de fato, tirando os disfarces, a corrupção nunca foi ilegal. Apesar de numerosíssimos honrados brasileiros, o país não existiria sem ela e do sistema de poder que lhe corresponde.

Os grupos e partidos verdadeiramente democráticos têm que conciliar com o oligarquismo. As desavenças conceituais destes dias no interior do PSDB são indicativas de quanto até ele teve que conciliar com o poder do atraso que é o núcleo desse sistema.

O aspecto mais problemático do minimalismo político brasileiro é que até os grupos, movimentos e organizações ditos de esquerda, se tornaram seus instrumentos. Os governos petistas sucumbiram ao fisiologismo próprio desse pacto de reciprocidade entre o Estado e o poder privado. Fizeram o mesmo que os outros fizeram. A corrupção de que o PT é acusado é indicador da fragilidade do partido popular e dos movimentos sociais em face da força do sistema. A coisa se repete. É com base em sua função fragmentadora que o partido e Lula querem voltar ao poder. Ao insistir em dividir o país em nome da ficção pseudossocialista de classe social, o partido prefere compor com alguns e impor a todos, hegemonia em vez de democracia.

O general Golbery do Couto e Silva, ideólogo do regime militar, em conferência da Escola Superior de Guerra para justificar a abertura política, chamava a atenção dos oficiais para o fato de que o bipartidarismo e o torniquete no sistema político abrira a porta para que a política fosse ocupada pela igreja. A política escapava de seu leito natural. Era preciso reverter o processo. Mas a reversão acabou capturada pelo sistema oligárquico subjacente à política brasileira.

Nestes dias, até os evangélicos estão eufóricos com a possibilidade de ampliar sua representação política com a eventual aprovação do Distritão. O fragmentário do consórcio de religiões isoladamente restritas e insuficientes para a pretensão da hegemonia política que pretendem ganhará mais força opondo à unidade do país a força da religiosidade fragmentária. Em vez de os religiosos aceitarem como limite e condição de suas ambições a precedência da unidade da nação, eles já nos governam mediante, justamente, cooptação. A praça pública está mais vazia do que deveria estar e os partidos políticos preferem a bajulação confortável dos púlpitos. Apenas uma nova versão da política de cabresto. Longe da grande tradição republicana do protestantismo. Até eles!
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* José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de Uma Sociologia da Vida Cotidiana (Contexto).

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Leonardo Padura, escritor cubano, vem ao Brasil e fala sobre novo livro

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"É algo quase mágico", afirma o romancista 
cubano Leonardo Padura. 

O mais celebrado nome da literatura contemporânea da ilha do Caribe se anima ao comentar a sua ligação com os leitores do Brasil. 

"Quando estou no Rio e faço minhas caminhadas pela orla de Copacabana, há pessoas que me param e perguntam: 'Você é o Padura, o homem que amava os cachorros?'", lembra, aos risos. Ele fala à Folha por telefone de sua casa no bairro de Mantilla, em Havana, onde vive desde que nasceu, há 61 anos. 

Traduzido para dez idiomas, o romance histórico "O Homem que Amava os Cachorros" já vendeu cerca de 75 mil exemplares no Brasil, uma proeza para o mercado editorial do país. 

A trajetória de Padura na literatura já alcança três décadas, mas no Brasil só ganhou visibilidade mesmo há pouco mais de três anos, com o lançamento desse livro, que colecionou prêmios na Europa e na América Latina. 

Como escreve Frei Betto na introdução da edição brasileira, "é e não é uma ficção". Em "O Homem que Amava os Cachorros", Padura revive o exílio de Leon Trótski no México e a trajetória do espanhol Ramón Mercader, que matou o líder soviético em 1940. 

Nesta semana, os leitores de Copacabana poderão rever o autor cubano. Ele participa no Rio de eventos na Biblioteca Nacional (dia 25) e livraria da Travessa (26). 

A maratona brasileira não se restringe à cidade dos romances "noir" de Rubem Fonseca, por quem Padura guarda enorme admiração. 

Antes do Rio, o cubano realiza conferências na série Fronteiras do Pensamento -a primeira em Porto Alegre hoje, 21, e a segunda em São Paulo na quarta, 23. Ainda na capital paulista, ele fala com o público no Masp no dia 24. 

O que explica o sucesso entre os leitores brasileiros?
Padura enumera hipóteses. Diz que a atuação das editoras no país tem sido determinante. Ele chegou ao mercado brasileiro por meio da Companhia das Letras e hoje seus livros são editados pela Boitempo, "editora pequena que dedicou todos os esforços para promover essa novela ['O Homem que Amava os Cachorros']. 

O ex-jornalista acrescenta a visibilidade conquistada como colunista da Folha, função exercida por três anos. 

Por fim, e principalmente, o livro sobre Trótski e Mercader encontrou no Brasil "um público que estava esperando uma novela como essa". 

Em que pese essa última explicação, um tanto genérica, diga-se, ele não demonstra receio de que seu nome fique associado a uma obra só. 

Lançado em 2015 no Brasil, seu livro "Hereges" já vendeu por aqui em torno de 26 mil exemplares. Também está em catálogo no país a série "Estações de Havana", composta pelos romances policiais "Máscaras", "Ventos de Quaresma", "Passado Perfeito" e "Paisagem de Outono", os quatro com o investigador Mario Conde como o personagem principal. 

Pelo conjunto da obra, aliás, o cubano recebeu em 2015 o prêmio espanhol Princesa das Astúrias de Literatura, um dos mais prestigiosos do continente europeu. 

PRÓXIMOS LIVROS
 
Padura conversou com a reportagem no final da tarde do último dia 10 de agosto. Horas antes, pela manhã, o escritor havia entregue à sua editora, a espanhola Tusquets, a sua nova novela, batizada por ele como "La Transparencia del Tiempo". 

No livro, Mario Conde investiga o roubo de uma estatueta do século 13 em uma trama que permite a Padura explorar um tema que lhe é caro, a relação entre o homem e a história. 

O romance sai em Cuba e na Espanha no ano que vem e deve ganhar versão em língua portuguesa em 2019. 

Influenciado por expoentes da literatura policial, como o espanhol Manuel Vázquez Montalbán, Padura tem dedicado parte expressiva da sua obra ao gênero. Mas também são frequentes suas visitas a outros territórios. 

É o caso de "Novela de mi Vida", de 2002, que intercala uma história ficcional e uma investigação biográfica para recordar a obra de José María Heredia (1804-1839), um dos mais importantes autores do romantismo em Cuba. 

Esse livro será lançado no Brasil em 2018. 

"Não sou o escritor mais talentoso da minha geração, mas seguramente o que mais trabalha", diz Padura. "Tenho viajado muito, mas, quando estou em Cuba, trabalho todos os dias, inclusive nos finais de semana." 

Nada mal para quem, na juventude, não imaginava se tornar um escritor. O que Padura queria mesmo era ser jogador de beisebol, o esporte mais popular de Cuba. 

TRUMP E OBAMA
 
Em junho deste ano, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou revisão do acordo de reaproximação entre Washington e Havana, fechado por seu antecessor, Barack Obama, em 2014.
Trump proibiu algumas transações comerciais e impôs restrições para viagens de americanos a Cuba.
O Homem que Amava os Cachorros
Leonardo Padura
l
"Vivemos um sonho com Obama, mas voltamos à realidade anterior", diz o cubano Leonardo Padura.
"Com Trump, tudo é imprevisível, o que nos leva a pensar o pior [sobre o futuro da relação entre os dois países]", afirma o autor.

Padura, que se considera um "homem de esquerda", não costuma fazer críticas contundentes ao governo do ditador Raúl Castro. Tampouco pretende abandonar Cuba, como fizeram muitos escritores do seu país.

Por outro lado, ele tem enfatizado a necessidade de mudanças econômicas na ilha e diz sonhar com um país que seja o mais democrático possível.
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Reportagem por  NAIEF HADDAD DE SÃO PAULO 21/08/2017 
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/08/1911516-escritor-cubano-leonardo-padura-vem-ao-brasil-e-fala-sobre-novo-livro.shtml
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PETER BURKE – Exageros da pós-verdade


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“Pós-verdade” foi o tema escolhido pelo historiador inglês Peter Burke, professor emérito da Universidade de Cambridge, para a conferencia de abertura do 11º Encontro Nacional de Pesquisadores em História da Mídia, ocorrido em junho, em São Paulo. Sem apelar ao catastrofismo, porém, Burke apresentou uma desconstrução do termo, associado a um conceito bem conhecido da humanidade: a mentira.
(...)
 A seguir, trechos da entrevista concedida por e-mail após o evento.

A reportagem é de Dalton Júnior.

Correio do Povo – Muito tem se falado sobre a era da pós-verdade e o seu impacto. Qual a sua opinião?
Peter Burke – Devo admitir que vejo essa conversa sobre “pós-verdade” como um grande exagero, do tipo que acadêmicos atribuem a jornalistas na busca por uma manchete impactante ou o título de um livro. Como no caso do jornalista britânico Matthew d’Ancona, um homem inteligente, mas um tanto empolgado pelo seu argumento, embora ele insira qualificações no seu livro que minam o seu argumento principal. Minha visão é de que a propaganda, torcendo – ou, como nós dizemos agora, “girando” – a  verdade tem uma longa história, e mentiras ( incluindo mentiras oficiais) ainda mais longevas.

CP – Qual a relação entre as fake news e o Brexit?
Peter Burke – Mentiras certamente foram contadas, especialmente pelos que desejavam a saída ( da União Europeia), nos meses anteriores ao referendo, mas agora o público está melhor informado sobre as prováveis consequências do Brexit, especialmente na economia.

CP – E como serão estas consequências?
Peter Burke – Em uma palavra: ruim! O Reino Unido está atirando no pé.

CP – Na sua opinião, por que as pessoas acreditam nas fake news?
Peter Burke – Algumas pessoas não são críticas. Todos precisamos sermos treinados para sermos críticos da informação que ouvimos, lemos, vemos, etc. Todos somos acríticos muitas vezes, ouvindo o que queremos ouvir e acreditando no que queremos acreditar.

CP – O século XIX é chamado de o século dos nacionalismos. Você concorda que as redes sociais ajudam a trazer esse fenômeno de volta?
Peter Burke – O século XIX foi a primeira era dos nacionalismos, mas não vejo muitas evidências do seu declínio após 1900, apesar da Liga das Nações, das Nações Unidas, etc. No máximo, as redes sociais reforçam mensagens que chegam de outras fontes. E talvez as nações estejam ficando menores ( Catalunha/Espanha, Croácia/ Iugoslávia, por exemplo).

CP – Em alguns dos seus livros, você escreve sobre o poder da imagem. Você acha que as redes sociais ajudam a banaliza-la?
Peter Burke – Sobre as imagens, eu não analisaria as redes sociais de forma separada. Em cada século, desde o XV, graças à imprensa, posteriormente a fotografia, o cinema, a televisão, e então a era digital, as pessoas têm sido expostas a uma inundação de imagens. Isso provavelmente aborrece as respostas. Quanto à banalização, depende do contexto. Os jornais podem fazê-la, tanto quanto o Facebook.

CP – Você tem fortes relações com o Brasil (Burke já foi professor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo – IEA/USP). Como vê o nosso atual momento político?
Peter Burke – Visito o Brasil todos os anos e também leio sobre o país, mas tudo o que tenho visto sobre o atual momento político é que ele se assemelha ao roteiro de uma telenovela, embora mesmo o mais engenhoso roteirista talvez nunca tenha imaginado nada tão melodramático quanto a situação atual.
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Fonte: Correio do Povo Impresso – CS – Caderno de Sábado, 19 de agosto de 2017, p. 1.
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HUMANISMO E FELICIDADE

 Francisco Marshall*
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 "Eis a questão: É possível que o estado ofereça solução 
para a felicidade coletiva?"

Ao filho Nicômaco, ao pupilo Eutidemo e a todos nós, Aristóteles ensinou que a finalidade do conhecimento é produzir a felicidade (eudaimonia), resultado de escolhas corretas, que permitam o triunfo da ética sobre o erro. Para isso, o filósofo analisou todos os fenômenos que alcançou, inclusive as constituições de cidades; leu 158 destas, para escrever a Política. Aristóteles estava escaldado pelos erros de seu antecessor, e mestre contestado, Platão, que diante da crise da pólis (Atenas) propôs como remédio um regime autocrático, comandado por rei-filósofo. Embora o estagirita (i.e., nativo de Estágira) não tenha abandonado a esfera pública, deu início a um novo ciclo da filosofia grega, que teve seu apogeu com os filósofos éticos: Epicuro e a busca do prazer pelo convívio amistoso (philía), Zenão e a ética estoica (que formou a parte virtuosa do cristianismo), Diógenes e o caminho cínico (viver como um cão, kinos, à margem do Estado). Desde então, o humanismo não cessa de se perguntar sobre os caminhos para a felicidade, em seus dois cenários: individual e coletivo. 

Em era de angústias, cresce a tentação pela busca da felicidade individual, inspirada pela última frase do Cândido (1759), de Voltaire, emitida depois de o protagonista viver mil agruras: "Tudo isto está muito bem dito, mas devemos cultivar nosso jardim". Os contemporâneos de Voltaire preferiram outra via, e foram cuidar de um parque público então utilizado como patrimônio privado, o Estado; para a dinastia que dizia que L?état c?est moi e para a humanidade, declararam que o Estado é de todos, e logo ornamentaram didaticamente as ruas de Paris com os cadáveres (alô, Brasília) dos defensores da velha ordem. A Revolução Francesa deu fôlego ao encontro entre utopia humanista e história, perseguido desde o século XIX. Eis a questão: é possível que o Estado ofereça solução para a felicidade coletiva? 

Os libertarianos (ou isentários), mutantes atuais, herdeiros (indignos) do liberalismo clássico, creem que não é viável felicidade coletiva, e demonizam esta palavra, tomada como sinônimo de comunismo, Stalin, infantofagia e outros fetiches reacionários. Essa ideologia oportunista finge não saber que é incontornável a dimensão coletiva da existência humana, desde o paleolítico e, nos últimos 5 mil anos, no âmbito do Estado. Esses pseudo-ingênuos dizem crer em força sobrenatural (mão invisível ou livre mercado) capaz de assegurar o bem, mas sabem que isto é um mito oportuno, que esconde a verdadeira face de uma mobilização egoísta, predatória e de interesse corporativo. Eis porque esta ideologia covarde tantos males produz: não considera o desafio de se superar o que impede a felicidade do maior número de cidadãos, de se combater a iniquidade, de se equalizar as relações sociais visando-se bem maior, a harmonia, capaz de satisfazer a todos: aos carentes, com qualidade de vida, aos abastados, com segurança, e a toda a sociedade, com o florescimento das melhores possibilidades humanas. Cuidemos do jardim e dos parques públicos.
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* Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS 
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=7b6982e584636e6a1cda934f1410299c
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Silêncio, um aliado da DEPRESSÃO

Zelig Libermann* 
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Quase 6% dos brasileiros sofrem de depressão. 
O luto é um destacado elemento 
emocional da doença.

Em relatório publicado em fevereiro de 2017, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que o número de casos de depressão aumentou 18% entre 2005 e 2015: são 322 milhões de pessoas em todo o mundo, a maioria mulheres, sendo 11,5 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente a 5,8% da população.

Considerada uma doença complexa, a depressão envolve aspectos genéticos, ambientais e psicológicos. Em relação aos psicológicos, Freud contribuiu enormemente para a compreensão dos conflitos emocionais envolvidos na depressão ao publicar, em 1917, o trabalho Luto e Melancolia, no qual aborda as diferenças entre os processos normais de luto e os quadros de depressão (na época denominada melancolia).

Neste ano que marca o centenário da publicação desse importante artigo de Freud, a Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA) receberá a visita de Jean-Claude Rolland, psicanalista francês que tem estudado os mistérios da dor melancólica não somente a partir do trabalho clínico, mas também na literatura, em colaboração com professores de literatura e filósofos.

Em O Desenlutamento, conferência cujo título é um neologismo criado por ele partindo do poema Le Dormeur du Val, de Arthur Rimbaud, Rolland considera que os sonhos, o tratamento psicanalítico e a criação artística nos permitem acesso ao plano profundo da cena da alma. "O discurso poético tem o poder de vencer o silêncio e a escuridão instalados pela repressão do desejo e da dor pelo objeto perdido", escreve.

A dor incessante pelas perdas de todos os tipos - que vão desde a morte de pessoas queridas até as frustrações maiores e aquelas do cotidiano, e mesmo os ideais perdidos - é um destacado elemento emocional na depressão, uma vez que essa aderência traz uma grande restrição da subjetividade.

E "vencer o silêncio" é essencial para o enfrentamento da depressão, pois é o silêncio que nos mantém na escuridão. Ultrapassá-lo é uma tentativa de nos desligarmos daquilo que perdemos para buscar novas formas de ligação, novos investimentos na vida.

Mas, nesse ponto, surge uma questão importante. Em que pesem as diferenças psíquicas pessoais, como manter um equilíbrio entre "ganhos e perdas", entre satisfações e frustrações no tempo em que vivemos, com mudanças tão velozes, no qual temos a impressão de que "tudo o que é sólido se desmancha no ar", de que de um momento para o outro os referenciais se alteram? Assistimos, muitas vezes, a um relativismo extremado em que se perdem os limites, as responsabilidades e as funções atribuídas a determinados papéis sociais. E a dificuldade em manter laços afetivos gera uma angústia intensa que pode levar o sujeito a ocupar o espaço vazio com manifestações concretas. A atividade simbólica, essencial à construção do psiquismo, fica substituída por manifestações voltadas ao corpo ou ao ato. O pensamento perde lugar para a ação. É nesse contexto que convivemos com as relações instáveis, a intolerância e também as manifestações de violência.

Ressaltando novamente que é preciso levar em conta as peculiaridades da vida individual, as características e os conflitos interpessoais, bem como os diferentes graus de equilíbrio psíquico, a frequente sensação de instabilidade pode levar a certo estranhamento em relação à realidade e, para muitas pessoas, a uma sensação de impotência, de solidão e a uma nostalgia melancólica.

A questão é como se equilibrar entre a manutenção de referenciais que nos construíram, que nos trouxeram identidade e, ao mesmo tempo, não nos posicionarmos de forma que nos traga uma grande restrição da subjetividade, impossibilitando a convivência com as transformações permanentes das realidades individual e coletiva.

Para Rolland, é preciso romper o silêncio instalado pela dor das perdas. E, à medida que a linguagem caracteriza o ser humano, é nesse espaço que precisamos contar com os sonhos, a psicanálise e a criação artística. É partir da linguagem que o homem cria e transforma seu mundo.
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*  Psiquiatra e psicanalista da Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre (SPPA)
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=00c17237d011cca999f55a43db2ce040 - 19 e 20/08/2017. 
Cad. doc. p.12

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ORAÇÃO FÚNEBRE PARA O BRASIL

 "Os historiadores do futuro haverão de descrever o nosso tempo em páginas cinzentas com letras cinzentas, pois nada de dignificante e glorioso há o que se relatar. Há que se relatar os andrajos morais de um país sem dignidade, uma época de covardias de gentes indisponíveis para a luta."

No último dia dois de agosto de 2017 assistimos, paralisados, a morte moral do Brasil. Pela primeira vez na história, um presidente da República foi flagrado cometendo crimes e os falsos representantes do povo decidiram dar-lhe aval para que ele siga impune no exercício da mas alta magistratura do país sem que a tenha recebido da vontade do povo. Pelo contrário, deixaram-no no cargo contra a vontade da esmagadora maioria do povo. De lá para cá, o país sangra sem dignidade e o pavilhão auriverde tremula com as manchas cinzentas da vergonha.
A morte moral do Brasil não foi acompanhada pelo tinir de batalhas nas ruas e nas praças, por gritos de indignação, e pelo rufar de tambores da guerra. Com exceção de uma escaramuça aqui, outra acolá, o povo assistiu cabisbaixo a morte da dignidade nacional. O que se ouviu foram lamentos de desesperança de uma sociedade fraca que se afunda em sua fraqueza, de um povo desanimado, incapaz de qualquer ato de virilidade combativa.

O que se viu foi um povo cativeiro de sua própria impotência, sequer comparável aos hebreus escravizados no Egito, porque aqui não há um Moisés libertador, capaz de conduzi-lo a uma Terra Prometida qualquer. Os nossos políticos são valentes em seus gabinetes, são combativos em sua vaidade, são espalhafatosos em suas inconsequências e são heróis de sua própria covardia. Não, aqui o povo está cativo em sua própria terra, sem um líder que o convoque para a luta, que possa servir-lhe de exemplo, de inspiração. 

O assassinato moral do Brasil não deixou viúvas vingativas, filhas revoltadas, filhos, parentes e amigos desensarilhando armas para o combate. Silêncio, fastio, recolhimento, desalento e resignação são os entes que acompanham o triste féretro por onde passa o corpo insepulto deste país apunhalado em sua inglória trajetória, extraviada nos tempos.

O povo bestializado que viu nascer a República - no dizer de Aristides Logo - proclamada por um marechal monarquista, sem saber o que estava acontecendo, é o mesmo povo bestializado de hoje que viu Temer ser salvo porque a vida é assim, porque os políticos são assim, porque o Brasil é assim e porque nada importa. Tanto fez, como tanto faz. Resignação e indiferença parecem ser os melhores remédios quando não há ânimo no espírito, quando não há virtudes cívicas, quando não há coragem e disposição para a luta, quando não há líderes autênticos. Resignação e indiferença é a melhor maneira de enfrentar a trágica normalidade, porque nada muda numa realidade pacata, violentamente pacata, que sempre foi assim e sempre será assim. 

Os políticos de Brasília, os operadores do mercado financeiro, os grandes capitalistas, os empresários da Fiesp que nunca pagam o pato, não choram por este  Brasil moralmente decapitado. Não choram pelos 60 mil mortos anuais que acompanham esse corpo de um Brasil saqueado; não choram pelas mães e pelas viúvas de jovens assassinados; não choram pelos milhares de corpos mutilados no trânsito; não choram pelo choro das crianças baleadas no ventre das mães, da meninas abatidas pelas balas perdidas; não choram pelos doentes amontoados nos corredores dos hospitais públicos; não choram pelas crianças que não têm leite, pelo trabalhador que não dorme, pela empregada doméstica humilhada e pelas famílias que não têm  lar. Os políticos choram pelo teu voto, pela propina dos empresários, pelo cargo público para os apadrinhados, pelo enriquecimento privado.

Não há sentido de grandeza nas ações dos nossos políticos, nem honra em servir o bem público, nem ambição de conquistar a glória imorredoura dos grandes feitos construídos pelo espírito heróico do desprendimento sacrificante da doação pessoal pelo país. Os nossos políticos almejam a reputação dos mesquinhos, as pequenas manobras dos espertalhões, as palavras lustrosas dos demagogos, os atos teatrais dos charlatões.

Os historiadores nos descreverão em cinza sobre cinza

Os historiadores do futuro haverão de descrever o nosso tempo em páginas cinzentas com letras cinzentas, pois nada de dignificante e glorioso há o que se relatar. Há que se relatar os andrajos morais de um país sem dignidade, uma época de covardias de gentes indisponíveis para a luta. Há que se relatar uma tenebrosa noite de incertezas, de rostos deprimidos pela desesperança. Há que se relatar um tempo de políticos que engrandeceram os bolsos para empobrecer a pátria, de empresários que compraram políticos para se apoderar dos cofres públicos, de inconfidentes contra a Constituição que deveriam ser seus próprios guardiões. 

Há que se relatar um tempo em que o país foi assaltado por políticos velhacos e quadrilheiros, cuja competição não era para inscrever nas páginas da história as vitórias triunfais na construção de um país grandioso, mas para ver quem se apossava mais do botim do tesouro público, para ver quem era o melhor amigo dos empresários para solicitar-lhe a propina em troca de favores escusos. 

As gerações futuras sentirão vergonha do nosso tempo, sentirão desprezo pela nossa covardia e pela nossa prostração. Serão justas se não sentirem nenhuma magnanimidade compreensiva, pois não a merecemos. Não mereceremos a benevolência do perdão porque estamos legando a elas uma herança trágica, de um país que se arraigou à sua desigualdade, à sua incultura, à sua indignidade e à sua falta de coragem. 

As gerações futuras nos condenarão a nós e a nossos inimigos. A nós porque fracassamos de livrar o Brasil de seu opróbrio; não fomos capazes de enfrentar os inimigos do povo com a astúcia virtuosa do bom combate; nos enredamos nas auto-justificativas pueris dos nossos próprios fracassos; não tivemos princípios de conduta disciplinadores; não nutrimos traços de caráter intransigentes com as injustiças e com as desigualdades; não fomos inconformados com os nossos próprios erros e fracassos; não tivemos a virtù guerreira para proteger e liderar os mais fracos e arrancar dos poderosos os frutos de suas rapinas.

Os nossos inimigos serão condenados pela encarnação histórica do mal que sempre foi feito desde que o Brasil é Brasil. São a continuação dos massacres contra os índios, dos açoites e dos grilhões contra os negros, do sangue derramado dos camponeses nos campos vastos do Brasil, do cansaço, suor e lágrimas dos trabalhadores explorados. São a continuação da violência sexual, moral e laboral contra as mulheres. 

Michel Temer e seu governo são uma síntese de toda essa perversidade criminosa que cobre o Brasil de sangue, de vergonha e de indignidade. Quando as forças terríveis do Hades tragarem Temer para as profundezas dos abissais, não lhes será erguida nenhuma estátua para que fique na memória do país. Essas forças o arrastarão para os campos do esquecimento eterno. E se alguém encontrar a sua sepulura em tempos remotos do futuro haverá de ler: "aqui jaz um corrupto que destruiu o Brasil para salvar o seu mandato ilegítimo".
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* Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).
FONTE:  http://jornalggn.com.br/noticia/a-bestializacao-do-povo-brasileiro-por-aldo-fornazieri Acesso: 21/08/2017