quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Música e loucuras

Juremir Machado da Silva*
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Memória musical

      Uma pesquisa revela que a maioria das pessoas no mundo não descobre novas músicas depois dos 27 anos de idade. No Brasil, a playlist de cada um seria fixada até os 23. Pesquisas revelam tantas coisas. Um dia ovo faz mal. No outro, salva. A carne de porco já foi condenada e recuperada. Chocolate mata ou rejuvenesce. Leite era saúde em estado líquido. Agora, quase todo mundo tem intolerância a lactose. As vacas não sabem mais o que fazer. Egocêntrico, fui examinar o meu caso. Eu tinha 23 anos em 1985.

Não levava fé em Tancredo Neves. Estava com três diplomas nas mãos e desempregado. Na verdade, não procurava emprego. Ou fugia deles. Queria ser um eterno estudante. Era uma questão de coração. Sabia pouco. Precisava aprender. Ainda não tinha relido “Ulisses”, do temido e admirado James Joyce, nem esgotado as obras completas do aplaudido e repudiado ideologicamente Borges. Nem conhecia a Europa. Só de ler Jean-Paul Sartre.

Escutava MPB. Ouvia apaixonadamente Chico Buarque, Caetano Veloso, Gal Costa, Elis Regina, Maria Bethânia, Belchior e outros dessa turminha disparatada, mas única. Ainda faço isso com a mesma paixão. Nas entrelinhas, resvalava para Roberto Carlos e Nelson Gonçalves. Meu rock se esgotava em Janis Joplin e Jimi Hendrix. Depois da crise dos 40, passei a consumir doses gigantescas de jazz e de música clássica, especialmente sonatas. Vario. Nos últimos meses, ando obcecado por Haydn, Dvorák, Brahms e Mahler. As palavras das letras que gosto me deprimem ou distraem.

As pesquisas estão erradas? Sou uma exceção? Entro no desvio padrão? Não serei eleito. Ah, não isso já é outra coisa. As escolhas musicais revelam algo profundo da personalidade de cada um. Eis a tese. Bela tese. O que diz da personalidade de alguém gostar de funk ou rap? De música gauchesca? De sertanejo universitário? De MPB? De Bossa Nova? É possível ser violento e gostar de João Gilberto? Não sei a resposta. Tenho convicção de que aquilo que escutamos nos desnuda diante dos outros. É obsceno. Perguntei a um cara que eu não via desde a primeira eleição de FHC o que anda escutando de novo. Ele me respondeu sério em tom de dica:
– Chico e Caetano.

Quem não muda é velho? Somos velhos desde os 23? Nada tenho contra ser velho, exceto certa proximidade natural do fim, que pode, dizem, ser um novo começo. E o valor da aposentadoria. Esse parece que não tem volta. Pode-se, às margens dos 60 anos, mudar de gosto musical sem comprometer a biografia? Sem chocar a família? Não é quase como mudar de sexo? Imagino uma cena de casal, uma DR. O homem chega em casa e, de repente, confessa:

– Mudei.
– Hã?
– Mudei. Não gosto mais de Roberto Carlos.
– Como assim? Você adorava o Rei. Gosta de que agora?
– De Led Zeppelin.
– Meus Deus! O que vai ser de nós!

Loucuras

      Foi aí que eu comecei a cometer loucuras. Comecei a caminhar todas as manhãs. Em círculos. Melhor, em retângulo. A Redenção é um quadrado ou um retângulo? De repente, sem razão alguma, numa caminhada, lembrei do quadrado da hipotenusa, que eu confundia com Artemísia, deusa grega da caça. De Artemísia eu acabava, numa aceleração desvairada, no imperador romano Tibério vestido de mulher. Daí era um salto para a Idade Média.

Caminhar refresca o cérebro. Lembranças brotam a cada passo. Em uma semana, lembrei daquele gol do Inter em 1976, o da tabelinha de cabeça, recordei o Plano Verão, implantado por José Sarney, que teve o efeito de um inverno devastador sobre as cadernetas de poupança, rememorei a morte de Tancredo Neves, com todo boletim dado por Antônio Brito na televisão, pensei na Lídia Brondi, que deixou de ser celebridade para estudar psicologia, desarquivei PC Farias e os crimes da era Fernando Collor.

Tentei organizar na cabeça todas as denúncias de corrupção sobre as quais li alguma coisa nos jornais desde que passei a me interessar por política e a perder a obsessão por cavalos alados, jogo de cartas e batalhas heroicas com a plebe na frente. Vou precisar de um HD externo. Ou multiplicar as caminhadas. Fazer hora extra. Aumentar o percurso. Dar milhares de voltas. Nunca mais parar de caminhar. Moto-contínuo. Caminho, passos largos, tendo a cidade como horizonte. Passo por tantos moradores de rua que chego a me perguntar o que está acontecendo. Fico quieto.

Como diria o outro – nunca identificado – no afã de encontrar uma exclamação original e encorpada: que loucura! Caminho e me lembro: “Numa fábula, Nasreddin atravessa a fronteira todos os dias com mulas carregadas de sacos. Cada vez, os sacos são revistados, mas não se encontra nada. Nasreddin continua a passar a fronteira com suas mulas. Muito tempo depois, alguém lhe pergunta o que contrabandeava. Nasreddin responde: ‘Mulas’”. Essa é velha? Sim, é uma fábula. Eu a conhecia com motos no lugar de mulas. E com o Uruguai no lugar do mundo de Nasreddin ou Nasrudin, filósofo turco cujas histórias bizarras ou divertidas povoam o Oriente Médio. “Um camponês aproximou-se de Nasrudin, e queixando-se de que seu olho doía, pediu-lhe um conselho. No que o Mulá respondeu: ‘Outro dia meu dente doía, e não me acalmei enquanto não o arranquei”.

Uma loucura puxa a outra. Comecei a fazer planos para o futuro. Tentarei explicar a redundância. Eu já fiz muitos planos para o passado. Aliás, é a minha especialidade. Ainda mais caminhando. Faço planos para reescrever o passado. Getúlio não se mata. Jango resiste. A ditadura não acontece. Tancredo não morre. Zico não erra o pênalti contra a França em 1986. Eu não saio de Palomas. Sou modestamente megalomaníaco. Sempre me enfio entre os grandes. O resto deixo por conta da imaginação de vocês. Tenho certeza de que caminham todos os dias em círculos ou retângulos.

Nasredin me acompanha:
– Alguma vez você aprendeu a nadar?
– Não – respondeu o pedante.
– Caro mestre, toda sua vida foi desperdiçada, pois estamos afundando.
*
Que país este Brasil. Judiciário assina recibo de que chantageou a nação.
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* Jornalista. Sociólogo. Prof.Universitário. Escritor.
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Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/11/11366/musica-e-loucuras/
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terça-feira, 27 de novembro de 2018

Enfim, depois de tanto ódio, aproxima-se o natal: # rivotril no peru

Norton Cezar Dal Follo da Rosa Jr (*)
Foto: Maia Rubim/Sul21
Nestes últimos meses, depois do ódio deflagrado por uma disputa eleitoral sem precedentes, muito se falou nos rompimentos familiares e nas acirradas discussões entre amigos e colegas de trabalho. Uma onda de intolerâncias e certezas categóricas parecia nos impedir tanto de pensar, quanto de demonstrar um mínimo de empatia com o outro. O medo, a raiva, o ressentimento e a angústia dominavam os afetos e fechavam portas para o diálogo. Como era de se esperar, o desamparo e a indignação decorrente de tudo isso invadiu os consultórios dos psicanalistas. O estrago não foi pequeno, provavelmente, vamos lidar por muito tempo com os seus efeitos.

Depois dessa guerra declarada, alguns contam os mortos, outros celebram vitória, muitos, apenas buscam cicatrizar as próprias feridas, mas tem também, aqueles que continuam magoados e decidiram se afastar por tempo indeterminado. Como as formas de reações são múltiplas, existe a turma dos conciliadores. Estes são capazes de levantar a bandeira branca e dizer “precisamos tocar a vida e parar de cultivar mágoas, afinal, o natal está chegando, não vamos estragar a ceia…”.

E agora José? O que fazer com aquele tio que num afã de indignação tu chamastes de vagabundo porque vive às custas de seus avós, sequer paga pensão dos próprios filhos, e ainda por cima sempre acusava o teu candidato de irresponsável? E o primo, defensor feroz de Deus acima de todos, embora passasse avançando o sinal com todas as mulheres, não poupando sequer as menores de idade? Pai é pai, mas não está imune, sobretudo depois de pronunciar a fatídica frase num jantar de família: “meu sonho é ver os militares no poder”. E aquela tia-avó Tutancâmon, capaz de ressuscitar somente em noites de natal que jura que tu és um comunista esquerdopata? Como encarar aquele irmão do coração que no calor da discussão disse para você ir morar na Venezuela…

Será possível passar o natal juntos? Além de tudo isso, como sabemos, os eternos narcisismos das pequenas diferenças pulsam nestas datas, como por exemplo: o elogio somente dado a nora do filho preferido, as diferenças na escolha dos presentes, sem falar na não equivalência nas distribuições dos afetos. Pas de problème é natal, o amor irá renascer no coração de todos… Tá parecendo muito louca essa família? Quem tiver alguma mais normal, favor jogar a primeira pétala. Confesso, eu que sempre levei a pecha de estar entre os ponderados, tive o meu piti e saí do grupo de whats. Minha rebeldia adolescente durou apenas três dias, não importa, era questão de honra, kkkk… Curioso, mas um familiar sempre avesso aos encontros do feudo pedia encarecidamente o meu retorno. Grata surpresa, para além dos estereótipos, a sabedoria pode vir de onde menos se espera.

Quanto ao natal, a saída mais fácil poderia ser: # rivotril no peru. Afinal de contas, peru não tem gosto de nada e, além do mais, as pessoas tem tomado essa coisa com a mesma naturalidade com que escovam os dentes. Mas, pensando bem, o momento não é de se anestesiar, pelo contrário, cabe um esforço para retomar o diálogo e fazer as devidas autocríticas. Assim, a tolerância e a reponsabilidade com as futuras gerações podem auxiliar a superar divergências, aparentemente, incontornáveis. Mesmo porque, nunca é demais lembrar: somos seres de linguagem. Desse modo, precisamos dar valor a palavra do outro, pois este é único recurso para sairmos da lógica da exclusão, da paranoia e do culto ao eterno ressentimento.

Então, vamos deixar o rivotril de lado, mesmo porque, ninguém espera muita coisa de um peru hoje em dia. Eu já me decidi, quanto a ceia, a minha expectativa estará na sobremesa. Já estou imaginado a mesa de doces da minha falecida avó, na esquerda, sorvetes de diversos sabores, no centro esquerda, chico balanceado, no centro, o clássico pudim, na ala direita, sagu com creme e na extrema direita da mesa, o brigadeiro, de terra e ar? Deus me livre…

Hoje, quando acordei, lembrei de ter sonhado estar me esbaldando num pote de sorvete, no balanço daquela música do Chico: Vai passar nessa avenida um samba popular, cada paralelepípedo da velha cidade essa noite vai se arrepiar…

Eu sei, parece difícil cantar numa hora dessas, pois fomos duramente advertidos. No entanto, estaremos prontos para 2019, agora, mais atentos para que todo mundo tenha o direito de sustentar suas escolhas, bem como, de portar as próprias bandeiras, sejam elas quais forem…

Confesso, fiquei tentado por um pedacinho de pudim. Talvez porque o centro será inevitável em 2022.
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(*) Psicanalista, Membro da APPOA e Instituto APPOA, Doutor em Psicologia Social e Institucional – UFRGS.
Fonte:  https://www.sul21.com.br/colunas/coluna-appoa/2018/11/enfim-depois-de-tanto-odio-aproxima-se-o-natal-rivotril-no-peru/

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Bernard-Henri Lévy: “Bolsonaro derrotou mais a direita do que a esquerda”

Bernard-Henri Lévy fala sobre Jair Bolsonaro
Bernard-Henri Lévy, durante sua visita a São Paulo, em 24 de novembro.

Filósofo lamenta a "pornografia política" do presidente eleito brasileiro, a quem compara com Nicolás Maduro

Bernard-Henri Lévy visita o Brasil em um de seus momentos mais turbulentos, quase como nos tempos em que este filósofo, formado igualmente entre maoístas e holofotes, ainda estava construindo sua reputação de pensador de ação e ia ao Irã nos anos setenta ou à Bósnia nos anos noventa. Vestido com seu eterno uniforme – terno escuro camisa branca parcialmente desabotoada – com o qual se tornou um dos pensadores mais midiáticos e conhecidos da França e de grande parte da Europa, Lévy (Argélia, 1948) vai direto ao problema entre goles de chá em um hotel em São Paulo: “Todo o mundo está olhando para o Brasil. O que seu presidente eleito, [Jair] Bolsonaro, faz é discutido em todos os lugares e o que estamos vendo é um presidente sem programa, nostálgico de um dos momentos mais sombrios da história do país e sem amor genuíno por sua terra natal. O mundo está assombrado com a incrível vulgaridade de alguns de seus comentários. É pornografia política. Como fala das minorias, das mulheres. O mundo está estupefato”, repete com finíssima indignação parisiense. E resume a questão que mais escandaliza os cientistas políticos de todo o mundo: “E não venceu dando um golpe, mas através das urnas”.

O Brasil é apenas uma frente de uma guerra global, pondera com um certeiro cruzamento de pernas, uma guerra que absorve praticamente o mundo inteiro. “Há uma luta ideológica entre a xenofobia e o humanismo, entre os extremos, da esquerda à direita, que se alinharam nas ruas para destruir os valores republicanos e as forças do progresso”, diz. “O Brasil está dentro dessa corrente global e, de certo modo, seu líder populista é o mais caricatural de todos.”

Pergunta. Quando Trump ganhou a presidência em 2016, o senhor alertou os norte-americanos de que, para além da ideologia do vencedor, “milhões de gênios acabaram de sair da lâmpada” com aquela vitória. O senhor estenderia esse alerta hoje aos brasileiros?
Resposta. Fiz duas advertências quando Trump foi eleito. Os geniozinhos saíram da lâmpada e também avisei aos judeus que se cuidassem dos presentes e afetos de Trump. O afeto que não nasce do amor verdadeiro é muito perigoso e tem efeitos colaterais terríveis. Diria o mesmo aos brasileiros. A eleição de Bolsonaro libertou milhões de geniozinhos. E eu diria a eles para terem cuidado com esses gestos de amizade aparente, não porque podem se revelar uma mentira amanhã, mas porque podem ter um significado inesperado e triste amanhã. Não vi na história uma época em que os judeus não acabem como vítimas.

P. O senhor se mobilizou especialmente contra o Brexit nos últimos anos. Compartilha das comparações de que essa votação e a vitória de Bolsonaro pertencem à mesma convulsão destrutiva contra a ordem estabelecida?
R. O Brexit não está destruindo o establishment; o Brexit é o establishment. Boris Johnson, as pessoas que clamam pela separação, são o establishment. O que é que o Brexit destrói? O Reino Unido. Não o establishment. Da mesma forma, Bolsonaro também não faz dano algum ao establishment, ele o faz ao Brasil. Ou poderia fazer, pelo menos. Ele faz parte do establishment, do pior do Exército e do pior da direita das cavernas. E se é uma arma de destruição, não é da destruição das elites, mas do que foi construído neste país, desde que, mais ou menos, terminou a ditadura militar (1964-1985).

P. Ele, no entanto, declara guerra à esquerda e consegue que a direita o deixe em paz, talvez motivada por esse inimigo comum. Mas Bolsonaro não é mais inimigo?
R. A vitória de Bolsonaro é uma derrota da esquerda, mas é uma derrota muito mais importante da direita. Bolsonaro a devorou. Essa direita liberal, limpa, republicana, que quis construir um país de costas para a ditadura, essa direita é o objetivo principal de Bolsonaro. Ele quer acabar com ela e em parte conseguiu. Hoje ela está fora do jogo.

P. Bolsonaro fez com que milhões de pessoas falassem da esquerda como uma entidade única que abarca do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao venezuelano Hugo Chávez...
R. [interrompe] Não existe comparação possível entre Lula e Chávez. Mas existe entre Chávez e Bolsonaro, que pertencem à mesma família de líderes: populistas, mentirosos, líderes que não se importam com o seu país. Lula pode ter cometido erros, eu não sei, talvez o saibamos no dia em que for julgado com justiça. Mas, para mim, até agora, era um líder bom e decente para o Brasil, e sua presidência foi um momento honorável na história do país. Bolsonaro e Chávez, ou Bolsonaro e Maduro, têm mais semelhanças entre si do que diferenças.

P. Durante quase 40 anos e até recentemente o senhor disse que devíamos “quebrar a esquerda”, citando Maurice Clavel, para derrotar a direita. O senhor ainda mantém isso hoje?
R. A esquerda já está quebrada. Você tem por um lado Lula no Brasil, [o ex-presidente socialista François] Hollande na França e o [ex-primeiro-ministro italiano Matteo] Renzi na Itália, grandes líderes da esquerda ocidental, que se separaram da outra esquerda, a falsa, a radical. Na França não há relação entre o ex-presidente Hollande e [o líder da esquerda alternativa francesa, Jean-Luc] Mélenchon. Essa dissociação já aconteceu lá e na Itália também. A verdadeira rachadura, e isso existe na Europa e na América Latina, é o populismo contra os princípios humanistas, universalistas e reformistas. Lula é a personificação dessa diferença. Ele é a esquerda humanista, a verdadeira, aquela que defende os interesses do povo contra o nacionalismo, a xenofobia e a mentira. Contra as tentações de Chávez. Mas a história dele não acabou.

P. As eleições vencidas por populistas não foram desprovidas de candidatos, digamos, tradicionais, aceitáveis, de esquerda e de direita. O senhor está preocupado que certas formas se percam?
R. Esquerda e direita não importam mais. A única corrente que existe agora é que estamos vivendo um momento populista. Com a ajuda da Internet e das redes sociais, a subcultura das televisões, passamos por um momento que dá vantagem aos líderes populistas. E todo político republicano, democrático, razoável e old school deve se adaptar à nova situação. Eles ainda não o fizeram, mas terão de fazê-lo para não serem devorados por esse enorme monstro que está surgindo em todo o mundo.

P. É preciso se adaptar ou contra-atacar?
R. Será preciso tempo. As épocas sombrias nunca duram para sempre. Nos anos vinte, trinta e nos cinquenta havia multidões no Ocidente contra a democracia. E ainda assim esta prevaleceu. Eu acho que a mesma coisa vai acontecer agora. Do que tenho certeza é que não se derrotará o novo populismo usando suas mesmas armas. Os democratas devem ter a coragem de não cair nessa armadilha. Eles têm de defender seus valores mesmo se durante algum tempo são minoria e não são ouvidos o suficiente. Se abandonarem seus valores, estarão perdidos.

P. O mundo se aproxima desse paradoxo de ter que defender a democracia quando a maioria está contra ela?
R. O sonho de muitos líderes é acabar com a democracia. Trump, Bolsonaro, [Viktor] Orban na Hungria. Mas nos Estados Unidos estamos vendo até que ponto a democracia é capaz de resistir. O verdadeiro muro americano não é o que Trump quer construir entre os Estados Unidos e o México, mas o que a sociedade civil norte-americana construiu para ele. Trump não é livre para fazer o que quer e está dando cabeçadas na parede. Talvez isso acabe quebrando a cabeça dele, vamos ver. E o que eu desejo para o Brasil é algo parecido, que se revele um muro da democracia e enfrente a vulgaridade, a estupidez e a ausência de ideias.
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Reportagem Por  Tom C. Avendaño
Fonte:  https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/25/politica/1543176331_063342.html

ESCOLA SEM PARTIDO

Ilustração da coluna do Pondé do dia 26.nov.2018
Luiz Flipe Pondé*

Lei é como elefante numa loja de cristais no que diz respeito a costumes e afetos

Não sou simpático à lei da Escola sem Partido. Sou professor há 22 anos. Ela pode virar um belo sistema randômico de censura. Pais de alunos são imprevisíveis. 

Um dia posso estar falando de darwinismo e um pai evangélico considerar que estou pregando ateísmo. Um dia posso estar dizendo que a espécie humana reproduziu e sobreviveu porque a maioria dela é heterossexual e algum aluno filho de um casal gay pode me acusar de homofobia. 

Você duvida? Se sim é porque anda alienado da realidade ridícula que o mundo está vivendo. As mídias sociais tornaram o ressentimento uma categoria política de ação. Os ressentidos perderam a vergonha na cara.

Não gosto de leis, não confio em juízes, promotores ou procuradores. 

O Ministério Público com frequência nos considera cidadãos hipossuficientes e decide processar você por descrever a relação entre peso e massa na lei da gravidade numa aula —e essa lei não respeitaria as sensibilidades de pessoas vulneráveis psicologicamente devido ao maior peso delas.

Minha oposição à lei da Escola sem Partido não é porque eu não saiba que grande parte dos professores prega marxismo e similares em sala de aula. Prega sim. E a universidade não é um espaço de debate livre de ideias. Isso é um fetiche, para não dizer diretamente que é uma mentira deslavada. 

A universidade é um espaço de truculência na gestão, na sala de aula, nos colegiados, no movimento estudantil. 

Lobbies ideológicos ou não dilaceram as universidades quase as levando à inércia produtiva —principalmente nas “humanas”. 

Quem discordar da cartilha de esquerda é “fascista”. Minha oposição à Escola sem Partido é porque ela é uma lei.

Sei. Ficou confuso? Vou repetir: minha oposição à Escola sem Partido é porque ela é uma lei. Com ela, aumentaríamos o mercado para advogados e a justificativa pra mais gasto com o Poder Judiciário. 

Quem a defende parece não entender que lei em matéria de costumes é como um elefante em loja de cristais. Outra área em que lei é como um elefante em loja de cristais é no campo dos afetos.

Meu argumento, ao contrário do que podem pensar inteligentinhos de direita e de esquerda, é profundamente conservador, no sentido que o conceito tem na filosofia britânica a partir do século 19
—o conceito sem a palavra surge no final do 18 com Edmund Burke (1729-1797), a palavra surge na França nos primeiros anos do século 19, segundo o historiador das ideias Russel Kirk (1918-1994).

No sentido filosófico, e não no debate empobrecidos das militâncias, ser conservador é ser cético em matéria de invenções políticas, econômicas, sociais ou jurídicas. 

Um temperamento conservador, como diria Michael Oakeshott (1901-1990), filósofo conservador britânico fundamental para o assunto, desconfia da fúria “racionalista” de se inventar, por exemplo, leis que interfiram sobre hábitos e costumes (estes, sim, pérolas para um cético em política).

Aliás, pouco se sabe entre nós sobre o que é, no sentido erudito e conceitual, ser conservador. Qual a razão de não sabermos? Pergunte aos professores e coordenadores de escolas e universidades. A bibliografia escolhida por eles é, na imensa maioria das vezes, uma pregação em si. 

Alunos de escola, de graduação e pós-graduação, constantemente, são boicotados em sua intenção de conhecer outros títulos que não seja a cartilha com Marx e seus avatares.

A lei da Escola sem Partido é uma solução ruim para um problema real. A crítica a ela, sem reconhecer que sua motivação é justificada, presta um enorme desserviço ao debate. 

Com isso não quero dizer que professores marxistas de história mentindo pura e simplesmente ou restringindo o acesso a múltiplas “narrativas” (como é chique falar agora) sejam a principal questão no Brasil de hoje em dia. 

Existem muitas outras, como economia, corrupção, violência urbana, e outras mais. Mas, a formação educacional ideologicamente enviesada, por exemplo, faz muita gente “educada” abraçar movimentos como o Lula Livre, achando lindo.

A educação piorou muito depois que os professores resolveram pregar em sala de aula em vez de ensinar rios e capitais dos estados e países. Simples assim. Mas aumentar o mercado jurídico no país é um engano grave. Já somos presas demais do crescente lobby jurídico para não ver isso.
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*Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP. 
Imagem:  Ricardo Cammarota/Folhapress
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2018/11/escola-sem-partido.shtml

domingo, 25 de novembro de 2018

Com o autor, certezas foram desinstaladas e nossa zona de conforto virou pó

 Leandro Karnal*
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O mundo de Yuval Harari
 
É sempre uma alegria acompanhar o sucesso de um intelectual como Yuval Harari. O historiador israelense ganhou o público mundial com Sapiens, Homo Deus e, recentemente, 21 Lições para o Século 21. Na obra que o consagrou inicialmente, ele pensou o passado, como o Homo Sapiens dominou o mundo e quais os seus comportamentos. Homo Deus ousou em área tabu para os filhos de Heródoto: o futuro da nossa espécie. Finalmente, com as 21 Lições, Harari colabora para aprimorar uma agenda específica de debates sobre inteligência artificial, redes, ecologia, Estado e tantas outras questões.  

Qual a base do sucesso das obras? O público em geral parece valorizar duas narrativas distintas em História. A primeira é a de micro-história, livros que tratem de coisas mais isoladas e com detalhes quase biográficos ou anedóticos. Exemplos felizes do primeiro tipo: o italiano Carlo Ginzburg (especialmente com O Queijo e os Vermes), a norte-americana Natalie Zemon Davis (O Retorno de Martin Guerre) e o francês Le Roy Ladurie (Montaillou – Cátaros e Católicos Numa Aldeia Occitana). Da mesma forma, biografias sempre foram o filé do mercado editorial a cargo de historiadores. O fascínio da narrativa em torno de um indivíduo ou de um tema tem relação, sem nada de pejorativo na constatação, com o gosto por um bom romance. 

O outro campo, oposto-complementar de sucesso, é a macronarrativa que confira direção e sentido a um recorte amplo. São autores, historiadores ou não, que trazem uma lógica explicativa. Assim brilham/brilharam Paul Kennedy (Ascensão e queda das Grandes Potências) ou Jared Diamond (Colapso e Armas, Germes e Aço). Ao final da leitura, temos um vetor amplo e direto, algo que une o caos dos acontecimentos esparsos e traz tranquilidade ao navegador do oceano fático. 
 
Os livros amplos costumam dar ao leitor uma iluminação. Podem ser imensos e desafiadores como o de Fernand Braudel ao analisar o Mediterrâneo à época de Filipe II, ou mais leves como Sapiens, mas trazem a certeza de um fio condutor que costuma ser benéfico ao bem-estar do nosso cérebro. Não gostamos do aleatório, do fluxo sem ordem do acaso imponderável da história. Amamos o sentido real ou artificial dado pelos autores.  

O que une todos os citados é o bom texto. Escrever bem, com certa tensão narrativa, uso interessante de exemplos e um visível lastro de formação é a chave de muitos, em especial de Yuval Harari. O autor das 21 Lições segue explorando visões amplas, com maior ênfase em trechos subjetivos, como reclamar do marido que não lhe dá atenção na cama em função do celular. A novidade agora é um tom de ensaio assumido sem perder o apelo do embasamento acadêmico. O grande público quer e necessita de ideias boas sem linguagem inacessível, demanda justa que deveria seduzir mais intelectuais. 

O livro é um sucesso e isso me faz pensar se todos compreendem bem o que é dito. Ele balança certas convicções assentadas no grande público. Um exemplo? Harari minimiza o risco do terrorismo na prática e trata da impotência crônica do fundamentalismo. Ao falar do impulso destruidor do Estado Islâmico, por exemplo, lembra que radicais compartilham ídolos em comum com o Ocidente. Os jihadistas são capazes de eliminar todo símbolo histórico religioso pela frente na sua sanha irracional, porém... respeitam o rosto de Benjamin Franklin nas notas de cem dólares localizadas em bancos encontrados. Seriam radicais, porém práticos.  

Iconoclastia é a marca do autor, porque ele fala de narrativas (religião, Estado) e relativiza cada uma de forma inquietante. Os ismos vão caindo página a página, respeitados e imponentes, porém esvaziados da sua pretensão metafísica: Budismo, Cristianismo, Judaísmo, Islamismo, Nacionalismo, Liberalismo, Socialismo, etc. As afirmações do autor israelense sobre o Judaísmo são a mostra de que o bom senso crítico não reconhece identidades tribais. Questões que flutuam na leitura: você realmente é livre? O que seria a educação efetiva para o nosso mundo? Qual o papel da humildade nas relações? Como lidar com fake news?  

O final da obra é surpreendente. O cérebro do leitor foi desafiado em questionamentos imensos. Certezas foram desinstaladas e nossa zona de conforto virou pó. Assim, depois de muita água debaixo da ponte, o autor recomenda a meditação como um dos modelos para nossa consciência e capacidade de enfrentar o mundo multifacetado e desafiador. O próprio Harari destaca que suas duas horas de meditação diária estão na base do seu desenvolvimento mental e mente atilada reconhecida até pelos detratores. Como o pensamento do autor é muito original, intensamente livre e percuciente ao extremo, fica a dúvida se o brilho do historiador nasce da sua inteligência natural, da sua formação brilhante em Israel e na Inglaterra ou, como se insinua, no exercício da meditação Vipassana. Resta ao leitor acessar a imitação que lhe pareça mais eficaz para alcançar a agudeza do cérebro lúcido do autor de 42 anos que faz um imenso sucesso entre o público e os líderes mundiais. Bom domingo para todos nós. 
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 *É um historiador brasileiro, professor da Universidade Estadual de Campinas, especializado em História da América.
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/colunas/leandro-karnal 25/11/2018
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CAPOTAGEM

  Jorge Mautner e João Paulo Reys*

 Jorge Mautner, durante o lançamento do livro "Kaos Total", em São Paulo, em 2016 - Bruno Poletti - 17.fev.16/Folhapress

Valores humanistas se preparam para o massacre

A velocidade da comunicação estabeleceu a simultaneidade que se amalgamou com outras simultaneidades na velocidade da luz e criou o efeito de capotagem. Como um carro que você acelera muito e capota, mas além: se desintegra.

Algo que te faz chorar agora, daqui a pouco já não faz. A exaustão provocada por isso é inédita. Há uma série de robôs que não são produzidos em fábricas, mas nos próprios neurônios. A informação desinforma pela ambivalência de simultaneidades vertiginosas.

As eleições mudaram no mundo todo. "Zuckerberg": montanha de açúcar (em alemão). É tudo domínio. Trump, na CNN, disse ser do "kaos". A quantidade altera a qualidade.

Capota-se de tal maneira que ressurgem antigas restrições. É como em Kierkegaard (1813-1855): o ser humano está em alta febre, girando a cabeça no travesseiro de um lado para o outro. Ainda há recantos oníricos, mas estão cercados de pessoas filmando e interpretando em linguagem capotada. É uma venda contínua à qual todo o mundo aderiu.

Onde restou a caricatura do socialismo, como na Venezuela, há um desastre absoluto. A extrema direita manobra a capotagem. Valores humanistas são expostos na vitrine, mas no fundo se preparam para o massacre. Há todas as aparentes escolhas, mas elas vêm capotando.

Jesus um dia chegou a um vilarejo onde viviam dois homens possuídos por demônios. Apavorados ao vê-lo, os demônios pediram que o filho de Deus tivesse piedade. Jesus permitiu que tomassem os corpos de porcos que estavam por perto. Endemoniados, os porcos saíram correndo até despencar, capotando, em um precipício. Imaginar e produzir o inesperado que vai impedir a capotagem até o abismo é um desafio para a arte, mas ela está capturada pela publicidade.

A vagarosidade é imprescindível para o pensamento, mas é desincentivada em um mundo de 8 bilhões de pessoas. A constituição única de cada ser parece ter sido destruída. Há uma vontade de se igualar a aquilo que está sendo apresentado pela comunicação.

Seja uma quitanda ou uma enorme corporação, todos perguntam ao computador o que fazer e obedecem à recomendação da máquina. Isso vem desde o telégrafo, mas se transformou nesses anos em que o computador dá as respostas corretas a partir do conglomerado de simultaneidades. Nunca houve tamanha clarividência. As pessoas têm a resposta de tudo por meio da comunicação e acham que sabem, mas não sabem. Não sabem porque não sabem as perguntas que levaram a aquela resposta que agora se apresenta em movimento alucinado.

Os governos com o rádio eram uma coisa e se tornaram outra com a televisão. Hoje, são um negócio no qual Trump é profissional, como um demônio. Em todos os sentidos: é mau caráter, abusa de mulheres.
Como Bolsonaro, promete capotar-nos de volta a um passado de KKK e ditadura, um impossível estado pré-capotagem. Qualquer coisa que eles irradiam é fruto de seu imenso conhecimento como vendedores de almas. Juntos, têm o dom de embaralhar tudo e ameaçam nos levar, capotando, até o abismo.
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Jorge Mautner e João Paulo Reys
Escritor, compositor e criador do Partido do Kaos; Documentarista e roteirista de "Kaos em Ação", com previsão de lançamento em 2019 (HBO)
FONTE:  https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2018/11/capotagem.shtml

sábado, 24 de novembro de 2018

Uma história de horror

Lya Luft*

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Sou fissurada em notícias. As do meu país e tudo mais que aparecer e eu puder entender. Às vezes, preferiria não entender. Outras vezes, mudo de canal para não onerar ainda mais minha alma, que não anda lá essas coisas. Mas sou, sim, curiosa, interessada, assombrada, perplexa e às vezes maravilhada com as coisas do mundo. As Coisas Humanas, provável título de um novo livro meu, que talvez apareça em meados de 2019. Mas eu falo de notícias. Guerras, carnificinas, incêndios, terremotos, inundações, tiroteios, toda a trama que nos envolve e persegue e empurra há milhões de anos. Indignação, encanto, pasmo, se alternam em quem assiste. (E insiste.) 

Então, noticioso correndo na tela, mas eu lendo e abstraindo de algum modo o filme das coisas humanas que passa na minha frente - mãe de família e trabalhando em escritório em casa, cedo aprendi a me concentrar, mesmo com o chamado rumor da família por perto -, levanto os olhos e foco um rosto de criança. Todos os traços de um ainda-quase-bebê, pode ter quatro anos, pouco menos ou mais. Linda menina, olhos enormes, melancólicos e perplexos. Ela não entende o que acontece ao seu redor, no campo de refugiados do Afeganistão, tendas espalhadas no areal sem um capim nem um poço à vista, só areia, vento, secura e rostos como máscaras de severidade ou dor. Nas crianças, ainda sombras de sorriso ou traquinices. 

A menininha sentada, enfeitada com colares e brincos, ao lado da mãe, de um velho com turbante torto e barba com ar de suja e um menino - de 10 anos, fico sabendo depois. Até a curtida e experiente jornalista que os entrevistava parecia não encontrar palavras, enquanto eu, aqui do outro lado do mundo, não encontrava nem pensamentos claros. Resumo da tragédia: a mãe, cujo marido tinha sido morto numa escaramuça semanas atrás, viera ao acampamento com três ou quatro filhos, e a linda menininha sendo a menor. Não tinham mais o que comer, estavam famintos, acabariam morrendo ali mesmo. 

Então, a mãe relata com ar severo mas decidido, sem encarar a entrevistadora: ela tinha resolvido vender a menina. Áquila, ainda com as bochechinhas inocentes de quase-bebê, tem seis anos. A mãe, magérrima e tisnada de muito sol e sofrimento, diz com simplicidade: "Ela ainda não entendeu, porque é muito pequena, mas foi vendida para esse senhor aí". O velho ao lado, turbante torto, lacunas entre os dentes da frente, se coça com vago desconforto e diz que sim, que ali não é grande coisa, que afinal a família morria de fome, e que ele vai pagar, em três anos, provavelmente, os US$ 3 mil pelos quais adquiriu a criança. 

A mãe, remexendo-se, revela meio incomodada que até agora recebeu apenas US$ 70. A criança olha, pasmada, mãozinhas ainda de bebê postas no colo, imagem da inocência diante de um mundo brutal. A jornalista se levanta, a câmera é recolhida - eu desligo a TV e fico olhando o verde do parque lá fora, querendo ter, amar, abraçar, alegrar e cuidar, aquela menininha chamada Áquila pela qual até agora a mãe recebeu US$ 70, talvez mais do que os 30 dinheiros trocados por Cristo. Mudou o mundo, ou só ficou mais pesado porque dentro da nossa sala?
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*Escritora
Fonte:  http://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=8c465432a5c7eaa0f3fc7c03401ce607 24/11/2018
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Pascal, arranja o que fazer

Juremir Machado da Silva*
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O francês Blaise Pascal, nascido na cidade de Clermond-Ferrand, em 1623, viveu muito ou viveu pouco? Ele morreu aos 39 anos de idade. A expectativa média de vida masculina na sua época era de 26 anos. Como se vê, cada tempo com o seu metro. Pascal tinha uma convicção mais forte do que todas: nós, humanos, não suportamos a solidão, o repouso e o tédio. Em termos claros e válidos até hoje, ficamos loucos de pedra quando não encontramos algo para fazer. Precisamos estar sempre ocupados. Sofremos demais com o barulho dos nossos pensamentos.

Pascal ocupava-se com filosofia, lógica, ciência, física, religião e matemática. Inventou uma máquina de calcular. Aos 16 anos, escreveu um tratado que chamou a atenção de René Descartes. Dizia-se que nada equivalente fora escrito desde Arquimedes. A hipótese de Pascal para explicar esse nosso horror à imobilidade é discutível e discutida: teríamos medo de ficar a sós conosco mesmos. Medo de quê? De pensar em nossa finitude, na morte, na miserabilidade humana, em nossa situação de desamparo. O leitor pode exclamar: “Eu adoro ficar sem fazer coisa alguma. Fico de papo para o ar horas e horas numa boa”.

Sem ouvir música? Sem celular? Sem boas lembranças para distrair? Honestidade, leitor, honestidade. Blaise Pascal legou à posteridade os seus “Pensamentos”. Ele era bom de frases e refletiu sobre muitas coisas, entre as quais, de modo especial, a felicidade. Dado que não conseguimos resolver certas questões como a da morte, decidimos, segundo ele, não pensar nisso. Uma estratégia. Funciona? Nem sempre. O que queremos? “O ser humano quer ser feliz, e somente quer ser feliz, e não pode deixar de querer sê-lo. Como fará então?” Ótima pergunta. Sempre que se fala assim é por não se ter a resposta. Ou não?

Pessimista, vítima de alucinações desde o momento em que sofreu um terrível acidente de rua – Pascal via um abismo abrindo-se para engoli-lo –, viveu recluso. Pode haver pavor maior? Pode. Mas esse já era horrível. O acidente que mudou a vida de Pascal aconteceu em 1654. Era dia de festa. Ele estava numa carruagem puxada por seis cavalos. Na ponte de Neuilly, dois cavalos assustaram-se e partiram em disparada. Como não havia parapeito, caíram na água. O sistema de atrelamento se rompeu e a carroça ficou balançando à beira do abismo.

O pobre Blaise carregaria o fardo diário dessa lembrança convertida em pesadelo. A experiência da carruagem teve para ele também o valor de uma iluminação. Ele pensou que morreria. Mudou de vida. Nunca se livraria da angústia que o acossara por minutos eternos. A palavra felicidade surge, porém, com frequência em seus textos. É preciso que a religião, “para tornar o homem feliz”, mostre-lhe que há um Deus, “que se é obrigado a amá-lo, que a nossa verdadeira felicidade é estar nele”. Qual é o problema? As trevas que nos impedem de enxergar a luz.

Cuidado com a vaidade – Não fosse assim, seria fácil. Não é. Como diz a canção, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. O caminho não costuma ser reto. As dores quase sempre são maiores do que as delícias ou acabam por nos vencer. Ser um gênio infelizmente não garante a felicidade. Nem a estupidez. As misérias humanas, visíveis por toda parte, devem levar a Deus, que pode nos redimir de tantas iniquidades. Não temos como escapar dos entretenimentos que nos distraem de nossos medos, mas não podemos ser felizes realmente só por meio deles. Que fazer? É preciso dar o salto para Deus, fazer a grande aposta, arriscar tudo. Pascal queria ajudar a encontrar remédios para os nossos males, que nunca são poucos.

Pascal era hologramático. Segundo ele, como gosta de lembrar o velho sábio francês Edgar Morin, a parte está no todo, que está na parte. Estamos em nossas células, que estão em nós. Vivemos em nosso espírito, que vive em nós e nos faz viver. Pascal apostava que nos resta “um poderoso instinto de felicidade”, parte da nossa “primeira natureza”. As nossas misérias – ambições, desejos desmurados, ânsia do poder, invejas, o que quisermos – funcionam como uma “segunda natureza”.

Ser feliz é tudo o que ser quer. Pascal sabia disso. Ele queria, no entanto, separar a felicidade ilusória da verdadeira felicidade. Os seus contemporâneos não estavam preparados para isso. E nós? Estamos prontos para tanto? O grande inimigo da felicidade é a vaidade. Nada de novo no front. Pascal capturou o que sentimos. Como é possível que não queiramos ser enganados se aceitamos enganar? Como reprovar moralmente quem nos despreza se nos comportamos de forma desprezível? Como esperar a paz do permanente se se vivemos na ilusão do efêmero, na autoindulgência, na mentira, na hipocrisia, na enganação, na encenação, no jogo de aparências e na adulação?

Pascal afirmava: “A coisa mais importante na vida é a escolha de uma profissão”. Como fazer a escolha certa tão cedo? Ele garantia para quem quisesse ouvir: “A infelicidade dos homens provém de uma só coisa, que é não saberem ficar em repouso num quarto”. Nada mais difícil.
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* Escritor. Sociólogo. Jornalista.
Fonte:  http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2018/11/11364/pascal-arranja-o-que-fazer/ 24/11/2018
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sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O Brasil errou

Para Paul Krugman, Nobel de Economia de 2008, a história mostra que a adoção brusca de medidas de austeridade leva a crises profundas a curto prazo


Em 9 de novembro, o economista Paul Krugman escreveu em sua coluna no jornal The New York Times que a crise brasileira foi agravada pelas medidas de austeridade adotadas pelo governo Dilma a partir de 2015. Para ele, laureado com o Nobel de Economia em 2008 por seus estudos em comércio internacional e economia geográfica, momentos de recessão pedem um maior gasto governamental, o oposto do que fez o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Seu artigo foi mal recebido por economistas brasileiros, que o acusam de ignorar que foi justamente o excesso de despesas do governo que levou o país à crise. De Nova York, onde mora e leciona na City University of New York Graduate Center, Krugman conversou com VEJA por telefone sobre esse e outros assuntos. Em 12 de dezembro, o economista estará em São Paulo, onde falará a 350 CEOs e lideranças das maiores empresas do Brasil em evento organizado pelo Experience Club. A seguir, sua entrevista.

Em 2015, o senhor afirmou que a crise em que o Brasil estava entrando era similar à do Canadá, motivada pela queda no preço das commodities. Olhando em retrospecto, ainda acha que a situação era parecida? Não. Eu estava muito mais otimista sobre o Brasil do que deveria. Dois fatores importantes me escaparam na época. Um foi o colapso do mercado consumidor, aparentemente causado por uma explosão na dívida das famílias. Depois, a resposta do Brasil à recessão foi uma surpresa para mim. Eu não esperava um aperto repentino na política monetária e um movimento brusco em direção a uma austeridade fiscal. Fazia tempo que eu não via um país dar uma guinada tão aguda em tão pouco tempo para uma contração nas políticas fiscal e monetária diante de uma crise.

O Brasil errou, então, em frear os gastos, mesmo com um déficit fiscal importante? Claro! O Canadá foi prudente e se comportou como uma economia clássica: afrouxa a política monetária quando a economia se contrai e a aperta quando ela melhora. O Brasil adotou medidas pró-cíclicas, que francamente eu não esperava ver em lugar nenhum. Não deu certo.

Era previsível, na época, que a crise fosse piorar, uma vez que a resposta do governo ficou clara? Com certeza. Por isso digo que fiquei chocado com as medidas de austeridade fiscal. Eu lia os jornais e via o governo dizendo que a austeridade aumentaria a confiança dos investidores e a economia voltaria a crescer. Meu Deus! Há pouquíssimo tempo realizou-se uma experiência massiva dessa doutrina na Europa, e foi um fracasso completo. Fico pasmo de ver alguém achar que funcionaria em outro lugar.

Não foi justamente a mão aberta do governo que causou o endividamento da população? Não conheço o Brasil bem o bastante para lhe dizer a causa exata do endividamento da população. Mas vamos fazer uma comparação com os EUA, que, como o Brasil, têm uma situação fiscal insustentável a longo prazo. Não tão ruim quanto a do Brasil, que fique claro, mas os programas sociais e as leis tributárias atuais não podem ser mantidos indefinidamente porque a conta não fecha e o déficit está crescendo. O maior problema americano é o custo da saúde para uma população que está envelhecendo, então precisamos baratear a saúde e achar novas fontes de receita. No caso do Brasil, o maior problema fiscal são as aposentadorias e pensões. É preciso achar uma maneira de reduzir o tamanho da Previdência gradualmente. É uma solução óbvia. É fácil falar, não sou político, mas a lógica econômica é esta: achar soluções graduais e de longo prazo. Uma redução abrupta no investimento governamental em meio a uma recessão é loucura! Há vasta evidência histórica de que as consequências para a economia são terríveis.

“A receita de austeridade que funcionou para o Chile não deu certo para todos os países que a tentaram. Pode funcionar 
no Brasil, mas a história mostra que 
não há nenhuma certeza disso”


Os brasileiros votaram em uma plataforma econômica que promete ainda mais austeridade. O senhor acha que foi uma aposta errada? Não conheço o bastante o clima político no Brasil. Vamos ver o que a nova administração vai fazer. Mas me parece que há muitas medidas de austeridade de curto prazo aí, e não é disso que o Brasil precisa. Outros governantes no mundo foram eleitos com uma plataforma política parecida com a de Bolsonaro, porém na prática gastaram mais a curto prazo. Mesmo aqui, nos Estados Unidos, os gastos do governo aumentaram com Trump, apesar de a situação econômica ser bem mais confortável. Enfim, não sei o que vai acontecer no Brasil, mas é claro que o país tem programas sociais que não consegue bancar. O Brasil era louvado até há pouco por ter reduzido a desigualdade e a pobreza. É triste ver que isso está sendo revertido.

A equipe econômica de Bolsonaro tem inspiração declarada nas medidas liberais adotadas pelo governo chileno nas décadas de 70 e 80. É um modelo aplicável ao Brasil de hoje? Suspeito que não estejamos falando de duas economias similares. De qualquer modo, é importante lembrar que o choque liberal promovido pelos chamados Chicago Boys no Chile a partir de 1973 produziu uma crise terrível a partir de 1981, bem antes da recessão generalizada que assolou a América Latina. O Chile passou por um pesadelo durante dez anos. A história feliz que ouvimos veio somente depois. Quem pensa que as medidas de austeridade vão causar um retorno imediato deveria olhar com cuidado para as lições do que de fato aconteceu no Chile.

Então a receita chilena não funciona no Brasil? O Brasil certamente é menos aberto do que deveria, precisa liberalizar o comércio. Permita-me, porém, falar do México, um lugar que conheço melhor do que o Chile. Os mexicanos fizeram uma dramática abertura da economia para o exterior, e ela se tornou mais competitiva. No entanto, o país não decolou como se acreditava que aconteceria. O que me leva a crer que a história do Chile tem aspectos particulares que não são replicáveis em outros lugares. Talvez uma população com nível de educação mais alto, não sei. O ponto é que a receita que funcionou lá não funcionou em todos os países que a tentaram. Pode funcionar no Brasil, mas a história mostra que não há nenhuma certeza disso.

O senhor ganhou um Nobel graças a seus estudos sobre comércio internacional. Acha que o Mercosul atrapalha o Brasil, como declarou Bolsonaro? Os ingleses tinham uma ideia parecida quando votaram o Brexit, a saída da União Europeia, e não está sendo fácil para eles. A ideia de que um país vai compensar o que perde em um acordo comercial com seus vizinhos com excelentes acordos em outros continentes é ilusória. No geral, não existem tantas proteções tarifárias no mundo como se acredita. É uma visão dos anos 50, quando de fato as barreiras eram enormes. Hoje a média de tarifas para bens manufaturados no mundo é de 3%. Não há muito espaço para negociação aí.

O time de Bolsonaro tem falado em baixar tarifas de importação unilateralmente, sem a necessidade de negociar acordos com outros países. A ideia é boa? Embora seja um dos países mais importantes no mundo emergente, o Brasil ainda é pequeno em termos de relevância no comércio global. É o tipo de país que se beneficiaria muito de uma derrubada unilateral de suas barreiras tarifárias. Vocês já tiveram barreiras muito mais altas do que as que têm hoje. Mas ainda são protecionistas. A Índia, por exemplo, era o país mais fechado do mundo, quase não comercializava com o exterior. Produzia tudo o que consumia, e era terrivelmente ineficiente. Por conta própria, liberalizou seu comércio, a economia decolou e a população teve acesso a produtos melhores e baratos.

“O banco central é independente da Casa Branca por bons motivos, e isso deve ser respeitado. Trump deveria calar a boca, mas infelizmente não vai fazer isso”


Bolsonaro tem falado em seguir a doutrina Trump e limitar o acesso da China ao mercado nacional. Faz sentido? É uma ideia estúpida para o Brasil, que é muito mais dependente do comércio com a China, e mesmo para os Estados Unidos. É bizarro. O Brasil está numa ótima posição para se aproveitar dessa política irracional americana. Nós somos competidores diretos para vários produtos, e a guerra comercial de Trump oferece ao Brasil uma oportunidade única de ganhar esse mercado.
E para os Estados Unidos, não há nenhum ganho possível em uma guerra comercial? A ideia de que os EUA são vítimas de seus parceiros comerciais está errada. Um ou outro setor foi prejudicado, e isso é um problema real, mas no geral o país está mais rico graças ao comércio internacional. Importamos produtos melhores e muito mais baratos do que poderíamos produzir, e usamos nossa indústria para exportar coisas que somos particularmente bons em fazer. A determinação de Trump de confrontar a China e a Europa está ligada a uma obsessão por déficits na balança comercial bilateral com elas, mas esse não é um bom critério. Essa discrepância não é ruim, uma vez que nosso dinheiro acaba rendendo mais. Não há um raciocínio lógico por trás dessa guerra de Trump, a não ser mau pensamento econômico.

O Fed, o banco central americano, tem dado sinais de que vai aumentar a taxa básica de juros. Trump é contra. Quem tem razão? Pode até ser que o presidente tenha razão, mas ele é a última pessoa no mundo que deveria fazer esse julgamento. Existe um argumento, com o qual eu concordo, de que o Fed deveria manter os juros onde estão até que houvesse evidência de inflação alta. Até porque a meta de inflação americana é, na minha opinião, muito baixa. Mas essa é uma avaliação a ser feita por analistas independentes, não por um político que tem interesse pessoal no assunto. O banco central é independente da Casa Branca por bons motivos, e isso deve ser respeitado. Trump deveria calar a boca. Infelizmente, ele não vai fazer isso.

Os analistas que preveem uma estagnação global nos próximos anos são muito pessimistas? Acho que não existe um grande problema que grite “crise”, mas há uma série de pontos fracos que podem desencadear uma recessão maior. A China está desacelerando, o que contribui para diminuir o preço das commodities, e os emergentes sofrem com isso. Argentina, Turquia e Brasil estão com problemas. O mercado imobiliário americano ainda anda fraco. E a lista continua. Nada que sozinho possa derrubar a economia, mas a soma pode ser problemática. E o que mais me preocupa é que não temos instrumentos para lidar com uma possível recessão. Os juros americanos já estão muito baixos. Na Europa e no Japão, os juros estão em zero. O que fazer caso venha uma recessão? Não acho que uma crise esteja no horizonte, mas não é impossível.

Publicado em VEJA de 28 de novembro de 2018, edição nº 2610
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 Reportagem Por Felipe Carneiro

O PARAÍSO DA CLASSE MÉDIA


 
Parabéns, mundo. Enfim, uma boa nova. Pela primeira vez na história da humanidade, pouco mais da metade da população global (3,8 bilhões de pessoas) vive em lares que podem ser classificados como de "classe média" ou "ricos". A partir de agora, "pobreza" e "vulnerabilidade" não mais retratam as condições de vida da maioria dos habitantes do planeta. Este momento de inflexão ocorreu em setembro e foi identificado por um estudo dos pesquisadores Homi Kharas e Kristofer Hamel, da Brookings Institution, "think tank" com sede em Washington. Para tanto, eles esmiuçaram dados de renda e gastos em domicílios de 188 países.

Outro dado que chama atenção no trabalho de Kharas e Hamel é a rapidez com que se dá essa mobilidade, com destaque para o avanço da classe média. Atualmente, cinco pessoas ingressam nesse grupo social a cada segundo - tempo equivalente a um breve piscar de olhos. Enquanto você leu esta reportagem até aqui, por exemplo, isso aconteceu com 210 pessoas. O número de ricos também avança, mas em ritmo menos estonteante - um a cada dois segundos. Por fim, também em um segundo, uma pessoa deixa a condição de pobreza extrema. Salvo um infeliz revés econômico mundial, desde já a Terra vive uma nova era em que a classe média se impõe como maioria global.

Tudo seria maravilhoso não fosse um detalhe tão relevante quanto incômodo - nós, brasileiros, estamos à margem dessa ascensão social. Não foi assim, no entanto, entre 2003 e 2014. Nesse período, durante o "milagre das commodities", 66,5 milhões de brasileiros ascenderam à classe média, contingente que corresponde à população da França. Nada mal. Nessa fase, indicam dados do economista Marcelo Neri, da FGV Social, o PIB per capita cresceu 28,4%, enquanto a renda média saltava 62,2% (ela espichou, portanto, mais do que a economia).

O consumo explodiu. "Dados de 2014 mostram que, naquele ano, 33,6% das pessoas que viajavam de avião o faziam pela primeira vez, assim como 46,2% das que contratavam planos de saúde ou 65,5% das que compravam um computador", diz Neri. O problema, porém, é que tudo isso começou a virar pó antes mesmo da chegada de 2015.

Com a recessão, ainda no fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT), todos os indicadores embicaram para baixo. Entre 2014 e 2018, a renda da classe média (mediana) caiu 14,7%, reduzindo o ganho acumulado desde 2003 de 95,7%, em 2014, para 66,89%, no segundo trimestre de 2018. No início de 2016, estimativas apontam que 4 milhões de brasileiros retornaram às classes D e E, ainda que tais números variem bastante por conta dos critérios de divisão dos grupos sociais.

São comportamentos econômicos desse padrão, ciclotímicos, que disparam perguntas como "Afinal, por que alguns países dão certo e outros não?". Desde o início desta década, grande parte do debate sobre esse tema tem sido catalisado pela tese dos economistas Daron Acemoglu, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), e James Robinson, ex-Harvard e atualmente na Universidade de Chicago, autores do best-seller "Por que as Nações Fracassam". A dupla de professores, após 15 anos de pesquisas, concluiu que países são pobres porque os detentores do poder fazem escolhas que geram pobreza. Não falham, contudo, por equívoco ou ignorância. Agem de propósito. O principal problema, portanto, é o dolo, indução ao erro.

As instituições políticas, na visão de Acemoglu e Robinson, são as principais culpadas pelos fiascos nacionais. Elas pecam quando não constroem estruturas econômicas capazes de criar estímulos corretos para motivar agentes de mercado e população em geral. A dupla de economistas divide essas instituições em duas categorias: inclusivas e extrativistas. A primeira estimula a participação das massas no processo econômico, em condições razoavelmente equânimes, e permite que pessoas façam o melhor uso possível de seus talentos.

Seu marco histórico foi a Revolução Gloriosa, no Reino Unido, entre 1688 e 1689, que reduziu poderes da monarquia e, quase meio século depois, engendrou a Revolução Industrial, em 1760. Já o segundo tipo, extrativista, limita o poder nas mãos de poucos. Estes, por sua vez, organizam a sociedade em função de seus interesses. A riqueza é gerada para aqueles que já a detêm. O capitalismo de compadrio é uma variação desse modelo.

As versões inclusiva e extrativista podem ser separadas por uma linha tênue, como uma simples cerca. A cidade de Nogales, no Arizona (EUA), por exemplo, tem renda familiar média de US$ 30 mil anuais, serviços eficientes de saúde, segurança e educação, além de um governo considerado agente a serviço da população.

Já a homônima Nogales, em Sonora (México), tem um terço da renda familiar da vizinha americana. Ali, a maioria dos adultos não completou o ensino médio e muitos adolescentes não vão à escola. A criminalidade é alta e os habitantes convivem com a corrupção e a incompetência dos políticos. "Inexistem diferenças geográficas, climáticas ou entre tipos de doenças prevalentes na região, pois não há nada que impeça os micróbios de cruzar a fronteira entre os EUA e o México."

O livro faz uma comparação similar entre bilionários, o americano Bill Gates e o mexicano Carlos Slim. A ascensão de Gates é conhecida. Ele é cofundador de uma das empresas mais inovadoras do mundo, a Microsoft. Isso não impediu que o Departamento de Justiça americano o processasse por abuso de monopólio. No México, o enriquecimento de Slim não se deu pela inovação. Sua maior tacada foi a aquisição da Telmex, o monopólio mexicano de telecomunicações, privatizado em 1990. Embora Slim não tenha feito a oferta mais alta pelo conglomerado, um consórcio liderado por seu grupo venceu o leilão. Em vez de efetuar o pagamento à vista, ele o postergou, usando os dividendos da Telmex para quitar a compra. Um monopólio público tornou-se monopólio de Slim.

Essa não é a única teoria produzida para esclarecer o que está por trás dos tropeços, e eventuais desastres, das nações. Existem outras explicações. Muitas delas levam em conta fatores geográficos, culturais ou mesmo a ignorância, embora todas essas possibilidades sejam contestadas pelos argumentos de Acemoglu e Robinson. Na avaliação do professor Fernando de Holanda Barbosa, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV, a abordagem da dupla de economistas do MIT e de Harvard é correta, mas não elimina a necessidade de análise específica de cada caso.

Barbosa afirma que a dinâmica do crescimento, em linhas gerais, está amplamente mapeada. Ela se baseia na acumulação de capital tanto físico quanto humano, assim como na inovação tecnológica. Ainda assim, diz, muitas nações são incapazes de usar esse conhecimento, disponível em livros e textos de economia.

No Brasil, o emprego dessa fórmula é comprometido por uma acentuada tendência pró-consumo, segundo o professor. Ela se impõe por aqui em detrimento da poupança. "Nas campanhas políticas, isso fica evidente", diz. "Como vimos recentemente, todos os candidatos oferecem gastos e mais gastos para os eleitores. Ninguém fala em taxas de investimento ou produtividade. Se fizer isso, aliás, o sujeito é capaz de perder a eleição."

Samuel Pessôa, pesquisador da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV, tem uma visão curiosa a respeito do mesmo problema. Ele diz acreditar que essa "oferta abundante de gastos", diferentemente do que consta no imaginário popular, não é obra exclusiva da irresponsabilidade da classe política.

"A agenda da sociedade nos últimos 40 anos não foi de crescimento econômico", diz Pessôa. "A população quis nesse período o aumento dos gastos com serviços públicos, e essas demandas foram atendidas pelos políticos. Na verdade, a democracia conseguiu entregar o que a sociedade reivindicou. " Ele observa que, diante da carência nacional em áreas como educação, saúde e infraestrutura, só para citar alguns exemplos, esse padrão de escolha social é compreensivo. O problema é que compromete de maneira incondicional o crescimento sustentável.

O agravante é que, ainda assim, foram bastante relativos os resultados práticos das melhorias sociais obtidas no país desde a Constituição de 1988. Em 1980, afirma o professor Marcelo Neri, da FGV Social, a expectativa de vida era de 62,5 anos no Brasil. Em 2016, aumentou para 75,8 anos. Ou seja, a cada três anos do calendário, avançou pouco mais de um ano. Foi um salto notável, mas não passou pelo ajuste de uma reforma na Previdência. Assim, o Brasil gasta 13% do PIB com o sistema previdenciário, enquanto o Japão, a nação mais longeva do mundo, despende 10% do seu produto interno, embora tenha uma população com mais de 65 anos 350% maior que a brasileira.

Na educação, um campo-chave para o crescimento, deu-se algo parecido. Em 1990, indica Neri, 16% das crianças de 7 a 14 anos estavam fora da escola. Hoje, são somente 2%. Mas essa evolução, apesar da conquista qualitativa, foi de baixa qualidade. Não foi capaz, por exemplo, de alterar os indicadores de produtividade do país. Em 1980, eles eram equivalentes aos da Coreia do Sul. Hoje, representam um terço da medida coreana.

"Isso por entraves como a escolaridade, a falta de conexão da educação com a economia, o ambiente de negócios precário, a carência de engenheiros, entre outros fatores. O fato é que Brasil seguiu uma agenda de educação apenas pela cidadania", diz Neri. "Em todos esses campos, tudo se passa como se a melhoria social não tivesse sido acompanhada por alterações econômicas que lhes dessem sustentação no longo prazo."

Enquanto o Brasil derrapa, o crescimento da classe média mundial é puxado pelos asiáticos, que vão representar 9 em cada 10 dos próximos bilhões de consumidores desse grupo social. Eles estão concentrados na China, que tirou 500 milhões da pobreza, e na Índia, que resgatou outros 200 milhões, mas também se espalham pelo Sul e Sudeste da Ásia.

No caso chinês, o mais impressionante, o que se colhe é o resultado de movimento iniciado no fim dos anos 70, com a chegada ao poder de Deng Xiaoping (1904-1997), responsável pela fundação da China moderna. No geral, o efeito numérico de todo esse processo é que, hoje, a classe média lobal reúne 3,59 bilhões de pessoas. Em 2030, serão 5,29 bilhões. Ela terá, portanto, 1,7 bilhão a mais de pessoas, equivalente a um pouco mais de 8 vezes o atual número de brasileiros.

Nesse mesmo prazo, até 2030 o grupo "vulnerável" também vai mudar. Ela encolherá em 900 milhões de pessoas. As tendências para pobres e ricos são mais modestas. Os primeiros devem diminuir em 150 milhões e os outros, aumentar em 100 milhões. E qual o perfil desses grupos? Não existem regras para a divisão de famílias nesses estratos sociais. O trabalho da Brookings Institution define como "pobres" as residências cujo gasto diário por pessoa é US$ 1,90, em valores de 2011. Os "vulneráveis" despendem entre US$ 2 a US$ 110. A classe média fica na faixa de US$ 11 e US$ 110. Acima disso, são ricos.

Kharas e Hamel observam que, como conceito, a classe média que descrevem é composta por aqueles que têm alguma renda discricionária para bancar a compra de bens duráveis como motocicletas, refrigeradores ou máquinas de lavar. Essas pessoas também podem se dar ao luxo de ir ao cinema ou se dedicar a outras formas de entretenimento. Também tiram férias. Por fim, estão razoavelmente confiantes de que vão resistir a um choque econômico, como a uma doença ou a um período de desemprego, sem desabar para a situação de pobreza.

O fortalecimento da classe média nessas proporções está longe de representar um fato trivial. Essa turma atua como forte propulsor do desenvolvimento, notadamente sob o ponto de vista da demanda. Ela é responsável por dois terços do consumo das famílias no mundo. "À medida que os consumidores ingressam nesse segmento, diversificam seus gastos com mais produtos e serviços, incluindo transporte, habitação e educação", diz Kristofer Hamel, da Brookings Institution, integrante do World Data Lab, organização que compila a maior parte dos dados usados na pesquisa. "Eles tendem também a fortalecer valores específicos, como o apreço pelo trabalho duro, a meritocracia e até a prática da poupança."

Além do mais, acrescenta Hamel, integrantes da classe média exercem maior pressão sobre políticos. Eles são mais exigentes. Esperam que governos lhes forneçam acesso a serviços em áreas como educação, saúde ou moradia. Contam ainda com a existência de redes de proteção para ampará-los na velhice, na doença ou no desemprego. Em contrapartida, resistem a aumentos nos impostos.

Não é simples, portanto, encontrar ponto de equilíbrio entre anseios de consumo e bem-estar desse pessoal e custos que esses mesmos desejos geram. Chegar a uma equação razoável nesse campo tem sido um desafio até para países avançados. Para complicar o quadro, esse grupo é altamente irascível. Pois a classe média vive na corda bamba. Ao mesmo tempo que começa a saborear as novidades proporcionadas pela ascensão social, paira a poucos passos da vulnerabilidade. Ela tem medo de desabar. E quando cai, faz barulho.

Ela chiou - e bem alto - ao ruir no Brasil. Foi o que constatou um estudo da FGV Social, que aferiu a intensidade desse estresse ao longo da queda. O trabalho foi construído com base na pesquisa sobre felicidade das nações, feita pela Gallup World Poll. A análise compara opiniões de pessoas em cerca de 160 países. O retrato das condições psicossociais da sociedade brasileira que emerge desse levantamento é de uma densidade impressionante. O Brasil tem ocupado o último ou penúltimo lugar em todos os temas analisados, alcançando índices negativos só comparáveis aos países mais desestruturados, violentos ou pobres do planeta.

Entre os brasileiros consultados em 2017, por exemplo, 68% afirmaram que se sentiam inseguros ao andar à noite nas ruas das regiões onde residem. A FGV Social fez um corte nesse dado, separando o que seria o ponto de vista específico da classe média. Nesse caso, o quadro piorou. A taxa dos temerosos, que já era ruim, subiu 5 pontos percentuais, alcançando 73%. Para se ter uma ideia do que esse percentual representa, basta dizer que a média global foi de 30%. Ou seja, menor do que a metade do índice nacional. No cômputo geral, o Brasil ficou em segundo lugar nesse quesito, atrás somente do Afeganistão, onde 79% de pessoas afirmaram sentir medo nessas situações.

Há mais. Chama atenção o nível de desaprovação das lideranças políticas por aqui. O Brasil é líder mundial isolado nesse campo, algo que, em grande medida, explica o comportamento dos eleitores nos pleitos de outubro passado, em grande parte do território nacional. Nesse tópico, o país registrou 86% de descontentes (subindo para 87% no caso da classe média). O valor médio do restante das outras nações foi de 38%. A pesquisa mostra ainda como esse indicador passou por uma acentuada deterioração desde 2013, ano em que as manifestações populares ganharam as ruas em diversas cidades do país.

Essa revolta contra líderes políticos nacionais superou o mesmo sentimento em países como a Bósnia e a Grécia, que passaram por traumas recentes em conflitos ou em crises econômicas. O resultado brasileiro não marcou somente a maior rejeição do planeta no último levantamento, como também foi a pior avaliação em 733 casos analisados (o resultado do número de países vezes os anos pesquisados). Trata-se de um recorde das séries mundiais.

Durante o processo de crescimento, entre 2003 e 2014, Marcelo Neri cunhou o termo "nova classe média", para designar aquela parcela da população que avançava em ritmo intenso na escala social. Hoje, diante desse novo quadro emocional, ele alterou a expressão. Fala em uma "classe média hiper-raivosa".

As coisas, no entanto, não são tão simples ou lineares. Embora imenso, esse mal-estar não traduz de maneira plena o perfil psicossocial do brasileiro. É curioso, mas a visão "hiper-raivosa" de mundo convive lado a lado com uma perspectiva oposta. Isso ocorre quando o assunto é a felicidade futura de cada cidadão. Nesse caso, a base de dados também é da Gallup World Poll, cuja pesquisa estima o grau de satisfação das pessoas com a vida, dali a cinco anos.

De maneira até inesperada, o Brasil liderou esse ranking desde 2006, quando a análise começou a ser feita, até 2014. Em 2015, com o agravamento do cenário econômico, esse otimismo balançou. Mas continuou alto. O país caiu somente uma posição no ranking mundial. Em 2016, ficou na terceira colocação e, em 2017, em quinto lugar. "Levando-se em conta o tamanho e a intensidade da recessão no Brasil, até que não foi uma queda grande", afirma Neri, da FGV Social.

Por outro lado, essa expectativa desvanece quando o tema é a felicidade geral do país, no mesmo prazo de cinco anos. De acordo com dados da Gallup, o Brasil apresenta a nona maior diferença entre as notas individuais e coletivas num universo de 160 países. Isso evidencia uma dissonância aguda entre a visão da vida particular e àquela relativa ao conjunto da população.

"Como cada brasileiro pode dar uma nota tão alta para a sua vida e tão baixa para a vida de todos?", questiona Neri. "Esse descompasso sugere uma relutância em pensar em termos coletivos. Tanto que torna o todo menor do que a soma das partes. Isso é algo que dificulta o enfrentamento dos problemas. Daí também decorre a necessidade de coordenação da sociedade."

Ocorre que, para o país sair do buraco - e retomar a rota planetária de ascensão social -, essa coordenação e enfrentamento serão imprescindíveis. O economista Marcos Lisboa, do Insper, observa que o receituário para a saída da crise é conhecido, ainda que não seja consensual. O desafio mais urgente é um ajuste fiscal próximo de R$ 300 bilhões. Isso para evitar que a dívida pública fuja ao controle. Um acerto dessa magnitude, porém, exige participação ativa do Congresso. Será preciso rever distorções ributárias e reduzir gastos obrigatórios.

Se essas bombas não forem desarmadas, contudo, o que se espera é mais recessão, seguida de inflação. A reforma da Previdência, que consome 60% do orçamento federal, representa outra tarefa emergencial. "Nesse caso, o ponto de partida tem de ser o último projeto do governo Temer", afirma Lisboa. "Menos do que isso não adianta."

No médio prazo, diz, é preciso evoluir em três frentes: melhoria do ambiente de negócios, revisão da estrutura tributária e abertura da economia. Um dos objetivos dessas metas é a elevação da produtividade, estagnada há 35 anos. Nesse período, a renda per capita do brasileiro cresceu cerca de 1% ao ano, mas metade desse aumento foi fruto do bônus demográfico. Isso quer dizer que ela aumentou porque um maior número de pessoas foi incorporado ao processo produtivo.

"A previsão era de que esse bônus durasse até 2023", afirma Fernando Veloso, pesquisador de economia aplicada do FGV Ibre. No fim de julho, no entanto, o IBGE anunciou que ele terminará já em 2018, antecipando seu fim em cinco anos. Se a produtividade continuar a aumentar no mesmo passo das últimas décadas, o crescimento potencial do país será de no máximo 1,5% ao ano. Tal ritmo nem de longe levará a classe média brasileira ao paraíso. Ou pior, só servirá para mantê-la na perigosa fronteira do estado "hiper-raivoso" - o que, na prática, pode significar "hiperexplosivo". É o que, em breve, iremos conferir.
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Reportagem Por Carlos Rydlewski | Para o Valor, de São Paulo