terça-feira, 26 de setembro de 2017

Pierre Rosanvallon: “É preciso voltar a legitimar a ideia de igualdade”


 YOAN VALAT/EPA
Para o historiador francês Pierre Rosanvallon, o grande desafio da democracia no século XXI é confrontar-se com os populismos e a emergência de regimes iliberais.
Teresa de Sousa
26 de Setembro de 2017

Macron ainda está em teste. Os três maiores “partidos” franceses não são partidos. Há um risco para as democracias, com esta personalização da política que regressa ao espírito da V República.
Pierre Rosanvallon vem a Lisboa no próximo dia 30 participar numa conferência sobre a igualdade, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. Uma das suas obras mais recentes tem como título “La Societé des Égaux”. Dedicou muitas outras à crise das democracias, antecipando fenómenos como o de Emmanuel Macron.

Li na altura o seu livro sobre a crise do Estado Providência, publicado creio que em 1982. Foi um dos primeiros a alertar para um problema que ainda não está totalmente resolvido. Olha para trás e que balanço faz?
Não, a crise do Estado Providência ainda não está completamente ultrapassada. Mas hoje coloca-se em novos termos. O Estado Providência correspondia a um sistema de seguro para garantir a solidariedade. Hoje, enfrentamos novas formas de insegurança social. A insegurança social, há trinta anos, estava ligada a um conjunto de riscos - a doença, o desemprego, a velhice. A solidariedade social era garantida através da redução dos riscos, num sistema de mutualização desses riscos. Hoje, vemos claramente que é preciso tratar de outras questões. A segurança social já não é uma soma de riscos estatísticos. É um problema de estrutura do território, onde se verificam desigualdades muito fortes entre as metrópoles, que são economicamente dinâmicas, e as pequenas cidades e as zonas rurais, que estão em plena depressão. É preciso também gerir situações que dizem respeito a categorias sociais inteiras. Por exemplo, a dificuldade dos jovens para aceder ao primeiro emprego. E, finalmente, é preciso responder aos problemas de exclusão. Por isso, podemos dizer que a segurança social se coloca hoje em termos diferentes, que exigem instrumentos diferentes. A Europa viveu uma pretensão de poder construir um modelo social europeu. Mas esse modelo foi concebido em função da antiga geração. Mas em relação aos problemas sociais de hoje esse modelo praticamente não existe em nenhum país. Ainda se anda à procura.

Escreveu recentemente um livro sobre a questão da igualdade nas democracias. O nome é significativo: “La Societé des Egaux”, que tem também a ver com os sistemas de segurança social.
Quis dizer que a questão não é apenas de redistribuição do rendimento, mas da construção de uma coesão social. E isso ainda é preciso fazer nos diferentes países. Quando falamos da Europa social, estamos a falar de uma ideia generosa, mas a realidade europeia diz-nos outra coisa: o orçamento comunitário não mudou desde a assinatura do Tratado de Roma. Manteve-se limitado a cerca de 1%. A União Europeia teve capacidade de redistribuição no que se refere à política regional e à política agrícola comum e também um pouco entre os estudantes, com o programa Erasmus. Mas quanto ao resto, não há um só programa europeu que possamos dizer que tem uma dimensão de construção social.

Porque não há consenso?
Sim. Podemos dizer que, nos anos 60 e 70, houve uma convergência de concepções do Estado Providência na Europa. Agora, temos diante de nós, esta nova concepção da segurança social e há respostas muito diferentes. Alguns países, como a Alemanha e o Reino Unido, fizeram a escolha de diminuir o desemprego através da multiplicação dos empregos mal pagos, os MacJobs, como se diz. Os escandinavos conseguiram encontrar um equilíbrio entre flexibilidade e segurança. Os países da Europa do Sul, pelo menos os dois que conheço melhor, a França e a Itália, ainda estão à procura de uma fórmula. Mas, em todos os casos, vemos que há a necessidade de considerar os problemas sociais como problemas da estrutura social, e não apenas como modo de distribuição dos recursos entre os indivíduos. E o sinal de que não conseguimos ainda redefinir esta nova era da segurança social é a extensão dos populismos. Os partidos populistas progridem de acordo com critérios de abandono e de exclusão.

Quando fala de “sociedade entre iguais”, a ideia é corrigir as profundas desigualdades desenvolvidas nestes últimos 20 ou 30 anos nas sociedades democráticas ocidentais? Ou é preciso reinventar a organização da sociedade?
Os dois elementos coabitam. Um dos primeiros elementos com que nos defrontamos é que não há legitimidade suficiente nas sociedades para aumentar a redistribuição. É bom lembrar que o Estado Providência desenvolveu-se porque havia um acordo sobre a sua legitimidade. Os níveis das contribuições para a segurança social nas sociedades europeias, depois a II Guerra, eram muito elevados. Hoje há menos legitimidade e, por isso, é preciso que as políticas de redistribuição venham a ter mais importância. E isso obriga a que essas contribuições surjam como mais legítimas. É isso que explico no livro que referiu. Se queremos lutar contra as desigualdades, é preciso primeiro revalorizar e relegitimar a ideia de igualdade. Esta deslegitimação da ideia de igualdade resulta da pouca confiança nos impostos e na pouca aceitação das contribuições para a segurança social. Esta é uma dimensão absolutamente fundamental: manter um nível de redistribuição elevado.

O outro elemento de acção passa por coisas que não são apenas para corrigir a redistribuição, mas não levar apenas em conta os indivíduos, mas também os territórios e os grupos sociais. A questão da exclusão não é apenas uma questão de rendimentos de pessoas tomadas individualmente, mas uma questão de separatismo social e de organização do território.

Diz que a ideia de igualdade está presente na génese das democracias.
A democracia é uma comunidade de assembleia na qual todos têm a mesma voz. Há uma igualdade cívica. Não nos podemos esquecer que, na Grécia ou mesmo em Roma, havia uma condenação do luxo como forma de pôr em perigo a cidadania. Houve muitas leis “sumptuárias” que serviam para dizer que uma sociedade não podia funcionar quando há uma distância tão grande entre os modos de vida dos indivíduos.

 PÚBLICO -
 Pierre Rosanvallon 

Mas essa distância é o que vemos agora, por exemplo, nas renumerações dos CEO e noutras formas de desigualdades profundas. A esquerda é responsável pela derrota da batalha pela igualdade, que abandonou?
Sim, a esquerda pensou a igualdade como uma redistribuição entre os indivíduos mas não entendeu que, ao permitir o desenvolvimento das desigualdades, abriu as portas a uma rarefacção da ideia de igualdade. Não é só o salário dos CEO, alguns desportistas ainda ganham mais. E isto aparece como legítimo nas nossas sociedades.

Tem escrito também sobre a crise das democracias ocidentais. Hoje essa crise é patente em quase toda a parte. Não há respostas às grandes questões sociais e há um fosso entre os eleitos e os eleitores, que abre o caminho ao populismo e à xenofobia. Macron foi a resposta do seu país a esta realidade. É este o caminho?
O que eu penso é que a sociedade francesa deu-se conta de que a democracia clássica deixara de funcionar, enquanto avançava por caminhos que poderiam ser perigosos. A visão de um líder populista como modo de exercício normal da vida política está muito presente. As três principais forças do país, os Insubmissos, a Republica em Marcha e a Frente Nacional não são partidos clássicos. Um partido clássico é um sistema que representa uma base e que representa ideias. Um partido político funciona normalmente de baixo para cima, da sociedade para o político. Hoje, as formas de liderança são o contrário. Vêm de cima para baixo: uma personalidade que propõe à sociedade que se identifique com ela. É um mecanismo de identificação de cima para baixo. É essa a razão pela qual estes três movimentos não são partidos. Não há um congresso da REM que parta dos filiados. Não há um congresso da França Insubmissa. Não há um congresso da Frente Nacional. Historicamente, todos os partidos de esquerda e mesmo os de direita eram organizados a partir de congressos que nomeavam os líderes e definiam os programas. Este mecanismo político foi completamente invertido, o que acabará por levantar imensas questões.

Macron disse que não era nem de esquerda nem de direita, substituindo esta velha dicotomia por abertura ou fechamento. É totalmente novo, num país que inventou o conceito de direita e esquerda.
Isso também quer dizer que já não é a ideologia que funciona como base, mas a acção de uma pessoa.

É a total personalização do poder? Escreveu que Macron era uma espécie de reencarnação da V República, tal como De Gaulle a fundou. Como assim?
A V República foi concebida por de Gaulle contra os partidos políticos. De um certo ponto de vista, o que vimos hoje é o triunfo póstumo da V República. Não é uma mudança mas a completude da V República. A saber, uma democracia sem partidos.

Mas há uma diferença enorme entre Macron e os extremos. Macron, por exemplo, significa uma esperança para a Europa. Ajudou a conter o populismo. 
Sim. Sim. É uma abertura, mas que está ainda a fazer-se. Não é fácil falar dela, porque é o início de um processo. Ainda precisamos de alguns meses para distinguir melhor as linhas de orientação da sua acção.

Mas as expectativas são grandes. Disse recentemente que este mandato de cinco anos de Macron era o teste para uma refundação democrática.
Precisamos disso. A derrota de Macron quereria também dizer o risco da chegada ao poder dos extremos.

Macron diz-se social e liberal. É síntese que não é nova.
Por enquanto, a dimensão liberal é mais forte do que a dimensão social. Por isso, digo que é preciso esperar um pouco para ver se as duas dimensões se podem equilibrar.

Macron já está a enfrentar bastantes dificuldades. Isso quer dizer o quê? Que se mantém a distância entre o que as pessoas querem e aquilo que os governos podem fazer no quadro da globalização?
Esse é o problema geral das democracias, hoje em dia. São democracias saturadas de reivindicações e de exigências, enquanto os meios materiais de resposta não existem.

O combate contra o populismo ou a xenofobia está longe de estar ganho?
Sabemos que vai ser um combate muito difícil. Podemos dizer que, no século XX, o grande problema da democracia foi ver-se confrontada com os diferentes totalitarismos. No século XXI, o grande desafio da democracia é confrontar-se com os populismos. Portanto, é preciso analisar bem o populismo e compreender as razões do seu sucesso, para ser possível contrariá-lo e tentar reduzir a sua audiência nas nossas sociedades.

A União Europeia ainda é a boa resposta a todos estes problemas?
A Europa, tal como existe hoje, é a resposta para a constituição de um espaço de direito e para a constituição de um mercado. Mas a Europa não é a resposta para a constituição de um espaço de renovação politica. Hoje, até já podemos dizer que ela é confrontada no seu próprio seio com a emergência de regimes iliberais. A Polónia e a Hungria são democracias iliberais. E isso é um choque com o qual a Europa nunca pensou que poderia vir a ser confrontada. Paradoxalmente, são os países de Leste, que viveram o totalitarismo, que alimentam melhor o populismo.

Há alguma explicação?
Talvez porque esses países viveram uma desarticulação interna no período da saída do comunismo. Quando olhamos para a parte oriental da Alemanha, que foi fortemente ajudada pela República Federal, vemos que há ainda um conjunto de regiões relativamente desfavorecidas, sendo aí que os partidos populistas são mais fortes.

Como é que olha para este novo combate contra as desigualdades, quando o credo generalizado é que elas são incontornáveis quando a globalização obriga a uma maior concorrência para resolver os problemas de crescimento?
Não é apenas a globalização que produz as desigualdades. São também as economias em que se pode dizer que “the winner takes all”. Aquele que tem mais capacidade para marcar golos num jogo de futebol, vai ganhar mais 10 ou 100 vezes que os outros. E uma cultura – direi mesmo uma ideologia – em que pensamos que o sucesso de um colectivo repousa grosso modo do sucesso de um pequeno número de indivíduos. Volto a insistir. Há uma verdadeira dimensão ideológica que se traduz no consentimento da desigualdade. Da mesma maneira, podemos também dizer que é a chegada de uma nova economia da inovação. E a inovação quer dizer precisamente, que um pequeno número de pessoas consegue acumular uma riqueza enorme. Estou a falar da Microsoft, do Google, do Facebook, etc. Não é só a globalização, são as condições da economia, que também levaram a um consentimento forte da desigualdade. Porque elas são vistas como legítimas. E é esse o grande problema: para lutar contra as desigualdades, temos de lutar contra o consentimento das desigualdades.
 ---------------------------

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Madonna fala com exclusividade a VEJA: ‘Serei rebelde até o fim’

Realeza pop - Madonna no palco, ainda provocando — e arrecadando: a turnê de 2016 rendeu 170 milhões de dólares (Josh Brandao//)

Madonna fala de sua admiração por símbolos e conceitos católicos (fora a culpa, claro), critica Trump e elogia a cultura de Portugal, país onde está morando


Com o inesquecível sutiã de formas cônicas, Madonna, aos 31 anos, subia ao palco da turnê Blond Ambition. Era 1990 e a cantora já carregava uma dezena de hits e controvérsias na carreira, iniciada oficialmente em 1983. Mas aquele show estabeleceria uma nova régua para a ousadia e a provocação em espetáculos megalômanos de música pop — um padrão que seria reproduzido a perder de vista por nomes como Britney Spears, Miley Cyrus e Lady Gaga. O visual de ameaçadoras pontas e arestas assinado pelo estilista francês Jean Paul Gaultier entrou para o cânone sagrado da moda. Uma certa estética gay ganhou mais visibilidade internacional. E a performance de Like a Virgin, que Madonna cantava em uma cama enquanto simulava masturbar-se, foi condenada pelo Vaticano e quase virou caso de polícia, com a cantora acossada pelas autoridades em Toronto, no Canadá. O adjetivo “icônico”, tão desgastado pelo uso, serve perfeitamente para muito do que a material girl fez ao longo de sua agitada carreira — e cabe, especialmente, para Blond Ambition, turnê que foi retratada no filme Na Cama com Madonna.

Quase três décadas depois, a cantora de 59 anos segura com desenvoltura seu lugar entre a realeza da indústria musical. Rebel Heart Tour, sua décima turnê — que, encerrada em 2016, chega em DVD às lojas no dia 29 —, arrecadou 170 milhões de dólares. Na soma histórica, Madonna já vendeu 1,31 bilhão de dólares em ingressos, valor que a põe no topo do ranking das artistas femininas mais bem-sucedidas no palco. No show que se vê no DVD, o cruzamento explosivo de sexualidade com religião continua no centro dos holofotes. A tão debatida masturbação de Blond Ambition, por exemplo, é aludida com ironia na turnê do ano passado: Madonna diz que vai tocar seu instrumento favorito e dedilha uma canção até que os dedos se aproximem, insinuantes, de seu sexo, ao som de um piano. Em outro momento, a cantora, que já se apresentou pregada a uma cruz, faz pole dance no símbolo cristão, acompanhada de dançarinas fantasiadas de freiras sensuais.

Sagrado e profano – A coreografia que arremedava a Santa Ceia no show Rebel Heart: redenção e salvação são “conceitos poderosos” (Kevin Mazur/Live Nation/Getty Images)

Atualmente de férias dos palcos, Madonna desfruta a calmaria de Portugal. Ao lado dos quatro filhos adotivos, David, 11, Mercy, 11, e as gêmeas Estere e Stella, 5, a americana se mudou para Lisboa — onde o garoto mais velho treina com o time juvenil de futebol do Benfica. Enquanto exerce o papel de mãe coruja, ela diz buscar inspiração na atmosfera artística do país. Seu encantamento pela capital lusitana é evidente na sua conta do Instagram, cheia de fotos da noite lisboeta. Falando a VEJA, por telefone, Madonna arriscou umas palavrinhas em português (“Vamos começar” foi a frase mais elaborada). Conversou sobre religião e política, criticou Donald Trump — e elogiou o vinho português.

A abertura da turnê Rebel Heart é repleta de referências religiosas. Por que você volta sempre aos símbolos católicos? A religião é inspiradora. Cresci em um ambiente católico e continuo a filosofar sobre os significados dos símbolos cristãos. O sofrimento de Jesus em uma cruz ou a dor de Maria ao ver o filho morrer são imagens fortes e belas, assim como a simples essência da confissão: ajoelhar-se diante de uma tela de madeira e dizer a um total estranho seus pecados e suas aflições. São insígnias que uso em meu show. Os conceitos de redenção, salvação e ressurreição são admiráveis e poderosos.

Mas você também mescla a religião com elementos profanos. No show, a Santa Ceia tem uma coreografia nada religiosa. Exploro essas referências, mas não pela exata interpretação cristã das Escrituras. Sou fascinada pela ideia de Deus ter se transformado em um ser humano. Para mim, a história de Jesus fala sobre crescimento, e sobre uma revolução. Não é uma mensagem para levar as pessoas a se sentir culpadas.

Em Lisboa – Com uma das filhas em foto do Instagram: boa música e bom vinho (Reprodução/Instagram)

Como compara a turnê atual com a Blond Ambition, que chocou pelo uso de símbolos religiosos? Sinto que multiplicamos por 1 milhão o que era feito em Blond Ambition. Cavamos mais fundo, exploramos tabus de forma mais detalhada. Aprecio a simplicidade de Blond Ambition, mas agora a tecnologia nos oferece mais recursos visuais.

Você é opositora de Donald Trump. Podemos esperar críticas ao presidente no seu próximo disco? Não sei. Já disse o que tinha a dizer sobre ele. E nem sei quem estará na Presidência quando meu álbum sair.

Mas a crítica política fará parte do disco? Posso fazer comentários sobre isso nas minhas músicas, mas não será particularmente sobre uma pessoa. Os líderes mundiais estão afundando a sociedade em pensamentos insensíveis e conservadores. Com a economia em colapso, as pessoas acham que o melhor é confiar nossos governos a empresários de sucesso. Mas não é assim que as coisas funcionam. Ser o líder de uma nação exige diplomacia, experiência, capacidade intelectual. É um emprego colossal, e cada vez mais pessoas desqualificadas estão conquistando esse papel. Quero falar em minhas músicas sobre como chegamos a esse ponto. Não podemos continuar culpando nossos líderes, temos de culpar a nós mesmos. Precisamos nos envolver com o mundo e pedir pelas mudanças que queremos.

O disco American Life, de 2003, foi mal recebido por ter entrado em matéria política. Seria diferente hoje? A sociedade não se sente confortável com uma mulher, cantora pop, falando sobre política. Mas as pessoas ficaram especialmente irritadas porque critiquei os Estados Unidos — o estilo de vida, o sonho americano, o sistema de crenças, o governo, a política. Americanos não querem ouvir críticas. Querem pensar que vivem em um país onde há justiça e igualdade, um exemplo de democracia e liberdade. Sabemos que nada disso é verdade, sobretudo hoje.

Como está seu português agora que você vive em Lisboa? Continua terrível. Tenho amigos que corrigem minha pronúncia. Sou mais familiarizada com o português do Brasil, o de Portugal me parece mais difícil. Mas me viro falando um pouco de espanhol.

Que tal a música da noite lisboeta? É extraordinária a quantidade de ótimos músicos que escuto em Portugal. Espero trabalhar com esses músicos em shows mais intimistas. Vai ser uma fase interessante da minha carreira. Me inteirar da cultura local é parte do motivo pelo qual estou aqui. E, claro, o vinho é maravilhoso.

Depois de trinta anos de carreira, não cansou da rebeldia? Não, não, não. Não estou cansada. Eu me sinto ainda mais enérgica. Com mais força para lutar por aquilo em que acredito. Sou uma rebelde e serei rebelde até o fim.
---------
Publicado em VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549

A última fronteira

Yuval Noah Hari* 

BATUTA - O robô YuMi, da suíça ABB, regeu a orquestra que acompanhou Andrea Bocelli em apresentação neste mês na Itália (Remo Casilli/Reuters)

Se a arte diz respeito a algo mais profundo do que as emoções, é possível que os algoritmos se tornem grandes artistas?

Em algum momento nas próximas décadas, um sistema externo que junta e analisa ondas infinitas de dados biométricos provavelmente conseguirá entender, muito melhor do que eu, o que está acontecendo dentro do meu corpo. Tal sistema transformará a política e a economia por permitir a governos e corporações que prevejam e manipulem desejos humanos. E qual será seu impacto sobre as expressões artísticas? Continuará a arte como a última linha defensiva contra o surgimento dos algoritmos oniscientes?

No mundo moderno, a arte normalmente é associada às emoções humanas. Tendemos a achar que artistas canalizam suas forças psicológicas e que o propósito da arte é conectar-nos com nossas emoções ou inspirar novos sentimentos. Por isso, quando avaliamos a arte, tendemos a julgá-la pelo impacto emocional e a acreditar que a beleza está nos olhos de quem a vê.

Essa perspectiva acerca da arte se desenvolveu durante a época do romantismo, no século XIX, e amadureceu há exatamente 100 anos, em 1917, quando Marcel Duchamp comprou um mictório ordinário, produzido em massa, e o declarou um objeto de arte. Nomeando-a Fonte, ele assinou e submeteu a peça a uma exposição de arte. Em inúmeras salas de aula ao redor do mundo, estudantes de arte do 1º ano são apresentados à imagem da Fonte de Duchamp, e espontaneamente se inicia uma calorosa discussão. É arte! Não é! É, sim! De jeito nenhum!

Depois de deixar que os alunos desabafem, o professor direciona a conversa ao levantar as já tradicionais perguntas “O que exatamente é arte? E como nós determinamos se algo é uma obra de arte ou não?”. Depois de mais alguns minutos de discussão, o professor guia então os alunos na direção correta: “A arte é qualquer coisa que as pessoas acham que é arte, e a beleza está nos olhos de quem vê”. Se as pessoas acham que um mictório é uma obra de arte linda — então é isso. Existiria alguma autoridade superior para dizer que as pessoas estariam erradas?

E se as pessoas estão dispostas a pagar milhões de dólares por determinada obra de arte — então é isso que ela vale. Afinal de contas, o cliente tem sempre razão.

Em 1952, o compositor John Cage superou Duchamp ao criar 4’33. A peça, originalmente composta para piano mas atualmente também apresentada por orquestras sinfônicas completas, consiste em quatro minutos e 33 segundos nos quais nenhum dos instrumentos toca uma única nota. A peça encoraja a audiência a observar suas experiências internas para examinar o que é música, o que nós esperamos dela, e como a música é diferente dos barulhos aleatórios da vida cotidiana. A mensagem é que são nossas próprias expectativas e emoções que definem a música e que separam a arte do barulho.

Se a arte é definida por emoções humanas, o que acontece quando algoritmos são capazes de entender e manipular as emoções humanas melhor do que Shakespeare, Picasso ou Lennon? Afinal de contas, emoções não são fenômenos místicos — são um processo bioquímico. Por isso, tendo acesso a um volume suficiente de dados biométricos e de capacidade de processamento computacional, seria possível hackear o amor, o ódio, o tédio e a alegria.

Em um futuro não muito distante, um algoritmo de inteligência artificial (IA) poderá analisar dados biométricos por meio de sensores ligados ao seu corpo, dentro e fora dele. Para assim determinar seu tipo de personalidade e suas mudanças de humor e, então, calcular o impacto emocional que uma música particular — ou até uma nota em particular — deverá causar em você.

De todas as formas e manifestações artísticas, a música é provavelmente a mais suscetível à análise por big data, em razão de seus estímulos, internos e externos, serem pautados por representações matemáticas. Os internos são os padrões matemáticos de ondas sonoras, e os externos, os padrões eletroquímicos de tempestades neurais de nosso cérebro. Permita a uma máquina de IA que analise milhões de experiências musicais e ela aprenderá como estímulos internos particulares resultam em estímulos externos particulares.

Imagine que você acabou de discutir feio com seu namorado. O algoritmo responsável pelo sistema de áudio vai identificar imediatamente sua luta emocional interna e, baseado no que ele sabe sobre você e sobre a psicologia humana em geral, tocará músicas personalizadas para ressoar com sua melancolia e ecoar seu sofrimento. Essas músicas particulares poderão não funcionar bem com outras pessoas, mas são perfeitas para seu tipo de personalidade. Depois de dar-lhe uma ajuda para enfrentar as profundezas de sua tristeza, o algoritmo tocaria a única música no mundo que poderia ser capaz de fazer com que você se sentisse melhor — talvez porque seu subconsciente a conecte com uma lembrança feliz de sua infância, de cuja existência nem você tinha consciência. Nenhum DJ humano poderia se equiparar às habilidades de uma IA como essa.

Você pode argumentar que uma IA mataria a magia do acaso e nos trancaria dentro de um casulo musical estreito, trançado pelas nossas curtidas e não curtidas anteriores.

ISTO NÃO É UM URINOL –
Máquinas seriam capazes de definir se Fonte (1917), de Duchamp, poderia estar num museu? (Tate Modern//AFP)

Nesse cenário, como explorar estilos e gostos musicais genuinamente novos? Sem problema. Pode-se ajustar facilmente o algoritmo para fazer 5% das recomendações de forma completamente aleatória, selecionando inesperadamente uma gravação de um conjunto indonésio, uma ópera de Rossini ou o último “narcocorrido” mexicano. Ao longo do tempo, por monitorar suas reações, a IA poderia determinar o nível ideal de aleatoriedade que otimizará a exploração, evitando a chatice, talvez baixando o nível de acaso a 3% ou aumentando-o para 8%.

Outra objeção possível é que não está claro como o algoritmo poderia estabelecer o próprio objetivo emocional. Se você acabou de brigar com seu namorado, o algoritmo deve visar a deixá-la triste ou feliz? Ele seguiria cegamente uma escala rígida de emoções “boas” e “ruins”? Talvez existam momentos na vida em que é bom se sentir triste? Com certeza, a mesma pergunta poderia ser direcionada a músicos e DJs. Mas, no caso do algoritmo, há muitas soluções interessantes para esse quebra-cabeça.

Uma opção é simplesmente deixar essa decisão para o cliente. Você pode avaliar suas emoções da maneira que quiser, e o algoritmo obedecerá a seus comandos. Independentemente de você querer chafurdar na miséria ou pular de alegria, o algoritmo seguirá você, sem erros. De fato, o algoritmo poderia aprender a reconhecer seus desejos mesmo que você não esteja sequer consciente deles.

Outra possibilidade, para aqueles que não confiam em si mesmos, seria instruir o algoritmo a seguir a recomendação de qualquer psicólogo de sua confiança. Se seu namorado eventualmente se separar de você, o algoritmo pode guiá-la pelos cinco estágios do luto: primeiro ajudando a negar o que aconteceu com Don’t Worry Be Happy, de Bobby McFerrin; depois aumentando sua raiva com You Oughta Know, de Alanis Morissette; encorajando você a negociar consigo com Ne Me Quitte Pas, de Jacques Brel, e Come Back and Stay, de Paul Young; ou guiando você pelo buraco da depressão com Someone Like You e Hello, de Adele; e finalmente ajudando-a a aceitar a situação com I Will Survive, de Gloria Gaynor, e Everything’s Gonna Be Alright, de Bob Marley.

O próximo passo é o algoritmo começar a ajustar músicas e melodias, adaptando-as ligeiramente, de acordo com as peculiaridades do ouvinte. Talvez você não goste de um trecho em particular de uma canção excelente. O algoritmo sabe disso porque seu coração pula uma batida e seu nível de oxitocina baixa quando você escuta essa parte. O algoritmo poderia então reescrever ou cortar a passagem ofensiva.

A ideia de computadores comporem música não é nova. David Cope, um professor de musicologia da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, criou um programa de computador chamado EMI (na sigla em inglês, Experimentos com Inteligência Musical), especializado em imitar o estilo de Johann Sebastian Bach. Numa apresentação pública realizada na Universidade de Oregon, uma audiência de alunos e professores universitários avaliou três peças — uma autêntica de Bach, outra produzida pelo EMI e uma terceira composta por um professor local de musicologia, Steve Larson. No final, foi solicitado ao público que identificasse quem havia composto cada uma das peças. O resultado? A audiência achou que a peça do EMI era de Bach, a de Bach era composta por Larson e a de Larson, pelo computador.

Com o tempo, algoritmos poderão aprender a compor músicas inteiras, usando as emoções humanas como se fossem um piano. Com seus dados biométricos pessoais, os algoritmos poderiam até produzir melodias personalizadas, que apenas você apreciaria.

É comum ouvir que as pessoas se conectam com a arte porque se identificam com ela. Algo que levará a resultados surpreendentes, e um pouco sinistros, se e quando o Facebook começar a criar artes personalizadas de acordo com o que seu sistema sabe sobre você. Se seu namorado a deixasse, o Facebook presentearia você com um novo hit, exatamente sobre o babaca, em vez de uma canção qualquer de Adele ou de Alanis Morissette, tornando a arte uma extravagância narcisista.

Contudo, existe também a possibilidade de que, com bases biométricas gigantescas recolhidas de milhões de pessoas, o algoritmo possa ainda produzir um hit global que deixaria todo mundo dançando loucamente nas pistas. Se arte é realmente sobre inspirar (ou manipular) emoções humanas, poucos, ou nenhum, humanos teriam a chance de competir com um algoritmo assim, uma vez que não possuímos a mesma capacidade de entender e analisar o principal instrumento que eles estão tocando: o sistema bioquímico do homem.

Isso originaria uma obra-prima? Depende da definição que se tem de arte. Se a beleza está de fato nos ouvidos do ouvinte, e se o cliente tem sempre razão, então algoritmos têm chance de produzir a melhor arte da história. Se arte é sobre algo mais profundo que emoções humanas, e deva expressar uma verdade que vai além de nossas vibrações bioquímicas, algoritmos talvez não se tornem grandes artistas. Nem a maioria dos humanos. Para entrarem no mercado da arte, algoritmos não precisam começar superando Beethoven logo de cara. Se eles superarem Justin Bieber, já será o suficiente.
----------------------
* Yuval Noah Harari, historiador israelense, é autor de Homo Deus: uma Breve História do Amanhã (Companhia das Letras) e Sapiens: uma Breve História da Humanidade (L&PM)
(Tradução: Lien Vasconcelos)
Publicado em VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549

ROBÔS: A serviço do ser humano

De forma explícita ou imperceptível, os robôs já transformam — e facilitam — nossa vida

 
Imagine a seguinte cena. Ao fim de um exaustivo dia de trabalho, uma executiva ativa um aplicativo no celular que avisa ao computador de bordo de seu carro que ela está de saída. Quando ela deixa o escritório, o automóvel a espera na entrada do prédio e, automaticamente, abre a porta para a dona, que é reconhecida pela máquina assim que se aproxima. Dentro do veículo, uma voz computadorizada pergunta: “Para casa?”. Depois da confirmação, o carro é guiado pela inteligência artificial (IA) de um software interno, enquanto a executiva responde a e-mails em seu tablet, desatenta ao tráfego, intensíssimo àquela hora da tarde. Já próximo da residência, o computador de bordo contata outra IA, a do assistente pessoal virtual que administra a rotina doméstica. “A geladeira está vazia. Quer que eu peça uma pizza?”, pergunta a máquina caseira. Após ouvir um “sim”, a IA providencia a demanda, já sabendo qual é a cobertura preferida de quem confirmou o pedido, do marido e dos filhos. Ao chegar em casa, nossa protagonista é surpreendida: acabou a ração do cachorro. Ela, então, se volta para a IA: “Pode encomendar para chegar hoje?”. A resposta: “Já fiz isso pela manhã. O pacote deve ser entregue por um drone em dez minutos”.

É possível que toda essa movimentação soe como ficção científica, intangível. Não é. Trata-se de retrato da rotina de parte dos habitantes do planeta neste século XXI. Todas as tecnologias descritas no parágrafo anterior existem e muitas delas possuem versões comerciais. A IA está aí, no cotidiano, e não para de ser aperfeiçoada. Carros autônomos? Nos Estados Unidos, alguns modelos estão sendo testados, e muito em breve todos sairão às ruas, desde que as leis de trânsito (e as punições) sejam adaptadas. Assistentes virtuais em smartphones? Existem a Siri, do iPhone, e o Google Assistant, do Android. Versões domésticas dessa tecnologia? Pode-se procurá-las no mercado de hardwares do Google e da Amazon. Drones que entregam produtos? A Amazon já experimenta esses dispositivos.
PEDREIRO ROBÓTICO – A máquina Hadrian X, desenvolvida pela empresa australiana FastBrick Robotics, é capaz de levantar uma casa em 48 horas. Também conhecida como “pedreiro robótico”, ela ergue — sem ajuda humana — até mesmo prédios. Para tanto, basta mostrar ao equipamento uma planta da obra em 3D. É o suficiente para que o robô, com seu braço metálico, saiba onde deve instalar cada tijolo, cada revestimento etc. Prova de sua eficiência: a Hadrian X acopla 1 000 tijolos por hora a uma construção. Na mesma função, um pedreiro humano, sozinho, demoraria um dia inteiro para conseguir dar conta de assentar apenas 400 blocos. (//Divulgação)

“Nos últimos cinco anos houve uma evolução brutal das tecnologias de IA, a ponto de podermos dizer que, hoje, softwares desse tipo conseguem literalmente olhar o mundo e aprender com o que observam”, disse a VEJA o cientista da computação americano Jeff Dean, a inteligência natural por trás dos sistemas de inteligência artificial que guiam o funcionamento dos produtos do Google. “Dá para tecer uma comparação direta dessa situação com a evolução biológica dos seres vivos. Para os robôs, poder ‘ver’ atualmente o que os cerca é um avanço tão espetacular quanto isso foi um dia para o primeiro animal que desenvolveu essa capacidade.”

Dean ingressou no gigante do Vale do Silício em 1999, um ano após a fundação da empresa. Hoje, possui um cargo de título pomposo, bem ao estilo do que prevalece na indústria da tecnologia: Google Senior Fellow (algo como “membro sênior do Google”). Na prática, ele é o principal nome do Brain, uma divisão da companhia que procura desenvolver avanços de IA que possam ser aplicados a produtos da marca. Dean cita os softwares de tradução instantânea como uma das melhores referências de como se tem dado o progresso dessa tecnologia. “Há cinco anos, precisávamos redigir 5 000 linhas de códigos de computação a fim de fazer com que um programa pudesse cruzar bases estatísticas para traduzir palavras do inglês para o português. E nós ainda guiávamos a máquina”, explica ele. “Hoje, desenvolvemos uma IA que, baseada em 500 linhas de códigos, simplesmente analisa milhões de frases em diversas línguas e as compara com equivalentes semânticos de outros idiomas. Assim, apresenta traduções melhores, similares às que seriam feitas por poliglotas”, conta.

OLHAR CERTEIRO – O aplicativo Peek (de “espiar”, em inglês, mas também sigla para “kit portátil de exame de olhos”) usa a câmera do smartphone para detectar a ocorrência de catarata. O flash do aparelho ilumina a retina e produz uma imagem, depois analisada pelo software, que dá o diagnóstico. Criado por uma instituição inglesa de mesmo nome, o Peek foi testado em 5 000 quenianos em 2016. A pretensão é levá-lo a 2,5 bilhões de indivíduos sem acesso a tratamentos oftalmológicos, usualmente caros. No exemplo da catarata, 51% dos casos de cegueira no mundo são decorrentes da doença — e poderiam ser evitados. (Tony Karumba/AFP)

O ponto de inflexão que permitiu tal avanço tem um nome: machine learning (o aprendizado da máquina). Traduz Dean: “Antes, criávamos comandos que seriam seguidos pela IA. Hoje, capacitamos a tecnologia para que aprenda sozinha. Se um software de uma década atrás só era capaz de realizar uma ou duas tarefas, atualmente desenvolvemos versões que poderão executar 500 diferentes trabalhos num dia e outros 500 no dia seguinte”.

Com isso, a IA promete substituir pessoas em funções que não exijam capacidades, digamos, “exclusivamente humanas”, prenhes de sutilezas, de emoções e sentimentos. Ou seja: sim, a máquina tirará o emprego de motoristas e de mestres de obras, por exemplo. No lugar deles estarão robôs que dirigem e constroem casas (conheça situações desse tipo nos quadros ao longo desta reportagem). O que parece atalho para o desemprego, porém, facilitará a vida de todos. Aqueles que perderem postos de trabalho muito possivelmente buscarão tarefas mais valorizadas — ou, de novo, “exclusivamente humanas”. Perda com ganhos.

SEM LEITE DERRAMADO – Até recentemente, o máximo de sofisticação tecnológica que se costumava relacionar à atividade da ordenha era a sucção mecânica do leite. Em 2014, porém, a empresa sueca DeLaval deu início ao emprego de IA para melhorar esse trabalho. Por meio de condicionamento, sua máquina de ordenhar faz com que as vacas associem a alimentação à retirada de leite — fala-se em “ordenha voluntária” —, que se dá sem desperdício. E, durante a coleta, ela analisa a saúde do animal. No ano passado, uma fazenda chilena instalou 64 desses equipamentos, aumentando em 10% a produção de 4 500 vacas. (Tomohiro Ohsumi/Bloomberg/Getty Images)

Tome-se o atendimento de telemarketing como exemplo. A empresa espanhola Telefónica está desenvolvendo um software de IA apelidado de Aura. Trata-se de uma versão mais avançada de um bot, categoria na qual se incluem as máquinas capazes de estabelecer diálogos com pessoas. Se um funcionário costuma demorar, em média, cinco minutos para esclarecer dúvidas de fácil resolução da clientela, como verificar se uma conta foi paga, a Telefónica garante que o programa fará o serviço em questão de segundos. É uma economia relevante para a empresa e, consequentemente, para o consumidor. “A verdade é que a maioria será beneficiada, ao perceber que essa é uma tarefa ideal para ser executada por uma inteligência artificial”, afirmou, em entrevista a VEJA, o CDO (na sigla em inglês, executivo-chefe da divisão de dados) da Telefónica, o cientista da computação espanhol Chema Alonso.

Vivenciamos, hoje, a chamada “primavera” da IA — que se segue a um período, compreendido entre os anos 1980 e 2000, nomeado de “inverno”, no qual houve pouco avanço. Estima-se que, de 2013 para cá, as tecnologias de IA tenham crescido 300% ao ano. Até 2035, calcula-se que elas aumentarão em 40% a produtividade da civilização. Não necessariamente da clássica forma descrita pela ficção científica, com robôs circulando nas ruas. Mas de maneira quase imperceptível, orquestrando como trabalhamos e interagimos uns com os outros, a exemplo do que fazem os algoritmos do Facebook ao escolher os posts a ser vistos pelos usuários. Haverá desafios, da obsolescência de cargos à perda de memória em razão do uso das novas tecnologias — questões discutidas na reportagem a seguir. Mas já não há volta: a IA está entre nós, a serviço do ser humano. Temos de aprender a conviver com ela.

À frente do ser humano

Os softwares já são (muito) melhores do que nós em capacidade de cálculo. Falta pouco para que sejam criativos e versáteis como nós. Que impacto isso trará?

Uma pesquisa realizada em 2011 pela Universidade Stanford, na Califórnia (EUA) — no coração do Vale do Silício, o principal polo tecnológico do planeta —, com os 100 mais respeitados especialistas da área, fez inicialmente duas perguntas aos cientistas: “Quando a inteligência da máquina vai se equiparar à humana?” e “Quando vai superá-la?”. Na resposta, os estudiosos sugeriram que seria de 10% a probabilidade de robôs se igualarem ao nosso intelecto já em 2024; de 50%, em 2050; e de 90%, até 2070. E de 10% a chance de nos ultrapassarem em dois anos após empatar conosco, e de 75% que isso ocorresse no prazo de trinta anos seguidos do primeiro feito. O que o levantamento pretendia radiografar era quando a inteligência artificial (IA) desenvolveria aquilo que os pesquisadores chamam de “superinteligência”. A questão seguinte era esta: “Qual seria o impacto dessa superinteligência?”. Em torno de metade dos experts concordou que a mudança proporcionada pela tecnologia poderia se provar majoritariamente positiva. Entretanto, a outra metade foi assertiva: haveria consequências negativas, eventualmente até catastróficas. Seis anos depois do trabalho da Universidade Stanford, a questão permanece insolúvel. Temos mesmo de temer a IA, da forma como é exibida em clássicos da ficção científica, como o filme O Exterminador do Futuro, do canadense James Cameron, no qual humanos e máquinas entram em guerra pelo domínio da Terra?
Em 1997, um computador, o Deep Blue, tornou-se o pioneiro de seu gênero ao superar um campeão mundial de xadrez, o russo Garry Kasparov. Era a primeira vez que um tipo de máquina vencia um humano, no ápice, num jogo de estratégia. Os estudiosos não se apavoraram: o xadrez, afinal, vale-se de movimentos padronizados, que podem ser decorados pela IA, mas não exige o máximo de capacidade de improvisação. (Stan Honda//AFP)

Hoje, softwares são (muito) melhores que o homem na realização de tarefas matemáticas específicas. Exemplo: ao se digitar “Brasil” no google.com.br aparece, em 1,01 segundo, 1,81 bilhão de resultados — incluindo um resumo com características do país, como tamanho da população e do território, uma compilação de atrações turísticas, uma lista dos Estados nacionais e outra de tipos de busca que pessoas que também procuraram por “Brasil” costumam realizar. Jamais um humano conseguiria fazer uma pesquisa com tamanha eficácia. Assim como não poderíamos competir com a IA em tarefas como calcular rotas de um foguete espacial ou organizar a produção de uma fábrica.

Em agosto deste ano, as máquinas cumpriram um feito extraordinário; e se um dia elas chegarem a pensar e a ter memória afetiva, de fato, será um marco da história dos robôs: uma delas venceu, pela primeira vez, o campeão de Dota 2, um sofisticado videogame de estratégia. Parece pouco? Observou o empreendedor sul-africano Elon Musk, fundador de empresas do ramo, como a Tesla (de carros, incluindo autônomos) e a SpaceX (de exploração espacial), e um dos financiadores da OpenAI, organização que desenvolveu a máquina jogadora que massacrou o craque humano e cuja missão é justamente discutir e impor limites às tecnologias dessa categoria: “É muito mais complexo vencer uma competição de e-sports (termo que define as disputas profissionais de games) do que uma de tradicionais jogos de tabuleiro, como xadrez e go”. Isso porque o Dota 2 simula situações parecidas com as de guerras reais. As capacidades lógicas necessárias para se dar bem no game também se assemelham às desenvolvidas por militares. Em outras palavras, ao superar um campeão de Dota 2 fica claro que a IA pode se transformar em uma estrategista (muito) melhor do que nós, seres humanos.
O FUNCIONÁRIO-PADRÃO: estima-se que nas próximas décadas o ser humano será substituído pelas máquinas em sete de cada dez tipos de emprego. Em teoria, estão com os dias contados carreiras com tarefas repetitivas. Incluem-se aí os pedreiros, os motoristas, os atendentes de telemarketing etc. etc. Na foto, o robô Pepper, lançado em 2014 pela empresa japonesa Softbank, é testado como vendedor de uma loja. Pepper também já conseguiu trabalho como enfermeiro em 300 hospitais, realizando diagnósticos mais simples, e como recepcionista em diversos estabelecimentos. (Yoshikazu Tsuno//AFP)

Isso já não ocorreu? O intelecto robótico já não é superior ao nosso? Não — ao menos no que ostentamos de mais humano, demasiado humano. “As máquinas ainda não são criativas, emotivas e versáteis como nós. Só que falta pouco para isso. Temos de nos acostumar a conversar, pela primeira vez na história, com outro ser inteligente e, em breve, possivelmente ciente da própria existência”, ponderou a VEJA o cientista da computação americano Daniel Wilson. Além de doutor em robótica pela americana Universidade Carnegie Mellon, uma das referências mundiais de seu campo, Wilson é escritor de ficção científica. Mas não de obras sem pé na realidade. Em seu livro mais famoso, Robopocalypse, ­best-seller nos EUA — que deve virar um longa produzido por Steven Spielberg — e recém-lançado no Brasil pela Editora Record, ele narra como tecnologias que já existem se voltam contra a humanidade quando a primeira superinteligência artificial acaba assumindo o controle de todas elas.

“Na história, é claro que forço a barra; não creio que vá existir um apocalipse promovido por robôs”, brinca Wilson. “Contudo, temos de ter medo, sim, da IA. De como, por exemplo, ela afetará nossa mente — e tenho certeza de que haverá seres humanos que se apaixonarão por ela — e nos substituirá em tarefas diárias, dando início a ondas de desemprego”, pondera, desta vez a sério.

A organização inglesa Nesta, que apoia projetos de inovação na Europa, estima que, nas próximas décadas, 70% das atuais profissões serão desempenhadas por robôs. O que sobraria para as pessoas, nos 30% restantes? Trabalhos que exijam capacidades lúdicas, emotivas, de análise, que, em teoria, ainda são exclusivamente humanas. Na lista: arte, liderança e, suprema ironia, desenvolvimento de novas IAs! Mas será que um dia os robôs não nos suplantarão até nesses talentos? Essa é a discussão levantada pelo historiador israelense e autor best-­seller Yuval Noah Harari, tido como um dos maiores pensadores contemporâneos desse assunto, no artigo das páginas que vêm a seguir.

 ---------------
Publicado em VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549
Fonte:  http://veja.abril.com.br/revista-veja/a-servico-do-ser-humano/

James Heckman e a importância da educação infantil

O Nobel de Economia, que falará em São Paulo nesta segunda 25, diz que investir nos anos iniciais das crianças é o caminho para o país crescer

O americano James Heckman, 73 anos, é reverenciado tanto em sua área de origem, a economia — que lhe rendeu o Prêmio Nobel em 2000 —, como na educação, que ele investiga com a curiosidade de quem ama calcular. Heck­man criou métodos científicos para avaliar a eficácia de programas sociais e vem se dedicando aos estudos sobre a primeira infância — para ele, um divisor de águas. É sobre esse assunto que falará, na segun­da-feira 25, no encontro Os desafios da primeira infância — Por que investir em crianças de zero a 6 anos vai mudar o Brasil, organizado pelas revistas Exame e VEJA e apoiado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, pela Funda­ción Femsa e pela United Way Brasil. Professor na Universidade de Chicago, Heckman veio uma dezena de vezes ao Brasil. Estava no Rio quando recebeu o telefonema de sua vida. “Disseram-me que seria premiado com o Nobel, e eu achei que era trote”, revela ele, que fala com rara propriedade sobre o país.

Por que os estímulos nos primeiros anos de vida são tão decisivos para o sucesso na idade adulta? É uma fase em que o cérebro se desenvolve em velocidade frenética e tem um enorme poder de absorção, como uma esponja maleável. As primeiras impressões e experiências na vida preparam o terreno sobre o qual o conhecimento e as emoções vão se desenvolver mais tarde. Se essa base for frágil, as chances de sucesso cairão; se ela for sólida, vão disparar na mesma proporção. Por isso, defendo estímulos desde muito cedo.

Quão cedo? Pode parecer exagero, mas a ciência já reuniu evidências para sustentar que essa conta começa no negativo, ou seja, com o bebê ainda na barriga. A probabilidade de ele vir a ter uma vida saudável se multiplica quando a mãe é disciplinada no período pré-natal. Até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e isso será valioso para toda a vida. Infelizmente, é uma fase que costuma ser negligenciada — famílias pobres não recebem orientação básica sobre como enfrentar o desafio de criar um bebê, faltam boas creches e pré-escolas e, sobretudo, o empurrão certo na hora certa.

Qual é o preço dessa negligência? Altíssimo. Países que não investem na primeira infância apresentam índices de criminalidade mais elevados, maiores taxas de gravidez na adolescência e de evasão no ensino médio e níveis menores de produtividade no mercado de trabalho, o que é fatal. Como economista, faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer — melhor, mais eficiente e seguro do que apostar no mercado de ações americano.

Se isso é tão claro, por que a primeira infância não está na ordem do dia de quem tem a caneta na mão para decidir? Há ainda uma substancial ignorância sobre o tema. Algumas décadas atrás, a própria ciência patinava no assunto. A ideia que predominava, e até hoje pesa, é que a família deve se encarregar sozinha dos primeiros anos de vida dos filhos. A ênfase das políticas públicas é na fase que vem depois, no ensino fundamental. E assim se perde a chance de preparar a criança para essa nova etapa, justamente quando seu cérebro é mais moldável à novidade.

A classe política também evita olhar para a primeira infância por achar que esse é um investimento menos visível a curto prazo? Os políticos podem, sim, considerar isso, mas estão redondamente enganados. Crianças pequenas respondem rápido aos estímulos de qualidade. Para quem tem o poder de decidir, deixo aqui a provocação: não investir com inteligência nesses primeiros anos de vida é uma decisão bem pouco inteligente do ponto de vista do orçamento público. Basta usar a matemática.

O que mostra a matemática? Vamos pegar o exemplo da segurança pública. Há ao menos dois caminhos para mantê-la em bom patamar. Um deles é contratar policiais, que devem zelar pelo cumprimento da lei. O outro é investir bem cedo nas crianças, para que adquiram habilidades, como um bom poder de julgamento e autocontrole, que as ajudarão a integrar-se à sociedade longe da violência. Pois a opção pela primeira infância custa até um décimo do preço. Recaímos na velha questão: prevenir ou remediar? Como se vê, é muito melhor prevenir.

O senhor pode soar fatalista: ou bem a criança é estimulada cedo ou terá perdido uma oportunidade única para o aprendizado? A discussão realmente abre uma margem para essa interpretação, mas não é bem isso. A mensagem jamais pode ser: depois dos 5 anos, já era. Desde que a criança esteja vivendo em sociedade, ela vai aprender. Existe na espécie humana uma extraordinária capacidade de se beneficiar do ambiente. Só não podemos deixar de encarar o fato de que uma criança que tenha sido alvo de elevados incentivos conquistará uma vantagem para o resto da vida. De outro lado, quanto mais uma criança fica para trás, mais dificuldade ela terá para preencher as lacunas do princípio.

O senhor discorda então de uma ala de cientistas que vê as chamadas janelas de oportunidade para o aprendizado como algo mais definitivo? Acho que há exagero nesse campo: é como se tivéssemos no cérebro janelas que se abrem por inteiro numa fase e se fecham por completo em outra. Dito isso, há, sim, momentos mais favoráveis para a aquisição de certos conhecimentos: se quiser falar um idioma sem sotaque, é mais apropriado começar aos 8 do que aos 16 anos.

A propósito dos 8 anos, o economista Adam Smith (1723-1790) dizia que as crianças eram todas essencialmente iguais até essa idade. O senhor concorda? Não. Smith tinha uma visão idealista segundo a qual todos seríamos iguais por natureza até esse ponto da vida e, só aí, começaríamos a nos diferenciar uns dos outros. Mas a ciência já deixou claro que há capacidades inatas que nos distinguem, como a noção espacial ou a habilidade numérica ou ainda o talento para piano, artes e xadrez. Reconhecê-las e incentivá-las cedo torna-­se uma vantagem.

Que tipo de política pública de primeira infância tem surtido mais efeito? O grande impacto positivo vem de programas que conseguem envolver famílias pobres, creches e pré-­escolas, centros de saúde e outros órgãos que, integrados, canalizam incentivos à criança — não só materiais, evidentemente. O programa americano Perry, da década de 60, é um exemplo clássico de que o investimento em uma boa pré-escola produz ótimos resultados.

Por que esse modelo é bom? Ele envolve ativamente os alunos em projetos de sala de aula, lapidando habilidades sociais e cognitivas, sob a liderança de professores altamente qualificados. A família mantém um estreito elo com a escola. Temos de ter sempre certeza de que a família está a bordo, qualquer que seja a iniciativa.

Não é irrealista esperar tanto de famílias que vivem na pobreza, como no Brasil? Um bom programa de primeira infância consegue ajudar a família inteira, fazendo chegar até ela informações, boas práticas e valores essenciais, como a importância do estudo para a superação da pobreza.

Pesquisas brasileiras mostram que muitas crianças que frequentam creches e pré-escolas acabam se saindo pior nos primeiros anos de estudo do que outras que ficam em casa. O resultado o espanta? Não. Já vi estudos que chegaram a conclusão idêntica nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa. Trata-se de uma questão sem resposta absoluta: tudo depende do tipo de incentivo que a criança tem em casa e daquele que receberá na creche. Não é que a escola faça mal, mas é preciso indagar: onde a criança tem mais a ganhar ou menos a perder?

O que o Brasil pode aprender com a experiência internacional? Os programas de maior retorno são justamente aqueles que se apoiam em uma rede e, através dela, levam às famílias toda sorte de incentivos, de diferentes áreas que convergem. Aliás, o Brasil tem uma vantagem aí: o sistema público de saúde alcança todos os cantos e pode funcionar como ponto de partida para essa rede de estímulos. O país também deveria prestar atenção na qualidade dos professores: países como a Finlândia souberam valorizar a carreira docente — não apenas no salário, que fique claro — e colheram grandes resultados na educação desde cedo.

Existe um debate no Brasil sobre a extensão da licença paternidade — a lei brasileira garante hoje apenas cinco dias ao pai. O senhor é a favor? O princípio de o pai ter a chance de estreitar laços com o filho desde o começo é bem-vindo. Os benefícios vão depender, porém, de como esse tempo será efetivamente aproveitado.

O senhor é um dos precursores de uma discussão que agora está em alta nas rodas educacionais: o desenvolvimento de habilidades so­cioemo­cio­nais. É possível mesmo ensiná-las? Sim, na escola e em casa. O grande erro nesse debate é tratar tais habilidades — autocontrole, resiliência, trabalho em equipe — como algo que não tem nada a ver com as habilidades cognitivas, o aprendizado das matérias propriamente ditas. Não existe essa fronteira. O bom professor está sempre ensinando as duas: ao aprender a ler e a soletrar as palavras, a criança interage com amigos, forma vínculos, lida com emoções ligadas ao sucesso e ao fracasso — enfim, aprende a se comunicar de forma ampla.

Por que tantos educadores torcem o nariz quando se fala em habilidades socioemocionais? Eles ainda estão aferrados à ideia obsoleta de que inteligência se resume a QI, um conceito de cinquenta anos atrás que não evoluiu com o mundo.

Ler para a criança desde cedo está no rol dos grandes incentivos de efeito comprovado pela ciência. Por que isso é tão poderoso? Porque estimula ao mesmo tempo o gosto pela leitura, a capacidade de comunicação e a curiosidade para adquirir conhecimento. Se nada der errado, isso se desdobrará por toda a vida.

O incentivo dos pais pode virar exagero? Observo em famílias de classes mais altas uma tendência à proteção exagerada dos filhos. Considero isso um erro. Todo mundo deve experimentar não só as vitórias como também os fracassos. São eles, afinal, uma fonte essencial para o aprendizado.
 --------------------
Publicado em VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549
Fonte:  http://veja.abril.com.br/revista-veja/james-heckman-nobel-desafios-primeira-infancia/