domingo, 29 de dezembro de 2019

A era dos eleitores cínicos

Slawomir Sierakowski*
 
Em meio à crise civilizatória, risco de descer mais um degrau. Abandonadas pela democracia, maiorias seguem exemplo dos políticos: renunciam ao futuro e votam segundo interesses cada vez mais mesquinhos e oportunistas


Muitos dos que votaram em Donald Trump para presidente dos EUA sabiam que ele é um mentiroso contumaz, assim como a base do Partido Conservador no Reino Unido sabe que Boris Johnson, provável futuro primeiro-ministro, subiu trapaceando e mentindo. Na Polônia, não é segredo que o partido do governo, Lei e Justiça (PiS), está inchando as instituições de governo com seus lacaios, deformando a mídia pública, recompensando comparsas e minando a independência dos tribunais. No entanto, o PiS goleou os partidos de oposição da Polônia nas eleições para o Parlamento Europeu, em maio.

O fato de poloneses, britânicos e norte-americanos abrirem as portas para governos moralmente falidos é sintomático daquilo que o filósofo alemão Peter Sloterdijk descreveu como “razão cínica” no início dos anos 1980. Sloterdijk argumentava que, na ausência de narrativas de progresso amplamente compartilhadas, as elites ocidentais absorveram as lições do Iluminismo mas as colocaram a serviço de interesses pessoais estreitos, ao invés do bem comum. Problemas sociais tais como a pobreza e a desigualdade já não podiam mais ser atribuídos somente à ignorância humana. Contudo as pessoas esclarecidas não tinham determinação para resolvê-las. Como diz Slavoj Zizek, hoje a operação da ideologia já não é “eles não sabem, mas estão fazendo”, e sim “eles sabem, mas estão fazendo assim mesmo”.

Na visão de Sloterdijk, esse cinismo começou na elite. Agora todos nós nos comportamos como egoístas esclarecidos. Embora saibamos lutar contra as desigualdades, elas estão aumentando. O autoritarismo (seja russo ou chinês) lida melhor com a pobreza do que a democracia. As sociedades ricas são pouco sensíveis a guerras ou crises de refugiados.


Grandes ideias que prometem significativas mudanças sociais, sejam elas da democracia social ou da democracia cristã, estão encontrando ressonância somente entre as gerações mais velhas. Eleitores indiferentes ao fato de que populistas como Trump ou o primeiro-ministro húngaro Viktor Orban mudam suas declarações de um dia para o outro não são admiradores cegos do poder. São apenas defensores de seus próprios interesses particulares. Se reduzir emissões de gás de esfeito estufa significa fechar minas de carvão e usinas termoelétricas a carvão, aqueles que têm interesse no setor de carvão não apoiarão as políticas climáticas. Da mesma forma, aqueles que vivem nas áreas mais ricas não se importam muito com a demissão dos mineradores de carvão.

Na Europa, a emergente divisão entre Verdes e populistas parece refletir um novo eixo pós-ideológico. Nos dois lados da linha divisória, os eleitores comportam-se agora como velhos políticos, destacando determinados assuntos enquanto evitam outros cuidadosamente. Eles internalizaram a linha partidária (muitas vezes uma colcha de retalhos de antigas políticas de esquerda e direita), que repetem em grupos de discussão, nas mídias sociais e em torno da mesa de jantar. Os partidos políticos já não representam os eleitores; ao contrário, os eleitores representam os partidos, às vezes até antes de emergirem, como demonstraram os protestos dos coletes amarelos na França.

A presidência de Trump, o desastre do Brexit do Reino Unido e a ascensão do PiS e de Orban sugerem um generalizada perda de fé no progresso. A visão de progresso da Europa Oriental foi por muito tempo sinônimo de transição do comunismo ao capitalismo. Mas três décadas de aperto dos cintos à espera de um amanhã melhor cobraram uma pesada taxa de confiança das pessoas na democracia liberal. O populismo apela aos eleitores com sua promessa de uma espécie de revolução de Copérnico, revertendo o aperto dos cintos, bem como as suposições predominantes no passado.

Pouco depois da vitória do PiS nas eleições para o Parlamento Europeu, nas quais ele obteve 45,5% dos votos, o serviço de notícias OKO.press perguntou aos poloneses, “O atual governo do PiS persegue os próprios interesses partidários mais do que os governos anteriores do PO-PSL (Partido Popular Polonês-Plataforma Cívica)?” 

No total, 68% dos entrevistados responderam que sim e apenas 24% disseram que o PiS tem menos interesses do que seus predecessores. Mesmo entre os eleitores do PiS, 38% reconheceram que o aparato estatal está mais aparelhado do que sob o PO e o PSL. Quando perguntados se o governo atual do PiS faz mais para o ganho financeiro pessoal de seus funcionários do que o governo anterior do PO-PSL, 58% consideram o PO e o PSL mais honestos.

Contudo, em pesquisas qualitativas com eleitores poloneses ouve-se consistentemente coisas do tipo “Sei que o PiS não é particularmente honesto, mas eles cuidam das pessoas; roubam e enrolam, mas ao menos repartem”. Em outras palavras, esses eleitores apoiam o PiS a despeito de seus óbvios defeitos, porque não acreditam que podem dar-se ao luxo de votar contra o partido que, à sua maneira, tem canalizado dinheiro e outros benefícios sociais em sua direção.

A teoria das perspectivas, modelo de economia comportamental introduzido pelos ganhadores do Prêmio Nobel Daniel Kahneman e Amos Tversky, prevê que as pessoas se tornarão menos avessas ao risco se lhes forem apresentadas apenas possibilidades negativas. Nosso cálculo depende não apenas do que podemos ganhar ou perder em termos absolutos, mas de nossas expectativas e situação atual. Quando alguém que está esperando um pagamento alto recebe menos do que imaginava, fica decepcionado, ao invés de sentir-se satisfeito por ter pelo menos ganho alguma coisa.

Essa heurística mostra como os eleitores podem tornar-se ligados a políticos tipo Trump ou o líder do PiS Jaroslaw Kacynski. Eleitores poloneses, britânicos e norte-americanos fizeram escolhas políticas que sabem ser arriscadas porque sentem que não têm nada a perder e, afinal, suas opções são entre “ruim” e “pior”. A defesa de ideais elevados como a democracia, a ordem constitucional e a liberdade de imprensa parece um luxo exorbitante. Eles não estão dispostos a sacrificar benefícios materiais por princípios abstratos. 

Quem pode culpá-los? As corporações multinacionais ocidentais que fazem negócios na Rússia, China e outros países vêm há anos sacrificando o liberalismo em nome do lucro. Como Sloterdijk observou quase 40 anos atrás, a razão cínica escorre para baixo. Se isso ao menos fosse verdade sobre a riqueza, a história poderia ter sido bem diferente.
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* Fundador do movimento Krytyka Polityczna, é diretor do Instituto de Estudos Avançados em Varsóvia e membro da Academia Robert Bosch em Berlim. 
Tradução: Inês Castilho | Imagem: Yue Minjun, Arca de Noé, (2006)
Fonte:  https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/a-era-dos-eleitores-cinicos/

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A escalada autoritária do governo Bolsonaro

Ivo Lesbaupin*


“Licença para matar”

Desde o início deste governo, foi concedida publicamente – de forma subliminar, indireta, não explícita – uma “licença para matar”.

No Brasil não há pena de morte na lei, mas, na prática, todos os dias, nas periferias das cidades e no campo, jovens negros e negras, LGBTQI, lideranças e membros de povos indígenas, são mortos pela polícia, por milícias, por jagunços ou por particulares. No caso dos jovens periféricos, basta a justificativa de serem suspeitos de ligação com o tráfico de drogas.

Um primeiro sinal da atitude de Bolsonaro frente ao assassinato de adversários surgiu quando da execução, em março de 2018, da vereadora do PSOL Marielle Franco – negra, favelada, defensora dos direitos humanos, da população LGBTQI. Todos os demais pré-candidatos às eleições se posicionaram contrários ao assassinato, enquanto Bolsonaro ficou em silêncio. Semanas depois, em entrevista ao jornal O Globo, Bolsonaro declarou: “Para a democracia, não significa nada. Mais uma morte no Rio de Janeiro e temos que aguardar a investigação” (https://oglobo.globo.com/brasil/caso-marielle-presidenciaveis-comentam-morte-de-vereadora-22619562).

A “licença para matar” veio sendo subliminarmente pregada durante a campanha presidencial de 2018, quando a liberação da posse e do porte de armas foi a principal proposta do candidato Bolsonaro. Seus discursos foram marcados pelo ódio aos adversários, para os quais reservava o exílio, a prisão, a tortura ou a morte. Como no discurso dirigido aos seus apoiadores na Avenida Paulista, às vésperas do segundo turno, em 21/10/2018:

“Só que a faxina agora será muito mais ampla. (…) Ou vão pra fora ou vão pra cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria.

Petralhada, vai tudo vocês pra ponta da praia [local clandestino de tortura e execução na época da ditadura militar]. 

Será uma limpeza nunca visto (sic) na história do Brasil. 

Vocês, petralhada, verão uma polícia civil e militar, com retaguarda jurídica pra fazer valer a lei no lombo de vocês”.

Neste período, houve vários casos de eleitores de outros candidatos agredidos – eventualmente, mortos, como Mestre Moa do Katendê – por apoiadores de Bolsonaro.

Após a posse, em janeiro, o novo governante destacou-se por jamais tomar posição contra eventuais agressões físicas ou assassinatos cometidos pela polícia, pelas Forças Armadas, por milicianos ou por particulares contra povos indígenas, negros/as, mulheres, membros da população LGBTQI, habitantes de bairros periféricos ou favelas e adversários políticos.

Recentemente, o massacre na favela de Paraisópolis, em São Paulo, mostrou o grau de discriminação e de desprezo da polícia contra os moradores destas comunidades, um modo de agir que também tem sido característico do Rio de Janeiro no atual governo estadual.

Diante da chacina ocorrida em uma unidade prisional de Altamira (Pará) em julho deste ano, onde 58 presos foram mortos, em resposta à pergunta de um jornalista Bolsonaro preferiu evitar um posicionamento, dizendo: “pergunta para as vítimas dos que morreram lá o que eles acham” (https://extra.globo.com/noticias/brasil/pergunta-para-as-vitimas-dos-que-morreram-la-que-eles-acham-diz-bolsonaro-sobre-massacre-em-presidio-do-pa-23842190.html).

Um caso notório foi a morte de um músico confundido com um bandido por militares no Rio de Janeiro, em abril: seu carro, no qual viajava com a família, recebeu 80 tiros. Um catador que foi ajudar a família também foi morto. As Forças Armadas não pediram desculpas e o presidente defendeu o Exército, tratando o caso como um mero “incidente”.

Mas, em termos de alvo preferencial, foram os povos indígenas as principais vítimas: desde invasão de terras, atentados, agressões até assassinatos – alguns com características hediondas (como esquartejamento). O governo federal tem responsabilidade direta sobre este comportamento discriminatório e hostil em virtude de seu discurso não reconhecer qualquer direito a estes povos e mesmo estimular o ódio contra eles.

Não é a primeira vez que indígenas são assassinados, mas é a primeira vez que isso ocorre com respaldo oficial. Nenhuma recriminação, denúncia ou protesto veio da parte da autoridade máxima do país em relação a estes crimes.

Não temos dados suficientes para todo o Brasil, mas “os casos de feminicídio aumentaram 44% no 1º semestre de 2019 no estado de São Paulo se comparados ao mesmo período do ano anterior, de acordo com levantamento feito pelo G1 e pela GloboNews” (https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/08/07/casos-de-feminicidio-aumentam-44percent-no-1o-semestre-de-2019-em-sp.ghtml).

Uma frase, em particular, do discurso da Avenida Paulista, é significativa do que viria depois: “Vocês (…) verão uma polícia civil e militar, com retaguarda jurídica pra fazer valer a lei no lombo de vocês”. Estava ali prenunciada a fórmula do “excludente de ilicitude” que iria integrar o projeto anticrime do ministro da Justiça Sérgio Moro. Seria uma forma de proteger a polícia em casos de violência. Felizmente, até agora, não foi aprovado pelo Congresso.

Pouco tempo depois de iniciado o governo, algumas personalidades políticas – é o caso do ex-deputado Jean Wyllys e da escritora Marcia Tiburi – decidiram pelo exílio para evitar a concretização das ameaças de morte que estavam recebendo. O governo não ofereceu nada para garantir a vida destas pessoas. Era uma forma de dizer que os possíveis agressores estariam protegidos.

O país deixou de ser um lugar seguro para boa parte de seus cidadãos (sejam indígenas, negros/as, LGBTQI, mulheres, sejam aqueles que não pensam como ou não apóiam o governo): os direitos civis não estão garantidos. O artigo 3° da Declaração Universal dos Direitos Humanos não é compromisso do governo brasileiro atual: “Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”.

Desrespeito aos direitos humanos

O desrespeito aos direitos humanos não se limitou à disseminação do ódio. Os ataques contra as universidades, a cultura, as artes, cresceram desde o começo do governo.

A suspeição sobre as universidades não teve início em 2019, vieram antes. Em 2017, cinco universidades federais foram vítimas de invasões policiais: a Universidade Federal de Santa Catarina, cujo reitor, Luiz Carlos Cancellier, e mais 6 pessoas foram presas em 14 de setembro, por ordem de uma delegada da Polícia Federal, por suposta prática de improbidade administrativa. 105 policiais foram empregados para prendê-los. O reitor foi preso com seus colegas e passaram por um ritual humilhante de encarceramento. Ao ser solto no dia seguinte, graças a habeas corpus, foi proibido de entrar na sua própria universidade. Dias depois, se suicidou.

Dois anos e três meses depois da operação da Polícia Federal, em julho de 2019, o Ministério Público Federal ofereceu uma denúncia contra 13 pessoas, dentre as quais não se encontrava o reitor. Até hoje, ninguém foi responsabilizado pela sua morte.

As outras universidades alvo de operação policial foram a Universidade Federal do Paraná, a Universidade Federal de Juiz de Fora, a Universidade Federal do Triângulo Mineiro e a Universidade Federal de Minas Gerais.

Às vésperas do 2º turno das eleições presidenciais, entre os dias 23 e 26 de outubro de 2018, 13 universidades públicas de diferentes estados foram objeto de ações policiais, algumas a mando do TRE local, a partir de denúncias de correligionários da campanha de Bolsonaro ou para retirar faixas expressando repúdio ao fascismo.

Os ministros da Educação do governo Bolsonaro, tanto Ricardo Vélez, que ficou apenas três meses no cargo, mas sobretudo Abraham Weintraub, mostraram-se críticos à universidade pública. Weintraub atribuiu às universidades federais toda sorte de malfeitos, inclusive produção de drogas alucinógenas – sem qualquer prova.

E sistematicamente declara seu desprezo em relação aos professores. A recente chamada pública para denúncias de estudantes contra professores nas escolas nos faz relembrar práticas dos totalitarismos estalinista, nazista e fascista.

A cultura é outro campo que sofre sucessivos ataques por parte dos membros do governo. De um lado, as verbas públicas para a produção de eventos culturais são reduzidas, as leis de apoio à cultura são criticadas, de outro lado, artistas de todo tipo, inclusive os reconhecidos pelo público, são desrespeitados e difamados por autoridades ou por apoiadores do governo, em ataques virtuais massivos (“milícias digitais”) – sem que o governo saia em defesa dos artistas. Além disso, produções culturais são alvo de censura ou sofrem ameaças, em alguns casos levando os organizadores a suspender o espetáculo por falta de segurança.

Em resumo: as liberdades de opinião, de pensamento e de expressão não estão garantidas.

Reuniões e debates públicos vêm sendo alvo de variadas formas de “espionagem”, com policiais ou militares filmando ostensivamente tais eventos, como meio de intimidação dos presentes e/ou dos participantes das mesas, inclusive dentro de universidades.

Por outro lado, multiplicam-se casos de arbitrariedade policial ou por parte de órgãos do judiciário local contra pessoas ou grupos defensores dos direitos humanos, ambientalistas, membros de ONGs ou de movimentos sociais. Foi o que aconteceu com militantes do MTST de São Paulo, que foram arbitrariamente presos por vários meses. Assim como ocorreu recentemente a prisão de quatro brigadistas anti incêndio em Alter do Chão (Santarém, Pará), acusados, sem provas, de provocarem queimadas na floresta.

“Fake news”

A campanha eleitoral de 2018 foi marcada por uma utilização fenomenal de falsas notícias para difamar o candidato adversário. Os dados levantados até agora por alguns jornais e pela CPMI das “fake news” mostram que se tratou de uma produção massiva. Mas precisamos de dados mais precisos para comprovar isto. No entanto, parece não haver interesse dos principais órgãos responsáveis para investigar este crime que, pelo que sabemos, não foi interrompido após as eleições.
Mas não precisamos ir tão longe. As falsas notícias têm sido usadas diariamente pelo presidente e por ministros do governo para atacar seus adversários, a oposição, jornalistas e mesmo antigos correligionários, assim como para evitar as críticas feitas ao próprio governo. Tais acusações são feitas sem qualquer responsabilidade, pois dispensam apresentação de provas, sequer indícios. Para citar um único exemplo: a acusação de que eram ONGs as responsáveis pelas queimadas na Amazônia ou que o ator Leonardo Di Caprio financiava tais empreitadas.

Semear a dúvida, espalhar confusão, desprestigiar a busca da verdade, confundir os cidadãos, tem sido uma marca constante deste governo. Transparência e publicidade das ações é o que menos se tem verificado. Processos contra adversários correm céleres enquanto aqueles envolvendo pessoas próximas ao presidente são extraordinariamente lentos.

Liberdade de opinião e de expressão

A liberdade de imprensa é frequentemente questionada pelo presidente, toda vez em que é objeto de alguma reportagem ou notícia crítica. O governo utiliza métodos de cerceamento e ameaça, especialmente através de medidas que possam atingir o financiamento dos meios de comunicação. Esta postura já estava anunciada no discurso de 21 de outubro de 2018:
“Sem mentiras, sem fake news, sem Folha de S.Paulo. (…) A Folha de S.Paulo é o maior (sic) fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo”.

O presidente, durante toda a sua trajetória política, sempre defendeu a ditadura civil-militar de 1964-1985, nunca fez autocrítica deste período tenebroso da história do país, assim como sempre defendeu a tortura, reverenciando como herói um dos maiores torturadores daquela época. Neste primeiro ano de governo, não poucas vezes, defendeu ditadores de outros países, como o General Pinochet (cf. “Bolsonaro exalta ditadura de Pinochet e ataca pai de Michelle Bachelet” – http://g1.globo.com/globo-news/estudio-i/videos/t/todos-os-videos/v/bolsonaro-exalta-ditadura-de-pinochet-no-chile-e-ataca-pai-de-michelle-bachelet/7896867/). Em fevereiro, em viagem à fronteira do Brasil com o Paraguai, Bolsonaro tratou o ditador Alfredo Stroessner como um “estadista” e afirmou: “aqui está minha homenagem ao nosso general Alfredo Stroessner” (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/02/26/internacional/1551213499_127441.html).

Nas últimas semanas, a possibilidade de reinstituir o AI-5 (Ato Institucional no. 5, de 13 de dezembro de 1968) foi aventada várias vezes, inclusive por um filho do presidente, Eduardo Bolsonaro, e pelo Ministro da Economia, Paulo Guedes. É possível que as grandes manifestações em defesa de direitos que ocorreram em vários países da América Latina e Caribe – Equador, Chile, Colômbia, Bolívia, Haiti, Porto Rico –, na França, assim como a vitória de um governo progressista nas eleições argentinas, tenham deixado membros do governo inseguros, com receio de que manifestações semelhantes também ocorram por aqui.

Não estamos numa ditadura, mas há medidas e sinais cada vez mais evidentes de autoritarismo por parte do governo. Não estamos tranqüilos, muitos de nossos direitos não estão garantidos e estamos constatando uma nítida escalada neste processo.

Em dois livros publicados no ano passado, os autores – cientistas políticos – escrevem sobre: “Como as democracias morrem” e “Como a democracia chega ao fim”. Segundo eles, isto pode ocorrer quando líderes políticos autoritários, mesmo eleitos democraticamente, tomam medidas que na prática suprimem direitos e garantias democráticas e inviabilizam a liberdade de oposição (de opinião, de imprensa, de manifestação, de expressão artística, etc.).

A sociedade civil tem se manifestado a todo momento, há protestos e posicionamentos freqüentes de defensores dos direitos humanos, de ambientalistas, de movimentos de mulheres, de povos indígenas, do movimento negro/e quilombolas, de estudantes, professores e outras categorias. Mais que nunca, temos de deixar clara nossa oposição a qualquer forma de restrição da democracia e dos valores democráticos.

Mas, se as instituições que deveriam defender a democracia e denunciar as arbitrariedades em curso não o fizerem com a firmeza e a clareza que o momento exige, pode ser que amanhã seja tarde demais.
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* Doutor em Sociologia pela Universidade de Toulouse-Le-Mirail, França,
Fonte:  http://iserassessoria.org.br/a-escalada-autoritaria-do-governo-bolsonaro/
https://pethistoriaufpr.wordpress.com/2019/03/31/nota-do-pet-ditadura-nunca-mais/

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Yuval Noah Harari: ‘Precisamos de transferência de recursos dos países ricos para os mais pobres’

‘Isolacionistas,
‘Isolacionistas, como Trump, se importam apenas com seu país, por isso precisam negar a mudança 
climática’. Na foto, urso polar vasculha lixo na RússiaYuri Chvanov / Reuters - 18/6/2019

Yuval Noah Harari* é um historiador ambicioso: dois de seus livros publicados no Brasil, Homo Sapiens e Homo Deus, levam, respectivamente, os seguintes subtítulos: Uma Breve História da Humanidade e Uma Breve História do Amanhã. No mundo todo, seus títulos foram traduzidos para mais de 50 línguas e venderam mais de 20 milhões de cópias.
O israelense esteve no Brasil em novembro para uma série de eventos e entrevistas, oportunidade em que a reportagem se encontrou com ele. Vestido em tons claros e com óculos de aros finos, com um timbre seguro na voz, Harari aparenta se sentir à vontade falando tanto do passado quanto do futuro.
Em relação ao clima, acredita que ainda há possibilidades para o mundo, mas que para realizá-las é necessário um esforço de cooperação global. Sobre os Estados Unidos de Trump, ele critica a posição do presidente por decidir se afastar da liderança do mundo livre num momento crítico da história econômica mundial, provavelmente, nas suas palavras, à beira de uma nova crise do sistema financeiro. Sobre o futuro econômico e político, se preocupa muito com os “não empregáveis” (“unemployables”), a força de trabalho de países em desenvolvimento e pobres que não terão condições de se adaptar às novas realidades em que a automação será cada dia mais protagonista. Ele falou ao Estado sobre esses e outros assuntos.

Em Homo Deus, você sugere que as coisas estão se movendo tão rápido que é virtualmente impossível saber o que vai acontecer no futuro. Mas com o clima, cientistas têm uma ideia sólida, e mesmo assim é muito difícil convencer alguns governos sobre esse assunto. Por que é tão complicado?
Os governos não querem. Demanda muito capital político e investimentos para mudar o curso (dos acontecimentos em relação ao clima). É possível, não acho que seja tarde demais. Há muitas coisas que podemos fazer mas, para fazê-las, é preciso mudar o rumo da economia com uma colaboração global maior. Uma vez que a mudança climática é reconhecida como realmente perigosa, também é necessário reconhecer que é preciso uma cooperação global. Não é algo que apenas um governo possa fazer. As pessoas de extrema direita, e gente como Trump, são contra a cooperação. Eles são isolacionistas, se importam apenas com o seu próprio país. Eles precisam negar a mudança climática por isso.

Qual é a responsabilidade de Trump, e dos EUA, nessa discussão?
Ele acredita que a América não tem responsabilidade sobre ninguém no mundo, econômica ou politicamente. O mais incrível sobre os Estados Unidos nos últimos três ou quatro anos é que eles voluntariamente se demitiram da sua posição tradicional de líderes do mundo livre. Essa foi a realidade por décadas. A grande questão sobre 2020 é que se eles realmente votarem novamente por Trump, é como se dissessem: “nos esqueçam, só nos importamos com os Estados Unidos”. O que é muito perigoso, porque em muitas frentes precisamos de liderança. Os EUA ainda são a maior economia e o maior poder militar. Se pensarmos em termos econômicos, quando a crise de 2008 aconteceu, o pior destino possível foi evitado por conta da união das lideranças do mundo, tomando algumas medidas radicais para salvar os mercados e prevenir o colapso financeiro completo. Agora, se uma crise similar acontecer amanhã, penso que estamos condenados. Para evitar o pior resultado é preciso cooperação global. Os bancos centrais, o G7 e o G20… e ninguém seguiria Trump nesse cenário. Quem pode confiar nesse cara? Por três anos, os EUA nos disseram que não se importam com ninguém. Falando só do sistema financeiro, estamos numa situação extremamente perigosa. Uma crise virá: talvez em seis meses, talvez em três anos. Virá. O mundo está totalmente despreparado agora.

Em sua obra, o senhor menciona os “não empregáveis”, e diz que será o maior problema econômico e político das próximas décadas. Vê como possível alguma colaboração mais forte entre esses países para combater essa questão?
Sim, em duas frentes. A contínua automação vai beneficiar os países líderes em campos como inteligência artificial e robótica, como os EUA e a China. Os piores efeitos se darão em países em desenvolvimento, que dependem de trabalhos manuais baratos — o tipo de trabalho mais fácil de automatizar. Haverá novos postos, mas será preciso outras formas de treinamento e habilidades. Os países ricos têm os recursos necessários para o retreinamento da força de trabalho. Os países em desenvolvimento e mais pobres serão atingidos duas vezes. Primeiro, pelo choque da automação, e depois pelo fato de não terem os recursos para treinar sua força de trabalho. O que eles podem fazer? Novamente, é um campo em que será preciso cooperação global para salvar os elos mais frágeis da corrente, porque se países na América Central entrarem em colapso econômico, qualquer problema que os Estados Unidos têm hoje com imigração ou situações de instabilidade na região serão muito, muito piores. Precisamos de uma transferência de recursos dos países ricos, que serão beneficiados pela inteligência artificial, para os países que serão mais atingidos por isso. Isso deve começar hoje, não em 20 anos. Que tipo de trabalho as crianças brasileiras que hoje têm 5 ou 6 anos terão em 20 anos? Esperar esse período pode ser tarde demais.

O senhor diz que o nacionalismo não é natural, não tem raízes na biologia ou psicologia.
Não quero dizer que seja antinatural, estou dizendo que os Estados-nação que temos hoje não são uma parte da psicologia humana, são um fenômeno bastante recente, de apenas alguns mil anos, muitas vezes menos. Humanos estão por aí há cerca de 2 milhões de anos. Então, não devemos pensar que Estados-nação são parte da natureza humana e portanto continuarão para sempre. Quando eles apareceram, em um ponto da história, serviram a um bom propósito. A essência do nacionalismo não é odiar estrangeiros, mas amar seus compatriotas e se importar com milhões de pessoas que você não conhece de verdade. Na maior parte da evolução humana, os humanos apenas se importaram com as pessoas que eles conheciam, a família e os amigos mais próximos. A grande questão sobre o nacionalismo é que ele permite, numa nação como o Brasil, se importar com 200 milhões de estranhos. Ser honesto nesse contexto é estar disposto a pagar impostos para que todos tenham educação e um sistema de saúde. E isso é muito bom. Também não acredito que haja uma disputa entre democracia e nacionalismo, acho que eles andam juntos. O que estamos vendo em várias partes do mundo são democracias se enfraquecendo porque o nacionalismo está se enfraquecendo. Geralmente, quando ele está forte, a indicação é que existem guerras entre as nações. Agora, praticamente não há guerras entre nações. Os conflitos são internos. Seja no Oriente Médio, seja nos Estados Unidos. Americanos agora odeiam outros americanos muito mais do que odeiam os russos. Sem o nacionalismo, as democracias não podem funcionar, porque elas se baseiam no fato de que todas as pessoas, ou a imensa maioria, concordam sobre aspectos básicos. Há discordâncias, mas não ódio. Por exemplo: “Acredito que meus adversários políticos estejam enganados, até mesmo que sejam burros, mas eu não os odeio, e eles não me odeiam. É por isso que quando eles vencem as eleições, estou disposto a aceitar o resultado”. Quando não há senso de destino nacional, a nação se parte em tribos rivais, e a longo prazo a democracia não funciona. A questão principal é as pessoas entenderem errado o nacionalismo e pensar que ele é sobre odiar estrangeiros, ou odiar minorias, quando na verdade é sobre amar os seus compatriotas. Ser um bom nacionalista não significa matar outras pessoas. Significa pagar seus impostos de maneira honesta para que outras pessoas na nação tenham boa educação.

É curiosa essa ideia de que o nacionalismo está, na verdade, se enfraquecendo.
Trump, por exemplo, não é um nacionalista. Ele é anti-nacionalista. Um líder nacionalista é alguém que tenta unir uma nação. Trump faz o exato oposto, deliberadamente debilitando a unidade americana, não necessariamente nas suas políticas, mas no seu discurso.

O senhor também comenta que é possível que o cérebro humano seja sobrecarregado de informações a tal ponto que já não consiga processá-las de maneira adequada, e que a luta pela atenção humana é um grande problema atual e do futuro. Quais são os riscos envolvidos nesses aspectos?
Um dos problemas é transferir a autoridade humana para algoritmos. Porque apenas os algoritmos seriam capazes de tirar sentido da quantidade imensa de informações. Para dar um exemplo prático, pensando no sistema financeiro: mesmo hoje, quantas pessoas entendem como o sistema financeiro funciona? Para ser muito generoso, eu diria que talvez 1% da população. Em 20 ou 30 anos, o número pode ser exatamente 0. O sistema será tão complexo, e o fluxo de informações tão rápido, que mesmo PhDs em economia não serão capazes de entendê-lo. A autoridade muda para o algoritmo. Mesmo hoje, boa parte dos negócios é fechada por algoritmos, e cada vez mais as decisões econômicas importantes seguirão esse caminho. O Banco Central deve subir ou reduzir a taxa de juros? Essa será uma decisão tomada por algoritmos, porque ninguém vai entender a economia. Isso acontece em diversos campos. Quando alguém está procurando preencher uma vaga em sua empresa, hoje em dia recebe dezenas de currículos, os analisa, pensa sobre quem está mais apto para o trabalho, há uma entrevista, se forma uma impressão e é isso. A autoridade dessa decisão pode mudar para algoritmos, que processam milhares e milhares de informações e não contam com a entrevista. Eles podem explorar todo o seu feed do Facebook, por anos, e encontrar padrões que indicam se você é extrovertido ou fechado, confiável ou não, todo tipo de traço psicológico. O algoritmo vai decidir quem é apto para o trabalho, e quando a pessoa for questionar a empresa por que não foi contratada, a empresa vai dizer que não sabe, foi apenas o algoritmo. É possível que haja leis. A União Europeia já aprovou uma lei em que o ser humano tem direito a uma explicação sobre toda decisão a respeito dele definida por algoritmo. Mas pode ser uma impressão de mil páginas com todos os dados que o algoritmo analisou? Estamos chegando a um ponto que não estamos sendo capazes de processar toda a informação.

REPORTAGEM POR  | Guilherme Sobota |22 de dezembro de 2019 | 05h00
* Yuval Noah Harari tem 43 anos, é historiador, filósofo e autor de Sapiens: Uma Breve História da Humanidade, de Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã e de 21 Lições para o Século 21. Nascido em Haifa, Israel, é professor do Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalém. Publicada em diversos países, sua obra já vendeu mais de 20 milhões de cópias.
Fonte:  https://www.estadao.com.br/infograficos/cultura,precisamos-de-transferencia-de-recursos-dos-paises-ricos-para-os-mais-pobres,1063634

Conceição Evaristo: ‘Uma hora você dá murro em ponta de faca; na outra, recolhe a mão’

‘Às
‘Às vezes, o racismo está tão naturalizado que não sabemos se 
é isso mesmo ou se é paranoia’. Na foto, marcha da consciência negra 
em SPSergio Castro / Estadão - 20/11/2012
Conceição Evaristo não dá conta de tantos convites para participar de eventos literários. Ela bem gostaria que fosse para falar sobre seus livros, seu processo criativo ou o que motiva sua escrita, mas sabe o lugar que ocupa – e que há assuntos urgentes.

Aos 73 anos, ela é uma das principais escritoras negras brasileiras e inspiração para uma nova geração de leitores e escritores. Autora de Ponciá Vicêncio, Becos da Memória e Olhos D’Água, entre outras obras publicadas também na França, Espanha, Estados Unidos e no mundo árabe, esta professora aposentada, que começou a vida profissional trocando faxina por livros ou aulas particulares, trabalhou como doméstica, deixou a Belo Horizonte natal para viver no Rio e depois Maricá e que foi a personalidade do ano do Prêmio Jabuti, recebeu o Estado em um hotel na Bela Vista, em São Paulo. Conceição falou sobre literatura, representatividade, história, medos, sonhos e o Brasil de 2019.

“Uma hora você dá murros em ponta de faca. Na outra, põe a mão para trás. Brinco que talvez este seja o tempo de fingir de morto para enganar o coveiro. E, trabalhando em silêncio, retomar trabalhos que já deram certo”, disse.

O texto literário pode ser um caminho para que se chegue à história?
Sim, e no caso de um texto literário que traz a memória dos afrodescendentes, em determinados momentos, é um dos únicos caminhos.

Como o negro vem sendo retratado na literatura brasileira? Isso mudou hoje?
A mudança não é significativa porque a criação literária não nasce imune. Como a sociedade brasileira ainda tem um imaginário estereotipado sobre o negro, ele aparece estereotipado nas obras contemporâneas – e isso, muitas vezes, é inconsciente. A mudança de olhar sobre o negro vem com a literatura de autoria negra. Isso também não quer dizer que a gente esteja imune a esses estereótipos na construção dos nossos personagens, porque nossa formação literária foi lendo homens e mulheres brancas. Mas os efeitos são menores.

O mercado editorial publica pouco e poucos autores negros, mas está publicando mais do que antes. Isso é reflexo de uma maior preocupação com a diversidade, resultado do trabalho que vem sendo feito por autores negros ou o mercado está apenas se apropriando de um discurso de lutas sociais que está repercutindo na sociedade?
Pode ser tudo isso. O livro é um objeto de consumo. Se ele vende, a temática passa a ser interessante. Hoje, essa é uma temática interessante para os politicamente corretos, para quem realmente assumiu essa consciência e para quem quer vender. E talvez o mercado editorial tenha descoberto o público leitor negro. Temos buscado essa autoria negra com muita veemência e as casas editoriais vão apostar nessa possibilidade de venda. Isso é importante, mas, por outro lado, sabemos quando estamos sendo apropriados, quando se apropriam do nosso discurso, como também sabemos quando as pessoas estão realmente compactuadas e cumpliciadas conosco.

Hoje, pós-empoderamento, pós-ações afirmativas, depois de anos de silenciamento, é diferente ser um autor negro?
Sim, e muito por nossa força de combate. Para mim, o grande exemplo foi a Flip de 2017, quando intelectuais negras, lideradas por (historiadora) Giovana Xavier, chamaram a Flip de “arraiá da branquidade”. Acho que, a partir daí, a Flip tomou outra característica. Eu já era muito convidada para feiras de livros, mas hoje eu não dou conta do convite. Mas essa mudança só acontece pela nossa insistência, a partir de nosso questionamento. Não ganhamos isso de presente; buscamos os nossos lugares. 

Hoje há uma nova geração de leitores que, como mostrou uma pesquisa sobre hábito de leitura feita na Festa Literária das Periferias, escolhe ler obras de autoria negra por identificação.

Tudo é um conjunto. Esses resultados não nascem milagrosamente ou desvinculados de outras ações. Esse público se forma a partir das ações afirmativas, da criação da Lei nº 10639/2003, que inclui o estudo das culturas africanas e depois das culturas indígenas - e cria uma necessidade de mercado, ampliando a possibilidade de divulgação desse texto de autoria negra. Sem falar nas cotas, que colocaram alunos afro-brasileiros nas faculdades e isso vai influenciar nos currículos, nos objetos de pesquisa. Essas meninas e esses meninos chegam cobrando uma bibliografia negra. É um círculo.

Uma literatura que evoca uma experiência africana e afro-brasileira é necessariamente uma literatura de resistência?
Sim, independentemente de se apresentar como tal. Quando pensamos no espaço da literatura - de criação, publicação, divulgação, leitura, concessão de prêmios - a autoria negra conquista aos poucos o seu lugar. Insistimos, então pode-se pensar num espaço de resistência, sim. Eu me refiro ao texto e também à temática, porque é mais fácil, por exemplo, a crítica aceitar um texto de autoria branca falando sobre nós do que aceitar um texto em que nós somos objeto e sujeito de nossos próprios discursos. Assim, uma literatura que se impõe com o sujeito sendo ele o criador do discurso e da história, e falo de sujeitos que têm a identidade menosprezada, é uma literatura de resistência.

O nicho foi importante em um momento, mas incomoda ser convidada para eventos literários como a autora negra?
Sim, parece que para nós são reservadas determinadas falas. E o que eu tenho dito muito também é: não leiam somente a minha biografia. Quem lê talvez consiga ampliar mais o sentido do meu texto, mas isso não significa que esse texto precise necessariamente da minha biografia. Quero falar do meu processo de criação, contar como surgiu um livro. Quero discutir literatura e não somente determinados assuntos. Mas, por outro lado, eu sou uma escritora afro-brasileira, e essa é uma afirmativa identitária no sentido de valorizar uma ancestralidade africana. Falar de uma autoria negra é importante. Mas o meu texto é um texto literário que cabe perfeitamente na literatura brasileira e quero ser reconhecida como uma escritora brasileira - que traz essa especificidade de ser uma escritora afro-brasileira.

A senhora é otimista com relação ao futuro do Brasil?
Por instinto de conservação, tenho de ser. Aos 73, se não for, vou selar a minha morte antes da hora. E acredito que esse país tem jeito - não para mim. Há 20 anos, nós nem colocávamos o dedo na ferida. Eu acredito muito na juventude. Ao mesmo tempo em que vejo uma juventude negra sendo dizimada, vejo uma juventude negra estudando, pesquisando, afirmando a sua identidade e vejo uma juventude branca mais cumpliciada conosco. Se olharmos a geração dos pais deles, é um passo avante. E acredito nesse processo histórico. Uma hora você dá murros em ponta de faca. Na outra, põe a mão para trás. Brinco que talvez este seja o tempo de fingir de morto para enganar o coveiro. E, trabalhando em silêncio, retomar trabalhos que já deram certo. Algo que vem surgindo é a preocupação com a questão da violência. O Brasil e outros países da América Latina foram formados pela dizimação dos donos da terra e escravização dos africanos. Temos a violência na nossa raiz.

A senhora vem conquistando a cada dia novos leitores e tem inspirado muitas meninas e mulheres a começar a escrever. O que diria para quem está começando?
Escrever, escrever sempre, independentemente do que pode resultar disso. Romper a autocensura. As feministas negras dizem que escrever é um ato político. Concordo plenamente e acrescento que para mulheres negras é escrever e publicar. E crer que o direito à escrita e à leitura também é nosso.

É mais fácil ou mais difícil ser uma mulher negra no Brasil hoje?
Depende do lugar em que essa mulher negra está colocada. Hoje, com todos os enfrentamentos que eu tenho, ser mulher negra se tornou mais fácil. Mas para uma mulher negra que mora numa favela, que está abaixo da linha da pobreza e trabalha numa função subalternizada, não sei. Na ocasião da Ocupação Conceição Evaristo, no Itaú Cultural, me perguntaram como eu me sentia com a homenagem, e disse que muito bem. Mas, quando eu saio da exposição, sou uma mulher negra vulnerável, como qualquer outra mulher negra. Daquela vez, saí da exposição, atravessei a rua, entrei num shopping e todos os meus passos foram vigiados pelo segurança. Acontece também na recepção do hotel, no restaurante.

O racismo te acompanhou na vida?
Sim. Constitui o branco e constitui essas relações na sociedade brasileira. E às vezes ele se torna tão naturalizado que corre até o risco de nós, negros, não percebermos o que está acontecendo. Ou então, quando percebemos, ficamos sem saber se é isso mesmo, se é paranoia.

Se dependesse das redes sociais, a senhora teria sido eleita imortal da Academia Brasileira de Letras em 2018, mas os acadêmicos não concordaram. E este ano foi a grande homenageada do Jabuti. 

Como vê esse momento da sua carreira?
Eu vejo que determinados espaços estão realmente um passo à frente e que outros continuam num conservadorismo cruel. Mas não me espanta, e a ABL não me espantou. Tenho dito que não perdi nada. Quem perdeu foi a Academia, que podia ter dado um grande passo e ter sido realmente mais representativa da literatura brasileira. A ABL perdeu o bonde da história e eu saí com muita dignidade. Acho que vai haver o momento que nós teremos escritores negros, escritoras negras e escritores indígenas na Academia. Se eles quiserem acompanhar este processo histórico, eles vão ter de abrir.

A senhora acaba de fazer 73. A vida tem valido a pena?
Sim. Todo dia eu bendigo a vida. Acho que a vida e a literatura me escolheram. Foi a literatura que me trouxe até aqui. Ter hoje também leitores jovens e inspirar essa meninada certifica para mim que eu estou conseguindo trilhar um caminho - e com dignidade.
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REPORTAGEM POR  | Maria Fernanda Rodrigues | 22 de dezembro de 2019
Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, em 1946. Autora de obras como Ponciá Vicêncio e Olhos D’Água, ela trabalhou como empregada doméstica até concluir os estudos secundários em Minas. Professora, se mudou para o Rio em 1973, formou-se em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e seguiu com o mestrado e doutorado sem abandonar a sala de aula. Estreou na literatura na série Caderno Negros, tem obras publicadas em diversos países e foi a Personalidade do Ano do Prêmio Jabuti em 2019.
Fonte:  https://www.estadao.com.br/infograficos/cultura,uma-hora-voce-da-murro-em-ponta-de-faca-na-outra-recolhe-a-mao,1062761

‘Melhor democracias imperfeitas, até corrompidas, que ditaduras eficientes’

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A turbulenta política latino-americana sempre fascinou o escritor peruano Mario Vargas Llosa*, ganhador do Nobel de Literatura de 2010 – do peronismo argentino às guerrilhas nicaraguenses, o autor não se furta de fazer ácidos comentários. É o que inspirou seu romance mais recente, Tiempos Recios (Tempos Difíceis), ainda sem tradução no Brasil.

A obra se inspira em um golpe militar apoiado pelos Estados Unidos contra o presidente guatemalteco Jacobo Árbenz em 1954, episódio que Llosa acredita ter sido definitivo para o destino do continente.

Na trama, o autor desvenda conflitos e conspirações que devastaram a política regional naquela década. Obcecado pela guerra fria, o governo dos EUA acusou Árbenz de ser um fantoche soviético ao empreender uma reforma agrária contrária aos interesses de um grande conglomerado de frutas.
‘A impaciência da classe média com sistema de privilégios pode explicar tumultos no Chile’, afirma Vargas LlosaIvan Alvarado/Reuters - 24/10/2019
Llosa tem o olhar de um intelectual liberal, moldado pelas ideias de sete pensadores, que formaram sua base de leitura e fomentaram a defesa da liberdade de expressão como um valor fundamental para o exercício da democracia. O processo de formação desse pensamento é revelado em O Chamado da Tribo (Objetiva), autobiografia intelectual de um jovem que, desgostoso com o marxismo, descobre a tradição de um pensamento que favorece o indivíduo frente a um grupo social, uma nação, ou mesmo a um partido político e que defende a liberdade de expressão como um valor fundamental para a vivência democrática. Sobre os dois livros, Llosa conversou com Estado, por telefone, de Madri, na Espanha.

Como o senhor analisa a democracia praticada na América Latina?
É muito melhor ter democracias imperfeitas, até corrompidas, que ditaduras que não são eficientes por fomentar a delinquência, o roubo, a manipulação da realidade. Ao menos, não temos, na América Latina atual, ditaduras militares – temos ditaduras ideológicas, presentes em Cuba, Venezuela, Nicarágua. Temos democracias imperfeitas, mas que podem ser corrigidas por meio de denúncias de roubos e das políticas mafiosas dos governos. Temos polícias imperfeitas, mas, no caso do Peru, vemos políticos e empresários que foram presos por má conduta. Isso é um fato novo em nossa história republicana. Ao menos significa um progresso em relação às ditaduras de anos passados, que nunca reconheciam os roubos, a putrefação em que viviam, privilegiando os tiranos que voltavam ricos para suas casas. A situação hoje é outra, tivemos um progresso. Não podemos nunca nos esquecer: a corrupção é uma praga terrível para a democracia, é preciso combatê-la com muita resolução e energia.

E como avalia o liberalismo em prática no continente?
O caso mais notável é o do Chile, que primeiro optou por acabar com uma ditadura feroz, sanguinária, que foi a de Pinochet. Mesmo assim, houve algo positivo para o país, que foi a política econômica que trouxe muita prosperidade. Assim, o acordo entre a direita e a esquerda para manter essa política econômica dentro da legalidade foi algo extraordinário do ponto de vista político e econômico, pois atraiu um progresso que o Chile nunca teve em sua história, uma política de pleno emprego. E não houve, na América Latina, um país que diminuiu tanto a pobreza, convertendo socialmente essas pessoas em classe média. Então, desse ponto de vista, o Chile era um caso de sucesso e, por isso, não se esperava aquela explosão social que tomou conta do país e que realmente surpreendeu o mundo. As bases materiais não justificam esse tipo de protesto. Mas algo falhou. A impaciência da classe média que se descobre limitada e impossibilitada de alcançar o progresso por causa de um sistema de privilégios é uma explicação. Nesse campo, o Chile não evoluiu como deveria e não criou um sistema de educação e de saúde públicas ao nível da privada. É uma hipótese para tentar explicar algo muito surpreendente.

O senhor acredita, então, que a crise chilena está mais próxima do ocorrido na Europa que propriamente na América Latina?
Sim, o caso chileno está mais próximo da Europa. Primeiro porque Chile é quase um país de primeiro mundo. E o que houve lá é parecido com explosões sociais como a que aconteceu na França, com os jalecos amarelos. São movimentos claramente populares, sobretudo de classes médias que veem um limite em suas aspirações. Os revoltosos acusam o sistema de haver criado artificialmente esse limite, que impede sua ascensão por causa de privilégios, a setores que se valem de relações para alcançar postos mais altos no sistema. Um tipo de problema que assola praticamente todos os países desenvolvidos. E me impressiona que isso aconteça no Chile.

Como o senhor avalia a vitória de Alberto Fernández na eleição argentina, com Cristina Kirchner como vice?
Foi uma tragédia para a Argentina. Essa vocação suicida dos argentinos é algo verdadeiramente extraordinário, pois já se sabe que todos os problemas atuais do país foram causados pelo peronismo. Portanto, é impressionante que os eleitores reconduzissem ao poder essas pessoas que produzem uma política absolutamente catastrófica. Os argentinos vão lamentar enormemente a derrota de Mauricio Macri – claro que não foi um governo perfeito, mas, mesmo assim, não terá sido pior do que está por vir.
Falando agora de seu mais recente livro, Tempos Difíceis, o senhor acredita que, se os Estados Unidos, em vez de derrubar Árbenz, tivessem apoiado suas reformas, a história da América Latina provavelmente teria sido diferente?
Com certeza, foi um grande erro. Claro que havia um contexto que explicava muitas atitudes – estamos falando da guerra fria, do Macartismo. Mas houve uma falta de lucidez do governo americano naquele momento. O presidente anterior, Harry Truman, evitou invadir a Guatemala, resistiu às pressões e respeitou o que se passava lá. Mas a América Latina era uma terra de ditadores. Guatemala teve dois governos democráticos e o de Árbenz não era comunista nem socialista – ele queria modernizar um país que vivia ainda na era dos latifúndios com base na democracia moderna, fomentada por empresários independentes, dispostos a pagar impostos. Isso gerou o conflito com a multinacional americana United Fruit, que organizou, por meio de fake news, um aparato publicitário que permitiu a invasão. Se os EUA tivessem apoiado esse governo democrático, provavelmente a América Latina não teria vivido o pesadelo que durou os 50 anos de guerrilhas em quase todos os países para alcançar o suposto paraíso comunista, à maneira de Cuba. O que aconteceu foi a América Latina se inchar de ditadores militares, provocando a morte de milhares de pessoas. Isso atrasou tremendamente a democratização da região. Foi uma tragédia. Talvez nem a revolução cubana tivesse essa face radical, marxista, comunista, caso a Guatemala tivesse outra sorte.

É curioso o prólogo do livro, em que o americano Edward L. Bernays defende a necessidade de um golpe na Guatemala – a quantidade de inverdades seria caracterizada hoje como fake news.
E foi uma jogada de grande êxito, pois as pessoas acreditaram nessa ficção tomada por verdade de que a Guatemala era uma praia particular da União Soviética quando, na verdade, não havia um russo sequer no país. Árbenz foi acusado de abrir as portas para a União Soviética. Um disparate. Mas esse fruto de propaganda criminosa – que hoje, sim, seria fake news – fez com que os americanos acreditassem na possibilidade de uma invasão russa.

Quão danosas são as fake news, na sua opinião?
É um problema mundial provocado pela revolução digital, que transforma cada pessoa do planeta em uma espécie de jornalista ao divulgar notícias. Hoje, é difícil distinguir as notícias verdadeiras das fake news, vivemos uma espécie de confusão extraordinária. Temos de tomar todos os cuidados, pois não é impossível que uma sociedade seja manipulada pelas fake news.

E como a democracia convive com a mentira?
Infelizmente, não é possível existir uma democracia sem mentiras. O mais importante é a existência de uma imprensa responsável, um jornalismo autêntico, honesto, que se dê conta da sua responsabilidade – muito maior hoje em dia, por conta da abundância das fake news. Não acredito que exista no governo democrático outra maneira de combate, porque já sabemos o resultado quando se estabelecem sistemas de censura na América Latina: surgem governos que só defenderam mentiras.

E o que o senhor pensa sobre a autocensura, também muito praticada em países com governos com grande patrulhamento?
É muito importante, para os cidadãos responsáveis, ter coragem de defender a verdade, de não aceitar a censura e muito menos a autocensura. Isso é o princípio do fim em uma democracia. É essencial que os meios de comunicação mantenham sua independência diante do poder. Na América Latina, o populismo surge outra vez, como na Bolívia, com Evo Morales ficando 12 anos no poder à base de fraudes. É uma vergonha.

Sobre seu livro O Chamado da Tribo, o que motivou a escrita?
Era um livro que tinha muita vontade de escrever desde que li Rumo à Estação Finlândia, do crítico americano Edmund Wilson, uma obra sobre a ideia do socialismo por meio de seus grandes pensadores, grandes dirigentes políticos, e que termina com a chegada de Lenin à estação Finlândia, em São Petersburgo, pronto para iniciar a Revolução Russa. Desde que li, pensei em fazer algo parecido, mas com o liberalismo. O resultado não foi bem isso – “tribo” seria um grupo de pensadores liberais que tiveram muita influência sobre mim, por isso que se trata de um texto autobiográfico. É a trajetória intelectual e política de sete pensadores em uma época em que eu já vivia o desencanto do socialismo.

O senhor buscou explicar no livro que ideologias contrárias à liberdade veem o liberalismo como seu grande inimigo?
 O liberalismo não é uma ideologia, que é uma espécie de religião laica e só admite crentes – em alguns casos, só fanáticos. Liberalismo é um punhado de ideias compartilhadas por pessoas com diferenças de pensamento, como aliás ocorre na sociedade, onde sempre há muita discordância. O liberalismo reconhece que as diferenças devem prevalecer. Por isso, não diferencio liberalismo de democracia. Para mim, o liberalismo deu ideia e consistência de liberdade, além da legalidade, para a constituição da democracia, deu um fundamento econômico muito importante que permitiu que as democracias fossem prósperas, modernas, que pudessem evoluir tanto na área da ciência como na empresarial. Criou ainda condições materiais para o surgimento de uma política social avançada. São ideias fundamentadas na liberalidade e na legalidade. Finalmente, a ideia de que um Estado para ser eficiente tem de ser grande é equivocada. Os Estados grandes são, em geral, ineficientes. O ideal é ser pequeno, mas forte, que garanta a segurança, a propriedade, a liberdade de imprensa e de mercados, ao mesmo tempo em que defenda, de forma sistemática e sem concessões, a liberdade.

 Reportagem por Ubiratan Brasil 22/12/2019
*Nascido em Arequipa, no Peru, em 1936, Mario Vargas Llosa é jornalista, dramaturgo, ensaísta, crítico literário e escritor consagrado internacionalmente. Com vasta produção literária, que inclui peças teatrais, ensaios e memórias, recebeu o Nobel de Literatura em 2010. Também venceu os prêmios Cervantes, Príncipe de Astúrias e PEN/Nabokov, entre outros. Em 1990, foi candidato à Presidência do Peru, mas perdeu a eleição para Alberto Fujimori. A experiência foi relatada no livro Peixe na Água. É colunista do Estado.
Fonte:  https://www.estadao.com.br/infograficos/cultura,melhor-democracias-imperfeitas-ate-corrompidas-que-ditaduras-eficientes,1063841

Amazônia: uma catástrofe se aproxima

Milton Hatoum*
 

‘Desde
‘Desde a redemocratização, nenhum governo refletiu seriamente sobre 
a diversidade da Amazônia’. Na foto, plantação de eucalipto queimadaGabriela Biló / Estadão - 25/8/2019

Depois de fazer uma longa e tumultuada viagem de Manaus às cabeceiras do Rio Purus, Euclides da Cunha escreveu uma série de artigos e ensaios sobre a Amazônia, reunidos no livro póstumo À margem da história (1909). Nele, o autor de Os Sertões faz uma crítica aguda à atividade predadora do extrativismo do látex e ao trabalho semiescravo dos seringueiros.

São famosas estas frases euclidianas: “O seringueiro é um homem que trabalha para escravizar-se”. Ou: “Os ‘caucheiros’ aparecem como os mais avantajados batedores da sinistra catequese a ferro e fogo, que vai exterminando naqueles sertões remotíssimos os mais interessantes aborígenes sul-americanos”.

O uso do verbo “exterminar” não é um exagero retórico. Euclides percebeu que o extrativismo predador operava uma dupla destruição: da floresta e dos povos indígenas. Durante o Ciclo da Borracha (1880-1920) mais de 30 mil indígenas da região de La Chorrera (Colômbia) foram escravizados, torturados e assassinados por capatazes da Peruvian Amazon Company. Essas atrocidades – conhecidas como “O massacre do Rio Putumayo” – constam no relatório de Roger Casement, um diplomata britânico nascido na Irlanda. Em 1910, Casement, que era cônsul em Belém, viajou a La Chorrera, onde testemunhou e depois divulgou as barbaridades cometidas por capangas de barões da borracha.

No século passado, as tentativas de “ocupar” e “desenvolver” a Amazônia foram, além de fracassadas, extremamente danosas ao meio ambiente e aos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, pescadores. Alguns exemplos conhecidos: Fordlândia, no Vale do Tapajós (1927-45); a Rodovia Transamazônica e o Projeto Jari (empreendimento agroflorestal e industrial de Daniel Ludwig), ambos realizados no começo dos anos 1970. A partir desta década, a grilagem de áreas de proteção ambiental, terras da União e territórios indígenas, e a ação predadora de mineradoras, madeireiras e grandes fazendeiros, se intensificaram, e nunca foram interrompidas.

Esses “empreendimentos”, nefastos aos povos da floresta, estimularam um fluxo enorme de migração interna, gerando mais miséria e violência em municípios e capitais da região.

Desde a redemocratização do País, nenhum governo refletiu seriamente sobre a diversidade social, econômica, geográfica, cultural e antropológica da Amazônia. Obras megalômanas – como construções de hidrelétricas – afetam duramente indígenas e moradores de vilas, comunidades e cidades. Uma crítica lúcida e bem argumentada a essas edificações faraônicas foi feita pelo premiado jornalista Lúcio Flávio Pinto no livro A Amazônia em questão: Belo Monte, Vale e outros temas (B4 editores, 2012).

Mas é também verdade que nenhum governo anterior a este foi tão cúmplice da destruição do bioma amazônico. O ministro do Meio Ambiente, incapaz de entender a complexidade da Amazônia, nem sequer se interessa pelos anseios e pelas expectativas de sua população. Além disso, ignora estudos de cientistas e pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Museu Goeldi, Instituto Butantan (Belterra), Fiocruz e de universidades brasileiras. Nesse aspecto, o ministro é coerente com as correntes do governo que desprezam o conhecimento científico, as humanidades e a tecnologia.

São inúmeros os diagnósticos, análises, pesquisas científicas e antropológicas feitos por estudiosos brasileiros e estrangeiros. Um exemplo notável é o volume Amazônia: do discurso à práxis (Edusp, 2.º ed., 2004), do saudoso geógrafo Aziz Ab’Sáber. Os ensaios reunidos nessa coletânea são importantíssimos para a compreensão da Amazônia. Mas nada disso parece sensibilizar o primeiro mandatário e sua equipe ministerial, cujo desprezo por um mínimo de racionalidade terá consequências desastrosas, senão trágicas, para todo o País.

A tragédia não se limita ao desmatamento e à invasão de terras indígenas. É preciso lembrar que nas cidades da Amazônia, onde vive a grande maioria de seus habitantes, a desigualdade é brutal. Em 1905, Euclides da Cunha já alertava para o contraste social e econômico em Manaus, que crescia “à gandaia”. Hoje, mais de 60% dos domicílios dessa cidade não têm acesso ao saneamento básico, e 30% ao abastecimento de água. Esses índices – também alarmantes quanto à violência em Manaus, Belém e outras capitais – refletem a miséria e a degradação urbana na região mais rica em recursos naturais do planeta.

Mas quem de fato usufrui dessa riqueza? Quem realmente se beneficia com a exportação de minérios, madeira e com a construção de hidrelétricas? Para que serviu a construção, em Manaus, da Arena da Amazônia? Ou da Arena Pantanal, em Cuiabá?

Vários artigos publicados em revistas científicas sérias já alertaram para a alta concentração de gases de efeito estufa sobre a floresta tropical, o que certamente será desastroso para o Brasil e para todo o planeta. Uma catástrofe se aproxima. Mesmo assim, o presidente está interessado em exportar troncos de árvores nativas.

Se argumentos científicos não convencem os que professam uma fé fervorosa na irracionalidade, é o caso de perguntar: quais ambições estão ocultas nessa sanha devastadora da Amazônia? Ou: o que há por trás de tantos atos irracionais? Sem dúvida, um alucinado projeto de poder. Mas esse projeto tem aliados poderosos, dentro e fora do Congresso. O empenho do governo federal em perdoar multas ambientais e fragilizar a fiscalização de atividades predadoras é uma carta branca aos grandes grileiros e incendiários. Não se trata de política liberal. O nome disso é barbárie mesmo.

* Milton Hatoum nasceu em 1952, em Manaus. Formado em Arquitetura pela USP, trabalhou como jornalista cultural e foi professor universitário de História da Arquitetura e depois de Literatura Francesa. Seu romance de estreia, Relato de um certo Oriente, ganhou o Prêmio Jabuti em 1989. Sua obra já foi traduzida para 12 línguas e publicada em 14 países. É colunista do Estado.
Fonte:  https://www.estadao.com.br/infograficos/cultura,amazonia-uma-catastrofe-se-aproxima,1062699 22/12/2019

sábado, 21 de dezembro de 2019

Precisamos falar sobre a classe média

Marta Arretche*

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O conceito de classe média pode sinalizar uma definição sociológica mais ampla ou mera estatística. Mas é urgente pensar a condição das pessoas incluídas nessa categoria

É estável um arranjo político (qualquer que seja) sem o apoio da classe média? 

Sem chance, responderiam muitos cientistas políticos, sem titubear: a estabilidade da democracia depende da existência de uma ampla classe média. Melhor posicionadas que os mais pobres, as classes médias possuem recursos políticos para vigiar (e também derrubar) os governos. 

Assume ser verdadeiro esse mecanismo a interpretação que postula que, contemporaneamente, as ameaças à democracia viriam do apoio das classes médias ao populismo autoritário de direita. As vitórias eleitorais de Donald Trump e Boris Johnson derivariam das ameaças concretas à segurança econômica experimentada no pós-Segunda Guerra por essa parcela dos eleitores. Ao perder empregos e renda para os prósperos (e menos remunerados) trabalhadores asiáticos, a classe média das democracias avançadas seria presa fácil à mobilização do medo e a promessas de difícil realização. 

Das manifestações de junho de 2013 no Brasil ao Chile de Sebastián Piñera, passando por Hong Kong e a França de Macron, atribui-se às classes médias o poder de desestabilizar governos. Os mais saudáveis indicadores de prosperidade econômica não seriam suficientes para impedir as manifestações de descontentamento. 

Um clássico da literatura sobre proteção social, “The three worlds of welfare capitalism”, de Gösta Esping-Andersen, publicado em 1990, demonstrou que a estabilidade desses sistemas dependeria do suporte das classes médias. Estas votam contra o modelo americano, que privilegia a atenção focalizada nos pobres, porque se percebem pagando duas vezes: para os outros ao pagar impostos e para si mesmas ao comprar serviços privados. A estabilidade do modelo social-democrata, por sua vez, viria de sua capacidade de garantir serviços de qualidade à classe média, que paga impostos para receber serviços universais de volta.
Se a estabilidade de qualquer projeto político depende do apoio da classe média, então políticas que protejam apenas os mais pobres não trarão estabilidade política ao Brasil
Se tudo isso é verdade — e há pesquisa empírica sólida dando suporte a essas interpretações —, seria bem, bem prudente para qualquer projeto político que se pretenda estável não ignorar os anseios das classes médias. 

O fato, contudo, é que o conceito de classe média é bem, bem impreciso. Pode variar de um estilo de vida em que empregos estáveis, rendas elevadas, propriedade de imóvel e carro e consumo de bens culturais estão combinados na vida de um estrato social, até uma categoria econômica bem simples: a parte da população que está situada no meio da escala de distribuição contínua da renda. 

A distinção está longe de ser trivial. A primeira definição é sociológica: pretende descrever uma camada da população cujos hábitos e crenças derivam da condição de estar protegida contra a insegurança econômica. A segunda é meramente estatística: os indivíduos de uma população estão ordenados do mais pobre para o mais rico. A classe média é intermediária, isto é, tem mais renda que os mais pobres e menos renda que os mais ricos. Simples assim. Essa condição meramente posicional nada diz, entretanto, sobre sua condição de vida. 

Vejamos, por exemplo, o caso brasileiro. O gráfico abaixo apresenta a escala contínua da distribuição da renda, ordenada dos domicílios mais pobres para os mais ricos, no ano de 2018. Os valores indicam a renda domiciliar per capita de cada vintil (que corresponde ao ponto de corte do todo em 20 parcelas de igual tamanho populacional). Os números incluem todas as rendas obtidas pelos domicílios: além dos ganhos no mercado de trabalho, incluem os gastos governamentais, tais como Bolsa Família, as aposentadorias, o seguro-desemprego, aluguéis, aplicações financeiras etc.
Renda domiciliar mensal per capita, por vintis
Renda domiciliar mensal per capita,
Por incrível que possa parecer, sabemos, com base nos trabalhos de Pedro Herculano de Souza e Marcelo Medeiros, que a renda do topo do vigésimo mais rico deve ser lida com extrema cautela, pois a fonte deste dado – a PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) – não capta adequadamente a renda dos muito ricos. A subestimação desses valores seria importante se estivéssemos tratando de desigualdade. Ao subestimar as rendas dos mais ricos estaríamos, como bem mostraram estes autores, também subestimando os níveis de desigualdade.

Entretanto, para além da desigualdade, deveria ser objeto de nossas preocupações a condição econômica das categorias (que bem frouxamente) chamamos de classes médias no Brasil. A não ser que se possa demonstrar que uma renda domiciliar per capita de cerca de R$ 2 mil reais — o que posiciona um domicílio entre os 20% mais ricos — protege uma família contra a insegurança econômica, parece cristalino que a classe média no Brasil não corresponde àquela à qual se referem nossos colegas que estudam as economias desenvolvidas. 

De qualquer modo, a condição específica da classe média brasileira não a torna potencialmente menos explosiva. Se a estabilidade de qualquer projeto político depende do apoio da classe média, então políticas focalizadas, que protejam apenas os mais pobres, não trarão estabilidade política ao Brasil. O desafio de nossa estratégia de redução das desigualdades requer pensar nos 80% mais pobres.

Marta Arretche é professora titular do Departamento de Ciência Política da USP e diretora do Centro de Estudos da Metrópole. Foi editora da “Brazilian Political Science Review” (2012-2018) e pró-reitora adjunta de pesquisa da USP (2016-7). É graduada em ciências sociais pela UFRGS, fez mestrado em ciência política e doutorado em ciências sociais pela Unicamp, e pós-doutorado no Departamento de Ciência Política do Massachussets Institute of Technology, nos EUA. Foi visiting fellow do Departament of Political and Social Sciences, do Instituto Universitário Europeu, em Florença. Escreve mensalmente às sextas-feiras.
Imagem da Internet
Fonte:  https://www.nexojornal.com.br/colunistas/2019/Precisamos-falar-sobre-a-classe-m%C3%A9dia

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

"Três razões por que a esquerda não gosta do Natal"


| Foto: Pixabay


 Menos e menos americanos, lojas, empresas ou meios de comunicação desejam às pessoas um “Feliz Natal”,preferindo um estéril “Boas Festas”.

Por Dennis Prager   
The Daily Signal

Menos e menos americanos, lojas, empresas ou meios de comunicação desejam às pessoas um “Feliz Natal”, preferindo um estéril “Boas Festas”.

Muitos na esquerda (em oposição aos liberais) estiveram em guerra contra o Natal por mais de uma geração. Esquerdistas sempre negam que há uma guerra contra o Natal e zombam daqueles que afirmam que ela existe.

É preciso um chutzpah [audácia, em iídiche] alucinante ou falta de autoconsciência quando as pessoas fazem algo e, no entanto, negam que estejam fazendo realmente isso. Mas a evidência é esmagadora.

A esquerda impediu as escolas de chamar as férias de Natal com esse nome – o nome que as escolas chamavam ao longo de toda a história americana até as últimas duas décadas. Quase todas as escolas não-cristãs nos Estados Unidos agora chama as férias de Natal de “férias de inverno”.

Menos e menos americanos, lojas, empresas ou meios de comunicação desejam às pessoas um “Feliz Natal”, preferindo um estéril “Boas festas” (apesar do fato de a grande maioria dos americanos celebrar o Natal).

E em apenas uma geração, praticamente todas as empresas americanas passaram de ter uma “festa de Natal” para uma “festa de fim de ano”.

Já tendo escrito no passado sobre a falsidade da não inclusividade de “Feliz Natal”, “férias de Natal” e “festa de Natal”, não reiterarei o ponto aqui. Basta dizer que é preciso um nível de narcisismo de tirar o fôlego para um não-cristão se ofender com as menções de Natal e um nível igual de mesquinharia para tentar privar a grande maioria dos colegas americanos da menção pública de seu feriado.

Em vez disso, quero tentar explicar por que isso aconteceu.

O argumento “inclusivo” é tão absurdo – eu sou um judeu praticante e não consigo nem mesmo me sentir ofendido ou me sentir “não incluído” por um convite para uma festa de Natal – que deve haver outras razões, ou pelo menos adicionais, para a esquerda esterilizar o Natal.

E há.

Uma é que a esquerda vê no cristianismo seu principal inimigo ideológico e político. E está certa nisso. A única oposição organizada e de larga escala contra a esquerda vem da comunidade cristã tradicional – protestantes evangélicos, católicos tradicionais e mórmons fiéis – e de judeus ortodoxos.

O esquerdismo é uma religião secular e considera todas as outras religiões imorais e falsas.

De Karl Marx a Vladimir Lenin, de Lenin a George Soros, a esquerda considerou a religião em geral e o cristianismo em particular como o “ópio das massas” – uma droga que leva as massas a aceitar sua condição de oprimida e, assim, impede que elas se engajem na revolução.

A esquerda entende que quanto mais as pessoas acreditam no cristianismo (e no judaísmo), menor a chance de a esquerda ganhar o poder. A esquerda não se preocupa com o Islã, porque o percebe como um aliado em sua guerra contra a civilização ocidental e porque os esquerdistas não têm coragem de enfrentá-lo. Eles sabem que o confronto com os religiosos muçulmanos pode ser fatal, enquanto o confronto com cristão não implica riscos.

Segunda, a esquerda considera o cristianismo nos Estados Unidos como parte intrínseca da identidade nacional americana – uma identidade que deseja erodir em favor de uma identidade de “cidadão mundial”. A esquerda não apenas lutou contra o Natal; procurou minar outros feriados de identidade nacional.

Por inúmeras razões, não apenas de esquerda, os americanos não comemoram mais o aniversário de George Washington (de fato foi substituído pelo totalmente sem sentido “Dia dos Presidentes”) ou o aniversário de Abraham Lincoln, como fizeram quando eu era criança, meu pai era criança, e seu pai era criança.

O único americano celebrado em um feriado nacional é Martin Luther King Jr., que é aceitável para a esquerda porque não é branco. Uma prova do desejo da esquerda de minar os feriados nacionais especificamente americanos é a guerra aos dois feriados restantes especificamente americanos: o Dia da Independência e o Dia de Ação de Graças.

A esquerda considera o Dia de Ação de Graças uma fraude histórica e uma celebração imoral do “genocídio” dos índios americanos – que é o que se ensina agora às crianças em muitas escolas públicas americanas. E o “Feliz Dia de Ação de Graças” foi substituído por “Boas Festas”.

Quanto ao 4 de Julho, o New York Times está liderando a destruição da celebração do aniversário dos Estados Unidos, declarando que a verdadeira fundação da América foi em 1619, ano em que, segundo afirma o jornal, os escravos africanos chegaram ao continente americano pela primeira vez.

É claro, ainda há o Dia dos Veteranos e o Memorial Day, mas eles não feriados nacionais especificamente americanos; praticamente todos os países têm feriados parecidos.

Mas o Natal é um problema para a esquerda. Ele celebra a religião e o faz de maneiras essencialmente americanas (como a música de Natal americana, por exemplo).

A terceira e última razão é que a esquerda é triste. Qualquer coisa e quem quer que a esquerda influencie tem menos alegria na vida. Conheci liberais felizes e infelizes e conservadores felizes e infelizes, mas nunca encontrei um esquerdista feliz.

E quanto mais à esquerda você for, mais irritadas e infelizes serão as pessoas que encontrará. Mulheres e negros felizes, por exemplo, têm uma probabilidade muito maior de serem conservadores do que esquerdistas.

O Natal é feliz demais para a esquerda. “Noite Feliz” não é uma canção para ela."
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