sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A Verdade e a Mentira das Vacinas



“A Verdade e a Mentira das Vacinas”, o livro que Mário Cordeiro gostaria de não ter escrito

07 Setembro

Diz que devia ser óbvio que as vacinas só fazem bem mas que o surto de sarampo que este ano custou a vida a uma adolescente mostrou que ainda há dúvidas. Em livro, Mário Cordeiro responde a todas.

Da descoberta de Edward Jenner no século XVIII à moda atual da não vacinação, passando pela ligação ao autismo e pelos casos raros das vacinas que, ao contrário de outras, “não são para tomar” — Mário Cordeiro explica em A Verdade e a Mentira das Vacinas (edições Desassossego, do grupo Saída de Emergência) tudo aquilo que é preciso saber (ou esquecer) sobre a questão que em abril voltou à ordem do dia em Portugal.

Meses depois do surto de sarampo que custou a vida a uma adolescente de 17 anos e levou ao internamento de dezenas de outras pessoas, o pediatra, defensor da não obrigatoriedade da vacinação, escreve o livro que, assume no prefácio, gostaria que já não fosse necessário escrever e ao longo de 244 páginas, desfaz mitos, teorias da conspiração, fake news e ideias erradas.

No final, parafraseia o médico Arnaldo Sampaio (pai do antigo presidente da República) e admite que existem três hipóteses à disposição dos pais, que é a quem compete tomar uma decisão sobre o assunto: “Vacinar, vacinar e vacinar!”.

O Observador faz a pré-publicação do capítulo 4: “Doze mitos perigosos, que é preciso desfazer, sobre as vacinas”.

"A Verdade e a Mentira das Vacinas", de Mário Cordeiro, é publicado dia 8 de setembro

As melhorias das condições de higiene e sanitárias fizeram desaparecer as doenças e, portanto, não há necessidade nenhuma em vacinar, mas sim investir em infraestruturas…

FALSO! Enganosamente falso.

As doenças evitáveis pela vacinação foram controladas ou desapareceram exatamente porque se vacinou em massa. Claro que ter boas condições sanitárias (água potável, saneamento básico, rede de refrigeração de alimentos, controlo da cadeia alimentar, etc.) é indispensável para prevenir muitas doenças infeciosas, designadamente as relacionadas com a qualidade da água, moscas e outros insetos, etc. No entanto, mesmo nos países mais desenvolvidos, como a Alemanha ou França, por exemplo, nas regiões onde há grande resistência à vacinação continua a haver estas doenças, apesar dos excelentes padrões de vida. Assim, se a melhoria sanitária geral de um qualquer país é uma prioridade e permite controlar muitas doenças infeciosas, não evita, todavia, a circulação dos microrganismos causadores das doenças evitáveis pela vacinação. Só a vacinação, da população toda ou, pelo menos, de 95% dela, consegue evitar a ocorrência destas doenças, levando ao seu controlo ou mesmo eliminação, como foi o caso da varíola.

Há infeções que se podem prevenir com medidas tão simples como lavar bem as mãos ou usar máscara se se está constipado e a espirrar, ou não tossir para cima dos outros, mas para as doenças evitáveis pela vacinação, como o nome indica, o que as controla e evita é… a vacinação. É por isso que não se podem abrir brechas ou esmorecer — se isso acontecer, as doenças voltarão.
Por outro lado, em países com condições sanitárias terríveis, foi possível erradicar, por exemplo, a varíola ou controlar totalmente a poliomielite… mesmo sem água corrente e com esgotos a céu aberto — isto graças apenas às vacinas.

As vacinas têm imensos efeitos secundários e até alguns a longo prazo que não se conhecem. Há pessoas que dizem que sem vacinas não teríamos cancros. E podem causar a morte!

FALSO! Rotundamente falso!

As vacinas são extraordinariamente seguras. Comparadas com os medicamentos em geral, são ainda mais seguras! Todos os estudos e dados estatísticos o comprovam. Quantas vezes será preciso repetir isto?

Obviamente que podem causar reações, mas são leves e temporárias, como dor no local da injeção ou febre ligeira. Aliás, há um enorme controlo das reações secundárias moderadas ou graves, de modo a suspender de imediato o lote que possa eventualmente estar envolvido… mas não é isso que acontece com tudo o que utilizamos?

Não são, volta não volta, recolhidos brinquedos, mobiliário ou algumas séries de modelos de automóveis? Não acontece comprarmos um quilo de belas laranjas ou maçãs e, por dentro, uma ou outra estarem estragadas? Só que, neste caso, a hipotética laranja estragada é uma entre milhões e milhões de laranjas. As vacinas são inofensivas. O risco de uma criança ter uma reação adversa a uma vacina é muito, mas mesmo muito, inferior ao risco de uma complicação grave da doença que essa vacina previne. Além disso, não é possível saber, antecipadamente, quais as crianças em que a doença poderá ser grave ou matar. O que faz adoecer e mata são as doenças. A maioria das pessoas, no mundo ocidental, dado que as doenças evitáveis pela vacinação quase desapareceram, já não se lembram do que é uma meningite, uma pneumonia, surdez ou encefalite do sarampo, asfixia pela difteria, insuficiência respiratória por tosse convulsa, paralisia infantil pela poliomielite ou o que é morrer por varíola ou tuberculose.

Aliás, ao longo da história do Programa Nacional de Vacinação português, houve a preocupação de introduzir vacinas que tivessem cada vez menos efeitos secundários, como aconteceu, por exemplo, com a vacina contra a tosse convulsa.

As vacinas, tal como qualquer medicamento, são alvo de um sistema de vigilância apertado, garantindo que qualquer reação anormal seja exaustivamente investigada, o que, com tantos anos de experiência e muitos milhões — sim, centenas de milhões! — de vacinas administradas em todo o mundo, permite afirmar que as vacinas têm um elevado grau de segurança, eficácia e qualidade. O sistema está tão bem gizado que a notificação oficial de reações adversas às vacinas pelos profissionais de saúde é obrigatória. As vacinas atualmente são muito seguras e eficazes. É preciso escrever outra vez?

As vacinas podem causar a síndroma da morte súbita do lactente…

FALSO! Comprovadamente falso!

A síndroma da morte súbita do lactente nada tem a ver com vacinas, embora, quando se começou a estudar a síndroma, a hipótese de associação tivesse academicamente de ser colocada, mas como o foi relativamente a tudo o que se passava na vida dos bebés dessa idade… todavia, rapidamente se constatou que não era o caso e que não havia qualquer relação entre uma coisa e outra.

O facto de este tipo de morte súbita surgir nos primeiros meses de vida, quando um bebé «leva» muitas vacinas, fez surgir a ideia de que estas seriam as responsáveis… mas é errado, e afirmar isso é tão tonto como dizer que o aleitamento materno causa a morte súbita!

Além disso, quando há mais de 25 anos se decidiu que as crianças deveriam dormir de barriga para cima, a síndroma da morte súbita diminuiu para um quarto… e «por acaso» a percentagem de vacinação até aumentou. Então, se fosse verdade, agora deveriam morrer muito mais bebés com morte súbita…

Certo… as vacinas são uma coisa boa, mas estar a gastar dinheiro e tempo com doenças que já não existem é um bocado idiota, não é? Com tanta coisa que há a fazer…

FALSO! Demagogicamente falso!

Como já foi referido — mas nunca é de mais sublinhar —, as doenças evitáveis pela vacinação que foram sendo sucessivamente controladas diminuíram e até desapareceram de alguns países. Todavia, salvo a varíola que, essa sim, foi erradicada do mundo e já dispensa a vacinação no planeta, todas as outras doenças que podem ter pouca ou nenhuma expressão no nosso país ainda existem em muitos outros.

Veja-se o sarampo. Existe endemicamente em Angola e há surtos em Espanha, Alemanha, França, Itália e muitos outros países. Como não se vive num mundo de fronteiras fechadas, se chegar a Portugal um cidadão de outro país com sarampo e encontrar uma população vacinada, nada se passa — foram apenas casos «importados» que não significam um título de jornal a dizer: «Sarampo em Portugal».

Infelizmente, em 2017, como a taxa de vacinação tem vindo a diminuir desde há uns anos, já surgiu um surto «português» com pelo menos uma morte, e já foi, infelizmente, «abertura de telejornal».
Por outro lado, se os portugueses não estiverem vacinados, arriscam-se a apanhar a doença — sarampo ou outra — quando, por exemplo, viajarem para outro país.
Doutorado em pediatria, Mário Cordeiro é também autor de "O Grande Livro do Bebé", "O Livro da Criança" 
e "O Grande Livro do Adolescente" (Fotografia: MICHAEL M. MATIAS /OBSERVADOR)

É curioso como, em tempos de globalização, haja pessoas a pensar em termos de «Condado Portucalense» (e mesmo nesses tempos, eram milhares os cidadãos de outras paragens que cá vinham ter, por terra e mar). As doenças atualmente evitáveis pela vacinação ainda ocorrem em diversas partes do mundo, incluindo a Europa.

Há, assim, dois motivos principais para vacinar: a proteção individual, porque, apesar de algumas destas doenças serem raras em Portugal, qualquer pessoa não protegida pode contraí-la ou, se se deslocar a um local onde a doença é endémica, terá fortes probabilidades de a «apanhar» — e, no regresso, trazer a doença para a comunidade; mas também porque vacinar dá uma proteção à comunidade, a chamada «imunidade de grupo». Nos países e regiões

com elevadas coberturas vacinais, a comunidade toda acaba por estar protegida, porque os microrganismos como que encontram uma «barreira» que não os deixa «explodir» e atingir, por exemplo, seja aqueles que ainda não têm idade para se vacinar, seja os que, por qualquer razão clínica ou até social, não o podem fazer.

Numa altura em que se fala de prevenção, evitar doenças e sentimentos solidários e comunitários, custa a entender como um gesto que pode proteger o próprio e os outros é, por vezes, desdenhado.

A administração simultânea de várias vacinas pode aumentar o risco de efeitos secundários e sobrecarregar o sistema imunitário, abrindo portas a outras doenças.

FALSO! Cientificamente falso!

Todos os estudos científicos mostram que a administração simultânea de vacinas não causa qualquer problema, dado que a imunidade que cada uma estimula é independente. Aliás, todos os dias a imunidade dos bebés e crianças é estimulada por inúmeros vírus e bactérias com as quais eles contactam, designadamente quando os pais lhes dão beijinhos!

O simples ato de ingerir um alimento provoca respostas imunitárias muito maiores do que uma vacina — aliás, a maioria das bactérias vivem na boca e no nariz das pessoas e não na seringa da vacina, onde não há nenhuma!
 
Para lá disso, há que ver os aspetos práticos de não ter de ir ao centro de vacinação tantas vezes, de lhe serem administradas menos injeções, e também de se poder elaborar um calendário/programa vacinal que deixa a criança defendida numa idade precoce; caso contrário, se fosse uma a uma, quando se tivesse vacinado totalmente, a criança já teria apanhado a doença!

Um dos objetivos do PNV é a proteção precoce… esperar por tempos mais tardios seria a inutilidade total… e a morte de muitas crianças.

A administração simultânea de várias vacinas, repito, não aumenta as reações secundárias. Como referi, no dia a dia a criança está exposta a inúmeros estímulos infeciosos, estando o sistema imunitário preparado para lidar com todos eles e sendo até muito benéfico… os pais queixam-se do «infectário», porque muitas crianças, no infantário, «estão sempre doentes», mas rapidamente descobrem que, pelos 3-4 anos de idade, a criança deixa de ter infeções e fica «sã como um pero».
Acresce que a tecnologia permitiu o aumento do número de componentes das chamadas vacinas combinadas, ou seja, a proteção contra várias doenças com uma única injeção, diminuindo o número de injeções que a criança teria de receber e a melhor adesão aos esquemas vacinais, principalmente no primeiro ano de vida.

Veja o exemplo da gripe. Ter gripe é uma coisa normal e, além disso, a vacina é fraca e até muita gente que é vacinada tem gripe por causa da vacina.

FALSO! Ridiculamente falso!

Em primeiro lugar, a gripe pode ser grave. Muito grave. As consequências da gripe, para lá do incómodo e da baixa do estado geral da pessoa, podem ser pneumonias mortais, sobretudo em idosos e em pessoas com a imunidade diminuída, como nas que estão a ser tratadas para cancros. Uma gripe na grávida pode levar a um aborto espontâneo ou a um parto prematuro, e uma gripe num recém-nascido é muito grave.

A maioria das vacinas da gripe produz imunidade para as três estirpes de vírus desse ano (e elas mudam de ano para ano, daí a vacina de um ano ser diferente da do ano anterior, embora haja estirpes que vão e vêm, como a gripe A).

Uma pessoa vacinada para a gripe não tem gripe. Mas, atenção (e é este o motivo da confusão): chamamos «gripe» a qualquer constipação ou situação viral em que há febre, mal-estar, dores musculares… mas pode ser outro vírus ou apenas aquilo a que os anglo-saxónicos chamam, com muita propriedade, uma «common cold» — um resfriado. Para esses vírus, a vacina da gripe não serve… mas esses vírus não provocam, felizmente, doenças tão graves como a que a gripe pode provocar.

Se ter as doenças faz com que a pessoa fique defendida para a vida toda, então é melhor ter a doença do que vacinar com vírus atenuados e coisas do género, não?

FALSO! Perigosamente falso!

A «pequena» grande diferença é que, enquanto a doença causa imunidade, de facto, mas pode levar a consequências desastrosas e à morte, para lá dos dias em que se está doente (ou até reativações a prazo, como a zona, que é consequência da varicela), a vacina desenvolve a mesma imunidade, mas sem essa parte indesejável. Assim sendo, não se percebe este mito.

Acresce que, ao argumento de que as vacinas são caras — e algumas são-no, efetivamente —, as doenças também custam muito dinheiro ao Estado e às famílias, através dos medicamentos, internamentos, anos de vida perdidos, e custos como os do absentismo escolar e laboral, para lá, evidentemente, do sofrimento ou da morte, que não têm preço.

A vacinação é segura, porque é controlada, estudada, «feita à medida»do que o sistema imunitário pede e não, como a doença, com um caráter aleatório e, por vezes, brutal.

As vacinas têm mercúrio… pois se ele até está a ser retirado dos termómetros porque é um metal pesado e polui os oceanos…

FALSO! Exageradamente falso!

O tiomersal, que algumas vacinas têm como conservante do princípio ativo, principalmente nas vacinas que são dadas em múltiplas doses, não está presente em quantidades que ponham em risco a saúde humana.

A dose que uma criança recebe durante a vacinação é igual à que recebe durante os 4-6 meses de aleitamento materno, e essa dose é 250 vezes inferior a uma dose que pudesse causar problemas. 250 vezes!

Muitos leitores leem as bulas ou recorrem à Internet e ficam assustados com o que leem. É normal, porque, não sendo profissionais de saúde, e ao mesmo tempo sabendo nós que os espaços cibernéticos estão carregados de fake news, ficam assustados.

Se ficam assustados, é porque querem o melhor para os filhos. Então, leitor, acredite, não apenas na minha palavra, mas em todas as autoridades nacionais e mundiais de Saúde. Acha, sinceramente, que, como cantava o Rui Veloso, «o mundo todo se uniu para o tramar»? Porquê dar ouvidos a vendedores da banha da cobra e não acreditar, por uma vez, nos cientistas?

As vacinas salvam mais vidas do que qualquer outro tratamento médico — incrível, não é? Já temos décadas de utilização generalizada mundial para poder afirmar isto com «letras garrafais», através dos resultados e da inacreditável diminuição das mortes, internamentos e doença, não tendo, em contrapartida, efeitos indesejáveis de relevo. Ainda acredito, leitor, que surja o dia em que uma das maiores descobertas e avanços da Humanidade não seja olhada de esguelha… eu, por mim, agradeço às vacinas a hipótese de eu e os meus filhos e netos não termos morrido por uma doença evitável pela vacinação.

Apanhar muitas vacinas no mesmo dia faz mal…

FALSO! Embora se entenda, porque «pai é pai e mãe é mãe»!
Obviamente que custa pensar que o nosso bebé vai levar tantas «picas», mas, garanto-lhe, leitor ou leitora, não há qualquer risco acrescido de reações secundárias quando se administram simultaneamente as vacinas recomendadas para determinada idade — e até podem ser bastantes.

Atrasá-las é que é perigoso e deixa-se o bebé vulnerável a essa doenças. O ideal é cumprir o esquema recomendado, que está estudado para dar a melhor proteção, o mais cedo possível e de acordo com a idade da criança.

Aliás, alguma vez a DGS e os serviços de saúde iriam colocar em risco a saúde do bebé? Nos primeiros anos de vida, o que custa a um bebé é saber que vai ao centro de saúde, não o número de «picas» — se for «às pinguinhas», acaba por ser mais traumático, já sem falar dos dias perdidos, do contacto com pessoas eventualmente doentes, da maçada…

Portanto, leitor ou leitora, não se sinta um «monstro» por «sujeitar» o seu bebé a este «suplício» — pense quão bom pai ou mãe é, em dar-lhe o que há de melhor e como está a prevenir doenças que o poderiam afetar muito, inclusivamente matar… mesmo que, obviamente, como mãe ou pai, lhe custe ver o seu bebé a «apanhar» tantas «picas».

As vacinas causam autismo. Toda a gente sabe, e até tenho um sobrinho que…

FALSO! Mentirosamente falso!

O estudo de 1998 que suscitou inquietação acerca de uma possível relação entre a vacina antissarampo, parotidite e rubéola (VASPR) e o autismo era uma fraude. Sim, uma fraude. O autor foi obrigado a retratar-se, dado ter cometido enormes irregularidades metodológicas, para lá da reduzidíssima amostra, e obrigado a deixar de exercer medicina.

Também nos Estados Unidos, um médico que era um dos principais detratores das vacinas, Jeff Bradstreet, pai de uma criança autista, lançou essa ideia e acabou por se suicidar em 2015, ao que se crê devido a um eventual remorso pelas suas atitudes. Outro caso foi o de Andrew Wakefield, um médico que forjou os resultados de um pretenso estudo em que relacionava a VASPR com o autismo; o estudo foi publicado na prestigiada revista Lancet e causou mossa, mesmo depois de um jornalista, Brian Deer, ter investigado o caso e descobrir que tudo era mentira e o médico acabar por ser irradiado da Ordem e deixar de exercer; a revista publicou um pedido de desculpas, cerca de dois anos depois.

O mal estava feito. Nos EUA, o conhecido ator Robert de Niro, pai de uma criança autista, deu voz a essa relação entre as vacinas e a doença, porventura para tentar ter uma explicação para o infortúnio do filho, mas com isso conseguiu que milhares de crianças não fossem vacinadas e muitas tivessem morrido. É compreensível que alguns pais tentem arranjar uma explicação para fenómenos que não são explicáveis, ou para os quais a ciência ainda não descobriu uma razão. Na falta de uma explicação, e para não nos culparmos a nós próprios, aos nossos genes, a culpa «judaico-cristã» leva a que se arranje um bode expiatório. As vacinas, por serem tão «vagas», desempenham um bom papel…

As vacinas são seguras e eficazes e todas as crianças e adultos devem cumprir os esquemas de vacinação recomendados para a sua idade e estado de saúde. O autismo, desculpe o leitor o coloquialismo, «não é para aqui chamado!».

Como toda a gente se vacina, escuso de vacinar o meu filho… assim, não tenho, nem a doença, nem os eventuais efeitos secundários da vacina…

FALSO! Arriscado, traiçoeiro e… horrendamente egoísta!

Quem pensa assim pensa errado, por várias razões, entre as quais: é de um enorme egoísmo querer que os outros nos protejam e nós não façamos o mesmo, dado que não estaremos a contribuir para a imunidade de grupo. É como não pagar impostos ou outra coisa qualquer de espírito comunitário — uma atitude abjeta do ponto de vista social.

Por outro lado, todas as crianças devem ser vacinadas nas idades recomendadas desde que não tenham uma verdadeira contraindicação (o que será determinado pelo médico-assistente), porque qualquer criança não vacinada ficará suscetível às doenças e suas complicações (que podem ser muito graves e não se consegue prever em quem surgirão) por não ter imunidade natural (uma vez que não teve a doença) ou adquirida (pela vacinação).

A recusa individual da vacinação compromete o interesse coletivo, já que uma criança não vacinada por opção dos pais se adoecer, pode contagiar outras crianças não vacinadas por contraindicação médica comprovada ou por ainda não terem idade para ter iniciado ou completado a vacinação. Mas, mais, quem lhe garante que o seu filho não irá, daqui a uns anos, viajar para países onde as doenças ainda são endémicas — tuberculose, sarampo… — ou entrar em contacto com alguém doente que veio desses países? Não pretende que ele ou ela vivam num bunker, certamente, até porque isso seria impossível com a globalização da vida das pessoas.

Assim, se optar por não vacinar o seu filho, deverá ter bem ciente que está a fazê-lo correr riscos desnecessários quanto à saúde e quanto à vida — já agora, porque é que não o transporta no carro deitado no banco de trás, sem cadeirinha, ou não o expõe ao sol, sem protetor, durante oito horas seguidas num dia de verão? É exatamente o mesmo tipo de atitude!

Caso tome essa opção — o que espero sinceramente que não faça depois de ler este livro —, há alguns cuidados a ter, nomeadamente: se o seu filho adoecer e tiver de recorrer a um serviço de saúde, deve avisar imediatamente os profissionais de saúde que a criança não recebeu todas ou algumas das vacinas recomendadas para a sua idade, uma vez que é necessário, nestes casos, considerar que a criança pode ter uma doença evitável pela vacinação. Se aparecer na escola alguma criança com uma doença evitável pela vacinação, o seu filho terá de cumprir um período de afastamento da escola e de outras atividades de grupo até haver a certeza que não contraiu a doença e não a irá disseminar.
Esse período varia conforme a doença (que pode ser de dias ou semanas). Se o seu filho viajar, é bom ter a noção de que muitas das doenças que estão controladas no nosso país ainda existem «à grande» noutros países, como, por exemplo, o sarampo, pelo que o seu filho não estará protegido. Para além de adoecer, pode trazer de novo a doença para Portugal quando regressar e contagiar outras crianças não vacinadas. Quanto maior for o número de pais que optam por não vacinar os filhos, maior é o risco de disseminação das doenças evitáveis pela vacinação. Ao decidir não vacinar, não põe só o seu filho em risco, mas também toda a comunidade.

Todavia, sei que o leitor ou leitora é inteligente e que, se ainda não vacinou o seu bebé, irá vaciná-lo, quanto mais não seja, porque o ama e quer o melhor para ele.

Os ministérios da Saúde estão feitos com as multinacionais, com a alta finança e com os países ricos que exploram os mais pobres… aliás, são as multinacionais que disseminam as doenças, para depois venderem medicamentos e vacinas.

FALSO! Se não fosse tão grave, dava para rir.

É… e nos séculos XIII, XIV, XV e XVI, quando houve epidemias de peste negra, tuberculose, sífilis, ou gripe «espanhola» já em 1918, para só citar algumas, eram seguramente os índios americanos, organizados em multinacionais (apesar de não haver aviões nem Internet) que faziam isso tudo. Depois, com o que ganhavam, compravam amuletos e faziam totens…

Se o ridículo matasse, haveria muita gente que já tinha ido… o pior é que, com base nestes mitos e fake news, propalados pelas redes sociais, muitas pessoas de carne e osso morrem porque acreditam nestes profetas que dizem as maiores mentiras impunemente.

Claro que uma multinacional que fabrica vacinas quer recuperar o investimento de milhões que fez, e ao mesmo tempo, numa sociedade de economia de mercado, quer dar aos investidores e acionistas o maior rendimento possível. Isso acontece tanto com vacinas, como, por exemplo, com sapatos ou lâmpadas.

A questão, aqui, é mais o que os Estados podem e devem fazer, já que se trata de uma questão de saúde pública, em termos de regularizar preços, negociar condições e realizar concursos públicos internacionais em que se podem conseguir custos de cerca de um terço de uma compra simples de «venda ao público». Quanto aos Estados produzirem vacinas, torna-se impossível por se exigir uma tecnologia que não têm e as vacinas passarem a ser incrivelmente mais caras e menos fiáveis.
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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

VAZIO EXISTENCIAL

Osvino Toillier*
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Nosso tempo é pródigo em sentimentos que vão na contramão de tudo que a pós-modernidade prometia: felicidade, realização plena dos sonhos, capacidade de solução dos problemas, enfim, superação dos limites e de tudo que nos confina como seres humanos em nossos feudos. Somos poderosamente globais!

Na verdade, porém, estamos sujeitos a um vazio existencial sem precedentes, a realidade de pessoas que perderam o centro e não sabem a partir de que viver. Erich Fromm, psicanalista, psicólogo e sociólogo alemão, constata, que “o homem não se sente a si mesmo como portador ativo de suas próprias capacidades e riquezas, mas como uma coisa empobrecida que depende de poderes exteriores a ele”. Ainda segundo o autor, “a sociedade capitalista converteu-se num fim em si mesmo”.

A ele juntou-se nesta leitura pessimista da nossa realidade o também filósofo Carl Gustav Jung, que ousou definir a neurose como “o sofrimento que não encontrou o seu sentido”. E onde falta sentido, segundo José Antonio Pagola, “impera a desintegração e fragmentação da pessoa, o consumo despersonalizado, corrida às drogas, tendência psíquica e a deterioração corporal”.

E como decorrência do quadro de vazio existencial, surge a busca incessante pelo consumismo, transformado no sentido mais importante da vida, mas cuja posse não preenche o vazio interior. E aí vamos novamente invocar Erich Fromm: “O mundo é um grande objeto para nosso apetite: uma grande maçã, uma grande garrafa, um grande peito; nós somos os lactantes, os eternamente expectantes, os esperançados e os eternamente desiludidos.”

O resultado de tudo isso é a solidão e a ausência de sentido de vida, que precisam ser compensados pelo sentimento de amar e sentir-se amado. Este é o grande desafio com que precisamos nos preocupar.
*Mestre em Educação e vice-presidente do Sinepe/RS
Fonte: Jornal do Damista, impresso. Poa/RS-  31/08/2017 p.2

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Phigital: quando o mundo físico e o digital estão conectados com foco na experiência do consumidor

Durante a palestra, Karina Israel, Co-Founder & CGO da Ydreams explicou porque as gigantes do online resolveram aderir ao mundo físico

Entenda porque empresas que só estavam presentes no online optaram por investir no offline 

Por *Bianca Borges 

A nossa relação com o digital está cada vez mais profunda e os limites do mundo físico com online mais tênues. Apesar dessa conexão entre esses dois ambientes já estar acontecendo faz um tempo, muitas empresas ainda não perceberam a importância dessa união.
Um termo que tem sido bastante utilizado nos últimos anos e que faz referência à essa conexão alinhada com a experiência do consumidor é o Phidital. Karina Israel, Co-Founder e CGO da Ydreams falou sobre esse assunto no Expo Fórum de Markeitng Digital.

De acordo com  Karina, o celular é visto como a principal ferramente que possibilita a ligação entre o físico e o digital, tanto é que no Brasil, para um quinto das pessoas o aparelho mobile já é a tela principal. Apesar disso, é importante ressaltar que existem muitos outros meios que unem o on e offline. A  Co-fundadora da YDreams citou algumas delas: como as tecnologias wearables, a inteligência ambiental (quando o  ambiente interage com o indivíduo de acordo com o humor da pessoa), IoT, organic computing (impressão de órgãos humanos).

Eu li uma matéria que dizia que no futuro não haveria mais fome porque a gente poderia imprimir toda a comida do mundo”, comentou Karina.

Durante a palestra, a executiva também falou sobre a evolução da conexão on e offline. A primeira fase dessa união ela chamou de “From bricks to clicks”, que corresponde ao desafio das lojas físicas se inserirem no ambiente digital. A segunda fase, pela qual estamos passando hoje, é denominada “From clicks to bricks” e consiste no processo inverso, “As gigantes digitais estão comprando tudo no mundo físico”, explicou a gerente.

Segundo a especialista esse movimento de aquisição de lojas físicas pelas empresas digitais pode ser perigoso para as demais organizações. As gigantes digitais já tem um modelo de negócio disruptivo e um pensamento transformador e se igualar ou superar esses organizações torna-se ainda mais desafiador.

Mas porque as gigantes do online resolveram aderir ao mundo físico se a tendência é ser digital? De acordo com Karina, que fez diversas pesquisas para entender esse processo, existem ações que precisam ser feitas fora do ambiente online. A executiva citou alguns pontos:

Omnichannel

A medida que as empresas começam a crescer no digital, elas entenderam que as pessoas são feitas de átomos e não de bits”, afirmou Karina. Por isso, por mais que o digital esteja em evidência, o lado humano do indivíduo ainda carece de experiências diferenciadas. É aí que entra o omnichannel que dá a opção ao cliente realizar a compra por diversos canais e ter interações tanto online como nas lojas físicas.

Awareness

Existe uma superlotação no território digital. “Quem tinha que me ver no mundo digital já me viu e agora eu preciso abrir uma loja para atrair as pessoas que não me conhecem”. Mesmo que o interesse da sua empresa seja atrair clientes para o ambiente online a loja física pode ser uma boa opção para fazer essa conexão.

Engagement

De acordo com Karina, a experiência física alcança maior envolvimento. A CGO exemplificou:
“Quem já fez compra pela internet? Eu comprava sempre tudo igual, só copiava a lista de produtos. Eu fiquei presa no mesmo hábito, parei de me engajar com outras marcas diferentes, parei de conhecer coisas novas ter novas experiências”.
Os consumidores são condicionados por hábitos e, esse é o problema do digital que pode nos condicionar e nos impedir de descobrir o novo.

Experimentação

A Beaty Box, uma empresa de cosméticos, que inicialmente só atuava no online, percebeu que apenas no ambiente digital não conseguiria oferecer experiências diversificadas para as clientes. Não seria possível nunca testar uma maquiagem antes de comprar, por exemplo. Por conta disso, eles criaram um espaço físico onde as consumidoras pudessem testar os produtos, sentir e experimentar.

Cultura

Segundo a co-fundadora da YDreams, as empresas precisam de um espaço físico para introduzir novos hábitos (way of life) e investir na personificação da marca.

No final da palestra Karina lembrou que não deve existir diferença entre mundo online e offline, mesmo porque, “a nova geração almeja um mundo que seja fluido em tudo aquilo que ela conhece. É pouco ser só físico, o físico tem q ser complementar ao que o digital oferece. É preciso conectar o mundo (online) onde tudo estar ao seu dispor com o mundo (offline) da experiência , do toque do sentimento.
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*Bianca Borges é jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi. Analista de Conteúdo no Digitalks, também tem experiência nas áreas de assessoria de imprensa e gestão de mídias sociais. Gosta de escrever sobre diversos assuntos mas, atualmente, seu foco é o Marketing Digital.
Fonte:  https://digitalks.com.br/noticias/phigital-quando-o-mundo-fisico-e-o-digital-estao-conectados-com-foco-na-experiencia-do-consumidor/

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

GIANNOTTI: O PSDB morreu, não é mais um partido, diz.

 José Arthur Giannotti, 87 anos, professor universitário, lança um livro chamado "Os Limites da Política - Uma Divergência".
Aos 87 anos, o professor aposentado de filosofia na USP e pesquisador do Cebrap José Arthur Giannotti mantém o gosto pelo debate. 

No livro recém-lançado "Os Limites da Política" (ed. Companhia das Letras), ele e o professor de filosofia da Ufscar Luiz Damon Santos Moutinho discutem temas como o lugar da democracia no capitalismo contemporâneo. 

Na entrevista, Giannotti comenta aspectos do livro e expõe, com contundência, as suas opiniões sobre a política brasileira. 

Amigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e considerado por décadas uma das referências intelectuais do PSDB, o professor afirma que "o partido morreu". 

Giannotti tampouco poupa o governo Michel Temer e os partidos da oposição, como o PT e o PSOL.
Para ele, a crise atual da política e do Estado no Brasil é pior que a de 1964, quando houve o golpe dos militares. "Quem hoje diz ter a solução para a crise? Ninguém".
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Folha - Há um trecho do novo livro em que o senhor diz: "Os cidadãos começam a exercer a cidadania pelo consumo. A política contemporânea tem que se ocupar dessa tragédia". Como a política poderia levar para um outro caminho?
Giannotti - Não digo que exista outro caminho. Digo no livro como a política pode ou deve pensar nesse conflito e como conviver com ele. Se não há uma solução no nosso horizonte, como vamos conviver com o capital?

A primeira obrigação da esquerda deveria ser a compreensão do que é o capital moderno. Ela entende? Não. No Brasil e nos demais países da América Latina, o que nós tivemos foi populismo, isto é, pensar num capital que existia há 50 anos e querer distribuir aquilo que não poderia. Outro dia vi o programa do PSOL e pensei que estivesse no século 19. 

Por quê?
Porque eles pensam a revolução e o capital nos termos do século 19. A esquerda precisa pensar o que é o capital, e o capital moderno é o do conhecimento, é o que produz a base para uma diferença de tecnologia. É assim que os EUA estão saindo da crise. 

No caso do Brasil, a situação é apavorante porque o populismo destruiu as condições para que tivéssemos grandes avanços nas pesquisas. O populismo foi, sob esse ponto de vista, altamente nocivo. Nós saímos da crise, mas não saímos do século 20. 

O que quer dizer com "não saímos do século 20"?
Não temos estrutura para produzir a tecnologia necessária para o capitalismo moderno. 

Quando fala em populismo no Brasil, refere-se a quem?
Ao caso da Dilma, que é extraordinário. Ela pensou que podia, por meio do BNDES, criar um novo capitalismo, com novos atores, com jurinhos bonitinhos... Só que ela gastou muito mais com isso do que com o Bolsa-Família. E ela mesmo se impichou porque não tinha mais condições de operar. 

Ela terminou o primeiro mandato, promoveu-se como continuadora de um processo e, em seguida, negou esse processo ao nomear o Joaquim Levy para o ministério da Fazenda. Não me esqueço que, logo depois, uma das vozes do PT, o André Singer, falou em "estelionato eleitoral" na Folha

Como o senhor avalia o governo Temer?
Apareceu como um governo querendo resolver impasses do capitalismo brasileiro. Não esqueça que a equipe econômica do Temer é a aquela que o Lula queria impor à Dilma, e ela que não quis. Era o Henrique Meirelles [ministro da Fazenda]. Só que esse projeto econômico não está sendo realizado, por isso não sei o que vai acontecer. 

Além disso, temos no Brasil uma crise de Estado. Lembre-se da definição do [alemão Max] Weber, para quem o Estado tem o monopólio do poder. Nós não temos o monopólio do poder hoje, veja o Rio. É, portanto, uma profunda crise de Estado. 

O governo Temer está tentando resolver isso? Por enquanto, não conseguiu. E também não resolveremos o problema com esse Congresso, que foi atravessado pela corrupção. 

No Brasil, a corrupção passou a ter, em alguns momentos da história, como o atual, uma função política. Se não fosse assim, não teria nascido a Lava Jato, que é um processo jurídico-político. 

Qual é a sua opinião sobre a Lava Jato?
Às vezes, vejo exageros, às vezes, algumas loucurinhas, mas, de modo geral, é formidável. É um processo de renovação da política brasileira. Agora, pode dar certo ou não. 

A Operação Mãos Limpas, na Itália, não deu certo porque os parlamentares se uniram e liquidaram o movimento. No Brasil, eles conheciam o caso italiano e têm sido mais inteligentes. Em vez de metralhar todo o sistema político, metralharam quem estava no governo ou próximo dele. 

Caso o ex-presidente Lula seja absolvido no tribunal de segunda instância, ele tem chance de voltar a ser eleito?
Não sei. Conheço bem o Lula, não esqueça que fui um dos fundadores do PT. E saí logo (risos). O Lula é um gênio político, é absolutamente extraordinário. Até que ponto ele foi tomado pela corrupção a Justiça vai dizer. As pesquisas mostram que o Lula tem chance, mas, se entrar, vai haver muito protesto. 

Além disso, Lula não tem ecos dentro do próprio PT. Ele só consegue botar no lugar dele postes, e postes que são pouco iluminadores. 

Um dos nomes que despontam é o do deputado federal Jair Bolsonaro (PEN). O que o senhor pensa sobre ele?
Eu não penso, eu me jogo da ponte [risos]. No Brasil, costumava haver o seguinte: o país caía em uma crise, e os militares entravam [no poder]. Isso, felizmente, não aconteceu desta vez. Por outro lado, sempre existem os substitutos dos militares, e um deles é o Bolsonaro. Seria um desastre. 

Se ele vencer a eleição, nós, que já não saímos do século 20, daríamos um passo atrás na democracia. 

Há essa movimentação no Congresso para uma reforma política. Qual o modelo funcionaria melhor?
O que mais se aproxima dos meus ideais é o distrital misto. Só que ele pode se tornar uma sacanagem na maneira como se desenham os distritos. 

Aliás, fiquei puto com o editorial da Folha sobre o teto do funcionalismo público. De modo geral, é mesmo um escândalo. Mas há certas situações em que o teto não pode ficar como está. 

Falo das universidades paulistas. Se for mantido o teto dos professores universitários no limite do salário do governador, que é um político e ganha R$ 21 mil, criam-se situações como a de São Carlos, onde se faz pesquisa. 

Você sai da USP, atravessa a ponte e chega à Ufscar [Federal de São Carlos], onde o teto é de um ministro do STF [R$ 33 mil]. Como deixar que o pesquisador da USP ganhe menos que o da federal? Aí ele acaba trocando uma pela outra. Ou acaba indo embora, deixa o país. 

Essa é uma situação séria. Se quisermos ser um país moderno, precisamos ter uma pesquisa forte e abundante. 

O senhor nasceu em 1930 e entrou na filosofia da USP em 1950...
Oficialmente, sim. Mas eu fiz um curso de letras clássicas como ouvinte registrado antes, em 1948. 

Por tudo o que o senhor já viveu, há algum momento da história recente do Brasil que possa comparar com os dias de hoje?
Não. A nossa crise é pior que a de 1964. 

Por quê?
Lá tinha a merda dos militares. Eles mataram gente etc., mas botaram ordem. Agora nem isso nós temos. Não quero a volta dos milicos não [enfático]. Mas hoje não temos processos de resolução da crise. Isso é um problema muito sério. Quem diz ter a solução para a crise? Ninguém. 

O senhor acredita que nossa situação hoje é pior que a de 1964 mesmo considerando o fato de vivermos numa democracia, em que temos a opção de mudar o governo?
Veja bem, tudo no Brasil é formal. Vivemos numa democracia formal. A população se manifesta hoje? Não, isso só aconteceu em 2013, quando foi para as ruas. As eleições são falsificadas pelos rios de dinheiro, pela propaganda nas TVs. Isso é melhor do que o populismo na Venezuela, mas é uma boa democracia? Não é. 

O senhor foi considerado por muitos anos uma referência intelectual dentro do PSDB...
[ele interrompe] Esse é um problema deles, não meu. 

Sou muito amigo do Fernando Henrique, mas no governo dele, fui eleito [ele enfatiza a palavra 'eleito'] para o Conselho Nacional de Educação. E fiquei pouco tempo. Briguei e fui embora.
Não quero participar de governo, não é minha função. Ao integrá-lo, eu deixo de ser o crítico que quero ser. 

Como avalia esse impasse do PSDB de ficar ou não no governo Temer?
O PSDB morreu. Quer que eu fale de defuntos? O PSDB não é mais um partido. Funcionava como um partido quando as decisões eram tomadas em bons restaurantes e todos estavam de acordo. Agora isso não há mais. E não existe alguém como Lula para aglutinar todos. 

Quanto a divulgação do áudio do Aécio Neves com o Joesley Batista prejudicou o partido?
Você me pede uma medida do desgaste? Não sei, a medida será o voto. Foi escandaloso, mas não sei qual será o efeito nas eleições. 

Há um trecho do novo livro em que o senhor critica situações "quando a decisão política se transforma na gestão de uma empresa". O senhor se referia ao prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB)?
Não, quando escrevi, o Doria não existia [escreveu antes da candidatura de Doria à prefeitura]. Além disso, eu não estaria falando dele de jeito nenhum porque gestor de empresa ele não é. Ele é um bom comunicador, que se veste de gari e assim por diante. Até agora não vi ele provar ser um grande gestor. 

Qual é o seu próximo projeto?
Estou planejando um livro sobre o que aconteceu na filosofia do século 20. Houve dois pontos de ruptura, Heidegger [1889-1976] e Wittgenstein [1889-1951], ambos mal compreendidos, que botaram em xeque a ideia de razão. A partir dos anos 60, houve um recuo na filosofia. 

*
O livro recém-lançado "Os Limites da Política – uma Divergência" nasceu das discordâncias de dois professores de filosofia. Discordâncias expostas com cordialidade, o que tem se tornado raro no debate público no Brasil. 

Luiz Damon Santos Moutinho, professor da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), ficou estimulado com a leitura do texto "A Política no Limite do Pensar", do colega José Arthur Giannotti.
Damon escreveu um ensaio em resposta a Giannotti e enviou a ele por e-mail. Vieram tréplicas. E eles perceberam que tinham um livro em mãos. 

A obra aborda pontos como a situação da democracia em meio a uma economia que gera desigualdades crescentes. 

"Giannotti sai em defesa de uma política que nega a política", critica Damon. O professor da USP discorda da avaliação. 

No campo das ideias, Damon situa-se à esquerda de Giannotti. Ambos concordam. 

OS LIMITES DA POLÍTICA - UMA DIVERGÊNCIA
AUTORES José Arthur Giannotti e Luiz Damon Santos Moutinho
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 45 (164 págs.)
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FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/09/1915556-o-psdb-morreu-nao-e-mais-um-partido-diz-giannotti.shtml

Idiotas do bem retornam para proibir a propaganda de bebidas alcoólicas

 Luiz Felipe Pondé*
 
E os idiotas do bem atacam de novo. Você não sabe o que é um idiota do bem? Explico: é alguém que tem certeza de participar do grupo que salva o mundo. Mas essa categoria contemporânea tem subespecificações. Hoje, vamos analisar uma delas. 

Você sabia que tem gente por aí apoiando a proibição de propagandas de bebidas alcoólicas nos meios de comunicação? 

Um dos traços desse subtipo de idiotas do bem é gozar com leis que incidem sobre hábitos e costumes. No caso do álcool, se eles pudessem, votariam a favor do retorno da "prohibition" –lei seca americana que deu impulso ao crime organizado. 

O que está por detrás dessa ideia de proibir a propaganda de álcool é uma mentalidade totalitária. Uma coisa que rapidamente esquecemos é que toda forma de repressão vê a si mesma como uma forma do bem instituído na norma. 

Daqui a pouco se proibirá a publicidade de carros (causam acidentes), aviões (caem), batom (dá vontade de beijar a boca das mulheres e isso pode ser anti-higiênico), churrascaria (colesterol), café (causa ansiedade), xampus (os cabelos reais nunca são tão lindos quantos os das propagandas), bolas de futebol (os meninos podem cair e quebrar a perna), livros (existem livros que propõem coisas absurdas), telefonia celular (já se fala em pessoas viciadas em celulares), televisão (crianças podem ver coisas erradas na televisão), computadores (a internet é incontrolável), turismo (pessoas podem pegar infecção intestinal viajando), água (pode estar contaminada), metrô (pode descarrilar), ônibus (capotam)... A lista é cansativa, como tudo que brota da alma dos idiotas do bem quando resolvem salvar o mundo de nós mesmos. 

O ódio à espécie humana é comum em quem é intolerante à contingência. Às vezes, a intolerância vem disfarçada de amor ao próximo e à sociedade. 

A "sujeira" humana é insuportável para os idiotas do bem que sonham com um mundo em que apenas eles possam viver e tudo seja limpinho. 

O objetivo é estabelecer um controle absoluto de tudo na vida, matá-la em nome desse controle. A contingência, inimiga mortal das almas pequenas, é o foco de leis como essa: proibindo a publicidade de bebidas alcoólicas, os idiotas do bem entendem que controlarão o uso de álcool. 

Recomendo, fortemente, para essas almas pequenas, a leitura do maravilhoso "Antifrágil", de Nassim Nicholas Taleb, publicado no Brasil pelo selo Best Business, da editora Record. 

O conceito de "antifrágil" não é sinônimo de forte ou robusto, ou inquebrável. A ideia de Taleb é que, quando se acua excessivamente a contingência, ela "se vinga". 

Sistemas muito puros ou controlados estariam condenados a essa vingança da contingência. A "saída" é ser meio "sujo", meio "incerto", "educado pela contingência", aprendendo a conviver com ela. 

Taleb identifica, como seria de se esperar, a modernidade como sofrendo desse mal: nas palavras do próprio autor, "o intervencionismo ingênuo moderno". 

Como, aliás, já ficava claro nas propostas utópicas de filósofos como Francis Bacon (1561-1626) para sua "Nova Atlântida", o foco da ciência seria "atar a natureza" para que ela nos entregasse nossas melhores condições de vida. 

Sem cairmos numa defesa ingênua da vida natural "livre", trata-se de entender que o controle excessivo da vida a torna insuportável. Quem muito se lava padece de bactérias superpoderosas. 

O mundo contemporâneo, na mesma medida em que se masturba com a autoimagem de "livre", sofre de uma profunda compulsão de controle da contingência em todos os níveis. 

Ser antifrágil é aprender que "pequenos" e contínuos efeitos da contingência são assimiláveis e formadores da sobrevivência, enquanto que a negação pura e simples desses efeitos prepara a vingança da contingência. 

O mundo, cada vez mais, é habitado por jovens assustados, ansiosos, inseguros nos afetos, com medo de ter filhos (mente-se muito sobre isso tudo), que temem uma vida que, ao contrário do que lhes foi prometida, está sempre além de nossa capacidade de previsão e controle.
Jovens inseguros e ansiosos: eis a vingança da contingência. 
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* Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/09/1915514-idiotas-do-bem-retornam-para-proibir-a-propaganda-de-bebidas-alcoolicas.shtml

O medo: inimigo da alegria de viver

 Leonardo Boff*

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Hoje o mundo, o Brasil e as pessoas são assoladas pelo medo de assaltos, às vezes com morte, de balas perdidas e de atentados terroristas. Estes recentemente praticados em Barcelona e Londres provocaram um medo generalizado, por mais que tenha havido demonstrações de solidariedade e manifestações pedindo paz.

Indo mais a fundo na questão, há que se reconhecer que esta situação generalizada de medo é a consequência última de um tipo de sociedade que colocou acumulação de bens materiais acima das pessoas e estabeleceu a competição e não a cooperação como valor principal. Ademais escolheu o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e sociais.

A competição deve ser distinguida da emulação. Emulação é coisa boa, pois traz à tona o que temos de melhor dentro de nós e o mostramos com simplicidade. A competição é problemática, pois significa a vitória do mais forte entre os contendores, derrotando todos os demais, gerando tensões, conflitos e guerras.
Numa sociedade onde esta lógica se faz hegemônica, não há paz, apenas um armistício. Vigora sempre o medo de perder, perder mercados, vantagens competitivas, lucros, o posto de trabalho e a própria vida.

A vontade de acumulação introduz também ansiedade e medo. A lógica dominante é esta: quem não tem, quer ter; quem tem, quer ter mais; e quem tem mais, diz, nunca é suficiente. A vontade de acumulação alimenta a estrutura do desejo que, como sabemos, é insaciável. Por isso, precisa-se garantir o nível de acumulação e de consumo. Daí resulta a ansiedade e o medo de não ter, de perder capacidade de consumir, de descer em status social e, por fim, de empobrecer.

O uso da violência como forma de solucionar os problemas entre países, como se mostrou na guerra dos USA contra o Iraque, se baseia na ilusão de que derrotando o outro ou humilhando-o, conseguiremos fundar uma convivência pacífica. Um mal de raiz, como a violência, não pode ser fonte de um bem duradouro. Um fim pacífico demanda igualmente meios pacíficos. O ser humano pode perder, mas jamais tolera ser ferido em sua dignidade. Abrem-se as feridas que dificilmente se fecham e sobra rancor e espírito de vingança, húmus alimentador do terrorismo que vitima tantas vidas inocentes como temos assistindo em muitos países.

A nossa sociedade de cunho ocidental, branca, machista e autoritária escolheu o caminho da violência repressiva e agressiva. Por isso está sempre às voltas com guerras, cada vez mais devastadoras, como na atual Síria, com guerrilhas, cada vez mais sofisticadas e atentados, cada vez mais frequentes. Por detrás de tais fatos existe um oceano de ódio, amargura e vontade de vindita. O medo paira como manto de trevas sobre as coletividades e sobre as pessoas individuais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros. O cuidado constitui um valor fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. O cuidado é o orientador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.     

Cuidar de alguém é envolver-se com ele, interessar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável do destino dele. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, cuidado pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecossistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada pessoa, cuidado com as relações sociais no sentido de serem participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura que permite as pessoas viverem um sentido positivo da vida, acolher suas limitações, o envelhecimento e a própria morte como parte da vida mortal: esta sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

Em momentos de grande medo, ganham especial sentido as palavras do salmo 23, aquele do “Senhor é meu pastor e nada me falta”. Ai o bom pastor garante: ”ainda que tu devesses passar pelo vale da sombra da morte, não temas porque Eu estou contigo”.

Quem consegue viver esta fé se sente acompanhado e na palma da mão de Deus. A vida humana ganha leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade e alegria de viver. Pouco importa o que nos acontecer, acontece em seu amor. Ele sabe o caminho e sabe bem certo.
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*Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu o livro O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.
Imagem da Internet
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2017/09/03/o-medo-inimigo-da-alegria-de-viver/