sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Trinta anos após queda do Muro de Berlim, ambiente on-line é o novo campo de batalhas entre os países



 O ambiente on-line é o novo teatro de batalhas entre as nações. E se um hacker é capaz de incomodar muita gente, imagine o que um exército deles é capaz


Por Carlos Rydlewski e José Eduardo Barella — Para o Valor, de São Paulo

08/11/2019

As autoridades russas anunciaram que vão executar, a partir deste mês, os primeiros testes para colocar em operação a RuNet, servidor de internet sem conexão internacional, com fornecedores de acesso e armazenamento de dados próprios. Na prática, o sistema cria a possibilidade de desconectar a Rússia do restante da rede mundial de computadores. A medida, à primeira vista, soa como contradição em plena era de um mundo interconectado. Entre seus objetivos, porém, há elementos estratégicos. Uma das ideias é fazer do novo sistema uma barreira contra eventuais ataques cibernéticos lançados dos EUA ou de aliados americanos.

Nesse sentido, a iniciativa de isolamento oferece uma resposta a uma revelação feita pelo “The New York Times”. De acordo com o jornal, o Cibercomando, o órgão militar encarregado da defesa cibernética dos EUA, ordenara ofensiva digital contra os servidores que controlam a rede de energia elétrica da Rússia. O foco da missão nem era destruir o sistema, o que provocaria imenso apagão. Era, na verdade, fazer uma “visitinha”, saber como ele funciona e mantê-lo sob vigilância como um alvo em potencial. Parece incrível? E é. Pois, então, bem-vindo à era das ciberguerras. Essa luta de braço digital entre Washington e Moscou, 30 anos após a queda do Muro de Berlim e do fim da Guerra Fria, está longe de ser uma exceção.

Embora a maioria das pessoas não tenha se dado conta, o ambiente on-line já está sendo incorporado por líderes militares como mais um teatro de guerra - com o ar, a terra, o mar e o espaço. Levantamento feito por Brandon Valeriano e Benjamin Jensen, acadêmicos americanos especialistas em temas militares de cibersegurança, aponta que, entre 2000 e 2016, ocorreram 272 operações militares on-line envolvendo diversos países. A maioria delas tinha como objetivo a coleta de dados ou ações pontuais de vigilância de servidores. Como não houve morte atribuída a um ciberataque, o tema tem pouca repercussão se comparado a conflitos convencionais, como a guerra na Síria. Mas suas ações - e implicações  - são gigantescas.

Duas medidas divulgadas pelos EUA no ano passado reforçam a aposta no teatro digital de ações militares. Em abril, o Cibercomando anunciou uma nova diretriz, pela qual passaria a adotar “ações persistentes” para o país manter “sua superioridade no ciberespaço”. Dois meses depois, Donald Trump assinou uma ordem diretiva dando ao Cibercomando o poder de realizar ataques cibernéticos sem autorização da Casa Branca. Desde então, embora não haja evidências claras, especialistas asseguram que os americanos aumentaram as operações militares no campo dos bits e bytes em escala e frequência. 

 
 
Aprovado em maio, projeto de lei que permite desconectar a Rússia da web depende apenas de sanção presidencial 
para entrar em vigor, um trunfo a ser usado por Vladimir Putin 
— Foto: Evgenia Novozhenina/Pool Photo via AP

Até por ser relativamente nova, a lógica que rege as batalhas digitais é dinâmica. Em junho, surgiu fato inédito nesse campo. O Irã derrubou um drone militar americano no estreito de Ormuz, alegando que o aparelho havia penetrado em seu espaço aéreo. Em represália, Trump ordenou ataque contra alvos militares iranianos. O presidente americano, porém, cancelou a ordem no último instante ao saber que causaria um número desproporcional de vítimas. Em vez disso, optou por investida digital contra o sistema de mísseis de uma unidade de inteligência. O caso foi o primeiro em que um país admitiu responder a uma agressão militar tradicional com um ataque cibernético.

Na avaliação de Harry Oppenheimer, especialista em relações internacionais e tecnologia da Universidade Harvard, esse tipo de retaliação militar por meio de ciberataques deve ser mais frequente. “No entanto, o uso dessas armas não vai sair de graça para os EUA”, adverte. “O que o Irã aprender com esse ataque cibernético será incorporado à sua estratégia de defesa digital na próxima vez.” A “próxima vez” parece ter acontecido nesta semana, quando o comitê da campanha de reeleição de Trump sofreu ataque digital, atribuído a hackers ligados ao governo de Teerã.

Especialistas questionam se as operações no ciberespaço podem chegar a um ponto de relativo equilíbrio, à semelhança do que ocorreu na área nuclear durante a Guerra Fria, , cujo fim é marcado pela queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989. À época, a “paz mundial” era garantida pelo temor mútuo de que o primeiro ataque por parte de uma das potências levaria à destruição de ambas - e muito mais.

“O problema é que uma guerra cibernética pode ser realizada de maneira muito mais encoberta do que o lançamento de mísseis nucleares”, diz o especialista grego Vasileios Karagiannopoulos, do Instituto de Justiça Criminal da Universidade Portsmouth, na Inglaterra. “Hoje seria difícil atribuir diretamente ação a um país com provas tão convincentes quanto durante uma guerra nuclear.”

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Em 2006, a usina nuclear de Natanz, no Irã, foi alvo de ofensiva americana e israelense, 
que introduziu um vírus na rede de computadores que controlava produção de urânio
— Foto: Vahid Salemi/AP

O fato é que as ciberguerras estão criando nova relação de forças entre as nações. Se no mundo dos países com armas nucleares a Coreia do Norte não passa de uma economia paupérrima - ainda que ameaçadora -, no universo digital o rato ruge. Mesmo porque não é necessária grande estrutura digital ou equipamentos caros para a ação cibernética. Ainda que feitas com equipamentos modestos, elas podem impor prejuízos milionários a empresas, sistemas de infraestrutura crítica de governos ou a pessoas físicas. “O tamanho e o poderio militar dos países envolvidos em operações de guerra cibernética não são necessariamente importantes”, afirma o grego Karagiannopoulos. “E isso pode significar que os países militarmente hegemônicos, como os EUA, se tornem mais vulneráveis ao travar guerras em todo o mundo.”

Não há levantamentos sobre as perdas provocadas por ataques digitais executados por Estados. Mesmo porque essas ações são sigilosas. Mas o potencial é imenso. Haja vista os últimos balanços do cibercrime. Ele se tornou, ao lado do  narcotráfico, uma das indústrias criminosas mais lucrativas e ameaçadoras da atualidade. A empresa de segurança on-line RiskIQ estima em US$ 2,9 milhões por minuto, ou US$ 1,5 trilhão por ano, o prejuízo causado por essas investidas.

Apenas em 2018, de acordo com levantamento da Internet Society, entidade sem fins lucrativos que monitora a rede mundial de computadores, foram 2 milhões de ciberataques contra empresas, pessoas físicas e governos no mundo. No Brasil, de acordo com estudo da consultoria Accenture, os crimes cibernéticos podem custar às empresas US$ 133 bilhões nos próximos cinco anos - em torno de 7,5% do PIB, em 2018. No mundo todo, a perda potencial seria de US$ 5,2 trilhões no mesmo período.

Em grande medida, isso ocorre porque as vulnerabilidades são inerentes à tecnologia. Pode parecer paradoxal, mas quanto mais avança, quanto mais softwares e aplicativos são criados, mais frágil o sistema se torna. Na prática, aumenta-se a superfície de ataque. A relação é simples: quanto mais portas são construídas e abertas, aumentam as chances de entrada dos bandidos. Esse é um dos motivos da polêmica em torno das redes 5G, cujo desenvolvimento é liderado pela empresa chinesa Huawei. Essa rede pode provocar explosão da conectividade no mundo.

Em diversos casos, Em diversos casos, a capacidade de conexão vai saltar dos atuais mil dispositivos conectados por km2 para 1 milhão de equipamentos ligados no mesmo espaço físico. Ou seja, aumentará mil vezes. Por isso, espera-se que as redes 5G viabilizem a internet das coisas (IoT, na sigla em inglês), além das cidades e das casas inteligentes, nas quais tudo e e todos estarão plugados pela web. Muitos países, liderados pelos EUA, estão impondo restrições ao uso da tecnologia. Eles temem por eventuais laços entre as empresas chinesas de TI e os serviços secretos do gigante asiático. A companhia, contudo, refuta qualquer possibilidade desse tipo de relação.

A internet transformou-se numa armadilha, parecida com o “Velho Oeste, só que sem xerife”, segundo o americano Richard Haas

Os chineses, observam especialistas, têm se destacado nesse cenário de disputas on-line. E muitas ações atribuídas ao país evidenciam outra singularidade das ciberguerras. Em um mundo de economia globalizada e marcado por disputas comerciais, fica cada vez mais difícil diferenciar um ataque virtual com objetivo militar dos demais - como o furto de propriedade intelectual, o acesso indevido a dados pessoais ou mesmo as ofensivas de estelionatários que miram grandes corporações.

Uma polêmica envolvendo o caça F-35 mostra como esses ataques on-line podem ter alvos amplos. Trata-se de um projeto de US$ 200 bilhões, encomendado pelo Pentágono e desenvolvido pela indústria aeroespacial americana Lockheed-Martin. Em 2009, após a descoberta de invasão dos servidores da empresa, o governo dos EUA revelou que parte do jato (incluindo o design e o sistema de computador de bordo) havia sido copiado pelos chineses e serviram de base para o desenvolvimento do caça J-31, fabricado em tempo recorde por Pequim.

Antes, a suspeita de espionagem industrial já recaíra sobre o caça F-22 Raptor, também produzido pela Lockheed-Martin, cujo design é idêntico ao chinês Chengdu J-20. Ou seja, se foi assim, o que aconteceu? Furto de propriedade industrial, espionagem, guerra cibernética? Na prática, um pouco de tudo.

O histórico chinês nessa área, observam analistas ocidentais, pode incluir ainda a apropriação de dados de projetos de drones, de navio de guerra e de mísseis antinavio desenvolvidos por fornecedores do Pentágono. Além de segredos militares, os chineses teriam tido acesso, em 2014, a todas as informações pessoais de mais de 22 milhões de trabalhadores federais, contratados e familiares nos bancos de dados do Office of Personal Management, a agência federal de servidores civis americanos. Levantamento da McAfee, empresa de segurança digital, indica que, entre 2006 e 2011, os chineses teriam hackeado 70 entidades (agências do governo e empresas privadas) em 14 países.

O caráter descentralizado da internet, concebida para conectar as pessoas de forma horizontal, sem a intermediação direta de um país ou de outro tipo de hierarquia institucional, também agrava o problema de segurança. Sem regras claras de controle, os hackers agem à vontade. Para cada ferramenta de defesa criada para evitar ataques virtuais, surgem outras ainda mais sofisticadas para neutralizá-la e dobrar o risco. Ou seja, a web transformou-se numa armadilha. Hoje, ela se parece com o “Velho Oeste, só que sem xerife”, na famosa comparação feita pelo embaixador e “scholar” americano Richard Haas.

Outra característica da guerra cibernética é que dispõe de novos meios para atingir alvos não militares. É por isso que a estabilidade democrática também está em jogo e na mira dos exércitos de hackers. Essa peculiaridade tornou-se evidente nos últimos três anos, com a revelação do uso de redes sociais para influenciar o referendo do Brexit, assim como o emprego de perfis falsos e a disseminação de “fake news” na eleição presidencial americana, ambos casos ocorridos em 2016.

Como observam Peter Warren Singer, estrategista do “think tank” New America, e Emerson Brooking, ex-pesquisador do Council on Foreign Relations, autores do livro “LikeWar: The Weaponization of Social Media”, esforços  Como observam Peter Warren Singer, estrategista do “think tank” New America, e Emerson Brooking, ex-pesquisador do Council on Foreign Relations, autores do livro “LikeWar: The Weaponization of Social Media”, esforços para moldar a maneira como o inimigo pensa, controlar o fluxo de informações e vencer guerras, evitando as lutas reais, existem há séculos.

Para eles, o passado é o melhor lugar para entender o uso das mídias sociais como armamento. A dupla destaca que o estrategista militar prussiano Carl von Clausewitz, que nasceu em 1780, cerca de 200 anos antes da invenção da web, já havia anotado: “Os elementos morais estão entre os mais importantes da guerra”. Assim, quebrar o “espírito rival” pode levar à vitória e permite que o exército inimigo seja evitado. As redes sociais representam um terreno fértil para a imposição desse tipo de lógica.

Se por um lado a internet representa risco potencial à segurança de uma nação, por outro oferece nova arma eficaz, “limpa” e avassaladora de ataques virtuais. Foi a partir dessa constatação que surgiu a primeira doutrina militar da era digital: o ambiente on-line passou a ser visto, ao mesmo tempo, como ameaça e oportunidade de combate. A melhor definição dessa doutrina foi cunhada anos atrás pelo então presidente Barack Obama, que comparou o ciberespaço a um jogo de basquete, “onde não há uma linha clara entre defender e atacar, é preciso avançar e recuar o tempo todo”.

Os EUA identificaram a via de mão dupla pela primeira vez em 1988. E isso ocorreu da forma mais humilhante possível, depois que o Pentágono foi alvo de inédito ataque hacker. Ao longo de 15 horas, cerca de 6 mil computadores ligados em rede e espalhados em bases áreas, laboratórios de pesquisas de mísseis balísticos e até instalações da Nasa foram danificados por vírus desenvolvido por um israelense de 16 anos. Atordoado com o golpe, o estado-maior das Forças Armadas americanas deixou de lado os antigos dogmas da Guerra Fria e passou a investir, sem alarde, no fortalecimento da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês).

A ofensiva mais notória nesse campo, que se tornou um marco dos confrontos pós-modernos, a guerra do século XXI, ocorreu em 2006. Na ocasião, técnicos da NSA - considerada o principal órgão de inteligência militar digital americana - miraram a usina nuclear secreta de Natanz, no Irã. Com a ajuda de especialistas israelenses, eles introduziram um vírus, com monitoramento remoto, na rede de computadores que controlava a produção de urânio das instalações iranianas.

O “malware”, conhecido como Stuxnet, foi programado para aumentar paulatinamente o fluxo de urânio em algumas centrífugas. Como resultado, explodiram. Para não chamar atenção do governo de Teerã, o vírus ficou ativo por quatro anos e destruiu um quarto das 8,7 mil centrífugas de Natanz. À época, as autoridades iranianas não descobriram o real motivo das explosões, que acabaram sendo atribuídas à incompetência dos engenheiros da usina. O ataque, lento e imperceptível, atrasou em muitos anos o desenvolvimento do programa nuclear iraniano. “Essa é uma característica desses novos conflitos”, diz Roberto Gallo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Materiais de Defesa e Segurança (Abimde). “Eles são planejados de forma minuciosa e sua execução pode ser muito longa.”

Dentro dessa lógica, em 2008, foi a vez de os EUA amargarem o papel de vítima em outra manobra para lá de engenhosa. O país tornou-se alvo de um ataque hacker cinematográfico da Rússia. Ele só foi confirmado oficialmente pelo Pentágono há dois anos. Para conseguir furar o bloqueio da rede americana de computadores militares, que era fechada e não conectada à internet pública, os russos colocaram à venda pen drives supostamente comuns, mas preparados para coletar dados, em quiosques perto da sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Cabul, no Afeganistão.

A esperança era de que algum militar americano comprasse uma unidade dos dispositivos e a conectasse à rede do Pentágono. Parece inacreditável, mas deu certo. Aliás, deu tão certo que levou o então presidente Obama a determinar a criação do Cibercomando, com o objetivo de estabelecer estratégias militares on-line. O episódio inaugurou uma espécie de versão digital da Guerra Fria entre os dois países, consolidando a posição da Rússia como uma das nações mais agressivas do ciberespaço.

A julgar por tudo que lhes é atribuído, os russos têm feito por merecer tal destaque. No ano anterior à venda dos pen drives, em 2007, o governo de Moscou havia sido apontado como mentor de um ataque cibernético massivo contra a Estônia. A ofensiva tirou do ar, por três semanas, todos os servidores do governo e o acesso à rede de telefonia, contas bancárias, cartões de crédito e comunicações militares. A participação russa jamais foi comprovada, mas analistas ocidentais asseguram que a ação serviu como um laboratório de testes de futuras incursões militares digitais do governo de Vladimir Putin. Em 2008, durante um conflito entre a Rússia e a Geórgia, também foram registradas várias ondas de ciberataques. Elas tiraram do ar o site da Presidência georgiana, a TV estatal e parte do tráfego de internet do país.

A Rússia teria voltado a realizar ataques virtuais na Ucrânia, em dezembro de 2015. Eles danificaram os servidores do grid de energia elétrica, deixando um quarto da população sem luz. Recentemente, em junho, autoridades de defesa israelenses também acusaram Moscou de provocar interrupções do sistema de GPS no aeroporto Ben-Gurion, em Tel-Aviv, como parte da tentativa de proteger jatos russos que faziam manobras no Noroeste da Síria.

A criação da RuNet, alvo de críticas por causa dos riscos de isolamento e de censura, é um exemplo de como o presidente russo, Vladimir Putin, leva o tema a sério. Aprovado em maio, o projeto de lei que permite desconectar o país da rede mundial de computadores depende apenas de sanção presidencial para entrar em vigor - um trunfo a ser usado por Putin quando lhe for conveniente.

“A Rússia carece de recursos, mas não de determinação”, diz a pesquisadora Anna Borshchevskaya, especialista em política externa russa do Washington Institute. “O Ocidente, por sua vez, conta com os recursos, mas não tem uma visão clara de como agir nesse campo.” Hoje, a força de trabalho cibernética dos EUA é de 314 mil pessoas, entre técnicos em TI, analistas civis e militares. O Pentágono e o governo admitem a dificuldade de recrutar especialistas, muitos atraídos por salários altos do Vale do Silício. Aliás, estima-se que, por causa da alta demanda e da dificuldade de preparar mão de obra, existam no mundo perto de 3 milhões de vagas de emprego em aberto nesse setor. Quanto ao custo, como as operações cibernéticas são mais baratas do que os gastos militares convencionais, a verba destinada pelo governo federal para o setor em 2020, de US$ 15 bilhões, representa 2% do orçamento americano de Defesa, de US$ 738 bilhões.

A questão que fica é como se defender disso tudo? Não existe receita simples. Em geral, as simulações representam uma das formas pelas quais governos e empresas tentam se proteger contra as investidas de inimigos digitais. “Isso vale para furtos on-line de dinheiro, para o acesso a dados confidenciais de uma companhia, ou mesmo, para o hackeamento da operação de uma indústria”, afirma André Fleury, diretor de cibersegurança para a América Latina da Accenture. “A ideia é sempre agir como um hacker e submeter suas defesas a um teste.”

Uma prova desse tipo, observa Fleury, foi feita recentemente fora do Brasil em torno de uma plataforma de petróleo. Para dar cabo à investida, especialistas se instalaram em uma loja de conveniência de um posto da própria petroleira avaliada (o nome da empresa não pode ser divulgado). “O fato é que foram necessárias três semanas para invadir o sistema e chegar até a perfuradora no poço para alterar seus comandos”, diz ele. “Esse prazo foi considerado muito longo e mostrou que é baixa a probabilidade de um hacker comum realizar esse tipo de ação”.

Por aqui, o último balanço do Centro de Estudos, Respostas e Tratamentos de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br), feito no ano passado, registrou mais de 676 mil tentativas de ataques cibernéticos - número, contudo, bastante inferior aos 1,047 milhão de casos reportados em 2014, ano que o Brasil sediou a Copa do Mundo. O CERT.br, mantido pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, atende a qualquer rede brasileira conectada à web. No mês passado, porém, a Comissão de Relações Exteriores (CRE), do Senado, realizou reunião secreta para analisar possíveis ameaças digitais e debater estratégias de segurança cibernética para o Brasil.

A defesa cibernética no país é atribuição do Exército. Em entrevista ao Valor, em junho, o chefe do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), o general de divisão Guido Amin Naves, informou que trabalha atualmente no desenho de novo modelo para o órgão. A proposta será encaminhada até o fim do ano para o estado-maior do Exército. Amin Naves admitiu que os vazamentos que afetaram o hoje ministro da Justiça e membros do Ministério Público Federal, divulgados pelo site The Intercept Brasil, também serão levados em conta nessa reestruturação. O ComDCiber foi criado em 2013, depois que Edward Snowden, o ex-analista da NSA, denunciou que a então presidente Dilma Rousseff havia sido alvo de espionagem por parte dos EUA. Como se vê, não está fácil para ninguém estabelecer limites para a vigilância e para a ação nessas novas guerras digitais.
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Fonte: https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2019/11/08/trinta-anos-apos-queda-do-muro-de-berlim-ambiente-on-line-e-o-novo-campo-de-batalhas-entre-os-paises.ghtml
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Imagens e sons de cada dia


Dom Walmor Oliveira de Azevedo*
 
Imagens e sons configuram a memória – alicerce de experiências, armazém de valores e princípios que sustentam a vida; articulam as conexões que configuram o tecido ético-moral indispensável no exercício da cidadania. Com imagens e sons o mundo se faz e se refaz, recompõe-se e, também, lamentavelmente, se deteriora. Particularmente, a contemporaneidade se estreita entre os binários das imagens e dos sons de cada dia. As ciências especializadas e seus pesquisadores alertam sobre as perdas e os riscos provocados pela forma de se relacionar com as imagens e os sons do dia a dia – que sustentam ou abalam experiências. Uma singularidade interessante no complexo âmbito das imagens é o afã na produção de fotos. Observa-se que a facilidade tecnológica faz de todo mundo um fotógrafo. Muitos se posicionam atrás da câmera para registrar determinados momentos. E ao se dedicarem à captação da foto, perdem a essência do importante registro a ser feito pela memória, fundamental para subsidiar experiências determinantes.

É preciso analisar e calcular as perdas quando não se vive experiências e, consequentemente, deixa-se de apreender imagens nas sinapses cerebrais, por priorizar a tarefa de fotografar. Com foco na câmera, o olhar pode não fazer o giro experiencial que provoca novos entendimentos, com incidências nas emoções, capazes de qualificar as relações humanas. Quando busca somente fotografar, o ser humano faz registros, mas arrisca-se a perder a oportunidade de viver importantes experiências. E os prejuízos, naturalmente, são muitos, pois a privação da competência contemplativa, indispensável a todo processo de constituição da interioridade, leva à perda da qualidade de vida.

A rica e complexa teia das imagens de cada dia requer contemplação. Do contrário, a vida passa a ser vivida “do lado de fora”, sem alicerces interiores, o que constitui o risco suicida da desconexão com a realidade – certamente, uma das razões do crescimento de índices sobre as desistências de se viver. Outra consequência é a primazia de certa superficialidade, quando se faz ainda mais necessária uma sólida aptidão humana para lidar com os muitos desafios contemporâneos. A contemplação é, pois, indispensável para se alcançar as riquezas conduzidas pelas imagens de cada dia.

Faz-se necessário aprender a contemplar para que as incalculáveis imagens de cada dia, nos muitos cenários que compõem a jornada da humanidade, se desdobrem em sabedoria de vida, na competência para discernimentos e na produção do sentido que alimenta o viver. No educativo e amplo horizonte da ecologia integral, com indicações para o civilizado tratamento da Casa Comum, está incluída a orientação de reconhecer a Criação na beleza singular da natureza – o desenvolvimento de um olhar contemplativo. Trata-se de oportunidade para se qualificar na arte que produz sentido para amar e viver. Inscreve-se também na dinâmica dessa contemplação a aprendizagem para lidar com sons – ouvi-los e produzi-los. Preocupante é a patológica produção de barulhos que, certamente, escondem, ou ao menos disfarçam, ansiedades e angústias. Geram certas ilusões, a partir de sensações, mas são incapazes de superar o vazio existencial.

O mundo contemporâneo é palco de muitos sons que, na verdade, são barulhos, causam perturbação e são sinais de pouca civilidade. Esses ruídos muitas vezes atrapalham o encontro de verdades que só se revelam no indispensável silêncio para o exercício da escuta. A humildade na avaliação pessoal e familiar, também na vida em sociedade, permite calcular os comprometimentos resultantes dos equívocos nas formas de lidar com imagens e sons. Ver muito e enxergar pouco, conviver com poluição sonora e ser incapaz de escutar são consequências.

Essa inadequada relação com sons e imagens contribui para consolidar indiferenças diante de graves situações, a exemplo de cenários em que pessoas esbanjam os bens, têm demais, e até por isso adoecem, enquanto tantas outras, feridas em sua dignidade, vivem de migalhas. A incapacidade para lidar com imagens e sons ajuda a perpetuar, desse modo, injustiças sociais e desigualdades. Por tudo isso, vale investir na aprendizagem da contemplação, importante caminho na qualificação humana, espiritual e cidadã.
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*Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil(CNBB)
Fonte:  http://arquidiocesebh.org.br/para-sua-fe/espiritualidade/artigo-de-dom-walmor/imagens-e-sons-de-cada-dia/?utm_source=newsletter&utm_campaign=Opini%C3%A3o%20e%20not%C3%ADcias&utm_medium=347%20&utm_content=Imagens%20e%20sons%20de%20cada%20dia
Ilustração: Jornal Estado de Minas

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Gula, sofreguidão e excessos

André Serpa Soares*

 

"Esta gula do abstrato “crescimento económico”, este permanente desejo insaciável, predador, de querer 
sempre mais, muito para além do que é necessário, 
é um pecado sim".


A gula aplica-se à sofreguidão de comer e de beber. Quem é guloso peca. Verdadeiramente, porque no cristianismo, a gula é um dos sete pecados capitais.

A gula é um permanente desejo insaciável por comida ou bebida. É nunca estar saciado, satisfeito. Querer sempre mais, sempre muito para além do necessário.

Gulosos são os que sofrem de gula.

Diria que já todos fomos gulosos várias vezes na vida.

Com comida, bebida ou, em sentido figurado, com qualquer outra coisa.

Sobretudo quando somos jovens, somos gulosos pela vida. Queremos conhecer tudo, experimentar tudo e, normalmente, acabamos por o fazer em excesso.

Vivemos na vertigem da satisfação, do prazer, mas quando podemos alcançá-lo, parece que não chega, não é suficiente, é preciso mais e mais e mais.

Na verdade, vivemos numa sociedade gulosa. A mensagem mediatizada que passa é a de que nunca nos devemos dar por satisfeitos, devemos sempre querer mais.

Até nos discursos aparentemente dissociados desta questão.

Tomemos, por exemplo, as referências quase diárias, ad nauseam mesmo, ao famigerado “crescimento económico”. Tal desiderato parece quase um fim em si mesmo. Crescer, crescer, crescer. É induzida a ideia de que, sem “crescimento”, não vamos a lado nenhum ou, pior, ficamos condenados à mais sórdida indigência material.

É preciso “crescer”.

Mas o “crescimento económico” é um fim em si mesmo? E quando é que chega? Quando é que é suficiente? Temos de crescer até que ponto?

Está o “crescimento económico” ao serviço dos homens, serve para “alimentar” os homens, ou são os homens que servem o crescimento económico, são escravizados por este?

Esta gula do abstrato “crescimento económico”, este permanente desejo insaciável, predador, de querer sempre mais, muito para além do que é necessário, é um pecado sim.

Está a conduzir à destruição do meio ambiente, do planeta Terra, o único em que podemos habitar. Pelo caminho, destrói pessoas, vidas e sociedades.

O crescimento económico não pode ser um fim em si mesmo.

Ele só se justifica e só deve existir se servir as pessoas. Se todos nós, o somatório do nosso bem-estar individual, for cada vez maior.

Mas um bem-estar holístico.

“Nenhum homem é uma ilha”. Nada é um facto isolado. O “crescimento económico” não pode correr desenfreadamente, gulosamente, por si próprio.

Temperança. É o que chega, progressivamente, com a idade.

Que chegue também, rapidamente, à economia e à política.
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 *Integra a Direcção de Comunicação e Relações Públicas da TAP Portugal desde 2007.
FONTE:  https://revistabica.com/gula-sofreguidao-e-excessos/

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Paulo Ghiraldelli: “Bolsonaro não odeia Lula. Em muitos aspectos, o admira”


Em novo livro, Paulo Ghiraldelli usa elementos da filosofia para avaliar o presidente e seu governo

O filósofo Paulo Ghiraldelli se dedicou a avaliar o atual momento político brasileiro a partir de suas principais figuras e narrativas. Jair Bolsonaro e seus rebentos – Flávio, Carlos e Eduardo, o 01, 02 e 03 por ordem cronológica de nascimento – bem como Sérgio Moro, Olavo de Carvalho, Joice Hasselmann e até o ex-presidente Lula ganham capítulos na obra A Filosofia explica Bolsonaro, da editora Leya. Como o título adianta, o autor buscou elementos da filosofia social para avaliar as figuras que incidem sobre o cenário brasileiro, em um livro que ele considera “de combate”.
 
A ideia central, afirma, é ampliar a conversação política no País, a partir de um recado claro: “Estou longe daqueles que dizem que “não é para polarizar”. Faço textos para radicalizar, polarizar e criar conflitos. Não faço livros para ter adversários, faço-os para ter amigos e inimigos”, descreve em um trecho da introdução da obra.

Em conversa com CartaCapital, o autor resume as principais análises e teses que defende na obra.

Financeirização

Já no início da obra, o autor atrela o atual cenário político ao próprio capitalismo e suas transformações, passando do capital produtivo, assentado no trabalho que se dava no comércio e na indústria, para o capital financeirizado, gerido por bancos, que também passaram a negociar quadros de executivos governamentais.

“O neoliberalismo, a ideologia própria do capitalismo comandado pelas finanças, teve início no Brasil no governo Collor, tão logo ele chegou nunca mais paramos de mudar a Constituição, adaptando-a crescentemente aos desígnios do neoliberalismo e da institucionalização do capital fictício.”

O movimento, afirma Ghiraldelli, não teve recuo de Collor a Bolsonaro, passando por Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer. “A nossa disputa por lucros não se dá mais nas fábricas, mas no controle do Estado e dos bancos. O mundo do trabalho foi para a sociedade, somos empresários de nós mesmos, trabalhamos 24 horas por dia, fora de um ambiente de trabalho. Isso só foi possível pela financeirização, temos cartões de crédito”, afirma.

O capitalismo financeiro, avalia, se completa no governo Bolsonaro, com o aval econômico a Paulo Guedes, ministro da Economia. “Ele não teria tido o apoio das elites se não fosse por essa agenda, de fazer com que o capitalismo financeiro se sobreponha ao que já tivemos antes, que continue funcionando a favor dos bancos.”

A direita hormonal

O autor também defende a tese da “direita hormonal”, uma espécie de resto do neoliberalismo, como define. Para Ghiraldelli, o jovem de direita não tem idade, mas hormônios. “O importante é ele ir contra a cultura estabelecida pelos clássicos, em especial o que ele toma como ‘esquerdismo’. O importante é ele falar contra professores, contra ideais de igualitarismo e, em especial, contra as tendências liberacionalistas de mulheres, gays, negros e outras minorias”, critica em um trecho da obra.

Para o filósofo, os integrantes da direita criam “fantasmas velhos e novos para se colocarem como oposição”. “Podem fabricar o comunismo , para serem anticomunistas, ou podem mostrar o feminismo em versão caricaturesca, para serem antifeministas.” O filósofo aposta que, nesse estilo, essa direita não dura muito e provoca: “A direita eterna nunca será outra que não a de John Wayne”.

Bolsonaro

Ao dedicar sua análise a definir “Quem é Bolsonaro?”, Ghiraldelli é contundente. “O correto seria não esperar de Bolsonaro nenhum governo. O seu modo de governar é o puro desgoverno”, atesta. Para o autor, o presidente se dedica a fustigar as esquerdas, “ou melhor: tudo aquilo que ele imagina que é de esquerda”.

O ex-capitão Bolsonaro Foto: Alan Santos/PR

É a partir disso que ele se coloca contra a Constituição de 1988, avalia, não conseguindo compreender que ela é uma boa peça para a defesa do capitalismo e da sociedade de mercado, do liberalismo e dos direitos individuais inerentes ao modelo liberal. O filósofo coloca que Bolsonaro se vale da época dos embates travados acerca da Constituição – “os preceitos liberais nela contidos foram defendidos por pessoas de esquerda, como é o comum em democracias ocidentais, por isso mesmo toda a Constituição deve ser destruída”, sentencia o autor.

Para ele, Bolsonaro se une ao liberalismo de Paulo Guedes exatamente por conta do fato de que é necessário extirpar da Constituição o “cheiro de social-democracia que pode emanar dela”.

Sérgio Moro

O herói da classe média, afirma o autor, ascendeu diante da agenda de combate à corrupção, ainda como juiz da Operação Lava Jato. “A classe média, no geral, tem o entendimento de política como combate à corrupção. Esse foi um fator determinante para o seu crescimento. Depois, a possibilidade dele punir os corruptos, outra agenda de grande aceitação pelas pessoas. Ainda sob o resguardo de estar ‘fora da política’. Cristaliza-se, então, a ideia do ‘vingador’ que limparia o País. E não só a classe média embarca na narrativa, como grande parte da imprensa”, avalia o filósofo.

Para Ghiraldelli, Moro segue com dificuldades de desatrelar a sua figura de ex-juiz à de atual ministro político. E pauta suas medidas pelo status de poder ainda não alcançado inteiramente. Na condição de ministro da Justiça, o filósofo o considera um “propagandista de má-fé. “Suas propostas de lei nunca deixaram de ferir alguma cláusula do estado de direito, mas a sua interpretação dessas propostas se faz a partir de uma fantasia adrede preparada, especialmente voltada para conquistar o público bolsonarista”.

Olavo de Carvalho

O autor não economiza críticas ao terraplanista. “Lá dos Estados Unidos, esse guru de poucas letras comanda a cabeça de Jair Bolsonaro e de seus filhos. Nunca chegamos a uma situação tão calamitosa como essa! Nunca tivemos um presidente ouvindo um terraplanista – e lhe dando crédito! No máximo, tivemos d. Pedro II acolhendo aqui palestrantes antievolucionalistas”, grafa o autor em um trecho do capítulo dedicado a Olavo de Carvalho.

Olavo de Carvalho

Para o autor, Olavo contribuiu para criar na direita brasileira uma visão pouco racional, sempre adepta de teorias de conspiração. Ele afirma que Olavo pertence ao movimento anti-intelectualista do mundo contemporâneo. “Tal movimento é contra as vacinas, diz que cigarro não faz mal, insiste em defender o trabalho infantil e atende às teses que, em geral, na internet, dão guarida para os ‘anarcocapitalistas’ – vá lá saber Deus o que vem a ser isso”, satiriza.

Os rebentos do capitão

No capítulo dedicado aos filhos de Bolsonaro, Ghiraldelli vai para além dos elos naturais de parentesco e aproxima Flávio, Carlos e Eduardo do pai e presidente por questões práticas e ideológicas. “A ideologia é um anticomunismo rasteiro e bastante ignorante e a prática é a aprendida com o próprio Bolsonaro, nos célebres discursos deste como deputado, quando pedia que a milícia do Brasil viesse para o Rio de Janeiro. Ele dizia que iria recebê-las de braços abertos. E assim fez mesmo! Deu no que deu”, provoca em um trecho do livro. Ghiraldelli não deixa de revisitar os escândalos que envolvem o nome de cada um da prole – como a associação de Flávio ao ex-assessor Fabrício Queiróz num esquema ilícito de rachadinha, Carluxo e suas manifestações no Twitter oficial de Bolsonaro, “dono do Twitter do pai”, assegura o autor, e as diversas menções honrosas de Eduardo Bolsonaro ao torturador Brilhante Ustra.
 

Lula na visão de Bolsonaro

No capítulo em que se presta a avaliar o ex-presidente pelo olhar do ex-capitão, Ghiraldelli afirma: “Bolsonaro não odeia Lula. Aliás, em muitos aspectos, o admira” assegura. Ódio mesmo, o presidente nutre pelo PT , garante o filósofo, ao afirmar que Bolsonaro associa o partido, especialmente a partir do governo Dilma, ao comunismo internacional.

Entre suas dissertações, o autor chega a aproximar os mundos de Bolsonaro e Lula, a partir do “meio popular que lhes é conhecido”, garante. “O PT é que incomoda Bolsonaro, em especial as pautas petistas que envolvem direitos de minorias e direitos Humanos. Afinal, há muito o PT não fala em reforma agrária, mudança do regime de propriedade ou coisas do tipo. Aliás, o PT chegou a flertar com o neoliberalismo antes de Bolsonaro. Lula encontrou Meirelles bem antes de Bolsonaro encontrar Guedes. A diferença é que Meirelles é um neoliberal gabaritado – dizem!”, problematiza o autor.
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Reportagem POR Ana Luiza Basilio
FONTE:  https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-nao-odeia-lula-em-muitos-aspectos-o-admira-diz-filosofo/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_06112019&utm_medium=email&utm_source=RD+Station  

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Quem tem medo do Coringa?

Mário Corso*

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A Ancol - Associação Nacional dos Colunistas - me advertiu por não falar do filme. Então...

Gostei do Coringa pela extraordinária performance da loucura. Quem já trabalhou com psicose o reconhece: o corpo magro, irrequieto, falsamente frágil, e rústico, parecendo ser feito de madeira.

Na psicose, o centro gravitacional tende à mulher, pois eles estão mais vulneráveis a uma identificação exclusivamente materna. E no começo do filme, antes da virada, ele é de uma delicadeza quase feminina, espelhando a mãe que cuida com desvelo.

Uma das fobias clássicas é a do palhaço, porque o maior medo de uma criança é ver seus progenitores, nesse caso o pai, sendo zombado. O palhaço é signo de um pai decaído e é nessa gramática que gira a identidade inicial do personagem.

O Coringa sonha com um pai que desesperadamente lhe falta, mas ele segura a onda. Porém, quando descobre que seu esteio afetivo materno é uma farsa, soltam-se os poucos fios que parcamente o conectavam à sanidade e abre-se a porta do inferno. Faz sentido que nesse momento ele mude de nome, afinal, Coringa é uma carta avulsa, sem filiação de naipe.

O filme é uma de tantas obras que buscam uma resposta e uma face para o mal. Nosso racionalismo se recusa a aceitar que o crime, algo tão grave, possa não ter uma origem lógica ou justificável. Porém, o crime muitas vezes está ligado a uma banalidade, em outras palavras, à estupidez. Apesar de tantos progressos em tantas áreas, seguimos sendo um macaco que aprendeu a falar; logo, sujeitos a momentos em que a ação não faz sentido.

Entenda estupidez quando se age causando dano sem proveito para si e não raro, trazendo prejuízo para nós mesmos. Embora os exemplos sejam evidentes e múltiplos, seguimos buscando uma racionalidade de todo agir criminoso, quando só alguns fazem sentido. O Coringa, portanto, é mais uma teoria do que acreditamos ser a gênese da psicopatia e da maldade, do que realmente ela é.
O medo de que pessoas se identifiquem com esse Coringa humanizado pelo martírio e saiam matando é improcedente. Não que não possa acontecer, a loucura é imprevisível, mas apenas tomaria emprestada uma fantasia que, se não fosse essa, seria outra. Nem que barrássemos toda a produção ficcional estaríamos a salvo dos estúpidos, dos que enlouquecem, e de seus atos insensatos.

Se achamos que seriam tão tentadoras as atitudes violentas e grotescas do personagem, é porque ele nos traduz na tendência ao ressentimento. Quem não flertou com a ideia de que o mundo lhe deve mais reconhecimento, oportunidades e recompensas?

O filme é pesado, brutal mas catártico. Melhor que as fantasias de ressentimento ganhem a luz do que nos espreitem na sombra, onde namoraríamos com o prazer secreto de realizá-las. O horror na ficção pode ser a vacina que barra o horror real.
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* Psicanalistas. Escritor. Colunista da ZH
Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=2a4436e6b50383d2f3a205f11f9c829a
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ALEMÃO

Lya Luft*

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Quando esta coluna aparecer, será dia de Finados. Dia em que, há dois anos, a Senhora Morte levou um de meus filhos, André, o nosso Alemão. Toda a família aturdida, alguns, como eu, nem sempre acreditando nessa morte de alguém tão amoroso e tão amado. Sem muita vontade de escrever a não ser sobre isso, aqui vai o que consigo partilhar com meu leitor. Começo com esse depoimento de uma colega de Agronomia dele, Sabrina, que não conheço, mas a quem muito agradeço o texto comovido. 

“Alemão. Nada naquele rapaz fazia sentido: seu tamanho, sua beleza, ou ser filho de uma conhecida intelectual. Muito menos estar cursando Agronomia. Chamavam-no Alemão. Quando me contaram que era filho da Lya Luft, eu olhei descrente. O cara era um gigante, os olhos dele dois faróis acesos. E passavam uma inquietação, ele vivia se mexendo, não cabia direito na cadeira.

Ficamos no mesmo grupo de estudo em entomologia. 

Acho que foi a única cadeira da faculdade que fiz com ele. Depois de formados, a gente fica sabendo o que foi feito da vida de cada colega.

Reencontrei o Luft no Facebook, e vi que ele ganhou o mundo. Estava trabalhando em outro continente, fazendo um trabalho maravilhoso ao lado de sua mulher. Quando a gente conhece a realidade rural, e o universo das empresas internacionais, e tudo o que envolve o nosso trabalho de agrônomo(a), e sabe de um colega envolvido em um trabalho tão completo como o do Luft, vem um sentimento de profunda admiração.

Quando eu soube que o Luft tinha partido, pensei em reencarnação, pois muitas pessoas em várias encarnações não irão viver a bela vida que meu colega viveu. Poucas pessoas terão a dimensão do Engenheiro Agrônomo Luft. Perder pessoas que a gente admira é triste, mas agradecemos por tê-las conhecido.” 

•••
Ninguém pode dizer que jamais teve a sensação: “Agora, acabou; nada faz sentido”. Ou: “Não vou aguentar”.

No entanto, me ensinou a vida, mesmo quando estamos numa UTI emocional, um dia conseguimos levantar: somos liberados dos aparelhos que nos mantinham vivos, apoiados pelas pessoas que nos ajudam, chegamos até a porta... somos transferidos para um quarto.

Dali podemos espiar o corredor, andar por ele apoiados em alguém ou de bengala, e respiramos quase normalmente. A pedra pesada e escura no meu peito aliviou. Um pouco. Mais um pouco. Talvez eu nunca me livre dela inteiramente, mas estou aprendendo a lidar com ela. (Certamente é o que aquele que partiu desejaria.)

Nos reconstruímos, de um jeito ou de outro.

Descobrimos ou redescobrimos o valor dos afetos, família, amigos, as coisas simples, aquela voz no telefone, aquele e-mail ou Whats, aquele passo no corredor, aquele gesto afetuoso ou um simples olhar de cumplicidade. Tudo isso nos faz de novo viver.

A fênix incansável ajeita as penas chamuscadas, olha em torno, abre as asas, tenta seu voo, escreve sua coluna de jornal... e entende que a morte não vence o amor.
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* Escritora. Colunista da ZH 
Fonte: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=825f7ee6dc8c95b68641f32fe70945dd 
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ALMAS DE NOVEMBRO

Leandro Karnal* 
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De todas as ilusões criadas pelos humanos, a ideia de imortalidade do espírito é a mais tocante

Sou uma pessoa cética, como alguns sabem. Ao longo da minha existência, em nenhum momento, percebi qualquer manifestação concreta de algum fenômeno que pudesse colocar em xeque meu cérebro que duvida.  

Fui religioso, muito. Porém, mesmo naquela piedosa juventude, jamais encontrei uma manifestação que fugisse ao sentido material do que eu via. Eu tinha fé, intensa por sinal. Mesmo crente, meus olhos nunca viram algo que contrariasse o mundo visível. Em resumo, quando eu acreditava muito em Deus, nada ao meu redor levitava, fulgia, transmutava, operava milagres, ressuscitava ou mostrava uma ação fora das estritas leis da física clássica. Eu seguia uma convicção interior e nada no mundo visível e audível ecoava místico. Ao contrário do apóstolo Tomé, nunca pedi ou exigi provas. Minhas trombetas não derrubavam as muralhas de Jericó e nunca contemplei, sequer em sonhos, escadas com anjos como o ocorrido com o neto de Abraão. As doenças em mim e na família progrediam ou não de acordo com os tratamentos. Eu pedia em prece e recebia ou não dentro de uma estatística matemática previsível na teoria dos jogos. Todavia, eu acreditava e Deus não se manifestava dentro de uma dedicação interna que, claro, permitiria ao Dr. Freud classificar minhas crenças como neuroses simples ou superego projetado em entidade tribal protetora.  

Quando cheguei ao estágio atual, deixei de pedir curas para a família ou que a morte não levasse um ente querido. E, tal como ocorria ao Leandro súplice de antes, as doenças e as mortes continuaram ocorrendo com regularidade matemática, levando bons e ruins, sem lógica visível de força superior. 
Supus, no velório do meu pai, que meu ateísmo fraquejaria. Do nome à formação, do afeto ao patrocínio, tudo eu devia ao homem (muito parecido fisicamente comigo) que ali jazia, frio e silente. Seria o momento de voltar ao mundo religioso? Nada ocorreu. Eu estava diante da morte e do fim. Refleti que isso ocorreria comigo também e senti a dor da saudade. Nenhuma oração. O Santo Graal estava vazio.  

Oito anos depois, a foice da indesejada chega ao solar dos Karnais novamente. Foi-se minha mãe. Rasgou-se meu mundo e a angústia me abateu. Os céticos da família choravam ao lado dos religiosos. Todos estavam juntos na ausência lancinante daquela mulher extraordinária. Na noite após a cremação, fiquei lendo cartas, vendo fotos e chorando na cama materna. Estava sozinho na casa. Foi o momento em que eu desejei, ardentemente, ter uma visão dela. Reconheço que foi um momento de quase desespero. Fraquejei. Confesso. Pedi que ela surgisse, que desse um sinal que indicasse que estava tudo bem, que movesse algo, que me visitasse, ao menos, em sonhos. O perfume dela ainda era perceptível no ambiente e eu teria ficado feliz, muito feliz, com um discreto sinal. Não buscava saber se existia vida após a morte, queria saber se minha mãe continuava em algum lugar fora daquelas fotos de viagens felizes e festas saudosas. Desejei com intensidade. Nunca falei disso antes e nem sei se me orgulho. Era um momento de orfandade pura e simples. O silêncio lancinante que eu vivia sem pai e sem mãe dominava a casa que eles construíram e na qual eu fora tão feliz com meus irmãos. Passei parte da noite assim, sozinho, como jamais me senti. O óbvio estava diante de mim e se repetia no silêncio absoluto e indevassável. Não havia fantasmas, não havia Deus, não havia nada além do que eu sabia, apenas desejava estar errado. Nada. Absolutamente nada. O sentido, claro, eu teria de inventar, como tenho feito há tantos anos. Seria obra minha, aleatória, não universal, fora da teologia e totalmente autoral.  

Foi o penúltimo suspiro de uma melancolia teológica. Em outra ocasião, visitando, para pesquisa, uma instituição religiosa, o encarregado anunciou que meu pai enviaria mensagem. A surpresa foi total. Não estava lá para isso. Feito silêncio, folha branca e lápis na mão do receptor, foi surgindo a mensagem. Entregaram-me o papel que, concretamente, terminaria minha dúvida por completo. Foi a última vez que uma parte minha desejou ler uma carta inédita do meu pai. Ele me escreveu, em vida, missivas semanais por mais de duas décadas. Conhecia a letra e o estilo. Sorri nervoso e li o que me entregaram. Enrubesci com raiva. Era um relato genérico chamando-me de “meu filhinho” (algo que ele jamais disse) e tomado de erros de português. Fui irônico diante da falcatrua e comentei que o desencarne parecia produzir um declínio forte no domínio gramatical, uma das glórias do dr. Renato Karnal em vida. Amassei o texto no bolso com os “menas” e “para mim dizer” e fui para casa irritado comigo mesmo.  

Admiro os amigos que recebem visitas de espíritos, contemplam vultos que passam nos corredores das casas e, felizes, recebem mensagens do além com fé total. Não os condeno. A melancolia do vazio e a saudade desesperadora produzem um desejo que pode dar origem a uma imensa convicção. Como julgar alguém se eu mesmo fui traído pelo desejo e pela dor? De todas as ilusões criadas pelos humanos, a ideia de imortalidade do espírito é a mais tocante e compreensível. Como pensa Nietzsche no Zaratustra, o sangue dos sacerdotes que passam é idêntico ao meu. Todos sentimos dor e solidão. Alguns são mais imaginativos do que outros para encontrar atenuantes. Boa semana para todas as almas e todos os corpos.
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* Historiador brasileiro, professor da Universidade Estadual de Campinas, especializado em história da América. Escritor.
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,almas-de-novembro,70003073840 03/11/2019
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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Flores para quem ama a vida

Juremir Machado da Silva*

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Então eu fui colher flores do campo, pois, naquela época, homens colhiam flores do campo e não se limitavam a discutir política e futebol. Havia homens que dedicavam a vida à poesia e gente que admirava os poetas. Eu cultivava lembranças certo de que, no futuro, colheria o que tivesse plantado. Minha visão de mundo era, caso isso faça algum sentido, vegetal. Ninguém me entendia. Eu não me importava.

Hoje, caminho por entre os sulcos do que já fomos. Deixamos para trás os caules, as lagoas, pátios, roldanas, os arames, os poços, veredas, atalhos, badanas. Sobre o bocal dorme o balde, alheio à porta que ainda bate como se esperasse a mão para fechá-la. Deixamos atrás de nós as doces figueiras, a sombra amistosa das tardes, sob os cinamomos, uma terra de areia e de manhãs dispostas, mesas postas para a alegria, num tempo esperança, especialmente graças ao que não sabíamos. Bem longe, metálico, um cachorrinho late, como se fosse nosso pensamento, mas o silêncio recai no entorpecimento. Agora o oceano se esconde do sol e os rastros se perdem nas ondas. Certas lágrimas lavam nossas pegadas. Pela estrada ocre, casas e vales, vales e casas, animais no pasto, eucaliptos, florestas, videiras, olhos que mal dão para o gasto, além da sensação de que alguma coisa se apagou.
Quem éramos? O que fazíamos? Por onda andávamos? Quais eram os nossos cenários? Paredes caiadas, ou um girassol, cacos queimados de porcelana azul junto às rugas secas do grande umbu, vestígios que já fazem relembrar do esquecimento, daquilo que não fomos, nunca, eu e tu, embora tivéssemos a certeza de que o futuro nos pertencia. Enquanto assim nos afastamos do Sul, por um novo caminho de veias expostas, onde os bois exibem suas enormes panças, e os pássaros ensaiam esquisitas danças, uma criança com um vidro fosco espia do outro lado dos trilhos. Éramos terríveis e assustadores naqueles tempos? Através de uma janela sem brilho, a mãe ralha com o seu filho, um homem esculpe um boneco tosco, a tarde morna se espreguiça como um cão, compro um souvenir na loja de lembranças. Ouço Billie Holiday.

Ouço e concluo: minha alma tem rachaduras por onde passa o vento, essa forma sinuosa e sibilina de não se desconectar do vivido, meus olhos são fechaduras por onde espio esse passado que se materializa inteiro, tudo se esvai como um domingo. Faz sentido isso? Quem já não se sentiu vazio como um domingo que atire a primeira crítica. Quem já não se viu pleno como uma utopia que se manifeste. Minha alma tem fechaduras que me blindam contra o tempo. Só que muitos têm a chave. Meus olhos são rachaduras por onde se espreme o vento, como um navio que se afasta até o horizonte se apagar como uma vela.

Estava pensando alto sobre tudo isso enquanto imaginava campos floridos. Sou dado a esse tipo de devaneio no meio da tarde, durante uma reunião, em consultório médico, durante uma partida de futebol sem gols. Foi quando alguém me bateu no ombro disse com voz risonha:

– Falando sozinho amigo!

      Ajustei os fones nos ouvidos. Tocava Miles Davis.
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* Cronista do Correio do Povo. Escritor.
Fonte: https://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/flores-para-quem-ama-a-vida-1.376993
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Jornalistas evangélicos atuam para reformar a informação

Jornalistas evangélicos atuam para reformar a informação
Coletivo se propõe a acompanhar, diariamente, mídias de notícias cristãs e pronunciamentos e declarações de políticos e autoridades cristãs 
 
31 de Outubro, Dia da Reforma Protestante. Esse dia ficou conhecido como aquele em que, há 502 anos, o monge alemão Martin Luther [Martinho Lutero] teria pregado suas 95 teses na porta da igreja do castelo da cidade alemã de Wittenberg. Elas representavam uma tomada de posição contra o que Lutero considerava práticas abusivas da sua própria igreja, a Católica Romana, como a venda de indulgências (uma forma de perdão dos pecados), e posições doutrinárias que desviavam dos valores primeiros da fé cristã. 
 
Martinho Lutero não foi o único. Antes dele e durante o seu tempo, houve muitos outros europeus, homens e mulheres, que se notabilizaram como “protestantes”, aqueles que traziam a dimensão contestatória à fé cristã, própria do cristianismo, num chamado ao retorno às origens (perdidas) do ser cristão. Do século XVI para cá, a Reforma marcou a história, tanto da Europa quanto dos demais continentes, por meio de muitas igrejas e movimentos. Estes grupos se espalharam pelo mundo, marcados por aspectos críticos (como a cumplicidade do protestantismo com o capitalismo e também com o imperialismo das ocupações coloniais).

Entretanto, a história também destaca a contribuição de protestantes (também chamados evangélicos em nosso continente) em ações pela justiça social e os direitos humanos como os movimentos de promoção da paz durante guerras. Também contra o racismo, como as lutas pelos direitos civis, com o pastor batista Martin Luther King, e contra o apartheid na África do Sul, lideradas pelo metodista Nelson Mandela e pelo bispo anglicano Desmond Tutu, entre outras causas. E ainda nas frentes por democracia e em oposição a regimes de exceção, como os protestantes no Brasil, no Chile, no Uruguai, na Argentina, na Oceania.

E aqui chegamos a um ponto crucial desta memória: lembrar a Reforma Protestante deve ser oportunidade para a busca de novas reformas, não só para evangélicos, mas também para cristãos de um modo geral e até mesmo para quem não professa uma religião. Um dos lemas dos reformadores do século XVI era “Igreja reformada sempre se reformando”. Eis aí um chamado à vocação de protestar, contestar o que vai contra os princípios de fé e os valores coerentes com o Evangelho de Jesus de Nazaré.

É com esta motivação que a organização Paz e Esperança, preocupada com a intensa propagação de conteúdos caracterizados como desinformação (mentiras, material enganoso, impreciso e inconclusivo) em espaços de mídias religiosas, tomou a iniciativa de articular jornalistas evangélicos para o desenvolvimento de uma ação específica. O grupo se reuniu e criou o Coletivo Bereia, que lançará nesta quinta-feira, Dia da Reforma Protestante, o site Bereia, dedicado à checagem de notícias e produção de conteúdo com foco em religião.

O nome Bereia é simbólico para os evangélicos. Faz referência a uma cidade grega, localizada na região da Macedônia, citada no livro da Bíblia dos Atos dos Apóstolos, no Novo Testamento. O texto registra um elogio aos judeus de Bereia, que participavam das reuniões promovidas por cristãos, não apenas por sua abertura para ouvir os novos ensinamentos. Os bereanos foram reconhecidos porque, eles mesmos, examinavam as Escrituras, diariamente, para verificar se o que o apóstolo Paulo e seus companheiros diziam estava correto.

O coletivo afirma ter consciência de que são muitas as várias iniciativas de agências, sites e coletivos que oferecem serviços diante da realidade tão desafiadora da propagação intensa de desinformação. No entanto, o Bereia deseja oferecer uma especialidade ainda não desenvolvida por outro grupo: a checagem de notícias veiculadas nos espaços de mídias religiosas, que têm o público cristão como alvo, e a verificação dos pronunciamentos dos políticos religiosos que estão tão em evidência no cenário político hoje.

A equipe do Bereia, formada por jornalistas e estudantes de comunicação, se propõe a acompanhar, diariamente, mídias de notícias cristãs e pronunciamentos e declarações de políticos e autoridades cristãs de expressão nacional, veiculados pelas mídias noticiosas e pelas mídias sociais. Será verificado se os conteúdos propagados são informativos (verdadeiros) ou desinformativos (imprecisos, enganosos, inconclusivos ou falsos).

O grupo de jornalistas evangélicos também está atento ao alerta de Martinho Lutero: “Somos por natureza propensos a acreditar em mentiras, em vez de verdades. Uma mentira é como uma bola de neve; quanto mais roda, maior se torna” (extraído de Conversas à mesa [Table Talk], entre 1531 e 1544). Por isso, atua para reformar a informação que circula nos espaços cristãos para haver fidelidade à verdade no enfrentamento da mentira e do engano.

Com isto, o Coletivo Bereia responde ao chamado feito pelo reformador tcheco Jan Hus que, um século antes de Lutero (provavelmente em 1411) conclamava: “Portanto, cristãos fiéis: busquem a verdade, ouçam a verdade, aprendam a verdade, amem a verdade, falem a verdade, adiram à verdade e defendam a verdade até a morte” (“Vyklad Viry” [Interpretação da Fé] da coleção Opera Omnia [Obra completa] de Jan Huss). 
 
Bereia é apoiado pelas organizações: Agência Latino Americana e Caribenha de Comunicação (ALC); Associação Católica de Comunicação – Brasil (SIGNIS); Associação Mundial para a Comunicação Cristã – América Latina (WACC-AL, na sigla em inglês); Grupo de Pesquisa Comunicação e Religião da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (GP Comunicação e Religião – Intercom); e Paz e Esperança Brasil.
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 Reportagem Por magali cunha
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/jornalistas-evangelicos-atuam-para-reformar-a-informacao/