quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Cinema que revela o pior

Juremir Machado da Silva* 

Resultado de imagem para Filme parasita

Filmes mostram o quanto podemos ser perversos


      Vi “Parasita”, filme do sul-coreano Bong Joon-ho. Fiz isso depois de ter assistido ao “Coringa”. São duas carnificinas. Sempre me questiono humildemente: por que sair de casa sábado à noite para ver uma mortandade? Qual a razão para contemplar alguém esfaqueando pessoas ainda que seja numa ficção? Não encontrei a resposta. Divertimento não é. Será, então, obra de arte? Ou uma contribuição da indústria do cinema para a reflexão sobre os dramas sociais? Nunca me convenci plenamente das boas intenções dos gigantes do entretenimento.

      “Parasita” e “Coringa” são excelentes filmes. Tão bons quanto repugnantes e exagerados. Ambos parecem dizer: quem planta humilhação, colhe tragédia. Um dia as pessoas se revoltam. Até aí tudo bem, ou seja, como discordar? O problema é o método demonstrativo. A primeira parte de “Parasita” tem algo de comédia sem qualquer sentido. A segunda parte, porém, apresenta-se como um pesadelo interminável. Fechei os olhos algumas vezes. Acabei desistindo ou teria de dormir para não ver tanto sangue derramado em vão. “Coringa” parece justificar melhor o ressentimento que move o assassino, o vilão que se torna “herói”.

      Aí o leitor se pergunta: de que tipo de filme eu realmente gosto? Darei um exemplo recente: “Tabacaria”. Gosto de histórias com altos e baixos, momentos de ódio e de amor, de ressentimento e de ternura, de violência e de paz, de desespero e de esperança. Tenho dificuldades com enredos em que a perversidade corre solta de ponta a ponta. Não estou criticando “Parasita”. Limito-me a confessar a minha incapacidade para digerir tanto sangue em apenas duas horas. Acostumadas a doses cavalares de violência, é possível que as pessoas exijam dos filmes quantidades sempre maiores de execuções explícitas e de maldade visceral.

      Uma obra para ter alguma chance de sucesso precisa contemplar cinco fatores: uma boa história, uma boa linguagem, produzir um descobrimento (destapar, “desocultar” alguma coisa), gerar uma diferença (diferencial) e captar o espírito da época. Essa é a fórmula do sucesso: S = DDn, sendo “s” sucesso, “d” descobrimento e “d” diferença. Quanto mais descobrimento e diferença, mais sucesso.
Mas se não capturar o ar do tempo, o espírito da época, não decola. “Parasita” e “Coringa” contam boas histórias, com linguagens afiadas (a caricatura da primeira parte de “Parasita”), descobrem o ressentimento social prestes a explodir e geram diferença: a empatia dá-se com o “vilão”, com o agressor até ali agredido.

Eis o espírito do tempo. Não é mais a ordem defendida por Batman que mobiliza os sentimentos, mas a desordem do acerto de contas do Coringa que acorda um desejo enviesado de justiça. Em “Parasita”, o encontro da família desempregada, vivendo num porão, com a família rica da mansão anuncia um desencontro de imaginários fadado a uma fricção sem retorno possível. Nem tudo é intencional. O acaso faz o resto. E o roteiro. Acho um tanto fácil mandar esfaquear um monte de gente.

Levo uma semana para me refazer de filmes violentos. Por sorte, esqueço quase tudo. Quando saio do cinema me acontece de não me lembrar se já jantei. Mais lento é o esquecimento das tantas facadas. Noto que para muitos não faz cócegas.
----------------
* Escritor, tradutor, jornalista, radialista e professor universitário brasileiro. Foi coordenador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Fonte:  https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/cinema-que-revela-o-pior-1.383318 28/11/2019
Imagem da Internet

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

JUDEUS, CHAMINÉS E O BRASIL

Roberto DaMatta*
 Resultado de imagem para Talmud

Há muito mais nas identidades sociais do que pensa a nossa vã ideologia

Os judeus são basicamente debatedores. Entre eles, cada evento, pessoa ou objeto jamais são vistos de um só ponto de vista. Daí, acentuam os estudiosos, as inúmeras disputas na vida e no pensamento judaico, incluindo seus livros sagrados como o Talmude e a Torá. Historiadores desse povo disperso, e com inserções diversas nos países para os quais foram forçados a ir ou expulsos, apontam essa extremada e dramática experiência de ser “o outro” como um elemento básico dessas discordâncias e dessa afinidade com a dúvida. Afinal, ser o “povo eleito” é ser uma coletividade marcada por uma extremada alteridade...  

O atual momento brasileiro está de tal ordem contaminado pela insensatez, ignorância, descrença e cinismo que vale a pena recordar uma velha anedota judaica que me foi contada em Nova York por um rabino e amigo querido. Estou, pois, consciente do meu plágio ou roubo, tão comum, aliás, no meio intelectual e jornalístico. Acentuo o ponto porque, quando escrevemos, não reconhecer a fonte denuncia o plagiário burro engolfado por sua vaidade. Essa turma que infesta com pompa e circunstância o curto cenário brasileiro.
*
Abe, um jovem judeu, foi ver o rabino. “Rabi – pediu – eu ficaria muito grato se o senhor me explicasse o Talmude.” “Claro”, disse o mestre, “mas, primeiro, eu preciso fazer uma simples pergunta. Se dois homens saem de dentro de uma chaminé e um sai sujo e o outro limpo, quem é que se lava?”. 

“O sujo!”, respondeu Abe prontamente. 

“Não, Abe!”, disse o rabino debaixo do olhar espantado do jovem. “Quem se lava não é o sujo porque ele se acha limpo – é justamente o limpo que pensa que está sujo. Agora, outra pergunta: se dois homens saem de uma chaminé e um sai sujo e o outro sai limpo, quem se lava?” 

Abe deu um riso condescendente: “O senhor acabou de me responder: o homem limpo, porque ele acha que está sujo”. “Não, Abe”, replicou o rabino. “Cada um olha para si: o homem limpo sabe que não tem que se lavar, mas o sujo, lava-se...”  

“Agora uma pergunta final. Se dois homens saem de uma chaminé e um está sujo e o outro limpo, quem se lava?” 

Desta vez Abe fez uma careta de protesto. “Eu não sei, rabino. Poderia ser qualquer um, dependendo do seu ponto de vista.” 

“Não! Abe!”, disse o rabino com firmeza. “Se dois homens saem de dentro de uma chaminé, como é que um deles pode sair limpo 

Ambos, obviamente, saem sujos e ambos se lavam.” 

Abe estava, agora, completamente confuso. “Rabino, você fez exatamente a mesma pergunta três vezes, mas deu três respostas diferentes. Você está brincando comigo?” 

“Não, Abe”, disse o rabino, “eu nunca brinco com você. Isso é o Talmude...”. 


O aluno de doutorado, que jamais leu um livro, pergunta ao professor de sociologia política.  

– Bebeto, me ensina como o Brasil deu no que deu. 

– Primeiro, eu tenho que lhe fazer uma ou duas perguntinhas, diz o mestre. Eis a primeira: dois ministros saem de uma chaminé, quem se limpa primeiro? O corrupto ou o honesto?  

– Quem tem as costas quentes jamais pensa em se lavar, diz o jovem doutorando. 

– O que você entende por costas quentes? Replica o professor. 

– Eu estou pensando no cargo que aristocratiza e isenta, no modo de usar no cargo e no prestígio de quem o nomeou; em quem são os seus compadres, amigos e companheiros; ao partido político que ele pertence; se foi preso ou perseguido em alguma ditadura... 

– É uma lista interminável... – pondera o professor-doutor Humberto, interrompendo o aluno.  

– E o pior é que eles pensam que esses infinitos recursos de poder podem ser corrigidos com leis e não com uma honesta crítica dos seus costumes, dos limites de suas relações. 

– Então os dois saem sujos? Experimenta o professor. 

– Não. Responde o aluno. Ambos, sendo legais e caindo dentro da lei, não querem nem saber onde está a sujeira. 


Eu dei uns socos uma vez na minha vida contra flamenguistas. Não eram torcedores, mas uma seita. Neste domingo, o Flamengo englobou o meu coração e o Brasil. Há muito mais nas identidades sociais do que pensa a nossa vã ideologia.
-----------
 *Antropólogo, conferencista, consultor, colunista de jornal e produtor brasileiro de TV
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,judeus-chamines-e-o-brasil,70003103657 27/11/2019
Imagem da Internet

O que é sincretismo?



Leandro Karnal*
 Resultado de imagem para sincretismo
Todos os deuses e cultos do mundo são costuras de muitas tradições
 
Existem conceitos que se espalham e que usamos sem muita reflexão. Quando as pessoas notam que existem oferendas no dia 2 de fevereiro para Iemanjá, dia de Nossa Senhora da Luz ou das Candeias, imediatamente classificam que esse seria um gesto de sincretismo, de elementos combinatórios entre a mãe de Jesus e a orixá dos mares. O mesmo poderia ser percebido em Santa Bárbara, tratada como Iansã no candomblé, ou São Jerônimo/Xangô ou São Jorge/Ogum. O mesmo sentimento geral afirma que as combinações eram estratégias de escravos que, impossibilitados de continuar seus cultos tradicionais, disfarçaram o panteão africano com os canonizados católicos. Ir à Igreja do Senhor do Bonfim, lavar as escadas com água de cheiro louvando ao bom Jesus que acompanhava a agonia derradeira era, no fundo, um culto a Oxalá presente no branco das roupas das baianas e nas comidas de homenagem. Esse parece ser um consenso tão universal no Brasil que se assemelha à ideia clássica da origem da feijoada: um prato com restos do porco levados para a senzala e lá cozidos com o feijão-preto enquanto os senhores brancos da Casa Grande tinham aproveitado o lombo e o pernil. Como as entidades poderosas iorubas, a feijoada era uma estratégia do possível para um grupo oprimido e violentado física e espiritualmente.  

A ideia pareceu funcionar e foi bem repetida. A feijoada não é um prato da senzala e não nasceu na colônia. O prato típico da mão de obra escravizada é a farinha de mandioca com carne-seca. A feijoada é urbana e, provavelmente, nasceu na capital do país de então, o Rio de Janeiro. Com variantes expressivas, cozinhar partes do porco com feijão existe em quase todo o mundo.  

Voltemos ao sincretismo. O conceito tem um problema: ele implica dizer que existiria uma religião pura e original. Não há. Mitos combinados fazendo surgir uma espécie de signo aberto no qual o Zé do Burro (a personagem do O Pagador de Promessas, de Dias Gomes) via Iansã e Santa Bárbara ao mesmo tempo, para horror do padre na obra.  

Não existe uma religião original ou uma fonte absoluta. Explico-me. O Deus de Israel é fruto da fusão de uma entidade chamada El e outra denominada Iaveh (e suas muitas variantes de escrita). Cada entidade era separada e atingia mais os habitantes do norte ou do sul do corredor sírio-palestino. Há abundantes evidências imagéticas e literárias de que eram seres separados, com narrativas distintas, esposas, imagens específicas e valores apartados. No exílio da Babilônia, sacerdotes costuraram um processo que vinha aumentando fazia anos: a fusão dos dois deuses em uma nova entidade nacional dos hebreus, cada vez mais imaterial e única. Israel passou do politeísmo para a monolatria e, muito mais tarde, para o monoteísmo. As narrativas foram colocadas por escrito por um processo visível ainda nas linhas de colagem da Bíblia. Existe o texto eloísta e o javista e eles foram unificados de forma mais ou menos eficiente pela chamada tradição sacerdotal. Isso explica algumas contradições notáveis do texto bíblico, deixando ainda revelar dois seres completamente diferentes com atributos desiguais.  

E o demônio? Talvez seja a mais sincrética das criaturas. A serpente que provocou a queda do homem, a entidade que obtém de Deus autorização para atormentar Jó e o ser que dialoga com Jesus no deserto são completamente distintos. Porém, a narrativa cristã uniu todos como Lúcifer ou Satanás, aquele que sussurrava ações maléficas a Judas e que luta contra o Bem no Apocalipse. A costura de toda a ação malévola em um ser específico é um processo de intenso sincretismo.  

Maria passou a ser cultuada em Éfeso, mesmo lugar do culto a Diana/Ártemis, uma entidade sempre virgem. A fusão de deusas-mãe do Crescente Fértil com a figura de Nossa Senhora foi bem documentada. Em alguns casos, transforma-se o lugar: o Partenon de Atenas, consagrado a outra virgem, Palas-Atena/Minerva, virou igreja de Nossa Senhora. Dogmas marianos foram proclamados em Éfeso e o processo de construção da imagem de Maria vai até o século 20 (dogma da Assunção). Nascer de uma virgem é comum a Mitra e a Jesus. Ressuscitar é lembrado como atributo de Osíris e Cristo.  

Todos os deuses e cultos do mundo são costuras de muitas tradições. Mesmo que alguns religiosos fiquem um pouco chocados, heróis submetendo dragões (como São Jorge, São Marcelo de Paris ou Santa Margarida) não começaram com Game of Thrones. São mitos antigos e fortes. Como o arcanjo São Miguel pesa as almas em imagens medievais, Anúbis fazia isso há mais tempo no Egito. Tudo no campo do sagrado é feito de sobreposições, imbricações, fusões e mestiçagens.  

Sob esse aspecto, tudo é sincretismo, inclusive aquele processo de criação de Deus ou de Maria. Não existe uma religião original e pura ou uma fonte primária. Religiões funcionam como cebolas com muitas camadas e, enfim, depois de retiradas, inexiste uma essência primeira. Sincretismo é a base de todas as culturas, não apenas de Iemanjá ou Xangô. É preciso ter esperança, esta sim, uma virtude pura e original.
-----------
* Historiador brasileiro, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), especializado em história da América.
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,o-que-e-sincretismo,70003103640 27/11/2019
Imagem da Internet

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Jesus cita Mariza para falar do futuro: "O melhor de mim está a chegar"

"Gosto muito de estar no Brasil e de viver no Rio. Sou acarinhado pelos adeptos e, por isso, vou dar tempo ao tempo", confessou
AFP/Getty Images
O técnico português falou sobre a conquista da Final Libertadores, a nova etapa no Flamengo e nas suas inspirações, revelando que todos os dias ouve o tema 'Melhor de mim' da fadista Mariza.

 "O melhor de mim está a chegar”. Foram estas as primeiras palavras de Jorge Jesus horas após ter ganho a final da Libertadores no sábado. O treinador do Flamengo confessou, em entrevista ao Canal 11, que todos os dias ouve o tema de Mariza, cuja letra, diz, tem muito a ver com os seus objetivos no clube brasileiro.

“Na canção ela diz: ‘eu sei que a tempestade vai passar, vamos caminhando em frente, acreditando sempre, porque o melhor de mim há de chegar’. E o melhor de mim está a chegar”, citou Jesus, referindo-se à letra do tema ‘Melhor de mim’. Nessa música, Mariza canta: “Algo me diz que a tormenta passará/É preciso perder para depois se ganhar/E mesmo sem ver, acreditar”.

O técnico português falou sobre a conquista da final da Taça Libertadores, referindo que “no futebol nunca nada está ganho nem nunca está perdido”. E diz que o jogo jogado em Lima, capital do Peru, teve mais qualidade do que jogo decisivo da Champions de 2018/2019 entre o Tottenham e o Liverpool. “Este jogo [entre o River Plate e o Flamengo] na minha opinião teve muito mais qualidade técnica e tática”, defendeu.

“Foi bom termos saído vencedores, porque foi um título muito importante para a nação do Flamengo”, disse satisfeito.

Questionado sobre a bandeira portuguesa que transportou no final do jogo, Jesus disse que foi a forma que encontrou de mostrar o seu país a todo o mundo, uma vez que a final tinha sido transmitida em vários países do mundo. “Profissionalmente, distribuo [a vitória] pelo povo português, porque sei que me acarinhou muito nesta conquista”, acrescentou.

Sobre esta nova etapa no Flamengo, o treinador português disse que sabia que podia alcançar títulos que em Portugal não eram uma possibilidade. “Quando me convidaram não hesitei, não tive medo. Estou feliz por ter tomado esta decisão”, assegurou.

Jorge Jesus falou ainda de um futebol mais apaixonado do que na Europa: “Os brasileiros têm uma grande paixão pelo futebol e transportam para os jogos um colorido muito bonito, que em quase parte nenhuma do mundo acontece. Quem vê jogos no Brasil fica apaixonado.”

O técnico, que passou por clubes portugueses como o Benfica e o Sporting, considera que, apesar de ser “o maior clube do mundo, em termos de adeptos,” o Flamengo “não ganha títulos e, por isso, não é um grande clube”. “Quando começar a ganhar títulos, o Flamengo poderá dizer ‘nós somos o maior clube do mundo”, explicou.

O técnico português lembrou ainda que tem contrato com o Flamengo até maio, mas que neste há uma clausula que contempla a possibilidade de saída já em dezembro. Apesar dessa condição que foi acordada na eventualidade de uma má adaptação, Jesus confessou: “Gosto muito de estar no Brasil e de viver no Rio. Sou acarinhado pelos adeptos e, por isso, vou dar tempo ao tempo”.
--------------
Fonte: https://observador.pt/2019/11/26/jesus-cita-mariza-para-falar-do-futuro-o-melhor-de-mim-esta-a-chegar/

NEOLIBERALISMO DO CHILE TEM GRANDE APELO ENTRE SERES TOTALITÁRIOS


José de Souza Martins*
 
 FOTO: Carvall

Em Concepción, no Chile, a indústria pesqueira e a indústria naval haviam sido duramente atingidas pela economia neoliberal da ditadura militar

Milton Friedman, da Universidade de Chicago, mentor dos “Chicago boys”, que disseminam o neoliberalismo econômico nos países precários como o nosso, disse que uma economia livre só tem sentido em sociedades democráticas e livres. No entanto, esse neoliberalismo tem grande apelo entre os seres totalitários que transformam as reformas econômicas neoliberais em verdadeiros golpes de Estado de governantes ocultos que governam sem mandato, os técnicos que implementam as medidas que as efetivam.

No mais das vezes, com elas, revogam conquistas sociais preconizadas pelos próprios empresários, induzidos pelas inquietações e demandas dos trabalhadores, como técnicas políticas de racionalização das relações de trabalho e de incremento da produtividade do trabalho através da paz social.

O Chile é apresentado, na propaganda enganosa do neoliberalismo, como país em que as duras medidas que o caracterizam acabam resultando em crescimento econômico e modernização em benefício de todos. O protesto das ruas diz que não. É verdade que o Chile das grandes dificuldades econômicas de 1973 sofreu um crescimento econômico extraordinário de lá para cá, mas às custas de consequências sociais excludentes.

Economistas, e não só eles, têm dificuldade para lidar com a dimensão histórica do tempo, com as temporalidades sociais. O economismo de gente que pensa como os “Chicago boys”, como se vê no dia a dia, é o da economia de longo prazo pensada e reduzida a providências e consequências de prazo curto.
Baseia-se no equívoco de supor que o tempo da história é linear, e não a diversidade dos ritmos do desenvolvimento, do desencontro entre crescimento econômico e desenvolvimento social. Diferentes setores da sociedade são atingidos desigualmente pela economia e pela política econômica.

Aqui no Brasil, no Chile e em todas as partes em que a sociedade se tornou cobaia do crescimentismo neoliberal, foi-o no lugar do desenvolvimento econômico e social. A rapidez das quedas e subidas na vida e a consciência da incerteza que as acompanha geraram e disseminaram os componentes sociais mais sofridos e menos discutidos do neoliberalismo: o medo e a insegurança resultantes.

Os sociólogos deveriam fazer pesquisas sobre isso nos hospitais e nas clínicas médicas, sobre as enfermidades decorrentes da incerteza numa sociedade, como a capitalista da atualidade neoliberal, que investe fortunas só para ter certeza sobre a lucratividade dos capitais. Certeza para quem ganha e a incerteza consequente para quem depende do trabalho. Nada investe nas pesquisas sociais para avaliar o caráter socialmente destrutivo e perverso das inovações econômicas.

A alquimia dos agentes e cúmplices do neoliberalismo não se revela apenas nas informações estatísticas sobre as desigualdades. Agora mesmo, aqui no Brasil, o IBGE anunciou que, em 2018, 1 milhão de pessoas havia caído abaixo do nível de pobreza, as que ganham no máximo R$ 9,30 por dia. Desde 2015, a cada ano, 1 milhão de pessoas têm sido transferidas para o estrato mais baixo da inferioridade social.

Há anos que observo em várias partes as minúcias dessa degradação que se manifesta na dimensão dramática e nas consequências da administração irresponsável das políticas econômicas.

Durante 12 anos fui membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, voltada para as vítimas desvalidas da tirania econômica e social. Em 2004, tendo que participar de um seminário da FAO em Santiago do Chile, fui designado pela Junta para fazer também uma visita a um projeto social da Igreja Católica em Concepción. Ali, a indústria pesqueira e a indústria naval haviam sido duramente atingidas pela economia neoliberal da ditadura militar. A pobreza estendera-se pela região.

O programa social que visitei durante um dia inteiro era um programa de educação complementar, alimentação e orientação de crianças no mais das vezes abandonadas pelos pais em decorrência da crise econômica. Muitas delas “caíram” na prostituição infantil e se tornaram mantenedoras do que sobrara da família.

Um dos casos que analisei em detalhe foi o de um menino de 12 anos, de nome Felipe. Seu principal amigo e colega de trabalho era seu cavalo, com o qual trabalhava diariamente na catação de ferro-velho para sustentar, em primeiro lugar, seu próprio cavalo; em segundo lugar, sua avó; e, com o que sobrava, a si mesmo. A política econômica da prosperidade meramente visual da capital do país cancelara o futuro das crianças que visitei. Um cavalo manso se tornara o arrimo e amigo de Felipe e sua avó. Seres ausentes das estatísticas da prosperidade econômica sem ética, que mostram para encobrir.
 -------------------------
* José de Souza Martins é sociólogo. Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Academia Paulista de Letras. Entre outros livros, autor de "A Sociabilidade do Homem Simples" (Contexto).