domingo, 8 de outubro de 2017

RADICALIZAR A DEMOCRACIA


Silvia Costanti/Valor
 De posse de novos dados sobre o Brasil, ausentes de seu best-seller, 
Piketty é categórico sobre o futuro: 
"Os países mais ricos do mundo enriqueceram 
porque aceitaram distribuir"

O presidente Emmanuel Macron tinha acabado de fazer seu primeiro discurso sobre o futuro da União Europeia, 24 horas depois de conhecidos os resultados da eleição alemã, quando o economista Thomas Piketty pegou um avião para São Paulo. Participaria, pela primeira vez, do fórum de palestras Fronteiras do Pensamento.

Ao receber o Valor, na tarde de seu desembarque, em hotel na zona Oeste de São Paulo, Piketty já tinha sua crítica na ponta da língua. O discurso não incorporara as sugestões do economista, no segundo turno da eleição francesa, como passaporte para seu apoio ao candidato do Em Marcha. A proposta, transformada em livro ("Por uma Europa Democrática", 2017), é a de que a única saída para a União Europeia é radicalizar a democracia.

A aposta de Piketty, cujo candidato (Benoît Hamon, do Partido Socialista), ficou em quinto lugar, é de que a UE não encontrará seu rumo enquanto suas decisões derivarem do embate de seus ministros de Finanças e não dos eleitos pelos parlamentos nacionais.

Foi sua segunda passagem pelo Brasil. Na primeira, em 2014, cumpria o circuito de lançamento de "O Capital no Século XXI". O livro fez do economista de 46 anos, nascido de um casal de militantes de esquerda da geração de 1968, um best-seller mundial, com mais de 2 milhões de cópias vendidas em todo o mundo e 150 mil no Brasil.

O compêndio ficou desfalcado de informações mais precisas sobre o Brasil, que só seriam liberadas pela Receita no ano passado. Os dados sobre imposto de renda foram pioneiramente processados pelos economistas Marcelo Medeiros e Pedro Ferreira de Souza, mas são os estudos de seu orientado, o irlandês Marc Morgan, que levaram Piketty a ser mais assertivo: "Os países mais ricos do mundo adotam, há mais de um século, uma política de progressividade fiscal cujo desconhecimento no Brasil bloqueia seu desenvolvimento", disse, ao Valor, antes de rechaçar a resiliente percepção da elite nacional de que é preciso crescer para distribuir: "Os países mais ricos se desenvolveram porque distribuíram"

O economista fala como escreve. Explora a mesma ideia por vários caminhos até que esteja seguro de que foi bem assimilada. Restringiu o número de entrevistas desde que seu best-seller lhe impôs uma agenda de arauto da desigualdade, mas preservou o tom da ofensiva. Agora investe em estudos sobre os obstáculos políticos à redução da desigualdade e em ampliar seus contatos com pesquisadores do tema mundo afora. Traz no seu tablet a fotografia da capa do livro "Tributação e Desigualdade", organizado pelo economista José Roberto Afonso, que está para ser lançado com um artigo de sua autoria.

Aos 23 anos, o matemático, doutor em economia, cruzou o Atlântico para dar aulas no MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Hoje permanece na EHESS, Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, em Paris, e se limita a cruzar a Mancha para dar quatro dias de aula por ano na LSE (Escola de Economia de Londres).
 
Espera voltar ao Brasil para conhecer as praias do Ceará com a mulher, a economista Julia Cagé, e as filhas Juliette, Deborah e Hélène, agora que o pai casou-se novamente com uma cearense residente na França. A seguir, a entrevista:

Valor: O presidente Emmanuel Macron acaba de fazer um discurso ambicioso sobre União Europeia. Foi no rumo certo?
Thomas Piketty: O mais importante para a Europa hoje é que um conjunto de países que têm a mesma moeda constituam também uma verdadeiro bloco político e parlamentar para que passem a gerir um orçamento comum e uma mesma política fiscal. Não podemos ficar só na moeda. É a grande lição da crise de 2008. Não podemos continuar com 19 taxas de juros e 19 diferentes estruturas fiscais na abordagem de multinacionais, pequenas e médias empresas. É preciso mudar a organização política da Europa. Atualmente, para todas as questões fiscais, prevalece a regra da unanimidade. Se um país se coloca contra uma determinado ponto, bloqueia qualquer mudança. A única maneira de mudar isso é dar poder a um Parlamento verdadeiramente representativo.

Valor: A questão levantada pelo senhor durante a campanha, de radicalização da democracia no bloco, parece ter sido ignorada...
Piketty: Completamente. Há dois problemas nas colocações de Macron. Ele não é muito claro sobre como desbloquear os entraves colocados por aqueles países que não querem avançar contra aqueles que o querem. E, em segundo lugar, é preciso rever a composição do Parlamento europeu de maneira que aqueles países que queiram avançar na direção de um imposto comum, como a França, a Alemanha, a Bélgica, a Itália e a Espanha, possam seguir adiante para dar conta de suas urgências fiscais e sociais. Até agora temos construído um Parlamento europeu que contorna os parlamentos nacionais e, de fato, não funciona porque o verdadeiro poder na Europa está nos conselhos dos chefes de Estado e dos ministros de Finanças. Para sair dessa lógica intergovernamental é preciso ter um Parlamento que se reúna para votar mudanças reais com um certo número de deputados da Assembleia francesa, do Bundestag alemão e dos demais parlamentos.

As decisões não podem ser tomadas por ministros de Finanças, mas por representantes eleitos reunidos em Assembleia

Valor: O senhor viu algum avanço no discurso em relação à mutualização da dívida pública na zona do euro?
Piketty:
Não. As propostas de Macron são muito frouxas e correm o risco de nada avançar. O que está em questão não é a resistência alemã, mas a falta de precisão das propostas. É importante que os países sejam precisos e diretos sobre o que pretendem e parem de colocar sobre a Alemanha uma responsabilidade que é sua. Há de fato atitudes políticas da Alemanha em relação à Europa que são cansativas, mas a França tem grande responsabilidade na proposição de uma nova organização democrática da zona do euro.

Valor: Mas não há algum avanço no que se refere à taxação sobre a emissão de carbono e à taxação sobre transações financeiras?
Piketty
: São propostas insuficientes. Uma declaração de boas intenções sobre transações financeiras ou sobre a taxa de carbono não basta, nem diz porque funcionaria agora se não funcionou no passado. Então, se ele não disser claramente como uma assembleia democrática poderia se compor com poderes para tomar decisões em benefício da sociedade, não vai avançar.

Valor: Os governos nacionais são o maior entrave a essa mudança na representação política da Europa que o senhor propôs?
Piketty: Sim, no sistema atual você tem o embate entre os ministros das Finanças, cada um protegendo o interesse de seu país, sem chegar a lugar algum. Por isso digo que é preciso substituir essa lógica por uma assembleia democrática em que os países enviem uma cota de representantes de seus parlamentos nacionais para compor uma assembleia em proporção de sua população e em proporção dos diferentes grupos políticos, que teria o poder de votar um imposto comum, um orçamento comum que fugiria da lógica de país contra país. Que se formem maiorias políticas e não maiorias de países contra países. Não importa que seja uma maioria política de direita, de esquerda ou de centro. O que importa é sair do bloqueio.

Valor: De que maneira o avanço da extrema direita na Alemanha e a necessidade de Angela Merkel fazer concessões aos eurocéticos dificultaria o avanço da União Europeia nessa direção?
Piketty: Fico inquieto que Angela Merkel, que já não é muito aberta nem dinâmica em relação a esse tipo de proposição, use a aliança com os liberais como desculpa para nada fazer. O importante agora é colocar propostas reais sobre a mesa. Se a França colocar uma proposta real de democratização, é possível que o SPD (social-democracia alemã) e os verdes, que são mais europeus e mais abertos a essa questão, se decidam a enfrentar essa responsabilidade. É possível que o SPD aceite mudar de opinião. Será muito complicada uma aliança CDU (democracia cristã alemã), liberais e verdes. Ninguém sabe exatamente como vai ficar e se essa aliança será durável. A direita é um pouco mais conservadora em relação a essas questões financeiras, mas a democratização da Europa é algo que passa ao largo das clivagens politicas. O ponto é dotar uma assembleia europeia do poder de tomar decisões. Quem tiver a maioria comanda.

Valor: E se o resultado for uma assembleia dominada por uma direita eurocética? Piketty: Não acredito que uma assembleia como essa estaria ainda mais à direita do que o que temos hoje. A direita alemã hoje não é majoritária na Europa. Mas, em todo caso, se a direita de todos os países da zona do euro formarem maioria, que se aceite. É essa a regra da democracia. É esta também a responsabilidade da Europa hoje. O bloco apenas continuará servindo de inspiração para o resto do mundo se for capaz de se democratizar para ir além dos tratados monetários e comerciais e possa adotar políticas comuns de desenvolvimento, de administração orçamentária e fiscal e de justiça social
e climática. É muito importante que a Europa avance para evitar que o espirito do Brexit se espalhe mundo afora.

Valor: A França acabou de adotar uma reforma trabalhista que, em muitos pontos, se assemelha àquela aprovada neste ano no Brasil. O que mudará nas relações do trabalho com essas novas regras?
Piketty: Lamento que Macron tenha optado por uma reforma que dribla a necessidade de melhorar a representação dos sindicatos e dos assalariados na gestão das empresas. Macron fala bastante da flexibilidade do modelo alemão e sueco, mas esquece que, nesses modelos, há forte presença dos sindicatos e dos assalariados desde os anos 1950 nos conselhos de administração das empresas. São representantes que não se limitam a uma presença consultiva. Eles têm poder deliberativo. Na Suécia, um terço dos assentos dos conselhos de administração das empresas é composto por representantes dos empregados. Na Alemanha, eles ocupam metade dos assentos e participam das decisões estratégicas das empresas. A França, como também o Reino Unido e os EUA, sempre se recusaram a isso com o argumento de que todo o poder é dos acionistas. Em 2014, aprovou-se uma lei que introduziu uma única cadeira no conselho de administração, mas isso não é suficiente para influenciar os rumos das empresas. Na Alemanha e na Suécia os trabalhadores têm um poder infinitamente maior de reagir aos rumos da economia e também de influenciá-la. De toda forma, a flexibilidade foi excessiva. A principal medida foi a de reduzir a indenização para demissões, mesmo aquelas sem justa causa. Se você demite alguém que trabalhou por dez anos numa empresa, a indenização será equivalente a, no máximo, dez salários. Se o trabalhador tem 20 anos de serviço, receberá 15 salários. O problema é que muitas vezes são trabalhadores que investiram muito numa determinada especialização específica para aquela empresa e não terão, necessariamente, esse investimento aproveitado por outra empresa. É verdade que a Justiça na França é muito lenta e que a reforma pode ajudar a acelerar os processos, tanto para os trabalhadores quanto para as empresas. Há mudanças que eram necessárias, mas a reforma seria mais equilibrada com uma reforma na governança das empresas como existe na Alemanha, que poderia se tornar realmente um modelo para a Europa. Mas Macron cedeu ao patronato francês, que não quer essa representação, ainda que sua administração não seja modelo de eficácia.

 Yorgos Karahalis/Bloomberg
 As propostas do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre a mutualização 
da dívida pública na zona do euro, diz Piketty, 
são "muito frouxas e correm o risco de nada avançar"

Valor: Passados quatro anos do lançamento de "O Capital no Século XXI", é possível dizer que o impacto do livro diminuiu a resistência internacional à taxação dos mais ricos?
Piketty:
É difícil de responder, mas acho que não. O sucesso desse livro mostra que há uma quantidade cada vez maior de pessoas em todo o mundo, no Brasil, na China, na África do Sul e em todos os lugares, que têm necessidade de participar do debate sobre os resultados do desenvolvimento e rejeitam a ideia de que a economia deve ficar restrita a especialistas. Esse livro acabou atendendo a uma necessidade de democratização do conhecimento e das pesquisas econômicas. Mas não sou ingênuo. É preciso muito mais que um livro para mudar a relação de forças na sociedade. É preciso que os partidos políticos e os cidadãos se engajem. De lá para cá vimos alguns desdobramentos, sobretudo nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, com Trump e Brexit dando vitória ao populismo de direita, uma reação nacionalista e xenófoba. E é esse o perigo do crescimento das desigualdades. Se a democracia não combate a desigualdade, sempre aparecerá uma força para explorar as frustrações e a cólera por ela provocadas.

Valor: No livro o senhor fala que a redução das desigualdades derivou mais das duas grandes guerras mundiais do que da democracia. A escalada de tensões sociais hoje, com a eleição de Donald Trump e o crescimento do nacionalismo europeu, mostra que é esse o rumo que estamos tomando ou ainda é possível acreditar que na democracia como caminho para a redução das desigualdades?
Piketty: É claro que a democracia é um caminho. O que digo no livro é que a democracia, historicamente, não tem bastado. Só os choques violentos é que transformaram o status quo das elites que rejeitavam a redução das desigualdades. Foi o conservadorismo ideológico das elites que provocou as grandes guerras. Hoje não estamos na mesma situação. Há instituições democráticas muito fortes que dão sustentação aos ideais de uma sociedade mais igualitária. Mas não se pode descuidar dos sinais que eventos como o Brexit podem representar para o desmantelamento de um modelo que, se não é perfeito, ainda permite buscar uma coordenação, uma saída estável para uma sociedade menos desigual. Descobrimos que tudo isso pode ser frágil. O que aconteceu nos Estados Unidos é absolutamente intrigante. Foi impressionante de ver a capacidade de Trump de construir uma identidade comum com classes populares e médias que faz com que as políticas sociais tenham um viés racial e xenófobo. Se a gente pega a crise da dívida pública na Europa, por exemplo, é possível imaginar uma saída mais negociada. No pós-guerra, as dívidas públicas foram anuladas em 1953 porque decidiu-se fazer um investimento no futuro, nas futuras gerações e zerar os erros do passado. É isso que a Europa precisa hoje, investir no futuro. A alternativa é o caos, a inflação e a explosão da união monetária. É isso que pode acontecer se determinadas forças políticas na Alemanha, na Catalunha, na França, em Portugal prevalecerem. Essas tensões podem evoluir rapidamente.

Valor: O nacionalismo de direita que fomentou os regimes fascistas do século passado tem poder hoje para repetir a ameaça à democracia, na Europa, nos Estados Unidos ou no Brasil?
Piketty: Confio na capacidade de nossas instituições reagirem, na Europa, no Brasil, na China, de encontrarem seus caminhos para se desenvolverem com democracia. No caso do Brasil, por exemplo, há de fato um nível de concentração muito excessivo para o país se desenvolver. Pode-se dizer que o país não passou por choques políticos violentos como aqueles que, na Europa, reduziram as desigualdades, mas a opção democrática também pressupõe que as elites do pais aceitem pagar mais impostos e que o Estado faça mais investimentos sociais.

Valor: No seu livro "Às Urnas, Cidadãos", o senhor disse sobre o Brasil: "O sistema tributário é pesadamente regressivo e, frequentemente, financia despesas públicas com as mesmas características. As classes populares pagam impostos muito pesados que chegam a 30% sobre a eletricidade, ao passo que sobre a herança é de apenas 4%. As universidades públicas só beneficiam uma elite de privilegiados". O senhor mantém o diagnóstico?
Piketty
: Sim, mantenho, e subscrevo os achados mais recentes de Marc Morgan que demonstram que o Brasil é, de fato, um dos países mais desiguais do mundo. E uma desigualdade que só concorre com a da África do Sul, país que saiu do apartheid em 1994. Morgan concluiu que os níveis de desigualdade no Brasil não foram reduzidos de maneira significativa. Os mais pobres viram sua participação na renda nacional crescer muito ligeiramente, os 50% mais pobres aumentaram sua fatia na riqueza do país de 11% para 13%. Enquanto isso, os 10% mais ricos detêm uma parcela que passou de 55% para 53%. Então os governos democráticos do Brasil, sejam de direita ou de esquerda, não têm sido capazes de reduzir a desigualdade. Uma das razões é que, a despeito das políticas sociais que beneficiaram os mais pobres, a estrutura de impostos no Brasil se mantém intacta. Não há reformas significativas na progressividade fiscal e não haverá nenhuma mudança nisso se o país não decidir enfrentar questões como a taxação sobre herança e sobre fortunas.

Valor: Ao se valer do imposto de renda, o trabalho de Morgan, assim como o de outros estudiosos brasileiros, não minimiza o fato de 83% dos brasileiros não pagarem imposto de renda?
Piketty: Os estudos de Morgan, na verdade, são pioneiros no cruzamento dos dados do imposto de renda e das pesquisas em domicílio. É um trabalho de fôlego para colher de diferentes fontes os dados mais fidedignos sobre a renda do país. E é um estudo que teve muito cuidado em colher os dados mais adaptados para cada faixa de renda. Então, de fato, o imposto de renda incide apenas sobre 17% da população, mas há impostos indiretos extremamente pesados que comprometem sua renda de maneira muito mais significativa do que o imposto de renda o faz sobre a fatia minoritária e mais rica da população, ainda mais se levarmos em conta que uma parte desses contribuintes se evadem com isenções sobre lucros e dividendos. Esta é uma tentativa de mensurar a progressividade do sistema fiscal no Brasil [neste momento mostra, no tablet, o livro a ser lançado na próxima terça-feira no Brasil com um capítulo de sua autoria]. Conclui por mostrar que falta, de fato, a noção de progressividade é inexistente no país.

Valor: Esse foco na taxação de propriedade e renda não corre o risco de penalizar a classe média em vez dos mais ricos, que têm mais meios de escapar do cerco?
Piketty: Não se trata de tributar as pequenas propriedades, mas as grandes fortunas que cairão em mãos de pessoas que não trabalharam para merecê-la. É uma questão de justiça social. Os países que se desenvolveram adotam, há mais de um século, uma política de progressividade fiscal que permanece desconhecida no Brasil e que bloqueia seu desenvolvimento.

Os países adotam, há mais de um século, progressividade
fiscal cujo desconhecimento no Brasil bloqueia
seu desenvolvimento

Valor: O discurso predominante no Brasil é o de que é preciso crescer para depois distribuir porque não há como repartir renda numa economia em recessão. Não tem fundamento?
Piketty: Os países mais ricos do mundo enriqueceram porque aceitaram melhor repartir. Todos os países desenvolvidos, Estados Unidos, Alemanha, Japão, França, Grã Bretanha têm impostos sobre herança que atingem as grandes fortunas e que chegam a 40%. O Japão aprovou, no ano passado, uma taxação sobre a renda dos mais ricos de 50%. Não são números mágicos, eles têm razão de ser. O que surpreende é que o Brasil mantenha seu imposto sobre herança em 4%. Isso é parte de uma cultura egoísta que precisa ser combatida.

Valor: Há muito se debate no Brasil sobre os limites do investimento em educação como meio para se reduzir a desigualdade. Quais são esses limites em sua opinião?
Piketty: A difusão da educação é a politica mais importante para a redução das desigualdades. Não tenho nenhuma dúvida em relação a isso. É nesta difusão que se observa uma redução de desigualdades permanente. Isso aparece tanto nas análises dos países quanto nas análises comparativas. Exige um grande esforço fiscal por parte do Estado, mas é preciso que esse investimento em educação seja usufruído por todos. Esse investimento não pode resultar em mais concentração de renda, em um sistema em que os mais pobres paguem mais que os ricos pelo acesso à educação.

Valor: As desigualdades cresceram na Europa e nos Estados Unidos à medida em que esses continentes perderam participação no comércio mundial, sobretudo em relação à Ásia. É possível reequilibrar a renda na Europa e nos Estados Unidos sem que uma repartição do comércio mundial ainda mais ampla, com a inclusão da América Latina e da África, esteja ameaçada?
Piketty
: É possível, mas sob a condição de que a gente mude o foco dessa globalização. É preciso ter uma mundialização que não se preocupe apenas com a liberalização do comércio. É preciso introduzir nesses tratados internacionais medidas de justiça fiscal, social e diplomática. Não se pode, de um lado, ter conferências internacionais proclamando harmonia global e, por outro, a assinatura de tratados comerciais como aqueles recentemente assinados entre Estados Unidos, Europa e Canadá, que passam completamente ao largo de questões de justiça fiscal e social. Não chegaremos a lugar algum enquanto os propósitos redentores ficarem limitados às declarações e, quando fazemos tratados para valer, estes venham embutidos com sanções. É um jogo de faz de conta. É preciso liberalizar o comércio, mas, no primeiro capítulo desses tratados, é preciso taxar a emissão carbono e fazer justiça fiscal. Concretamente, isso significa estabelecer objetivos verificáveis a serem atingidos pelas multinacionais em todo o mundo, nos EUA, na Europa e no Brasil.
Há uma grande resistência em relação a isso, alega-se muita complexidade para se colocar em curso o estabelecimento de metas verificáveis, mas não é nada complicado. Os tratados de liberalização de comercio também são complexos e nem por isso deixam de ser feitos. Só assim a globalização deixará de ser a simples liberalização de mercadorias que tem provocado o recrudescimento de nacionalismos e do protecionismo.

Valor: O senhor tem sustentado que a crise de 2008 é, em grande parte, resultado da ausência de uma boa regulação. Quase dez anos depois, constata-se que, além de uma boa regulação, a crise não puniu os responsáveis pela crise. Que papel o senhor acha que o judiciário deve ter nessa regulação?
Piketty: O balanço desses dez anos mostra que o mundo falhou em fazer uma boa regulação financeira e econômica mundial. O paradoxo dessa crise é que a instabilidade monetária atinge economias importantes no mundo inteiro. Os verdadeiros responsáveis, de fato, não pagaram o que deveriam. Perdeu-se a oportunidade de mudança. Mas acredito que, ao fim e ao cabo, no resto do mundo cresceu a consciência de que não dá mais para esperar pelos Estados Unidos para encontrar soluções para a ordem mundial. A Europa, a China e o Brasil têm que se pôr em acordo sem esperar pelos EUA.
----------------
Reportagem Por Maria Cristina Fernandes | De São PauloFonte: http://www.valor.com.br/cultura/5146958/radicalizar-democracia

sábado, 7 de outubro de 2017

O coração do enigma


Lya Luft*
 Imagem relacionada
 
Esse pássaro noturno pousado em meu ombro me faz sentir o quanto todo o resto parece pequeno 


Hoje, quando escrevo isto, está uma manhã brilhante, clara. Olho a paisagem enquanto tomo meu café, vejo algumas notícias de jornal e TV porque isso é um de meus vícios, venho ligar este computador porque tenho trabalho – mas a notícia da morte de mais uma pessoa jovem pousa no meu ombro como uma ave noturna.

Há alguns anos, comecei um romance (O Quarto Fechado) com uma cena que nasceu lá dos cantos retorcidos do meu coração: pai e mãe sentados dos dois lados do caixão do filho adolescente morto. Toda a trama do livro parte desse momento, e acho que com ele termina. Não sei mais por que me ocorreu, nunca vi cena igual, mas tudo o que lemos, sonhamos, vivemos, nos contam, se deposita no nosso inconsciente como aquela lamazinha no fundo de um aquário. Escrever é como mexer ali com um lápis, uma varinha: tudo vem à superfície.

Morte é o grande enigma; morte de jovens é o coração mais escuro desse enigma, ali onde nem o amor alcança. "Gente demais morrendo", queixou-se uma amiga. Acrescentei "jovens demais morrendo" – por doença, por fatalidades, ou porque namoram, nas drogas, a morte. Lembro das visitas que fiz, anos atrás (gosto de repetir), a uma famosa clínica para recuperação de adictos no interior de São Paulo. Da estrada, via-se um belo resort (acho que ainda nem usávamos a palavra): colinas, edifício bonito de dois andares, árvores, piscina grande. À beira dela, grupinhos de jovens, biquínis e sungas, guarda-sóis, alguém batucava um samba numa das pontas, e todos pareciam alegres.

Morte é o grande enigma; morte de jovens 
é o coração mais escuro desse enigma, 
ali onde nem o amor alcança.

Mais tarde, chegando perto deles, vi poucos olhares atentos: a maioria distantes, parados, ausentes de si mesmos. Vários pulsos com cicatrizes ou ainda curativos. Depoimentos angustiados ou ditos com indiferença: muitos eram assíduos ali, tinham alta e em semanas ou menos estavam de volta. Mesmo lá dentro, sob vigilância que devia ser forte, conseguia-se alguma droga. Fora dali, em casa, uma das meninas me contou que os traficantes jogavam pelotinhas de coca pela sua janela de madrugada.
Sempre saí de lá com uma terrível sensação de desesperança, embora, sei disso, haja os que de verdade se recuperam: agarram aquele touro selvagem pelos chifres e, com tratamento, psiquiatra, família firme, muita sorte – sobretudo vontade de viver e viver melhor –, vão em frente sem a fatal muleta da droga (álcool é droga). Alguns deles, me diziam, estavam cansados. Não era por diversão que cortavam os pulsos, saltavam da janela ou se injetavam mais veneno, querendo se aliviar do duríssimo fardo do desalento.

"Algumas pessoas nascem mal equipadas para a vida", comentou alguém numa dessas ocasiões, e nunca esqueci. Como se não tivessem pele que as proteja, para elas qualquer brisa é uma dor infinita. Querem sossego, querem alívio, querem morrer. E quando a dor é demasiada, fica difícil analisar o sofrimento dos que vão ficar, ou a possibilidade de, horas depois, poder ter-se arrependido.

Esse pássaro noturno pousado em meu ombro me faz sentir o quanto todo o resto – que não é resto, sei!!! –, os mil desastres e dificuldades que por aqui imperam, parece pequeno quando ouvimos pulsar, ameaçador, o coração do eterno enigma.
-----------
* Escritora. 
Imagem da Internet
https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/lya-luft/noticia/2017/10/o-coracao-do-enigma-cj8gldm7y00ne01mqob1pv8rr.html

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Futuro: a maioria das crianças terá profissões que ainda não foram inventadas


https://www.noticiasmagazine.pt/files/2017/09/profissoes_futuro1-960x566_c.jpg

De chefs 3D a terapeutas de plantas. De operadores de drones a gestores de morte digital. Ninguém sabe exatamente quando estas novas profissões vão chegar ou em que moldes, apenas que se perde a ideia de um emprego para a vida. E sim, os especialistas na matéria são unânimes neste ponto: o mercado laboral como sempre o conhecemos já era. 
Conhece a sensação de querer fazer mais, mais depressa, frustrado quando 24 horas não chegam para o tanto que ficou por concretizar? A solução passará por bancos onde poderá adquirir mais tempo, esse bem tão raro e precioso.
 
MINIMIZADORES DE IMPACTO 
No que diz respeito ao meio ambiente, a preocupação abre caminho a engenheiros 
de diminuição do ruído e a reducionistas do impacto visual. Haverá ainda lugar 
para assessores de impacto, gestores de partilhas corporativas ou 
otimizadores de resíduos biodegradáveis.
 


  • GESTORES DE CONTENÇÃO DE MEDO
  • Terrorismo. Ensaios nucleares. Desastres naturais e doença. Nunca antes receámos tanto
    que o medo nos afastesse do nosso caminho, mas para grandes males...

    ESPECIALISTA EM ÉTICA DA PRIVACIDADE
  • Irão ganhar relevo numa sociedade em que aquilo que fazemos na internet influencia
    as nossas dimensões fora dela, e vice-versa – impossível separar um mundo
    do outro nos tempos que correm. Guardião de privacidade
    é outra profissão com futuro.

    GESTORES DE DESPERDÍCIO DE DADOS
  • E porque a nossa vida se faz cada vez mais online, o risco de ficarmos com dados importantes
    à solta está sempre presente, com o que era privado a poder tornar-se público
    sem querer. Dado que a internet não esquece o que lá vai parar,
    o melhor é nós também não.

    ANALISTA DE QUALIFICAÇÃO ATLÉTICA
  • Quiseram impedir o sul-africano Oscar Pistorius de correr nos Jogos Olímpicos,
    porque com as próteses tinha vantagem sobre os atletas com pernas,
    mas o potencial dos membros artificiais será ainda mais revolucionário.
     Em vez de antidoping, os testes serão para ver se os desportistas
    mantêm as partes originais.

    TERAPEUTAS DO AUMENTO DA MEMÓRIA
  • Uma cabeça é pouco quando o CEO da Google, Eric Schmidt, diz que a cada
    dois dias se produz tanta informação como a que criámos desde
    o início da escrita até 2003. Sem esquecer de que se vamos todos
    chegar a velhos com muito para dar, convém que
    a memória acompanhe.

    AGRICULTURA
  • Mas uma sem tratores a avançar vagarosamente por entre nuvens de fumo.
    Pelo contrário, o trabalho será feito por drones e
    swarm-bots (enxames robóticos inspirados na natureza).
    E tudo isto conduz a operadores destas máquinas, gastrónomos moleculares,
    educadores de plantas inteligentes.

    TERAPEUTAS DE PLANTA
  • Comemo-las, pomo-las em vasos, deixamos que definhem e muitas vezes
    nem nos lembramos de que as plantas são seres vivos, a oferecer-nos
    a sua própria energia curativa. Aos terapeutas de plantas somam-se ainda os psicólogos,
    capazes de deslindar as crises existenciais
    que a vegetação possa ter.

  • GESTORES DE AVATARES DE RELACIONAMENTO
  • Já há quem use avatares em redes sociais, embora os do futuro sejam
    mais uma espécie de versão melhorada de nós, com movimento e presença.
    Naturalmente, a ideia é serem criados por designers de avatares.

    REGULADORES DE CRIPTOMOEDA
  • Moedas digitais como a bitcoin pedem especialistas em interface de câmbio
    e em adoção de moeda, investidores, táticos de empréstimos.
    A regulação estende-se ainda a banqueiros e advogados
    specializados, além de especialistas
    em recuperação de furtos.

    ESPECIALISTA EM ADN
  • Serão muitos e com profissões tão diferentes como sequenciadores de ADN,
     nanomédicos e especialistas em manipulação
    genética de plantas e árvores,
    entre outros.

    REVIVALISTAS DE ESPÉCIES EXTINTAS
  • Se já em Parque Jurássico se pensava nisso (e funcionou no filme) é porque a coisa 
    tem pernas para andar. Os avanços na biotecnologia já dá aos cientistas 
    a possibilidade de recuperar várias espécies de animais e plantas 
    extintas ao longo de milénios, incluindo mamutes.

  • MONITORES DE PURIFICADORES DA ÁGUA
  • A falta de água é apontada como um dos problemas fulcrais no futuro, 
    a ponto de se pensar em recolhê-la até da atmosfera. 
    Além dos monitores de purificação, transacionistas de fornecimento 
    e gestores de impacto terão igual procura 
    no mercado de trabalho.

  •  ARQUITETOS DE REALIDADE AUMENTADA
    Ainda estamos longe de um Matrix, embora tudo indique que para l
    á caminhamos à medida que o mundo real se mistura, cada vez mais,
    com o virtual. O potencial deste universo
    assim combinado é inimaginável.


  • TRANSFORMADORES DE TRÁFEGO
  • Veículos sem condutor e carros aéreos resultarão numa transformação drástica
    da indústria automóvel tal como a conhecemos.
    Daí a necessidade destes transformadores, que surgem acompanhados
    de novos expedidores de entregas, engenheiros de tráfego automático
    e criadores de sistemas de monitorização.

    INFLEXIONISTAS
  • São eles os especialistas que irão predizer as horas certas e os locais exatos 
    de quaisquer mudanças que se preveja que ocorram,
     incluindo as desencadeadas pelas 
    forças da natureza.

    DESIGNERS DE SUPERBEBÊS
  • Técnicas que permitem fazer mudanças específicas no ADN de humanos,
     animais e plantas abrem caminho à criação
    de superbebés geneticamente manipulados.
    Com eles são ainda esperados
    psicólogos e advogados
    de superbebés.

    ANTROPÓLOGOS DE SISTEMA
  • Sendo a antropologia a ciência que se dedica ao estudo aprofundado
    do homem nas suas múltiplas dimensões sociais, culturais e biológicas,
    não podia deixar de fora a reflexão acerca dos sistemas
    de sensores (centenas de triliões deles) que convertem o mundo
    numa rede perfeita de transmissão de dados.

    AGENTES DE ÓRGÃOS HUMANOS
  • Já se imprimiu rins, fígados, pele, bexigas, narizes e orelhas recorrendo
    à impressão 3D, com essa lista a crescer regularmente.
    Quando o caminho será transitar das próteses funcionais
    para a bioimpressão de órgãos e partes vivas do corpo,
    agentes precisam-se.

    BANQUEIROS DO TEMPO
  • Conhece a sensação de querer fazer mais, mais depressa, 
    frustrado quando 24 horas não chegam para o tanto que ficou por concretizar? 
    A solução passará por bancos onde poderá adquirir 
    mais tempo, esse bem tão raro e precioso.


  • Texto Ana Pago | Fotografia Getty



    Duarte Vasconcelos é piloto de linha aérea. Cismava com alguns dos instrumentos de voo, mas parecia­‑lhe coisa do outro mundo criar os seus, por muitas ideias que tivesse na cabeça. Como? Com que meios? Por que carga de água perdia sequer tempo a pensar nisso? E então descobriu a impressão 3D.

    Comprou uma impressora e um workshop especializado – dado por Alexandre Guerreiro, que hoje desenha as máquinas da empresa de ambos. Em janeiro de 2015, fundavam juntos a Blocks Technology, «a porta de entrada que vem democratizar a impressão 3D no tamanho e no preço», diz o empreendedor. Tiago Rocha é o terceiro elemento em full-time da Blocks, responsável pelo software das impressoras produzidas de raiz nas instalações em Benfica, Lisboa.
    «Já se imprimiu rins de substituição, fígados, pele, bexigas, ossos, dentes, narizes e orelhas recorrendo à impressão 3D», diz Thomas Frey, do DaVinci Institute.
    E foi uma boa aposta a destes jovens, garante à Notícias Magazine o futurista sénior Thomas Frey, fundador do think tank DaVinci Institute, no Colorado, EUA. As suas previsões apontam para que a área da tridimensionalidade – incluindo chefs e designers de moda 3D, especialistas em materiais e até agentes de órgãos humanos – seja uma das que terão mais saí­da profissional até 2030.

    «Já se imprimiu rins de substituição, fígados, pele, bexigas, ossos, dentes, narizes e orelhas recorrendo à impressão 3D. Há cinco anos esta lista não era tão extensa como agora, e continua a crescer regularmente», diz o pensador norte-americano.
    Quem pensa que está tudo inventado engana-se. 65 por cento das crianças que hoje entram na escola primária irão ter trabalhos que ainda não existem.
    Alexandre Guerreiro não se surpreende com o rumo que as coisas estão a tomar: o que ele vê com as Blocks é que, primeiro, as pessoas estranham as máquinas, depois não sabem viver sem elas.
    «Há dois anos lançámos a Blocks One, de nível intermédio. Acima dessa temos a Custom, superprofissional, à medida do cliente. E a Blocks Zero é tão pequena como uma máquina de café, própria para ter em casa e fazer desde porta-chaves a peças de engenharia e arquitetura», acrescenta Duarte Vasconcelos, rendido ao potencial da impressão 3D.

    Ele próprio faz peças para a sua câmara digital. No dia em que furou um pneu, imprimiu uma ferramenta de que precisava e trocou­‑o. «Desde que vi miúdos de 10 anos a usar software de modelação profissional como gente grande, não me admira que o futuro do trabalho passe por aqui.»


    Passará. Para o pensador Thomas Frey, a questão não é se vai acontecer, a questão é como e quando vai acontecer. «Ao ritmo que levamos, creio estarmos à beira de transitar das próteses funcionais para a bioimpressão de órgãos e partes vivas do corpo, no sentido de se curar uma série de condições médicas», diz, prevendo a existência de empregos nesta área concreta, além de outros relacionados: engenheiros e designers de modificação genética, gestores do ciclo de vida, analistas de qualificação atlética, especialistas em ética de modificação corporal. Supõe que com mais tempo será possível imprimir­‑se um corpo completo (o tipo de façanha que, nos filmes de ficção científica, dá pano para mangas). Ou um cérebro humano pronto a encaixar e ligar – quem pode saber?

    O FUTURO ESTÁ A SER INVENTADO AGORA

    Uma coisa é certa: um relatório, de 2016, do Fórum Económico Mundial, antecipa que mais de cinco milhões de postos de trabalho acabem até 2020. A Sparks and Honey, consultora organizacional norte­‑americana, enumera entretanto algumas profissões que considera promissoras: operador de drones, curador digital, consultor de privacidade, coach de Skype, especuladores de moeda digital (como a bitcoin), especialistas em plataformas online de crowdfunding (para financiamento colaborativo de projetos), disruptor corporativo (que ensina as empresas a adotar ambientes flexíveis), gestores de morte digital (responsáveis por gerir a pegada online de utilizadores falecidos).
    Mas há mais: 65 por cento das crianças que hoje entram na escola primária irão ter trabalhos que não existem no presente. Jovens a sair agora do secundário terão uma média de dez a quinze empregos na vida.
    É essencial que o ensino se adapte para ensiná­‑los a serem os pensadores e os empreendedores do futuro, avisam as especialistas em educação Roberta Michnick Golinkoff e Kathy Hirsh­‑Pasek
    É essencial que o ensino se adapte para ensiná­‑los a serem os pensadores e os empreendedores do futuro, avisam as especialistas em educação Roberta Michnick Golinkoff e Kathy Hirsh­‑Pasek, autoras de Becoming Brilliant – What Science Tells Us about Raising Successful Children (algo como Ser Brilhante – O Que Nos Diz a Ciência sobre Educar Crianças de Sucesso, ainda sem tradução portuguesa).

    «Mais importante do que memorizar é saberem comunicar, colaborar, apreender conteú­dos. Terem pensamento crítico, inovação criativa, confiança para arriscar. Então, sim, estarão prontas para os desafios laborais», dizem no seu livro.

    A milenar agricultura será uma área em que a revolução tecnológica 
    criará muitas e inesperadas novas profissões.
    E o que vem aí, afinal, face a tanta mudança? O professor catedrático António Câmara tem uma ideia de como calcular o que nos espera. «Essencialmente, se conseguirem definir muito bem o que agora fazem estão tramados, porque as máquinas vão substituir­‑vos», resume o fundador da empresa de realidade aumentada YDreams, doutorado em Engenharia de Sistemas Ambientais.

    «Muitas das profissões que hoje achamos lucrativas e promissoras, como a programação informática, serão reduzidas substancialmente à medida que a inteligência artificial permitir resolver os problemas.» Por outro lado, crê, áreas desprezadas como o jornalismo ou a comunicação terão muita procura, por estarem ligadas a atividades criativas e já a evoluir noutras direções.

    Também Filipa Leite de Castro, responsável da consultora Jason Associates pelo recrutamento de executivos, defende que qualquer padrão para o futuro terá que ver com criatividade e atualização.
    «Os jovens já não fazem só um curso: vão fazendo formações, atalhando por outros caminhos.» Da mesma forma, não querem um emprego para a vida – nada de cristalizar em direito ou finanças –, como não sonham trabalhar em grandes empresas.
    «Se antes a dimensão e a faturação bastavam para atrair talento, as novas gerações preferem uma empresa com que se identifiquem.» Têm menos uma leal­dade com o empregador e mais um sentido de missão com o seu propósito de vida pessoal.
    «Se antes a dimensão e a faturação bastavam para atrair talento, as novas gerações preferem uma empresa com que se identifiquem.» Têm menos uma leal­dade com o empregador e mais um sentido de missão com o seu propósito de vida pessoal, observa a consultora. Veem ainda na profissão algo que lhes permita associar trabalho e lazer, como na Google.

    António Câmara concorda que este foco no que entendem ser melhor para si influencia o redesenhar do mercado laboral: «Receiam ter pouca liberdade, que os moldes de emprego atuais não os desafiem. Então preferem fazer as suas start­ups e talvez vendê­‑las para passarem a outra coisa», diz, sublinhando a importância de se ter um conhecimento distintivo neste ponto.

    «Em Harvard, por exemplo, têm todos de ler o ensaio Self-Reliance (Autoconfiança) do filósofo Ralph Waldo Emerson.» Basicamente, exorta a ignorar as críticas dos outros e a seguir em frente – a tal inteligência do ensino de que falavam as cientistas educacionais Roberta Michnick Golinkoff e Kathy Hirsh­‑Pasek.
    «Quando terminámos o curso no Técnico de Lisboa em 2010, de Engenharia de Telecomunicações e Informática, quisemos parar um ano para ter uma ideia nossa. Chamaram­‑nos de loucos para cima», conta Cristina Fonseca.
    Assim fizeram Cristina Fonseca e Tiago Paiva, os mentores da startup que ambos fundaram em 2011 e vale hoje 500 milhões de euros: a Talkdesk, capaz de criar um call center na internet em cinco minutos, por qualquer empresa.

    «Quando terminámos o curso no Técnico de Lisboa em 2010, de Engenharia de Telecomunicações e Informática, quisemos parar um ano para ter uma ideia nossa. Chamaram­‑nos de loucos para cima», conta Cristina, entretanto a figurar com Tiago numa lista da Forbes com as trinta pes­soas de menos de 30 anos a destacar­‑se no mundo em diferentes áreas. «Os nossos pais, professores e amigos julgavam­‑nos um caso perdido. Não entendiam como é que num curso com cem por cento de empregabilidade estávamos ali nós os dois, a marinar.»

    O mercado de trabalho nas tecnologias de informação tem quase cem por cento 
    de empregabilidade à saída das faculdades.
    Eles bem repetiam que não tinham emprego por opção, era uma fase – ninguém os largava. Entretanto exploravam projetos pessoais para ganhar algum dinheiro, que investiam em livros e conhecimento online.

    «Fomos contactados por empresas de topo e recusámos. Cheguei a conhecer o Zeinal Bava em processo de entrevistas para a Portugal Telecom, disseram­‑me para escolher a vaga que quisesse e respondi que não. Ao Tiago, que trabalhava na Procter & Gamble, ofereceram­‑lhe um lugar nos quadros e ele rejeitou.»

    Tudo em nome de um sonho que se mostrou vencedor, empregando perto de trezentas pes­soas e com escritórios em Portugal e Silicon Valley, EUA. «O importante é ter criatividade, soft skills, gosto no que escolhemos. E depois sermos bons nisso.»
    «Num mercado de trabalho global e cada vez mais competitivo, apenas os melhores vingarão na triagem natural», diz Vasco Salgueiro, da Michael Page – reputada consultora de recrutamento a nível internacional.
    Outros trunfos que convém ter na manga são inteligência emocional e saber falar línguas, duas competências a estimular desde cedo em casa e na escola. «Num mercado de trabalho global e cada vez mais competitivo, apenas os melhores vingarão na triagem natural», justifica Vasco Salgueiro, senior manager da Michael Page – uma das mais reputadas consultoras de recrutamento a nível internacional.

    Estudos indicam que um profissional que comece numa área financeira pode transitar para uma de marketing ou desenvolvimento de negócio. «Os próprios empregadores vão estar abertos a esta versatilidade, já que os projetos terão uma duração mais limitada (de três a cinco anos) e é desejável um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional.»

    OS HUMANOS CONTINUAM A SER INDISPENSÁVEIS

    Se é caso para preocupações? Sem dúvida, responde­‑nos por sua vez o cientista cognitivo Don Norman, fundador e diretor do Design Lab na Universidade da Califórnia – um espaço multidisciplinar centrado na interação das pes­soas com a tecnologia.
    «Qualquer mudança traz as suas vantagens, mas também complica a vida a muita gente. Sendo que neste caso falamos de uma série de profissões que vão desaparecer, ao passo que as emergentes irão exigir dos trabalhadores capacidades e conhecimentos muito diferentes daquilo que pediam as antigas.» Em suma: quem perder o emprego pode ver­‑se bastante aflito para encontrar um novo.

    A inteligência artificial e o mundo digital são áreas-chave, mas os especialistas acreditam que o ser humano será sempre insubstituível.
    A boa notícia, segundo o pensador, é que dá para cruzar essas competências tecnológicas com a criatividade humana para chegar ao que chama de «oportunidades novas e excitantes»: produtos ou serviços personalizados, artesanato e outros negócios flexíveis, realizados por indiví­duos ou pequenos grupos.

    «Teremos cada vez mais impressoras 3D baratas, ferramentas que nos permitem aprender sobre novos assuntos e educarmo­‑nos online. Isso irá dotar­‑nos rapidamente de novos potenciais», diz Don Norman. No fundo, é um contraponto ao futurismo quando a simples ideia de virmos a ter hackers éticos, terapeutas de desintoxicação tecnológica, telecirurgiões ou guardiões de privacidade mete num chinelo o Inteligência Artificial, de Steven Spielberg.

    «O mercado de trabalho nas tecnologias de informação tem quase cem por cento de empregabilidade à saída das faculdades. Ainda assim, a tecnologia nunca substituirá as competências humanas», ressalva o consultor Vasco Salgueiro.
    O futurista Thomas Frey anuncia algumas profissões que surgirão com o envelhecimento ativo da população: designers de alojamento e de memoriais, provedores de serviços para octogenários, auxiliares para cada etapa da vida, administradores de heranças.
    Filipa Leite de Castro, da Jason Associates, concorda: por mais espetacular que seja a otimizar competências, não há – nunca haverá – nada que se compare ao ser humano. «Posso receber belas massagens numa cadeira com moedas, mas não é o mesmo que ser tocada por mãos», argumenta a especialista em recrutamento. E tratando­‑se das áreas da hotelaria e da saúde, duas tendências laborais incontornáveis, será bem­‑sucedido quem valorizar as relações para além das competências técnicas.

    A este propósito, o futurista Thomas Frey aproveita para anunciar algumas profissões que surgirão com o envelhecimento ativo da população: designers de alojamento e de memoriais, provedores de serviços para octogenários, auxiliares para cada etapa da vida, administradores de heranças.

    É ainda este homem que fala em imprimir corpos quem desdramatiza a questão: «É fácil ficarmos paranoicos, mas existem tantas atividades, e tão complexas, que a automatização será incapaz de destruí­‑las.» Alguma vez o sorriso de um robô confortará como o de uma mãe? Se um robô disser a uma mulher que é linda significa tanto como se for o namorado a dizer­‑lho? «Quem sabe onde tudo isto nos leva? A verdade é que vivemos numa economia baseada em seres humanos, nas suas necessidades.»

    E os humanos nem sempre são lógicos.
    ----------------------------
    Fonte: https://www.noticiasmagazine.pt/2017/futuro-maioria-das-criancas-tera-profissoes-ainda-nao-inventadas/

    segunda-feira, 2 de outubro de 2017

    Impossível perguntar para onde estamos indo sem saber de onde viemos

    Resultado de imagem para zeca de mello sinepe RS
    Zeca de Mello trata da importância dos valores em tempos de mudança, e do que se deve preservar e fazer durar

    O compromisso com nossos valores e a fidelidade que temos a eles foi o norte da fala do doutor em Teologia e professor das disciplinas de Provocações Filosóficas (FDC) e Ética na Sociedade do Conhecimento na Pós-Graduação (UFRJ) Zeca de Mello na conferência "Refletindo sobre nossos valores", que abriu o 14º Congresso do Ensino Provado Gaúcho nesta quinta-feira. 

    "Não há instituição que não esteja passando por uma crise. É necessário pensar no que realmente vale", afirmou o professor, mostrando a necessidade da reflexão diante de um momento histórico desafiador, de mudanças constantes. 

     "Achamos que somos livres para fazer escolhas, mas estamos respondendo a estímulos", apontou o conferencista. O foco não está na mudança, de fato, mas sobre a permanência, o que devemos fazer durar quando tudo se acelera e a desorientação invade a vida de todos. Valores, que não são novos valores, não foram criados ao longo dos últimos anos, mas são passados de geração em geração e são imutáveis. 

    "A sinceridade continua sendo melhor que a mentira, a generosidade mais relevante que o egoísmo." 

    Grandes centros de educação - ele citou a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos e a Fundação Dom Cabral, no Brasil, como pioneiras - passaram a dar um cunho de humanidade nos seus cursos de MBA, por exemplo, ao contemplar a sociedade e o autoconhecimento no mundo das organizações.

     "Temos que ter o perfil empresarial e humanista. Em qualquer organização as pessoas querem ser ouvidas. E o papel da liderança assemelha-se ao do educador, ao lidar com a ambiguidade humana." Zeca de Mello falou da dificuldade de mudança: "É fácil profetizar mudança fora, é espontâneo murmurar e apontar o dedo no que não vai bem, precisa ser mudado. No entanto, quando se detecta algo que não vai bem na própria vida, se percebe como é difícil". 

    Parar para refletir, segundo o professor, é um luxo. E a reflexão inclui três "dobras": a sociedade, as instituições e nós mesmos. "Vivemos num cenário sombrio e preocupante. Não há dúvida que o mundo conectado é maravilhoso, mas temos que perguntar sobre os riscos, os desafios. Estamos hiperconectados e entediados. Não estamos acelerados para chegar a algum lugar, é apenas nosso modo de estar no mundo", criticou. 
    "Por isso a importância de olhar para nossos valores quando não sabemos para onde ir." 
    A incerteza leva a dois caminhos: inventar novos valores (será?) ou resgatar os valores que recebemos. 
    Ousar fazer previsões, para Zeca de Mello, é inútil. 

    O imprevisto é a única lei da história. 

    "Para onde estamos indo? Para o futuro! Para onde queremos ir? Para uma vida boa, de qualidade." 
    E o contexto não é de uma crise de valores. 

    Tanto as empresas tradicionais como startups trabalham missão, valores. Eles, tomaram sim, novas proporções. Tanto em importância quando se fala na imagem da empresa (que pode ser arranhada e gerar grandes perdas financeiras quando há um problema de segurança, por exemplo), como no momento das contratações. 

    O conferencista citou jovens diretores de startups mineiras que, ao contratar, dão mais importância ao alinhamento de valores com o candidato do que seus certificados. 
    "Não temos uma mudança de valores, mas do estatuto de valores. Eles não estão mais ancorados na religião, mas na visão que se tem mundo." 

    Zeca de Mello citou três "pedagogas" que podem orientar nossas ideias e nos ajudam a mudar. 
    A primeira delas é a crise, que nos faz pensar com profundidade, olhar as coisas com maior lucidez, com verdade. "Na falta de grandes mestres, são elas as nossas professoras." 

    Depois as crianças, que ousam, arriscam, que têm a capacidade de se maravilhar com o que as intriga. "Precisamos do olho espantado e da coceira com as ideias." 

    E a terceira é a empatia, o desafio de experimentar a fragilidade humana. "A empatia nos desloca para os lados, nos faz ousar tomar a perspectiva do outro. Nos ajuda a reinventar nossos laços. Faz emergir a nossa consciência e um novo compromisso com nossos valores."
    ------------ 
    Reportagem por Vívian Gamba -SINEPE/RS 
    Fonte: http://www.sinepe-rs.org.br/site/home/index.php 
    Imagem da Internet

    Tipologia da direita contemporânea

    Luiz Felipe Pondé*


    Ricardo Cammarota
    Ilustra Pondé
    "A "direita católica", normalmente gente muito estudiosa, conservadora, tímida e que anda na sombra em lugares públicos. Quando ouve o nome "teologia da libertação", mal consegue conter seus ímpetos inquisitoriais."


    Como prometido, vamos esboçar uma tipologia científica da direita hoje. O tema é mais complexo do que uma tipologia da esquerda contemporânea porque "ser de direita" tornou-se quase um palavrão. Nesse sentido, há um indício evidente de vitória cultural da esquerda nas últimas décadas.

    Comecemos por esse tipo de direita (um tipo meio patológico), ou a "direita que não sai do armário". Aquele tipo de cara de direita que os outros dizem "você é de direita" e ele fica com medo. "Ser de direita", aqui, significa "não ter direito de contra-argumentar" e não ser convidado para jantares inteligentes.
    A própria palavra "direita" dá medo de ser dita. Algumas pessoas tentam dizer a si mesmas "sou de direita" na frente do espelho e engasgam ou vomitam sobre a própria imagem.

    Nesse tipo, a "pessoa de direita" se vê presa do olhar do outro (bem chique esse diagnóstico!), e esse olhar diz o seguinte: você gosta de torturadores, é anti-humanista, burro, racista, homofóbico, machista e trabalhou para a ditadura no Brasil (mesmo que você tenha hoje 20 anos de idade). Esse tipo, quando sai do armário, grita: "Sou liberal, e não de direita!"

    O que atormenta este tipo de "direita que não sai do armário" é a possibilidade de que se descubra gostando de torturadores, sendo racista, homofóbico e coisas assim. Reconhecer-se como "direita fascista" e pró-Trump é reconhecer-se como um membro daqueles que queimam o filme da direita. Mas vale dizer que todo o trabalho da direita mais recente no Brasil é escapar dessa narrativa (outro diagnóstico chique!).

    O oposto a esse tipo "patológico" é a "direita transante" (o termo não é meu). Essa direita tende a ser mais jovem, mais descolada, derrubou a Dilma, é a favor do mercado, do Estado mínimo e fala a língua da moçada "nas redes". Essa direita ameaça o monopólio do mercado dos movimentos estudantis, que sempre pertenceu a esquerda.

    Essa direita é mais festiva e está, aos poucos, aprendendo a falar de cinema, literatura, e coisas que ajudam a pegar mulher. Um critério para essa direita é se pega ou não gostosas.

    Ligada a ela, nasce a "direita gay", transante também, descolada e assumida. Como a anterior, é a favor do mercado e foge do estereótipo da "direita fascista".

    Também ligada a ela, temos a "direita gostosa": mulheres jovens, normalmente empresárias, advogadas, na maioria dos casos, gaúchas ou paranaenses. Aquele tipo de mulher que assusta cara que ganha menos do que ela e que teme ficar sozinha no final, justamente por ser sexy demais e ter seu próprio Mastercard Black. Sem elas, nada acontecerá no século 21.

    No lado oposto, está a "direita dos esquisitos". Aquele tipo de cara que, ou só fala de economia, ou de são Tomás de Aquino e frequenta eventos que "são de direita".

    Esse tipo gosta de bater boca, odiar gente de esquerda e se veste muito mal. Não come ninguém, o que dá a ele um perfil de ressentimento muito fácil de ser identificado.

    Variante desse tipo de "direita dos esquisitos" é a direita desses caras, simplesmente, mais velhos.
    Diferentemente da dos mais jovens, viveu muitos anos "no armário", o que produz um certo odor de naftalina ao redor, daí seu nome científico de "direita naftalina".

    Há também a "direita moderna": liberal em economia, secular, defensora do Estado mínimo e que engatinha no Brasil, no sentido de constituir uma rede político-partidária pra "chamar de sua" e que escape da maldição da herança autoritária e corrupta na política.

    Uma direita bem chatinha é a "direita da inovação". Gente que fala no mundo corporativo e goza quando diz a expressão apocalíptica "impressora 3D".

    Por último, a "direita religiosa", que se divide em duas. A "direita católica", normalmente gente muito estudiosa, conservadora, tímida e que anda na sombra em lugares públicos. Quando ouve o nome "teologia da libertação", mal consegue conter seus ímpetos inquisitoriais. A "direita evangélica" é muito mais dinâmica, faz "política real", abre igrejas por franchising e está a ponto de criar um verdadeiro liberalismo popular no país. Aleluia, irmãos!
    ----------
     * Filósofo, escritor e ensaísta, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, discute temas como comportamento, religião, ciência. Escreve às segundas.
    Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/10/1923417-tipologia-da-direita-contemporanea.shtml

    A igreja da prosperidade e a mais-valia espiritual

    Eliane Tavares*



    J.A.F tem 32 anos e trabalha como diarista em casas alheias. Ela tem um único sonho, que persegue desde quando era bem pequena: ter a sua própria casa. “Quando era menina eu comecei um cofrinho de moedas. Dizia que era dali que sairia a casa que eu iria comprar para minha mãe e para mim. Hoje ainda tenho o cofrinho, e com ajuda de deus eu vou conseguir”. A mãe já morreu. Tuberculose. E J. embarcou numa profunda depressão. Foi nessa fase da vida que ela encontrou a igreja. “Eu tava passando e o pastor estava na porta. Ele me chamou e disse que ali eu encontraria a paz. Não sei como ele percebeu que eu estava muito mal”. Pois ela entrou e veio a paz. Depois de abraçar a fé ela melhorou da depressão, conseguiu voltar a trabalhar e já tem até um carro. “Eles lá disseram isso bem claro. Se a gente trabalhar bastante, a gente consegue chegar lá”.

    Esse “chegar lá” é a ponta de lança da teologia da prosperidade, essa que carregou para o sagrado o que há de mais profano no mundo: o fetiche da mercadoria. Muitas igrejas realizam cultos específicos com o intuito de chamar a riqueza para os fiéis. Não é sem razão que crescem sem parar, arrebanhando cada vez mais gente. Num mundo marcado pela exploração, pelo individualismo e pela solidão, essas igrejas conseguem dar uma centralidade para almas em escombros, típicas do espírito do tempo.

    Mas, o crescimento dos cultos pentecostais, geridos pela ideia de prosperidade, nada tem a ver com a religião. Eles estão muito mais ligados ao modo de produção capitalista, mantendo milhares de pessoas justamente na batalha pela prosperidade, girando a roda do capital. O mais importante é observar que, no mais das vezes, as pessoas realmente melhoram de vida, porque estão mais centradas, mais determinadas e incluídas em um grupo que as impele para frente. Nos cultos, quem é exorcizado é o diabo, o demônio, satanás, belzebu, como se fosse essa entidade mágica a responsável pelas dores e pelos fracassos. Então, o verdadeiro culpado pelo drama dos trabalhadores – o capitalismo – segue intocado, esquecido e apagado. Se é o demônio que se apossa da pessoa e a impede de prosperar, basta que a comunidade, em comunhão, garanta a expulsão do malvado, para que a vida comece a melhorar.

    É bom que se diga que todas as pessoas que buscam na religião um bálsamo para as dores, lá estão porque realmente creem. Sentem-se acolhidas e não acreditam que muitos pastores ou pastoras, estejam ali para roubar seu dinheiro. Acham que o dízimo, que oferecem de bom grado, servirá para abrir as portas do céu, ainda que seja apenas o céu do líder da igreja. E como, de alguma maneira, a vida melhora mesmo, não se importam de aplicar seu tempo na esperança de conquistar coisas boas.

    Marx, ao analisar o modo capitalista de produção fala desse tempo a mais que o trabalhador deixa com o patrão. Na jornada de trabalho, no geral, muito mais da metade é lucro do patrão. A famosa mais-valia, ou mais-valor. Ludovico Silva, um filósofo venezuelano, vai dizer que assim como o patrão surrupia a mais-valia do trabalhador no local de trabalho, o sistema como um todo rouba uma mais-valia ideológica quando o trabalhador está em casa, vendo televisão. Pensando estar se distraindo ou usando seu tempo livre para curtir um bom programa de TV, ele está na verdade sendo consumido pela máquina de vender mercadorias. Ainda que fora do local de trabalho, segue prisioneiro do capital. Pois essas igrejas pentecostais que atuam com a teologia da prosperidade fazem algo bem parecido. A pessoa está lá, pensando estar em sintonia com deus, com o sagrado, mas ao final, não consegue se desvencilhar do desejo de ter coisas, de amealhar mercadorias. Isso significa que ainda está presa no sistema, gerando uma espécie de mais-valia espiritual. Sua própria relação com deus acaba mediada pelo tanto de coisas que pode conseguir.

    Não é também sem razão que são os líderes dessas igrejas os que, totalmente tomados pelos interesses seculares, adentram no jogo político garantindo postos de poder nas câmaras de vereadores, assembleias, câmara dos deputados, senado e estado. Geralmente aliados ao grande capital. Raros – se é que há - estão atuando na defesa dos trabalhadores.

    Outra maneira de atuar na defesa do capital é a aposta no fanatismo, que leva o fiel a ficar sem discernimento e sem pensamento crítico. Aceitando a palavra do líder como a única verdade, a pessoa torna-se capaz dos atos mais violentos, agindo sempre em nome da salvação da humanidade. Algo assim como o que estamos vivendo hoje no Brasil, com a série de ataques a pessoas ligadas à religião de matriz africana. Não por acaso a violência centra foco nos deuses do povo negro. Bramindo um “deus” específico, que é o único salvador, pessoas atacam outras pessoas, matam e discriminam.

    Foram os iluministas franceses, em particular, Voltaire (1694 — 1778), que polemizaram sobre o fanatismo, ligando essa prática a intolerância e à violência, justamente porque a Europa vivera até pouco tempo uma série de guerras envolvendo católicos e religiosos. Mas, naqueles dias, como hoje, o que realmente estava em questão não era a fé ou deus: era o poder. Com o crescimento do protestantismo, o status do papa, que era quem decidia a vida de todo mundo – inclusive dos reis – estava ameaçado. E era a igreja católica a que detinha também muita terra e riqueza. Então, enquanto nas batalhas morriam as gentes comuns, a aristocracia tramava para um ou para outro lado, sempre de olho na riqueza que poderia amealhar.

    É por isso que se faz necessário uma boa análise sobre o “fanatismo” que vivemos no Brasil. Observando bem vamos ver que não são apenas ataques esparsos a outras religiões, o que poderia caracterizar uma contenda verdadeiramente religiosa. Não. Os tentáculos dessas lideranças pentecostais – justamente por estarem em cargos de poder  - se estendem para a vida cotidiana. O projeto da Escola sem partido, buscando atuar na educação. A tentativa de barrar o debate sobre gênero e o ataque aos homossexuais, interferindo na vida pessoal, a lei que permite ensino de religião confessional, tentando arrebanhar a criança para a fé, a proposta de obrigatoriedade das músicas religiosas nas rádios e TVs, atuando como mais-valia ideológica e disputando o mercado musical. Tudo isso configura a intervenção e o fortalecimento desse fanatismo, em “nome de Jesus”, em todos os segmentos da sociedade. O objetivo final pode ser justamente submeter, pela violência, toda uma população, sob o pretexto da salvação das almas.

    Mas o que move o motor do fanatismo é algo bem mais prosaico do que deus. Trata-se do vil metal, dinheiro, borofa, bufunfa. A aposta é manter o rebanho ocupado na “guerra santa” pela moralidade e os bons costumes, enquanto o capital avança em mais uma onda de acumulação e expropriação. Assim, no Congresso, onde manda a bancada da bíblia, aliada a do boi e da bala, os deputados vão realizando as reformas exigidas pelo capital que manterão ainda mais cativos os trabalhadores. “Trabalhe, não pense”, diz o presidente, que fala como um gentil homem do século 16. E não poderia haver mote melhor para o Brasil desses dias. Enquanto uma legião de pessoas que trabalha e não pensa se digladia com exposições artísticas, homens nus, mães de santo e grita por intervenção militar, o capital segue impávido pelas estradas, quase sem obstáculos.

    Sendo assim, talvez fosse hora de olhar com mais cuidado para esse fenômeno, vendo-o como se expressa na luta de classes. Não basta ridicularizar nas redes sociais. As pessoas estão se fanatizando, isso é claro como o sol. São poucos agora, mas podem crescer. E se levarmos em conta de que o que está por trás do fenômeno é o processo de acumulação capitalista, o tema fica ainda mais urgente. A imposição do poder sob a força das armas sempre é uma alternativa possível, mas não podemos esquecer que, para isso, é preciso que seja montada toda uma atmosfera capaz de respaldar as ações violentas. Esse é o cenário que estamos vendo crescer sob nossos olhos. É tempo de ver e começar a agir em consequência. 
    -------------
    *  Jornalista.
    Fonte: http://eteia.blogspot.com.br/2017/10/a-igreja-da-prosperidade-e-mais-valia.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed:+blogspot/LceKx+(Elaine+Tavares+-+Palavras+Insurgentes)

    OUTRA ESQUERDA É POSSÍVEL

    Antonio Martins*

     Resultado de imagem para direita e esquerda

    No Brasil, reina a melancolia. Mas em países como Inglaterra e Estados Unidos, uma postura claramente anti-neoliberal está permitindo à esquerda reconectar-se com a sociedade 
    e sacudir o cenário político

    Você quer optar por manter-se melancólico – e crer que o duro esforço de recriar a esquerda é inútil, porque o mundo tornou-se definitivamente conservador. Nesse caso, olhe para a Alemanha, onde o partido de extrema-direita voltou ao Parlamento, pela primeira vez desde o nazismo. É uma perspectiva sombria e real; por isso, é legítimo escolhê-la. Mas, por favor, não diga que é a única, nem a mais atual.

    A velha mídia brasileira ainda não vê, mas rapidamente vai tomando corpo uma outra tendência, de sentido oposto. É a reemersão inesperada, como no final dos anos 1990, de uma crítica potente ao neoliberalismo. Ela vai muito além dos círculos intelectuais, desperta a juventude, propõe uma nova agenda.

    Como na virada do século, o movimento teve início nos países centrais do sistema: desta vez, Estados Unidos e Inglaterra. Comecemos por ela. A revista Economist, que não nutre a menor simpatia por Jeremy Corbyn, líder rebelde do Partido Trabalhista inglês, acaba de dizer que ele é o provável próximo primeiro-ministro do país. A imagem é eloquente: no último número da revista, Economist imagina Corbyn – um homem de 68 anos, cabelos brancos e boina – à frente da emblemática Downing Street nº 10, a sede do governo britânico. A porta principal – oh, heresia! – foi pintada de vermelho. Diante da casa, estão postados um gato e a bicicleta de Corbyn, também escarlate.

    Não é ironia apenas. Ainda em fevereiro, Economist previu a morte do centenário Partido Trabalhista, que seria provocada pelas políticas rebeldes de Corbyn (repare na boina, sobre o túmulo…). Tudo mudou, em sete meses. Por terem sido capazes de atualizar seu programa, e de se manter fieis a ele, contra todas as pressões, os trabalhistas reergueram-se. Nas eleições parlamentares do meio do ano, garantia-se que seriam varridos do mapa. Mas ao invés de recuarem, e se adaptarem ao que a mídia esperava deles, souberam dar a volta por cima. Seu programa teve por foco a redistribuição de riquezas. Obrigar os ricos a pagar mais impostos. Restaurar o Sistema Nacional de Saúde. Renovar a Educação. Eliminar a cobrança de mensalidades nas escolas públicas, introduzidas pelos conservadores e mantidas pelos trabalhistas acomodados. Renacionalizar as ferrovias. Tudo isso sob um slogan claro: “Para os muitos, não para os poucos”

    Jeremy Corbyn, visto pela própria mídia conservadora como provável próximo primeiro-ministro britânico. Ele quer imprimir dinheiro, mas agora, para os serviços públicos -- e não para os bancos
    Jeremy Corbyn, visto pela própria mídia conservadora como provável próximo primeiro-ministro britânico. Ele quer imprimir dinheiro, mas agora, 
    para os serviços públicos — e não para os bancos

    O resultado foi um ponto totalmente fora da curva. Depois de anos de declínio, quando obedeciam as receitas da mídia, os trabalhistas estiveram a um passo de ganhar as eleições. Politicamente, venceram. A primeira-ministra conservadora, Theresa May, arrasta-se, e não sabe como lidar com o trauma que a saída da União Europeia representará. Em poucos meses, os trabalhistas foram capazes de reanimar sua enorme militância. Como no Reino Unido as eleições são distritais, estes militantes dedicam-se agora a uma tática de tensionamento da representação tradicional. Vão de casa em casa, de pub em pub, distrito por distrito, questionar os votos dos deputados conservadores.

    Reinseriram os jovens na política. Entre a população abaixo dos 25 – reconhece Economist, não sem um certo pesar – já têm o apoio de três em cada quatro pessoas. Agora, querem ir adiante. Na primeira conferência do partido após as eleições do meio do ano, que está ocorrendo neste fim de semana, Jeremy Corbyn apresentou planos para enfrentar a especulação imobiliária – por exemplo, estabelecendo controle público sobre os preços dos aluguéis. Ou assegurando que, sempre que houver intervenções de “recuperação” de áreas urbanas, os imóveis afetados retornem a seus antigos moradores após as obras, ao invés de serem capturados pelas corporações imobiliárias.

    Corbyn também propõe – para escândalo da Economist – um quantitative easing para o povo. Na última década, os bancos centrais emitiram rios de dinheiro para a aristocracia financeira, alegando que era a forma de evitar que a recessão se agravasse. Agora, este velho trabalhista sugere: se isso foi possível, por que não podemos, também, imprimir dinheiro para os proglramas sociais?

    * * *

    Um processo semelhante está ocorrendo, exatamente agora, nos Estados Unidos. Diante do desgaste de Donald Trump, quem está se fortalecendo não é a extrema direita que o apoiou, nem a cúpula do Partido Democrata – mas Bernie Sanders, o candidato que questionou, nas eleições de 2016, o domínio dos grandes bancos sobre a economia.

    É a mesma Economist quem reconhece: o avanço tem por base políticas muito concretas. Há quatro anos, Sanders, que é senador, apresentou proposta para tornar estatal o sistema de assistência à Saúde. Ninguém o apoiou. Há poucas semanas, ele voltou a reapresentar a proposta: teve adesão de 16 senadores democratas, entre eles todos os demais possíveis candidatos à presidência, em 2020. A mudança de ares é vasta. A maior parte dos militantes já arova a proposta de um salário mínimo de 15 dólares por hora (que Hillary não assumiu em 2016). Também defende um pacote de investimentos públicos de 1 trilhão de dólares na economia e o controle estatal sobre os oligopólios. “Os democratas apoiam a intervenção governamental sobre a econoia numa escala não vista desde o New Deal” de Franklin Roosevelt, admite, ainda que a contragosto, a revista britânica.

    A onda de direita é global, inundou o Brasil, emerge em cada post no Facebook. Mas, vê-se claramente agora, não é o único fenômeno político contemporâneo. Diante de um mundo dividido, há, entre tantas, duas atitudes principais. A primeira é render-se comodamente à melancolia, ao fim do mundo. A outra, muito mais difícil e desafiadora é imaginar as alternativas.
    ----------------- 
    * É Editor do Outras Palavras
    Fonte:  http://outraspalavras.net/brasil/outra-esquerda-e-possivel/
    Imagem da Internet

    domingo, 1 de outubro de 2017

    A DESIGUALDADE OCULTA


    José de Souza Martins* 
    Carvall 
     "Desigualdade não é só nem principalmente desigualdade 
    de rendimentos. Desigualdade é, também, 
    desigualdade de percepção, compreensão 
    e consciência das consequências sociais 
    dos ganhos desiguais e injustos, 
    das privações que daí decorrem."

    De que desigualdade se trata quando as estatísticas nos dizem que os ricos estão mais ricos, e os pobres, imobilizados na mesma pobreza? Ricos de que e pobres de quê? É claro que é esse um sinal de que a sociedade brasileira vai mal. Mas onde está o conteúdo social dessa diferença? Milhões de brasileiros estão fora das estatísticas, tanto os muito pobres quanto os muito ricos. Pouco sabemos sobre a economia clandestina dos pobres e a economia oculta dos ricos. As revelações da corrupção política apontam milhões de reais circulando por fora da rede e dos meios fiscais de vigilância da decência econômica.

    As diferentes teorias do desenvolvimento capitalista nos dizem que é da natureza dos ricos ficarem mais ricos. Se não o fazem, estão traindo a missão histórica que lhes cabe, que é a de gestores da produção capitalista da riqueza. Foi Karl Marx quem disse isso no primeiro tomo de "O Capital". Tenho notícia de um único grande empresário brasileiro que foi leitor de Marx: Roberto Cochrane Simonsen, um dos fundadores da Fiesp. O parceiro de Marx, aliás, foi um industrial têxtil, Frederick Engels.

    O capitalista tem a responsabilidade social de administrar o capital que lhe está nas mãos como bem privado, mas que é, de fato, um bem público pelas funções sociais que tem. Ele é um funcionário de seu próprio capital, e não um patrão de si mesmo. Fracassa quando é mau empregado. Essa impessoalidade foi analisada por Max Weber em seu clássico estudo sociológico sobre "A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo".

    Capitalista que não acumula capital é o que vai a caminho da falência. Como é um traidor de sua classe social o capitalista que acumula por meio da corrupção. O fracasso do capitalista é o fracasso do sistema que lhe define a vocação, o chamamento para fazer o sistema funcionar. Se ele não ficar cada vez mais rico, não atuará empresarialmente para criar emprego para trabalho e remuneração dos mais pobres, para integrá-los na sociedade de consumo, para fazê-los sujeitos da sociedade baseada na premissa contraditória de que é uma sociedade de pessoas juridicamente iguais e economicamente desiguais.

    É esse o fundamento da crítica social que faz da sociedade capitalista tema e referência dos julgamentos morais. Julgamentos que dizem alguma coisa que não pode ser ignorada por aqueles que tem a responsabilidade de assegurar o equilíbrio das relações sociais e aquilo que se chama de justiça social.

    Distribuição desigual não é apenas distribuição desigual da riqueza, mas sobretudo distribuição desigual da consciência social e dos meios culturais que permitem a todos compreender as iniquidades constitutivas do sistema e a possibilidade da sua correção.

    Para discutir as desigualdades sociais e a injusta distribuição da renda é preciso ir muito adiante das estatísticas que nos dizem que os ricos ganham cada vez mais e os pobres ganham o mesmo que ganhavam ou ganham menos. É necessário fazer a listagem das iniquidades que respondem pela involução social na evolução econômica. E isso não estamos fazendo. Não estamos fazendo a crítica social e política do pseudoneoliberalismo que manda a conta dos riscos da acumulação da riqueza aos desvalidos, aos aposentados, às futuras gerações, aos pobres de meios para se defenderem da prepotência dos que tudo podem e nada percebem. E não aos corruptos, aos inescrupulosos, ao Estado voraz de tributos e mesquinho nas retribuições pelos tributos que recebe.

    Desigualdade não é só nem principalmente desigualdade de rendimentos. Desigualdade é, também, desigualdade de percepção, compreensão e consciência das consequências sociais dos ganhos desiguais e injustos, das privações que daí decorrem. As desigualdades são socialmente constitutivas desta sociedade unicamente enquanto os desiguais a aceitam e legitimam. Enquanto as vítimas com elas se conformam na esperança de que nela ainda haja um lugar para si, seus filhos e netos.

    Porém, quando surge a consciência de que a desigualdade é expressão de uma iniquidade sem saída, essa legitimidade desaparece. Estamos vivendo o momento perigoso desse limiar do abismo. São tantos os indícios de revolta e indisciplina contra as desigualdades sociais, em face da impunidade dos agentes da corrupção que as acentua, um crime de lesa-pátria, da serenidade dos que nos tratam como idiotas culturais, na indiferença ante nossa indignação, que não há como negar que ultrapassamos a fronteira da reprodução serena do capitalismo subdesenvolvido que é o nosso. É a difundida consciência de que talvez já não tenhamos presente e que o futuro está ameaçado pela irresponsabilidade  e insensibilidade dos que nos iludem e nos enganam.
    -------------------------
    José de Souza Martins é sociólogo, membro da Academia Paulista de Letras e autor de Uma Sociologia da Vida Cotidiana(Contexto), dentre outros. Escreve neste espaço semanalmente.