Vamos tomar este comprimidinho, vamos ver a nossa temperatura, vamos
beber, excepcionalmente, um golinho de água. Isto depois de me cegarem
com a lâmpada do tecto, no interior da qual o insecto que eu era se
agitava
Os
olhos das pessoas nas camas dos hospitais, que gritam em silêncio o
tempo todo, ensurdecendo-me. Quantas vezes, ao ir-me embora, tinha a
certeza de sair dali a gritar também. Claro que nas alturas em que fui
internado estou certo que os meus olhos não se calavam igualmente mesmo
que tentasse sorrir. Sobretudo à noite, quando ficava sozinho,
acompanhado pelo rectângulo mais claro da janela, a certeza que a noite
lá fora me trazia apenas tristeza e sofrimento. Depois, de repente,
acendiam as luzes, mexiam em mim, injectavam-me ou davam-me remédios a
engolir, saíam outra vez e eu estupefacto que fossem capazes de andar,
eu que nem sequer conseguia carregar na campainha, ao lado da almofada,
que me diziam servir para chamar os enfermeiros, os quais se dirigiam
quase sempre a mim na primeira pessoa do plural, cheios de diminutivos
surpreendentes:
– Vamos tomar este comprimidinho, vamos ver a nossa temperatura, vamos beber, excepcionalmente, um golinho de água.
Isto
depois de me cegarem com a lâmpada do tecto, no interior da qual o
insecto que eu era se agitava, movendo as pobres patas filiformes, sem
entender, arrepiado, aflito. A claridade desaparecia, as solas diminuíam
no corredor, eis a janela de novo, eis o silêncio, eis o que designam
de noite. Tão escura a noite, tão indecifrável, tão plena de ameaças
confusas, terríveis, contra as quais as minhas pobres mãos quietas nada
podiam, os meus joelhos agudos nada podiam, as frágeis membranas das
minhas pálpebras nada podiam. De vez em quando uma torre no corredor,
um telefone longíssimo, vagos sons dispersos, o colchão tão duro na
minha coluna, suponho que pernas, lá em baixo, que considerava minhas e
não as sentia. Sentia, quando muito, um ténue zumbido à minha roda mas
de quem, mas de quê, meio submerso em trevas fixas, opacas. Sentia os
meus dentes, incapazes de morderem, de morderem-se, a pasta sem forma da
língua, feita de areia e lama. O ar entrava e saía, numa espécie de
assobio vago, no meu corpo esburacado. Não pensava em ninguém. Não
pensava fosse no que fosse: encontrava-me dentro de um pobre verme
inerte, restos de eu que não existiam já.
E tentando dizer
– Eu
que
som me chegaria? Se a morte é isto não é difícil nem estranha, apenas a
continuação de uma queda sem fim apesar de imóvel. De tempos a tempos
vagos rostos inexplicáveis, vagos gestos, vagas palavras, gestos e
palavras que não me pertenciam: o que me pertencia era um vazio
gorduroso que parecia pulsar, uma ausência mas de quê, nem sequer uma
dor: uma ausência absoluta, sem motivo, sem nexo, que me não dizia
respeito, dizia respeito ao escuro que me rodeava, entrando em mim e
afastando-se de mim, eu que sem mim possuía. Tudo tão distante agora,
tão alheio, tão vago. Nome? Se me perguntassem, por exemplo, o nome, não
compreendia a pergunta. O que significa um nome, o que quer dizer um
nome, que coisa é um nome, o que se faz com um nome, eu que nem me
interrogava acerca do nome consoante não me interrogava acerca fosse do
que fosse: o que são interrogações, o que são respostas? Estamos já
depois disso, não descubro os nexos de nada, não penso, não questiono,
aceito se isto é aceitar, se isto é continuar vivo ainda. Continuar
vivo? Qual o sentido de vivo, o que quer dizer? Vivo que palavra
estranha, mais que estranha: impossível. A luz de novo, que aceito sem
aceitar nem rejeitar: sou um objecto ou nem sequer um objecto, algo que
deixou de haver. Que diferença faz que haja ou não é uma pergunta que
não formulo porque não formulo perguntas nem me interessam perguntas,
afasto-me apenas, quer dizer não me afasto sequer, não sou, nunca fui,
já não grito. Nenhum grito. NENHUM GRITO. Nenhum grito mas também
nenhuma paz. Um restinho de areia, um restinho de pó. Não: nem areia,
nem pó, uma espécie de entrada numa espécie de espaço e não entrada nem
espaço, somente uma queda invisível, uma espécie de queda imóvel numa
espécie de ausência que, por sua vez, desaparece também. Agora posso
levantar-me e partir mau grado não ser eu quem se levanta e parte. Quem
é? Não sei, não tenho curiosidade em saber. NÃO TENHO NADA. E o não ter
nada desvanece-se também. Fica a janela apenas. E a noite que cessa.
Só
queria, só queria, só queria, só queria, só que queri, só quer, só que,
só qu, só q, só, s
Com a farinata, Doria distingue a alimentação digna, privilégio de sua
casta,
da nutrição da força de trabalho, um inconveniente a ser
contornado
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Privar crianças do acesso a uma alimentação digna retira dessas pessoas a possibilidade de uma existência plena
Há pouco mais de 30 anos, quando a banda Titãs e a sociedade
brasileira exigiam uma cidadania plena, com diversão e balé, era difícil
imaginar que pedir apenas comida seria um dia uma posição audaciosa.
Pois cá estamos, 2017, uma época em que a cultura é criminalizada e nossos governantes nos obrigam a repensar o significado da alimentação.
O prefeito de São Paulo, João Doria Jr.,
ao propor a distribuição de restos de comida transformados em ração à
população mais vulnerável, é pelo menos consequente com sua visão de
mundo.
Uma visão forjada ao longo de séculos de escravidão da qual ele é,
literalmente, herdeiro, tendo entre seus antepassados senhores de
engenho donos de escravos.
Não é coincidência que uma das principais "publicações" do "grupo Doria" seja uma revista chamada Caviar Lifestyle.
Ao mesmo tempo, o prefeito, em vídeo de 2007, questiona em seu reality
show se os pobres e miseráveis possuem "hábitos alimentares". Claro que
não.
Dória é consistente quando distingue a alimentação digna, privilégio
de sua casta, e a nutrição da força de trabalho, um inconveniente a ser
contornado.
Nenhuma novidade.
Celso Furtado nos recorda, por exemplo, que em momentos de alta no
preço do açúcar os senhores de engenho aumentavam a área de canavial em
prejuízo da cultura de subsistência, levando a episódios de fome entre
escravos e a pequena população livre e pobre.
A deterioração da merenda escolar parece ser prioridade, dentro de um
projeto de abandono dos mais vulneráveis. Derrubar casas com gente
dentro, tirar o leite das criancinhas (Programa Leve Leite, criado pelo
Maluf!), fechamento de unidades de atendimento de saúde, o desastre da
cracolândia apenas demonstram para quê e quem Doria governa.
O recente episódio da ração humana, abençoada pela igreja católica, é apenas mais um capítulo nessa novela distópica.
A falta de transparência, a já notória truculência com que se
apresentam projetos, tem sido amplamente criticadas pela mídia, assim
como o aparente trambique entre empresas de fachada, grandes interesses
corporativos e um prefeito em plena campanha.Tratarei, portanto, de
aspectos culturais e econômicos, não menos centrais à essa questão.
Fome, um projeto das elites
Os brasileiros costumam apreciar a gastronomia
americana. Hambúrgueres, cachorro-quente, batata-frita e onion rings,
até bolacha (ou biscoito, para os cariocas) eles fritam.
A seção de congelados de um supermercado qualquer possui opções de
culinárias internacionais, refeições completas prontas para o
microondas.
Embora muitos prefiram tais comodidades, o que se observa há alguns
anos é o retorno a hábitos alimentares mais tradicionais e menos
dependentes de alimentos processados.
Recorrentes estudos da Organização Mundial da Saúde e outras
entidades que se dedicam ao tema apontam para a necessidade uma
alimentação balanceada, que inclua ingredientes "de verdade", como
arroz, feijão, carne, salada.
Os EUA, que passaram por um processo de urbanização anterior e mais
abrangente do que o brasileiro, além de serem o centro mundial da comida
industrializada, são o mau exemplo nessa história.
O país apresenta um dos maiores índices de obesidade e, menos
frequentemente notado, sua população perdeu em larga medida as
referências alimentares mais básicas. Muitas vezes, fazendo compras por
aqui, tive de explicar ao caixa do supermercado que aquilo era uma
beterraba, uma batata doce ou um rabanete.
A perda de contato com o campo, aliada ao barateamento relativo dos
produtos industrializados frente aos orgânicos, levou os EUA à atual
situação. Ao mesmo tempo, hoje, cozinhar tornou-se um sinal de
sofisticação das classes mais altas.
O Brasil, quanto a isso, é um país privilegiado.
Temos ao menos cinco gastronomias distintas, todas elas riquíssimas, e
o antropofagismo de Oswald de Andrade chegou aos pratos dos "quilos",
onde se misturam sushi e picanha com a maior naturalidade. Já na carta
de Pero Vaz descreve-se não a fome dos locais, que não havia, mas a
fartura de um paraíso na terra. A fome chegou com os portugueses e é um
projeto das elites governantes desde então.
Mantivemos, no entanto, ao longo do tempo, hábitos alimentares que
não apenas nutrem o corpo, mas fazem parte da nossa cultura e
sociabilidade. O almoço na casa da avó, o churrasco com os amigos, a
feijoada no domingo. São experiências que se opõem à tendência de
homogeinização e isolamento e nos dão algum sentido de pertencimento.
A alimentação, o ato de preparar alimentos, já disse Lévi Strauss, é
pilar fundamental de uma sociedade e um sinal de sua
sofisticação. Outros bons exemplos seriam o México ou o Japão.
A proposta da ração humana de Doria vai na contramão do que dizem os
especialistas, do que somos como sociedade e das políticas bem sucedidas
que já estavam em curso na gestão de Fernando Haddad (PT), subitamente
interrompidas, bem com no nível federal, com o Programa de Aquisição de
Alimentos.
Mais um retrocesso, que contraria, inclusive, o Guia Alimentar para a
População Brasileira, de 2014, publicado pelo Ministério da Saúde.
A receita que tirou o Brasil do mapa da fome é simples: promoção da
agricultura familiar e local, o que reduz custos logísticos, com
financiamento subsidiado e seguro de safra e uso da produção em escolas e
hospitais (além do aumento da renda e emprego, é claro).
Tal política barateia os alimentos não-processados para todos e, de
bônus, mantém o pequeno agricultor no campo, reduzindo desigualdades
regionais e pressões sobre os centros urbanos. Há ampla evidência, por
fim, de que uma alimentação saudável reduz os custos com saúde.
Privar crianças e vulneráveis do acesso a uma alimentação digna
retira dessas pessoas a possibilidade de uma existência plena,
reduzindo-as a máquinas que necessitam de combustível.
Como entender todas as referências da cultura brasileira à comida, os
tantos sambas que dão água na boca, as naturezas mortas que retratam
para eles objetos desconhecidos?
Nenhuma natureza morta seria mais morta do que um quadro daquelas
bolotas cinzas e insossas apresentadas por Doria. Aos eruditos, que
seria de Proust e sua obra-prima se as "madeleines" fossem feitas com
farinata?
---------- * Julio de Oliveira Silva é economista e diplomata, vice-cônsul do
Brasil em Nova York. Os artigos refletem exclusivamente as ideias do
autor e não representam, de maneira alguma, posicionamentos ou
proposições do Ministério das Relações Exteriores FONTE: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-gente-nao-quer-so-comida 24/10/2017
Doze anos depois de Cinzas do Norte, o amazonense Milton Hatoum, 65 anos, volta ao romance com A Noite da Espera, o primeiro da trilogia O Lugar Mais Sombrio — os dois outros volumes devem sair em 2018 e 2019. O escritor afasta-se da Amazônia, seu cenário habitual, para
narrar a trajetória de um estudante em Brasília, durante a ditadura.
Nesta entrevista, Hatoum fala das relações entre vida e ficção.
Nos agradecimentos de A Noite da Espera, o senhor diz que o livro resultou de uma “ideia talvez involuntária” do seu editor, Luiz Schwarcz. Como foi isso? Devo
os dois primeiros volumes ao Luiz. Eu comecei pelo terceiro. Entre 2007
e 2011, escrevi a história de uma mulher franco-brasileira — história
que remonta a 1980, época em que eu morava na Espanha. Quando ele leu,
fez observações e perguntas sobre a vida de outro personagem, Martim. Então, percebi que deveria narrar a vida do Martim e do grupo dele.
Como Martim, o senhor também morou em Brasília e fez
arquitetura em São Paulo. Quanto da sua experiência pessoal entrou na
história? Todo livro é um pouco autobiográfico. Este é mais que os outros, porque é sobre um tempo que vivi, uma escola que frequentei, uma
cidade onde morei. Saí de casa aos 15 anos e me mudei para Brasília e
depois para São Paulo, porque queria estudar arquitetura — Manaus ainda não
tinha o curso naquela época. Eu queria sair da província, queria me
libertar. E fui detido pela polícia, como o Martim. Passei um dia e uma
noite preso, por participar de uma passeata. Não apanhei, mas fui
ameaçado e, na prisão, ouvi gritos de tortura. A experiência é
fundamental na literatura, embora a imaginação deva prevalecer sobre a
sua vida. O sentimento mais profundo daquilo que você viveu importa mais
do que o fato em si.
Houve alguma revisão do texto para aproximar o passado da narrativa do momento político atual?Não.
Eu não queria escrever um romance estritamente político. O livro traz a
vida do Martim, que está meio perdido. A namorada é envolvida com a
política estudantil, ele não. Havia um movimento de liberdade sexual, de
contracultura. Os jovens desejavam romper convenções sociais e
familiares. Era a ideia de Maio de 1968. Foi um sonho interrompido,
cruel e brutalmente. É um romance de formação e de desilusão.
Em certa passagem, um professor acusa um aluno de
afrontar as famílias cristãs ao ler Nietzsche. É um eco de episódios de
repressão religiosa atuais? Eu não tinha essa percepção.
Escrevi o livro há anos. Foi uma coincidência, talvez infeliz. Não
queria que o Brasil passasse por isso, nem queria ver algumas coisas
voltando — e como farsa, como diria Marx.
Já pensou em um livro de memórias? Não. Minha vida não foi interessante ou picante o suficiente. O que não consegui viver, eu imaginei.
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) é um dos órgãos mais polêmicos do Estado brasileiro. Recebe
críticas em qualquer circunstância: quando toma ou não uma decisão e,
principalmente, quando demora a fazê-lo. Nos últimos seis anos, a Anvisa
proibiu os aditivos de sabor nos cigarros, liberou o uso medicinal de
duas substâncias derivadas da Cannabis sativa e mediu forças com o
Congresso, que, em junho passado, aprovou a produção e a venda de
inibidores de apetite, apesar do veto da agência. Diretor da Anvisa
desde julho de 2015, o epidemiologista Jarbas Barbosa, 60, um
funcionário de perfil técnico, sem ligação com partidos, diz não querer
enfrentamento com os parlamentares. Ao contrário, precisa do apoio deles
para modernizar uma legislação incompatível com nosso tempo.
Em que a lei brasileira de registro de remédios está antiquada?
Para um medicamento ser registrado aqui, a lei exige que ele antes
tenha sido autorizado no país de origem. Isso significa que o Brasil
nunca será o primeiro porto para um medicamento inovador desenvolvido no
exterior. Se um laboratório americano criar um medicamento para a
leishmaniose, que não conta hoje com um bom remédio, ele terá, em
primeiro lugar, de gastar centenas de milhares de dólares com a FDA (a agência regulatória americana)
para só depois entrar com um pedido no Brasil. Detalhe: não existe
leishmaniose nos Estados Unidos. Sem essa exigência, teríamos mais
flexibilidade. Outra medida necessária é incluir na legislação a
possibilidade do registro temporário. Em situações muito especiais, a
Anvisa poderia dar o sinal verde por um período de tempo, enquanto é
feita a análise completa do dossiê sobre o remédio. Esse procedimento
seria útil para doenças que não têm muitas alternativas de tratamento.
Em qualquer agência do mundo, a análise de um medicamento novo leva em
torno de um ano. Mas, se a droga já tem registro em outra agência, a
Anvisa poderia dar uma autorização por um ano. Ao longo desse período,
faria a análise e monitoraria os pacientes. Essa é uma discussão global
porque, com o desenvolvimento tecnológico, é preciso que haja mecanismos
que agilizem o acesso.
O registro temporário poderia ser aplicado a
terapias personalizadas como a CAR-T, em que células de defesa do doente
são modificadas em laboratório para atacar os seus próprios tumores?
Sim. Antes que um medicamento ou terapia possam ser comercializados,
eles passam por um estudo clínico de três fases com humanos. No fim da
fase dois, já se tem certeza relativa de que se trata de algo seguro
para o uso. Começa então a fase três do ensaio clínico, cujo principal
objetivo é confirmar a eficácia do medicamento. Um estudo de fase três
pode levar cinco anos para ser concluído. Para algumas situações
inovadoras, como a CAR-T, será que não poderíamos dar autorização para
uso já no começo da fase três? Ainda estamos discutindo mecanismos
inovadores como esse. Seria necessário monitorar tudo, mas a vantagem é
que as pessoas já poderiam aproveitar a nova tecnologia cinco anos
antes.
A Anvisa está sempre brigando contra o tempo?
Estamos trabalhando duro para nos livrar do passado de longas filas
para o registro de medicamentos genéricos e similares. Todo órgão
regulador sofre com a imagem do atraso, até a FDA nos Estados Unidos. A
sociedade, corretamente, demanda mais velocidade, mas tem tolerância
zero com qualquer risco sanitário. As pessoas querem que aquilo que é
feito em um ano seja resolvido em um mês, sem perder qualidade. Não é um
desafio simples.
Em junho, o Congresso liberou a volta ao mercado dos
inibidores de apetite, contrariando posição da Anvisa. Esses
medicamentos serão vendidos no Brasil? Dos quatro anorexígenos a
que a lei se refere, a sibutramina é o único que tem registro no
Brasil, e é comercializado há muito tempo. Os outros três (anfepramona, femproporex e mazindol)
não têm registro e, por isso, dificilmente serão encontrados em
farmácias. Embora a lei aprovada diga que esses medicamentos não
precisam do aval da Anvisa, nenhum laboratório de renome vai se arriscar
a fabricar um desses três inibidores e colocá-lo no mercado sem o nosso
registro. Há riscos envolvidos para as empresas, inclusive o de manchar
sua reputação.
Por quê?Esses medicamentos são dos
anos 1970. Depois de três décadas de uso, estudos científicos mostraram
que eles podem desencadear efeitos adversos, que vão de dependência a
distúrbios cardiológicos e neurológicos. Além disso, não havia nenhuma
comprovação de que eles ajudavam a reduzir o peso a médio e longo prazo.
Como consequência, foram retirados do mercado no mundo inteiro ou
tiveram a circulação restrita. Os laboratórios não comprovaram que eles
eram seguros e eficazes. Mas vamos imaginar que agências reguladoras de
vários países tenham errado. Para sair do impasse, bastaria que um
laboratório qualquer fizesse um estudo clínico atestando a segurança e a
eficácia e pedisse o registro. Isso, porém, não aconteceu.
Desde que a lei foi sancionada, quantas empresas solicitaram autorização da Anvisa para fabricar inibidores de apetite?Nenhuma.
E as farmácias de manipulação? Elas podem produzir esses medicamentos?
A lei diz que estão autorizados a produção, a comercialização e o
consumo. Sendo assim, algumas farmácias de manipulação podem produzir os
inibidores. Da nossa parte, não tentaremos impedi-las. Mas, se elas
quiserem trazer esses medicamentos do exterior, nós negaremos a
importação.
Qual foi o impacto dessa decisão do Congresso para a Anvisa? O problema dos anorexígenos é parecido com o da fosfoetanolamina (refere-se à chamada “pílula do câncer”).
Nesse caso já folclórico, acreditou-se que um pesquisador brasileiro
tinha inventado uma pílula que curava todos os tipos de câncer do mundo (o Senado aprovou a fosfoetanolamina em março do ano passado).
Nos dois casos, dos anorexígenos e da fosfoetanolamina, o Congresso
agiu contra a Constituição, que dá ao Executivo a prerrogativa exclusiva
de autorizar remédios. Desta vez, a própria indústria farmacêutica
reagiu contra a liberação dos inibidores de apetite pelo Congresso. O
medo da indústria é que, no exterior, fique a impressão de que há dois
tipos de medicamento no Brasil: os que passam pelo crivo da Anvisa e os
que são liberados pelo Congresso. Isso desmoraliza a produção nacional e
prejudica quem quer exportar. A indústria farmacêutica brasileira
movimentou 62 bilhões de reais no ano passado. Foi um dos dois únicos
setores industriais que cresceram.
Em breve, o STF pode questionar o veto da Anvisa aos cigarros aromatizados. Isso seria um retrocesso?
A Anvisa não proibiu nenhum aditivo essencial para a fabricação de
cigarros, apenas os que dão sabor. Do contrário, teríamos extrapolado
nossas funções. Apesar de estimarmos que haja 200 000 mortes anuais no
país por doenças diretamente relacionadas ao cigarro, esse é um produto
legalmente permitido. O que a Anvisa fez, em 2012, foi proibir os
aditivos que têm como função induzir crianças e adolescentes à iniciação
precoce. Sendo o fumo um vício danoso à saúde pública, a agência que
trabalha com a promoção e proteção à saúde deve proibir esses aditivos.
Se o STF decidir o contrário, será mais um golpe, sim, contra a Anvisa e
contra outras agências regulatórias do Brasil.
Por quê? Essa é uma questão mais ampla.
Outras agências também se encontrarão em uma situação de incerteza. Seus
diretores ficarão em dúvida a respeito do grau de liberdade que têm
mesmo em assuntos sobre os quais a lei explicitamente diz que devem ser
estudados por suas agências. A Anvisa não começou a regular cigarros do
nada. A lei é que define isso. Se a legislação nos deu esse mandato
específico e criou uma agência para isso, então é nossa obrigação dar o
parecer técnico-científico sobre essas questões.
A Anvisa está em guerra com o Congresso?
Não, ao contrário. Estamos tentando mostrar que os deputados e senadores
podem ser nossos aliados. O grande papel deles é modernizar as leis.
Nós já apresentamos a eles dez propostas com nossas ideias, que foram
muito bem acolhidas. Em vez de criar leis muito específicas, que podem
envelhecer rapidamente, seria melhor o Congresso atualizar o ambiente
regulatório e limitar-se a cobrar eficiência da Anvisa. Às vezes uma lei
bem-intencionada termina criando um problema. Uma delas diz que certos
alimentos precisam trazer no rótulo a frase “não contém glúten”. Mas
ninguém sabe ao certo o que significa isso. Seria ter zero absoluto de
glúten? Ou o máximo tolerável às pessoas que têm problemas com glúten,
os celíacos? A indústria pode ficar insegura e escolher a primeira
opção, estampando a frase apenas nos produtos que não têm nada de
glúten. Isso acaba diminuindo o acesso dos celíacos a vários
alimentos.
Os brasileiros estão deixando de tomar vacinas?
Embora não seja um movimento tão forte como o que acontece nos Estados
Unidos, já vemos grupos organizados em redes sociais reproduzindo os
mesmos argumentos sem base científica dos americanos, como o de que
vacina provoca autismo. No Brasil, há duas classes sociais em que as
taxas de vacinação costumam ficar abaixo do esperado: a A e a E. Para o
pessoal da classe E, embora a vacina seja de graça, levar um filho ao
posto significa perder um dia de trabalho. Se os postos não abrem aos
sábados ou à noite, a mãe da periferia não consegue levar o filho. Só no
primeiro ano de vida dele, ela precisaria fazer isso dez vezes. Já a
classe A evita a vacina por modismo. Existem até alguns médicos que, sem
nenhuma base em evidência, espalham rumores entre as famílias, como o
de que uma criança bem nutrida e em boas condições não tem o risco de
pegar uma doença transmissível.
Em que pé está a liberação do cultivo de maconha para a produção de medicamentos?
A Anvisa já mudou a regulamentação, tirando o canabidiol e o THC da
lista de substâncias proibidas e estabelecendo os limites máximos
permitidos. Essa alteração possibilitou o primeiro registro de um
medicamento à base de THC e canabidiol no país. Tornamos mais fácil a
importação do canabidiol, mas o preço do importado é alto. Se
regulamentarmos a plantação e empresas brasileiras se dedicarem ao
cultivo e à produção, o acesso ficará mais fácil. Até 2018, haverá
audiências públicas e debates com a sociedade sobre a regulamentação da
plantação.
Richard Baldwin, um dos maiores especialistas sobre a globalização, veio
a Portugal discutir a desigualdade numa conferência na Fundação
Francisco Manuel dos Santos. E está convicto que a tecnologia vai passar
a
ser alvo de críticas da sociedade.
A revolução tecnológica e a globalização
colocam novos problemas à economia, problemas esses que têm vindo a ser
combatidos com fórmulas antigas e desadequadas. Para Richard Baldwin,
hoje faz sentido voltar a discutir quem detém os meios de produção, como
dar a todos os cidadãos um rendimento mínimo de sobrevivência e o
aumento do peso do Estado.
A convicção de que toda a gente beneficia com a globalização faz algum sentido face ao que sabemos hoje?
Creio que provavelmente isso nunca foi verdade, no sentido em que há
sempre quem ganhe e quem perca. Até um certo ponto, o próprio conceito
de globalização assenta no favorecimento dos sectores mais competitivos,
ao mesmo tempo que afasta as pessoas dos sectores menos competitivos —
ou seja, a globalização tende sempre a oferecer mais oportunidades aos
cidadãos mais competitivos e a aumentar a competição para os cidadãos
menos competitivos. Mas os ganhos de uns superam as perdas de outros, e
com as medidas certas a nível nacional todos podem progredir. Por isso,
quando existe um progresso geral, talvez possamos dizer que toda a gente
é beneficiada mas, per se, a globalização só é directamente
vantajosa para os mais competitivos. O progresso está exactamente na
transferência de recursos dos sectores menos competitivos para os mais
competitivos. Sempre foi assim, simplesmente isso ocorre agora de
maneira mais rápida e mais óbvia.
E o carácter aleatório dos efeitos da globalização também é cada vez mais óbvio.
Sim,
hoje conseguimos olhar para o efeito da globalização na economia com um
grau de detalhe muito maior. Antes, havia a tendência para aglomerar os
sectores, e a competição media-se pelos bens que cruzavam fronteiras.
Portanto, analisava-se os ganhos e as perdas pelo prisma de todo o
processo de produção de um determinado bem material. Agora, dado que a
globalização permite a fragmentação dos processos de produção, é
possível analisar as várias etapas dos processos de produção. Mais
recentemente, começámos mesmo a observar esses efeitos a nível do
indivíduo, porque passou a ser possível competir individualmente na
economia global. Tanto podemos perder o emprego para um qualquer
departamento informático na Índia, como podemos beneficiar deste
contexto.
Esse maior grau de detalhe que podemos
identificar na globalização deve-se ao facto de hoje a globalização
afectar não só os bens, mas também os serviços e o conhecimento?
Isso
é o que eu chamo a “terceira onda da globalização”. Os avanços na
tecnologia das comunicações e no processamento de informação, as
tecnologias de disrupção digital, estão a fazer com que seja mais fácil
às pessoas prestarem os seus serviços remotamente. Por exemplo, empresas
americanas contratam programadores que vivem no Paquistão ou na
Ucrânia, e que fazem o seu trabalho de lá. Isso é uma tendência cada vez
mais generalizada, mesmo dentro dos países, à medida que as empresas
vão mudando a maneira como trabalham. As hierarquias vão-se reduzindo e o
trabalho organiza-se em projectos independentes. Tudo isso faz com que
seja mais fácil a participação de pessoas que não estão fisicamente no
local de trabalho. O passo seguinte é um trabalhador de uma empresa da
Baixa de Lisboa não estar nos subúrbios de Lisboa, mas no Quénia. O
trabalho remoto e o teletrabalho estão a internacionalizar-se e essa
“terceira onda” da globalização, que se aplica aos serviços e não só à
produção (que irá continuar a desenvolver-se, como até aqui), é a face
mais visível da mudança de paradigma, e irá manifestar-se, por exemplo,
numa competição salarial directa com estrangeiros.
Devemos então pensar em proteger os postos de trabalho e não os trabalhadores?
Eu
iria até mais longe do que isso. A economia está a mudar a um ritmo
mais acelerado. A tecnologia cada vez mais desenvolvida, nomeadamente a
digital, faz com que os produtos percam a relevância e até a utilidade
de ano para ano — as modas e as tecnologias evoluem muito rapidamente. A
noção de que é preciso manter os postos de trabalho como forma de
proteger os trabalhadores é uma falácia, não funciona assim. A
alternativa, que é onde se baseia o conceito de flexicurity, é
um modelo assente numa espécie de contrato social, pelo qual quando se
perde o emprego — seja devido à globalização, à automação, à idade ou a
mudanças climáticas, o que seja — o Estado e a sociedade têm a obrigação
de ajudar o trabalhador a ajustar-se à nova realidade. Pode não
funcionar para toda a gente, mas é um modelo que pelo menos dá uma
oportunidade aos menos favorecidos: todos estão na mesma “equipa”,
vencedores e vencidos. Isto é a maneira de nos focarmos nos
trabalhadores, em vez de nos postos de trabalho. A maneira antiga, as
tentativas de protecção da indústria têxtil ou do calçado, acabou. Pode
adiar os problemas por uns meses ou um ano, mas já não funciona.
E quão preparados estão os países para estas mudanças?
A
maior parte dos países europeus estará relativamente bem preparada, no
sentido em que muitos já têm boas políticas para um mercado de trabalho
activo. Verifica-se que no Sul da Europa há uma tendência para a
manutenção de leis de trabalho mais proteccionistas, que apontam mais
para a protecção dos empregos, mas isso está a desaparecer. E esse
fenómeno acontece num mercado de trabalho dual: protecção do emprego dos
mais velhos, enquanto os mais novos têm de lidar com esta nova
economia. Na Europa existe pelo menos a noção de que a sociedade deve
ajudar os que perdem o emprego a ajustarem-se e a enfrentarem os
desafios. É nos Estados Unidos, principalmente, que vemos que as pessoas
estão entregues à sua sorte. Olha-se para quem fica sem trabalho como
se fosse ou estúpido ou preguiçoso e as pessoas tendem a culpar-se a si
próprias. Ao mesmo tempo, os ganhos obtidos com a globalização e a
tecnologia são canalizados para as elites, e é isso que causa esta
reacção negativa, que vimos bem na campanha de Trump.
Portanto, é um problema não só das instituições mas também dos indivíduos?
Sim,
o maior problema é a impreparação das pessoas para a velocidade com que
estas mudanças estão a ocorrer. E isto começa agora a atingir o sector
dos serviços, que até aqui era visto como um sector não-transaccionável.
Um empregado fabril em Portugal sabe bem o que é a globalização, já há
muito que é afectado por ela, mas um empregado de escritório ou um
bancário não está preparado para que o seu posto seja entregue a alguém
que recebe menos do que ele. Em simultâneo, os mesmos avanços
tecnológicos estão também a trazer cada vez mais automação e
inteligência artificial, por isso estamos perante um duplo desafio para o
sector dos serviços, que terá de enfrentar tanto a globalização como a
automação. Vai ocorrer uma revolta social contra a tecnologia, vejo isso
a acontecer nos próximos três a cinco anos. Da mesma forma que
apontamos o dedo à China ou ao islão ou aos imigrantes, creio que vamos
começar a ver as pessoas a culparem a tecnologia. Um bom exemplo é a
Uber e as reacções que tem provocado. Hoje em dia, a maior parte das
pessoas olha para estas questões como histórias interessantes e
isoladas, mas daqui a pouco tempo será mais óbvio que tudo isto está
relacionado, que a tecnologia está a mudar o mundo, e que nós como
sociedade temos de abrandar e assumir o controlo.
Pensa então que essas reacções negativas vão ocorrer mais nos Estados Unidos do que na Europa?
Sim,
porque nos EUA não existe protecção do trabalhador, que está por sua
conta, e portanto haverá uma maior tendência para isso. Nos Estados
Unidos há 20 anos que o salário médio não sobe. A Administração Bush
teve oito anos para solucionar isso e nada aconteceu. Oito anos de
Administração Obama, a mesma coisa. E por muito que Trump prometa o
contrário, também ele não vai conseguir mudar nada. E, quando os
americanos perceberem isso, prevejo que vão culpar a tecnologia — mas é
um fenómeno global. Tal como temos visto as pessoas a protestarem contra
a globalização ou contra os imigrantes — pelo menos nos países mais
ricos —, o mesmo irá acontecer relativamente à tecnologia. Claro que os
níveis são diferentes — perder o emprego em França não significa que uma
pessoa se torne sem-abrigo ou que uma família seja destruída.
Mesmo
assim, dentro da União Europeia (UE) há realidades muito distintas, até
em termos salariais. Não deveria a UE tentar uma uniformização dessas
realidades antes de se preparar para enfrentar essa nova realidade?
Certo.
A questão do salário mínimo é complexa. Creio ser algo que é
fundamentalmente uma questão nacional e que mexe com sensibilidades
nacionais. É preciso ter cuidado com aquilo que desejamos: se a Alemanha
fizer subir os salários portugueses, também a competição que Portugal
irá enfrentar será muito diferente. Em muitos países, os baixos salários
são um factor da competitividade desse próprio país, e os países mais
ricos adorariam ver esfumar-se essa competitividade. Acredito que os
países deviam apostar menos nas políticas regionais e concentrar-se mais
na ajuda directa à população, nomeadamente na aprendizagem de novas
competências.
Em Portugal isso é especialmente verdade,
porque temos a segunda taxa mais baixa de ensino médio a nível europeu,
ao mesmo tempo que nos debatemos com um grande envelhecimento da
população, num momento muito delicado para as empresas. Num quadro como
este, deveria a UE intervir?
Sim, mas em termos de
educação e formação, e não em estradas e aeroportos desnecessários.
Reagir à globalização com uma estratégia baseada nas infra-estruturas é
próprio de uma lógica centrada na produção e na construção. Mas esta
globalização afecta também os outros sectores, e isso torna as coisas
muito diferentes. É por isso que defendo uma reforma das políticas
regionais, das quais um exemplo seria as políticas agrícolas. Creio ser
um erro esperar que a UE resolva os problemas de cada país, porque 99%
dos problemas são nacionais. Primeiro é preciso pôr a nossa casa em
ordem. Não quer dizer que não haja possibilidade de medidas
supranacionais, como políticas agrícolas comuns, mas todo esse dinheiro
tem de ser canalizado para outras prioridades.
Já afirmou que os impostos sobre o trabalho não funcionam. Como irá então acontecer essa redistribuição dos meios de produção?
Depende
da velocidade a que estes fenómenos se sucederem. Se acontecerem muito
rapidamente, irão provocar uma convulsão, o que levará inevitavelmente a
uma grande agitação social. Tal como aconteceu na crise global, que
levou a uma regulação maciça do sector bancário, e que politicamente não
teria sido possível antes, ou como nos anos 30, com a introdução do
Estado social, da taxação dos rendimentos ou da educação universal. Eu
vejo esta questão mais a longo prazo, e aquilo que me preocupa (é,
aliás, o tema do meu próximo livro) é que as pessoas não estão cientes,
ou estão em negação, da rapidez com que isto pode acontecer. É para isso
que tento chamar a atenção.
Há muitos caminhos possíveis para o
longo prazo, nomeadamente no que se refere aos impostos e ao
desenvolvimento da tecnologia. Se a tecnologia evoluir como os
caminhos-de-ferro, em que há uma rede detida apenas por uma empresa,
então vamos ter um problema, porque essa empresa terá tanto poder que
mesmo o poder político não terá legitimidade para lhe exigir um imposto
de 90%. Mas também pode evoluir para um sistema como o dos carros, em
que cada pessoa é proprietária do seu, descentralizando assim essa
realidade económica. Ainda não é certo como se vai processar esta
evolução, mas no entretanto é nosso dever fazermos com que todo esse
poder não se concentre na mão de umas poucas empresas, principalmente
estrangeiras. Não sou totalmente contra o investimento estrangeiro, mas
se a Google e a Amazon fizerem tudo para toda a gente do mundo, isso
será um problema para a Europa e para a Ásia e para todos os outros
continentes.
Se precisamos que os governos façam mais, como fazê-lo sem provocar uma grande ineficiência do sector público?
Creio
que um bom ponto de partida são os sistemas que temos actualmente no
Canadá e na Europa. As pessoas vão ter de mudar de emprego mais vezes,
mas esse elemento-base de mudar de emprego e procurar um novo trabalho
não é nada de revolucionário, são apenas as mudanças sociais a
acontecerem mais rapidamente. Acho que essas medidas têm de ser
reforçadas e enquadradas politicamente, para que as pessoas percebam que
os governos sabem que estes são tempos de mudança e que estão a dar o
seu melhor para as ajudar, e não se culpem a si próprias nem acreditem
num qualquer lunático que diz que a culpa é da tecnologia ou de outra
coisa qualquer. Creio que grande parte da resposta está no discurso
político.
'Não sou santo, já errei e fiz muito sacanagem em campo'
Na sala de Tite, 57, no segundo andar do prédio da CBF (Confederação
Brasileira de Futebol), no Rio, planilhas e relatórios sobre jogadores
dividem espaço com símbolos religiosos. Três imagens de santas, um
crucifixo, uma imagem do Papa Francisco e uma folha com uma oração do
dia estão lá.
O técnico que comandou a melhor campanha de uma seleção nas
eliminatórias se diz crente num bom desempenho da equipe na Copa Mundo
de 2018 e aponta o Brasil como favorito. Jura também acreditar que seu
time não recorrerá à malandragem para vencer.
"Atleta meu que viu algo errado a seu favor, marcação do árbitro, pode falar. Diga mesmo. Como aconteceu com o Rodrigo Caio [zagueiro do São Paulo avisou ao juiz que Jô não tinha feito falta marcada em clássico]. Vai ter aval do técnico", afirma à Folha.
"Dei vazão ao meu sonho e tenho autonomia no departamento da seleção
para fazer o melhor possível. Isso que abriu a condição de vir para cá. A
forma de abrir esse caminho e daqui a pouco ser um exemplo é o que me
trouxe aqui", diz, sem responder se há arrependimento por ter defendido a
saída do seu atual chefe.
*
Folha - A seleção é favorita ao título na Copa do Mundo? Tite - Sim, é uma das favoritas. Não só pela campanha nas
eliminatórias para a Copa, mas pelo desempenho. A minha exigência é de
desempenho, alta performance. Isso eu controlo e exijo. Mas controlar
resultado, não faço. Isso oprime, engessa e é desumano. Eu não tenho
controle sobre resultado. Tenho sobre desempenho, posso exigir. Jogar
bem para vencer.
Quem são os outros favoritos?
Alemanha, Espanha, França e Bélgica são os melhores.
O que aprendeu em um ano e meio na seleção?
Que é uma dinâmica diferente e uma pressão absurda. É outra realidade.
Tem que ser muito preciso no diagnóstico. Não dá para gastar energia em
coisas superficiais.
O Brasil costuma viver entre encantar e jogar para vencer com pragmatismo nas Copas. O que priorizar?
É possível jogar bonito e efetivo. Não são características contrárias,
não são excludentes. O que preciso é respeitar as características dos
atletas. Ela pode ser 1970, pode ser 1982. Tem que respeitar as
características dos atletas.
O senhor conversou com os atletas sobre o 7 a 1 ?
Não conversei. Esse impacto foi quando o Dunga assumiu. Quando eu assumi
a pressão era outra, era pela classificação do Brasil. Era estar
olhando para a tabela e ter um terço da competição rodado e estar na
sexta colocação.
Eu vi preocupação e ansiedade. Os jogadores olhavam para mim e eu me
sentia pressionado por eles. Como se dissessem: cara, me diz o que nós
temos que fazer? No Equador [primeiro jogo], especificamente, eu me
sentia assim. Tamanha era a falta de confiança que eles estavam.
Em nenhum momento o assunto 7 a 1 veio à tona?
Eu não presenciei nada. Foi desumana a cobrança nos profissionais em
2014. Talvez por ser no Brasil. Tudo que fosse menos do que jogar bem e
ganhar a competição era pouco. Foi tudo exagerado. Antes, de
expectativa; depois, de exigência; e depois, de cobrança -ela foi
desumana, ela foi pesada. Para mim, ela passou do ponto.
Pretende levar um psicólogo para a Copa de 2018?
Já trabalhei com profissionais em clubes. Na seleção, vejo dificuldade
pelo curto espaço de tempo. O psicólogo tem que estar inserido dentro da
comissão técnica. Tem que sentir o vestiário quando perde, sentir
quando ganha, quando o cara está puto. No momento, eu não vi ainda. Não
tenho isso fechado.
É verdade que o senhor falou com todos os ex-técnicos da seleção que estão vivos?
Sim, todos eu procurei. O maior deles é o Zagallo. Fiz umas seis, sete
visitas. É um ícone, um visionário. Em 1970, ele enxergava na frente.
Fazia marcação por setor. Estar com ele gera tranquilidade.
Falou com o Dunga?
Não, eu pensei que eu não gostaria que houvesse a conversa se eu
estivesse no lugar dele. A ferida estava muito aberta ainda, por ter
saído. Respeitei isso. Tenho um relacionamento profissional com ele. Não
tomei a iniciativa.
E com o Felipão, técnico da última Copa?
Tentei conversar com todos. Com ele [Scolari] não foi possível. Tentei
contato por e-mail duas vezes e não obtive resposta, ai vi que não ia
ter diálogo e desisti. [entenda motivo da briga entre Scolari e Tite ]
Ricardo Nogueira/Folhapress
Luiz Felipe Scolari e Tite discutem em clássico Corinthians e Palmeiras
Como é trabalhar com Neymar?
É muito fácil. Eu trato ele de forma igual. Ele tem um coração desse
tamanho [abre os braços e as mãos]. É um outro lado que as pessoas não
conhecem. É do bem. Ele tem pequenos gestos que mostram solidariedade.
Até nesse episódio com o Cavani. Ele marca o gol e aponta para o Cavani.
Ele é do bem, bom coração
Mas antes disso teve a briga, ele exigiu bater o pênalti. Na seleção existiria essa discussão dele com outro jogador?
Não vamos comparar. Ele [Neymar] é um dos batedores. Treino com ele, Daniel Alves, Coutinho e Willian.
Tem um batedor oficial?
O 1 é o Neymar.
Quem será o capitão na Copa?
Os mais experientes vão ser, mas vai mudar de jogo a jogo.
Na sequência de amistosos, vou dar oportunidade para cada um que não foi
ainda de ser capitão. Quero dividir as responsabilidades. Essa é a
nossa cultura. É diferente do europeu. O Terry, por exemplo, ficou não
sei quanto tempo na Inglaterra. Na hora que ele levanta, todo mundo
levanta. Nós não temos isso. Para mim, isso não funciona. Aqui a
responsabilidade é diluída.
Não tem essa história de quando a equipe está mal e toma um gol, você
falar: mas o capitão não falou nada. E os outros? O Didi na Copa de 1958
não era o capitão e foi lá, pegou a bola quando o Brasil levou o gol.
Não dá para arder no rabo de um só.
Estar com time fechado não pode ser uma armadilha para a Copa? Exemplos como 2006, 2010 e 2014 servem de alerta?
Pode ser [uma armadilha]. Mas qual é o mundo real meu? Eu tenho 15 jogos. Minha amostragem é muito pequena.
Eduardo Knapp/Folhapress
Anotações escritas por Tite (tecnicio da selecao brasileira) em lousa na sua sala na sede da CBF
Se chegar alguém atropelando como o Neymar em 2010?
Vai para dentro do time. Levo sem testar. E dou exemplo prático. O
Gabriel Jesus entrou. E foi titular no primeiro jogo. Tinha 19 anos. Se
surgir outro assim, vem pra dentro.
Você acha que um dia o Neymar será o melhor do mundo?
O Neymar leva o prêmio em três anos, no máximo. Hazard, Griezmann e
Pogba serão os rivais. Agora, por que três anos? A idade chega para todo
mundo e ela tira a competitividade, e isso vai acontecer com o Messi e
com o Ronaldo. Aí o Neymar vai chegar.
Treinador na Copa tem muito assédio, o que o senhor pretende fazer além do trabalho com a equipe? Vai fazer comerciais?
Eu recusei mais de 100 palestras empresariais. Vou para uma palestra
agora em Nova York. Vai ser nas férias. Tenho situações de fazer
publicidade. Não vou fazer bebida, cerveja. Já houve sondagens, mas não vou fazer.
O Brasil vive um período de divisão, de conflito e o Tite acaba sendo uma unanimidade rara num momento desses.
Eu não sou unanimidade, não me considero. Mas vejo que pessoas me olham e
me consideram como alguém do bem. Procuro não fazer sacanagem. Já fiz
muita sacanagem em campo, já errei muito, é humano. Já pedi para atleta
cair, para sair de campo e acabar o jogo. Não sou um poço de correção,
não sou santo, mas tenho princípios calcados. Quero ser melhor
preservando lealdade.
Atleta meu que viu algo errado a seu favor, marcação do árbitro, pode
falar. Diga mesmo! Vai ter aval do técnico. Como aconteceu com o Rodrigo
Caio [zagueiro do São Paulo avisou o árbitro que Jô não tinha feito
falta no goleiro em clássico contra o Corinthians].
Se tiver gol de mão para o Brasil na Copa?
Se foi de mão, tem o meu aval [para avisar]. Pode falar para o árbitro.
Não tem problema se eu for criticado. Me importo com a minha consciência
e os meus princípios. Importa o que o seu Agenor e a Dona Ivone me
ensinaram.
Se tiver que pagar o preço de vencer fazendo uma coisa errada
conscientemente, eu largo, vou fazer outra coisa, vou ficar em paz
comigo mesmo. Eu não preciso disso. Eu não sou puritano, não. Sou
convicto dos meus conceitos. Quero ser melhor, mais ágil, mais
estrategista. É isso que eu quero ser. Eu não quer ser o maior filha da
puta. Não me agrada, não me serve.
Corrupção é o maior problema do Brasil?
Sim, é. Isso dói, isso mata.
O senhor apoia a Lava Jato ?
Apoio. E tudo o que o Ministério Público está fazendo. Preciso de transparência. Precisamos saber as coisas como elas acontecem.
Qual o político que mais decepcionou o senhor?
Não posso nominar. Eu posso, eu quero, mas eu não devo. Estou numa
atividade que estou focado no meu trabalho. Eu posso dizer que a falta
de transparência me deixa mal. Não poder dizer, mostrar em quem vai
votar. Isso afronta os meus princípios. Afronta os meus princípios ter
um acidente e não poder fazer o bafômetro no motorista porque uma regra
diz que não pode criar prova contra si mesmo. Não posso fazer prova
contra mim, mas posso matar o outro. Que lógica é essa? Isso me afeta,
me indigna.
Morando no Rio, como vê a escalada de violência na cidade?
Chateia muito, me fere como ser humano. Outro dia eu estava andando com a
minha esposa. Eu tinha um compromisso do outro lado da cidade. Ela
perguntou: tu vai passar onde está dando o tiroteio? Olhou no Google,
viu onde era e não deixou. Essa sensação de insegurança é difícil.
Você quer continuar na seleção após a Copa?
Eu procuro não fazer um planejamento a médio e longo prazo. Gostaria de
fazer um ciclo inteiro. Gostaria de fazer esse ciclo [quatro anos]. Mas
vai depender do trabalho e do resultado.
RAIO - X - TITE
NOME
Adenor Leonardo Bachi IDADE
56 anos EQUIPES QUE TREINOU
Guarany-RS, Caxias, Veranópolis, Ypiranga-RS, Juventude, Grêmio, São
Caetano, Atlético-MG, Palmeiras, Al Ain (EAU), Internacional,
Corinthians e seleção brasileira PRINCIPAIS TÍTULOS
Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Copa Sul-Americana, Libertadores e Mundial de Clubes
*************************
À pedido da Folha, o técnico da seleção brasileira, Tite, respondeu a perguntas dos colunistas do jornal.
Tostão - Quando Lugano o chamou de encantador de serpentes, na ESPN,
de ser capaz de convencer a todos, recebeu como um elogio ou uma
crítica?
Como uma crítica. Aceito a crítica, mas não quero emitir opinião sobre ela.
Mariliz Pereira Jorge - Se arrepende de ter assinado manifesto que
pediu a saída de Marco Polo Del Nero da CBF? O que mudou desde então?
Dei vazão ao meu sonho e ter autonomia no departamento da seleção para
fazer o melhor possível. É isso que abriu a condição de vir para cá. A
forma de abrir esse caminho e daqui a pouco ser um exemplo é o que me
trouxe aqui
Juca Kfouri - Sente algum incômodo para ter liberdade de se posicionar politicamente sobre a CBF?
Eu externei e continuo falando de que transparência, modernidade e
profissionalização. Eu recebi diversos técnicos aqui e deixo aberto todo
o departamento de seleção. Eu não tenho condição de julgar o outro
departamento.
Paulo Vinícius Coelho - Qual a sua opinião sobre árbitro de vídeo?
Para mim, ela transcende. Ela é mais profunda. A discussão tem que ser
do justo, do correto. Todas as iniciativas, chip, árbitro de fundo, que
te dão a condição do ser justo é a essência do fato. Sou favorável ao
árbitro de vídeo, sim.---------- Reportagem por PAULO PASSOS
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
RESUMO O autor analisa o atual fenômeno de relativização da
verdade à luz de conceitos como o perspectivismo nietzschiano. Ele
sustenta que, num cenário de produção e consumo ininterruptos de
informação, a ambiguidade do conteúdo difundido parece ser pré-requisito
para despertar o interesse do público e fidelizá-lo.
*
Integram o cortejo dos espectros que rondam Donald Trump, presidente dos
Estados Unidos, certas noções vagas como "pós-verdade" e "cultura
pós-factual", as quais, a despeito de sua fluidez, aparecem no debate
público como se fossem conceitos filosóficos.
Ambas designam a poluição da mídia por notícias falsas, ou "fake news",
e geram uma transformação nas relações entre verdade e mentira. Já não
se pergunta simplesmente se uma notícia é falsa ou verdadeira, mas em
que consiste a noção de verdade de uma informação. Ou seja, a própria
ideia de verdade surge como um problema.
Declarações ambíguas, enviesadas, enganosas ou derivadas de enganos são
na prática equiparadas a mentiras inventadas deliberadamente pelos mais
diversos motivos: ganhar dinheiro de anunciantes, alcançar resultados
eleitorais específicos, formar e influenciar correntes de opinião,
induzir metas de políticas públicas e reforçar vínculos de identificação
coletiva, formatando maneiras de pensar e sentir em determinados
segmentos sociais.
Trata-se, portanto, de solapar o crédito de informações que se pretendem
objetivas, como se não houvesse um critério para diferenciar a notícia
falsa da verdadeira. O leitor, largado num meio sabidamente repleto de
mentiras, pode nivelar por baixo e duvidar de todos os conteúdos
publicados, ou pode agarrar-se àqueles que lhe pareçam mais apropriados.
Zanone Fraissat/Folhapress
'Arte de vandalizar/Pixo, existo', pichação de Djan Ivson, artista que ilustra a edição da Ilustríssima de 19 de fevereiro
Que importa se, objetivamente, era possível medir o tamanho do público
presente à cerimônia de posse de Trump? O governo americano sentiu-se à
vontade para mencionar um número maior, iniciativa que depois uma
assessora do presidente definiu como a apresentação de "fatos
alternativos".
Não existe nesse tipo de atitude nada que se confunda com a postura
filosófica do perspectivismo, segundo o qual o ponto de vista de cada um
interfere no modo de conhecer e apreender a verdade (que existe). Na
era da "pós-verdade", tudo se passa como se a verdade simplesmente não
existisse e todos os pontos de vista tivessem valor idêntico -como se a
suposta "verdade" divulgada pelo governo americano não fosse pior do que
a "verdade" factual apurada pelos jornais tradicionais.
Ora, se todas as "verdades" são igualmente válidas, se cada cidadão pode
escolher o ponto de vista de seu agrado, qual o sentido de um debate
público que busque o esclarecimento? Em outras palavras, está em jogo o
emprego sistemático de técnicas de propaganda para obliterar e
entorpecer a capacidade de pensar criticamente.
O filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), falsamente identificado como
precursor desse relativismo ambientado na penumbra em que todos os
gatos são pardos, foi, em vez disso, o pensador que antecipou um
conflito eventual que pode nos ajudar a compreender as agruras do
momento problemático que atravessamos.
É conhecida sua formulação: e se o erro, a falsidade, o engano
revelarem-se, tanto quanto a verdade, essenciais como meios úteis para a
conservação da vida? Essa pergunta incomoda o pensamento filosófico
desde que Nietzsche teve a ousadia de colocá-la em toda sua extensão e
profundidade.
Ora, os fenômenos que nos confrontam hoje podem ser interpretados na
chave hermenêutica que Nietzsche generosamente nos colocou nas mãos.
Vivenciamos um conflito entre verdade e condições de existência. De que
existência, porém, se trata aqui? Daquela que, como pensava Nietzsche,
sempre se produz em termos de relações de poder, de jogos de força em
que encontram apoio e expressão interesses vitais, desejos, temores,
expectativas de reconhecimento, aspirações de domínio e estratégias de
resistência.
Identifiquemos, então, algumas das variáveis no debate atual sobre a
definição e as consequências das "fake news" para os rumos da cultura e
da política nas democracias contemporâneas.
VERIFICAÇÃO
Com a explosão dos novos meios de comunicação no ambiente digital,
distribuídos pela malha includente da sociedade global em arranjos de
alta capilaridade (rizomáticos, a rigor) e se reproduzindo em milhares
de centros virtuais dificilmente localizáveis e responsabilizáveis (nos
sentidos ético e jurídico), torna-se instável a possibilidade de
verificação isenta de fatos, bem como muito mais dinâmica e inventiva a
produção e a circulação de mensagens, seja qual for o seu teor.
Em sociedades lastreadas na troca de informações e na comunicação
sustentada por tecnologias de ponta, que se autorreplicam e formatam
todos os setores da vida -economia, política, educação, cultura etc.-,
os interesses estratégicos e as condições de existência estão
estreitamente vinculados às possibilidades, tecnologicamente
facilitadas, de "tornar-comum" o conteúdo veiculado, ou seja, de
difundi-lo a um universo amplo de pessoas e de reduzi-lo a sua dimensão
mais simplória, num movimento que cria oportunidades para o vulgar e o
sensacionalista.
Com isso, torna-se possível inserir nessas redes tudo o que for capaz de
abastecê-las com eficiência, passando, então, a fazer parte da
"nutrição cotidiana" de cada um. Não importa tanto se o conteúdo é
"verdadeiro"; importa acompanhar "como a coisa rola". A ambiguidade das
mensagens é condição necessária para manter acesa a avidez por
"novidades", a reiteração da expectativa curiosa em espiral infinita.
Informações transformaram-se em mercadorias intercambiáveis num arranjo
cujos agentes são reduzidos ao denominador comum de consumidores e cuja
lógica operante é a da produção e da circulação mercantil.
Razão pela qual importa menos a pretensão de validade do que a
expectativa de realização de desejo que a informação venha a satisfazer.
Por isso adquire plausibilidade o pseudoargumento: afinal, o que é a
verdade, já que temos bons motivos para descrer de toda verificação
factual?
A imputação de falsidade por parte de um opositor funciona como seu
contrário. Reforça convicções previamente firmadas, preconceitos
arraigados e impermeáveis a razões, mas dóceis às moções afetivas de
autoidentificação.
Daí por que notícias inventadas na esteira do sensacionalismo midiático
não são desqualificadas, mas, ao contrário, reafirmadas e até
estimuladas pelos melhores esforços para desmascará-las; pois o que
importa para os atores e as organizações sociais interessados na
proliferação desse tipo de comunicação é manter acesa a chama da
curiosidade que elas atiçam e alimentar o falatório até suas derradeiras
possibilidades de rendimento.
Uma explicação para isso encontra-se na lógica interna de tais
processos, infensos ao escrutínio crítico, já que o único critério que
conta são os acessos, ou indicadores quantitativos de consumo.
Desenvolve-se uma simbiose perfeita entre a comprovada demanda crescente
dos clientes e o rendimento auferido graças à divulgação de material
publicitário.
Dado que os indicadores de acesso substituem os antigos critérios de
verificação, embute-se o risco de esse novo parâmetro gerar um círculo
vicioso: a quantidade de acessos quase sempre está em relação com o
potencial de atração contido na distorção da mensagem. Isso significa
que o horizonte de avaliação é o do impacto causado.
Para manter vivo o interesse pela informação vale tudo, inclusive
induzir e filtrar seletivamente as escolhas preferenciais do leitor por
meio de algoritmos que "adivinham" sites mais consentâneos com suas
tendências. As possibilidades e limites da apropriação
político-ideológica dos conteúdos, bem como aquelas de seu controle
responsável, são virtualmente indetermináveis, e isso a despeito de
todas as catastróficas consequências que esse desregramento pode causar,
dentre as quais o estímulo ao cinismo irresponsável, o desfecho
eleitoral pernicioso e a destruição sistemática de reputações.
A capacidade de pensar por si e de assumir responsabilidades por
opiniões e ações passa pela antiga e saudável desconfiança e pelo
esforço de nos distanciarmos do que se nos pretende impingir como última
novidade, como sinal dos tempos da "pós-verdade".
É possível que se oculte aí apenas um velho fetiche, uma manobra
diversionista para desviar a atenção e dispensar da reflexão, reforçando
o isolamento narcísico que parece estar vinculado à inclusão aparente e
à conexão em redes de comunicação com alcance planetário.
-------------------
* OSWALDO GIACOIA JUNIOR, 62, é professor titular de história da filosofia contemporânea e ética na Unicamp.
RESUMO Em resposta a artigo de Jessé Souza
(22/9), autor afirma que escravidão e corrupção são aspectos
indissociáveis na nossa história. Argumenta que as desigualdades
moldadas no passado escravista se reproduziram e se transformaram dentro
de um consórcio da elite com o Estado, num arranjo hoje enfrentado pela
Lava Jato.
*
Pode-se acusar Jessé Souza de tudo, menos de falta de ambição. Em
recente intervenção na "Ilustríssima" (22/9), o sociólogo reivindicou a
autoria de uma interpretação singular do Brasil. A chave para o
entendimento do país seria a escravidão, e não a corrupção, como
supostamente afirmaram nossos grandes autores do século 20.
Não me parece possível, porém, separar esses dois aspectos na nossa
história. Mesmo Sérgio Buarque de Holanda (1902-82) e Raymundo Faoro
(1925-2003) vão apontar como grande problema o papel do Estado na
criação ou no reforço de oligarquias atrasadas. Esses dois intelectuais
não analisaram a corrupção como uma falha moral inerente ao brasileiro,
mas sim como um sintoma dos diferenciais de poder que distinguem a elite
da maior parte da população brasileira.
Por outro lado, Souza tem razão quando critica o reduzido destaque
atribuído à escravidão nessas e em muitas outras interpretações do
Brasil. Ao ajustar o foco da análise, contudo, comete o mesmo pecado que
reprova corretamente em Faoro: enxergar uma continuidade sem quebras
entre o passado e o presente.
A escravidão é essencial para a compreensão do Brasil por ter intensificado a desigualdade social
e moldado suas formas mesmo após a abolição, em 1888. A intensa
discriminação racial existente até hoje é evidente quando notamos que
negros ainda recebem metade do salário dos brancos e que, a cada 100
pessoas assassinadas no país, 71 são negras.
A questão, entretanto, não deve ser denunciar sua herança, mas
investigar como as iniquidades dela derivadas se reproduziram e se
transformaram ao longo do tempo. Para isso, é preciso entendê-las, não
simplesmente culpar o passado por todos os males do presente.
Diferentemente do que pensa Souza, por exemplo, os escravos não estavam condenados a constituir famílias desestruturadas.
Apesar das dificuldades inegáveis, como o maior número de homens que de
mulheres entre os cativos e as restrições senhoriais a casamentos que
ultrapassavam a porteira da propriedade, muitos escravos conseguiram
compor núcleos familiares estáveis. Em diversas regiões, cerca de um
terço dos cativos adultos era casado ou viúvo, como historiadores têm
demonstrado há mais de 30 anos.
A proporção de famílias monoparentais (isto é, com apenas um dos
genitores, geralmente a mãe) entre a população pobre também variou ao
longo do tempo, aumentando gradualmente desde o final do século 20.
Além disso, como esse fenômeno ocorre em outros países, como os Estados
Unidos, inclusive entre os brancos, a responsabilidade dificilmente será
apenas da escravidão, mas também da urbanização, do enfraquecimento da
religião institucionalizada e da crescente autonomia econômica e
jurídica das mulheres.
Da mesma maneira, Souza atribui mecanicamente à herança escravista
diversas características da sociedade brasileira que também se encontram
em países nos quais essa instituição foi pouco relevante, como o México
e a Índia.
Um exemplo é a exploração do trabalho doméstico pelos segmentos mais
favorecidos. Os baixos salários e a concentração de renda permitem que
os estratos sociais superiores utilizem a mão de obra das camadas
subalternas para tarefas que, em regiões mais ricas e menos desiguais,
seriam realizadas pela própria família de classe média ou alta.
O problema não é apenas a escravidão no passado, mas o fato de que optamos por reproduzir a desigualdade
no presente —inclusive a racial. Como apontou o sociólogo Pedro
Ferreira de Souza, a desigualdade dos países europeus no início do
século 20 era similar à nossa; ocorre que, enquanto as disparidades
diminuíram no Velho Mundo entre as décadas de 1940 e 1970, elas
permaneceram estáveis por aqui.
ESTADO E MERCADO
O mais curioso é que, para Jessé Souza, a dominação parece não passar
pela esfera estatal, pois o "poder social real" teria sua base no
mercado. Contudo, desde o período colonial havia uma comunidade de
interesses entre a elite e o Estado metropolitano, pois ambos os polos
dependiam da exportação de produtos agrícolas cultivados por escravos,
como enfatizou o brasilianista Stuart Schwartz.
Assim, desde o século 16, as classes dominantes do Brasil se
constituíram numa relação umbilical com a monarquia portuguesa. As
elites coloniais serviram à Coroa e receberam como recompensa cargos que
lhes permitiram extrair recursos da sociedade por meios legais e
ilegais, como demonstrou o historiador João Fragoso.
A própria constituição do Estado nacional após a independência baseou-se
na defesa estatal do tráfico atlântico de africanos escravizados
—inclusive após a decretação de sua ilegalidade, em 1831—, cujo
propósito era garantir a oferta de trabalhadores para as lavouras de
café em expansão devido à crescente demanda do mercado mundial, como
argumenta o historiador Tâmis Parron.
Do mesmo modo, contribuíram para nossa hierarquização social excludente o
financiamento da vinda de imigrantes europeus entre 1880 e 1930 em
detrimento dos libertos, a utilização do poder repressor do Estado
contra as classes subalternas e a permissão tácita para a violência pessoal que continuou a ser exercida pelas oligarquias.
Portanto, a separação entre Estado e mercado é artificial: as relações
econômicas dependem da regulação governamental —que deve, inclusive para
os liberais, garantir os direitos de propriedade, o respeito aos
contratos e a ordem pública.
O Estado sempre redistribui os recursos que extrai da sociedade, mas
essa redistribuição pode tanto diminuir quanto aumentar a desigualdade.
No linguajar de economistas como Daron Acemoglu, o Estado brasileiro é
caracterizado por instituições extrativas que favorecem elites
politicamente bem relacionadas por meios legais (como a estrutura
tributária regressiva) e ilegais (a corrupção), intensificando a
concentração de riqueza.
Ao mesmo tempo, a base da dominação do Estado pelas elites está na
desigualdade estrutural, que lhes garante recursos políticos, sociais e
econômicos muito superiores aos do restante da população. Assim, a
disputa política muitas vezes se torna uma luta somente entre setores da
oligarquia pelo controle dos recursos públicos.
Desigualdade socioeconômica e utilização do Estado para fins privados
não são, portanto, explicações alternativas para os problemas do Brasil.
São aspectos indissociáveis de um mesmo fenômeno e se reforçam
mutuamente.
PLUTOCRACIA
A partir da década de 1920 e, principalmente, após 1985, a gradual
inclusão da população em geral no jogo político lançou novos desafios
para as elites. As demandas dos setores intermediários e subalternos
forçaram a construção de um Estado de bem-estar social, atuante sobretudo nas cidades.
A imprensa ampliou seu papel nas disputas eleitorais, influenciando
parcelas cada vez maiores da sociedade a partir da difusão de novos
meios, como o rádio e a televisão. É possível identificar um viés
liberal-conservador em muitos órgãos de comunicação, mas é preciso
reconhecer a autonomia intelectual do público.
Para Souza, as denúncias de corrupção são resultado da manipulação
midiática, pois atingem preferencialmente os governos ligados às classes
populares.
O problema nessa argumentação é que, pela primeira vez na história do
país, vários dos principais plutocratas foram não só responsabilizados
por crimes mas também presos. Teria Marcelo Odebrecht aceitado
estoicamente a prisão para derrubar o governo do PT —o mesmo PT que
ampliou o consórcio Estado-mercado que faz a fortuna de tantas empresas
há mais de meio século?
A proximidade dos governos petistas com o grande capital nacional,
evidente na concessão de benesses e no recebimento de vultosas doações
de campanha, sugere que devemos entendê-los como parte integrante do
establishment que reproduz a obscena desigualdade de renda no país, com
destaque especial para a imensa concentração de riqueza no topo da
pirâmide, um grupo que corresponde a 1% da população.
Por sua vez, os liberais-conservadores que assumiram o poder ainda não
conseguiram "estancar a sangria": as diversas investigações continuam a
incomodá-los e a revelar negócios escusos que beneficiaram a plutocracia
nacional e a oligarquia política.
Assim, a Lava Jato parece ser um caso único (ainda que incompleto e
parcial) de ataque à relação umbilical entre Estado e plutocracia, com o
potencial de abalar o caráter extrativo das nossas instituições -isso
se a operação não for interrompida, como quer Jessé Souza, fazendo eco
não só a Lula mas também a Michel Temer, Romero Jucá e Aécio Neves.
A esperança —que pode muito bem se frustrar— de que a Lava Jato
represente o início de uma relação menos incestuosa entre nossas elites
políticas e econômicas não significa ignorar os numerosos erros e
abusos cometidos pelos investigadores e juízes nem pensar que a prisão
de corruptos resolverá os problemas nacionais.
Precisamos de mais política e de menos polícia para garantir que a
redistribuição promovida pelo Estado realmente produza equidade.
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THIAGO KRAUSE, 31, doutor em história pela UFRJ, é autor de "Em Busca da Honra" (Annablume) e professor de história da América na Uerj