Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num
smartphone, a mãe a dedar noutro
smartphone e
cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar
mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito
contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei
que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às
refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e
desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser
sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos,
são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...
Vou
constatando que, na sociedade da comunicação, há imensa incomunicação.
Porque uma coisa é a comunicação formal instrumental e outra coisa é a
comunicação na presença, com as suas emoções: a emoção da palavra nas
suas tonalidades, o sorriso, as lágrimas, o toque, os silêncios...
Na
era da comunicação, tanta gente só! Só, naquele sentido de sozinho e
abandonado, não tendo ninguém com quem conversar, desabafar, dando e
ouvindo uma palavra de conforto, de dúvida, de afago. Ao contrário da
outra solidão, a exigida para construir uma obra, preparar um discurso,
ler textos clássicos, daqueles que fundam a humanidade e lhe dão futuro,
esta é uma solidão mortal. Há médicos de família que me dizem que
muitos, concretamente pessoas idosas, os procuram apenas para isso: para
terem alguém com quem trocar umas palavras e poderem exorcizar a
solidão.
Também por isso, se eu fosse pároco, havia de pôr em
marcha uma experiência que tive numa paróquia de Paris, quando era lá
estudante. Havia uma
salle d'accueil (sala de acolhimento),
onde voluntários (médicos, psicólogos, mães e pais de família... sempre
com a indicação dos respectivos nomes e profissões) davam umas horas
semanais de acolhimento às pessoas que vinham. A mim, que também
constava, apareceu-me uma vez um senhor que me disse: "Só lhe peço o
favor de me ouvir e que me não interrompa", o que eu fiz. No fim de uma
hora e tal, ele acabou e disse-me: "Não sabe quanto me ajudou, nunca o
esquecerei." E foi-se embora e eu não sei quem é, mas também me lembro
dele.
A solidão pode até acontecer e acontece no meio do barulho
ensurdecedor do tsunami da informação e das rajadas de opiniões e
insultos e
fake news, acoutados na cobardia da impunidade e do
anonimato das redes sociais, que se tornaram frequentemente um campo de
batalha de bárbaros, analfabetos e achistas...
A questão é, a um
dado momento, a cisão entre a existência virtual e a existência real.
Li, recentemente, num belo livro do jesuíta J. M. Rodríguez Olaizola,
Bailar con la Soledad,
a história de José Ángel, um homem de Vigo, que vivia no meio do lixo,
vítima da síndrome de Diógenes, que o levou a isolar-se da família, dos
vizinhos e dos conhecidos. Mesmo assim, tinha uma vida activa e popular
no Facebook, onde contava com 3544 amigos e 361 seguidores, dando
opiniões sobre a actualidade, desde a actualidade espanhola às questões
do meio ambiente... Só passados vários dias é que uma mulher de
Tenerife, a 1677 quilómetros de distância, estranhando um silêncio
prolongado, deu pela sua falta e contactou a polícia, que, passado algum
tempo, encontrou o corpo. Aí está o drama: a possibilidade de o mundo
virtual se tornar o refúgio de gente só. Já Zygmunt Bauman, em
Amor Líquido,
tinha prevenido com razão: "Parece que o sucesso fundamental da
proximidade virtual é ter feito a diferença entre as comunicações e as
relações. "Estar conectado" é mais económico do que "estar relacionado",
mas também menos proveitoso na construção de vínculos e na sua
conservação".
Outra ameaça do virtual é a busca desenfreada da popularidade nas redes sociais, através da pressão de obter uma chusma de
likes e seguidores.., com as consequentes ilusões e desilusões. Rodríguez Olaizola dá três exemplos.
Há
pouco tempo, o cantor Ed Sheeran, um dos artistas com mais êxito dos
últimos anos, anunciou que abandonava a rede social Twitter, porque não
aguentava a quantidade de comentários negativos que recebia de pessoas
que não o conheciam mas o odiavam. "Um só comentário é suficiente para
me estragar o dia." Comenta o jesuíta: "A pressão amor-ódio nas redes é
demasiado exigente para muitos, inclusive para quem é maioritariamente
aceite."
No outro extremo, em Novembro de 2015, a modelo Essena
O'Neill, famosa pelas suas fotografias no Instagram, com centenas de
milhares de seguidores e fabulosos contratos publicitários, anunciou que
abandonava a rede. Não porque era rejeitada, mas por causa do excesso
de aceitação: isso exigia-lhe demasiado tempo na preparação das fotos,
no estudo das imagens... Declarou que tinha tomado consciência de que
esse escaparate não era a vida real, mas tão-só uma ficção orientada
para a aprovação, para que chovessem os
likes... O preço, chegou a dizer, é "a tua vida e a tua autoestima".
A 20 de Setembro de 2017, uma conhecida
influencer -
assim se chama, como diz a palavra, quem, graças à sua relevância nas
redes sociais, influencia, com as suas opiniões, imagens ou actividade,
uma enorme quantidade de pessoas - suicidou-se. Chamava-se Celia
Fuentes. Pergunta-se: como é que se explica que uma jovem tão popular,
com futuro e com uma vida aparentemente perfeita, tenha posto fim à
vida? O jesuíta resume: "A ficção de uma vida ideal enquanto na vida
real havia solidão e sensação de fracasso. A solidão de uma vida
construída apenas para aparentar. "Tudo é mentira", foram as últimas
palavras da jovem no seu WhatsApp.
Por isso, digo, a partir de um título que recebo de empréstimo da revista
Philosophie Magazine: "Likai-vos uns aos outros", ponde muitos
likes (gostos) uns aos outros. Mas tende cuidado!
----------------------
* Padre e professor de Filosofia
Fonte: https://www.dn.pt/edicao-do-dia/22-set-2018/interior/likai-vos-uns-aos-outros-9882684.html?utm_term=Presidente+da+Associacao+Sindical+de+Juizes+e+coautor+de+acordao+da+%22seducao+mutua%22&utm_campaign=Editorial&utm_source=e-goi&utm_medium=email