segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Os limites da cognição política, um dos conceitos mais elegantes da filosofia

Luiz Felipe Pondé*


Ricardo Cammarota/Folhapress
Ilustração Luiz Felipe Pondé de 6.nov.2017

Tempos ruins. Grande parte da "nova direita", infelizmente, deu pra imitar a direita "cultural" americana e está indo para a guerra cultural, combatendo exposições de arte que "uma multidão de dez pessoas" frequenta. Nesse caso, a nova direita segue de perto a "new left", também americana, obcecada também, como a nova direita, por sexo, penetração, crianças gozando, bebês trans, boquetes em público, sexo anal no jardim, enfim, tudo isso que inteligentinhos dizem ser uma "construção social".

Uma das tragédias da discussão política hoje é que grande parte da inteligência pública é parte da histeria. A verdade é que a "inteligência" política está sempre aquém da política. O que isso quer dizer? Isso quer dizer que, na política, como em tudo mais, não temos capacidade cognitiva pra armazenar e processar tanta informação ou dados.

Com isso não quero me colocar ao lado daqueles que, quando ouvem a palavra "algoritmoooooo", têm orgasmos múltiplos. Nem daqueles que pensam que a política será resolvida pela "Singularity University" porque geladeiras conversarão com fogões num mundo ideal. Nem daqueles que sonham com um algoritmo como líder máximo.

Um dos conceitos em filosofia política ou ciências políticas que mais me parece elegante é o de "cognição política". "Elegância" em filosofia (ou epistemologia, para os que estão mais habituados com o repertório filosófico) significa (de forma grosseira, mas correta), segundo Guilherme de Ockham (1285-1347), seu criador, "dizer muito sobre a realidade do mundo, de modo preciso e da forma mais curta possível". Quanto mais uma teoria ou conceito é simples na expressão e amplo na compreensão dos fenômenos, mais elegante ele é. Esta é a "navalha de Ockham".

A verdade é que não temos capacidade de lidar com o montante de dados que a política produz, logo, humildade, e não utopia, é a melhor atitude epistemológica aqui -e não apenas ética ou política.

Epistemologia é a parte da filosofia que estuda o conhecimento, logo, a cognição e seus modos de organização. Dizer que temos limites cognitivos pra entender a política significa dizer que nossa capacidade de armazenar e processar dados políticos está aquém da quantidade de dados que a realidade política produz. Dito de forma simples: nunca sabemos ao certo o que está acontecendo na política, tampouco os políticos.

Esse fato não implica a inviabilidade da política como saber ou prática, mas implica visões distintas da política, sua ciência e sua prática. Outro fator complicador é que a política se mistura com moral, psicologia e psicopatologias diversas, neurociências, sociologia, religião, marketing, mentiras banais, vaidades, economia, sexo. Enfim, uma infinidade de realidades que tornam impossível uma ideia clara e distinta sobre elas e suas relações.

Mas calma! Não entre em pânico por conta dessa neurose de "engenharia das coisas" que nos afeta, pior do que tesão pela "internet das coisas". Dizer que nossa capacidade de cognição política não suporta tantos fenômenos não quer dizer incapacidade total, quer dizer cuidado com visões de mundo que implicam uma crença numa percepção perfeita da política e dos homens. Proponho que você leia "Conflito de Visões", de Thomas Sowell, publicado entre nós pela É Realizações.

Crer na capacidade plena de nossa cognição política é ter uma "visão irrestrita" do homem (nos termos de Sowell), é crer em sua perfectibilidade infinita via engenharia social e política. É crer na política como esfera de soluções para problemas claramente compreendidos. Uma mistura de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) com René Descartes (1596-1650). É crer em nossa capacidade irrestrita de ação racional no mundo.

Uma "visão restrita" do homem é crer que sua cognição é limitada e que tudo que podemos fazer são "trade-offs" (negociar) com os problemas que conhecemos "mais ou menos". É uma mistura de David Hume (1711-1776) com Adam Smith (1723-1790).

Se você for um cético como eu, deverá preferir David Hume e Adam Smith aos delírios do andarilho solitário Rousseau.
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Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2017/11/1933023-crer-em-nossa-capacidade-de-cognicao-politica-e-ter-visao-irrestrita-do-homem.shtml

George Monbiot: “A condição humana é anticapitalista”

 Resultado de imagem para George Monbiot  Out of the Wreckage: A New Politics for an Age of Crisis

A ideia de que a natureza humana é inerentemente competitiva e individualista não é só prejudicial; é também contestada pela psicologia, neurociência e biologia evolutiva, afirma George Monbiot em seu novo livro. Out of the Wreckage: A New Politics for an Age of Crisis [algo como: “Além das ruínas: Uma Nova Política para uma Era de Crises”] apresenta um argumento convincente de como podemos reorganizar nosso mundo para melhor, de baixo para cima.

George Monbiot acredita ardentemente na “política do pertencimento”.  Em entrevista a Mark Karlin do sítio Truthout ele explica o argumento exposto no novo livro: os seres humanos são altruístas, mas precisamos de um novo discurso de empatia e desenvolvimento compartilhado para superar a propaganda do discurso neoliberal.

A entrevista é publicada por Outras Palavras, 03-11-2017. A tradução é de Camila Teicher.
Eis a entrevista.

Você começa seu livro destacando a importância das narrativas que aceitamos, enquanto membros de uma sociedade. Como chegamos a este ponto, em que a narrativa neoliberal prevalece?
Começando pela fundação, por Friedrich Hayek e outros, da Sociedade Mont Pèlerin em 1947. Os neoliberais, com o apoio de alguns financiadores muito ricos, construíram uma espécie de rede internacional. Estabeleceram think tanks, patrocinaram e se apropriaram de departamentos acadêmicos, levaram jornalistas e editores a suas reuniões e conseguiram inserir assessores nos departamentos políticos mais importantes. Eles sabiam que, como a social-democracia keynesiana era amplamente aceita pelos partidos em todo o espectro político, não tinham chance de sucesso imediato. Mas foram pacientes. Ao longo de trinta anos, construíram suas redes, refinaram seus argumentos e atraíram cada vez mais pessoas a sua órbita. Sabiam que, quando uma crise econômica e política surgisse, estariam prontos para entrar em ação. Como Milton Friedman destacou, “quando chegou o momento em que era necessário mudar… havia uma alternativa pronta para ser aplicada”.

Acima de tudo, eles tinham algo de que seus oponentes careciam: uma nova narrativa. A cada geração, mais ou menos, as narrativas políticos precisam ser renovados ou substituídos, em parte porque a política por eles gerada se esgota ou é corrompida ou enfraquecida por ataques; em parte porque as pessoas tornam-se apáticas e complacentes. Este é o grande erro que nós, que desejamos uma política generosa e inclusiva, cometemos: não fomos capazes de gerar um a narrativa política nova e bem desenvolvido desde que John Maynard Keynes escreveu sua Teoria Geral em 1936. Esse nosso fracasso é uma receita para um eventual colapso.

O neoliberalismo é, em essência, um esquema para benefício próprio: uma teoria elaborada que funciona como uma desculpa para que os muito ricos se isentem das “limitações” da democracia – impostos, regulações, salários e condições de trabalho decentes para seus empregados, cuidado para com o mundo vivo e todas as demais decências que devemos uns aos outros. No entanto, o neoliberalismo “pegou” porque foi enquadrado dentro da estrutura narrativa política clássica, que sempre funcionou ao longo da história, a qual chamo de “Discurso da Restauração”. Funciona da seguinte forma:

A desordem aflige o território, causada pelas forças poderosas e nefastas que agem contra os interesses da humanidade. O herói – que pode ser uma única pessoa ou um grupo –revolta-se contra essa desordem, combate as forças nefastas, vence-as apesar dos prognósticos pessimistas e restaura a ordem.

Essa é uma metanarrativa fundamental à qual estamos inerentemente ligados. Eles armaram sua política em torno dessa estrutura e enunciaram seu discurso com extravagância e poder persuasivo. A razão pela qual estamos emperrados no neoliberalismo – apesar de seus fracassos manifestos, particularmente a grande crise iniciada em 2008 – é o fato de que seus oponentes não produziram nenhum Discurso de Restauração próprio, novo e coerente.

É isso que procuro abordar em Out of the Wreckage. O livro parte do sucesso do neoliberalismo e de outros movimentos que usaram esse enquadramento narrativo e constrói um novo Discurso de Restauração que, acredito eu, é apropriado para o nosso tempo.

A alegação de que as pessoas são altruístas e comunitárias por natureza está implícita e explícita no seu livro. Dado o atual triunfo das duras narrativas individualistas na maioria das nações desenvolvidas e produtoras de matérias-primas, que evidência subjaz a sua alegação de que somos inerentemente parte de uma sociedade do pertencimento?
Nos últimos 20 anos, aproximadamente, houve uma notável convergência de descobertas na neurociência, psicologia, antropologia e biologia evolutiva. Apontam para o fato de que a humanidade é “espetacularmente incomum se comparada aos animais” em nosso grau de altruísmo, como propõe um artigo no periódico Frontiers in Psychology. Há uma lista de referências de artigos científicos sobre o assunto em Out of the Wreckage.

Também temos uma incrível capacidade de empatia e uma tendência à cooperação à qual somente a do rato-toupeira-pelado se compara, entre os mamíferos. Essas tendências são inatas. Nós evoluímos nas savanas africanas: um mundo de dentes, garras, chifres e presas. Sobrevivemos apesar de sermos mais fracos e mais lentos em relação tanto aos nossos predadores quanto à maioria das nossas caças. Conseguimos isso através do desenvolvimento, a um nível extraordinário, da capacidade de ajuda mútua. Como foi essencial para nossa sobrevivência, esse impulso de cooperação ficou gravado em nossos cérebros através da seleção natural.

Porém, a grande tragédia que enfrentamos é ter essa extraordinária boa natureza escondida de nós, em parte por nossas próprias percepções. Temos uma tendência inerente a estarmos alerta ao perigo. O comportamento violento e destrutivo de alguns se destaca mais em nossas mentes do que o comportamento altruísta e cooperativo de muitos.

Obviamente, em qualquer nação há pessoas que não compartilham da tendência geral ao altruísmo e empatia… Infelizmente, elas são representadas desproporcionalmente nos níveis mais altos dos governos e corporações. O atual presidente dos Estados Unidos é um bom exemplo. Nós os vemos e observamos a maneira como se comportam e dizemos a nós mesmos que assim é como os seres humanos são. Mas não. É o que um por cento dos seres humanos é.

Mas a outra razão para esta tragédia da percepção equivocada é o fato de que estamos imersos em uma ideologia virulenta de individualismo e competição extremos que nos diz, na contramão de todas as evidências científicas, que nossas características dominantes são egoísmo e ganância e que isso é bom porque estimula o empreendedorismo, que, por sua vez, produz riqueza, que, de alguma forma, vai se propagar e enriquecer a todos. Essa é a principal ideologia do neoliberalismo, que valoriza e centraliza n0ssas piores tendências e celebra a desigualdade e a dominação resultantes. Uma das nossas tarefas mais importantes é substituir esse falso discurso com o que a ciência nos diz sobre quem somos realmente. Não precisamos mudar a natureza humana; precisamos revelá-la.

Qual é a diferença entre provisão de serviços pelo Estado e o papel das comunidades fortes?
Não quero descartar a importância da provisão estatal. Ainda é crucial. O caráter de uma sociedade é determinado pelo grau em que o estado provê serviços públicos de qualidade e uma ampla rede de segurança social. Quando os governos falham em defender seus povos dessa maneira, a insegurança e a precariedade imperam e a sociedade como um todo se torna mais dura e mais suscetível ao medo, ódio e reacionarismo. Mas é um erro imaginar que podemos deixar tudo unicamente nas mãos do governo.

O problema de contar somente com o governo é que isso contribui para a alienação. O Estado provê serviços de maneira vertical, de cima para baixo, e tende a enquadrar as pessoas em compartimentos, para assegurar que recebam a provisão certa. Paralelamente a outras forças alienantes, isso pode debilitar a coesão social e o senso de pertencimento, se não for equilibrado pela ação comunitária. Também pode fazer com que nos sintamos dependentes e altamente vulneráveis a cortes no orçamento. De fato, muitas pessoas estão sofrendo o pior dos dois mundos: a ajuda mútua e a independência foram erodidas pela necessidade de provisões do Estado, só que agora essa provisão estatal está sendo retirada, deixando as pessoas sem uma coisa nem outra.
Portanto, ao buscar a nova visão que tento promover, precisamos do que chamo de “Política do Pertencimento” para ressuscitar a vida comunitária. Há duas maneiras de fazer isso que me interessam.

A primeira é o desenvolvimento de uma cultura participativa rica: projetos comunitários pensados para atrair o maior número de pessoas possível; alguns requereriam muito pouco empenho ou habilidade, e gradualmente se proliferariam para se tornar o que os profissionais chamam de “redes densas”. Há alguns exemplos espetaculares, como o movimento em Roterdã que começou com a transformação de uma antiga casa de banho turco abandonada em uma sala pública de leitura que acabou gerando 1.300 projetos e empreendimentos comunitários. Eventualmente, chega-se a um ponto de inflexão no qual a participação da comunidade torna-se a norma e não a exceção, e então muitos empreendimentos sociais, cooperativas e outros negócios comunitários se formam e começam a representar um grande parte da economia local.

A segunda é a recuperação dos bens comuns, um dos quatro grandes setores da economia que sempre esquecemos (nossos debates tendem a se concentrar somente em dois: o Estado e o mercado, negligenciando tanto os bens comuns quanto o grupo familiar). Os bens comuns são recursos pertencentes a e gerenciados e compartilhados igualmente por uma comunidade e têm sido implacavelmente atacados tanto pelo Estado quanto pelo mercado. Acredito que a restauração dos bens comuns é crucial para a restauração da comunidade, da democracia, de um senso de pertencimento e do mundo vivo. São os bens comuns que dão sentido à comunidade.Neste livro dou exemplos do que isso significa e de como a restauração pode acontecer.

Qual é a sua resposta a alguém que lhe pergunte “como começo a entrar nesse novo discurso de pertencimento comunitário?”
Acho que os grandes modelos organizacionais desenvolvidos pela campanha de Sanders nos EUA e a campanha de Corbyn/Momentum no Reino Unido fornecem um protótipo instigante de como podemos mudar a política plano nível nacional. A técnica está ainda em fase inicial e seu uso em ambas as campanhas foi experimental. No entanto, nos dois casos, mesmo começando do zero e em circunstâncias altamente desfavoráveis, esses modelos deram aos candidatos uma chance real de ganhar poder.

Desde então, as técnicas vêm sendo desenvolvidas e refinadas, e não demorará muito até que vejamos uma série de vitórias espetaculares de candidatos genuinamente progressistas alavancados por esse modelo. Mas ele também pode ser empregado, especialmente em conjunto com as táticas muito úteis desenvolvidas pelo movimento Indivisible [que resiste, nos EUA, à agenda de retrocessos de Donald Trump], no trabalho em campanhas específicas. Sinto que estamos apenas começando a ver o que as redes de voluntários (em proliferação) que usam a tecnologia digital e o contato humano direto podem alcançar. Se fizermos tudo certo, acredito que vamos nos tornar imparáveis.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/573326-a-condicao-humana-e-anticapitalista
imagem da Internet

domingo, 5 de novembro de 2017

É possível um Macron brasileiro

A FÓRMULA - Liegey: vitória em partido pequeno e sem dinheiro de empresas (Eric Garault//)

Estrategista da campanha do presidente francês afirma que, apesar da instabilidade, há terreno fértil para o surgimento do “novo”, sem a âncora do populismo

Guillaume Liegey tem no currículo duas campanhas eleitorais que marcaram época: participou como coadjuvante da equipe que elegeu Barack Obama, em 2008, e comandou o exército de engajados do movimento En Marche!, na França, que levou à Presidência o candidato de centro, Emmanuel Macron, em maio passado. Liegey estará no Brasil em 6 de novembro para prospectar clientes. No Rio de Janeiro, ele se reunirá com o Agora!, movimento que tem entre seus membros o apresentador Luciano Huck. Também terá conversas em São Paulo e Brasília. Seu interesse nas eleições de 2018 tem razão de ser. Ele acredita que o país mostra ter condições para ungir um candidato de centro capaz de quebrar a polarização. “Estou convencido de que é possível começar alguma coisa do zero no Brasil”, afirmou. A seguir, os principais trechos de sua entrevista a VEJA, feita por telefone, de Paris.

O Brasil tem chance de parir um exemplar de Emmanuel Macron em 2018? É fácil dizer “adaptem o discurso de Macron à realidade brasileira”, mas pôr isso em prática é difícil. Minha intuição é que muitas pessoas estão pensando em concorrer, mas ainda não declararam. O discurso de Macron era fazer política de um jeito diferente do que fazem os velhos partidos que têm se revezado no poder há décadas. Funcionou na França porque havia muitos voluntários mobilizados. Foi preciso montar uma operação profissional de captação de recursos independente de fundos partidários e organizar o partido usando ferramentas de dados. Estou convencido de que é possível começar algo do zero no Brasil e, se o projeto vingar, aumentar a chance de vitória de 0,1% para 10%, como no caso de Macron.

Qual foi a grande inovação? Mandamos voluntários à casa das pessoas para fazer perguntas sobre a França: o que funciona e o que não funciona no país, o que dá esperança e o que preocupa em relação ao futuro? Entendo que, tradicionalmente, gasta-­se muito dinheiro em TV e usam-se mídias sociais de forma antiquada. Se as pessoas quiserem ser inovadoras, como o momento pede, sim, haverá espaço para uma campanha como a de Macron. Bater à porta das pessoas no Brasil não é tão fácil assim, pela dimensão do país, pela desigualdade. Mas dá para criar um sistema em que se possam ouvir as pessoas, levando em conta sua opinião na hora de fazer uma campanha.

É possível engajar o eleitor de centro? A parcela das pessoas que votam por um vínculo partidário é cada vez menor. Isso significa que há oportunidade para candidatos sem posicionamento ideológico claro. Nesse caso, o que importa são os valores incorporados. Se um candidato quiser atrair os eleitores perdidos do centro, é necessário que faça campanha sobre sua personalidade e caráter, e não apenas sobre pontos programáticos detalhados. Especialmente no Brasil, onde políticos já não têm crédito, é preciso que as pessoas tenham fé no indivíduo.

Como financiar um candidato com pequena base partidária num país onde o financiamento privado é proibido? Assim como no Brasil, na França temos financiamento público proporcional ao número de cadeiras no Parlamento. Quando Macron começou a campanha, o partido não tinha cadeira nem candidatos eleitos. A única forma de levantar recursos era por meio de pessoas físicas. A campanha agiu em duas frentes: com uma abordagem de massa e com pessoas de altíssima renda. No primeiro caso, construímos o maior banco de dados possível e enviamos toneladas de e-mails testando qual mensagem funcionaria melhor. O princípio-chave é: se uma pessoa doa uma vez, vai doar duas, três vezes. No outro caso, juntamos uma lista com potenciais financiadores de alta renda e partimos para o corpo a corpo, com a organização de eventos, jantares. Enquanto a pessoa não disser sim nem não, você continua perturbando, até que ela diga sim ou “nunca mais fale comigo”. No começo da campanha, fizemos um café da manhã com Macron e vinte empresários muito ricos, e, depois de uma hora, eles não doaram nada. Com o decorrer da campanha e a insistência, isso mudou.

O vazio na política pode viabilizar uma candidatura extremista e populista. Há vacinas contra isso?  Não. No Brasil, há bastante instabilidade, poderosos na prisão e um novo sistema de financiamento. Acho que há espaço para o novo. Mas também entendo que a falta de credibilidade na política pode ter o potencial de impulsionar a campanha de candidatos populistas. Neste ano, 34% dos eleitores franceses votaram em Marine Le Pen, a candidata anti-imigrantes que nunca teve cargo executivo. Trata-se do dobro do número de cinco anos atrás, o que reflete o crescente descrédito dos políticos. O populismo está ganhando terreno na França e no mundo, e a maior razão para isso é que partidos tradicionais não mudaram sua forma de atuar. Políticos são autocentrados, o que os afasta da população.

Como Macron combateu o discurso populista? Ele entendeu que a oportunidade para uma visão moderada se abria e juntou um pequeno time que, até então, ninguém julgava capaz de crescer a ponto de chegar à Presidência em um ano. Usamos a tecnologia e a abordagem de porta em porta de forma eficiente. Na vitória de Macron, talvez tenha sido exatamente isso que o colocou em primeiro, e não em segundo lugar. A vitória é uma combinação de bons candidatos, boa organização de dados e corpo a corpo. Essa ideia, não por acaso, vem de pesquisas nos Estados Unidos que provam que, quando se fala cara a cara, a chance de que o eleitor mude de ideia é muito maior do que quando se utiliza qualquer outra técnica. O primeiro candidato a usar isso em larga escala foi Barack Obama. Ele é a inspiração inicial.

Até que ponto as fake news atrapalharam a campanha? O impacto delas é superestimado. Vou mencionar um exemplo específico: houve o boato de que pedófilos se reuniram em Wa­shing­ton, acobertados pelo Partido Democrata. Quem acreditou que Hillary Clinton apoiaria uma rede de pedofilia já estava predisposto a pensar assim. Se você fosse um apoiador de Hillary, nunca acreditaria nessa informação e a descartaria. É possível que as fake news mudem alguns votos, mas não vejo isso funcionando em larga escala.

O senhor vem ao Brasil e vai se encontrar com o Agora!, apoiado pelo apresentador Luciano Huck. Tem algum potencial cliente em vista? Não posso revelar nomes, por confidencialidade, mas vou sondar clientes e estou de cabeça aberta. Fomos procurados por algumas pessoas e vou encontrá-las. Ao final, saberei se haverá trabalho para mim.

Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555
Fonte:  http://veja.abril.com.br/revista-veja/e-possivel-um-macron-brasileiro/

John Green: Mente incontrolável

(An Rong X/The New York Times/Fotoarena)

O escritor John Green fala sobre sua doença mental — tema do seu romance mais recente — e professa sua fé na inteligência do leitor adolescente

A protagonista de Tartarugas até Lá Embaixo (Intrínseca) tem preocupações atípicas para uma adolescente: Aza Holmes sabe tudo de bactérias raras e infecciosas. Aliás, não consegue parar de pensar nelas: é como se sua mente estivesse infectada. O autor da obra, John Green — gigante da literatura para jovens, com 50 milhões de livros vendidos no mundo todo, dos quais 4,5 milhões só no Brasil —, conhece bem esse tipo de hipocondria. Como sua personagem, ele sofre de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Seu quinto romance trata desse drama muito pessoal com a mesma sensibilidade com que A Culpa É das Estrelas, seu maior sucesso, falava de adolescentes que lutam contra o câncer. No meio da turnê promocional que está fazendo, de ônibus, pelos Estados Unidos, Green, de 40 anos, falou a VEJA, por telefone, sobre problemas mentais — e sobre o desafio de comunicar-se com adolescentes. A seguir, sua entrevista.

Aza Holmes, a protagonista de Tartarugas até Lá Embaixo, sofre de distúrbios mentais muito semelhantes aos seus. Foi mais fácil ou mais difícil escrever sobre um distúrbio que o senhor mesmo tem? Foi mais fácil e também mais difícil. Mais fácil porque eu sei muito bem pelo que Aza está passando. Conheço de perto o medo e a opressão de não conseguir controlar os próprios pensamentos. E mais difícil, pois eu me debati a vida inteira para encontrar um modo de falar sobre os problemas do meu cérebro. Ainda criança, eu já lutava para descobrir uma linguagem para expressar isso. No livro, queria pôr o leitor em uma posição na qual ele conseguisse entender e sentir, por dentro, como é o pensamento obsessivo.

Os pensamentos obsessivos da personagem são relacionados a bactérias e infecções. No auge de uma crise, ela chega a beber gel antisséptico. As suas obsessões são parecidas? Sim. Nesse ponto, optei por escrever sobre o que me é familiar. Em uma crise, já bebi gel antisséptico. Não quero romantizar isso: é uma coisa horrível sentir que você tem de fazer algo assim. Foi um dos piores momentos da minha vida. O mais perturbador no pensamento de Aza é que o antisséptico não mata a Clostridium difficile (bactéria pela qual a personagem é obcecada). Aza extrapola o pensamento racional e faz algo que é perigoso para a saúde. O pensamento obsessivo a leva até isso.

A expressão transtorno obsessivo-­compulsivo e a sigla TOC não aparecem no romance. Por que o senhor não quis dar um diagnóstico para a personagem? Em parte porque não sou psicólogo e em parte porque muitas vezes não achamos um termo para o que acontece conosco. Um diagnóstico não nos basta: precisamos encontrar descrições mais diretas e pessoais para o que se passa conosco.

O senhor não falava sobre seu distúrbio mental antes. Era um tabu? Ainda é um tema difícil. Comecei a falar a respeito dele porque considero importante que as pessoas ouçam depoimentos de adultos que levam uma vida produtiva sofrendo de problemas mentais crônicos.

Em eventos públicos promocionais de A Culpa É das Estrelas, alguns jovens da plateia que tiveram câncer davam depoimentos sobre o que o livro significou para eles. Está ocorrendo algo similar na turnê de lançamento de Tartarugas até Lá Embaixo? Sim. Tem sido muito comovente ouvir pessoas que tiveram problemas mentais contar como se sentem compreendidas. Algumas têm usado o livro como um modo de conversar com os pais sobre como elas se sentem.

A literatura, então, pode ajudar quem sofre com problemas mentais? A literatura pode nos fazer menos sozinhos, e talvez nos ajude a nos entendermos melhor. Mas não sou a pessoa certa para dizer se meus livros conseguem fazer isso.

É mais difícil falar sobre câncer ou sobre distúrbios mentais? Depende das circunstâncias, e não gostaria de comparar. O câncer, mesmo quando curável, é uma doença séria. E um diagnóstico de doença mental crônica é assustador, pois se trata de algo com que você terá de conviver pela vida toda. Ainda hoje, isso me assusta.

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O senhor hoje é um best-seller internacional, tem um canal de sucesso no YouTube e constituiu uma família. Mesmo assim o TOC ainda o assusta? Tenho uma vida boa, sim. Mas ainda luto com a doença. Isso faz parte da minha vida. É  um desafio, e é frustrante, pois eu queria apenas não ter esse problema. Escrever o livro não me curou, claro, mas ajudou. Consegui sentir uma compaixão por Aza que eu não me permitia sentir por mim mesmo.

Seja como escritor, seja como comunicador, em vídeos no YouTube, o senhor consegue a atenção do público adolescente. Qual o segredo? O segredo é ouvir os adolescentes e acreditar na inteligência deles. É preciso entender que, mesmo que eles não se comuniquem de um modo que os adultos considerem, digamos, sofisticado, isso não quer dizer que o pensamento deles não seja sofisticado.

Alguns críticos, aliás, dizem que seus personagens adolescentes se expressam com uma articulação que não é realista. Pois é… Quando escrevo, tento retratar o modo como ouvimos a nós mesmos, não o modo exato como falamos. Você provavelmente já transcreveu várias entrevistas na vida e sabe que nem sempre falamos com frases completas e coerentes. O diálogo, na literatura, nunca é realista. Não me interessa refletir a realidade do som que emitimos, e sim a realidade da experiência de uma conversa. Mas admito que essa é uma crítica legítima à minha obra: realmente, não escrevo do modo como as pessoas falam. Nem estou tentando fazer isso.

Se essa é uma crítica legítima ao seu trabalho, o que seria uma crítica ilegítima? Não concordo quando dizem que os adolescentes nos meus romances são mais inteligentes que os adolescentes da vida real. Não é verdade.

Há muito pessimismo sobre o futuro da leitura e, em especial, sobre jovens leitores. O senhor é mais otimista?  Não leitores sempre foram mais numerosos que os leitores apaixonados. Mas há muitos jovens lendo. Eles leem muita coisa no celular, mas também livros — e não só os meus. Com frequência, recebo boas recomendações de leitura de adolescentes.
A leitura é especialmente importante na adolescência? Sim, pois os adolescentes estão formando seus valores, estão encontrando as ideias que vão guiá-los pelo resto da vida.

Seus filhos hoje têm 4 e 7 anos. O senhor está pronto para, daqui a um tempo, ter adolescentes em casa? Não, de jeito nenhum! Estou apavorado. Tenho certeza de que vou passar por essa fase, como todo pai passa. Mas sei que é um período tenso, tanto para os pais quanto para os filhos.

No canal de vídeo que o senhor e seu irmão Hank Green mantêm no YouTube, vocês discutem temas políticos do momento. Um vídeo recente fala das suspeitas de envolvimento russo na campanha de Donald Trump. Como abordar esses temas dirigindo-se a um público jovem? Sempre parto da premissa de que os jovens que veem o nosso vlog são sofisticados e inteligentes. Pesquiso com cuidado os fatos que apresento, e faço questão de indicar minhas fontes, para que eles mesmos possam lê-las. Aliás, espero que ainda exista a crença em fatos objetivos nos Estados Unidos.

O senhor procura ser equilibrado com esses fatos objetivos, e não usa adjetivos para qualificar o presidente, por exemplo. Eu me esforço muito para isso: para não demonstrar desprezo, por mais que eu discorde do presidente essencialmente em tudo. Trump é um líder ruim e um presidente ineficiente, e  eu queria mesmo que ele não fosse o presidente. Mas eu não o torno menos legítimo com adjetivos. Nenhum apoiador de Trump será dissuadido só com xingamentos. O que, espero, pode mudar a visão deles é a demonstração de que este é um presidente cujo comportamento não dignifica o cargo para o qual foi eleito. Aliás, espero que meus amigos republicanos tenham a mesma conversa comigo se um dia o presidente for um progressista com um perfil similar, ideológico e populista.

As redes sociais deixaram o debate político mais tóxico? Sim. Todo mundo está sempre zangado e gritando, e ninguém gosta quando gritam de volta. É um problema cuja solução eu não consigo enxergar. Mas acredito que cada um de nós precisa moderar o modo como se manifesta on-line.
Sua comunidade de fãs na internet é mais moderada? Temos conversas boas e produtivas, mas o caráter tóxico da internet se imiscui em qualquer lugar hoje em dia. É inerente às redes sociais, e não somos exceção. Não posso fazer de conta que a nossa comunidade é algum tipo de utopia, porque não é.

Seu romance de estreia, Quem É Você, Alasca?, já esteve entre os livros que receberam mais requisições de banimento em bibliotecas públicas. Por que ainda se pede para proibir livros em bibliotecas em um país com a tradição de liberdade de expressão dos Estados Unidos? Bem, nosso país é obcecado com sexualidade. Um livro ou obra de arte que tenha qualquer conteúdo sexual se torna alvo de pessoas que não querem que o sexo faça parte de nenhuma discussão pública. Mas há outros fatores. As pessoas acham que deveriam controlar o que está disponível nas bibliotecas públicas. Discordo: essa deve ser uma decisão dos bibliotecários.

Parte do enredo de Tartarugas até Lá Embaixo tem a ver com um episódio fictício de corrupção em contratos públicos com empreiteiras. É um caso municipal, em Indianápolis, mas lembra o que acontece no Brasil hoje. O senhor acompanha a política brasileira? Sim, sigo as notícias do Brasil. Corrupção envolvendo empreiteiras é algo que acontece no mundo todo. Aqui nos Estados Unidos, acabamos de saber sobre uma pequena empresa, com apenas dois funcionários, que foi contratada por 300 milhões de dólares para reconstruir a infraestrutura elétrica de Porto Rico (destruída pelo furacão Maria). Não era de jeito nenhum a empresa mais qualificada para esse trabalho! Obviamente, no Brasil, onde a corrupção está em praticamente todas as instâncias do governo, esse é um desafio bem maior. Mas este pode ser um momento definidor para o país. Não é o primeiro escândalo de corrupção no Brasil. Vamos esperar que seja o último.
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Reportagem  Por Jerônimo Teixeira - 3 nov 2017
Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555
Fonte:  http://veja.abril.com.br/revista-veja/mente-incontrolavel/

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O sentido da vida não se perdeu

 Leonardo Boff*
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Quem olha o panorama brasileiro sob a ótica da ética (toda ótica produz sua ética) não deixa de ficar desolado e profundamente entristecido. Um presidente não é apenas portador do poder supremo de um país. O cargo possui uma carga ética. Ele deve testemunhar, por sua vida e atos, os valores que quer que seu povo viva.

Aqui temos o contrário:um presidente tido por corrupto, não só por acusação de políticos, nem sequer por delações, sempre discutíveis, mas por investigação séria da Polícia Federal e de outros órgãos como o Ministério Público. Mas a desmesurada vaidade do cargo e a total falta de respeito face ao seu próprio país, se mantem à base de corrupção feita à luz do dia, comprando votos de deputados e oferecendo outros benesses. E os deputados, gaiamente, se deixam corromper, porque muitos são corruptos, aproveitam a ocasião para conquistar funções e outros benefícios.

A república apodreceu de vez. Temos que refundar o Brasil sobre outras bases pois aquelas que até agora mancamente o sustentaram já não conseguem dar-lhe digna sustentabilidade.

A despeito disso tudo, não deixamos a esperança morrer, embora nesse momento, no dizer de Rubem Allves, se trata de uma “esperança agonizante”. Mas ela ressuscitará desta agonia e nos resgatará um sentido de viver. Se perdermos o sentido da vida, o próximo passo poderá ser o completo cinismo e, no termo, o suicídio. Quero retomar a questão do sentido da vida.

Não obstante a desesperança e aa existência do absurdo face ao qual a própria razão se rende, acreditamos ainda na bondade fundamental da vida. O homem comum que somos a grande maioria, se levanta, perde precioso tempo de vida nos ônibus super lotados, vai ao trabalho, não raro penoso e mal remunerado, luta pela família, se preocupa com a educação de seus filhos, sonha com um Brasil melhor, é capaz de gestos generosos auxiliando um vizinho mais pobre que ele e, em casos extremos, arrisca a vida, para salvar  uma inocente menina  ameaçada de estupro. O que se esconde atrás destes gestos cotidianos e banais? Esconde-se a confiança de que, apesar de tudo, vale a pena viver porque a vida, na sua profundidade, é boa e foi feita para ser levada com coragem que produz auto-estima e sentido de valor.

Há aqui uma sacralidade que não vem sob o signo religioso  mas sob a perspectica do ético, do viver corretamente e do fazer o que deve ser feito.  O grande sociólogo austríaco-norte-americano Peter Berger, há pouco falecido, escreveu um brilhante livro, relativizando a tese de Max Weber sobre a secularização completa da vida moderna com o título:”Um rumor de anjos: a sociedade moderna e a redescoberta do sobrenatural (Vozes 1973). Aí descreve inúmeros sinais (chama de “rumor de anjos”) que mostram o sagrado da vida e o sentido que ela sempre guarda, a despeito de todo caos e dos contrasensos históricos.

Aduzo apenas um exemplo que me vem à mente, banal e entendido por todas as mães que acalentam seus filhos. Um deles acorda sobressaltado dentro da noite. Teve um pesadelo, percebe a escuridão, sente-se só e é tomado pelo medo. Grita pela mãe. Esta se levanta, toma o filhinho no colo e no gesto primordial da magna mater cerca-o de carinho e de beijos, fala-lhe coisas doces e lhe sussurra:” Meu filhinho, não tenhas medo; sua mãe está aqui. Está tudo bem e está tudo em ordem, meu querido”. O menino deixa de soluçar. Reconquista a confiança da noite e um pouco mais e mais um pouco, adormece, serenado e reconciliado com as coisas.

Esta cena tão comum, esconde algo radical que se manifesta na pergunta: será que a mãe não está enganando a criança? O mundo não está em ordem, nem tudo etá bem. E contudo, estamos certos: a mãe não está enganando seu filhinho. Seu gesto e palavras revelam que, não obstante a desordem que a razão prática aponta, impera uma ordem mais fundamental.

O conhecido pensador Eric Voegelin (Order and History, 1956) mostrou magistralmente que todo ser humano possui uma tendência natural para a ordem. Onde quer que surja o ser humano, aí aparece uma ordem das coisas, valores e  certos comportamentos.

A tendência para a ordem implica a convicção de que a vida possui sentido. Que no fundo da realidade, não vigora a mentira, mas a confiança, o consolo e o derradeiro aconchego.

Assim cremos que o tempo da grande tribulação da desolação por causa corrupção que destroi  a ordem, voltaremos a celebrar e desfrutar o sentido bom da existência.
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* Leonardo Boff é articulista do JB on line e acaba de escrever: Brasil: continuar a refundação ou prolongar a dependência?  a sair pela Vozes brevemente.
Fonte:  https://leonardoboff.wordpress.com/2017/11/03/o-sentido-da-vida-nao-se-perdeu/

A morte e o morrer


José de Souza Martins*
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Já foi o tempo em que o Dia de Finados colocava a vida dos vivos entre parênteses. O cotidiano era interrompido e na vida comum se abria um tempo excepcional e sagrado para os mortos. As pessoas, quase sempre mulheres, reservavam já a véspera, o Dia de Todos os Santos, para ir ao cemitério, limpar o túmulo da família, dispensando carinho e respeito aos que se foram, preparando aquela última habitação de parentes falecidos para receber as visitas do dia seguinte. O Dia de Finados era o dia da memória, da lembrança e do reencontro. Os mortos não morriam, descansavam.

Era e é o dia de cobrir-lhes a tumba de flores e de velas propiciatórias, para atenuar a escuridão e o odor da morte com os perfumes e a luz da vida. Para iluminar o recanto de sombras de sua eternidade. Muitos dos visitantes permaneciam por lá o dia inteiro, papeando com parentes e visitantes dos vizinhos de túmulo. Não tem sido raro que parentes já não se encontrem senão nessas ocasiões.

Aqui como alhures é o mundo da cultura religiosa disseminada pelo catolicismo. O cineasta espanhol Pedro Almodóvar produziu um emblemático filme sobre o tema da morte, "Volver" (2006), que junta luto e comédia, como de modo geral ocorre também aqui. No Brasil, não são poucas as anedotas que tem como assunto as almas penadas, as dos que supostamente se foram e, no entanto, teimam em ficar. Esse é um mundo objetivamente próprio, com regras e tradições, o mundo da convivência entre vivos e mortos. O que de certo modo faz com que os mortos não morram, redivivos no afeto e no medo dos que ficaram, moradores da memória de cada um e de todos.

A morte ainda regula intensamente a vida dos vivos, mesmo que disso não se apercebam. Persistem regras relativas a atitudes em relação ao falecimento e ao corpo do defunto, que geram uma verdadeira e invisível arquitetura simbólica das casas e dos lugares. A mais forte é a da distribuição das camas no interior das moradias, os pés evitando a direção da porta, sobretudo a porta da rua.

É que a casa brasileira, como mostrou Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), é uma casa uterina, de modo que em seu interior os corpos dos vivos repousem na mesma posição do nascimento, a cabeça voltada para a saída ou lateralmente a ela. A porta é uma vagina simbólica. Os pés voltados para fora colocam o corpo na posição da morte, que é de como se tira os mortos do recinto da morte para levá-los ao cemitério. Dormir nessa posição é atrair a morte, que, mais do que uma ocorrência, é uma entidade, a ceifadora, a que busca novos habitantes para o mundo das sombras.

Um outro aspecto da cultura funerária brasileira é o do morrer. Não faz muito tempo, dizia-se em relação aos enfermos e moribundos quando morriam que "fulano deu o último suspiro", o momento da separação de corpo e alma. Mas o morrer era um processo socialmente complexo porque a pessoa que morria situava-se, e para muitos ainda se situa, no limiar entre a vida e a morte. Isso criava uma sociabilidade peculiar e transitória, a das regras de dois mundos opostos, o da vida e o da morte. Momento de grande perigo tanto para quem morria quanto para quem vivia. Momento do grande embate invisível entre Deus e o Diabo pela alma do que partia. Em termos puramente materiais, mesmo para os descrentes, tempo, que pode ser muito longo, em que quem está morrendo se socializa para a partida, para a despedida, para o desconhecido..

A verdade nua e crua é a de que morrer é muito complicado. Sobretudo nos dias de hoje em que a consciência social da morte está muito diluída, reduzida à concepção pobre de que a morte é um apagamento. Concepção autoindulgente e de conveniência que nos cega e nos dispensa das obrigações que a tradição prescreve para nos acalmar em face do que já foi chamado de tenebroso transe.

Mais do que com o morrer, no geral as pessoas estão preocupadas com o doer. Só quando se percebe que o morrer pode doer muito, dependendo do fator da morte, sempre há quem console os outros: foi melhor assim; parou de sofrer. Mas, quem parou de sofrer, o falecido ou quem sofria com seu sofrimento?

O grande drama dos terminais e moribundos é o de que hoje poucos de nós têm tempo para o morrer dos outros, mesmo o das pessoas muito próximas. O que no geral reveste a morte de uma imensa solidão, a do adeus inconcluso e insuficiente. O grande indicador de que chegamos à era da pós-modernidade é o de que a morte passou a ser considerada por parâmetros de custo, do tempo que se perde com ela, de quanto somos desviados de nosso trabalho e de nossa rotina para gastar nosso tempo com a doença e o funeral até dos mais próximos. A morte toma tempo de quem não está morrendo e ainda não morreu. Mas morrerá...
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* José de Souza Martins é sociólogo. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de “Fronteira – A Degradação do Outro nos Confins do Humano” (Contexto).
Fonte: http://www.valor.com.br/cultura/5180605/morte-e-o-morrer 03/12/2017
Imagem da Internet

John Green, de 'A Culpa é das Estrelas', volta com 'Tartarugas Até Lá Embaixo'

John Green

Autor. A própria ansiedade inspirou detalhes da protagonista Foto: Phil Mccarten/Reuters

Em novo livro, autor discute sua escrita e o amor

Já se passaram quase seis anos que John Green publicou o best-seller instantâneo A Culpa é das Estrelas e três desde que este se tornou um filme de grande sucesso. Agora, John Green volta com um novo livro, Tartarugas Até Lá Embaixo. Nessa história intensa, Aza Holmes, de 16 anos, esforça-se para resolver o mistério do desaparecimento do bilionário pai de um amigo, enquanto tenta também controlar seu transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Green, de 40 anos, também enfrenta o TOC, e sua representação sensível e tocante certamente o conecta à sua legião de fãs. Por e-mail, Green discutiu sua escrita e o amor romântico.

Quando você começou este romance? 
É difícil dizer, porque abandonei várias histórias ao longo dos últimos seis anos e depois livrei-me delas por partes. Mas a maior parte do livro foi escrita nos dois anos depois que me recuperei de um período de indisposição. Saindo dessa fase, pensei muito a respeito do relacionamento entre a reflexão e o eu, e também sobre o que o amor pode e não pode fazer.

Aza Holmes compartilha o sobrenome com Sherlock Holmes. Como você se relaciona com a mística em torno de Holmes?
Adorei Sherlock Holmes enquanto crescia (e ainda adoro). Mas, como uma pessoa que luta com obsessão, acho estranho que a obsessão de Sherlock costume ser associada aos seus poderes de observação. Isso pode ser válido para as experiências de algumas pessoas, mas, no meu caso, a obsessão me faz um detetive terrível, porque quando não estou bem, luto para compreender algo sobre o mundo fora de mim. Então, eu queria escrever um mistério onde o distúrbio mental da detetive Aza é nitidamente inútil - não só a impedindo de resolver o mistério, mas também desviando o enredo da própria história. 

Você tem sido muito aberto a respeito de sua própria ansiedade e transtorno obsessivo-compulsivo e um defensor de pessoas portadoras de doenças mentais. Quais foram os pontos positivos e os desafios na construção de uma protagonista feminina com um problema como o seu?
Aza e eu compartilhamos um transtorno de saúde mental, mas somos muito diferentes de outras formas: ela é extremamente silenciosa, e eu falo sem parar quando estou nervoso. Ela vive uma tristeza pela qual nunca passei. Escrever é sempre uma tentativa de empatia radical. Minha esposa e minha editora leram dezenas de rascunhos desta história ao longo dos anos, e a orientação delas foi inestimável quando se tratava de imaginar Aza.

Em muitos romances para jovens adultos, uma relação romântica em desenvolvimento conduz toda a história. Neste romance, você explora profundamente o amor do seu eu interior e o amor entre amigos e familiares também. Por que isso é importante?
O amor romântico é realmente importante para muitas pessoas, mas não é o único tipo de amor que importa. Aza está preocupada com as questões sobre seu eu interior e como ela pode estabelecer um sentido coerente de si mesma, quando é, com tanta frequência, incapaz de escolher seus pensamentos, e eu penso que uma das formas em que alguém aprende a imaginar o eu interior de outra pessoa como um substantivo singular é amando e sendo amado. Eu queria explorar como isso acontece - através do amor romântico, mas também através de outros amores. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO
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Reportagem por  Mary Quattlebaum, WASHINGTON POST
02 Novembro 2017 
Fonte:  http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,john-green-de-a-culpa-e-das-estrelas-volta-com-tartarugas-ate-la-embaixo,70002070487

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Michael Ash: “Espantosamente, desde a crise nada mudou”


"Não quero excluir a existência de desonestidade e de conspirações, mas não creio que tenha sido a característica fundamental do caminhar para a crise", diz Michael Ash
 "Não quero excluir a existência de desonestidade e de conspirações, mas não creio que tenha sido 
a característica fundamental do caminhar para a crise", diz Michael Ash DR

O economista norte-americano Michael Ash alerta que tanto as regulações como os desequilíbrios económicos actuais são semelhantes aos vividos antes da crise de 2007/2008.

Uma nova crise financeira internacional, ao estilo da vivida há uma década é neste momento provável, alerta Michael Ash, professor na Universidade de Massachusetts. O economista norte-americano juntou-se este ano a Francisco Louçã, economista e ex-líder do Bloco de Esquerda, para lançar o livro “Sombras - A Desordem Financeira na Era da Globalização”. Nessa obra, traça-se um cenário pessimista em relação à forma como os mercados continuam desregulamentados e ensaia-se uma explicação para o facto de, mesmo depois da crise, pouco ter mudado.
Tivemos depois da crise muitas intenções de aumentar a regulação, de evitar que os bancos fiquem grandes demais. Mas, agora, passados 10 anos, é pouco evidente que tenha havido mudanças significativas. É mesmo assim?
Não é um mau resumo da situação. As pessoas ficaram chocadas que fosse possível que se verificasse uma crise com a dimensão e profundidade da de 2007/2008. A crise trouxe muitas dificuldades a um número muito significativo de pessoas e as suas origens e causas foram muito claras, nomeadamente a desregulação da banca e a crescente desigualdade. No entanto, espantosamente, desde a crise nada mudou. Acabámos por ficar muito aquém do desejável na tentativa de regular o sistema financeiro e ainda tivemos uma resposta à crise económica e financeira que pareceu ser uma coisa mais saída do final dos anos XIX do que do século XX ou XXI. Foi uma resposta de austeridade, de deixar os Estados liquidarem-se lentamente em vez de intervirem de formas que no passado tiveram um sucesso evidente.

Os bancos centrais responderam de forma diferente...
Mas acabámos por ficar com um modelo de governação económica muito dependente da política monetária. E abandonámos a política orçamental, a ideia de que um governo pode actuar de forma contra-cíclica por via da despesa. Fizemos todas as nossas apostas na capacidade de os bancos centrais responderem, o que ajudou a que tivéssemos uma crise muito mais longa e dolorosa do que aquilo que precisávamos.

E, agora, se nada mudou, estamos em risco de poder acontecer tudo outra vez da mesma maneira, é isso?
Sim, infelizmente. Tanto as regras como os desequilíbrios anteriores à crise continuam a estar presentes. Em relação às regras do jogo, olhamos agora para os Estados Unidos e o que é que vemos? Há um recuo no modesto incremento de regulação que foi feito logo a seguir à crise de 2007/2008, nomeadamente a legislação Dodd-Frank que introduziu pequenas restrições nas actividades não vigiadas da banca. Quando foi implementada esta legislação, ela foi sempre muito contestada pelo sector financeiro e pela representação política do sector financeiro e agora vai mesmo ser retirada. Portanto, faltam-nos neste momento regras que sejam melhores do que aquelas que existiam no momento do crash. E, ao mesmo tempo, os desequilíbrios que existiam antes da crise estão a formar-se outra vez. Nos Estados Unidos temos vindo a assistir, do lado financeiro, a uma subida muito significativa do valor das acções e a taxas de juro muito baixas, e do lado real da economia, a um aumento da desigualdade e a uma redução da concorrência. Não quero estar a dizer que um novo colapso está a chegar ou que chegará nos próximos meses, mas o que é certo é que não houve capacidade para reforçar os mecanismos de protecção, o que torna provável que uma nova crise aconteça.

Porque é que houve esta incapacidade para mudar as regras?
Há a força das ideias e a força material. A força das ideias é o facto de, nos 40 anos anteriores à crise, a doutrina económica que protege o sistema financeiro se ter enraizado de forma muito forte, rejeitando interpretações neo-keynesianas dos mercados financeiros e colocando uma enorme fé nos mercados como a melhor forma de organizar a sociedade. É possível identificar o rasto dessas ideias. Primeiro no mundo académico, depois nas elites da governação, como os bancos centrais e os governos, e depois na aplicação na prática das políticas. Portanto, quando a crise chegou, estas ideias tinham passado a ser vistas como senso comum. E isso é muito difícil de reverter. No lado material, assistimos ao aumento das portas giratórias, em que os agentes se movimentam do governo para o sector privado e do sector privado para o governo. Umas vezes uma pessoa está num papel de regulação, depois está num papel de maximizar os lucros, penso que é muito difícil conseguir fazer as duas coisas independentemente. Há uma grande influência do sector privado, nomeadamente do sector financeiro, nos governos e em particular nas partes dos governos que estão encarregues de regular o sector financeiro.

Quando fala desta força material, parece estar implícita uma acusação de um determinado nível de corrupção ou tráfico de influências. Não são demasiadas pessoas para se poder fazer este tipo de acusações?
Aquilo que eu digo não significa que estejamos perante uma conspiração ou que tenhamos corrupção, no sentido em que se possa fazer uma acusação de corrupção em tribunal. Mas há uma orientação no sentido de assumir novos riscos, de adoptar novos instrumentos financeiros, tornando o sistema mais susceptível a crises. E não é preciso que haja agentes individuais que estejam a violar alguma lei, mas a combinação das ideias – as de que é positivo deixar a finança funcionar desta maneira – e dos interesses materiais cria as condições para colapsos como o de 2007-2008.

Mas, no mínimo, há uma acusação de desonestidade...
Muitos destes comportamentos são individualmente racionais e legalmente correctos. A questão é que, ao criar cada elo da cadeia, há um determinado ganho para os agentes envolvidos, que depois, tudo junto, fazem com que existam vulnerabilidades muito significativas em todo o sistema. E os reguladores podem olhar para cada um dos elos e dizer que todos estão bem, que havia duas partes no negócio que concordaram com as condições, mas a verdade é que tudo junto conduz a vulnerabilidades. É óbvio que também há incidentes em que a desonestidade existe, como por exemplo, o escândalo da Euribor. Não quero excluir a existência de desonestidade e de conspirações, mas não creio que tenha sido a característica fundamental do caminhar para a crise.

Um dos argumentos dados para a falta de acção no controlo do sistema financeiro é a de que impor agora mais regulação e diminuir a dimensão dos bancos poderia acabar por conduzir a uma crise. É possível?
Parece-me que essa é uma área em que se nota a influência das ideias de que falei há pouco. O que é preciso é desenvolver competência e capacidade nos reguladores, para colocá-los ao nível em que se encontravam entre os anos 50 e 70, num período de forte crescimento. Não se cria uma crise por restaurar esse nível de regulação. Nos Estados Unidos, tem-se visto reguladores que têm como tarefa a protecção dos consumidores a ser forçados a enfrentar uma oposição muito forte de representantes de interesses muito minoritários.

  "A mobilidade dos capitais internacionais 
ameaça a capacidade doméstica para a regulação 
e para a democracia."

E é possível reduzir a dimensão do sector financeiro sem desencadear uma crise? Em muitos países, incluindo Portugal, há o medo de que se os governos não ajudarem os bancos em dificuldades, a consequência será uma crise.
Uma das coisas que pedimos no livro é que os banqueiros actuem como banqueiros e avaliem os pedidos de empréstimos pelos seus méritos, em oposição a um sistema em que o dinheiro é transferido através de um circuito complexo e que, talvez, com sorte, acabe por ser usado de uma forma produtiva. O que é preciso é encontrar forma de aproximar mais quem empresta de quem pede emprestado, para tornar estes créditos mais produtivos e garantir que existe uma maior probabilidade de serem pagos. Eliminar os agentes intermédios da finança sombra torna o sistema mais seguro e coloca-o numa posição de poder garantir mais crescimento e servir os interesses da sociedade.

Um país com a dimensão de Portugal, sozinho, conseguiria fazer mudanças significativas?
Os fluxos internacionais de capital tornam muito difícil a um único país unilateralmente controlar os capitais. Por isso, a coordenação é muito importante. E para países europeus de pequena dimensão é óbvio que é necessário que a União Europeia e o Banco Central Europeu sejam chamados a coordenar uma resposta nos sistemas financeiros. Mas para além disso, penso que seria possível e importante reduzir a capacidade para a ocorrência de fluxos de capital. E esta é até uma área em que se registou uma mudança depois da crise de 2007-2008, com instituições como o FMI, que durante décadas fazia campanhas contra controlos de capital e está agora bastante aberto à ideia de que os controlos podem ser úteis. A mobilidade dos capitais internacionais ameaça a capacidade doméstica para a regulação e para a democracia.

No meio das crises, assistimos a períodos de crescimento forte, impulsionados também pelo sector financeiro. Não reconhece algum mérito às inovações financeiras que têm vindo a ser lançadas?
Paul Volcker [ex-presidente da Reserva Federal norte-americana] disse uma vez que as caixas automáticas eram a única coisa útil que os bancos inventaram nos últimos 20 anos. E de facto, muitas das inovações financeiras que vão surgindo são na verdade formas de encontrar novos locais de extracção. E quanto menos competitiva for a inovação, melhor. A melhor forma de evitar isto é termos uma espécie de inspecção das inovações, como aquela que acontece por exemplo com os produtos farmacêuticos. E verificar-se-ia se a inovação era segura, se introduzia novos riscos sistémicos, qual era o seu propósito e se resolveria algum problema em concreto. Assim, as inovações úteis poderiam ser postas à prática, mas muitas das inovações que temos visto não passariam este tipo de risco.

  "E a democracia por vezes dá voltas inesperadas, 
neste caso, 
em direcção ao populismo de direita."


Dizem no livro que Donald Trump é um sinal da crise no sistema. Mas que consequências para o sistema é que pode ter a sua eleição?
A eleição de Trump – e também se pode dizer o mesmo por exemplo sobre o Brexit – representa a enorme frustração populista com a forma como têm vindo a ser geridas as economias nacionais e globais durante os últimos 40 anos: aumento da desigualdade, redução da concorrência, o declínio da qualidade da protecção social. Trump foi muito eficaz em termos eleitorais a beneficiar dessa frustração. Mas quando olhamos para o pacote de políticas que Donald Trump pretende implementar é basicamente mais do mesmo. Vemos o seu gabinete e reparamos que o sector financeiro está muito bem representado. Analisamos as medidas aplicadas e notamos que uma das poucas alterações legislativas que foram realizadas até agora é precisamente o recuo em várias das regras previstas na legislação Dodd-Frank e a eliminação de outros esforços de regulação. E portanto, se a eleição é em parte um resultado da frustração, parece extremamente improvável que o resultado venha a ser uma satisfação das necessidades dos eleitores.

Os partidos à esquerda, e em particular os representantes da social democracia, não conseguiram absorver os frutos dessa frustração...
Essa é uma das questões: porque é que os partidos sociais democratas se movimentaram para tão longe daqueles que são tradicionalmente os seus eleitores, com uma orientação diferente ao nível de questões como a regulação ou o mercado de trabalho, deixando uma parte grande da população sem um mediador entre eles e a exigência dos mercados. Houve lugares onde os partidos sociais democratas adoptaram o credo nos mercados de uma forma ainda mais entusiasta do que os partidos à direita. Nos EUA, por exemplo, o que teve como consequência a liberalização financeira do final dos anos 90. E a democracia por vezes dá voltas inesperadas, neste caso, em direcção ao populismo de direita.
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Ernesto Rodrigues: ‘A humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem, assim, nos venceu’

Ernesto Rodrigues estreou-se na poesia em 1973. Participou, ainda, em 20 antologias.
Como ficcionista, assinou Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980), A Flor e a Morte (1983), A Serpente de Bronze (1989), Torre de Dona Chama (1994), Histórias para Acordar (com ilustrações de Célia Rodrigues e Lídia Rodrigues, 1996), O Romance do Gramático (2011), A Casa de Bragança (2013) e Uma Bondade Perfeita (2016). Entrou em cinco antologias. Nos últimos 30 anos, tornou-se o principal tradutor de húngaro em Portugal.
É tradutor, editor e professor auxiliar com agregação da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde dirige o CLEPUL – Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias.

Convidámos o escritor Ernesto Rodrigues a responder às nossas habituais 7 questões.
Quando é que surgiu a sua vontade de escrever ficção e de publicar?
Confessei, no limiar da tese de doutoramento (1996), ter entrevisto, em Cuore. Libro per i Ragazzi (1886), a primeira, e inolvidável, relação entre contar e comover. A ilusão era completa: tratava-se de “un alunno di terza”, de oito anos, como eu, que “notava man mano in uno quaderno, come sapeva, quello che aveva visto, sentito, pensato, nella scuola e fuori”. Eu perseguia, mormente, o excitante ‘Racconto mensile’, por fim em lágrimas no que narra as andanças do pequeno genovês Marco, que, “Dagli Apennini alle Ande”, busca as origens, seja, a mãe – motivo de eleição na minha prosa. Longe de mim compreender que, nesse Coração traduzido por Miguel de Novaes (irmão de Faustino Xavier e de Carolina, casada com Machado de Assis), sobrenadava a visão de uma outra Itália, na pós-unificação, úbere de virtudes e patrioticamente sentimental. Ou como um país de comunas, senhorias, fragmentos – assim as aventuras encaixadas no percurso da personagem –, se torna adulto.

Esse desejo inconsciente de emular quem nos surpreende activou-se desde os dez anos; aos 14, tinha dez capítulos à Camilo bem argumentados, e, aos 16 [1972], em vésperas de me estrear na poesia (Inconvencional, 1973), inaugurava a contística de A Flor e a Morte (1983), variedade precedida pela estreia ficcional de Várias Bulhas e Algumas Vítimas (1980).  A publicação desta novela, celebrada no tempo, impôs-se desde 1978, quando já ia em três livrinhos de versos e presença na antologia de Maria Alberta Meneres, O Poeta Faz-se aos Dez Anos (Assírio & Alvim, 1973).

Onde é que, por norma, encontra a inspiração para escrever as suas obras?
Viageiro atento a factos civilizacionais, com cinco anos em expatriamento dourado sobre o Danúbio, tudo vai do espírito do lugar, que me fez, simultaneamente, comunidade local e regional, ou já povo transladando-se em continentes. Desde João de Barros e da nossa rica cronística, História e Geografia são índices de Modernidade; no meu caso, uma geografia particular, ora na Pátria Breve (2000) nordestina, ora em movimento, que cumulei n’A Serpente de Bronze (1989), rodando entre Santa Apolónia e Budapeste, na demanda de uma Europa unida, ou casa comum europeia concretizada em 2004. Rolam Espanha, França, Alemanha, Áustria, e convoco Itália, segundo personagens incomuns. Lisboa e Bled (Eslovénia) quinhentistas são cenário n’O Romance do Gramático (2011); Londres e o Afeganistão, em Uma Bondade Perfeita (2016). Moçambique está em dois romances inéditos. E correm, entretanto, a par da linha de Cascais, de uma Lisboa parlamentar (Passos Perdidos, 2014), uma Torre de Dona Chama (1994) natal e A Casa de Bragança (2013), cidade onde me justifiquei escritor, e nos passeia até Fez e Europa Central medievas. A História vem desde D. Afonso Henriques, segundo parataxes e outras formas de apresentação do tempo.

Quais as temáticas mais presentes na sua escrita?
Demanda e desvelamento, em busca da conseguida serenidade. Pais e filhos que se buscam, mesmo se julgam ir noutro sentido, como no inédito Um Passado Imprevisível. Outrem também dirige as nossas vidas, e, ainda que ao lado, há rostos fechados que a composição ilumina. Enquanto se constrói uma relação, cria-se um espaço, seja o da língua portuguesa em seus vultos maiores, seja o de uma nova Europa, mas também o da memória de infância, de uma juventude filtrada, até ao sacrifício digno e à bondade.
 
Que aspectos destacaria na sua mais recente obra, Uma Bondade Perfeita, que acaba de vencer o Prémio PEN Clube Português (Narrativa)?
Numa alternância de dois narradores (com seus nomes curiosos, Clemente e Filodemo, a par dos demais, significativos, cuidado que sempre tenho) sempre aquém da omnisciência, tem este romance, logo nas primeiras linhas, solução que só se abre na última página. Esta diligência ‘policiária’ acompanha-me regularmente.

Em 2010, quando o terminei, falava-se pouco de refugiados, mas eu sentia que essa condição em que ciclicamente se vê a humanidade voltaria a assombrar a Europa e o Mediterrâneo. Também cabe à literatura sinalizar ameaças. O pano de fundo de uma catástrofe colectiva remetia-nos, ao tempo, para o Afeganistão, onde coloquei, numa guerra e lugares indefinidos, vítimas de carne e osso, percursos individuais determinados pelo psicopata Menigno.

Quem nos salva é, não o altruísmo mecânico de mãe biológica, mas Ágata (bondosa, em grego), que, erguida entre as maiores violências, persegue o bem supremo da paz de consciência, e culmina neste Séneca: «Sabes o que eu chamo ser bom: ser de uma bondade perfeita, absoluta, tal que nenhuma violência ou imposição nos possa forçar a ser maus.»

A humanidade não se salva se o mal nos torna maus, pois seremos iguais a quem, assim, nos venceu. É isso a escalada da guerra, não raro alimentada pelos media manipuladores. Ser defensivo é outra coisa, e, desde logo, obviar à iniquidade, que conduz à servidão, nem que a única saída, sempre em aberto, seja a morte – digna, como a de Ágata.

Quais os momentos mais marcantes no seu percurso enquanto escritor?
Afora a emoção da estreia (1973), cujos 40 anos foram comemorados com dois títulos – Do Movimento Operário e Outras Viagens, poesia, e A Casa de Bragança – e celebrações oficiais nesta cidade, na terra natal e na Assembleia Municipal de Mirandela, retenho a recepção crítica tangente às sugestões narrativas de Várias Bulhas… e às aventuras da língua e de modos dialógicos n’A Serpente de Bronze, enquanto espero que alguém veja a disseminação polifónica de Bakhtine em Torre de Dona Chama. Como não me distingo do investigador, crítico e ensaísta que também sou desde a adolescência, marcante foi, após 23 a pensar em Tomé Pinheiro da Veiga, editar-lhe Fastigínia (2011), sabendo embora que Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal (1998) tem maior repercussão. Enfim, o tradutor agradeceu os galardões máximos do Estado húngaro atribuídos a um intelectual estrangeiro.

O que é, para si, um bom livro?
É aquele que autoriza estas perguntas: como se combinam, pertinentemente, os elementos na sistematização, ou concorrência, da obra? Como se inscreve esta, e o seu género, na solidária evolução literária? Como se relaciona (e, com ela, o sistema agora já transformado) com os díspares subtextos (social, económico, etc.)? Nem todos os livros são essa composição problemática.

Sei, também, que, sendo (1) instituição, a obra vive na sua precária (2) autonomia interna; se for (3) um saber primeiro – que me comove –, e puder questionar as bases da inquietação e prazer, para em mim encontrar o que no texto vejo, melhor ainda. Nem sempre coincide essa tripla frente; mas bastam alguns reconhecimentos no criador que sou, além de leitor, para considerar o livro bom.

E o que faz de um escritor um bom escritor?
Eu desejo morrer escritor, sem o valorativo bom, que posso aplicar às obras (desde logo, às anónimas); mas uns são preferidos a outros, como sabe quem actualizou o Dicionário de Literatura (2003-2004) de Jacinto do Prado Coelho. Capricho do tempo, podem ser melhores, sem que os ausentes não deixem de ter qualidade. Estou verbetado em vários dicionários; não, neste.

Para terminar, gostaríamos que nos indicasse os seus 7 escritores de eleição e os 7 livros que, indubitavelmente, recomendaria.
Escrevi sobre, e traduzi, umas centenas de títulos, além de ter falado sobre outros em aula, e lido obras-primas que não verti em prosa crítica. O herói d’A Serpente de Bronze leva para férias europeias cinco livros: Os Lusíadas; Peregrinação; História Trágico-Marítima; Itinerário, do padre Jerónimo Lobo; Jornada d’el-rei D. Sebastião a África. São exemplares, inclusive no anonimato autoral, de imagens da nação, que persigo. Substituo os dois últimos pela Castro, de António Ferreira, e Fastigínia, completando o septeto com Os Maias e a minha edição crítica d’A Queda Dum Anjo (2016). Autores de eleição: Cervantes, Flaubert, Kafka, Pessoa, Buzzati, Borges, Márai.
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Fonte:  https://escritores.online/entrevista-ernesto-rodrigues/