quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Governo e religião

Antônio Delfim Netto* 
 Resultado de imagem para política

Intromissão de evangélicos nas políticas públicas de gênero é exemplo de confusão

  • Provavelmente, nem a arrogância do mais pretensioso intelectual permita-lhe afirmar que as mais recentes descobertas científicas deem uma resposta aceitável ao problema fundamental que o homem se colocou desde sempre: qual o significado do universo que o cerca e qual o seu papel nele?  
     
    Como tinha necessidade intrínseca de encontrá-la, uma vez que a sua própria sobrevivência física dependia da natureza dessa resposta, procurou conforto numa “crença”, numa “religião”, que estabelece a ordem, a estabilidade e a previsibilidade nas relações sociais, produzidas por restrições às ações de cada um, dispostas por um ser divino benevolente que controla a ordem do mundo.

    Trata-se de um sentimento profundo e robusto —isto é, de uma fé— que dispensa qualquer prova material porque conforta e dá esperanças ao seu portador. Foi esse o papel da Igreja Católica durante muitos anos, antes de que ela se “intelectualizasse” e se afastasse do povo.

    É preciso —sem preconceitos— reconhecer que seu lugar hoje é ocupado pelas igrejas evangélicas, cujo sucesso é a prova material de que estão mais antenadas com as novas realidades.
     
    O conhecimento “científico” (isto é, a ciência) exige o oposto: a dúvida permanente, a busca interminável de recusar o que se supõe conhecido e aceitá-lo, provisoriamente, enquanto não for negado empiricamente. Como disse Popper, “o homem não pode conhecer, mas apenas conjecturar”.
    * Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”. 
    Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/antoniodelfim/2018/12/governo-e-religiao.shtml 
    Imagem de Internet

    FHC: "O centro radial".

    FHC diz que eleição explodiu o sistema, afirma que “fascismo” e “comunismo” são apenas fantasmas e que partido sem conexão com a sociedade estará liquidado


    Prestes a terminar o quarto volume de suas memórias do período em que ocupou a Presidência da República (1995-2002), Fernando Henrique Cardoso, de 87 anos, acredita que o momento político do Brasil requer “paciência histórica”. Diz que o país vive um período de transição, com o fim de um ciclo iniciado na Constituição de 1988, em que os partidos criados falharam em representar os anseios da sociedade. FHC afirma ser exagero ligar o governo Bolsonaro a um movimento “fascista”, apesar da migração das forças políticas para a direita. O tucano prega a construção de um “centro radical” para se opor a medidas extremas e declara que, se o PSDB não ocupar esse papel, ele não vê razões para continuar no partido. 

    “Se o PSDB virar uma sublegenda do governo, 
    qualquer governo, estou fora.”

    O senhor tentou, no período eleitoral, criar uma força democrática de centro, e não deu certo. O que aconteceu? Não houve interesse do eleitor em escolher o centro porque ele achou melhor botar ordem na casa. Quem simbolizou segurança, ordem e combate à corrupção ganhou. Não houve discussão econômica.

    Como ocorreu essa tentativa de costurar uma frente? Estou mais fora da política do que as pessoas pensam. Mas eu acho o seguinte: quando há uma polarização como houve no Brasil, o medo prevalece acima de tudo. A razão perde sentido prático. As pessoas que querem ser razoáveis, como é meu caso, ficam sem espaço. Uns dizem “Eu sou o bem e quero extirpar o mal”. E, quando você diz “Cuidado, o bem e o mal são relativos, é preciso conviver”, você fala sozinho. 
     
    Mas o senhor chegou a fazer um movimento concreto nesse sentido? Eu falei com algumas pessoas, fiz uma ou outra reunião. Mas não estou no cotidiano do partido e acho também que não tinha mais espaço. A polarização não depende de você querer. Ela acontece. Quando a população descobriu as bases podres do poder, ficou contra o poder e quem o simboliza. Acho um absurdo que alguns tenham sido derrotados, gente séria, competente. Mas é assim que funciona. Política não é uma escolha de quem é mais competente, quem é melhor. É de quem, naquele momento, bate com o sentimento do eleitor.

    Como chegamos a esse estado de coisas? Nossa visão do mundo político nasceu no século XIX e se consolidou no XX. Havia as classes, não necessariamente opostas umas às outras, e os partidos, que representavam uma ideologia pertinente aos interesses e valores dessas camadas. O mundo atual rompeu isso porque a mobilidade social aumentou, a coesão entre esses grupos diminuiu e há fluxos de dinheiro e comunicação muito grandes. O primeiro sociólogo que viu esse movimento chama-se Manuel Castells, meu colega em 1968 em Nanterre (na Universidade Paris X, na França, onde FHC lecionou) e meu amigo até hoje. A Sociedade em Rede, livro que Castells lançou em 1996, é, no fundo, isso. Estamos em um momento de transição, e a nova sociedade é dos que estão conectados. Essa conexão salta estruturas e até instituições nacionais.

    “Os dois lados estão inventando fantasmas. Um vê fascismo, o outro acha que o comunismo está à porta. Há uma guerra de narrativas. E narrativas em que não entra o povo”

    O Brasil vive um momento de desmonte das estruturas, ou, como o senhor diz em seu último livro, “uma nova era”? Sociologicamente, eu diria que, nestas eleições, “a história se manifestou estourando tudo de maneira cega”. Há momentos em que há explosões, e aqui houve uma explosão limitada, mas foi uma explosão do sistema anterior. Então, há um processo geral que permeia todas as sociedades que estão conectadas. É preciso agregar a tremenda corrupção que houve ao horror que ela produziu. O povo se assustou e disse “basta!”.

    Houve uma “direitização” do Brasil? No espectro direita-esquerda, é claro que estas eleições foram mais para a direita. Antes, os partidos polares eram o PT e o PSDB, e quem fazia o meio de campo era o PMDB, que era o partido de Estado, das estruturas políticas. Na verdade, PT-­PSDB foi uma polarização forçada. O PT dizia que a direita era o PSDB. Agora viu que não é. A sociedade mudou muito, e aqueles que se supunham progressistas não foram capazes de simbolizar algo que o povo aceitasse. Isso quer dizer que o país é conservador? Pode ser. A tendência dos países em geral é se conservar. Todo mundo fala em mudança, em evolução, mas as pessoas têm medo de mudar. Aqui, vão conservar o quê? Não está claro, porque o governo não existe ainda.

    A campanha eleitoral foi amparada em valores mais conservadores, como Igreja, família. Nesse aspecto, seria um conservadorismo que eu diria que a maioria dos brasileiros aceita. Mas a verdade é que o mundo contemporâneo tem muita diversidade. O que se entendia como família era marido, mulher e filhos. Os líderes hoje — não é o meu caso — têm ou tiveram várias mulheres. Como compatibilizar isso com um valor tradicional? Não sei. Porque a realidade mudou, a diversidade passou a ser parte da vida. Como impedir a diversidade? Pode falar que vai, mas, na hora de fazer, não é tão simples.

    O Brasil nunca foi território de êxito para posições fanáticas. Considerando-se o acirramento dos ânimos nas eleições, o senhor acha que esse traço da sociedade brasileira pode se transformar em fascismo diluído? Não. Olha, os dois lados estão inventando fantasmas. Um vê fascismo, o outro acha que o comunismo está à porta. Isso era na época da Guerra Fria, quando o comunismo existia, havia a União Soviética. Onde está isso hoje? Na China? A China está vendendo, comprando, utilizando os instrumentos de mercado para tomar conta do mundo. Na Coreia? A Coreia do Norte é força que imanta alguém? Não. E o fascismo? O fascismo era uma organização que tinha um pensamento, uma concepção corporativa e que se opunha ao comunismo. Então, o que se vê frequentemente são duas imagens do passado. Há uma guerra de narrativas. E narrativas em que não entra o povo, que não está em uma nem em outra. O povo quer trabalho, proteção contra a violência, essas coisas mais normais.

    Seria, então, um movimento cíclico de alternância de poder? De certa forma, porque Jair Bolsonaro representou o encerramento de um ciclo. Talvez o que tenha terminado agora seja o ciclo que inauguramos na Constituição de 1988, quando tivemos uma visão de pluralidade partidária mas acabamos não criando partidos, e sim corporações de interesses de grupos, de pessoas. Mas isso quer dizer que o novo ciclo vai ser permanentemente como ele é hoje? Não. O importante é entender que o momento que vivemos não tem nada a ver com o que ocorreu em 1964. É outro momento. As Forças Armadas não estão pressionando pelo autoritarismo.

    “O PSDB ganha quando ele não é ideológico, quando tem pragmatismo com valores. Será que o PSDB vai ser capaz de se reorganizar de forma mais equilibrada? 
    Se não for, estou fora”

    Há declarações de generais sugerindo temor de politização dos quartéis. Mas eles tentam controlar também. E nem sei se vai haver, porque, na verdade, depende um pouco do que o governo faça e de como a sociedade reaja ao que ele fizer. Não há uma teorização de que chegou a hora de quebrar o Estado e fazer outro.

    O senhor vê alguma tendência de autoritarismo, como ocorre na Hungria? Creio que não. O que não quer dizer que eu não tenha preocupação. Acredito que democracia não é dada para sempre, é preciso que ela esteja ativa. Mas nós vivemos uma situação em que, primeiro, eu não votei em quem ganhou, e quem ganhou, ganhou eleitoralmente. Não tem golpe aí. Segundo, a imprensa continua existindo como ela é. Com sua natureza crítica. Em uma sociedade aberta, a imprensa só sobrevive criticando.

    Diante das mudanças de estruturas, que papel deverá ter a oposição no novo governo? Há espaço para o PT? Primeiro, temos de ver o que sobra nesses escombros. Não creio que o PT vá sumir, porque ele expressa setores da sociedade. É preciso que todos os partidos que quiserem sobreviver entendam que o resultado eleitoral é consequência de atos também deles. Essa repulsa é porque os partidos não funcionaram. Mas, mais que uma oposição, é necessário o fortalecimento do que eu chamo de “centro radical”.

    O que seria um “centro radical”? Um centro que não seja amorfo, mas que tenha posições, e que elas não sejam extremadas. E mais: não adianta juntar apenas deputados. Ou tem a sociedade no meio — líderes empresariais, sindicais, religiosos e universitários — ou não existe. Se for mantida a separação entre política e sociedade, a rede vai acabar ligando a sociedade e a política ficará de fora.

    Como fazer essa ligação em meio a tanta frustração com a política? Esses movimentos que apareceram nestas eleições, o Agora, o RenovaBR, o Acredito, são muito importantes, porque é uma nova geração que surge. E chegou o momento em que a geração que estava no mando precisa passar o bastão — não a geração à qual eu pertenço, que já está há muito tempo fora. Mas isso não é uma decisão pessoal, é preciso que a geração seguinte queira pegar o bastão, que tenha energia para isso. Mas tem de dar um pouco de tempo ao tempo. Não se muda de repente tudo. Tem de ter o que eu chamei, num artigo que escrevi, de paciência histórica. Sei que é fácil dizer isso para quem não está no jogo. Mas é necessário.

    O PSDB não sabe se ficará no governo ou se será oposição. O senhor antevê um racha e a criação de uma nova legenda? É possível, mas não é conveniente. Se o PSDB cometer o erro de ser uma sublegenda do governo, acabou. É mais um. Se ele fizer, pelo lado contrário, oposição sistemática estilo PT, também acabou. Ou ele atua realmente como centro radical, na forma como eu defini, ou ele não tem mais sentido. Acho que o PSDB ganha quando ele não é ideológico, quando ele tem pragmatismo com valores, não o pragmatismo do oportunismo clientelístico. Mas neste momento isso não é aceito, porque o pessoal não está equilibrado. Será que o PSDB vai ser capaz de se reorganizar de uma forma mais equilibrada? Se ele não for, eu estou fora.

    O senhor sairá do partido se houver adesão ao governo? Se o PSDB virar uma sublegenda do governo, qualquer governo, estou fora.

    O senhor se desfiliará? Por enquanto não, por enquanto estou fora da posição, mas vamos ver, não sei qual vai ser a dinâmica no PSDB. Perdemos a eleição por erros também nossos. Temos de ser capazes de fazer autocrítica. Sobreviver porque vai ter um carguinho, sobrevive-se, mas com migalhas. Não com voto da maioria, não com o coração nem com a mente da maioria. Ah, para que vou me meter nisso a esta altura da vida?
    Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2018, edição nº 2611
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    Fonte: https://veja.abril.com.br/politica/o-centro-radical/ Acesso 05/12/2018

    terça-feira, 4 de dezembro de 2018

    E se o seu cérebro for pirateado para o tornar um corrupto?



    O estudo que venceu o Prémio Ciência 2018 do Conselho de Prevenção da Corrupção parece ficção científica, mas o perigo existe e já é real. Carla e Miguel Pais-Vieira querem ajudar o legislador a prevenir riscos de uma tecnologia que vai crescer muito nos próximos anos.
    Já ouviu falar de interfaces cérebro-máquina? Se não ouviu, fique a saber que este tipo de engenho, que pode ser usado dentro ou fora do seu corpo, é já hoje a solução para muitos problemas de saúde, como situações relacionadas com a doença de Parkinson ou deficiências motoras graves. Nesta matéria, o futuro já começou: eles são uma realidade em grande expansão que em breve terá tantas outras aplicações quantas permitam a ciência, a imaginação e o mercado. Mas, como em tudo, existem riscos associados – e não são pequenos. Se não forem rodeados de muitos cuidados, eles podem “roubar” informação do seu cérebro e manipular os seus comportamentos.
    Podem, por exemplo, fazer de si um corrupto – e foi por causa disso que dois investigadores, o casal Carla e Miguel Pais-Vieira, do Centro de Investigação Interdisciplinar em Saúde da Universidade Católica Portuguesa, desenvolveram um trabalho para informar o legislador desses riscos e dar-lhe ferramentas para poder legislar atempada e eficazmente. E com ele venceram a 1.ª edição do Prémio Ciência do Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC), que vão receber na quarta-feira, durante a conferência Integridade na Gestão Pública, que se realiza na Fundação Champalimaud para assinalar os dez anos daquela estrutura do Tribunal de Contas.
    Parece ficção científica, mas não é. Actualmente, os interfaces cérebro-máquina são utilizados para corrigir problemas clínicos de mobilidade, de visão e de comunicação. Há pessoas que, tendo perdido, por exemplo, a capacidade de movimentar um braço ou uma perna, ou tendo perdido um membro que acabou por ser substituído por uma prótese, receberam um destes engenhos para permitir que a informação dada pelo cérebro chegue aos terminais danificados. Doentes de Parkinson têm também visto a sua qualidade de vida melhorar consideravelmente através da estimulação cerebral profunda através deste tipo de interfaces.

    No entanto, é precisamente nestes últimos casos que se têm verificado alterações já bem documentadas que vão do riso e alterações de humor à depressão, crises de hipomania, episódios psicóticos e ideias suicidas. Alterações que não acontecem apenas no período pós-cirúrgico, mas que em alguns casos se mantêm ao longo do tempo.
    “Estas novas tecnologias associadas à manipulação e utilização de dados com origem na actividade cerebral - as interfaces cérebro-máquina – apresentam um potencial de negócio de 1,24 mil milhões de euros até 2020”, escrevem os autores no resumo do trabalho. O benefício destes engenhos é tão grande que há muitos grupos de investigação e multinacionais a investir neste sector. “Empresários como Elon Musk e Mark Zuckerberg têm já departamentos/companhias grandes dedicados aos interfaces cérebro-máquina”, afirma ao PÚBLICO Miguel Pais-Vieira.
    No entanto, estes interfaces são particularmente susceptíveis à intrusão ("hacking") por terceiros: “Estas intrusões, a possibilidade de vantagem indevida, e os abusos de poder daí decorrentes, podem ocorrer através da extracção de dados relevantes ou através da manipulação de zonas cerebrais que levem os utilizadores a realizar tarefas sem o seu conhecimento ou consentimento”, escrevem os autores. Sim, o cérebro pode ser pirateado como qualquer outro dispositivo informático.
    Precisamente porque trabalham no estudo do cérebro e no desenvolvimento de interfaces cérebro-máquina e têm consciência destes riscos, Miguel e Carla Pais Vieira quiseram chamar a atenção das entidades responsáveis e propor algum tipo de terapia preventiva – não ao nível tecnológico, porque a tecnologia é o que o homem faz dela, mas ao nível legal. “Consideramos que é da nossa responsabilidade discutir as implicações éticas dos resultados e avanços que produzimos, em larga medida, com o financiamento público”, e contribuir para “estabelecer de linhas gerais de orientação para a elaboração de um adequado enquadramento legal”.

    É disso que trata o trabalho premiado pelo CPC: fornece ao legislador a informação relativa a riscos concretos desta tecnologia e soluções legais para os prevenir. Desde logo, defende-se que “a comercialização de toda e qualquer interface cérebro-máquina deverá ser regulamentada e sujeita a um processo de legalização e aprovação prévia”, com “pareceres de uma equipa clínica e uma equipa de ciências da computação acerca da segurança clínica (por exemplo, interacções com fármacos ou outras terapias) e segurança informática dos algoritmos, processamento e meios envolvidos”. Para que não aconteça como aconteceu com a Internet e as redes sociais, com o legislador a correr atrás do prejuízo.
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    Reportagem Por 

    segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

    Para Paulo Freire, “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”

    Eduardo Carli de Moraes*


    “Se você é neutro em situações de injustiça”, afirma o Prêmio Nobel da PazDesmond Tutu (*), “você escolheu o lado do opressor.” Esta postura está em perfeita consonância com a Pedagogia do Oprimido dePaulo Freire:

    “O compromisso com a humanização do homem, que implica uma responsabilidade histórica, não pode realizar-se através do palavrório, nem de nenhuma outra forma de fuga do mundo, da realidade concreta, onde se encontram os homens concretos”, escreveu o educador pernambucano. “O compromisso, próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, de cujas águas os homens verdadeiramente comprometidos ficam molhados, ensopados. Somente assim o compromisso é verdadeiro.” (Educação e Mudança, pg 22)

    Em tempos de ascensão do projeto Escola Sem Partido, cuja pregação contra a “doutrinação marxista”, a “ideologia de gênero” e os professores “esquerdistas” visa instaurar um clima de censura, mordaça e macartismo, vale lembrar das palavras de Paulo Freire sobre aqueles que pregam em prol da quimera de uma educação “neutra”:

    Paulo Freire, educador e escritor.

    “A neutralidade frente ao mundo, frente ao histórico, frente aos valores, reflete apenas o medo que se tem de revelar o compromisso. Este medo quase sempre resulta de um ‘compromisso’ contra os homens, contra sua humanização, por parte dos que se dizem neutros. Estão comprometidos consigo mesmos, com seus interesses ou com os interesses dos grupos aos quais pertencem. E como este não é um compromisso verdadeiro, assumem a neutralidade impossível.
    O verdadeiro compromisso é a solidariedade. (…) Comprometer-se com a desumanização é assumi-la e, inexoravelmente, desumanizar-se também.
    Esta é a razão pela qual o verdadeiro compromisso, que é sempre solidário, não pode reduzir-se jamais a gestos de falsa generosidade, nem tampouco ser um ato unilateral, no qual quem se compromete é o sujeito ativo do trabalho comprometido e aquele com quem se compromete a incidência de seu compromisso. Isso seria anular a essência do compromisso, que, sendo encontro dinâmico de homens solidários, ao alcançar aqueles com os quais alguém se compromete, volta destes para ele, abraçando a todos num único gesto amoroso.” (p. 23)

    Não há educação autêntica sem o compromisso amoroso assumido com a transformação radical de uma realidade concreta opressora. A presunção de neutralidade não passa de uma tática covarde dos que não querem assumir suas posições nas hierarquias de poder e privilégio. 

    Aqueles que, incapazes de engajamento na criação de um mundo melhor, onde os humanos não estejam com seus caminhos impedidos rumo à floração de seu ser-mais, pretendem-se ‘neutros’ quando não passam de cúmplices envergonhados das elites hegemônicas e seu projeto educativo despolitizador e desmobilizador, que deseja fazer crer num status quo que é assim, sempre foi, sempre será, nada valendo qualquer compromisso entre os oprimidos em prol da transformação disto que está sendo em algo melhor.
    “Não é possível um compromisso autêntico se, àquele que se julga comprometido, a realidade se apresenta como algo dado, estático e imutável. Se este olha e percebe a realidade enclausurada em departamentos estanques. Se não a vê e não a capta como uma totalidade, cujas partes se encontram em permanente interação. Daí sua ação não poder incidir sobre as partes isoladas, pensando que assim transforma a realidade, mas sobre a totalidade. É transformando a totalidade que se transformam as partes e não o contrário. No primeiro caso, sua ação, que estaria baseada numa visão ingênua, meramente ‘focalista’ da realidade, não poderia constituir um compromisso.” (pg. 26)
    Se queremos uma educação libertadora, que livre a sociedade da cisão injusta entre opressores e oprimidos que tanto horror e miséria causa às maiorias humanas que compõe a coletividade, é imprescindível que tenhamos educadores comprometidos com a transformação da realidade objetiva, sendo para este fim imprescindível também a utilização sábia e sensata da tecnologia e da ciência: “Se o meu compromisso é realmente com o homem concreto, com a causa de sua humanização, de sua libertação, não posso por isso mesmo prescindir da ciência, nem da tecnologia, com as quais me vou instrumentando para melhor lutar por esta causa.” (pg. 28)

    A essência da educação radica na percepção que o ser humano pode e deve ter de seu próprio inacabamento e inconclusão. É pois somos inacabados, inconclusos e imperfeitos que podemos embarcar na aventura de sermos permanentes aprendizes e professores, ensinando-nos juntos “na busca constante de ser mais” (p. 34). O pior erro do professor é se “colocar na posição do ser superior que ensina um grupo de ignorantes”, e o antídoto contra isso é a “posição humilde daquele que comunica um saber relativo a outros que possuem outro saber relativo.” (pg. 36)

    Tudo isso seria infértil, oco e vão se não houvesse amor. Um amor que não é uma graça dos céus, nem um prêmio ou uma dádiva que nos concedem os deuses, mas que é uma tarefa. Paulo Freire, pedagogo da amorosidade:
    “O amor é uma tarefa do sujeito. É falso dizer que o amor não espera retribuições. O amor é uma intercomunicação íntima de duas consciências que se respeitam. Cada um tem o outro como sujeito de seu amor. Não se trata de apropriar-se do outro. Nesta sociedade há uma ânsia de impor-se aos demais numa espécie de chantagem de amor. Isto é uma distorção do amor. Quem ama o faz amando os defeitos e as qualidades do ser amado.
    Ama-se na medida em que se busca comunicação, integração a partir da comunicação com os demais. Não há educação sem amo. O amor implica luta contra o egoísmo. Quem não é capaz de amar os seres inacabados não pode educar. Não há educação imposta, como não há amor imposto. Quem não ama não compreende o próximo, não o respeita.
    Não há educação do medo. Nada se pode temer da educação quando se ama.” (pg. 26)
    O que a educação (e a vida) exige de nós é a coragem de assumir o compromisso de amar os seres inconclusos que estamos sendo e que merecem sempre transcender as barreiras que os aprisionam na opressão e os condenam a ser-menos, infringindo a vocação ontológica em nós enraizada e que é o florescimento de sempre estarmos em trânsito rumo a ser-mais. Mais solidários. Mais justos. Mais amorosos. Mais críticos. Mais criativos. Mais livres.

    * Possui graduação em Filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) e em Comunicação Social / Especialização: Jornalismo pela UNESP (Universidade Estadual Paulista), além de mestrado na área de Ética e Filosofia Política pela UFG (Universidade Federal de Goiás), com a pesquisa "Além da Metafísica e do Niilismo: a Cosmovisão Trágica de Nietzsche", orientada por Adriano Correia. Atua como professor efetivo de filosofia no ensino médio.
    SAIBA MAIS EM A CASA DE VIDRO:https://acasadevidro.com/?s=pAULO+fREIRE

    BIBLIOGRAFIA
    FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Paz & Terra, RJ/SP, 2018, 38ª ed.
    (*) TUTU, Desmond. https://pt.wikipedia.org/wiki/Desmond_Tutu.


    Opostos politicamente, Bolsonaro e Lula têm aspectos em comum

    Bolsonaro serve café para John Bolton, assessor de Trump.

    Ex e futuro presidente acenaram para mercado, optaram por chanceleres ideológicos e turbinaram pasta da Justiça

    • Carolina Linhares
      São Paulo 
       
      Às vésperas de tomar posse, em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ofereceu um churrasco a seu antecessor na Presidência, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), na Granja do Torto, onde morou durante a transição. 

      Em seu primeiro dia na residência, em novembro, Lula jogou futebol com a família. Torcedor do Corinthians, o petista sempre foi fã do esporte. 

      Jair Bolsonaro (PSL), presidente eleito, é torcedor do Palmeiras e também é futebolista. Parabenizou o time pela conquista do Campeonato Brasileiro e assistiu à partida do clube neste domingo (2)

      [ x ]
      Frequentemente, aparece em fotos ou vídeos usando camisas de times e à vontade, como quando, no último dia 11, preparou um churrasco para sua equipe de seguranças
      A paixão pelo futebol e o gosto por churrasco não são, porém, os únicos pontos de aproximação entre os políticos de ideologia oposta.

      Em ambos os casos, eles se apresentam como líderes populares”, diz Matias Spektor, colunista da Folha e autor de “18 dias”, livro sobre a transição entre FHC e Lula. 
    “Isso de sair e abraçar as pessoas deu problema com a segurança, mesmo antes da posse”, lembra Ricardo Kotsho, que foi secretário de Imprensa de Lula.

    No mesmo dia em que fez churrasco, Bolsonaro passou em quiosques na Barra da Tijuca, onde cumprimentou eleitores. Fotos da mesa do café da manhã do presidente eleito, com pão e leite condensado, além da recepção nada formal ao assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, com cafeteira de plástico e embalagem de iogurte, reforçaram a imagem de homem simples de Bolsonaro —a exemplo de Lula.  

    “São dois políticos pouco formais e que se deixam mostrar em momentos de relaxamento”, diz Sérgio Praça, cientista político e professor da FGV. 

    Há mais semelhanças: vencida a eleição, Lula e Bolsonaro buscaram aplacar a desconfiança de investidores com declarações que deram no passado nomeando pessoas bem aceitas pelo mercado.

    O petista dividiu essa função entre duas pessoas: Antônio Palocci para a Fazenda e o ex-banqueiro Henrique Meirelles para o Banco Central. Bolsonaro concentrou tudo em Paulo Guedes.

    “Palocci era tão próximo do Lula quanto Bolsonaro é do Guedes. Não são íntimos, mas aparentemente trabalham bem juntos e se entendem”, afirma Praça. 

    Neste ano, como em 2002, o cenário era de crise econômica e a transição foi um jogo de sinalização para o mercado, na avaliação de Spektor. 

    “Ambos organizaram suas transições para mandar uma comunicação para o mercado de que o governo será economicamente responsável, ou seja, fará um ajuste fiscal. O mercado, mesmo quando não confia no conhecimento econômico do presidente eleito, confia no seu guru.”

    Há diferenças, contudo. Enquanto Guedes é o “posto Ipiranga” de Bolsonaro, Lula tinha uma equipe de economistas e nomes do próprio PT a quem recorria na formulação de políticas. “Lula abastecia álcool com [José] Dirceu e gasolina com Palocci”, diz Praça. 

    “Palocci não tinha a autonomia que Guedes vai ter, ele era mais um executor”, avalia o ex-ministro Gilberto Carvalho. 
    https://f.i.uol.com.br/fotografia/2018/11/30/15436258835c01dc9b6c22b_1543625883_3x2_md.jpg 

    Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em economia por Harvad e comandará a Secretaria-Geral  de Previdência e Receita Federal.

    Os dois presidentes também buscaram um canal com os EUA ainda durante a transição. Dirceu, que virou ministro da Casa Civil, foi a Washington, e Palocci se encontrou com o FMI. Já Bolsonaro, além do encontro com Bolton, enviou seu filho aos EUA

    Se na economia ambos procuraram passar imagem moderada, o oposto ocorreu na política externa. Lula e Bolsonaro escolheram chanceleres a dedo para agradar às suas bases, como num movimento compensatório. 

    Ernesto Araújo quer o fim da “ideologia marxista” na diplomacia. Já Celso Amorim era a favor de aproximação com Cuba e da multipolaridade.

    O ex e o futuro presidente também se assemelham na escolha para outra pasta-chave, a da Justiça. Ambos optaram por figuras midiáticas e de peso. 

    Bolsonaro nomeou Sergio Moro como superministro; Lula optou pelo mais importante criminalista da época, Márcio Thomaz Bastos. 

    Segundo Praça, Bastos foi incumbido de fortalecer a Polícia Federal e, de fato, ampliou o órgão e valorizou a carreira. “A meta de combate à corrupção começou ali”, diz.

    Ataques à imprensa também perpassam discursos dos dois presidentes. Bolsonaro criticou a mídia dez vezes por semana em outubro. Lula também adotou uma política de enfrentamento, mas a tensão se intensificou no governo.

    Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/12/opostos-politicamente-bolsonaro-e-lula-tem-aspectos-em-comum.shtml
    Bolsonaro Lula
    Calmante para o mercado Paulo Guedes, economista liberal, foi apelidado de posto Ipiranga por responder a tudo que se refere a economia no governo de Bolsonaro, que já admitiu não dominar o tema. A nomeação de Guedes foi uma sinalização ao mercado Tinha em Antonio Palocci, seu primeiro ministro da Fazenda, a principal ponte com o mercado. Egresso do BankBoston, Henrique Meirelles tinha papel equivalente no Banco Central
    Superministro da Justiça  Para apontar comprometimento com o combate à corrupção e agradar ao eleitorado, Bolsonaro anunciou o ex-juiz Sergio Moro, da Lava Jato, como superministro, que também terá a missão de reduzir a violência Escolheu Márcio Thomaz Bastos, renomado advogado criminalista. A função era a mesma de Moro: fortalecer a Polícia Federal e torná-la instrumento de combate à corrupção
    Chanceleres ideológicos Escolheu Ernesto Araújo, que condiz com ideias bolsonaristas ao criticar a adesão da diplomacia brasileira ao que considera pautas abortistas e anticristãs. É entusiasta de Donald Trump, presidente dos EUA Escolheu Celso Amorim, num afago aos setores da esquerda, já que o ministro pregava o fortalecimento de alianças Sul-Sul e era crítico da política de isolamento de Cuba
    Churrasco e futebol Aparece frequentemente vestido com camisetas de time e é torcedor do Botafogo e do Palmeiras. Eleito, foi ao banco sacar dinheiro para comprar a carne de um churrasco com seguranças Torcedor do Corinthians, Lula jogou bola na Granja do Torto ainda durante a transição e manteve o hábito durante o governo. Antes da posse também recebeu FHC para um churrasco
    Descontração Como Lula, também aposta na imagem de líder popular, postando fotos e vídeos à vontade em casa, com camisetas de time e pão com leite condensado Construiu sua imagem de líder popular desde os anos 1980. Tomava “banhos de povo”, quando se afastava dos seguranças para cumprimentar apoiadores
    Tensão com a imprensa Criticou a imprensa dez vezes por semana em outubro. Em sua primeira entrevista coletiva, selecionou quais veículos entrariam. Sobre a Folha, afirmou: “Esse jornal se acabou” Ataques à mídia se intensificaram ao longo do governo. Criticava a imprensa “partidarizada” e privilegiou blogueiros e veículos alinhados com o PT

    sábado, 1 de dezembro de 2018

    Olavo de Carvelho: “Eu sou o segundo governo”


     APOSTA - Olavo, em sua casa na Virgínia: emplacou dois ministros mas nunca esteve com Bolsonaro  (Jay Westcott/Polaris Images/.)

    Quem é o guru da direita que conquista fiéis com cursos on-line e vocabulário obsceno, ensinará filosofia a parlamentares e indica ministros para Bolsonaro

    Em 2014, de sua casa de dois andares na cidade de Carson, no estado americano da Virgínia, Olavo de Carvalho, hoje aos 71 anos, gastava parte de seu tempo tentando insuflar, nas redes sociais, a candidatura à Presidência da advogada Denise Abreu, ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil que ganhou fama ao dar declarações incendiárias durante o caos aéreo entre 2006 e 2007. A empreitada presidencial de Denise naufragou, mas o apoio de Olavo de Carvalho não esmoreceu: persistiu quando ela decidiu, no mesmo ano, sair candidata a deputada federal — outra tentativa fracassada. Quatro anos depois, o ex-astrólogo, jornalista e filósofo, autor de 27 livros e pai de oito filhos, fez a aposta política mais certeira. Apoiou, pediu votos, forneceu o lastro ideológico para a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência e, após a vitória, emplacou dois ministros no governo: Ernesto Araújo, diplomata, e Ricardo Vélez Rodriguez, professor. Dispor de tamanha influência em um governo eleito com mais de 57 milhões de votos alça o filósofo — que jamais cursou ensino superior em filosofia — a uma posição singular no governo de Bolsonaro, apesar de nunca ter encontrado o presidente eleito ao vivo. Conhece pessoalmente só seus filhos Eduardo e Flavio, deputado federal e senador eleitos.

     Em sua primeira comunhão, no bairro do Glicério, em São Paulo

    “Nenhum homossexual quer ser aceito simplesmente como pessoa; quer ser aceito e valorizado enquanto homossexual. Quando alguém o aceita como pessoa, condenando ao mesmo tempo sua opção sexual como doentia ou anormal, 
    ele se sente discriminado.”
     ('O Imbecil Coletivo'; É Realizações; 1996)
     
    “Professor Olavo”, como o guru é conhecido nas redes, não desmerece o poderio recém-alcançado. A VEJA, explica a importância de sua contribuição intelectual, recorrendo a Alexander Soljenítsin (1918-2008), autor de Arquipélago Gulag, radiografia dos campos de concentração comunistas na Rússia soviética: “Essa influência que eu exerci está explicada em uma frase do Soljenítsin: ‘O grande escritor é como se fosse um segundo governo’. Entende por que eu não quero nenhum cargo público? Porque eu já sou esse segundo governo. A influência intelectual é uma coisa, assim, que transcende e engloba a política. E eu já estou neste posto e estou muito contente com ele. Era o que eu queria ser quando crescesse. Já cresci e já sou”.

    O professor diz que, para chegar lá, não fez muito esforço. Segundo ele, a admiração por Bolsonaro veio a partir de seus discursos na Câmara, que circulavam no início dos anos 2010 em seletos rincões da internet. “Engraçado” e “sincero” são alguns dos adjetivos usados pelo filósofo para se referir ao presidente eleito. A aproximação com o clã só se deu em 2012, quando Flavio, entusiasta da produção literária do professor Olavo, foi até a Virgínia entregar-lhe a Medalha Tiradentes, honraria do governo do Rio de Janeiro a personalidades que prestaram serviços ao estado — onde o filósofo morou de 1991 a 1999. Daí por diante, os laços se estreitaram. Para convencer Eduardo a lançar-se pela primeira vez candidato a deputado, em 2014, Bolsonaro presenteou o filho com O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, best-seller de Olavo, lançado em 2013, que vendeu mais de 300 000 exemplares (veja o quadro na pág. 52). Eduardo gostou tanto do que leu que se matriculou no curso on-line de Olavo, cujas aulas em formato live são ministradas por ele semanalmente da biblioteca de sua casa em Petersburg, cidade onde vive hoje, também na Virgínia. Nesse período, a prole organizou dois hangouts com Olavo com a presença do próprio Jair.
    “Bolsonaro teve a prudência de se apegar a mim porque sou um bom conselheiro”, diz o professor ao discorrer sobre seus méritos.

     
    Aos 15 anos (o terceiro da esq. para a dir.), com colegas de escola, antes de abandonar os estudos

    “Se você é portador de qualquer diploma de universidade brasileira, em cinquenta por cento dos casos você é um analfabeto funcional. O intelectual que precisa de um papelzinho desses é, por definição, um incapaz, um fracassado.”
    (Postagem no Facebook em novembro de 2018)
     
     
    Entusiasta da caça, matou um urso na Virgínia


    Das conversas virtuais à indicação de ministros, um imenso rio transcorreu. Um dos alunos mais devotos de Olavo e seu principal escudeiro nas redes sociais, Filipe Garcia Martins, de 30 anos, aproximou-se de Eduardo ainda em 2014 e desde então tornou-se não só amigo do deputado mas também o principal interlocutor do professor dentro do clã. Bacharel em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), Martins entrou oficialmente na campanha em 2018 para cuidar da área “internacional” do PSL, partido do presidente eleito. Uma de suas atribuições era colocar a campanha em contato com Steve Bannon, ex-estrategista de Donald Trump e idealizador do grupo nacionalista Movimento, que tem se referido a Bolsonaro como “o tipo de líder que só aparece a cada duas gerações”. Martins também foi responsável por apresentar o diplomata Araújo e o professor Vélez Rodriguez aos Bolsonaro. Enquanto vivia em Washington, Araújo visitou Olavo, a quem mostrou textos de sua autoria. “Vi que é um homem de intelecto gigante, capaz de analisar as coisas da política externa em um nível filosófico que ninguém na mídia brasileira consegue”, diz Olavo. Araújo, pouco a pouco, vem revelando nuances da genialidade que o filósofo diz ver em seus escritos. Em artigo no jornal Gazeta do Povo, publicado no dia 26, escreveu que trabalhará contra o “alarmismo climático” — o nome que dá ao aquecimento global — e a adesão a “pautas abortistas e anticristãs”. Já Vélez, de quem Olavo conhece teses acadêmicas, mas com quem se encontrou poucas vezes no Brasil, é alguém que “vai colocar os interesses da nação acima de suas ideias”, avalia o guru.

     
    Com o poeta Bruno Tolentino (à esq.) e o maestro João Carlos Martins


    “Barack Houssein Obama elegeu-se presidente com documentos falsos. Sua certidão de nascimento é falsa, seu cartão de Social Security é falso, seu alistamento militar é falso. (…) os documentos falsos são fatos brutos, visíveis 
    com os olhos da cara.”
    ('O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota'; Record; 2013)
     
     
    Com a esposa, Roxane, e os caçulas Leilah (à dir.) e Pedro
    As duas indicações foram formuladas, segundo Olavo, depois que ele ouviu rumores de que “um cidadão ligado a um governo globalista e ao George Soros (investidor húngaro radicado nos Estados Unidos)” chefiaria o Ministério da Educação. “Se entrasse um cara desses, estaria tudo acabado”, afirmou. Aproveitou a deixa para sugerir não só Vélez, mas também Araújo. As apresentações dos ministros aos Bolsonaro ficaram a cargo de Martins, que também cuidará para que cerca de vinte deputados do PSL viajem para a Virgínia para ter aulas de filosofia com o professor.

    Até tornar-se conselheiro presidencial, Olavo teve uma vida irrequieta. Filho de um advogado e uma operária da indústria gráfica que se divorciaram quando ele ainda era criança, saiu de casa e da escola aos 15 anos para ganhar a vida. Diz ter desistido do ensino formal quando uma professora de português pediu que lesse Joaquim Manuel de Macedo e ele se recusou, afirmando estar muito ocupado lendo obras do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe. Tornou-se um leitor voraz, embora seja um crítico de qualquer método de educação convencional — tanto que a primogênita de seus oito filhos, Heloisa, se envolveu em uma briga pública com o pai ao alegar não ter sido escolarizada durante a infância. Sem aptidão para os esportes e inclinado a paixões platônicas, Olavo era conhecido por ser “bom de papo”. Na adolescência, tinha fascinação pela obra de Karl Marx e Antonio Gramsci, autores contra os quais hoje destila repulsa. “O Olavo era comunista. Tinha uma turminha de comunistas no colégio, e ele fazia parte. Ficava buzinando na minha orelha para eu virar comunista, mas eu só queria jogar bola”, lembra o amigo Valentino Bergamo Filho.

     
    HOMENAGEM –  A medalha recebida de Flavio em 2012 marcou o início da relação com o clã Bolsonaro


    “Desistam, fofoqueiros e intrigantes. Não só vou votar no Bolsonaro, como vou trazer para ele mais votos do que vocês, sem fazer um só minuto de propaganda e sem pedir nem aceitar nenhum carguinho em troca.”
     (Postagem no Facebook em janeiro de 2018)
     
    Depois de deixar a escola, Olavo recorreu ao jornalismo para sobreviver — primeiro trabalhou no jornal Notícias Populares, entrevistando “p… e delegado”, em suas palavras, e depois no Jornal da Tarde, no qual revisava textos dos repórteres. Desse período, colegas se recordam dele como alguém discreto e reservado, mas Olavo carrega lembranças de ter sido humilhado, como na ocasião em que, escalado para fazer a cobertura do palácio do governo de São Paulo, foi ignorado pelos setoristas mais experientes: quando havia entrevistas coletivas, ele não era avisado. Incomodava-­o ainda o fato de, como copidesque do Jornal da Tarde, ter de corrigir textos de repórteres com diploma na profissão que eram considerados por ele intelectualmente inferiores.

    “INTELECTO GIGANTE” –  Araújo: ao mostrar seus textos a Olavo, foi elogiado e virou o novo chanceler (Jorge William/Agência O Globo)

    Quando jornalista iniciante, também foi um militante de esquerda. Foi membro de um grupo de guerrilha urbana organizado nos tempos da ditadura militar. Na época, Olavo chegou a dividir o teto com os hoje petistas José Dirceu e Rui Falcão na Casa do Estudante, que abrigava alunos do curso de direito da USP. Mas decepcionou-se com a esquerda no início dos anos 1970. Diz ter se assustado quando integrantes da organização lhe pediram que ajudasse a colocar em cárcere privado um membro do grupo cuja namorada era suspeita de ser agente do Dops, o braço da ditadura que zelava pela “ordem política e social”. Olavo afastou-se do grupo, mas antes cumpriu a missão.
    “Neste país, a esquerda é o establishment, e o establishment é ‘as nossas instituições’ (sic). Não será um inquérito aqui, um impeachment ali, que há de derrubá-lo. Só uma revolução pode fazer isso.”

    (Postagem no Facebook em agosto de 2016)
    CONTRA O GLOBALISMO –  Vélez (no centro) foi indicado depois de rumores de que a pasta ficaria com um “globalista” (Jéssica Pizza/Folhapress)

    Nos anos 1970, ainda jornalista, interessou-se por astrologia, alquimia e esoterismo. Dedicou-se a esses assuntos anos a fio. Ministrou cursos sobre os temas em uma sala nos Jardins, em São Paulo, à qual deu o nome de Escola Júpiter. Nesse período, Olavo não costumava escrever suas opiniões na imprensa. Isso só passou a ocorrer em meados dos anos 1990, depois que publicou seu primeiro livro de repercussão, O Imbecil Coletivo, em que ataca uma obsessão: a classe intelectual “dominada pelo marxismo”. Jornalistas e acadêmicos, justamente aquelas categorias profissionais que não o acolheram como esperava, tornaram-se seu principal alvo. Sua tese era que, fracassado o socialismo, a esquerda teria adotado a estratégia gramsciana de “povoar a cultura” para depois infiltrar-se na política. Por isso, diz ele, “comunistas” começaram a ocupar espaços nas universidades, na imprensa e em todas as áreas do conhecimento. Quando O Imbecil Coletivo foi lançado, Olavo já havia publicado dez livros (de Aristóteles a astrologia), mas todos passaram em branco. Com O Imbecil, ganhou certa fama de polemista e começou a integrar o panteão dos escritores “de direita”. Colaborou com as revistas Bravo!, República, Primeira Leitura e Época e teve uma coluna no jornal O Globo, do qual foi demitido em 2005, ano em que se mudou para os Estados Unidos como correspondente do Diário do Comércio. Desde então, jamais voltou a pisar no Brasil.

    Teve três mulheres: aos 21 anos, Eugênia, mãe de seus quatro primeiros filhos; Silvana, com quem teve dois; e Roxane, mãe dos dois mais jovens e com quem é casado até hoje. Católico praticante depois de passear pelo misticismo e pelo sufismo, Olavo é crítico fervoroso do aborto e não se diz entusiasta de métodos contraceptivos. Seu passatempo preferido é “dar uns tiros” no jardim de sua casa com uma Steyr-­Mannlicher calibre .375 H&H, sua arma de caça favorita. Nutre aversão visceral aos filósofos brasileiros da USP, que ele classifica de “imbecis”, e é plenamente correspondido. Elogia poucos intelectuais, entre eles o poeta Bruno Tolentino, de quem foi amigo, o economista Roberto Campos e o escritor Ariano Suassuna — todos falecidos. Na Virgínia, criou um curso on-­line de filosofia que até hoje, segundo suas contas, já lhe garantiu 20 000 alunos, que pagam até 640 reais por ano para baixar suas aulas. Olavo não diz quanto ganha com os cursos e a venda dos livros, mas afirma receber “mais que professor universitário e que a maioria dos jornalistas, exceto os que sobem na vida puxando o saco do patrão”. Recluso, não tira férias e só sai de casa se é estritamente necessário. O cineasta pernambucano Josias Teófilo, expelido do meio intelectual depois de tornar-se admirador de Olavo e lançar um documentário sobre sua vida, intitulado O Jardim das Aflições, conta que o filósofo carrega sempre um livro para onde vai e é capaz de sacá-lo no meio de um jantar e começar a ler enquanto os demais conversam.

    “Os próceres da reforma intelectual brasileira querem guiar o povo sem saber quem os guia. São cegos e ingênuos no fundo de uma casca de vaidade e presunção. No fundo de sua aparência erudita, são incultos, despreparados e bem pouco inteligentes.”

    (O Jardim das Aflições; Diadorim; 1995)
    Sua relação com os alunos mais devotos tende a ser mercurial. Quando obedecem a seus ensinamentos e lhe dão o devido crédito, são gênios. Quando os contestam, são expulsos dos grupos de estudo e, não raro, atacados nas redes sociais pelos fiéis, também chamados de “olavetes”. O economista Rodrigo Constantino, que não chegou a fazer o curso mas já foi alvo da fúria de Olavo na internet, afirma que a dificuldade do professor em lidar com o contraditório vem do medo de ser “ofuscado”. “Ele briga com qualquer pessoa que se destaca nesse meio liberal conservador e que represente algum risco de dividir a atenção. Só não briga com aqueles que se mantêm submissos e prestam referência de que ele é o seu guru”, diz Constantino, que, apesar de tudo, afirma respeitar a obra do filósofo. A persona de Olavo nas redes faz uso constante de termos vulgares, sob o pretexto de que “qualquer palavrão” dito por ele “é mais decente do que oração em latim recitada por padre comunista”. Mais do que as ideias persistentes de Olavo de Carvalho, foi o inimigo em comum com Bolsonaro que o aproximou do hoje presidente eleito. Será curioso ver de que lado Olavo ficará quando o novo mandatário sentir as dores reais do poder, muito mais nocivas que os fantasmas da Guerra Fria.

    I’m in love with america

    BONÉ MILITANTE –  Eduardo Bolsonaro: visita à Casa Branca e elogios ao presidente americano (Paola De Orte/Agência Brasil)

    O governo de Jair Bolsonaro, antes mesmo da posse, está vivendo um intenso love affair com a Casa Branca. Na quinta-feira 29, o conselheiro para assuntos de segurança dos Estados Unidos, John Bolton, a caminho da reunião do G20 em Buenos Aires, aproveitou para se reunir com Jair Bolsonaro em sua casa no Rio de Janeiro. O presidente eleito disse que a conversa foi “producente e grata”. O assessor da Casa Branca informou apenas que foram discutidos “interesses bilaterais” — e transmitiu ao presidente eleito um convite de Donald Trump para visitar Washington. Tão conhecido pelas posições radicais e um tanto belicistas quanto pelo seu farto bigode de morsa, Bolton defende um ataque militar à Coreia do Norte e duras sanções contra a Venezuela. Em uma entrevista recente, disse que vai propor ao Brasil parceria para combater o terrorismo.

    Enquanto Bolton estava no Brasil, o deputado Eduardo Bolsonaro, o terceiro filho do presidente eleito, visitava os Estados Unidos. Foi recebido na Casa Branca por Jared Kushner, genro de Trump e um de seus principais conselheiros (veja em Radar, na pág. 40). Na saída, posou para fotos usando o boné da reeleição de Trump em 2020. O motivo da visita é tentar “resgatar a credibilidade brasileira no país”, segundo ele. Também houve um encontro com senadores do Partido Republicano, conversas com investidores e visita ao presidente da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro.

    Na terça-feira, o deputado foi um dos convidados para o jantar de aniversário de Steve Bannon, o ex-estrategista da campanha de Trump e líder de um movimento direitista internacional. Depois do encontro, o deputado postou nas redes sociais uma foto dos dois e classificou Bannon como “um ícone no combate ao marxismo cultural”. Ao postar a imagem em seu perfil no Twitter, Eduardo divulgou uma conta falsa de Bannon. Foi uma gafe com reciprocidade, digamos assim. Em recente entrevista ao jornal inglês The Guardian, Bannon chamou o presidente Bolsonaro de “Botolini”.

    A próxima missão “diplomática” de Eduardo é impedir que a Cúpula Conservadora das Américas, um evento que pretende reunir na próxima semana em Foz do Iguaçu os expoentes da direita latino-americana, se transforme num fiasco. A ideia dos organizadores é fazer um contraponto ao Foro de São Paulo, entidade que agrega os partidos e organizações de esquerda da região. Até agora nenhum chefe de Estado confirmou participação. O próprio Jair Bolsonaro não sabe se comparecerá. Olavo de Carvalho, um dos palestrantes da Cúpula, também já disse que não estará fisicamente presente. Participará por videoconferência.
    Gabriel Castro

    Bolsonaro, o livreiro

    EFEITO IMEDIATO – Aparição na live na vitória: disparo nas vendas (Facebook/Reprodução)

    Ao fazer uma transmissão ao vivo após a vitória, em 28 de outubro, Jair Bolsonaro exibiu duas obras de não ficção na mesa de sua casa: o livro O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, reunião de artigos de Olavo de Carvalho organizados por Felipe Moura Brasil, e o segundo volume das memórias de Winston Churchill. A exposição alçou ambos às listas de mais vendidos, o que significa que pelo menos 1 000 unidades foram comercializadas em uma semana. Foi a primeira vez que o livro de Churchill atingiu tal patamar no país.

    A produção literária de Olavo de Carvalho tem sentido mais intensamente as delícias de contar com um leitor como Bolsonaro. Ao ser relançado pela Editora Record no Brasil às vésperas da eleição, O Imbecil Coletivo foi comprado por 40 000 leitores — Homo Deus, best-seller de Yuval Harari, vendeu 49 000 cópias no país em 2018. Já O Mínimo, cuja primeira edição é de 2013, teve saída de mais de 18 000 unidades após a “live da vitória” — e mais de 300 000 no total, quase o mesmo patamar da autobiografia de Rita Lee, lançada em novembro de 2016 pela Globo Livros e que até o momento vendeu 350 000 exemplares.

    A influência de Bolsonaro e a redescoberta da direita têm favorecido não só as obras de Olavo, mas também as de outros autores que abordam temas similares. Deputado eleito pelo mesmo partido do presidente, o príncipe Luiz Philippe Orleans e Bragança, em sua obra inaugural, Por que o Brasil É um País Atrasado?, lançada pela Novo Conceito, comercializou mais de 10 000 unidades apenas em 2018. Para a Câmara Brasileira do Livro, um título que vende um total de 15 000 exemplares pode ser chamado de best-seller.

    Segundo dados da Record, que hoje edita os livros de Olavo no Brasil, independentemente do boom editorial atrelado a Bolsonaro, o filósofo é considerado um dos autores mais populares do selo, com vendas mensais de 2 000 unidades, em média. É um dos raros autores brasileiros capazes de viver de direitos autorais — ele recebe, em média, 10% do valor de capa. Nada mau para um escritor autodidata que nem concluiu o ensino médio.
    João Batista Jr.
    Publicado em VEJA de 5 de dezembro de 2018, edição nº 2611
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     Reportagem Por Ana Clara Costa e Edoardo Ghirotto
      Publicado em 30 nov 2018 
    Fonte:  https://veja.abril.com.br/politica/eu-sou-o-segundo-governo/