quarta-feira, 25 de outubro de 2017

E pronto

António Lobo Antunes*

Vamos tomar este comprimidinho, vamos ver a nossa temperatura, vamos beber, excepcionalmente, um golinho de água. Isto depois de me cegarem com a lâmpada do tecto, no interior da qual o insecto que eu era se agitava

Os olhos das pessoas nas camas dos hospitais, que gritam em silêncio o tempo todo, ensurdecendo-me. Quantas vezes, ao ir-me embora, tinha a certeza de sair dali a gritar também. Claro que nas alturas em que fui internado estou certo que os meus olhos não se calavam igualmente mesmo que tentasse sorrir. Sobretudo à noite, quando ficava sozinho, acompanhado pelo rectângulo mais claro da janela, a certeza que a noite lá fora me trazia apenas tristeza e sofrimento. Depois, de repente, acendiam as luzes, mexiam em mim, injectavam-me ou davam-me remédios a engolir, saíam outra vez e eu estupefacto que fossem capazes de andar, eu que nem sequer conseguia carregar na campainha, ao lado da almofada, que me diziam servir para chamar os enfermeiros, os quais se dirigiam quase sempre a mim na primeira pessoa do plural, cheios de diminutivos surpreendentes:

– Vamos tomar este comprimidinho, vamos ver a nossa temperatura, vamos beber, excepcionalmente, um golinho de água.

Isto depois de me cegarem com a lâmpada do tecto, no interior da qual o insecto que eu era se agitava, movendo as pobres patas filiformes, sem entender, arrepiado, aflito. A claridade desaparecia, as solas diminuíam no corredor, eis a janela de novo, eis o silêncio, eis o que designam de noite. Tão escura a noite, tão indecifrável, tão plena de ameaças confusas, terríveis, contra as quais as minhas pobres mãos quietas nada podiam, os meus joelhos agudos nada podiam, as frágeis membranas das minhas pálpebras nada podiam. 
De vez em quando uma torre no corredor, um telefone longíssimo, vagos sons dispersos, o colchão tão duro na minha coluna, suponho que pernas, lá em baixo, que considerava minhas e não as sentia. Sentia, quando muito, um ténue zumbido à minha roda mas de quem, mas de quê, meio submerso em trevas fixas, opacas. Sentia os meus dentes, incapazes de morderem, de morderem-se, a pasta sem forma da língua, feita de areia e lama. O ar entrava e saía, numa espécie de assobio vago, no meu corpo esburacado. Não pensava em ninguém. Não pensava fosse no que fosse: encontrava-me dentro de um pobre verme inerte, restos de eu que não existiam já. 

E tentando dizer 

– Eu 

que som me chegaria? Se a morte é isto não é difícil nem estranha, apenas a continuação de uma queda sem fim apesar de imóvel. De tempos a tempos vagos rostos inexplicáveis, vagos gestos, vagas palavras, gestos e palavras que não me pertenciam: o que me pertencia era um vazio gorduroso que parecia pulsar, uma ausência mas de quê, nem sequer uma dor: uma ausência absoluta, sem motivo, sem nexo, que me não dizia respeito, dizia respeito ao escuro que me rodeava, entrando em mim e afastando-se de mim, eu que sem mim possuía. Tudo tão distante agora, tão alheio, tão vago. Nome? Se me perguntassem, por exemplo, o nome, não compreendia a pergunta. O que significa um nome, o que quer dizer um nome, que coisa é um nome, o que se faz com um nome, eu que nem me interrogava acerca do nome consoante não me interrogava acerca fosse do que fosse: o que são interrogações, o que são respostas? Estamos já depois disso, não descubro os nexos de nada, não penso, não questiono, aceito se isto é aceitar, se isto é continuar vivo ainda. Continuar vivo? Qual o sentido de vivo, o que quer dizer? Vivo que palavra estranha, mais que estranha: impossível. A luz de novo, que aceito sem aceitar nem rejeitar: sou um objecto ou nem sequer um objecto, algo que deixou de haver. Que diferença faz que haja ou não é uma pergunta que não formulo porque não formulo perguntas nem me interessam perguntas, afasto-me apenas, quer dizer não me afasto sequer, não sou, nunca fui, já não grito. Nenhum grito. NENHUM GRITO. Nenhum grito mas também nenhuma paz. Um restinho de areia, um restinho de pó. Não: nem areia, nem pó, uma espécie de entrada numa espécie de espaço e não entrada nem espaço, somente uma queda invisível, uma espécie de queda imóvel numa espécie de ausência que, por sua vez, desaparece também. Agora posso levantar-me e partir mau grado não ser eu quem se levanta e parte. Quem é? Não sei, não tenho curiosidade em saber. NÃO TENHO NADA. 
E o não ter nada desvanece-se também. Fica a janela apenas. E a noite que cessa. 
Só queria, só queria, só queria, só queria, só que queri, só quer, só que, só qu, só q, só, s
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* Escritor e psiquiatra português.
Crónica publicada na VISÃO 1284 de 12 de outubro
Fonte:  http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2017-10-19-E-pronto

A gente não quer só comida

Julio de Oliveira Silva*

 
 
Alimentação na escola
Com a farinata, Doria distingue a alimentação digna, privilégio de sua casta, 
da nutrição da força de trabalho, um inconveniente  a ser contornado Share
Acervo Monteiro Lobato/Fotos Públicas

Privar crianças do acesso a uma alimentação digna retira dessas pessoas a possibilidade de uma existência plena

Há pouco mais de 30 anos, quando a banda Titãs e a sociedade brasileira exigiam uma cidadania plena, com diversão e balé, era difícil imaginar que pedir apenas comida seria um dia uma posição audaciosa.

Pois cá estamos, 2017, uma época em que a cultura é criminalizada e nossos governantes nos obrigam a repensar o significado da alimentação.

O prefeito de São Paulo, João Doria Jr., ao propor a distribuição de restos de comida transformados em ração à população mais vulnerável, é pelo menos consequente com sua visão de mundo.
Uma visão forjada ao longo de séculos de escravidão da qual ele é, literalmente, herdeiro, tendo entre seus antepassados senhores de engenho donos de escravos.

Não é coincidência que uma das principais "publicações" do "grupo Doria" seja uma revista chamada Caviar Lifestyle. Ao mesmo tempo, o prefeito, em vídeo de 2007, questiona em seu reality show se os pobres e miseráveis possuem "hábitos alimentares". Claro que não.

Dória é consistente quando distingue a alimentação digna, privilégio de sua casta, e a nutrição da força de trabalho, um inconveniente a ser contornado.

Nenhuma novidade.

Celso Furtado nos recorda, por exemplo, que em momentos de alta no preço do açúcar os senhores de engenho aumentavam a área de canavial em prejuízo da cultura de subsistência, levando a episódios de fome entre escravos e a pequena população livre e pobre.

A deterioração da merenda escolar parece ser prioridade, dentro de um projeto de abandono dos mais vulneráveis. Derrubar casas com gente dentro, tirar o leite das criancinhas (Programa Leve Leite, criado pelo Maluf!), fechamento de unidades de atendimento de saúde, o desastre da cracolândia apenas demonstram para quê e quem Doria governa.

O recente episódio da ração humana, abençoada pela igreja católica, é apenas mais um capítulo nessa novela distópica.

A falta de transparência, a já notória truculência com que se apresentam projetos, tem sido amplamente criticadas pela mídia, assim como o aparente trambique entre empresas de fachada, grandes interesses corporativos e um prefeito em plena campanha.Tratarei, portanto, de aspectos culturais e econômicos, não menos centrais à essa questão.

Fome, um projeto das elites 

Os brasileiros costumam apreciar a gastronomia americana. Hambúrgueres, cachorro-quente, batata-frita e onion rings, até bolacha (ou biscoito, para os cariocas) eles fritam.

A seção de congelados de um supermercado qualquer possui opções de culinárias internacionais, refeições completas prontas para o microondas.

Embora muitos prefiram tais comodidades, o que se observa há alguns anos é o retorno a hábitos alimentares mais tradicionais e menos dependentes de alimentos processados.

Recorrentes estudos da Organização Mundial da Saúde e outras entidades que se dedicam ao tema apontam para a necessidade uma alimentação balanceada, que inclua ingredientes "de verdade", como arroz, feijão, carne, salada.

Os EUA, que passaram por um processo de urbanização anterior e mais abrangente do que o brasileiro, além de serem o centro mundial da comida industrializada, são o mau exemplo nessa história.

O país apresenta um dos maiores índices de obesidade e, menos frequentemente notado, sua população perdeu em larga medida as referências alimentares mais básicas. Muitas vezes, fazendo compras por aqui, tive de explicar ao caixa do supermercado que aquilo era uma beterraba, uma batata doce ou um rabanete.

A perda de contato com o campo, aliada ao barateamento relativo dos produtos industrializados frente aos orgânicos, levou os EUA à atual situação. Ao mesmo tempo, hoje, cozinhar tornou-se um sinal de sofisticação das classes mais altas.

O Brasil, quanto a isso, é um país privilegiado.

Temos ao menos cinco gastronomias distintas, todas elas riquíssimas, e o antropofagismo de Oswald de Andrade chegou aos pratos dos "quilos", onde se misturam sushi e picanha com a maior naturalidade. Já na carta de Pero Vaz descreve-se não a fome dos locais, que não havia, mas a fartura de um paraíso na terra. A fome chegou com os portugueses e é um projeto das elites governantes desde então.

Mantivemos, no entanto, ao longo do tempo, hábitos alimentares que não apenas nutrem o corpo, mas fazem parte da nossa cultura e sociabilidade. O almoço na casa da avó, o churrasco com os amigos, a feijoada no domingo. São experiências que se opõem à tendência de homogeinização e isolamento e nos dão algum sentido de pertencimento.

A alimentação, o ato de preparar alimentos, já disse Lévi Strauss, é pilar fundamental de uma sociedade e um sinal de sua sofisticação. Outros bons exemplos seriam o México ou o Japão.

A proposta da ração humana de Doria vai na contramão do que dizem os especialistas, do que somos como sociedade e das políticas bem sucedidas que já estavam em curso na gestão de Fernando Haddad (PT), subitamente interrompidas, bem com no nível federal, com o Programa de Aquisição de Alimentos.

Mais um retrocesso, que contraria, inclusive, o Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014, publicado pelo Ministério da Saúde.

A receita que tirou o Brasil do mapa da fome é simples: promoção da agricultura familiar e local, o que reduz custos logísticos, com financiamento subsidiado e seguro de safra e uso da produção em escolas e hospitais (além do aumento da renda e emprego, é claro).

Tal política barateia os alimentos não-processados para todos e, de bônus, mantém o pequeno agricultor no campo, reduzindo desigualdades regionais e pressões sobre os centros urbanos. Há ampla evidência, por fim, de que uma alimentação saudável reduz os custos com saúde.

Privar crianças e vulneráveis do acesso a uma alimentação digna retira dessas pessoas a possibilidade de uma existência plena, reduzindo-as a máquinas que necessitam de combustível.

Como entender todas as referências da cultura brasileira à comida, os tantos sambas que dão água na boca, as naturezas mortas que retratam para eles objetos desconhecidos?

Nenhuma natureza morta seria mais morta do que um quadro daquelas bolotas cinzas e insossas apresentadas por Doria. Aos eruditos, que seria de Proust e sua obra-prima se as "madeleines" fossem feitas com farinata?
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* Julio de Oliveira Silva é economista e diplomata, vice-cônsul do Brasil em Nova York. Os artigos refletem exclusivamente as ideias do autor e não representam, de maneira alguma, posicionamentos ou proposições do Ministério das Relações Exteriores
FONTE:  https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-gente-nao-quer-so-comida 24/10/2017

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Milton Hatoum: “O que não vivi, imaginei”

O escritor Milton Hatoum em sua casa, na zona oeste de S‹ão Paulo - 25/01/2017

Ficção e memória - Milton Hatoum: “Todo romance é um pouco autobiográfico. Mas 'A Noite da Espera' é mais” (Bruno Santos/VEJA.com)

Milton Hatoum fala de seu novo romance, no qual retrata a geração de jovens que viveram sob a ditadura


Doze anos depois de Cinzas do Norte, o amazonense Milton Hatoum, 65 anos, volta ao romance com A Noite da Espera, o primeiro da trilogia O Lugar Mais Sombrio — os dois outros volumes devem sair em 2018 e 2019. O escritor afasta-se da Amazônia, seu cenário habitual, para narrar a trajetória de um estudante em Brasília, durante a ditadura. Nesta entrevista, Hatoum fala das relações entre vida e ficção.

Nos agradecimentos de A Noite da Espera, o senhor diz que o livro resultou de uma “ideia talvez involuntária” do seu editor, Luiz Schwarcz. Como foi isso? Devo os dois primeiros volumes ao Luiz. Eu comecei pelo terceiro. Entre 2007 e 2011, escrevi a história de uma mulher franco-brasileira — história que remonta a 1980, época em que eu morava na Espanha. Quando ele leu, fez observações e perguntas sobre a vida de outro personagem, Martim. Então, percebi que deveria narrar a vida do Martim e do grupo dele.
 Como Martim, o senhor também morou em Brasília e fez arquitetura em São Paulo. Quanto da sua experiência pessoal entrou na história? Todo livro é um pouco autobiográfico. Este é mais que os outros, porque é sobre um tempo que vivi, uma escola que frequentei, uma cidade onde morei. Saí de casa aos 15 anos e me mudei para Brasília e depois para São Paulo, porque queria estudar arquitetura — Manaus ainda não tinha o curso naquela época. Eu queria sair da província, queria me libertar. E fui detido pela polícia, como o Martim. Passei um dia e uma noite preso, por participar de uma passeata. Não apanhei, mas fui ameaçado e, na prisão, ouvi gritos de tortura. A experiência é fundamental na literatura, embora a imaginação deva prevalecer sobre a sua vida. O sentimento mais profundo daquilo que você viveu importa mais do que o fato em si.
Houve alguma revisão do texto para aproximar o passado da narrativa do momento político atual? Não. Eu não queria escrever um romance estritamente político. O livro traz a vida do Martim, que está meio perdido. A namorada é envolvida com a política estudantil, ele não. Havia um movimento de liberdade sexual, de contracultura. Os jovens desejavam romper convenções sociais e familiares. Era a ideia de Maio de 1968. Foi um sonho interrompido, cruel e brutalmente. É um romance de formação e de desilusão. 


Em certa passagem, um professor acusa um aluno de afrontar as famílias cristãs ao ler Nietzsche. É um eco de episódios de repressão religiosa atuais? Eu não tinha essa percepção. Escrevi o livro há anos. Foi uma coincidência, talvez infeliz. Não queria que o Brasil passasse por isso, nem queria ver algumas coisas voltando — e como farsa, como diria Marx.

Já pensou em um livro de memórias? Não. Minha vida não foi interessante ou picante o suficiente. O que não consegui viver, eu imaginei.
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Publicado em VEJA de 25 de outubro de 2017, edição nº 2553 p.102/103
Fonte: http://veja.abril.com.br/revista-veja/o-que-nao-vivi-imaginei/

O VIGIA DA SAÚDE

 (Jefferson Coppola/VEJA)

O diretor da Anvisa, Jarbas Barbosa, diz que a liberação pelo Congresso dos inibidores de apetite pode desmoralizar o país e prejudicar a exportação


A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é um dos órgãos mais polêmicos do Estado brasileiro. Recebe críticas em qualquer circunstância: quando toma ou não uma decisão e, principalmente, quando demora a fazê-lo. Nos últimos seis anos, a Anvisa proibiu os aditivos de sabor nos cigarros, liberou o uso medicinal de duas substâncias derivadas da Cannabis sativa e mediu forças com o Congresso, que, em junho passado, aprovou a produção e a venda de inibidores de apetite, apesar do veto da agência. Diretor da Anvisa desde julho de 2015, o epidemiologista Jarbas Barbosa, 60, um funcionário de perfil técnico, sem ligação com partidos, diz não querer enfrentamento com os parlamentares. Ao contrário, precisa do apoio deles para modernizar uma legislação incompatível com nosso tempo.

Em que a lei brasileira de registro de remédios está antiquada? Para um medicamento ser registrado aqui, a lei exige que ele antes tenha sido autorizado no país de origem. Isso significa que o Brasil nunca será o primeiro porto para um medicamento inovador desenvolvido no exterior. Se um laboratório americano criar um medicamento para a leishmaniose, que não conta hoje com um bom remédio, ele terá, em primeiro lugar, de gastar centenas de milhares de dólares com a FDA (a agência regulatória americana) para só depois entrar com um pedido no Brasil. Detalhe: não existe leishmaniose nos Estados Unidos. Sem essa exigência, teríamos mais flexibilidade. Outra medida necessária é incluir na legislação a possibilidade do registro temporário. Em situações muito especiais, a Anvisa poderia dar o sinal verde por um período de tempo, enquanto é feita a análise completa do dossiê sobre o remédio. Esse procedimento seria útil para doenças que não têm muitas alternativas de tratamento. Em qualquer agência do mundo, a análise de um medicamento novo leva em torno de um ano. Mas, se a droga já tem registro em outra agência, a Anvisa poderia dar uma autorização por um ano. Ao longo desse período, faria a análise e monitoraria os pacientes. Essa é uma discussão global porque, com o desenvolvimento tecnológico, é preciso que haja mecanismos que agilizem o acesso.

O registro temporário poderia ser aplicado a terapias personalizadas como a CAR-T, em que células de defesa do doente são modificadas em laboratório para atacar os seus próprios tumores? Sim. Antes que um medicamento ou terapia possam ser comercializados, eles passam por um estudo clínico de três fases com humanos. No fim da fase dois, já se tem certeza relativa de que se trata de algo seguro para o uso. Começa então a fase três do ensaio clínico, cujo principal objetivo é confirmar a eficácia do medicamento. Um estudo de fase três pode levar cinco anos para ser concluído. Para algumas situações inovadoras, como a CAR-T, será que não poderíamos dar autorização para uso já no começo da fase três? Ainda estamos discutindo mecanismos inovadores como esse. Seria necessário monitorar tudo, mas a vantagem é que as pessoas já poderiam aproveitar a nova tecnologia cinco anos antes.

A Anvisa está sempre brigando contra o tempo? Estamos trabalhando duro para nos livrar do passado de longas filas para o registro de medicamentos genéricos e similares. Todo órgão regulador sofre com a imagem do atraso, até a FDA nos Estados Unidos. A sociedade, corretamente, demanda mais velocidade, mas tem tolerância zero com qualquer risco sanitário. As pessoas querem que aquilo que é feito em um ano seja resolvido em um mês, sem perder qualidade. Não é um desafio simples.

Em junho, o Congresso liberou a volta ao mercado dos inibidores de apetite, contrariando posição da Anvisa. Esses medicamentos serão vendidos no Brasil? Dos quatro anorexígenos a que a lei se refere, a sibutramina é o único que tem registro no Brasil, e é comercializado há muito tempo. Os outros três (anfepramona, femproporex e mazindol) não têm registro e, por isso, dificilmente serão encontrados em farmácias. Embora a lei aprovada diga que esses medicamentos não precisam do aval da Anvisa, nenhum laboratório de renome vai se arriscar a fabricar um desses três inibidores e colocá-lo no mercado sem o nosso registro. Há riscos envolvidos para as empresas, inclusive o de manchar sua reputação.

Por quê? Esses medicamentos são dos anos 1970. Depois de três décadas de uso, estudos científicos mostraram que eles podem desencadear efeitos adversos, que vão de dependência a distúrbios cardiológicos e neurológicos. Além disso, não havia nenhuma comprovação de que eles ajudavam a reduzir o peso a médio e longo prazo. Como consequência, foram retirados do mercado no mundo inteiro ou tiveram a circulação restrita. Os laboratórios não comprovaram que eles eram seguros e eficazes. Mas vamos imaginar que agências reguladoras de vários países tenham errado. Para sair do impasse, bastaria que um laboratório qualquer fizesse um estudo clínico atestando a segurança e a eficácia e pedisse o registro. Isso, porém, não aconteceu.

Desde que a lei foi sancionada, quantas empresas solicitaram autorização da Anvisa para fabricar inibidores de apetite? Nenhuma.

E as farmácias de manipulação? Elas podem produzir esses medicamentos? A lei diz que estão autorizados a produção, a comercialização e o consumo. Sendo assim, algumas farmácias de manipulação podem produzir os inibidores. Da nossa parte, não tentaremos impedi-las. Mas, se elas quiserem trazer esses medicamentos do exterior, nós negaremos a importação.

Qual foi o impacto dessa decisão do Congresso para a Anvisa? O problema dos anorexígenos é parecido com o da fosfoetanolamina (refere-se à  chamada “pílula do câncer”). Nesse caso já folclórico, acreditou-se que um pesquisador brasileiro tinha inventado uma pílula que curava todos os tipos de câncer do mundo (o Senado aprovou a fosfoetanolamina em março do ano passado). Nos dois casos, dos anorexígenos e da fosfoetanolamina, o Congresso agiu contra a Constituição, que dá ao Executivo a prerrogativa exclusiva de autorizar remédios. Desta vez, a própria indústria farmacêutica reagiu contra a liberação dos inibidores de apetite pelo Congresso. O medo da indústria é que, no exterior, fique a impressão de que há dois tipos de medicamento no Brasil: os que passam pelo crivo da Anvisa e os que são liberados pelo Congresso. Isso desmoraliza a produção nacional e prejudica quem quer exportar. A indústria farmacêutica brasileira movimentou 62 bilhões de reais no ano passado. Foi um dos dois únicos setores industriais que cresceram.

Em breve, o STF pode questionar o veto da Anvisa aos cigarros aromatizados. Isso seria um retrocesso? A Anvisa não proibiu nenhum aditivo essencial para a fabricação de cigarros, apenas os que dão sabor. Do contrário, teríamos extrapolado nossas funções. Apesar de estimarmos que haja 200 000 mortes anuais no país por doenças diretamente relacionadas ao cigarro, esse é um produto legalmente permitido. O que a Anvisa fez, em 2012, foi proibir os aditivos que têm como função induzir crianças e adolescentes à iniciação precoce. Sendo o fumo um vício danoso à saúde pública, a agência que trabalha com a promoção e proteção à saúde deve proibir esses aditivos. Se o STF decidir o contrário, será mais um golpe, sim, contra a Anvisa e contra outras agências regulatórias do Brasil.

Por quê? Essa é uma questão mais ampla. Outras agências também se encontrarão em uma situação de incerteza. Seus diretores ficarão em dúvida a respeito do grau de liberdade que têm mesmo em assuntos sobre os quais a lei explicitamente diz que devem ser estudados por suas agências. A Anvisa não começou a regular cigarros do nada. A lei é que define isso. Se a legislação nos deu esse mandato específico e criou uma agência para isso, então é nossa obrigação dar o parecer técnico-­científico sobre essas questões.

A Anvisa está em guerra com o Congresso? Não, ao contrário. Estamos tentando mostrar que os deputados e senadores podem ser nossos aliados. O grande papel deles é modernizar as leis. Nós já apresentamos a eles dez propostas com nossas ideias, que foram muito bem acolhidas. Em vez de criar leis muito específicas, que podem envelhecer rapidamente, seria melhor o Congresso atualizar o ambiente regulatório e limitar-se a cobrar eficiência da Anvisa. Às vezes uma lei bem-intencionada termina criando um problema. Uma delas diz que certos alimentos precisam trazer no rótulo a frase “não contém glúten”. Mas ninguém sabe ao certo o que significa isso. Seria ter zero absoluto de glúten? Ou o máximo tolerável às pessoas que têm problemas com glúten, os celíacos? A indústria pode ficar insegura e escolher a primeira opção, estampando a frase apenas nos produtos que não têm nada de glúten. Isso acaba diminuindo o acesso dos ce­lía­cos a vários alimentos.

Os brasileiros estão deixando de tomar vacinas? Embora não seja um movimento tão forte como o que acontece nos Estados Unidos, já vemos grupos organizados em redes sociais reproduzindo os mesmos argumentos sem base científica dos americanos, como o de que vacina provoca autismo. No Brasil, há duas classes sociais em que as taxas de vacinação costumam ficar abaixo do esperado: a A e a E. Para o pessoal da classe E, embora a vacina seja de graça, levar um filho ao posto significa perder um dia de trabalho. Se os postos não abrem aos sábados ou à noite, a mãe da periferia não consegue levar o filho. Só no primeiro ano de vida dele, ela precisaria fazer isso dez vezes. Já a classe A evita a vacina por modismo. Existem até alguns médicos que, sem nenhuma base em evidência, espalham rumores entre as famílias, como o de que uma criança bem nutrida e em boas condições não tem o risco de pegar uma doença transmissível.

Em que pé está a liberação do cultivo de maconha para a produção de medicamentos? A Anvisa já mudou a regulamentação, tirando o canabidiol e o THC da lista de substâncias proibidas e estabelecendo os limites máximos permitidos. Essa alteração possibilitou o primeiro registro de um medicamento à base de THC e canabidiol no país. Tornamos mais fácil a importação do canabidiol, mas o preço do importado é alto. Se regulamentarmos a plantação e empresas brasileiras se dedicarem ao cultivo e à produção, o acesso ficará mais fácil. Até 2018, haverá audiências públicas e debates com a sociedade sobre a regulamentação da plantação.
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Publicado em VEJA de 25 de outubro de 2017, edição nº 2553 - Folhas Amarelas p.17a21
Fonte:  http://veja.abril.com.br/revista-veja/o-vigia-da-saude/

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

“Vai ocorrer uma revolta social contra a tecnologia”

 daniel rocha
  
Richard Baldwin, um dos maiores especialistas sobre a globalização, veio a Portugal discutir a desigualdade numa conferência na Fundação Francisco Manuel dos Santos. E está convicto que a tecnologia vai passar a 
ser alvo de críticas da sociedade.

A revolução tecnológica e a globalização colocam novos problemas à economia, problemas esses que têm vindo a ser combatidos com fórmulas antigas e desadequadas. Para Richard Baldwin, hoje faz sentido voltar a discutir quem detém os meios de produção, como dar a todos os cidadãos um rendimento mínimo de sobrevivência e o aumento do peso do Estado.
A convicção de que toda a gente beneficia com a globalização faz algum sentido face ao que sabemos hoje?
Creio que provavelmente isso nunca foi verdade, no sentido em que há sempre quem ganhe e quem perca. Até um certo ponto, o próprio conceito de globalização assenta no favorecimento dos sectores mais competitivos, ao mesmo tempo que afasta as pessoas dos sectores menos competitivos — ou seja, a globalização tende sempre a oferecer mais oportunidades aos cidadãos mais competitivos e a aumentar a competição para os cidadãos menos competitivos. Mas os ganhos de uns superam as perdas de outros, e com as medidas certas a nível nacional todos podem progredir. Por isso, quando existe um progresso geral, talvez possamos dizer que toda a gente é beneficiada mas, per se, a globalização só é directamente vantajosa para os mais competitivos. O progresso está exactamente na transferência de recursos dos sectores menos competitivos para os mais competitivos. Sempre foi assim, simplesmente isso ocorre agora de maneira mais rápida e mais óbvia.
E o carácter aleatório dos efeitos da globalização também é cada vez mais óbvio.
Sim, hoje conseguimos olhar para o efeito da globalização na economia com um grau de detalhe muito maior. Antes, havia a tendência para aglomerar os sectores, e a competição media-se pelos bens que cruzavam fronteiras. Portanto, analisava-se os ganhos e as perdas pelo prisma de todo o processo de produção de um determinado bem material. Agora, dado que a globalização permite a fragmentação dos processos de produção, é possível analisar as várias etapas dos processos de produção. Mais recentemente, começámos mesmo a observar esses efeitos a nível do indivíduo, porque passou a ser possível competir individualmente na economia global. Tanto podemos perder o emprego para um qualquer departamento informático na Índia, como podemos beneficiar deste contexto.
Esse maior grau de detalhe que podemos identificar na globalização deve-se ao facto de hoje a globalização afectar não só os bens, mas também os serviços e o conhecimento?
Isso é o que eu chamo a “terceira onda da globalização”. Os avanços na tecnologia das comunicações e no processamento de informação, as tecnologias de disrupção digital, estão a fazer com que seja mais fácil às pessoas prestarem os seus serviços remotamente. Por exemplo, empresas americanas contratam programadores que vivem no Paquistão ou na Ucrânia, e que fazem o seu trabalho de lá. Isso é uma tendência cada vez mais generalizada, mesmo dentro dos países, à medida que as empresas vão mudando a maneira como trabalham. As hierarquias vão-se reduzindo e o trabalho organiza-se em projectos independentes. Tudo isso faz com que seja mais fácil a participação de pessoas que não estão fisicamente no local de trabalho. O passo seguinte é um trabalhador de uma empresa da Baixa de Lisboa não estar nos subúrbios de Lisboa, mas no Quénia. O trabalho remoto e o teletrabalho estão a internacionalizar-se e essa “terceira onda” da globalização, que se aplica aos serviços e não só à produção (que irá continuar a desenvolver-se, como até aqui), é a face mais visível da mudança de paradigma, e irá manifestar-se, por exemplo, numa competição salarial directa com estrangeiros.
Devemos então pensar em proteger os postos de trabalho e não os trabalhadores?
Eu iria até mais longe do que isso. A economia está a mudar a um ritmo mais acelerado. A tecnologia cada vez mais desenvolvida, nomeadamente a digital, faz com que os produtos percam a relevância e até a utilidade de ano para ano — as modas e as tecnologias evoluem muito rapidamente. A noção de que é preciso manter os postos de trabalho como forma de proteger os trabalhadores é uma falácia, não funciona assim. A alternativa, que é onde se baseia o conceito de flexicurity, é um modelo assente numa espécie de contrato social, pelo qual quando se perde o emprego — seja devido à globalização, à automação, à idade ou a mudanças climáticas, o que seja — o Estado e a sociedade têm a obrigação de ajudar o trabalhador a ajustar-se à nova realidade. Pode não funcionar para toda a gente, mas é um modelo que pelo menos dá uma oportunidade aos menos favorecidos: todos estão na mesma “equipa”, vencedores e vencidos. Isto é a maneira de nos focarmos nos trabalhadores, em vez de nos postos de trabalho. A maneira antiga, as tentativas de protecção da indústria têxtil ou do calçado, acabou. Pode adiar os problemas por uns meses ou um ano, mas já não funciona.

E quão preparados estão os países para estas mudanças?
A maior parte dos países europeus estará relativamente bem preparada, no sentido em que muitos já têm boas políticas para um mercado de trabalho activo. Verifica-se que no Sul da Europa há uma tendência para a manutenção de leis de trabalho mais proteccionistas, que apontam mais para a protecção dos empregos, mas isso está a desaparecer. E esse fenómeno acontece num mercado de trabalho dual: protecção do emprego dos mais velhos, enquanto os mais novos têm de lidar com esta nova economia. Na Europa existe pelo menos a noção de que a sociedade deve ajudar os que perdem o emprego a ajustarem-se e a enfrentarem os desafios. É nos Estados Unidos, principalmente, que vemos que as pessoas estão entregues à sua sorte. Olha-se para quem fica sem trabalho como se fosse ou estúpido ou preguiçoso e as pessoas tendem a culpar-se a si próprias. Ao mesmo tempo, os ganhos obtidos com a globalização e a tecnologia são canalizados para as elites, e é isso que causa esta reacção negativa, que vimos bem na campanha de Trump.

Portanto, é um problema não só das instituições mas também dos indivíduos?
Sim, o maior problema é a impreparação das pessoas para a velocidade com que estas mudanças estão a ocorrer. E isto começa agora a atingir o sector dos serviços, que até aqui era visto como um sector não-transaccionável. Um empregado fabril em Portugal sabe bem o que é a globalização, já há muito que é afectado por ela, mas um empregado de escritório ou um bancário não está preparado para que o seu posto seja entregue a alguém que recebe menos do que ele. Em simultâneo, os mesmos avanços tecnológicos estão também a trazer cada vez mais automação e inteligência artificial, por isso estamos perante um duplo desafio para o sector dos serviços, que terá de enfrentar tanto a globalização como a automação. Vai ocorrer uma revolta social contra a tecnologia, vejo isso a acontecer nos próximos três a cinco anos. Da mesma forma que apontamos o dedo à China ou ao islão ou aos imigrantes, creio que vamos começar a ver as pessoas a culparem a tecnologia. Um bom exemplo é a Uber e as reacções que tem provocado. Hoje em dia, a maior parte das pessoas olha para estas questões como histórias interessantes e isoladas, mas daqui a pouco tempo será mais óbvio que tudo isto está relacionado, que a tecnologia está a mudar o mundo, e que nós como sociedade temos de abrandar e assumir o controlo.

Pensa então que essas reacções negativas vão ocorrer mais nos Estados Unidos do que na Europa?
Sim, porque nos EUA não existe protecção do trabalhador, que está por sua conta, e portanto haverá uma maior tendência para isso. Nos Estados Unidos há 20 anos que o salário médio não sobe. A Administração Bush teve oito anos para solucionar isso e nada aconteceu. Oito anos de Administração Obama, a mesma coisa. E por muito que Trump prometa o contrário, também ele não vai conseguir mudar nada. E, quando os americanos perceberem isso, prevejo que vão culpar a tecnologia — mas é um fenómeno global. Tal como temos visto as pessoas a protestarem contra a globalização ou contra os imigrantes — pelo menos nos países mais ricos —, o mesmo irá acontecer relativamente à tecnologia. Claro que os níveis são diferentes — perder o emprego em França não significa que uma pessoa se torne sem-abrigo ou que uma família seja destruída.

Mesmo assim, dentro da União Europeia (UE) há realidades muito distintas, até em termos salariais. Não deveria a UE tentar uma uniformização dessas realidades antes de se preparar para enfrentar essa nova realidade?
Certo. A questão do salário mínimo é complexa. Creio ser algo que é fundamentalmente uma questão nacional e que mexe com sensibilidades nacionais. É preciso ter cuidado com aquilo que desejamos: se a Alemanha fizer subir os salários portugueses, também a competição que Portugal irá enfrentar será muito diferente. Em muitos países, os baixos salários são um factor da competitividade desse próprio país, e os países mais ricos adorariam ver esfumar-se essa competitividade. Acredito que os países deviam apostar menos nas políticas regionais e concentrar-se mais na ajuda directa à população, nomeadamente na aprendizagem de novas competências.

Em Portugal isso é especialmente verdade, porque temos a segunda taxa mais baixa de ensino médio a nível europeu, ao mesmo tempo que nos debatemos com um grande envelhecimento da população, num momento muito delicado para as empresas. Num quadro como este, deveria a UE intervir?
Sim, mas em termos de educação e formação, e não em estradas e aeroportos desnecessários. Reagir à globalização com uma estratégia baseada nas infra-estruturas é próprio de uma lógica centrada na produção e na construção. Mas esta globalização afecta também os outros sectores, e isso torna as coisas muito diferentes. É por isso que defendo uma reforma das políticas regionais, das quais um exemplo seria as políticas agrícolas. Creio ser um erro esperar que a UE resolva os problemas de cada país, porque 99% dos problemas são nacionais. Primeiro é preciso pôr a nossa casa em ordem. Não quer dizer que não haja possibilidade de medidas supranacionais, como políticas agrícolas comuns, mas todo esse dinheiro tem de ser canalizado para outras prioridades.

Já afirmou que os impostos sobre o trabalho não funcionam. Como irá então acontecer essa redistribuição dos meios de produção?
Depende da velocidade a que estes fenómenos se sucederem. Se acontecerem muito rapidamente, irão provocar uma convulsão, o que levará inevitavelmente a uma grande agitação social. Tal como aconteceu na crise global, que levou a uma regulação maciça do sector bancário, e que politicamente não teria sido possível antes, ou como nos anos 30, com a introdução do Estado social, da taxação dos rendimentos ou da educação universal. Eu vejo esta questão mais a longo prazo, e aquilo que me preocupa (é, aliás, o tema do meu próximo livro) é que as pessoas não estão cientes, ou estão em negação, da rapidez com que isto pode acontecer. É para isso que tento chamar a atenção.

Há muitos caminhos possíveis para o longo prazo, nomeadamente no que se refere aos impostos e ao desenvolvimento da tecnologia. Se a tecnologia evoluir como os caminhos-de-ferro, em que há uma rede detida apenas por uma empresa, então vamos ter um problema, porque essa empresa terá tanto poder que mesmo o poder político não terá legitimidade para lhe exigir um imposto de 90%. Mas também pode evoluir para um sistema como o dos carros, em que cada pessoa é proprietária do seu, descentralizando assim essa realidade económica. Ainda não é certo como se vai processar esta evolução, mas no entretanto é nosso dever fazermos com que todo esse poder não se concentre na mão de umas poucas empresas, principalmente estrangeiras. Não sou totalmente contra o investimento estrangeiro, mas se a Google e a Amazon fizerem tudo para toda a gente do mundo, isso será um problema para a Europa e para a Ásia e para todos os outros continentes.

Se precisamos que os governos façam mais, como fazê-lo sem provocar uma grande ineficiência do sector público?
Creio que um bom ponto de partida são os sistemas que temos actualmente no Canadá e na Europa. As pessoas vão ter de mudar de emprego mais vezes, mas esse elemento-base de mudar de emprego e procurar um novo trabalho não é nada de revolucionário, são apenas as mudanças sociais a acontecerem mais rapidamente. Acho que essas medidas têm de ser reforçadas e enquadradas politicamente, para que as pessoas percebam que os governos sabem que estes são tempos de mudança e que estão a dar o seu melhor para as ajudar, e não se culpem a si próprias nem acreditem num qualquer lunático que diz que a culpa é da tecnologia ou de outra coisa qualquer. Creio que grande parte da resposta está no discurso político. 
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Reportagem por 

Tite: 'Não sou santo, já errei e fiz muito sacanagem em campo', afirma.


Na sala de Tite, 57, no segundo andar do prédio da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), no Rio, planilhas e relatórios sobre jogadores dividem espaço com símbolos religiosos. Três imagens de santas, um crucifixo, uma imagem do Papa Francisco e uma folha com uma oração do dia estão lá.

O técnico que comandou a melhor campanha de uma seleção nas eliminatórias se diz crente num bom desempenho da equipe na Copa Mundo de 2018 e aponta o Brasil como favorito. Jura também acreditar que seu time não recorrerá à malandragem para vencer.

"Atleta meu que viu algo errado a seu favor, marcação do árbitro, pode falar. Diga mesmo. Como aconteceu com o Rodrigo Caio [zagueiro do São Paulo avisou ao juiz que Jô não tinha feito falta marcada em clássico]. Vai ter aval do técnico", afirma à Folha.

A transparência é a mesma que o levou a assinar um manifesto que defendia a saída de Marco Polo Del Nero da CBF em 2015. Seis meses depois, aceitou convite do cartola indiciado por corrupção nos EUA para assumir a seleção.

"Dei vazão ao meu sonho e tenho autonomia no departamento da seleção para fazer o melhor possível. Isso que abriu a condição de vir para cá. A forma de abrir esse caminho e daqui a pouco ser um exemplo é o que me trouxe aqui", diz, sem responder se há arrependimento por ter defendido a saída do seu atual chefe.
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Folha - A seleção é favorita ao título na Copa do Mundo?
Tite - Sim, é uma das favoritas. Não só pela campanha nas eliminatórias para a Copa, mas pelo desempenho. A minha exigência é de desempenho, alta performance. Isso eu controlo e exijo. Mas controlar resultado, não faço. Isso oprime, engessa e é desumano. Eu não tenho controle sobre resultado. Tenho sobre desempenho, posso exigir. Jogar bem para vencer.

Quem são os outros favoritos?
Alemanha, Espanha, França e Bélgica são os melhores.

O que aprendeu em um ano e meio na seleção?
Que é uma dinâmica diferente e uma pressão absurda. É outra realidade. Tem que ser muito preciso no diagnóstico. Não dá para gastar energia em coisas superficiais.

O Brasil costuma viver entre encantar e jogar para vencer com pragmatismo nas Copas. O que priorizar?
É possível jogar bonito e efetivo. Não são características contrárias, não são excludentes. O que preciso é respeitar as características dos atletas. Ela pode ser 1970, pode ser 1982. Tem que respeitar as características dos atletas.

O senhor conversou com os atletas sobre o 7 a 1 ?
Não conversei. Esse impacto foi quando o Dunga assumiu. Quando eu assumi a pressão era outra, era pela classificação do Brasil. Era estar olhando para a tabela e ter um terço da competição rodado e estar na sexta colocação.

Eu vi preocupação e ansiedade. Os jogadores olhavam para mim e eu me sentia pressionado por eles. Como se dissessem: cara, me diz o que nós temos que fazer? No Equador [primeiro jogo], especificamente, eu me sentia assim. Tamanha era a falta de confiança que eles estavam.


Em nenhum momento o assunto 7 a 1 veio à tona?
Eu não presenciei nada. Foi desumana a cobrança nos profissionais em 2014. Talvez por ser no Brasil. Tudo que fosse menos do que jogar bem e ganhar a competição era pouco. Foi tudo exagerado. Antes, de expectativa; depois, de exigência; e depois, de cobrança -ela foi desumana, ela foi pesada. Para mim, ela passou do ponto.

Pretende levar um psicólogo para a Copa de 2018?
Já trabalhei com profissionais em clubes. Na seleção, vejo dificuldade pelo curto espaço de tempo. O psicólogo tem que estar inserido dentro da comissão técnica. Tem que sentir o vestiário quando perde, sentir quando ganha, quando o cara está puto. No momento, eu não vi ainda. Não tenho isso fechado.

É verdade que o senhor falou com todos os ex-técnicos da seleção que estão vivos?
Sim, todos eu procurei. O maior deles é o Zagallo. Fiz umas seis, sete visitas. É um ícone, um visionário. Em 1970, ele enxergava na frente. Fazia marcação por setor. Estar com ele gera tranquilidade.

Falou com o Dunga?
Não, eu pensei que eu não gostaria que houvesse a conversa se eu estivesse no lugar dele. A ferida estava muito aberta ainda, por ter saído. Respeitei isso. Tenho um relacionamento profissional com ele. Não tomei a iniciativa.

E com o Felipão, técnico da última Copa?
Tentei conversar com todos. Com ele [Scolari] não foi possível. Tentei contato por e-mail duas vezes e não obtive resposta, ai vi que não ia ter diálogo e desisti. [entenda motivo da briga entre Scolari e Tite ]


Ricardo Nogueira/Folhapress
Luiz Felipe Scolari e Tite discutem em clássico Corinthians e Palmeiras 

Como é trabalhar com Neymar?
É muito fácil. Eu trato ele de forma igual. Ele tem um coração desse tamanho [abre os braços e as mãos]. É um outro lado que as pessoas não conhecem. É do bem. Ele tem pequenos gestos que mostram solidariedade. Até nesse episódio com o Cavani. Ele marca o gol e aponta para o Cavani. Ele é do bem, bom coração

Mas antes disso teve a briga, ele exigiu bater o pênalti. Na seleção existiria essa discussão dele com outro jogador?
Não vamos comparar. Ele [Neymar] é um dos batedores. Treino com ele, Daniel Alves, Coutinho e Willian.

Tem um batedor oficial?
O 1 é o Neymar.

Quem será o capitão na Copa?
Os mais experientes vão ser, mas vai mudar de jogo a jogo.

Na sequência de amistosos, vou dar oportunidade para cada um que não foi ainda de ser capitão. Quero dividir as responsabilidades. Essa é a nossa cultura. É diferente do europeu. O Terry, por exemplo, ficou não sei quanto tempo na Inglaterra. Na hora que ele levanta, todo mundo levanta. Nós não temos isso. Para mim, isso não funciona. Aqui a responsabilidade é diluída.

Não tem essa história de quando a equipe está mal e toma um gol, você falar: mas o capitão não falou nada. E os outros? O Didi na Copa de 1958 não era o capitão e foi lá, pegou a bola quando o Brasil levou o gol. Não dá para arder no rabo de um só.

Estar com time fechado não pode ser uma armadilha para a Copa? Exemplos como 2006, 2010 e 2014 servem de alerta?
Pode ser [uma armadilha]. Mas qual é o mundo real meu? Eu tenho 15 jogos. Minha amostragem é muito pequena.

Eduardo Knapp/Folhapress
Anotações escritas por Tite (tecnicio da selecao brasileira) em lousa na sua sala na sede da CBF

Se chegar alguém atropelando como o Neymar em 2010?
Vai para dentro do time. Levo sem testar. E dou exemplo prático. O Gabriel Jesus entrou. E foi titular no primeiro jogo. Tinha 19 anos. Se surgir outro assim, vem pra dentro.

Você acha que um dia o Neymar será o melhor do mundo?
O Neymar leva o prêmio em três anos, no máximo. Hazard, Griezmann e Pogba serão os rivais. Agora, por que três anos? A idade chega para todo mundo e ela tira a competitividade, e isso vai acontecer com o Messi e com o Ronaldo. Aí o Neymar vai chegar.

Treinador na Copa tem muito assédio, o que o senhor pretende fazer além do trabalho com a equipe? Vai fazer comerciais?
Eu recusei mais de 100 palestras empresariais. Vou para uma palestra agora em Nova York. Vai ser nas férias. Tenho situações de fazer publicidade. Não vou fazer bebida, cerveja. Já houve sondagens, mas não vou fazer.

O Brasil vive um período de divisão, de conflito e o Tite acaba sendo uma unanimidade rara num momento desses.
Eu não sou unanimidade, não me considero. Mas vejo que pessoas me olham e me consideram como alguém do bem. Procuro não fazer sacanagem. Já fiz muita sacanagem em campo, já errei muito, é humano. Já pedi para atleta cair, para sair de campo e acabar o jogo. Não sou um poço de correção, não sou santo, mas tenho princípios calcados. Quero ser melhor preservando lealdade.

Atleta meu que viu algo errado a seu favor, marcação do árbitro, pode falar. Diga mesmo! Vai ter aval do técnico. Como aconteceu com o Rodrigo Caio [zagueiro do São Paulo avisou o árbitro que Jô não tinha feito falta no goleiro em clássico contra o Corinthians].

Se tiver gol de mão para o Brasil na Copa?
Se foi de mão, tem o meu aval [para avisar]. Pode falar para o árbitro. Não tem problema se eu for criticado. Me importo com a minha consciência e os meus princípios. Importa o que o seu Agenor e a Dona Ivone me ensinaram.

Se tiver que pagar o preço de vencer fazendo uma coisa errada conscientemente, eu largo, vou fazer outra coisa, vou ficar em paz comigo mesmo. Eu não preciso disso. Eu não sou puritano, não. Sou convicto dos meus conceitos. Quero ser melhor, mais ágil, mais estrategista. É isso que eu quero ser. Eu não quer ser o maior filha da puta. Não me agrada, não me serve.

Corrupção é o maior problema do Brasil?
Sim, é. Isso dói, isso mata.

O senhor apoia a Lava Jato ?
Apoio. E tudo o que o Ministério Público está fazendo. Preciso de transparência. Precisamos saber as coisas como elas acontecem.

Qual o político que mais decepcionou o senhor?
Não posso nominar. Eu posso, eu quero, mas eu não devo. Estou numa atividade que estou focado no meu trabalho. Eu posso dizer que a falta de transparência me deixa mal. Não poder dizer, mostrar em quem vai votar. Isso afronta os meus princípios. Afronta os meus princípios ter um acidente e não poder fazer o bafômetro no motorista porque uma regra diz que não pode criar prova contra si mesmo. Não posso fazer prova contra mim, mas posso matar o outro. Que lógica é essa? Isso me afeta, me indigna.

Morando no Rio, como vê a escalada de violência na cidade?
Chateia muito, me fere como ser humano. Outro dia eu estava andando com a minha esposa. Eu tinha um compromisso do outro lado da cidade. Ela perguntou: tu vai passar onde está dando o tiroteio? Olhou no Google, viu onde era e não deixou. Essa sensação de insegurança é difícil.

Você quer continuar na seleção após a Copa?
Eu procuro não fazer um planejamento a médio e longo prazo. Gostaria de fazer um ciclo inteiro. Gostaria de fazer esse ciclo [quatro anos]. Mas vai depender do trabalho e do resultado.

RAIO - X - TITE

NOME
Adenor Leonardo Bachi


IDADE
56 anos


EQUIPES QUE TREINOU
Guarany-RS, Caxias, Veranópolis, Ypiranga-RS, Juventude, Grêmio, São Caetano, Atlético-MG, Palmeiras, Al Ain (EAU), Internacional, Corinthians e seleção brasileira


PRINCIPAIS TÍTULOS
Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, Copa Sul-Americana, Libertadores e Mundial de Clubes 


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À pedido da Folha, o técnico da seleção brasileira, Tite, respondeu a perguntas dos colunistas do jornal.

Tostão - Quando Lugano o chamou de encantador de serpentes, na ESPN, de ser capaz de convencer a todos, recebeu como um elogio ou uma crítica?
Como uma crítica. Aceito a crítica, mas não quero emitir opinião sobre ela.

Mariliz Pereira Jorge - Se arrepende de ter assinado manifesto que pediu a saída de Marco Polo Del Nero da CBF? O que mudou desde então?
Dei vazão ao meu sonho e ter autonomia no departamento da seleção para fazer o melhor possível. É isso que abriu a condição de vir para cá. A forma de abrir esse caminho e daqui a pouco ser um exemplo é o que me trouxe aqui

Juca Kfouri - Sente algum incômodo para ter liberdade de se posicionar politicamente sobre a CBF?
Eu externei e continuo falando de que transparência, modernidade e profissionalização. Eu recebi diversos técnicos aqui e deixo aberto todo o departamento de seleção. Eu não tenho condição de julgar o outro departamento.

Paulo Vinícius Coelho - Qual a sua opinião sobre árbitro de vídeo?
Para mim, ela transcende. Ela é mais profunda. A discussão tem que ser do justo, do correto. Todas as iniciativas, chip, árbitro de fundo, que te dão a condição do ser justo é a essência do fato. Sou favorável ao árbitro de vídeo, sim.----------
Reportagem por 
PAULO PASSOS
ENVIADO ESPECIAL AO RIO


domingo, 22 de outubro de 2017

E se o erro, a fabulação, o engano revelarem-se tão essenciais quanto a verdade?

OSWALDO GIACOIA JUNIOR *
 Resultado de imagem para notícias falsas, ou "fake news"
 
RESUMO O autor analisa o atual fenômeno de relativização da verdade à luz de conceitos como o perspectivismo nietzschiano. Ele sustenta que, num cenário de produção e consumo ininterruptos de informação, a ambiguidade do conteúdo difundido parece ser pré-requisito para despertar o interesse do público e fidelizá-lo. 


Integram o cortejo dos espectros que rondam Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, certas noções vagas como "pós-verdade" e "cultura pós-factual", as quais, a despeito de sua fluidez, aparecem no debate público como se fossem conceitos filosóficos. 

Ambas designam a poluição da mídia por notícias falsas, ou "fake news", e geram uma transformação nas relações entre verdade e mentira. Já não se pergunta simplesmente se uma notícia é falsa ou verdadeira, mas em que consiste a noção de verdade de uma informação. Ou seja, a própria ideia de verdade surge como um problema. 

Declarações ambíguas, enviesadas, enganosas ou derivadas de enganos são na prática equiparadas a mentiras inventadas deliberadamente pelos mais diversos motivos: ganhar dinheiro de anunciantes, alcançar resultados eleitorais específicos, formar e influenciar correntes de opinião, induzir metas de políticas públicas e reforçar vínculos de identificação coletiva, formatando maneiras de pensar e sentir em determinados segmentos sociais. 

Avulta entre essas figuras a "disinformatzya": o objetivo aqui não é defender uma bandeira particular ou atacar um adversário determinado, mas causar desinformação. Inundam-se os suportes de difusão de mensagens com afirmações falaciosas e distorções sensacionalistas no intuito de minar as bases de confiança tanto dos veículos tradicionais de comunicação quanto das diferentes redes informáticas que se aninham na internet. 

Trata-se, portanto, de solapar o crédito de informações que se pretendem objetivas, como se não houvesse um critério para diferenciar a notícia falsa da verdadeira. O leitor, largado num meio sabidamente repleto de mentiras, pode nivelar por baixo e duvidar de todos os conteúdos publicados, ou pode agarrar-se àqueles que lhe pareçam mais apropriados. 


Zanone Fraissat/Folhapress
'Arte de vandalizar/Pixo, existo', pichação de Djan Ivson, artista que ilustra a edição da Ilustríssima de 19 de fevereiro 
Que importa se, objetivamente, era possível medir o tamanho do público presente à cerimônia de posse de Trump? O governo americano sentiu-se à vontade para mencionar um número maior, iniciativa que depois uma assessora do presidente definiu como a apresentação de "fatos alternativos".
Não existe nesse tipo de atitude nada que se confunda com a postura filosófica do perspectivismo, segundo o qual o ponto de vista de cada um interfere no modo de conhecer e apreender a verdade (que existe). Na era da "pós-verdade", tudo se passa como se a verdade simplesmente não existisse e todos os pontos de vista tivessem valor idêntico -como se a suposta "verdade" divulgada pelo governo americano não fosse pior do que a "verdade" factual apurada pelos jornais tradicionais. 

Ora, se todas as "verdades" são igualmente válidas, se cada cidadão pode escolher o ponto de vista de seu agrado, qual o sentido de um debate público que busque o esclarecimento? Em outras palavras, está em jogo o emprego sistemático de técnicas de propaganda para obliterar e entorpecer a capacidade de pensar criticamente. 

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), falsamente identificado como precursor desse relativismo ambientado na penumbra em que todos os gatos são pardos, foi, em vez disso, o pensador que antecipou um conflito eventual que pode nos ajudar a compreender as agruras do momento problemático que atravessamos. 

É conhecida sua formulação: e se o erro, a falsidade, o engano revelarem-se, tanto quanto a verdade, essenciais como meios úteis para a conservação da vida? Essa pergunta incomoda o pensamento filosófico desde que Nietzsche teve a ousadia de colocá-la em toda sua extensão e profundidade. 

Ora, os fenômenos que nos confrontam hoje podem ser interpretados na chave hermenêutica que Nietzsche generosamente nos colocou nas mãos. Vivenciamos um conflito entre verdade e condições de existência. De que existência, porém, se trata aqui? Daquela que, como pensava Nietzsche, sempre se produz em termos de relações de poder, de jogos de força em que encontram apoio e expressão interesses vitais, desejos, temores, expectativas de reconhecimento, aspirações de domínio e estratégias de resistência. 

Identifiquemos, então, algumas das variáveis no debate atual sobre a definição e as consequências das "fake news" para os rumos da cultura e da política nas democracias contemporâneas. 

VERIFICAÇÃO
 
Com a explosão dos novos meios de comunicação no ambiente digital, distribuídos pela malha includente da sociedade global em arranjos de alta capilaridade (rizomáticos, a rigor) e se reproduzindo em milhares de centros virtuais dificilmente localizáveis e responsabilizáveis (nos sentidos ético e jurídico), torna-se instável a possibilidade de verificação isenta de fatos, bem como muito mais dinâmica e inventiva a produção e a circulação de mensagens, seja qual for o seu teor. 

Em sociedades lastreadas na troca de informações e na comunicação sustentada por tecnologias de ponta, que se autorreplicam e formatam todos os setores da vida -economia, política, educação, cultura etc.-, os interesses estratégicos e as condições de existência estão estreitamente vinculados às possibilidades, tecnologicamente facilitadas, de "tornar-comum" o conteúdo veiculado, ou seja, de difundi-lo a um universo amplo de pessoas e de reduzi-lo a sua dimensão mais simplória, num movimento que cria oportunidades para o vulgar e o sensacionalista. 

Com isso, torna-se possível inserir nessas redes tudo o que for capaz de abastecê-las com eficiência, passando, então, a fazer parte da "nutrição cotidiana" de cada um. Não importa tanto se o conteúdo é "verdadeiro"; importa acompanhar "como a coisa rola". A ambiguidade das mensagens é condição necessária para manter acesa a avidez por "novidades", a reiteração da expectativa curiosa em espiral infinita. 

Informações transformaram-se em mercadorias intercambiáveis num arranjo cujos agentes são reduzidos ao denominador comum de consumidores e cuja lógica operante é a da produção e da circulação mercantil. 

Razão pela qual importa menos a pretensão de validade do que a expectativa de realização de desejo que a informação venha a satisfazer. Por isso adquire plausibilidade o pseudoargumento: afinal, o que é a verdade, já que temos bons motivos para descrer de toda verificação factual? 

A imputação de falsidade por parte de um opositor funciona como seu contrário. Reforça convicções previamente firmadas, preconceitos arraigados e impermeáveis a razões, mas dóceis às moções afetivas de autoidentificação. 

Daí por que notícias inventadas na esteira do sensacionalismo midiático não são desqualificadas, mas, ao contrário, reafirmadas e até estimuladas pelos melhores esforços para desmascará-las; pois o que importa para os atores e as organizações sociais interessados na proliferação desse tipo de comunicação é manter acesa a chama da curiosidade que elas atiçam e alimentar o falatório até suas derradeiras possibilidades de rendimento. 

Uma explicação para isso encontra-se na lógica interna de tais processos, infensos ao escrutínio crítico, já que o único critério que conta são os acessos, ou indicadores quantitativos de consumo. Desenvolve-se uma simbiose perfeita entre a comprovada demanda crescente dos clientes e o rendimento auferido graças à divulgação de material publicitário. 

Dado que os indicadores de acesso substituem os antigos critérios de verificação, embute-se o risco de esse novo parâmetro gerar um círculo vicioso: a quantidade de acessos quase sempre está em relação com o potencial de atração contido na distorção da mensagem. Isso significa que o horizonte de avaliação é o do impacto causado. 

Para manter vivo o interesse pela informação vale tudo, inclusive induzir e filtrar seletivamente as escolhas preferenciais do leitor por meio de algoritmos que "adivinham" sites mais consentâneos com suas tendências. As possibilidades e limites da apropriação político-ideológica dos conteúdos, bem como aquelas de seu controle responsável, são virtualmente indetermináveis, e isso a despeito de todas as catastróficas consequências que esse desregramento pode causar, dentre as quais o estímulo ao cinismo irresponsável, o desfecho eleitoral pernicioso e a destruição sistemática de reputações. 

A capacidade de pensar por si e de assumir responsabilidades por opiniões e ações passa pela antiga e saudável desconfiança e pelo esforço de nos distanciarmos do que se nos pretende impingir como última novidade, como sinal dos tempos da "pós-verdade". 

É possível que se oculte aí apenas um velho fetiche, uma manobra diversionista para desviar a atenção e dispensar da reflexão, reforçando o isolamento narcísico que parece estar vinculado à inclusão aparente e à conexão em redes de comunicação com alcance planetário. 
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* OSWALDO GIACOIA JUNIOR, 62, é professor titular de história da filosofia contemporânea e ética na Unicamp.

THIAGO KRAUSE: No Brasil, desigualdade e corrupção se reforçam mutuamente, diz historiador

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RESUMO Em resposta a artigo de Jessé Souza (22/9), autor afirma que escravidão e corrupção são aspectos indissociáveis na nossa história. Argumenta que as desigualdades moldadas no passado escravista se reproduziram e se transformaram dentro de um consórcio da elite com o Estado, num arranjo hoje enfrentado pela Lava Jato. 


Pode-se acusar Jessé Souza de tudo, menos de falta de ambição. Em recente intervenção na "Ilustríssima" (22/9), o sociólogo reivindicou a autoria de uma interpretação singular do Brasil. A chave para o entendimento do país seria a escravidão, e não a corrupção, como supostamente afirmaram nossos grandes autores do século 20. 

Não me parece possível, porém, separar esses dois aspectos na nossa história. Mesmo Sérgio Buarque de Holanda (1902-82) e Raymundo Faoro (1925-2003) vão apontar como grande problema o papel do Estado na criação ou no reforço de oligarquias atrasadas. Esses dois intelectuais não analisaram a corrupção como uma falha moral inerente ao brasileiro, mas sim como um sintoma dos diferenciais de poder que distinguem a elite da maior parte da população brasileira. 

Por outro lado, Souza tem razão quando critica o reduzido destaque atribuído à escravidão nessas e em muitas outras interpretações do Brasil. Ao ajustar o foco da análise, contudo, comete o mesmo pecado que reprova corretamente em Faoro: enxergar uma continuidade sem quebras entre o passado e o presente. 

A escravidão é essencial para a compreensão do Brasil por ter intensificado a desigualdade social e moldado suas formas mesmo após a abolição, em 1888. A intensa discriminação racial existente até hoje é evidente quando notamos que negros ainda recebem metade do salário dos brancos e que, a cada 100 pessoas assassinadas no país, 71 são negras. 

A questão, entretanto, não deve ser denunciar sua herança, mas investigar como as iniquidades dela derivadas se reproduziram e se transformaram ao longo do tempo. Para isso, é preciso entendê-las, não simplesmente culpar o passado por todos os males do presente. 

Diferentemente do que pensa Souza, por exemplo, os escravos não estavam condenados a constituir famílias desestruturadas. 

Apesar das dificuldades inegáveis, como o maior número de homens que de mulheres entre os cativos e as restrições senhoriais a casamentos que ultrapassavam a porteira da propriedade, muitos escravos conseguiram compor núcleos familiares estáveis. Em diversas regiões, cerca de um terço dos cativos adultos era casado ou viúvo, como historiadores têm demonstrado há mais de 30 anos. 

A proporção de famílias monoparentais (isto é, com apenas um dos genitores, geralmente a mãe) entre a população pobre também variou ao longo do tempo, aumentando gradualmente desde o final do século 20. 

Além disso, como esse fenômeno ocorre em outros países, como os Estados Unidos, inclusive entre os brancos, a responsabilidade dificilmente será apenas da escravidão, mas também da urbanização, do enfraquecimento da religião institucionalizada e da crescente autonomia econômica e jurídica das mulheres. 

Da mesma maneira, Souza atribui mecanicamente à herança escravista diversas características da sociedade brasileira que também se encontram em países nos quais essa instituição foi pouco relevante, como o México e a Índia. 

Um exemplo é a exploração do trabalho doméstico pelos segmentos mais favorecidos. Os baixos salários e a concentração de renda permitem que os estratos sociais superiores utilizem a mão de obra das camadas subalternas para tarefas que, em regiões mais ricas e menos desiguais, seriam realizadas pela própria família de classe média ou alta. 

O problema não é apenas a escravidão no passado, mas o fato de que optamos por reproduzir a desigualdade no presente —inclusive a racial. Como apontou o sociólogo Pedro Ferreira de Souza, a desigualdade dos países europeus no início do século 20 era similar à nossa; ocorre que, enquanto as disparidades diminuíram no Velho Mundo entre as décadas de 1940 e 1970, elas permaneceram estáveis por aqui. 

ESTADO E MERCADO
 
O mais curioso é que, para Jessé Souza, a dominação parece não passar pela esfera estatal, pois o "poder social real" teria sua base no mercado. Contudo, desde o período colonial havia uma comunidade de interesses entre a elite e o Estado metropolitano, pois ambos os polos dependiam da exportação de produtos agrícolas cultivados por escravos, como enfatizou o brasilianista Stuart Schwartz. 

Assim, desde o século 16, as classes dominantes do Brasil se constituíram numa relação umbilical com a monarquia portuguesa. As elites coloniais serviram à Coroa e receberam como recompensa cargos que lhes permitiram extrair recursos da sociedade por meios legais e ilegais, como demonstrou o historiador João Fragoso. 

A própria constituição do Estado nacional após a independência baseou-se na defesa estatal do tráfico atlântico de africanos escravizados —inclusive após a decretação de sua ilegalidade, em 1831—, cujo propósito era garantir a oferta de trabalhadores para as lavouras de café em expansão devido à crescente demanda do mercado mundial, como argumenta o historiador Tâmis Parron. 

Do mesmo modo, contribuíram para nossa hierarquização social excludente o financiamento da vinda de imigrantes europeus entre 1880 e 1930 em detrimento dos libertos, a utilização do poder repressor do Estado contra as classes subalternas e a permissão tácita para a violência pessoal que continuou a ser exercida pelas oligarquias. 

Portanto, a separação entre Estado e mercado é artificial: as relações econômicas dependem da regulação governamental —que deve, inclusive para os liberais, garantir os direitos de propriedade, o respeito aos contratos e a ordem pública. 

O Estado sempre redistribui os recursos que extrai da sociedade, mas essa redistribuição pode tanto diminuir quanto aumentar a desigualdade. No linguajar de economistas como Daron Acemoglu, o Estado brasileiro é caracterizado por instituições extrativas que favorecem elites politicamente bem relacionadas por meios legais (como a estrutura tributária regressiva) e ilegais (a corrupção), intensificando a concentração de riqueza. 

Ao mesmo tempo, a base da dominação do Estado pelas elites está na desigualdade estrutural, que lhes garante recursos políticos, sociais e econômicos muito superiores aos do restante da população. Assim, a disputa política muitas vezes se torna uma luta somente entre setores da oligarquia pelo controle dos recursos públicos. 

Desigualdade socioeconômica e utilização do Estado para fins privados não são, portanto, explicações alternativas para os problemas do Brasil. São aspectos indissociáveis de um mesmo fenômeno e se reforçam mutuamente. 

PLUTOCRACIA
 
A partir da década de 1920 e, principalmente, após 1985, a gradual inclusão da população em geral no jogo político lançou novos desafios para as elites. As demandas dos setores intermediários e subalternos forçaram a construção de um Estado de bem-estar social, atuante sobretudo nas cidades

A imprensa ampliou seu papel nas disputas eleitorais, influenciando parcelas cada vez maiores da sociedade a partir da difusão de novos meios, como o rádio e a televisão. É possível identificar um viés liberal-conservador em muitos órgãos de comunicação, mas é preciso reconhecer a autonomia intelectual do público. 

Para Souza, as denúncias de corrupção são resultado da manipulação midiática, pois atingem preferencialmente os governos ligados às classes populares. 

O problema nessa argumentação é que, pela primeira vez na história do país, vários dos principais plutocratas foram não só responsabilizados por crimes mas também presos. Teria Marcelo Odebrecht aceitado estoicamente a prisão para derrubar o governo do PT —o mesmo PT que ampliou o consórcio Estado-mercado que faz a fortuna de tantas empresas há mais de meio século? 

A proximidade dos governos petistas com o grande capital nacional, evidente na concessão de benesses e no recebimento de vultosas doações de campanha, sugere que devemos entendê-los como parte integrante do establishment que reproduz a obscena desigualdade de renda no país, com destaque especial para a imensa concentração de riqueza no topo da pirâmide, um grupo que corresponde a 1% da população. 

Por sua vez, os liberais-conservadores que assumiram o poder ainda não conseguiram "estancar a sangria": as diversas investigações continuam a incomodá-los e a revelar negócios escusos que beneficiaram a plutocracia nacional e a oligarquia política. 

Assim, a Lava Jato parece ser um caso único (ainda que incompleto e parcial) de ataque à relação umbilical entre Estado e plutocracia, com o potencial de abalar o caráter extrativo das nossas instituições -isso se a operação não for interrompida, como quer Jessé Souza, fazendo eco não só a Lula mas também a Michel Temer, Romero Jucá e Aécio Neves

A esperança —que pode muito bem se frustrar— de que a Lava Jato represente o início de uma relação menos incestuosa entre nossas elites políticas e econômicas não significa ignorar os numerosos erros e abusos cometidos pelos investigadores e juízes nem pensar que a prisão de corruptos resolverá os problemas nacionais. 

Precisamos de mais política e de menos polícia para garantir que a redistribuição promovida pelo Estado realmente produza equidade. 
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THIAGO KRAUSE, 31, doutor em história pela UFRJ, é autor de "Em Busca da Honra" (Annablume) e professor de história da América na Uerj
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/10/1928582-escravismo-do-passado-persiste-e-ajuda-a-explicar-corrupcao-diz-historiador.shtml