terça-feira, 30 de outubro de 2018

Quebrando o moralismo embolorado

Eva Alterman Blay é Professora Emérita da Universidade de São Paulo



O feminismo no Brasil vem pelo menos desde o século XIX. Direitos mínimos como educação e cidadania não foram dados às brasileiras, foram conquistados pela ação de mulheres cujos nomes ficaram apagados na nossa história. Essas mulheres ainda não encontraram o devido destaque. Foram elas que construíram degraus no espaço que ainda estamos conquistando.
 
Essa trajetória foi marcada por escritoras e educadoras como Nísia Floresta. Pioneira em seu tempo, ela viajou pelo mundo, publicou na Europa, conviveu com pensadores como Augusto Comte e construiu escolas para crianças, especialmente para meninas brasileiras, onde substituiu as prendas domésticas pelo ensino de português, francês e italiano, além das ciências naturais, sociais e matemática. É de sua autoria o livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, primeira publicação a tratar dos direitos das mulheres à instrução e ao trabalho, e no qual Nísia reivindica que as mulheres sejam consideradas inteligentes e merecedoras de respeito pela sociedade[i]. O livro possivelmente foi uma tradução livre da obra Vindications of the Rights of Woman de 1792, escrito pela feminista inglesa Mary Wollstonecraft.

Desde o início do século XX, é fundamental apontar a atuação da bióloga Bertha Lutz, cujo ativismo político pavimentou o caminho para o direito ao voto feminino. Foi a segunda brasileira a fazer parte do serviço público no Brasil ao começar seus trabalhos no Museu Nacional, em 1919. Estava entre as fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), em 1922, e teve participação no Congresso Nacional, quando em 1936 assumiu o mandato como suplente de Cândido Pessoa. Nessa posição, defendeu mudanças na legislação trabalhista em favor do direito feminino ao trabalho, contra o trabalho infantil, direito à licença-maternidade e à equiparação de salários entre homens e mulheres[ii]. Lutas que, 82 anos depois, ainda enfrentamos.

Apesar dos caminhos traçados por mulheres extraordinárias como Nísia e Bertha, o feminismo nas décadas de 60/70 enfrentou uma das mais difíceis armas: o ridículo. Éramos todas ridicularizadas. Ir a público explicar o que era o feminismo significava estar preparada para piadas, gozações, desconsideração! O termo feminismo se tornou pejorativo. Até hoje algumas feministas evitam esta denominação temendo a pecha de mulher “mal amada”, feia, adjetivos usados como forma de nos agredir e menosprezar.

Para entender a obscuridade em que vivíamos nas décadas de 1960 e 1970 é preciso trazer à luz algumas profundas crises. Naquela época, na televisão, um apresentador achincalhava uma mulher, a atriz Leila Diniz. Ela ousara ir à praia no Rio de Janeiro usando um biquíni. O problema estava além do biquíni. O que causava enorme revolta no apresentador era a exposição da barriga de Leila grávida! Criou-se um verdadeiro escândalo que repercutiu na televisão, no rádio, nas revistas, clamando contra a atitude “desavergonhada” de Leila. Entenda-se: a mulher grávida, se fosse à praia, tinha de vestir uma espécie de bata que cobrisse a barriga. Essa tinha de ficar escondida. Por que era importante esconder a gravidez? Seria a barriga a revelação de que a mulher tivera relações sexuais? A maternidade, tão endeusada depois que a criança nasce, tinha de apagar a sexualidade feminina?  Era como se todas as mulheres gerassem filhos mantendo-se virgens. Leila subvertia os padrões morais patriarcais.

A construção da imagem da mulher como dona de casa perfeita, mãe e esposa foi o tema discutido no livro A Mística Feminina, de Betty Friedan. Em 1965, recebi a versão francesa do livro (nossa influência acadêmica era a francesa, daí ter recebido a versão do livro em francês La Femme Mystifiée). Betty, uma jornalista de formação universitária, sensível a um mal-estar que afligia as mulheres americanas, fizera uma pesquisa extensa, entrevistando-as. No livro, publicou os resultados, revelando a insatisfação das mulheres americanas brancas, de classe média, que após frequentarem o ensino superior se casavam e tornavam-se donas de casa. Em geral, mudavam-se para a periferia das grandes cidades, cuidavam da casa e dos filhos enquanto o marido saía para trabalhar fora. Depois de algum tempo, essas jovens mulheres estavam tristes, deprimidas, entediadas pela rotina. De nada valia a formação que tiveram. Ao mesmo tempo, elas sentiam enorme culpa, pois não conseguiam explicar por que ainda se sentiam infelizes mesmo depois de casadas e com filhos, destino traçado para elas e “sonho” de quase todas as mulheres de sua época.
Apesar dos caminhos traçados por mulheres extraordinárias como Nísia e Bertha, o feminismo nas décadas de 60/70 enfrentou uma das mais difíceis armas: o ridículo. Éramos todas ridicularizadas. Ir a público explicar o que era o feminismo significava estar preparada para piadas, gozações, desconsideração!
Betty mostra como essa geração recorria aos psicólogos, aos remédios, sem resolver o problema. A difusão desse diagnóstico provocou grande impacto e disparou uma reação que culminou com um largo movimento feminista. Mulheres brancas e de classe média, de modo geral, se uniram em torno de quatro pontos: pleitear “oportunidades iguais de acesso ao trabalho e à instrução, paridade de salários para tarefas iguais, legalização do aborto, abertura de creches em regime de tempo integral em todo o país”. Esse conjunto de reivindicações passou a ser conhecido como Equal Rights Amendement [iii].

A Mística Feminina foi para mim um dos mais influentes livros pela visão sociológica que trazia e pela desconstrução dos padrões tradicionais pelos quais a sociedade procurava conformar as mulheres. Rose Marie Muraro, editora da Vozes, convidou Betty Friedan para vir lançar a versão brasileira de A Mística Feminina. A escritora foi recebida como uma personagem ridícula, horrorosa, que vinha trazer ideias americanas para o Brasil para influenciar as brasileiras. Imaginava-se que o feminismo fosse um modismo norte-americano que as brasileiras iriam copiar. Qualificada com menções que a descreviam como uma mal-amada, horrorosa, o Pasquim a recebeu com todos os epítetos já descritos. Mas ela, como uma escritora culta, se revelou muito segura de suas ideias sobre a realidade norte-americana e logo mostrou que nada poderia falar sobre as brasileiras cuja realidade confessou desconhecer. Assim, desarmou os entrevistadores, que reconheceram estar diante de uma intelectual e militante pelos direitos da igualdade entre homens e mulheres. Ao final, a reportagem apresentou outra visão da escritora e do feminismo.

Cada uma à sua maneira, Leila Diniz e Betty Friedan abalaram pontos nevrálgicos da condição feminina, desestruturando um falso moralismo. Libertar o corpo, dar à mulher o exercício de sua sexualidade, foi um passo para revelar o que ocorria e ocorre dentro do lar. A dupla moral, uma aplicada ao homem e outra à mulher, durante séculos foi a garantia da desigualdade entre os gêneros.

O movimento feminista veio mostrar a vertente política da moral e afirmar pela primeira vez que o pessoal é político. Hoje, quando nos deparamos com figuras políticas que em seus discursos querem voltar ao século XIX e reger a sexualidade por padrões patriarcais e de uma determinada vertente religiosa, constatamos quanto ainda falta para alcançarmos a plenitude da cidadania das mulheres e dos homens.
28 de outubro de 2018

[i] DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010 (Coleção Educadores).
[ii] ARQUIVO NACIONAL. Mirian Lopes Cardia. Publicado em 19 de Fevereiro de 2018. Disponível em:
[iii] IN MEMORIAM. “Betty Friedan: morre a feminista que estremeceu a América”. Ana Rita Fonteles Duarte. Rev. Estud. Fem., vol. 14, no. 1. Florianópolis Jan./Apr. 2006.
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 Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=205125

“Homo sapiens” – Yuval Hoah Harari

Yuval N H
“Homo sapiens” ? Reflexões do professor israelense e autor deste livro, sobre o momento atual que o mundo ocidental vive, 
intensa e perigosamente.


Sua reflexão está baseada na pergunta: ‘por que o fascismo é tão sedutor – e como os nossos dados pessoais podem alimentá-lo?’.

Transcrição de sua palestra, traduzida para o português, por Maricene Crus e revisada por Carolina Aguirre, a quem agradecemos por nos oportunizarem este conhecimento.

00:38  –  (Risos)
 
14:13  –  Obrigado.
 
14:14  –  (Aplausos)
 
18:05  –  (Risos) (Aplausos)
 
18:18  –  YNH: Muito obrigado.
 
18:20  –  (Aplausos)
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Reportagem por 
Fonte:  https://nossofuturoroubado.com.br/homo-sapiens-yuval-hoah-harari/?utm_source=Nosso+Futuro+Roubado&utm_campaign=5397e37d64-RSS_EMAIL_CAMPAIGN&utm_medium=email&utm_term=0_5b000b2516-5397e37d64-43969477

A democracia brasileira corre riscos com Bolsonaro?

Carlos Pereira*

Resultado de imagem para bolsonaro

Um presidente eleito pode ter intenções iliberais; a questão é que, hoje, querer isso não é sinônimo de poder

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Cultura inútil: Pessoas de bem


Mouzar Benedito*
  
 Capa de 1926 do periódico mensal The Good Citizen, forte apoiador da Ku Klux Klan nos EUA.

Assim disse o Barão de Itararé: “As pessoas de bem costumam falar mal dos vagabundos. Mas não é por mal. É por inveja”

Pessoas boas existem, e são muitas. Mas tem um tipo que bate no peito se autoproclamando “pessoa de bem”, só aceitando como “pessoa de bem” quem se comporta igual a ela.
 
Conheci e conheço muitas pessoas assim. São muito interessantes. Vou me lembrar de algumas dessas pessoas que se julgam detentoras exclusivas do rótulo “de bem”.

Um casal composto por pessoas de bem, de classe média alta, tinha um filho de 17 anos e uma filha de 16, quando a mulher engravidou de novo. Nasceu, então, um filho temporão, que não teria um irmãozinho para brincar e compartilhar um monte de coisas. Vizinho não é a mesma coisa. Precisava de uma criança dentro de casa.

Esse casal resolveu, então fazer uma boa ação, típica de pessoas de bem. Adotou um irmãozinho para o filhote. Negrinho, o filho adotivo. Ele seria tratado, dizia o casal, como um filho legítimo, sem diferenciar do branquinho.

Umas amigas minhas, que eram também amigas da filha desse casal, quando ela já tinha vinte e tantos anos, ficaram hospedadas na casa dela. Foram muito bem tratadas. Mas começaram a se sentir incomodadas com uma coisa e, um dia, sutilmente, conversaram com a amiga sobre os irmãozinhos dela. O branquinho e o pretinho.

“Por que o branquinho estuda num dos melhores colégios privados e o pretinho numa escola pública?”, perguntaram. “O pretinho não leva jeito para estudar”, foi a resposta. Minhas amigas ficaram em dúvida: o pretinho gostava de livros, lia os livros que elas deram às crianças, sabia fazer contas, e o branquinho não estava nem aí livros e para contas. E nas conversas o pretinho se revelava muito mais inteligente.

Outra pergunta: “Se os dois são tratados de forma igual, por que a sua mãe, quando precisa mandar um filho fazer alguma coisa, como levar algo a algum lugar, carregar compras do supermercado, só manda o pretinho?”. “Ele gosta”, foi o que minhas amigas ficaram sabendo.

E nas brincadeiras, repararam, o pretinho tinha que fazer tudo o que o branquinho mandava. Essas minhas amigas pensaram coisas que não são aceitáveis por essas pessoas de bem: o pretinho foi adotado para ser um brinquedo do branquinho.

Em alguns lugares da Amazônia, havia casais de bem como esse (não sei se ainda há). Não adotavam um pretinho, mas uma indiazinha, que seria criada como filha legítima. Mas nem mandavam para a escola. Era uma escravinha, que fazia todos os serviços domésticos sem ganhar nada, a não ser umas roupas baratas ou de segunda mão. Um amigo da região, muito crítico, me disse que isso era comum lá, e que essas meninas, adotadas como se os casais de bem estivessem fazendo um favor a elas e a suas famílias, eram chamadas de bugrinhas.

Esse tipo de gente de bem faz essas coisas. Lembro-me da história de Gregório Bezerra, levado de sua casa na roça para Recife, por um casal que dizia que ele seria tratado como um filho, colocado na escola (o que era um sonho dele e da mãe), mas não fizeram nada disso. Usavam o menino como escravo. Ele fazia uns trabalhinhos por fora, ganhava algum dinheiro e ia guardando numa caixa que um dia foi descoberta pela família “generosa”. Tomaram o dinheiro dele. Foi quando achou que era melhor se tornar menino de rua.

Comecei com essas historinhas porque acho que elas são muito simbólicas. Mas pessoas de bem fazem muitas outras coisas “de bem”. Exemplos?
  • Quando lancei um livro sobre a ditadura, numa palestra no interior paulista, dois jovens me criticaram por eu ser contra a tortura. Disseram que eram filhos de militares que praticavam a tortura, “mas só contra pessoas suspeitas”. Suspeitas! Contei a eles que bastava um desafeto de qualquer um resolver se vingar desse qualquer um por qualquer motivo, e o denunciasse ao Dops como “comunista”, que ele passava a ser suspeito e, portanto, “merecedor” de tortura.
Mas eles pareceram não terem se convencido disso. Continuaram achando que pessoas de bem não eram torturadas. Seus pais, pessoas de bem, só torturaram suspeitos de não serem pessoas de bem. Alguma semelhança com muitas pessoas de bem dos tempos atuais?
  • Outro exemplo: pessoas de bem têm fé, acreditam em Deus. E odeiam quem não tem a mesma fé. Pessoas de bem, às vezes, atacam templos e outros locais onde pessoas de religião diferente delas praticam suas cerimônias religiosas. Destroem tudo, espancam os infiéis…
  • Umas pessoas de bem são a favor de armar todas as pessoas de bem para, se preciso, matar pessoas que não são de bem. Embora tementes a Deus e crentes na existência de céu e inferno, e de respeitar os Dez Mandamentos que mandam não matar, acham que podem dar uma escorregadinha matando assim mesmo, que Deus vai entender.
  • Tem pessoas de bem que gastam alguns milhares de reais num jantar e acham um absurdo pagar um salário mínimo por mês para uma empregada doméstica que trabalha dia e noite para elas. E algumas ainda querem registro profissional!
  • Tem pessoas de bem que acham justo sonegar impostos, mas só elas: outros sonegadores são ladrões.
  • Tem pessoas de bem que acham que o Estado não pode ficar gastando dinheiro para curar pobres que são “perdedores”, não economizaram para se tratar de doenças. Aliás, neste item acho curiosas as pessoas de bem dos Estados Unidos. Lá, ficam horrorizadas com a ideia de um serviço de saúde gratuito para a população. Bons cristãos, como se dizem, acham que quem não tem dinheiro para pagar um plano de saúde tem mesmo que não ter atendimento médico. Que morram! Como sou ignorante: sempre achei que cristão tinha uma visão bem diferente disso.
  • Há pessoas de bem que acham um absurdo o governo gastar alguns bilhões de reais por ano (“com dinheiro nosso, nós que pagamos impostos…”) com bolsas para alimentar muitos milhões de famílias, mas acham normal e correto gastar o mesmo tanto para supostamente socorrer um usineiro ou banqueiro que “precisa” dessa grana para dar umas centenas de empregos.
  • Há pessoas de bem que herdaram fazendas. Não fizeram nada de mal. Seus pais sim, grilaram terras, expulsaram e até mataram índios e posseiros que viviam nessas terras e se apropriaram delas. E os herdeiros, pessoas de bem, acham um absurdo sem-terra ocuparem parte dessas fazendas que não são usadas para nada, a não ser para especulação imobiliária. É injusto – acham – pobres ocuparem terras que seus pais conquistaram com “muito trabalho honesto”.
  • Há pessoas de bem que são filhas ou netas de imigrantes que vieram para o Brasil fugindo da fome ou de guerras, e odeiam imigrantes que chegam aqui fugindo da fome ou de guerras. Dizem que esses imigrantes têm que ser expulsos daqui.
  • Pessoas de bem como as citadas não acreditam em mudanças climáticas causadas por ações humanas, como o desmatamento, a poluição das águas e do ar… Se forem acreditar nisso, terão que parar de desmatar, de poluir as águas e o ar derramando neles esgotos e gases tóxicos, não é? É preciso fazer essas coisas para lucrar mais, e impedir que façam seria um atraso, um desrespeito à livre iniciativa, não é?
  • Pessoas de bem, já vi por aí, acham que quem está preso é porque merece e por isso deve ser muito maltratado. Os presídios têm que ser ruins mesmo. Afinal, quem está lá são traficantes, assassinos ou ladrões. Mas de vez em quando um filho de uma pessoa de bem é traficante de drogas e aí os pais, essas pessoas de bem, fazem de tudo para eles não serem presos. Outros matam, e aí tentam provar (e muitas vezes conseguem) que a vítima é que teve culpa. Para casos de roubos, mesma coisa.
  • Um sujeito que frequentou festas em casas de parentes meus, por ser sogro de alguém, já chegava essas festas propagandeando sua honradez e, sem ninguém perguntar, discursava defendendo a repressão a todos os movimentos sociais e sindicais, intercalando tudo com frases de cunho nazista. Era empresário. Eu estava parando de ir a essas reuniões por causa dele, até que quase ninguém mais o suportava e ele parou de ser convidado. Fora umas coisas que não vou me dar ao trabalho de contar aqui, ele revelou – contrariado – que nasceu no Nordeste, mas complementou: “Se for pra eu nascer nordestino de novo, na próxima encarnação, prefiro nascer cachorro”.
Bom… As lembranças podiam ir longe.
  • Nem vou perguntar o que acontece quando uma pessoa de bem, ou um filho dela, dirige bêbado em alta velocidade em área urbana, provoca acidente e mata…
  • Nem o que essas pessoas fazem quando um fiscal ou guarda tenta multá-las por infligirem leis.
  • Nem o que fazem para ganhar uma concorrência pública contra alguém mais qualificado.
  • Nem o que gastam para colocar numa faculdade um filho que não passa no vestibular.
Vou parar. Termino lembrando que há décadas era uma “vergonha para a família” ter um filho homossexual. Famílias “de bem”, e bem relacionadas às vezes arrumavam um jeito de se livrar do mal-estar causado pela presença de um filho homossexual: arrumavam emprego para ele numa embaixada brasileira qualquer, longe do Brasil.

Por isso, houve um tempo em que as embaixadas brasileiras tinham fama de ser um “antro” de homossexuais. E afora eles, de corruptos. Para qualquer coisa que se precisasse numa embaixada brasileira, era preciso dar propina.

Em 1964, depois do golpe, o marechal Castello Branco assumiu o poder e, entre outras coisas, anunciou uma medida para “moralizar” as embaixadas. Para mostrar que faria mesmo isso, determinou a demissão de um homossexual e um corrupto que trabalhavam na embaixada brasileira em Paris. E eles teriam que ser repatriados para o Brasil.

A imprensa devia registrar o fato histórico e foi avisada. Quando o avião que trazia os dois repatriados aterrissou no Rio de Janeiro, tinha um monte de jornalistas e repórteres fotográficos no aeroporto. Ficou todo mundo na expectativa do desembarque.

Quando os dois funcionários da embaixada apareceram no portão e viram que seriam fotografados e teriam sua repatriação amplamente noticiada pela imprensa, com os devidos motivos, um deles saiu pulando e gritando: “Eu sou o corrupto! Eu sou o corrupto!”.

***
Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2017, e-book). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 
Fonte:  https://blogdaboitempo.com.br/2018/10/29/cultura-inutil-pessoas-de-bem/

Uma ciência política cética

Luiz Felipe Pondé*

Ilustração de Cammarora para Pondé de 29.out.2018.

Há competência na maioria dos eleitores para escolher o presidente?

O número de títulos recentes que trazem um olhar cético sobre a democracia cresce. No caso específico que analiso aqui, esse olhar cético cai sobre a figura do eleitor. Não conhecemos nenhum sistema político melhor, mas isso não deve nos impedir de refletir de forma menos apaixonada sobre a democracia.

Existem dois modos de se fazer ciência política. Um primeiro, mais conhecido, pensa a democracia como projeto a ser aperfeiçoado nas suas virtudes. Modo muito necessário, que não é posto em dúvida por nenhum autor que represente uma abordagem mais empírica e cética da ciência política (este é o segundo modo de se fazer ciência política). As virtudes da democracia são o voto, os limites institucionais do poder representativo, a liberdade, a autonomia dos poderes, enfim, os pesos e contrapesos.

Bartels e Achen, em 2016, no seu “Democracy for Realists” (Democracia para Realistas), com sólida base empírica, nos chamavam a atenção para o fato de que a democracia é carregada de expectativas míticas (“folk theory of democracy”). Uma delas é que eleitores com maior formação educacional fazem escolhas “melhores” ou escapam de viés ideológico pesado na sua prática como eleitor. Pelo contrário, sabemos que muitos intelectuais, professores acadêmicos e jornalistas (os especialistas) votam a partir de cargas ideológicas latentes ou explícitas muito distantes do que se poderia chamar de escolhas racionais. Insistências em partidos e ou candidatos duvidosos são frequentemente objeto de culto devocional por parte de especialistas. Isso é óbvio.

Pessoas não especialistas não dispõem de tempo ou interesse prioritário dedicado a política e eleições. Na maioria das vezes estão morrendo, enterrando mortos, casando ou separando, tendo filhos e pagando contas demais para dar atenção ao tema. Segundo nossos dois autores, a maioria esmagadora das pessoas, quando se envolvem e debatem política, o fazem para reforçar suas crenças e destruir as dos outros, como as mídias sociais deixam muito claro.

Outra obra, ainda mais cética, também de 2016, escrita por Jason Brennan, “Against Democracy” (Contra a Democracia), vai mais longe em seu ceticismo para com a competência do eleitor. Os inteligentinhos não devem entender o título do livro ou a discussão que ele traz como uma proposta tosca de sistemas totalitários.

A dúvida de Brennan, que apresento aqui apenas em um dos seus aspectos, é se há competência na maioria esmagadora dos eleitores para decidir quem deve fazer a complexa gestão das sociedades. Brennan nos apresenta uma tipologia lúdica, mas nem por isso menos potente.

Os eleitores estariam divididos em três tipos. Os dois primeiros, representantes da maioria esmagadora; o terceiro, uma figura extremamente rara entre os eleitores. O primeiro são os “hobbits”, eleitores sem nenhum conhecimento sobre política ou temas como gestão de governo. Costumam ser desinteressados e votam de modo absolutamente inconsistente. Estes são disputados a ferro e fogo (por conta de seu peso numérico) pelo segundo tipo, os “hooligans”, eleitores aguerridos, com maior conhecimento de política, mas absolutamente enviesados ideologicamente, e cegos a qualquer crítica ao seu modo de pensar. O Brasil está tomado por “hooligans” nas mídias sociais. Agressivos, assertivos e impermeáveis a qualquer racionalidade cética em relação às suas crenças.

Por último, os “vulcanos” —referência ao personagem do planeta Vulcan, Mr Spock, do filme “Jornada nas Estrelas”, conhecido por sua inteligência superior, científica, sincera e racional. Um tanto blasés, bem informados e sem viés ideológico, não têm nenhum impacto nos resultados eleitorais, devido ao seu caráter numérico insignificante e à sua visão complexa da política. Em tese, salvariam a democracia de sua derrocada populista. Mas, infelizmente, são raríssimos. E a democracia é um regime de quantidades.

Outra obra cética é “People vs Democracy” (Povo x Democracia), de Yascha Mounk, essa de 2018. Para o autor, existem duas grandes ameaças à democracia. A primeira vem do caráter populista dela e de como as mídias sociais empoderam o indivíduo em sua tentação populista. Democracias podem eleger líderes muito populares e muito autoritários. Outra ameaça são agências como o Banco Central Europeu esvaziar o voto por considerá-lo irrelevante e incompetente em assuntos econômicos. Alguém discordaria que o cidadão comum não entende nada de economia complexa?
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* Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP. 
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/10/uma-ciencia-politica-cetica.shtml 
Ilustração de Cammarora para Pondé de 29.out.2018