segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Os desafios das mudanças

Luis Felipe Pondé*
Ilustração para Pondé de Cammarota de 8.out.2018
A mentira motivacional indiscriminada como paradigma é patogênica

O tema de que o mundo está mudando encanta o setor corporativo da sociedade, assim como outros setores, como a educação. A ideia de que essas mudanças são um desafio e todos devem se preparar para elas é um clichê para quem conhece um pouco o mundo corporativo no seu viés de comunicação e marketing. O tema é pungente e merece atenção.

Mas suspeito que o que significa aqui "mudança" mereça uma atenção mais detalhada. Normalmente, "mudança" é usada para impressoras 3D, entrada de algoritmos no mercado de trabalho e, portanto, mais tempo livre para lazer, família e afins. E tudo isso adquire um tom meio cor-de-rosa, lindo e otimista.

Como nos ensinou o grande filósofo Hegel (1770-1831), o pensamento mais atento deve sempre cuidar para não se esquecer do negativo no mundo. Em síntese, a tarefa do filósofo é olhar ali onde o mundo está dando errado. Claro que esse "negativo" se refere ao momento negativo da dialética, mas deixemos isso para outro dia.

Proponho cinco tópicos sobre mudança seguindo a diretriz hegeliana negativa.

O primeiro seria a necessidade de abandonarmos o paradigma motivacional na comunicação corporativa (na educação também, mas deixemos isso para outro momento).

A necessidade de motivar as pessoas o tempo todo nasce da própria estrutura produtiva burguesa: acreditar na mudança significaria melhor produtividade, mais otimismo, menos tristeza, mais riqueza.
O capitalismo precisa de pessoas felizes e que creem nos avanços. O problema é que apenas os doentes conseguem ser felizes "o tempo todo".

O problema é que o paradigma motivacional implica debilidade cognitiva, intelectual e afetiva, quando usado em demasia, como é o caso em questão.

Seres humanos podem não saber o tempo todo o que é fake news ou verdade, mas, quando mentimos demais para eles, eles chegam a um momento em que são obrigados ou a entrar em crise (justamente o que o paradigma motivacional teme e reprime com todas as forças) ou a aceitarem que optaram pelo retardo mental (o que em si, nalgum momento posterior, poderá gerar alguma forma de crise).
Os seguintes tópicos devem ser vistos à luz deste primeiro como fundamento.

Um segundo tópico é a imposição da felicidade o tempo todo, o que, por sua vez, implica um aumento de medicamentação. A mentira indiscriminada como paradigma é, seguramente, patogênica. A solução é se dopar em alguma medida.

O contrário aqui não é a "felicidade da verdade", mas o vínculo delicado entre verdade e saúde mental, de alguma forma. Seja nos jovens e no seu aumento de uso de ansiolíticos, seja nos mais velhos e na sua depressão. A destruição da libido parece ser uma escolha política para garantir um mundo mais seguro e correto.

Aliás, um terceiro tópico de mudança que nos desafia é a crescente diminuição da atividade sexual entre os mais jovens. A escolha pelo combate à ansiedade implica uma diminuição da própria libido, uma vez que ansiedade e libido são irmãs. Trocando em miúdos: se você não quiser ser brocha, terá que ser um pouco infeliz.

Um quarto tópico, decorrente dos anteriores, é o caráter redentor do uso de um pouco de verdade na comunicação com as pessoas. Dizem a elas, por exemplo, que os algoritmos as conhecem melhor do que elas mesmas e que, como gosta de falar o historiador israelense Yuval Harari, de forma um pouco dramática, logo seremos hackeados por esses mesmos algoritmos, que nos dirão o que queremos e o que pensamos, por meio das mídias sociais crescentes.

Esse discurso pode ser mais importante do que ficar repetindo milhares de vezes que as mídias sociais têm um caráter democrático e revolucionário e que o avanço da inteligência artificial criará um mundo de renda mínima para as pessoas ou que elas criarão obras como as de Shakespeare a cada manhã.

Sem trabalho não há dignidade, e adultos que se acostumam a viver "de graça" sempre têm problema de caráter. O hackeamento a que se refere Harari nasceria do uso de algoritmos mapeando nossos perfis de consumo e de postagens.

Um quinto tópico é o crescimento inexorável da solidão no mundo. O tédio será um dos afetos essenciais num "mundo Netflix  + iFood" como paradigma cotidiano. As pessoas viverão mais e terão menos família a sua volta. As pessoas estarão ocupadas sendo felizes e não cuidando de idosos. Empresas oferecerão serviços nos lugar dos "afetos antigos". E a solidão será um problema de saúde pública, fruto da ampliação da saúde em larga escala.
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* Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP. 
Imagem  Ricardo Cammarota
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/10/os-desafios-das-mudancas.shtml

domingo, 7 de outubro de 2018

O perigo da genética

Biólogo e escritor de best-sellers tem receio diante do ressurgimento de discursos eugênicos — inclusive no Brasil — que, no passado, já levaram ao nazismo


Com formação nas prestigiadas universidades de Oxford, na Inglaterra, e Stanford e Harvard, nos Estados Unidos, o indiano Siddhartha Mukherjee é um nome consagrado, aos 48 anos, como biólogo e oncologista. Hoje trabalha como pesquisador na igualmente aclamada Columbia, em Nova York. Contudo, ele é mais famoso não pelos feitos na academia, mas por seus dois livros, ambos publicados no Brasil pela Companhia das Letras, nos quais adota papel de historiador e vigilante da ética na ciência. Em O Imperador de Todos os Males (2010), ganhador do Prêmio Pulitzer, transformado em documentário pelo cineasta americano Ken Burns em 2015, ele narra a evolução do conhecimento sobre o câncer. Já em O Gene (2016), desvenda o progresso da manipulação genética. Projeta um futuro no qual cânceres poderão ser prevenidos e a edição do DNA se tornará possível. Em conversa durante passagem por São Paulo, atrasado para pegar um voo para Nova York, onde mora com as duas filhas e a mulher, a artista plástica americana Sarah Sze, Mukherjee detalhou seus prognósticos para a medicina. Afirmou ter como missão demolir o conceito de raça, apontando o perigoso renascimento das ansiedades eugênicas, inclusive no Brasil. A seguir, a entrevista.

Que tipo de perigo oferecem os movimentos eugênicos? A eugenia se baseia em querer aprimorar a espécie por meio da seleção genética. É natural o anseio do ser humano de melhorar o destino de seus filhos. Por isso, é esperado que as pessoas façam qualquer coisa para alcançar a felicidade e a saúde das crianças. A eugenia acaba por se apresentar como uma solução, já que permitiria manipular a seleção natural. No entanto, é uma ideia perigosíssima. Se ocorre apenas no âmbito pessoal, de pais querendo melhorar as condições de filhos, pelo conhecimento da genética, é compreensível. O problema é quando se torna um anseio coletivo e ganha força nas várias camadas de uma nação. Aí o Estado rouba para si o poder de decidir o que seria geneticamente bom ou ruim, gerando efeitos drásticos. Um cenário que se agrava ainda mais quando se leva em conta que, depois de um boom no fim do século XIX e início do XX, seguido de um sumiço, os movimentos eugênicos estão tendo um ressurgimento.

Como? Há dois tipos de iniciativa eugênica, a “negativa” e a “positiva”. Ambas são devastadoras. A negativa foi aplicada na prática por meio de abortos forçados, esterilizações e mesmo assassinatos. Hoje, resgata-se a eugenia de linha “positiva”.

A eugenia “positiva” teria então algum benefício? Não. As consequências podem ser igualmente devastadoras. No modelo positivo, a eugenia propõe editar diretamente os genes, incentivando a construção de uma raça tida como perfeita.

O senhor tem exemplos concretos dos efeitos devastadores dos dois modelos? A história da eugenia pode ser dividida em quatro capítulos. O primeiro, quando cientistas vitorianos, liderados por Francis Galton (1822-1911), começaram a cogitar o encorajamento da reprodução sexual apenas entre indivíduos atraentes, atléticos e inteligentes, em busca do que vislumbravam como uma raça-­mestra. Assim, anteciparam a proposta apelidada de “positiva”. A segunda fase ocorreu nos Estados Unidos dos anos 1930, com a promoção de competições para ver qual seria o bebê mais perfeito, em campeonatos, ressalve-se, em que só havia brancos. Além disso, foram abertos campos de concentração para os quais se levavam indivíduos tidos como falhos geneticamente, como deficientes mentais. Depois se descobriu que muitos deles não sofriam de doença alguma. Nessas prisões, esterilizavam-se as mulheres. Carrie Buck (1906-1983), a quem dediquei meu livro O Gene, foi uma das vítimas. Assim teve início a prática que chamo de “negativa”. Situação que tomou dimensões maiores em um terceiro momento, quando a eugenia serviu de base para o nazismo, que começou a matar em busca do que julgava ser a raça ideal. Alguns acham que Hitler surgiu como desenlace da I Guerra Mundial, que levou a Alemanha à crise social e econômica. Para mim, essa não foi a raiz. Seu surgimento se deu no uso do discurso eugênico, por meio da deturpação de estudos científicos, para criar uma agenda populista que prometia a limpeza genética. A busca pela raça perfeita iludiu e moveu o povo alemão em direção à II Guerra Mundial. Depois que se venceu o nazismo, passamos a ter maior cautela com o assunto. Porém, há um renascimento da eugenia — e esse é o quarto estágio.
Como se configura essa nova fase? A possibilidade de editar o DNA, de rees­crever códigos genéticos, da seleção de embriões, tudo isso abre portas para um novo tipo de eugenia “positiva”. O intuito é determinar o que seria perfeito e o que seria errado nos humanos e, a partir daí, redesenhá-los por meio da tecnologia. Os primeiros frutos disso devem aparecer na próxima década. Aposto que surgirão na China.

“Políticos populistas já estão usando a eugenia novamente como base para discursos que prometem a limpeza de nações e indivíduos. Isso pode dar poder indevido ao Estado”

Por que na China? As traumáticas experiências históricas tornaram o aparato legal de países ocidentais mais restrito a inovações perigosas como a clonagem. Sabemos do risco de entrar nessa seara. Já na China não há legislação para limitar essas práticas.

Qual é o risco? Políticos populistas já estão usando a eugenia novamente como base para discursos que prometem a limpeza de indivíduos e de nações. Isso pode voltar a dar um poder indevido ao Estado, o de definir mandatos de felicidade. Ou seja, construindo cenários nos quais só é aceito o que o líder do governo tem como correto, sendo extirpado todo o restante, o que costuma incluir ­etnias diferentes da predominância nacional e gêneros sexuais diversos. Com a desculpa de limpar o sangue da nação, isso já está ocorrendo em países como Estados Unidos, França, Turquia, Áustria e tantos outros. Inclusive no Brasil. A crise na recepção de refugiados tem tudo a ver com ­isso. Políticos populistas encontram no ódio aos imigrantes uma fórmula fácil e barata de conquistar o apoio daqueles que caem na ladainha de que expulsar o diferente faria da nação um lugar melhor.

Como isso está ocorrendo no Brasil? Estive me informando sobre a corrida presidencial. Jair Bolsonaro é exemplo da utilização do discurso euge­nista como forma de ganhar votos. Quando ele chama de “escória” os haitianos, senegaleses, bolivianos, sírios e até mesmo membros do movimento brasileiro dos sem-terra, o que está embutido? Que esses humanos são sujos, ou seja, donos de sangue ruim. Ao dizer que “quilombolas não servem nem para procriar”, há na afirmação a manifestação de que negros seriam piores e, portanto, não mereceriam multiplicar seus genes. O mesmo teor eugênico se revela em muitas outras frases de Bolsonaro. Ele pode até não saber o que é eugenia, mas é evidente como utiliza, instintivamente ou não, esse recurso como arma populista.

Não se pode entender que isso tudo não passa de preconceito? Não se trata somente de preconceito. Esse tipo de discurso é forte justamente por se apoiar numa ilusória procura por limpar a nação. É uma linguagem de perversão da ciência que infelizmente conquista o povo e acarreta conse­quências trágicas, como se viu no caso do nazismo, cujos líderes se apoiavam em frases similares às de Bolsonaro. Por isso costumo dizer que a existência do gene é simultaneamente a ideia mais linda e a mais perigosa.

Há forma de derrotar de vez o discurso eugenista? É preciso, antes de tudo, acabar com o conceito colonialista de raça. Essa palavra não tem significado para a ciência. As diferenças genéticas entre as populações não se dão pela cor da pele, mas pela localização geográfica. Todos nós somos provenientes de um mesmo grupo de Homo sapiens que deixou a África há uns 100 000 anos, migrou para a Ásia e para a Europa e se misturou, por meio da reprodução, com outras espécies do gênero Homo, a exemplo dos neandertais. Nesses fluxos, apareceram as distinções no DNA.

“Quando Bolsonaro chama de ‘escória’ os haitianos, senegaleses, bolivianos, sírios, até os sem-terra, está embutido na fala que esses humanos são mais sujos, donos de sangue ruim”

Essa ideia, que destaca as distinções geográficas, e não a aparência física, não instigaria mais conflitos? Esta é a verdade científica: somos geneticamente diferentes em consequência dos fluxos migratórios. Se vão usar isso como desculpa para guerras, aí entramos no campo da política. Agora, em busca da paz, é necessário ressaltar que nossas semelhanças são bem maiores que as distinções. Quando digo que existem diferenças, faço menção, por exemplo, a suscetibilidades a doenças. Há populações que são mais vulneráveis a um tipo de câncer. São detalhes que podem levar a tratamentos personalizados. Mas nada que seja motivo para nos colocar em conflito.

Mesmo que se consiga vencer os riscos eugenistas, o progresso da bioengenharia não pode acabar nos dividindo em castas, com uma elite que tem acesso ao aprimoramento do DNA? A ameaça existe. Hoje não estamos próximos de nos transformar em deuses gregos, cheios de poderes. A longo prazo, porém, há esse risco.

Um dos benefícios do avanço da genética será a cura do câncer? Não existirá, nunca, uma única cura para o câncer. Até recentemente procurávamos um remédio definitivo. Agora descobrimos, pela genética, que a melhor solução é prevenir, não remediar. Pesquiso, por exemplo, como dietas talvez ajudem as pessoas a precaver-se contra a doença.

Todo dia parece sair uma nova conclusão sobre o câncer. Em que acreditar? A verdade é que ainda não sabemos ao certo quais hábitos ajudam ou não no combate à doença. Estamos em um momento de estudo, e levará uns dez anos para termos resultados.

Com o progresso da prevenção, seria possível erradicar o câncer? Não. Os mesmos genes que permitiram que nos transformássemos em seres multicelulares bem-sucedidos são os que podem se corromper e levar ao mal. Em um próximo livro, vou me debruçar sobre a história do acúmulo de conhecimento a respeito de nossas células, as responsáveis por nossa evolução.

Estamos próximos da imortalidade, tema sobre o qual o senhor também está escrevendo? Experiências pessoais me motivam a ser médico e a escrever. Estudo a imortalidade por ter acompanhado a morte de meu pai. A frustração diante do fim me fez mergulhar no conhecimento que se tem a respeito da morte. Por que e como morremos? Dentro de 500 anos vamos morrer de maneira distinta. Nossos organismos não viverão 300 anos. Mas haverá a possibilidade de transferir memórias para um chip e passá-las para um clone, por exemplo. Esse clone será você? Em minha visão, não. Mas assim atingiremos algum tipo de imortalidade.
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Publicado em VEJA de 10 de outubro de 2018, edição nº 2603
Fonte: https://veja.abril.com.br/ciencia/o-perigo-da-genetica/

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Vida longa à Constituição de 1988!

*JOSÉ ANTONIO DIAS TOFFOLI
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Ressoam nela as vozes da Nação, dando corpo a um grande pacto social, político e econômico

A Constituição de 88, passados 30 anos, permanece uma das mais avançadas e democráticas do mundo contemporâneo, em especial no que diz respeito aos direitos e garantias dos cidadãos. Vivemos o mais longo período de estabilidade democrática. Profundas foram as mudanças e contínuo é o processo de fortalecimento de nossas instituições e de nossa democracia. 

A Carta cidadã chegou-nos em meio a uma pletora de demandas reprimidas dos diversos segmentos da sociedade. Fez história ao contar, pela primeira vez na República, com o voto dos analfabetos na eleição da Assembleia Constituinte. 

Sua construção não se deu sem embates. Em face das múltiplas demandas, era inevitável que surgissem conflitos de interesses. Ainda assim, os constituintes lograram aprovar uma Carta plural, vocacionada a promover a convivência dos múltiplos anseios sociais. Por isso a nossa Lei Maior se tornou tão analítica. Ressoam nela as vozes da Nação, dando corpo a um grande pacto social, político e econômico. 

Devemos reafirmar o nosso comprometimento com a manutenção e longevidade desse pacto fundante. Vivemos num Brasil diferente, que demanda a atualização constitucional em pontos específicos. Precisamos de uma reforma da Previdência para fazer frente ao aumento da expectativa de vida no País, de uma reforma que promova simplicidade e eficiência no sistema tributário e de uma reforma que resgate a representatividade política e partidária. Fundamental para tanto que o povo, a sociedade civil e os Poderes da República se reúnam num grande pacto para corrigir rumos, sempre respeitando a essência imutável do texto constitucional. 

Aos mais afoitos lembro que a própria Carta estabeleceu procedimentos de reforma, seja por emendas à Constituição (que já somam 105, incluindo as de revisão), seja por meio da jurisprudência, em particular do Supremo Tribunal Federal (STF), guarda supremo da Lei Magna. Como lembra o professor Eros Grau, a “Constituição do Brasil de 1988 não é, em verdade, de 1988. É a Constituição de hoje, aqui, agora, tal como a expressam, como norma jurídica, os juízes e os nossos tribunais”. 

Temos, é inegável, passado por episódios turbulentos. Investigações envolvendo a classe política. Impeachment de uma presidente da República. Cassação de um presidente da Câmara dos Deputados. Condenação e prisão de um ex-presidente da República. Não obstante, olho para esses eventos com otimismo e esperança, pois todos os impasses foram resolvidos pelas vias institucionais democráticas, com total respeito à Constituição e às leis. Os Poderes da República têm respeitado e tornado efetivos os mecanismos de controle recíproco e de combate à corrupção. O Judiciário, em especial o STF, tem assumido sua vocação de moderador dos conflitos políticos, sociais, culturais e econômicos da sociedade brasileira. Temos um Judiciário fortalecido, independente e atuante, que cumpre sua função de garantir a autoridade do direito e da Constituição. 

Felizmente, as ruas têm recobrado uma vivacidade que não víamos desde as Diretas-Já e a luta pela redemocratização. Temos hoje uma sociedade mais combativa, engajada politicamente e ciente de seus direitos. Uma sociedade em que diferentes grupos – trabalhadores, mulheres, negros, índios, LGBT e deficientes, entre outros – se mobilizam para dar voz a seus anseios e pautas políticas. 

Conseguimos chegar a esse patamar de participação graças à Constituição de 88, que tutela a liberdade em suas diversas formas, dentre elas a liberdade de expressão e de consciência política, garantindo ao cidadão amplo direito de voz. É esse um dos grandes legados da Carta cidadã, resoluta que foi em romper definitivamente com um capítulo triste de nossa História em que essa liberdade – entre tantos outros direitos – foi duramente sonegada ao cidadão. 

A democracia brasileira, nos últimos 30 anos, realizou, de forma plena, um de seus mais caros fundamentos: o pluralismo. Se houve tantos embates nos últimos anos, isso se deve ao fato de que o poder no Brasil é plural. E é melhor que o seja, pois, como já foi dito, um poder que não é plural é violência. 

O conflito só floresce na diferença. Numa democracia esse conflito se torna debate. O debate gera resolução e, por fim, transformação. Por isso, em minha visão, não somos um país em crise. Estamos em transformação. Estamo-nos transformando numa sociedade mais livre, plural, engajada e propositiva. Enfim, mais democrática. 

O futuro impõe-nos, ainda, inúmeros desafios. Destaco a educação, a segurança e a superação das desigualdades sociais e regionais. Outro desafio está na manutenção da segurança jurídica neste mundo cada vez mais hiperconectado, onde os conflitos e mudanças ocorrem em velocidade crescente. 

A Justiça permanece atenta a esses desafios. Ciente de seu papel de agente nesta transformação social, deve primar por uma jurisdição eficiente, transparente e responsável, de modo a realizar o Direito na vida do cidadão. 

O cidadão brasileiro é o real protagonista da mudança. Nosso povo, tal como há 30 anos, prepara-se para fazer a diferença nas eleições do dia 7 de outubro. Cada cidadão projetará nas urnas seus anseios políticos e, assim, participará do ritual de renovação da democracia para um novo e frutífero ciclo.
Renovamos, neste aniversário de 30 anos, nosso compromisso com a soberania popular, com a democracia, com a tolerância, com o respeito às diferenças e, acima de tudo, com a Constituição da República, o pacto fundante da Nação brasileira, que vem cumprindo e continuará a cumprir sua missão de, nas palavras de Canotilho, fazer “ecoar os gritos do nunca mais: Nunca mais a escravatura. Nunca mais a ditadura. Nunca mais o fascismo e o nazismo. Nunca mais o comunismo. Nunca mais o racismo. Nunca mais a discriminação”. 

O Supremo Tribunal Federal estará sempre a postos como o garante desse pacto. Vida longa à Constituição de 1988! 
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*PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Fonte:  https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,vida-longa-a-constituicao-de-1988,70002533277
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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Fundador da AliBaba crê que menos de 1% do comércio mundial será offline em 30 anos

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Jack Ma, fundador do Alibaba Group, é considerado como exemplo de um dos visionários mais bem sucedidos da história da internet

GENEBRA - Em 30 anos, menos de 1% do comércio mundial será offline, o transporte não ocorrerá em containers e manufaturas não irão mais gerar empregos. A visão é de Jack Ma, fundador do Alibaba Group e considerado como exemplo de um dos visionários mais bem sucedidos da história da Internet.  

“Em 2030, o comércio será diferente”, disse Ma, num evento na Organização Mundial do Comércio, nesta terça-feira, 2. “Há 300 anos, apenas alguns reis se beneficiavam do comércio. Nos últimos 30 anos, 60 mil empresas se beneficiaram e, nos próximos 30 anos, 80% das pequenas empresas no mundo vão ganhar”, disse. “Teremos anos inclusivos”, garantiu o 21º homem mais rico do mundo e com uma fortuna avaliada em US$ 36,3 bilhões.  

Para Ma, porém, o que vai mudar é a composição e infra-estrutura do comércio. “85% do comércio será eletrônico”, disse. “As formalidades do comércio serão pacotes, não containers”, insistiu. “Não haverá Made in Germany ou Made in China. Haverá apenas Made in Internet”, disse. 
O chinês deixa claro que, seja qual for o setor, um empresário não terá opção e “terá de ser globalizado”. Mas não necessariamente ser “grande” será uma vantagem.  

A criação de empregos também será profundamente transformada. “O setor manufatureiro não vai mais criar empregos. Serão empregos feitos por robôs. Os novos empregos serão criados no setor de serviços”, disse.  

Ma também revela a mudança no comportamento de consumidores em todo o mundo, algo que irá se aprofundar nos próximos anos. “Temos 300 milhões de compradores por dia na Internet. 60 milhões de pessoas passaram três ou quatro horas online consultando produtos, sem comprar, todas as noites”, disse. “Eles conversam com nossos conselheiros. Claro, temos muitos robôs para conversar com eles”, ironizou.  

Ma deixa claro suas críticas ao papel do estado. “Governos apenas querem criar regulações. Mas se regulamos tudo, matamos tudo”, garantiu. “Precisamos deixar espaço para inovação. No Alibaba, crescemos por que o governo não se deu conta. Quando viram, ficamos mais lentos”, disse.  

“Quantos ministros compram online? Muitos poucos. Mas são eles que estão regulando. Isso nos deixa preocupado. Quando eu me reúno com ministros, eles me dizem que seus filhos compram online. Então são os filhos deles que deveriam regular”, insistiu.  

Ma conta a história da lei Red Flag, criada em 1894 nos EUA. Por pressão dos donos de carroças, governos colocaram um limite de velocidade para os carros de 7 milhas por hora. “O resultado disso é que o avanço parou”, contou. “Parem de lutar contra a tecnologia. Só podemos abraçá-la. Se lutar, estão lutando entre vocês e estão perdendo o futuro”, declarou. 

O desafio, porém, é o que fazer com 40% da população mundial que ainda não tem acesso à internet. Mas o chinês garante que isso não será um freio. “A tecnologia é oportunidade para os mais pobres. A eletricidade levou 60 anos desde sua criação para chegar ao Quênia. No caso dos celulares, foram necessários três anos. Por isso eu digo que governos precisam criar infraestrutura para a Internet existir, e não se concentrar em regular. Mas promover”, completou. 

OMC afirma se preocupar com novo cenário do comércio mundial

Se Ma tem uma visão muito clara da revolução que está pela frente, a OMC também se diz preocupada com a disparidade que esse novo cenário irá criar. “Se as sinergias adequadas são criadas, em especial no que se refere a políticas públicas, até 2030 a revolução tecnológica poderia ajudar a alimentar o crescimento do comércio mundial em 30 pontos percentuais. Isso é enorme”, declarou Roberto Azevedo, diretor-geral da OMC.   

Na avaliação de Azevedo, cada vez mais o comércio ocorrerá por meio de plataformas digitais. “Temos de nos perguntar: o sistema comercial global que temos hoje está equipado para esse novo ambiente?”, questionou.  Em sua avaliação, a base ainda é válida: regras claras, abertura e não-discriminação. Para ele, porém, isso pode não ser suficiente diante dos avanços tecnológicos. Sem uma atualização das regras internacionais de comércio, o risco é de que esse fenômeno possa ter um impacto negativo. 

“A mudança tecnológica pode criar novos problemas”, disse. “Ela poderia aumentar o número de grandes empresas, às custas das pequenas. Ela poderia criar novas desigualdades, por exemplo entre empresas avançadas digitalmente e aquelas que ficam para trás”, alertou. 

Azevedo quer novas regras, justamente para não deixar que essa nova base seja estabelecida por disputas comerciais que chegariam até os tribunais. “Se a constituição não é atualizada, veremos uma diferença cada vez maior entre esses princípios básicos e a evolução de hábitos, comportamentos e mesmo valores éticos”, disse. 

Para ele, com a diferença se aprofundando, são os tribunais que estão preenchendo o espaço e criando jurisprudência. Mas nem sempre ela poderá refletir os desejos e prioridades. 

“Essa é a primeira questão que estamos enfrentado: queremos deixar esse espaço para cortes ou ações unilaterais? Ou queremos sentar e preencher esses vazios juntos?”, disse. “Ainda que não possamos parar essa evolução, podemos moldá-la. Temos de moldá-la”, defendeu Azevedo. “Se não fizermos, ela vai deixar inevitavelmente muita gente para trás e criará novos problemas sociais, novas fontes de desconforto e distúrbios”, alertou. 

Ele lembrou ainda de um estudo no Fórum Económico Mundial em que se prevê que, em 2025, máquinas terão mais postos de trabalho no setor manufatureiro que humanos. Como resultado, a tecnologia vai eliminar 75 milhões de empregos vão desaparecer nos próximos quatro anos. Mas, ao mesmo tempo, 133 milhões de novos cargos vão ser criados em novos setores.  

Para Azevedo, o desemprego existirá por conta das revoluções tecnológicas. “Mas as oportunidades também existirão e a questão é como ocupar essas posições”, disse. Ele ainda rejeita a ideia de que as regras de abertura estabelecidas pela OMC favorecem apenas aos mais ricos e às grandes empresas. 

“Se cruzarmos o braço, garanto que as grandes empresas e governos serão os maiores vencedores”, alertou.
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Reportagem por Jamil Chade, O Estado de S.Paulo - 02 Outubro 2018 
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Fonte: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,fundador-da-alibaba-cre-que-menos-de-1-do-comercio-mundial-sera-offline-em-30-anos,70002529513

A morte de um cantor

Gilles Lapouge*
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Com a perda de Aznavour, todas as outras notícias perderam a sua importância

Um cantor morre, Charles Aznavour. Ele estava idoso (94 anos). Até segunda-feira, ainda estava em forma. Ele passou a noite divertindo-se com os amigos, e de manhã estava morto. E, na hora seguinte à notícia, a França chora, geme, relembra lembranças, sussurra entre os dentes as canções que ele cantou e que fizeram dele uma estrela mundial. Todas as outras notícias (política, econômica, tsunami, jihad, migrantes Donald Trump, Emmanuel Macron) subitamente perdem sua importância. Caem no abismo aberto por esta morte. 

Todas as emissoras de rádio passam a transmitir uma torrente de memórias intermináveis. Centenas de homens e mulheres são convocados para cantar diante dos microfones os trechos das canções de Aznavour das quais se lembram. Outras emissões convocam senhoras de idade, jovens, homens idosos e novos que relembram do dia de seus casamentos, ou da noite na qual seu avô morreu, ou quando a menina foi aprovada no exame de contador; para tudo há uma canção de Aznavour marcada em sua memória. Os maiores jornalistas desfilam nas TVs para nos dizer que um dia almoçaram com Aznavour ou cruzaram com Aznavour em um trem... 

Pode ser que a França seja um país estranho, ou, em outros países, no Brasil, por exemplo, o desaparecimento de um cantor famoso também pode paralisar um país e deixar em suspenso todos os processos pendentes, enquanto as estações de rádio e TV dedicam dois, três, quatro ou cinco dias para reunir testemunhas notificadas para contar pela décima vez a menos importante das histórias. “A primeira vez que eu dormi com um rapaz, ele estava em um ritmo de Aznavour” ou “quando eu perdi metade das minhas poupanças no mercado de ações, fui para casa. Estava chorando e então escutei Aznavour”, etc. etc. Nós vimos o mesmo entusiasmo popular algumas semanas atrás, quando Johnny Halliday, um outro cantor, morreu. 
 
É verdade que Aznavour era um homem notável. Sua vida é magnífica. Era uma criança de origem armênia, mas nascido na França, em uma família pobre e em toda a sua vida, ele foi tão fiel à Armênia como à França. Foi realmente um franco-armênio, um bom exemplo de integração bem-sucedida, num momento em que a xenofobia, o ódio aos estrangeiros em França e em toda a Europa, está em fúria. Um belo exemplo de integração. 

Aznavour foi um bravo. Na década de 1970, parece-me, esse homem que sempre amou as mulheres com paixão, teve a audácia de escrever uma canção denunciando ao seu modo a ignóbil “homofobia” que então prevalecia na França. 

Coragem também para se tornar o que ele era: não se destacava pela aparência. Pequeno e frágil, um nariz pouco torto (ele vai corrigir quando ele tem condições), sem um físico marcante e uma voz singular. Todos esses fatores combinados explicam que suas primeiras aparições foram ridicularizadas: como se atreve ele a cantar em público com esse aspecto? Os críticos gritaram copiosamente contra ele. 

Mas o milagre se realiza – ignorando as críticas, o público o adotou e não mais o deixou ir. Jornalistas se manifestam para dizer que, afinal de contas, ele não era tão ruim assim, aquele pequeno armênio desajeitado. Sua fama está crescendo. Tornou-se global e Frank Sinatra gosta dele. E o príncipe dos cantores poetas, Bob Dylan, o reconhece como um dos melhores intérpretes do mundo. 

Ele foi chamado pelo cinema e descobrimos um grande ator, cerca de cinquenta filmes nos quais ele atua de igual para igual com os maiores. Esse é o romance muito comovente de um pequeno armênio, filho de emigrantes caçados pelos responsáveis pelo genocídio de 1915, criado na França e elevado ao mais alto dos estágios da glória. Sim. Podemos preferir outros cantores, outros compositores, outras músicas. 

Por exemplo, na França, Charles Trenet, Léo Ferré, Georges Brassens e Serge Gainsbourg, ou outros, mas era ele que tinha tudo para se tornar um ícone popular de alta qualidade. Seu destino é exemplar. É por isso que hoje todo um povo não sabe se deve chorar ou cantarolar uma das músicas que o pequeno franco-armênio tornou famosas em Moscou, Londres e Hollywood.
 / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO
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*  Escritor e Jornalista francês.
Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-morte-de-um-cantor,70002529933 03/10/2018
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terça-feira, 2 de outubro de 2018

Ciência e tecnologia para o desenvolvimento de um país


 Sylvio Ferraz Mello*

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A história das aplicações da ciência básica desde a Antiguidade é repleta de descobertas feitas por cientistas movidos apenas pela sua curiosidade, que mudaram a história da humanidade.  


Contam que Michael Faraday, grande experimentalista do século XIX, descobridor da indução eletromagnética, princípio em que se baseiam os transformadores e geradores elétricos, recebeu em seu laboratório a visita da rainha Victória. Depois de acompanhar várias demonstrações dos fenômenos descobertos por Faraday, a rainha lhe perguntou se aquelas descobertas tinham alguma utilidade. Faraday teria respondido ‘Ainda não sei. Mas dia virá em que Vossa Majestade cobrará impostos sobre elas’. Essa pequena história, e suas várias versões, é um dos mais populares fake news sobre o desenvolvimento da ciência no século XIX. Mas como diz um célebre ditado italiano, “si non è vero, è bene trovato”.
A história das aplicações da ciência básica desde a Antiguidade é repleta de descobertas feitas por cientistas movidos apenas pela sua curiosidade, que mudaram a história da humanidade. Para ilustrar com exemplos atuais, é só lembrar que sem a abstrata e quase onírica teoria da relatividade de Einstein, o GPS, que hoje guia os passos de uma fração importante da humanidade, não poderia existir. E a grande maioria dos produtos eletrônicos só existem graças aos conhecimentos da Física Atômica e das teorias quânticas do século XX.

Para dar exemplos domésticos, podemos lembrar que a riqueza criada pela EMBRAER e desfrutada pela nação brasileira já superou, e de muito, tudo o que foi gasto pelo Brasil para criar e manter o Instituto Tecnológico de Aeronáutica. E se o ITA não tivesse existido, também não teria existido a EMBRAER.
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De repente, alguns iluminados passaram a fazer campanha contra as vacinas, utilizando à larga os meios modernos de comunicação.
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A muitos pode parecer ridículo insistir em exemplos mostrando como a ciência pervade e molda a sociedade contemporânea. Afinal, 2,5 bilhões de pessoas na Terra passam horas por dia em seus smartphones! Mas a questão colocada é atual. Um grande número de pessoas movidas por doutrinas extravagantes insiste em questionar a importância da ciência. E não me refiro aos cidadãos mais simples. Esses,  em sua grande maioria, sabem que, quando precisarem, as novas tecnologias a serviço da medicina irão beneficiá-los e lhes permitirão viver bem por muito mais tempo do que seus antepassados.

Eles também sabem que, se for preciso, poderão um dia ter algum de seus órgãos substituído por órgãos artificiais produzidos com os novos materiais descobertos pela ciência, às vezes melhores que os órgãos originais de nascença. Os questionamentos mais importantes vêm de “intelectuais”. São oposições incompreensíveis. Em algumas esferas intelectualizadas, às vezes parece que a coisa mais importante é ser diferente dos outros. Não existe nenhum mal em se adotarem dietas exóticas. Há mesmo cientistas que se dedicam a aperfeiçoá-las. Mas dietas exóticas não resolvem o problema de alimentar 7,5 bilhões de pessoas.

Para alimentar a humanidade, são necessárias tecnologias modernas que permitam a produção de alimentos em grandes quantidades. Cabe decidir o que é mais importante: alimentar o maior número possível de pessoas ou seguir as regras estritas preconizadas por uma casta intelectualizada. É papel da ciência fornecer meios para que a produção de alimentos possa aumentar, para que os alimentos produzidos sejam da melhor qualidade, e que os modos de produção sejam menos agressivos à natureza.

Essa é a meta, mas enquanto isso é preciso ter em mente que os 7,5 bilhões de humanos precisam comer todos os dias e que é preciso produzir os alimentos de que necessitam. E de maneira abundante, porque as regiões mais pobres são dominadas por políticos e vão continuar com fome mesmo que os alimentos existam. Cabe à ciência aprimorar ainda mais as tecnologias de produção para que a fome possa ser erradicada.

A atualidade da questão colocada neste artigo pode ser sentida na atual crise das vacinas. De repente, alguns iluminados passaram a fazer campanha contra as vacinas, utilizando à larga os meios modernos de comunicação. Uma campanha que foi silenciosa, mas bem sucedida. O resultado foi o que se viu. Doenças já largamente erradicadas, como o sarampo, voltaram a matar pessoas! E o fantasma do retorno da poliomielite atemoriza os profissionais da saúde. Em ambos os casos a medicina dispõe de vacinas modernas e de comprovada eficiência e as mortes verificadas ocorrem por culpa daqueles que irresponsavelmente difundem inverdades para a população.
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* Sylvio Ferraz Mello é físico, professor emérito e ex-diretor do Instituto de Astronomia,Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP
Fonte:  https://jornal.usp.br/artigos/ciencia-e-tecnologia-para-o-desenvolvimento-de-um-pais/
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Utopia e política


Frei Betto*
Tudo é po­lí­tica, mas a po­lí­tica não é tudo. Par­ti­cipar da vida po­lí­tica, ainda que apenas pelo voto, é exer­cício de ci­da­dania. Porque a po­lí­tica tem a ver com todos os as­pectos de nossas vidas, da qua­li­dade dos ser­viços de saúde à se­gu­rança de nossas fa­mí­lias. Quem anula o voto ou vota em branco fa­vo­rece o poder vi­gente e fica de costas para o bem comum.
      
Não há como er­ra­dicar a mi­séria, re­duzir a cri­mi­na­li­dade e a de­si­gual­dade so­cial sem a ati­vi­dade po­lí­tica. A po­lí­tica serve para oprimir e fa­vo­recer a cor­rupção, como também para li­bertar e punir os cor­ruptos. Tudo de­pende do modo como é exer­cida.
     
O Evan­gelho de Lucas (3, 1), ao con­tex­tu­a­lizar a missão de Jesus, a situa po­li­ti­ca­mente: “No dé­cimo quinto ano do go­verno de Ti­bério César, sendo Pôncio Pi­latos go­ver­nador da Ju­deia; He­rodes, te­trarca da Ga­li­leia; Fi­lipe, seu irmão, te­trarca da re­gião da Itu­reia e da Tra­co­ní­dite; e Li­sâ­nias, te­trarca de Abi­lene” etc. Até mesmo a Pa­lavra de Deus tem a ver com po­lí­tica, em­bora não se deva con­fes­si­o­na­lizá-la.
     
Jesus foi as­sas­si­nado por ra­zões po­lí­ticas. Ousou anun­ciar, no reino de César, outro reino pos­sível, o de Deus! Re­chaçou a opressão, a do­ença e a po­breza como cas­tigos di­vinos. Con­denou a re­li­gião como le­gi­ti­ma­dora de pre­con­ceitos e dis­cri­mi­na­ções. E propôs um novo pro­jeto ci­vi­li­za­tório ba­seado nas re­la­ções pes­soais, no amor e na com­paixão; e nas re­la­ções so­ciais, na par­tilha dos bens da Terra e dos frutos do tra­balho hu­mano.
     
Oito sé­culos antes de Cristo, o pro­feta Isaías já havia pre­fi­gu­rado a utopia de uma so­ci­e­dade na qual a im­plan­tação da jus­tiça as­se­gu­rará o ad­vento da paz: "Vejam! Vou criar novo céu e nova terra. As coisas an­tigas nunca mais serão lem­bradas, nem vol­tarão ao pen­sa­mento. Fi­quem ale­gres! Exul­tarei com Je­ru­salém e me ale­grarei com o meu povo. E nela nunca mais se ou­virá choro ou clamor. Aí não ha­verá mais cri­anças que vivam al­guns dias apenas, nem ve­lhos que não che­guem a com­pletar seus dias; pois será ainda jovem quem morrer com cem anos... Quem cons­truir casa nela ha­bi­tará, e quem plantar vi­nhas co­merá de seus frutos.

Nin­guém cons­truirá para outro morar, nem se­meará para outro comer, porque a vida do meu povo será longa como a das ár­vores, meus es­co­lhidos po­derão gastar o que suas mãos fa­bri­carem. Nin­guém tra­ba­lhará inu­til­mente, nem ge­rará fi­lhos para mor­rerem antes do tempo, porque todos serão a des­cen­dência dos aben­ço­ados de Javé, jun­ta­mente com seus fi­lhos. Antes que me in­vo­quem eu res­pon­derei; quando co­me­çarem a falar, já es­tarei aten­dendo. O lobo e o cor­deiro pas­tarão juntos, o leão co­merá capim junto com o boi... Em todo o meu monte santo nin­guém cau­sará danos ou es­tragos, diz Javé.” (65, 17-25).
     
Nesta pró­xima se­mana, os bra­si­leiros es­co­lherão seus fu­turos go­vernos es­ta­dual e fe­deral. Eis um di­reito de­mo­crá­tico de subs­tan­cial im­por­tância. Os eleitos ha­verão de fazer o país avançar ou re­tro­ceder ainda mais. Deles de­pen­derão o com­bate ao de­sem­prego e às causas da cri­mi­na­li­dade, a uni­ver­sa­li­zação da edu­cação de qua­li­dade e o fim das in­ter­mi­ná­veis filas nos postos de saúde.
     
Os po­lí­ticos são con­si­de­rados au­to­ri­dades. Ora, a rigor au­to­ri­dades somos nós, o povo bra­si­leiro, que os ele­gemos, pa­gamos seus sa­lá­rios e todos os gastos do exer­cício de seus man­datos, da conta de luz do Pa­lácio da Al­vo­rada ao com­bus­tível que move o avião pre­si­den­cial.
     
Sem utopia a po­lí­tica se ape­quena. Torna-se mero jogo de poder em função de am­bi­ções pes­soais e in­te­resses cor­po­ra­tivos. É de suma im­por­tância votar de olho no pro­jeto Brasil. No fu­turo das novas ge­ra­ções. Na con­quista de uma so­ci­e­dade que es­pelhe a pro­posta do pro­feta Isaías, onde o lobo e o cor­deiro, que são di­fe­rentes, não façam da di­fe­rença di­ver­gência, e possam con­viver em har­monia e igual­dade de con­di­ções.
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* Religioso Dominicano. Escritor. Jornalista.
Fonte: http://www.correiocidadania.com.br/2-uncategorised/13491-utopia-e-politica 02/10/2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Medos à beira do abismo

Lya Luft*

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"De que a senhora tem medo?", foi a pergunta bastante original numa dessas entrevistas recentes.

Pensei e disse: morro de medo de muita coisa, mas acho que, com o tempo, passei a ser mais corajosa (e achei, eu mesma, graça do que dizia). Principalmente, medo de qualquer mal que possa acontecer a pessoas que eu amo. Acidente, assalto, doença. Sei o que é sentir-se impotente quando algo gravíssimo acontece com alguma delas. No fundo mais fundo da mente, vem a indagação insensata e tola, mas pungente: como não pude proteger meu filho adulto de uma morte súbita no mar que ele amava?

Disfarçamos nossos tantos medos. Fingimos ser superiores, batendo grandes papos sobre dinheiro, futebol, sacanagem, política, ninguém levando porrada - como diria Fernando, o Pessoa. Empregamos palavras grandiosas, até solenes, que usamos como tapa-olhos ou máscaras para que a verdade não nos cuspa na cara, e nos defendemos do rumor que nos ameaça botando fones de ouvido enquanto caminhamos na esteira, para ficarmos em forma.

Mas, individualmente, temos medo e solidão; como país, presenciamos escândalos nunca antes vistos. A violência é cotidiana, o narcotráfico nos ameaça, mais pessoas foram assassinadas por aqui do que nas guerras ao redor do mundo nos últimos anos. Andamos encolhidos dentro de casa. Estão cada vez mais altos os muros do medo e do silêncio.

A gente se lamenta, dá palpites e entrevistas, organiza seminários. Resultado? Parece que nenhum. Eleições estão próximas? Melhor não saber. Mas sou da tribo (não tão pequena) dos que não se conformam. Não acredito em revolução a não ser pessoal. Em algumas coisas, sou antipaticamente individualista. Quando reuniões, comissões, projetos e planos não resolvem - é o mais comum -, pode-se tentar o mais simples. Às vezes, ser simples é original: começar pela gente mesmo. Em casa. Com as drogas, por exemplo, por que não?

Cada vez que, seja por trágica dependência, seja por aquilo que minha velha mãe chamava "fazer-se de interessante", um de nós consome uma droga qualquer (mesmo o cigarrinho de maconha dividido com a turma), está botando no cano de uma arma a bala - perdida ou não - que vai matar uma criança, uma mãe de família, um trabalhador. Nosso filho, quem sabe.

Há quem me deteste por essas afirmações, dizendo que sou moralista, radical. Não sou. Apenas observo, acompanho, muito drama desnecessário, talvez evitável - mas a gente preferia ignorar o abismo. Há muitos anos, visitei várias vezes uma famosa clínica de reabilitação em São Paulo. Alguém muito querido de amigos meus estava lá internado, e voltava com frequência. O que vi, senti, me disseram e eu mesma presenciei nunca vai me deixar.

Num jantar, há muitos anos, um conhecido desabafou com grande culpa que costumava fazer-se de pai amigão fumando maconha com os filhos adolescentes, para estar mais próximo deles. Um dos meninos sofreu gravíssimos problemas de adicção pelo resto da vida, morreu de overdose e nem todo o amor dos pais, dos irmãos, ajudou em nada.

Sim, a vida pode ser muito cruel. Nas tragédias familiares, só há vítimas, embora alguns devam ser mais responsáveis do que outros. Não tem graça nenhuma brincar na beira do abismo.
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* Escritora
Fonte: http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=e91fba7eb422ffc12f8c1eb867844025
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Os jovens não estão perdidos para a fé

Enzo Bianchi*
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Este mês de outubro na Igreja Católica será vivido quase inteiramente (de 3 a 28) como "sínodo", um caminhar juntos sob a orientação do Papa, convergindo a Roma para questionar-se e refletir sobre os jovens e o discernimento vocacional.

Eis o artigo:

É um evento que poderia ser significativo. E talvez também decisivo para a presença dos jovens na Igreja, uma porção do povo de Deus que está se reduzindo, especialmente no ocidente. E que corre o risco de faltar à Igreja de amanhã.

Nestes anos de preparação e espera, ouvi repetidamente a pergunta: "Mas não poderia ser possível um Sínodo que não fosse só sobre os jovens, mas também dos jovens?". De fato, a assembleia sinodal é composta de cerca de duzentos bispos, por alguns especialistas e auditores, mas certamente não é uma assembleia de jovens.

Alguns deles estarão presentes, mas o Sínodo é uma instituição episcopal, não uma assembleia eclesial. Os padres sinodais são, na verdade, "padres" e não podem ser os jovens.

Mas outra perplexidade também me ocorreu: que jovens? Os jovens estão presentes em todo o planeta, em todas as Igrejas espalhadas pelo mundo, mas o que os une, além de sua idade, da juventude em comum? Não creio que um jovem de Milão tenha muito em comum com um jovem da Nigéria. Assim como um jovem de Nova York, que é diferente de um jovem da Eritreia. Essas evidências poderiam nos levar a julgar o Sínodo como um empreendimento impossível, porque muito grande é a diferença e muito articulada é a complexidade da vida nas diferentes áreas continentais e regionais.

No entanto, deve-se reconhecer que, uma vez que houve uma consulta aos jovens em muitas igrejas locais, a sua escuta seria possível se o trabalho do Sínodo for realizado de maneira ordenada. De forma a chegar a identificar como as Igrejas regionais podem responder às expectativas dos jovens e abrir a eles caminhos que os tornem sujeitos eclesiais, protagonistas da vida cristã. Tendo já participado como especialista em dois Sínodos dos bispos e, portanto, tendo adquirido alguma experiência no ordo laboris, espero que desta vez, ao ordenar as intervenções, se leve em consideração o Instrumentum laboris e a "regionalidade" das propostas, sugestões e questionamentos submetidos à atenção da assembleia sinodal.

De minha parte, como auditor convidado pelo Papa Francisco ao Sínodo, gostaria de dar uma humilde contribuição proveniente da escuta dos jovens em várias Igrejas locais da Europa ocidental neolatina e de minha comunidade. Muitas vezes apresentei aos jovens a pergunta: "O que vocês gostariam que a Igreja dissesse sobre vocês e para vocês jovens? Como vocês jovens se sentem e gostariam de se sentir sujeitos protagonista em suas Igrejas locais?". As respostas foram muito variadas e, ao lê-las cuidadosamente, encontrei confirmação para minha esperança: as novas gerações não estão perdidas para a fé cristã, mas são muito exigentes em sua busca. E, embora nos surpreendendo, eles não se distanciaram de Jesus Cristo e do Evangelho.

Desta escuta dos jovens, gostaria de apresentar algumas urgências que o Sínodo poderia analisar.

Em primeiro lugar, os jovens temem uma certa retórica da Igreja em relação a eles: chamá-los de uma maneira obsessiva "futuro da Igreja" ou "sentinelas do devir", não é suficiente para integrá-los. Eles querem ser reconhecidos como Igreja já hoje, presente da Igreja, porção do povo de Deus.

Eles querem se sentir sujeitos eclesiais hoje, em sua condição juvenil, é claro, mas sem sentir-se chamados apenas para o amanhã da Igreja.

Mas também deve ser dito que os jovens não querem ser lisonjeados, mimados pelos cristãos adultos: simplesmente querem ser levados a sério. Pedem que sua diferença seja acolhida, também aceitando o fato de que nem sempre podem ser compreendidos. Desejam que se mostre confiança neles, apoiando sua busca sem terá pretensão de dirigi-la. Quanto a essa sua busca, será bom levar em conta algumas realidades já estabelecidas na leitura sociológica e na chamada pastoral juvenil, realidades que não devem ser edulcoradas nem deformadas porque resultam dificultosas e dolorosas. Até o que é crítico, que fere os adultos na Igreja, deve ser ouvido, assumido ou não removido, de modo que possa ser "pensado" à procura de possíveis respostas.

 Sem dúvida, a busca dos jovens é, acima de tudo, 
a busca de si mesmos, a busca 
de se tornarem si mesmos, um caminho 
de humanização para viver uma 
vida significativa e ter uma existência "salva".

Em outras oportunidades escrevi que para as novas gerações "Deus" já é uma palavra indiferente. E, em alguns casos, demasiado ambígua. Não só as imagens de Deus recebidas da tradição são contestadas e parecem incapazes de interessar os jovens, mas estes creditam que podem viver bem sem a procura por Deus. Estariam então perdidas as "antenas da fé", segundo a expressão de Armando Matteo?

Sem dúvida, a busca dos jovens é, acima de tudo, a busca de si mesmos, a busca de se tornarem si mesmos, um caminho de humanização para viver uma vida significativa e ter uma existência "salva". Como podemos responder a essa busca que talvez seja a única que hoje aproxima os jovens do Ocidente? A tentação - generalizada, lamento dizer, mesmo dentro da Igreja - é aquela de responder com um "teísmo ético terapêutico", isto é, com uma afirmação nebulosa de Deus da qual deriva a possibilidade de uma vida eticamente boa que conduz a se sentir bem com si mesmos. Essa, infelizmente, também é a espiritualidade dominante na Igreja. E os olhos cegados não podem discernir que assim ocorre o esvaziamento da fé cristã. Hoje se tenta falar de Deus aos jovens e, para ser eficaz, se recorre à imagem de um Deus "energia primordial" que está à nossa disposição para nos dar uma vida marcada pelo bem-estar interior e psíquico. Ocorre, então, estar atentos e conscientes de que, para os jovens, a palavra "Deus" já se tornou estranha e não substituível com um "sagrado" ou um "divino" forjado por nós e pelas nossas angústias. Estou convencido de que essa estranheza da palavra Deus seja, na realidade, uma chamada para ser verdadeiramente cristãos, na prática de ir a Deus apenas através de Jesus Cristo: "Ninguém vem ao Pai, Deus, senão por mim" (Jo 14,6).

 Os jovens são sempre sensíveis a Jesus Cristo, 
estão intrigados pela sua 
humanidade, são tocados pela 
escuta atenta do Evangelho

Urge, então, "mostrar" Jesus Cristo aos jovens: assim será aberto o caminho para o Pai, para Deus. Hoje, ou se mostra Jesus com ações, comportamentos, estilo, palavras, ou estaremos condenados a tornar a esperança do Evangelho estranho para as novas gerações. Os jovens são sempre sensíveis a Jesus Cristo, estão intrigados pela sua humanidade, são tocados pela escuta atenta do Evangelho. Este é o caminho a ser percorrido sem medo: Jesus Cristo é aquele que com o Evangelho dá plenitude à vida humana, é aquele que torna possível para um jovem sentir-se gratificado por existir tal como existe. Jesus Cristo é aquele traz vida para a vida porque é ele o Evangelho, a boa nova que dá sentido à vida! Jesus Cristo é o "caminho" para ir a Deus: neste caminho é possível reconhecer até mesmo o seu corpo, que é a Igreja.

Minha esperança e oração é que no Sínodo ocorra a parrésia de colocar no centro do confronto sobre os jovens Jesus Cristo, aquele que nos ensinou a viver neste mundo (cf. Tt 2,12) como seres humanos dignos de tal nome. E ele nos doou com sua ressurreição a esperança do amor que vence a morte.
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* Monge italiano, publicado por Vita Pastorale, outubro de 2018. A tradução é de Luisa Rabolini.
Fonte:  http://www.ihu.unisinos.br/583256-os-jovens-nao-estao-perdidos-para-a-fe 01/10/2018

Ivan Jablonka sobre o fim dos homens: “Envergonha-me meu gênero”

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Envergonha-me meu gênero”, confessou o historiador francês Ivan Jablonka nas últimas páginas do ensaio literário em que, com rigor metodológico das Ciências Sociais, submergiu-se na tarefa de narrar a desditosa história de Laëtitia Perrais, uma jovem de 18 anos que foi sequestrada e assassinada em janeiro de 2011, em um subúrbio de Pornic, uma cidade perto de Nantes, e cujo corpo apareceu brutalmente esquartejado, semanas depois.

“É verdade que escrevi essa oração ao final do livro para recordar como os homens fizeram mal a Laëtitia: seu pai, seu pai adotivo, o homem que a matou, finalmente quem era o presidente da França. Ao final da lista, concluí dizendo que estava envergonhado de meu gênero”, admite Jablonka, sentado em frente aos Jardins de Luxemburgo, no bar Le Rostand de Paris, onde está dando as últimas pinceladas na conferência que dará em Buenos Aires, em poucos dias.

Através do crime de Laëtitia, Jablonka destrinchou a brutalidade da violência física, emocional, social e institucional contra as mulheres na França contemporânea. A penosa vida de Laëtitia, que Jablonka reconstrói como um sociólogo, revela uma infância atravessada pelo desamparo, diante de um pai que violentava sua mãe, uma família adotiva abusiva, seu instinto de submissão aos homens e o uso político que até o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, fez do caso Laëtitia quando acusou os juízes de ter libertado a besta que a destroçou.

“Para explicar essa frase – ‘Envergonha-me meu gênero’ – gostaria de recordar a diferença entre sexo e gênero. Não me envergonho de meu sexo: sou um homem e não quero mudar isso. O gênero é o modo como encarnamos o sexo e o comportamento que isso implica. Senti que meu gênero tinha sido totalmente transformado em horror e desprezo para com as mulheres. Disto me senti envergonhado - esclarece Jablonka -. Pela primeira vez, senti vergonha frente a esses homens que interpretam que ser um homem é se comportar assim. Meu livro é também uma reflexão a respeito do que significa ser um homem. Gostaria de acrescentar que, muitas vezes, os homens se sentem orgulhosos de ser homens, como se a masculinidade fosse a maior conquista obtida sobre a face da terra. Nessa oração – ‘Envergonha-me meu gênero’ – quis me opor a esta ideia e deixar claro que a masculinidade pode ser pobre, triste e vergonhosa. É um modo de expressar minha distância desse orgulho universal”.

Jablonka participará nos dias 2 e 3 de outubro, em Buenos Aires, do Women 20, a rede internacional de mulheres líderes que trabalha para somar equidade e desenvolvimento econômico das mulheres à agenda do G20, que em dezembro ocorrerá em Buenos Aires. No dia 3, dará sua conferência Feminicídio, do machismo ao crime, na Aliança Francesa (Córdoba 946, CABA), dentro do ciclo Ideias, organizado pela Secretaria de Cultura da Nação, apresentado por Eugenia Zicavo.

A entrevista é de Marina Artusa, publicada por Clarín-Revista Ñ, 27-09-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Foi criticado depois de ter confessado que se envergonhava do gênero masculino?

Não me recordo de ter sido criticado por minha posição. Alguns meses depois da publicação do livro, recebi várias mensagens de mulheres que me contavam que tinham sido golpeadas ou estupradas. Foi antes do escândalo das denúncias de abuso contra o produtor de Hollywood, Harvey Weinstein, e do surgimento do movimento #MeToo que denuncia o assédio e o abuso sexual. Conto esta experiência para destacar o modo ingênuo em que eu mesmo não estava a par desta realidade que vivem muitas mulheres, até que recebi essas mensagens. Interessei-me pelo assunto e o estudei. E hoje me pergunto: Por que há tantos homens que não estão a par desta realidade ou que são indiferentes diante disto?

Encontrou resposta?

Há uma indiferença global diante deste sofrimento porque não é algo que acontece com eles, porque não os interessa escutar esses depoimentos, não é problema seu. E, além disso, têm a ideia que provavelmente esses depoimentos e o movimento #MeToo os alcance, envolva-os, coloque-os sob escrutínio, sob acusações ou até talvez que os puna. Por todos estes motivos, os homens preferem permanecer cegos. É muito surpreendente. Os homens participaram de numerosas revoluções, desde a do Neolítico até a conquista do espaço, incluindo tantas revoluções políticas. A única revolução em que não estão interessados é a revolução feminista. É a única com a qual não sentem nenhum tipo de conexão. Não digo que, por ser consciente disto, sou superior a eles, mas, sim, quero acabar com esta visão masculina “naive”, com esta inocência masculina entre aspas que mais que inocência é indiferença. Quero deter esta cegueira.

Qual foi o seu propósito ao falar do “fim dos homens”? Advertir, expor, desconstruir ou narrar a violência contra as mulheres?

Sempre penso como historiador, como alguém do âmbito das Ciências Sociais e minha missão não é julgar, nem rir, nem chorar. Minha missão é compreender. Descobrir. No caso de Laëtitia, meu propósito foi entender como e por que esta jovem foi assassinada nesse pedaço pacífico de sociedade. Por qual razão o patriarcado e a violência são tão cotidianos em nossa vida. Para mim, este tema é o ponto obscuro da democracia. A democracia permite votar, manifestar-se nas ruas, mas a violência, a misoginia e o patriarcado são seus pontos obscuros. Um dos mistérios intelectuais é compreender por que este drama social, este desastre coletivo, durou tanto. Busco compreender por que desde Homero até nossos dias este sofrimento continua.

Em uma perspectiva histórica, o sofrimento das mulheres humilhadas e a indiferença dos homens mudaram com o tempo? Já na Ilíada de Homero há exemplos de misoginia.

É comum que os historiadores digam que tudo mudou, mas no caso do patriarcado minha opinião é que nada mudou muito. Você acaba de mencionar Homero. Se voltamos sobre o final da Odisseia, há um diálogo entre Penélope e seu filho Telêmaco no qual ela fala sobre como governar Itaca, a ilha, e seu filho a faz calar. Diz-lhe: “Estamos falando de política, não é assunto para mulheres. Por favor, retorna para sua habitação com a servidão e volta ao tecido”. Isto foi descrito no século VIII antes de Cristo. Há quase três mil anos. E nada mudou. Acredito que há estruturas patriarcais cimentadas que percorrem por baixo de nossa sociedade e que não mudaram muito. A dor física e emocional, de um ponto de vista biológico, também não mudou. Ser golpeado, estuprado ou humilhado provoca o mesmo sofrimento há mil anos como hoje. O que mudou dramaticamente é como essa dor se expressa.

Ficamos mais sensíveis ao sofrimento alheio?

A sociedade presta muito mais atenção hoje. Uma mulher que sofre um estupro, se denuncia e seu agressor é identificado, é detido. E as redes sociais também se tornaram um espaço para expressar e faz circular esse sofrimento. A rede permite que a voz das vítimas seja escutada em todo o mundo. Diria que há um ou dois séculos, o único caminho para uma vítima era o silêncio ou a saída, a fuga para esquecer. Hoje, há vozes e certezas de que essa voz será escutada. Há solidariedade entre as mulheres e em nível institucional que rompe esse sofrimento na solidão. Dois anos antes do movimento #MeToo, surgiu o NiUnaMenos, que nasceu em 2015. O que ocorreu na Argentina e nos países próximos foi mais que um movimento local, pois preparou o terreno para o que aconteceu dois anos depois com o #MeToo.

O NiUnaMenos e o #MeToo são movimentos sociais?

Que outra coisa poderiam ser? De que modo poderiam ser definidos? Não são um protesto, não são um escândalo, não são somente pessoas que mandam mensagens e postam depoimentos, não são uma marcha. Não há uma presença física. Têm coerência intelectual, racional e lógica. E contam com um modo de se expressar para uma audiência ampla. Considero que ambos englobam o primeiro movimento do século XXI. Diria algo melhor: que entre a intersecção do movimento #NiUnaMenos e o movimento #MeToo nasceu uma voz, a expressão de um sofrimento e uma ação política. Vejo nestes movimentos algo revolucionário que é o fim da vergonha. Durante décadas, as mulheres se sentiram envergonhadas de ter sido agredidas ou estupradas e, de algum modo, o sentido de culpa recaía sobre elas. Agora, é muito mais claro que o culpado não é a vítima, mas o agressor. E o movimento #MeToo abriu a porta. Foi dizer: “Não me envergonho, sofri isto e quero dar meu depoimento porque aconteceu e quero que as pessoas saibam”. Esta é a primeira marca do movimento.

Quais outras marcas vê neste movimento?

A segunda é a expressão. Uma expressão internacional de depoimentos em nível global que vão todos na mesma direção. E a terceira marca é a solidariedade. Em geral, a vítima costumava estar só. #MeToo expressa o sentimento de estar juntas, que é a definição da solidariedade. Mas, há limites neste movimento. Na França, por exemplo, o nome do movimento não foi #MeToo. O nome da hashtag foi #BalanceTonPorc, cuja tradução seria “#Entrega seu porco”, com o sentido de o denunciar. Houve debate extra pelo nome da hashtag. Muitos homens se sentiram ofendidos porque eram tratados como animais, mas claramente não era esse o tema. Há matizes e sentimentos diversos de um país a outro. Contudo, o mais importante para destacar é que o movimento #MeToo não existe em alguns países. Estive na China, há seis meses, e quando perguntei sobre o movimento #MeToo, não estavam a par. Nem na China, nem no norte da África, nem nos países muçulmanos do Oriente Médio.

Só Ocidente respondeu à agressão contra as mulheres?

Isto demonstra que o movimento #MeToo é importante e revolucionário, mas só em dois continentes: na Europa e na América, considerando América do Norte e América do Sul. Isto demonstra que o feminismo tem limites hoje.

Quais são as condições de produção, efeito e disseminação da violência sexual?

A lei, por exemplo. A legislação, em inúmeros estados, expressa patriarcado. Em vários países islâmicos, a Sharia é a interpretação da lei e expressa desprezo pelas mulheres. Em alguns filmes de Hollywood e de Bollywood, as mulheres são retratadas como seres inferiores. Os heróis são os homens e as mulheres são as que esperam até que o herói retorne e as beije. Por meio da publicidade e do cinema, muitas vezes as mulheres são apresentadas como criaturas passivas. A educação é também um modo de disseminar estes modos de pensar. Há pais que educam seus filhos varões para que sejam dominadores até em relação ao restante da família. Não é de se surpreender quando alguns desses homens depois maltratam, humilham ou até matam as mulheres. Esta reação brutal é uma continuação do mesmo percurso.
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Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/583213-ivan-jablonka-sobre-o-fim-dos-homens-envergonha-me-meu-genero 01/10/2018