sexta-feira, 3 de agosto de 2018

CIDADES DA ÉTICA


Em "Construir e Habitar", Sennett desenvolve a noção de "cidade aberta" para conciliar desafios da vida nas metrópoles

O planejamento urbano e a arquitetura podem ser mais do que ferramentas para fazer a cidade funcionar: podem torná-la mais aberta, receptiva a misturas e transformações. Além da decisão técnica, está em jogo uma escolha ética que define muito do modo como vivemos, segundo o sociólogo americano Richard Sennett. Essa escolha será decisiva em tempos de mudança climática e tendência a segregação.

Em "Construir e Habitar" (Record, 378 págs., R$ 59,90), Sennett desenvolve a noção de "cidade aberta" para conciliar desafios técnicos e éticos implicados pela vida nas cidades e o planejamento urbano. A argumentação é conduzida por meio da distinção entre dois termos franceses que designam a cidade: "ville" e "cité". A primeira diz respeito à forma da cidade construída: ruas, serviços essenciais, edifícios. A segunda remete ao espaço vivido, a relações de vizinhança e comunidade.

Distanciando-se de autores que se limitam a criticar o aspecto frio, formal e faraônico de grandes intervenções urbanas em nome da vida local autêntica e comunitária, Sennett adverte que o planejamento pode contornar alguns dos piores aspectos da ênfase em comunidades. Seu principal exemplo é a ascensão de condomínios e outras formas que favorecem a segregação, sobretudo em bases étnicas e financeiras.

Este é o terceiro volume da trilogia "Homo Faber", centrada na noção de ser humano como fazedor de seu próprio mundo. O primeiro livro ("O Artífice") tratava da produção de objetos físicos. O segundo ("Juntos") lidava com o trabalho cooperativo. O terceiro tem como tema os ambientes da vida humana. "Estou interessado tanto nas boas quanto nas más maneiras de fazer e produzir", diz.

Professor de urbanismo na London School of Economics e autor do clássico "O Declínio do Homem Público" (1977), Sennett, de 75 anos, trabalhou por três décadas como consultor para a ONU e participou da organização da conferência Habitat III. Pela ONU, realizou estudos e projetos em cidades ao redor do mundo, incluindo São Paulo, onde lidou com a transformação de shopping centers em lugares mais abertos e integrados à cidade.

"A separação entre comércio e residência é a pior forma da cidade fechada (...) As pessoas têm que estar
ali para outras coisas além de dormir."

Valor: O subtítulo do livro, "Ética para a Cidade", se refere a um savoir-faire para viver em cidades ou se trata mais de código formal de conduta?
Richard Sennett: Ambos. A ética é saber como usar a cidade, mas também se baseia na noção de "cidade aberta", concepção ética particular, tanto de como construir cidades quanto de como viver nelas. O livro parte do princípio de que a cidade deve ser aberta. Como fazemos isso? Há ingenuidade sobre a necessidade de respeitar o modo como as pessoas vivem, e que o "habitar" implica uma ética do viver comunitário óbvia por si mesma. Mas, nos EUA, há muito racismo e pessoas que querem viver em comunidades racialmente segregadas. Isso não deve ser respeitado. As cidades podem ser construídas de modo a desfavorecer essa inclinação.

Valor: Há uma maneira de construir que favorece essa postura? Penso em coisas como condomínios fechados, com grades e seguranças...
Sennett: Condomínios fechados são a forma de construção mais popular hoje nos EUA. Mas há um índice maior de roubos e crimes não violentos em condomínios do que em bairros normais. É um modo de construir fundado na fantasia do medo, a ideia de que estamos mais seguros se nos afastamos de outras pessoas. Agora, começa a ter condomínios no Reino Unido, mas não com sucesso. Os ingleses têm tradição de cidades misturadas. Porém, alguns dos imigrantes recentes, que vêm do Leste Europeu, tendem a querer viver juntos, só entre eles. Países como o Reino Unido estão procurando meios de impor a integração.

Valor: O livro se abre com a comparação de dois grandes escritores: Honoré de Balzac e Marcel Proust. O primeiro está mais próximo da noção de "ville" e o segundo, da noção de "cité"?
Sennett: Não diria isso. Balzac [1799-1850] é uma figura da psicogeografia da cidade. A cidade é como uma revelação da personalidade das pessoas. Cada protagonista está vinculado a um lugar específico. Já em Proust [1871-1922], os lugares são algo construído na memória. A diferença entre "ville" e "cité" se traduz melhor na distinção entre [o poeta Charles] Baudelaire e [o prefeito Barão de] Haussmann. Baudelaire [1821-1867] é um personagem da "cité". Não sabe e não se interessa por como a cidade é construída. Já Haussmann [1809-1891] só quer saber da cidade construída e tem a imaginação paupérrima de como as pessoas vivem. [A urbanista] Jane Jacobs e eu debatemos muito esse tema. Éramos grandes amigos, mas ela era da "cité", da vizinhança. Pensava que o planejamento urbano era sempre uma projeção de poder. Cidades como São Paulo não podem lidar com problemas como o acesso a água e eletricidade só graças à consciência de bairro. É preciso construir estruturas. Ela também estava pouco atenta ao problema da segregação, que hoje é dominante: por etnia, classe, raça.

Valor: Podemos dizer que zonas exclusivamente residenciais ou comerciais são segregação por função?
Sennett: Isso é uma ideia fechada de cidade, fruto de pensá-la como máquina, com diferentes partes e cada parte tem que funcionar segundo sua função. Para que a cidade funcione, cada lugar tem função clara, ajustada à forma. É o contrário da ideia da cidade aberta, em que diferenças, funcionais e humanas, interagem. Quando temos espaço morto, a função não está funcionando. Centros vazios, porque as pessoas deixaram de morar lá, ou entornos de viadutos. Se tudo que há num lugar são escritórios, o espaço fica morto. Tento explorar a maneira como o planejamento urbano pode evitar esse tipo de pensamento do sistema fechado.

Valor: Como encontrar o ponto em que o ajuste de forma e função é suficiente, mas não excessivo?
Sennett: Numa "cidade inteligente", o encaixe eficiente está focado sobretudo nos serviços essenciais, como água e luz. O desencaixe surge onde você menos espera: o transporte. Formas de transporte de massa muito encaixadas com a função tornam a cidade fechada, afasta pessoas do espaço. Algumas formas de eficiência são justas e boas, mas outras quebram. A separação entre comércio e residência é a pior forma da cidade fechada. Para manter um lugar vivo, as pessoas têm que estar ali para outras coisas além de dormir. Esse é o problema das "cidades inteligentes" construídas segundo a separação de unções. É como o centro do Rio, onde se abdicou de construir residências. Há partes em Songdo, na Coreia do Sul, muito chiques e ricas, em que não tem ninguém na rua.

Valor: É uma cidade "inteligente", mas não é "aberta"?
Sennett: O que faz com que seja uma cidade inteligente fechada é que o comportamento é administrado por algoritmos centralizados. Para ir de A a B, o algoritmo dá a melhor escolha e programa o carro. Se alguém quiser tomar outra rota, ele diz que algo está errado. O fechamento exclui coisas como a vontade de ir devagar ou flanar. É assustador em Songdo como é possível ver toda a cidade em telas de computador. Um tipo melhor de uso de tecnologia envolve formas de gestão de dados, em que a tecnologia informa as pessoas sobre alternativas. Esse é um uso aberto da alta tecnologia, que dá às pessoas o material para saber o que querem escolher, em vez de receberem prescrições.

Valor: É para evitar a prescrição que o senhor apoia projetos habitacionais em que as casas são deixadas incompletas, para que os moradores imprimam seu jeito pessoal? Sennett: Há várias maneiras de conseguir a abertura, e usar formas incompletas é uma. Como construir casas de modo que suas formas possam mudar, à medida que estilos de vida vão mudando? Na China, foram feitas residências com a premissa de que as famílias só teriam um filho. Sem a política do filho único, vê-se como as casas são difíceis de mudar. Pensamos em formas modulares de construir. Deve-se construir de um jeito que a mudança nos modos de morar impliquem mudanças nos habitats. Em muitas cidades, as universidades foram construídas em campi separados, sem conexão com a população. O Brasil tem esse problema. Isso é ruim para os jovens e seriam lugares melhores para viver se os alunos se misturassem com outras pessoas. Também me interesso por maneiras de converter infraestrutura como os espaços debaixo de viadutos, terminais de ônibus, que só vemos como terra de ninguém.

Valor: As cidades brasileiras têm muitos desses espaços vazios...
Sennett: Isso sempre me impressionou sobre São Paulo. Há partes da cidade de que as pessoas fogem. Nova York, por exemplo, fez um grande esforço com os espaços debaixo de viadutos, procurando jeitos de usá-los. É questão de pensar outro jeito de incorporação na cidade, e implica estar mais à vontade com a informalidade, a bagunça, a abertura, a complexidade. A impureza na forma.

Valor: O senhor trabalhou nesse tema em São Paulo pela ONU?
Sennett: Não, nosso projeto visava quebrar o modelo do shopping center, para que não fosse só atividade comercial. Era preciso agregar serviços públicos, clínicas de saúde, jardins de infância. Foi um grande desafio. Os empresários não pensam que esse é um problema deles. Mas há uma razão concreta para pensarem nisso: os shoppings estão condenados pela internet. Eles têm que ser mais complexos, porque dá para comprar tudo on-line. Discutimos isso em São Paulo: como fazer espaços comerciais que também são espaços públicos... e sem seguranças?

Valor: Sem seguranças?
Sennett: Sem seguranças! Pessoas pensam que só excluindo adolescentes de pele escura conseguem deixar os consumidores confortáveis. Mas esse é um reforço da sensação de medo. Há coisas simples e relevantes que afastam pessoas desses espaços. Por exemplo, idosos precisam se sentar, e o modelo dos shoppings faz com que você esteja sempre se movendo. Pessoas com crianças pequenas também sofrem. Discriminar jovens de pele escura se insere numa cadeia de segregação generalizada. Nos EUA, estão abrindo esses lugares para transformá-los em verdadeiros espaços.

Valor: O senhor fala bastante de São Paulo nas palestras...
Sennett: A cidade me impressionou muito. Tenho muitos amigos no Brasil, como Hélio Jaguaribe, que fugiu da ditadura nos anos 70. Aprendi muito com ele sobre o subdesenvolvimento. Havia muitos brasileiros que fugiram para o Norte durante a ditadura e tiveram impacto na minha geração. Era um período triunfalista, nos EUA, em que as teorias buscavam formas de reforçar e disseminar o modelo americano. Os jovens receberam um contraponto importante de gente como Jaguaribe.

Valor: O voto do Brexit parece sintomático de desconexão entre metrópoles e países que as cercam: Londres votou contra e o interior votou a favor. Essa desconexão é inevitável?
Sennett: Em certo sentido, é positiva. As pessoas que vivem em ambientes grandes, misturados, são mais abertas e gostam de complexidade. O mesmo pode ser dito de Trump. Quanto mais misturadas são as comunidades em que vivem, menos as pessoas, sobretudo nas classes trabalhadoras, têm probabilidade de votar nele. O maior antídoto contra trabalhadores votarem em Trump é sua experiência direta de pessoas diferentes. Vale notar que pessoas conseguem trabalhar com gente de outra etnia e mesmo assim serem isolacionistas, porque medem sua realidade social em termos de onde vivem. Se formos levar a lógica de Trump ao extremo, veremos racistas americanos se recusando a trabalhar com mexicanos. Mas elas não se recusam. O que conta é a residência.

Valor: O senhor menciona que ter sofrido um AVC mudou sua relação com o entorno e a cidade. Como foi essa mudança?
Sennett: Tive que aprender a andar de novo. Isso me deu uma percepção do espaço muito diferente. Perto, longe, estar de pé, tudo isso mudou de sentido e me tornou sensível à experiência da mobilidade na cidade. Nas cidades feitas para carros, você se move pelo espaço, mas não o habita. E quanto mais rápido você avança, menos você incorpora onde está. Isso me impressionou: eu andava tão devagar que olhava para tudo. Tudo era um risco - carros, pessoas que esbarravam em mim-, e eu caía de vez em quando. Mas me tornou consciente do quanto precisamos absorver, quando estamos na escala da caminhada na cidade.

Valor: Nossa relação com as cidades passa também pela saúde?
Sennett: O grande problema de saúde nas cidades, hoje, é a poluição. O automóvel criou esse monstro. Trabalhei muito em Xangai. Tinha dias em que não podíamos sair pela cidade. O nível de poluentes no ar chegava a 50 vezes acima do máximo seguro. Isso só vai piorar com a mudança climática. Novamente, a questão da construção aberta ou fechada ganha proeminência. Podemos construir uma cidade que consiga se proteger completamente da mudança climática ou temos que trabalhar com esse problema de modos mais abertos? Isso é o que a sua geração vai ter que enfrentar.

 

Reportagem por Por Diego Viana | Para o Valor, de São Paulo
Fonte: https://www.valor.com.br/cultura/5707491/cidades-da-etica 03/08/2018

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Sopro de Mistral

Juremir Machado da Silva*
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Um nome, mistral, que designa um vento e uma poetisa, Gabriela, chilena, prêmio Nobel da literatura de 1945. Por que perdemos tempo com a prosa se a poesia diz tudo de maneira tão concentrada e precisa? Mistral é nome de vento de outono, vento de alta densidade descendo encosta, vento magistral, frio, seco, cortante. Gabriela Mistral chamava-se menos ventosamente Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga. A poesia venta por dizer e não dizer. Há sons que zunem como um vento forte e nos enfeitiçam sem revelar seus sentidos.

Vai-se de ti meu corpo gota a gota.
Vai-se minha faca em um óleo surdo;
Vão-se minhas mãos em azougue solto;
Vão-se meus pés em dois tempos de polvo.

Vai-te tudo, se nos vai tudo!

Vai-se minha voz, que era para ti um sino
fechada a quanto não somos nós mesmos.
Vão-se meus gestos que se enrolavam
em lançadeiras, sob teus olhos.
E te vai o olhar que entrega,
quando te vê, o medronheiro e o olmo.

Vou-me de ti com teus mesmos alentos:
como umidade de teu corpo evaporo.
Vou-me de ti com vigília e com sonho,
e em tua lembrança mais fiel já me apago.
E em tua memória me torno como esses
não descendentes de planícies ou de bosques.

Sangue seria e me fora nas palmas
de teu labor, e em tua boca de mosto.
Tua entranha fosse, e seria queimada
em tuas marchas que nunca mais ouço,
e em tua paixão que retumba na noite
como demência de solitários mares!

Vai-se-nos tudo, vai-se-nos tudo!

Como pode ser bom um mundo que já não se interessa por poesia? Como pode ser delicioso um mundo sem metáforas ventosas? Gabriela amava os humildes, os esquecidos da sorte, as crianças, os deserdados e as palavras que escondiam segredos entre tantos significados possíveis e impossíveis. Quem não se vê em algum momento evaporando de si e dos outros, numa “demência de solitários mares”, tudo se indo por força do tempo? Um leitor reclama que estou falando pouco de política. Que posso fazer se vejo a poesia tão abandonada e ela revela meus sentimentos mais profundos sobre a passagem dos anos e das utopias?

Por que estou falando agora de Gabriela Mistral?

Não sei.

De repente, assim como me vem a vontade de ouvir Mercedes Sosa cantar “todo cambia”, me surgiu o desejo de reler poemas dessa sul-americana que ganhou o mundo e de escrever sobre eles. Não há data especial. Nenhuma justificativa jornalística. Apenas esta paixão anacrônica pela poesia que retumba dentro da noite como a lembrança mais fiel do que não fui, não serei e ainda assim cultuo como a minha maior verdade.
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* Jornalista. Escritor. Prof. Universitário. Sociólogo.
Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/08/11058/sopro-de-mistral/ 
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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

"Elogio" na boca de Bolsonaro é insulto.


Ferreira Fernandes*
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Jair Bolsonaro é defensor da ditadura militar e da tortura, é racista e homofóbico. Tem um mérito, porém: tropeça na língua portuguesa frequentemente mas quando lhe dá, e dá-lhe muito, para dizer enormidades, faz-se entender. "Pinochet devia ter matado mais gente" é um exemplo do seu florilégio. Outro: "Seria incapaz de amar um filho homossexual, prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí". Como já começa a ser um padrão com brutos notórios, há muitos que gostam: Bolsonaro é candidato presidencial nas eleições brasileiras de outubro, e as sondagens põem-no à cabeça.

Bolsonaro a falar dele até seria capaz de ser excelente, pelo que se revela, não fosse haver tanta gente que gosta de brutos, mas isso eu já disse. Falta falar dele de outras coisas que ele diz e não sabe, no fundo quase tudo. Mas fiquemo-nos pelo que Bolsonaro disse, há dias, de um momento da História portuguesa: "O português nem pisava África, eram os negros que entregavam os escravos."

Aparentemente, a frase suaviza o papel dos portugueses na escravatura de negros para as Américas. É verdade que a escravatura africana precede a chegada dos portugueses, praticavam-na os árabes e reinos negros. Mas os portugueses pisaram África. Por exemplo, Angola por ela dentro, no hinterland Luanda-Malanje e no sertão de Benguela, caçavam e comerciavam "peças", isto é, gente para ser transportada pelo Atlântico e revendida como escravos, por exemplo no Brasil.

Nessa escravatura atlântica, Portugal começou cedo e acabou tarde. Vários historiadores portugueses têm escrito sobre esse tráfico enorme e imundo, e da nossa responsabilidade - e até os jornais, como o DN, têm reproduzido esse debate. Que um político ignorante e vil apareça de alguma forma a dar uma mão a Portugal, era o que mais faltava! Então no Brasil, onde Portugal teve e tem uma História grande, comovedora e inspiradora - mas também essa miserável e dolorosa escravatura -, os interlocutores devem ser outros, porque os há, muitos e bons.
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* Jornalista.
Fonte: https://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/ferreira-fernandes/interior/elogio-na-boca-de-bolsonaro-e-insulto-9663145.html?utm_term=Morreu+fadista+Celeste+Rodrigues+-+o+eterno+amor+a+vida&utm_campaign=Editorial&utm_source=e-goi&utm_medium=email
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