sábado, 14 de dezembro de 2019

Ed René Kivitz: “Estado laico está sempre sob risco”, diz.


Kivitz, que preside a Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, é uma voz 
dissonante entre lideranças evangélicas 
— Foto: Claudio Belli/Valor

Para Kivitz, teólogo e pastor, cristão tem direito de defender 
seus valores na esfera pública, mas 
não o de impô-los à sociedade

Por Marília de Camargo Cesar — Para o Valor, de São Paulo

O universo conservador cristão ganhou um protagonismo inédito no período pós-redemocratização com a ascensão de Jair Bolsonaro (sem partido). Nos dois discursos que fez no dia de sua vitória nas urnas, o presidente eleito citou 13 vezes o nome de Deus. Nada surpreendente, porém. “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, seu slogan de campanha, já deixava clara a intenção de dialogar diretamente com o expressivo contingente evangélico no Brasil. E, desde a sua posse, em 1º de janeiro, nos templos, no Planalto, na ONU ou no Twitter, Deus está mais presente ainda na retórica governista.

Mas Bolsonaro não se restringiu à oratória e tem concedido um amplo poder para os pentecostais em seu governo. O presidente, que mencionou a intenção de indicar um ministro “terrivelmente evangélico” para o Supremo Tribunal Federal, também abriu espaço para a “Bancada da Bíblia” - frente parlamentar que reúne 195 deputados e oito senadores -, cercou-se de pastores como conselheiros e escolheu uma pastora para ser a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos: Damares Alves.

Além disso, o Aliança pelo Brasil, partido político que o presidente pretende criar, traz em seu programa menções que o vinculam a preceitos cristãos. Fazer a política andar de mãos dadas com a fé não é um fenômeno novo, mas hoje reflete uma grande transformação social: a expansão dos evangélicos, segmento religioso que poderá tornar-se o maior do país em 2030, segundo projeções do demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do IBGE. Não por acaso, a aprovação de Bolsonaro entre os evangélicos/pentecostais é de 39%, contra 30% da média geral da população, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada nesta semana.

Essa aliança de várias esferas de governo com a religião, contudo, tem sido alvo de críticas até mesmo entre protestantes. “Quando um Estado e um governo passam a ser vistos com os braços das agendas e interesses de um segmento religioso, a degeneração é dupla, da ‘res publica’ e da experiência da fé”, diz o teólogo Ed René Kivitz, escritor e pastor batista”., afirma Kivitz.

Apelar ao nome de Deus e ao capital simbólico da religião implica um sacrilégio, pois Deus deixa de ser 
fim e passa a ser meio”

Para ele, a ascensão evangélica a postos-chaves de governo e o uso frequente do nome de Deus nos discursos do presidente são um péssimo sinal. “A religião que se permite tornar um instrumento político de controle perde a credibilidade. Além de trair a causa do verdadeiro Evangelho.”

Kivitz, que preside a Igreja Batista de Água Branca, em São Paulo, é uma voz dissonante entre lideranças evangélicas populares que frequentam os importantes gabinetes do Palácio do Planalto, em Brasília.

Por ter uma visão crítica desse movimento que, segundo ele, “vulgariza a experiência religiosa”, Kivitz tem sido procurado para dar palestras pelo Brasil. Em todas elas reafirma o direito dos cristãos de defender seus valores na esfera pública, mas não o de impô-los à sociedade. “A lógica religiosa é por definição antipluralidade e avessa à diversidade.” 

 
O presidente Jair Bolsonaro toma café da manhã com a bancada da Frente Parlamentar Evangélica 
no Congresso Nacional — Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

Para o teólogo, ao usar o nome de Deus a todo instante em seus discursos, o presidente Bolsonaro comete “sacrilégio”. “Os usos da Bíblia e do nome de Deus falam a dimensões do inconsciente humano que nenhum outro tipo de discurso é capaz de alcançar. Apelar ao nome de Deus e ao capital simbólico da religião implica um sacrilégio, pois Deus deixa de ser fim e passa a ser meio”.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que Kivitz concedeu ao Valor.

Valor: A igreja evangélica parece ter atingido o auge de seu protagonismo no Brasil. O governo Bolsonaro conta com pastores ocupando cargos no primeiro e segundo escalões e a influência dessa vertente religiosa nunca foi tão grande. Que impactos esse movimento tem para a igreja na sua opinião?
Ed René Kivitz: A chamada igreja evangélica é hoje uma das protagonistas do velho modelo de aparelhamento privatizante do Estado. Representações evangélicas têm, pela primeira vez em sua história, a possibilidade de utilizar o poder político do Estado para efetivar as pautas morais baseadas em suas convicções religiosas. Por outro lado, o espaço privativo da religião passa a operar como espaço público de negociações políticas: o púlpito se torna palanque, a marcha para Jesus é de fato uma marcha para presidente, congressos e eventos religiosos passam a promover e defender o governo, e se tornam, direta e indiretamente, espaços de formação ideológica do poder. O contingente evangélico passa a ser visto e instrumentalizado como massa eleitoral útil e diferenciada, o que vulgariza a experiência religiosa, reduzida à estética estratégico-eleitoral. Quando um Estado e um governo passam a ser vistos com os braços das agendas e interesses de um segmento religioso, a degeneração é dupla, da “res publica” e da experiência da fé.

Valor: O presidente Bolsonaro costuma citar a passagem do Evangelho de João, que afirma que a verdade liberta. O mote de sua campanha também foi “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Esse tipo de discurso contribui para o fortalecimento da igreja evangélica?
Kivitz: O uso do texto bíblico é uma estratégia discursiva para estabelecer vinculação ideológica com o público religioso conservador cristão. Os usos da Bíblia e do nome de Deus falam a dimensões do inconsciente humano que nenhum outro tipo de discurso é capaz de alcançar. Apelar ao nome de Deus e ao capital simbólico da religião implica um  sacrilégio, pois Deus deixa de ser fim e passa a ser meio. Nesse sentido, o empoderamento da chamada igreja evangélica deve estar entre aspas, pois a religião capturada para finalidades extrínsecas à sua identidade sempre sofrerá perda de sua credibilidade. Os evangélicos deslumbrados com os aparentes benefícios que a adesão ao governo lhes proporciona, na verdade, estão traindo a causa do Evangelho.

Valor: O que quer dizer com trair a causa do Evangelho?
Kivitz: Trair a causa do Evangelho é jogar fora a credibilidade e a autoridade, que resta, da igreja evangélica: comprometer o mensageiro é comprometer a mensagem.

Valor: O novo partido que está sendo criado pelo presidente Bolsonaro declara, em seu programa, que “toma como seus os valores fundantes do Evangelho e da civilização Ocidental, herdeira do virtuoso encontro entre as cidades de Jerusalém, de Atenas e de Roma, ciente de que o povo brasileiro acredita que Deus é o garantidor do verdadeiro desenvolvimento humano...”. Como analisa essa declaração?
Kivitz: O primeiro impulso é concordar com a declaração, pois, de fato, a civilização ocidental deve muito à síntese que a tradição cristã fez da religião judaica, a filosofia grega e o direito romano, e também é muito bom que sejam reafirmados os direitos humanos universais e sua fundamentação no princípio judaico-cristão da dignidade intrínseca do ser humano como criado à “imago Dei” (imagem de Deus). O problema é o contexto e prováveis intenções que emolduram essa declaração, a saber, a eventual imposição de um paradigma religioso para o todo da sociedade. Apoio que sejam afirmados os valores éticos e morais da tradição cristã, em boa parte presentes também em outras tradições. Mas resisto veementemente à sugestão de que um governo deva impor sobre a sociedade quaisquer crenças religiosas. A experiência religiosa é fruto da fé, jamais da imposição. A fé é uma escolha, nunca uma obediência.

Valor: Outro episódio recente parece ilustrar o fortalecimento dos políticos cristãos na América Latina, o dia em que Jeanine Añez, a senadora que se autoproclamou presidente interina da Bolívia após a renúncia de Evo Morales, exibiu orgulhosa duas Bíblias nas mãos, afirmando que “Deus permitiu que a Bíblia voltasse a entrar no Palácio”. O Estado  laico está sob ameaça na América Latina?
Kivitz: A democracia e o Estado laico estão sempre sob risco. São experiências recentes na história da humanidade, com pouco mais de 300 anos. Os fenômenos recentes da América Latina são oportunismo inescrupuloso de quem sabe do potencial do amálgama entre religião e política. A célebre expressão de Lord Acton (1834-1902) é atualíssima: “O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”. O poder exercido em nome de Deus pretende se tornar absoluto, pegando emprestada de Deus a prerrogativa de ser inquestionável. Além da laicidade do Estado, portanto, estão em risco também os ideais e valores que preservam sociedades livres, plurais e democráticas.

Valor: Quais são as consequências de se reforçar o caráter moral e religioso das decisões de governo?
Kivitz: O sacrifício da laicidade coloca em risco as pluralidades sociais, possibilita a normatização de certas formas de vida e a criminalização das diferenças. A lógica religiosa é por definição antipluralidade e avessa à diversidade. A religião está baseada em dogmas e tabus, verdades em que se deve crer e comportamentos que se deve observar. É imperativo afirmar que os ambientes sociais caracterizados pela garantia das liberdades individuais, inclusive em termos de crenças e códigos morais, são os mais favoráveis para a experiência da fé cristã.

“Eu resisto veementemente à sugestão de que um governo deva impor sobre a sociedade quaisquer crenças religiosas”

Valor: Como seus colegas de outras religiões têm avaliado esse novo cenário político-religioso? O que eles dizem?
Kivitz: Há quem enxergue o fundamentalismo religioso ocupando o Estado. Outros temem as tendências protofascistas de uso da religião por parte do poder político. Para as religiões mais tradicionais, como as indígenas e as de matriz africana, teme-se, dado o nível de intolerância religiosa de certo segmento de evangélicos, que, mais uma vez, passe-se a utilizar o Estado como forma de criminalização ou extermínio de certas formas de vida religiosa e social. Há, ainda, os que temem uma espécie de censura ou perseguição à pluralidade de expressões culturais e de sensibilidades daqueles que não professam nenhuma religião formal.

Valor: Em seus discursos, o presidente Bolsonaro costuma externar o desejo de colocar “evangélicos” em determinados postos estratégicos. Podemos falar de um aparelhamento evangélico da máquina? Com que objetivo?
Kivitz: O aparelhamento da máquina ocorre quando uma das representatividades da sociedade usa a prerrogativa de governar para fazer prevalecer sua visão de mundo particular, seja ideológica ou religiosa. A participação de religiosos no governo não implica necessariamente aparelhamento, desde que atuem respeitando os termos democráticos estabelecidos no pacto constitucional.

Valor: Algumas correntes de pensamento teológico, como a que defende o estabelecimento de uma “cosmovisão cristã”, apontam para as vantagens sociais e econômicas de se ter cristãos praticantes exercendo influência, por meio de seus valores morais, nas esferas de poder político. Como analisa essas correntes?
Kivitz: A participação nas esferas do poder político é uma prerrogativa dos cidadãos. Os cristãos são também cidadãos. E muitos cidadãos são também cristãos. É natural que cada cidadão leve consigo para a arena pública tanto sua cosmovisão quanto seus valores éticos e morais, e também suas convicções religiosas. Defender seus valores na arena pública é um direito dos cristãos, impô-los ao todo da sociedade é uma traição do pacto democrático. Os testemunhos do cristianismo primitivo foram desenvolvidos e estruturados num tempo em que não existia lógica racionalizadora da política, não existia teoria da especialização dos poderes. Evangelizar é diferente de colonizar.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Siba diz que será preciso “muita coragem” para vencer o autoritarismo


O cantor e compositor Siba (Foto: José de Holanda)

O cantor e compositor Siba (Foto: José de Holanda)

Músico traz reflexão sobre o comportamento do homem e do bicho em novo trabalho
 
No seu mais recente álbum solo, Coruja Muda, o cantor e compositor Siba apresenta um trabalho onde cria um espaço indefinido entre o humano e o bicho. “Esse lugar de indefinição serve para pensar quem é mais ou menos gente, quem tem mais ou menos direito”, diz.

Em algumas músicas, como a faixa-título Coruja Muda, Só É Gente Quem se Diz, Daqui Pracolá e Carcará de Gaiola, expõe-se a relação dos animais com as pessoas, às vezes com comportamentos melhores do que os nossos:

“Dos bichos da criação, a aranha é a mais feia / Mas ela tem uma teia de boa conexão / Que é pra ter informação de todo bicho esquisito / Não posta fake do mito e nem de gente que apanha / A internet da aranha só pega mosca ou mosquito”.

Segundo ele, trata-se de um tema bastante aberto, sem pretensão de chegar a um lugar definido. Coruja Muda é um trabalho solo reflexivo e diferente do poético Avante (2012) e o mais político De Baile Solto (2015).

Geração ligada à cultura popular

Mas mantém a sonoridade contemporânea com a influência forte do ritmo regional nordestino de seus trabalhos solos anteriores. Uma concepção musical que abre discussões sobre os efeitos do moderno na expressão tradicional.

“Há um tipo de preconceito muito arraigado no senso comum que exclui tudo que diz respeito na cultura popular a possibilidade de agenciamento do presente ativo e de uma voz para o futuro”, comenta sobre as inserções modernas na composição.

“A música do Nordeste nos últimos 30, 40 anos ou até mais tem sempre que lidar com a carga cultural que ela vem de um Brasil pré-moderno, pré-industrialização. Mas as culturas se adaptaram e continuam vivas e fazem parte do presente. A cultura popular tem capacidade de convivência entre pessoas bem diferentes. A minha geração tem como marca forte o de ter que lidar com essas questões e formulá-las ao estilo musical”.

A geração de Siba é a do Manguebeat, do Mestre Ambrósio (banda na qual integrou por mais de 10 anos), do pessoal que misturou (e mistura) ritmos rurais da Zona da Mata e influências tradicionais, como do maracatu do baque solto, a outros sons mais universais.

Micropolítica de confraternização não resolve

“Buscar espaço de união, afetividade e construir espaços de colaboração e de compartilhamento sempre foi o que a cultura popular fez nesse país”.

Mas diz estar preocupado com o momento: “A alternativa autoritária é cada vez formulada com mais clareza em alto e bom som. Temos um desafio muito grande pela frente e não vai dar para ser enfrentado com micropolítica de confraternização. O autoritarismo terá que ser encarado com muita coragem, para dizer o mínimo”.

Todas músicas do álbum Coruja Muda são de autoria de Siba. A versão nova de Toda Vez que Dou um Passo e O Mundo Sai do Lugar (reunidas na faixa 11) teve uma parceria com Mestre Nico na letra.
O trabalho conta com as participações de Alessandra Leão, Chico César, Mestre Anderson Miguel e Renata Rosa. Nos instrumentais, Arto Lindsay (guitarra), Dustan Gallas (teclados e synth), Edgar (ultraste; instrumento criado pelo próprio), Galego Do Trombone (trombone), João Minuto (sax tenor), Leandro Gervázio (tuba), Lulinha Alencar (acordeon), Ricardo Carneiro (violão) e Roberto Manoel (trompete). Na base, Rafael dos Santos (bateria), Lello Bezerra (guitarra e baixo) e Mestre Nico (voz, percussão e trombone).

Assista em YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=MJphPimayZ8&feature=emb_logo
-  https://www.youtube.com/watch?time_continue=6&v=Wk_BeMnPCUU&feature=emb_logo

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Reportagem Por  Augusto Diniz 
Fonte:  https://www.cartacapital.com.br/cultura/siba-diz-que-sera-preciso-muita-coragem-para-vencer-o-autoritarismo/ 12/12/2019

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Mística e preconceito

Luiz Felipe Pondé*

Ilustração

Só acredita que as coisas sejam óbvias quem leu pouco, seja de que assunto for


Algumas palavras devemos usar com cuidado hoje em dia, devido ao ruído contínuo em que vivemos. A palavra “mística” é uma delas. Ela tem raízes no grego e, segundo o maior historiador da mística cristã em atividade, Bernard McGinn, sua primeira aparição no mundo cristão está associada à busca dos primeiros monges e padres gregos da Igreja como Clemente de Alexandria (150 – 215) e Orígenes (184 -253) pelas camadas interpretativas escondidas (aqui estaria o sentido originário grego) na Bíblia.

A palavra seguirá seu curso até chegar, por volta do século 16, a ter o sentido que mais comumente se aplica nos estudos de espiritualidade na atualidade —experiência direta de Deus. Isso não significa que já no século 13 ou 14 não existissem pessoas na Europa (e não só nela ou no cristianismo), ou mesmo antes, que relatassem alguma forma de “cognitio Dei experimentalis”, ou seja, um conhecimento de Deus baseado numa experiência, e não no “mero” estudo das sagradas escrituras.
A aceitação desses relatos pela hierarquia da Igreja era objeto de dúvida, de discussão, ou mesmo de condenação pela Inquisição.

O fato é que a interpretação de um relato desse tipo por quem o ouve não necessariamente o ratifica como sendo o que a pessoa mística diz que é. Dito de outra forma: não é evidente que quem ouve o místico falar acredite no que ele está dizendo. A literatura especializada está cheia de casos em que, ao contrário do que as místicas diziam, seus interlocutores entendiam que elas, na verdade, tinham uma experiência direta com o Diabo, e não com Deus.

Só acredita que as coisas sejam óbvias quem leu pouco, seja de que assunto for. Por exemplo, você pode achar, vendo um filme, que a pessoa que ouve o relato de uma jovem mística em Paris, em pleno século 14, evidentemente teria que acreditar nela. E se não o faz é por questão de gênero, de classe social ou de raça. A redução das dificuldades de interpretação de relatos místicos por parte de quem os ouve a categorias de poder político e econômico é típico de espíritos pobres de espírito (redundância proposital).

Não. Você pode se considerar a pessoa de cabeça mais aberta do mundo, mais sem preconceito, mais liberal em sentido moral, mais bem informada, e tudo mais de “bom”, e ouvir um relato hoje que se enquadra perfeitamente no tipo de relato místico feito na Idade Média por mulheres místicas, e achar que a pessoa diante de você é uma mentirosa, ou, na melhor das hipóteses, uma louca.

Se a Idade Média queimava místicas, hoje nós as impregnamos de medicação psiquiátrica. Mesmo os inteligentinhos da esquizo-análise pensariam haver ali algo de “regressivo”.

Pelo menos, os medievais julgavam haver ali uma verdade (o Diabo), nós achamos haver ali apenas a miséria de um cérebro desordenado. Nesse caso, Deus está de fato morto.

Este é um exemplo crasso da secularização. O sobrenatural migrou pra periferia do mundo cognitivo. Claro que nas instituições religiosas como a Igreja Católica permanece havendo espaço para as místicas e místicos. Mas, fora de instituições religiosas, entendemos que relatos do tipo “Deus fala comigo” ou “Sinto a presença de Jesus aqui nessa sala” são menos objeto de crença do que uma conversa tipo mesa branca “tem um encosto nessa sala”.  É mais fácil acreditar num Preto Velho à la Kardec do que na presença de Jesus nalgum lugar.

Há também a suspeita de que quem fala uma coisa dessas está fazendo proselitismo: está querendo levar gente para a igreja dela e faturar uma grana. Ou se aproveitar sexualmente de alguém. Ou é uma coitada vítima de pais opressores e perversos.

O fato é que se você defender o uso, por exemplo, da maconha, você pode ser visto como alguém que está prestando alguma forma de serviço aos jovens. Se você defender a transexualidade você estará trabalhando pela liberdade. Agora, se você defender “a palavra de Deus”, você estará sempre delirando ou se aproveitando dos outros. O fato é que o preconceito contra os místicos existe até hoje, só que agora ele é “científico” e progressista.
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* Escritor e ensaísta, autor de “Dez Mandamentos” e “Marketing Existencial”. É doutor em filosofia pela USP. 
Imagem:  Ricardo Cammarota
Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2019/12/mistica-e-preconceito.shtmlv

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Richard Stephens: ‘Xingar faz bem à saúde’, diz psicólogo britânico

NA ORIGEM DE TUDO - Stephens: evidências de que o palavrão cria solidariedade e é tão antigo quanto a própria linguagem Russell Sach/.

Especialista ganhou destaque em uma área que se dedica a entender os benefícios do palavrão; termos banidos dos dicionários polidos estão autorizados

Por Julia Braun - Atualizado em 6 dez 2019

Por que o senhor decidiu estudar os efeitos do palavrão? Quando minha filha nasceu, minha mulher xingou horrores para extravasar a dor do parto. Isso me fez refletir cientificamente: por que é tão comum a dor vir acompanhada de palavrões?

E a que resposta chegou? Ficou claro que o uso do palavrão aumenta a resistência à dor. Fiz um experimento com meus alunos para cronometrar quanto tempo eles resistiam com as mãos mergulhadas em um balde cheio de gelo. Os que reagiam com expressões neutras aguentavam significativamente menos que os que desfiavam palavrões.

Qual é a explicação fisiológica para isso? O xingamento produz uma resposta emocional no organismo humano, evidenciada pelo aumento da frequência cardíaca. Quando a pessoa fala palavrão, o corpo entende que está sob ataque e se condiciona para o modo “lutar ou fugir”. Esse stress leva a um estado de analgesia, o que alivia a dor.

Suas pesquisas detectaram outros efeitos positivos? Os estudos mostram que os palavrões contribuem para a prática de exercícios que envolvem força. Xingar ajuda a relaxar a mente e, sob esse efeito psicológico, o desempenho atlético melhora. Numa outra frente, que analisa o impacto social do uso dessas expressões, descobriu-se que elas podem ser úteis à arte da persuasão. Palestrantes que salpicam de palavrões seus discursos são percebidos como mais honestos. As pessoas que xingam com frequência, por sua vez, parecem mais espontâneas. Além disso, os palavrões tendem a criar certa solidariedade entre grupos sociais, aproximando colegas de escola ou trabalho, por exemplo.

Há palavrões mais eficientes que outros? Aqueles considerados mais fortes demonstraram ao longo da pesquisa ter maior impacto no alívio da dor e na alta do desempenho físico. Um exemplo: percebemos que “f…-se” surte mais efeito que “m….”.

O Homo sapiens é o único animal que xinga? Não. Sabemos que chimpanzés também são bons de palavrão. Ao serem apresentados pelo homem à linguagem de sinais, esses primatas aprenderam a associar o sinal de sujeira ao ato de fazer suas necessidades. Espontaneamente, porém, eles começaram a atribuir um sentido pejorativo ao gesto e a utilizá-lo como insulto. Esse é um indicativo de que os palavrões podem estar entre nós desde que a linguagem existe.

Publicado em VEJA de 11 de dezembro de 2019, edição nº 2664
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Fonte:  https://veja.abril.com.br/saude/xingar-faz-bem-a-saude-diz-psicologo-britanico-richard-stephens/

‘Macron está construindo uma ponte para a extrema direita’

Macron faz pronunciamento em Biarritz, França, antes da cúpula do G7 TF1/AFP

Professor da Universidade de Reims, na França, Alexis Lévrier analisa a turbulência social que sacode o mandato do presidente da França

Por Ernesto Neves -10 dez 2019 
 
Com a França paralisada há seis dias pela greve contra a reforma da Previdência, o presidente do país, Emmanuel Macron, vê seu legado político enfrentar risco crescente.

Em entrevista a VEJA, o professor de história da mídia Alexis Lévrier, da Universidade de Reims, na França, afirma que a maior paralisação do país em décadas pode desidratar Macron ao ponto de tornar o restante de seu mandato um deserto de ideias.

E faz um alerta: o comportamento do presidente, que flerta com o eleitorado anti-imigração, está fortalecendo sua rival, Marine Le Pen, da extrema direita.

Após seis longos dias de protestos, como está a situação do presidente francês, Emmanuel Macron?
As demonstrações ao longo da última semana foram de grande sucesso, mobilizando até 1,5 milhão de pessoas. É a maior paralisação das últimas décadas. A greve não só foi bem organizada, como teve larga aprovação da população em geral.

Segundo pesquisas feitas no país, sete em cada dez franceses acham que o movimento é justificado. 

Macron, que já tinha uma situação política complicada, tem ficado fora da mídia. Ele deixa o desgaste para o primeiro-ministro, Édouard Philippe, que tem falado em nome do governo.

Macron optou por dramatizar sua reforma administrativa, apresentado-a como a mais importante medida do seu mandato.

Se tiver que retirá-la, será uma enorme derrota política. É provável que o restante do seu mandato se arraste sem grandes mudanças.

Macron conseguiu avançar no pacto social proposto após a explosão do movimento dos “coletes amarelos”, em 2018 ?
No final de 2018, quando havia enormes passeatas nas ruas, Macron adotou uma postura vacilante por vários dias. Em dezembro, escapou por pouco de uma tentativa de linchamento em uma pequena cidade chamada Puy-en-Velay.

Desde então, para conseguir manter as reformas de pé, fez o que denominou de “segundo ato” do seu governo. Mudou a comunicação, se aproximou da imprensa, mostrou mais respeito pelos órgãos intermediários.

Mas, na realidade, sua prática de exercer poder continuou muito centralizada e solitária.

O resultado é que suas reformas são cada vez menos aceitas, como fica evidente nas manifestações que estamos vivendo.

É o fim da Era Macron ?
Não, mas a natureza do Macronismo mudou. Macron foi eleito principalmente com votos de esquerda. Mas quis governar com as forças do centro, sem escolher entre a direita e tampouco a esquerda.

Só que essa doutrina não resistiu ao cotidiano do poder. Sua política, até aqui, foi vista como favorável às classes mais altas.

Além disso, seu estilo de comunicação é encarado como arrogante, fazendo com que seja detestado por parte do eleitorado, sobretudo os “coletes amarelos”.

Por isso, os excessos policiais durante os protestos foram endereçados justamente ao presidente.

Macron ainda tem uma base de popularidade, que oscila entre 30% e uma chance de ser eleito em 2022, já que tanto direita quanto esquerda estão enfraquecidas.

Mas sua base está à direita, porque para o público ele personifica o partido da ordem. A última pesquisa, publicada em 6 de dezembro, mostra que sua popularidade cresceu 18% entre os eleitores de direita e 12% entre os de extrema direita.

A turbulência política e social da França pode beneficiar Marine Le Pen, da extrema direita?
É muito provável que sim. Marine Le Pen raramente fala com a mídia, mas uma situação política tão confusa só pode ser favorável a ela. Além disso, o próprio Emmanuel Macron optou por apresentá-la como seu único oponente, para se preparar para a disputa eleitoral de 2022.

Assim, ele decidiu colocar a questão da imigração e o véu islâmico no centro do debate político. Macron chegou ao ponto de dar uma longa entrevista ao jornal de extrema direita Valeurs actuelles. Essa publicação é muito próxima das idéias de Le Pen.

Há risco de termos a vitória da extrema direita nas próximas eleições, em 2022?
Essa estratégia mostra que, para Macron, o que mais importa é o confronto ideológico com Marine Le Pen. É uma tática muito perigosa, porque ela dá legitimidade ao discurso da extrema direita.
Macron espera que, como aconteceu em 2017, vá se beneficiar novamente de uma ampla frente republicana que imponha freio aos extremistas. Mas não é certo que o eleitorado da esquerda vote novamente nele.

No mês passado, em uma entrevista a um jornal francês, o historiador Patrick Boucheron resumiu os perigos dessa estratégia de uma maneira bonita.

Designar seu oponente é escolher seu sucessor. Emmanuel Macron parece ignorar isso. Neste jogo sempre se perde.

Acreditamos que estamos construindo um dique enquanto construímos uma ponte. É o que ele está fazendo pela extrema direita.
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Fonte:  https://veja.abril.com.br/mundo/macron-esta-construindo-uma-ponte-para-a-extrema-direita/

Luc Ferry: 'A democracia não é ocidental, é humana', diz filósofo.


Luc Ferry
 O filósofo francês Luc Ferry durante palestra no ciclo Fronteiras do Pensamento 
Foto: GREG SALIBIAN/FRONTEIRAS DO PENSAMENTOO

Pensador e ex-ministro da Educação francês esteve no Brasil para palestrar no ciclo Fronteiras do Pensamento

André Cáceres, O Estado de S.Paulo 
07 de dezembro de 2019 
 
Luc Ferry é um pensador multifacetado. Além de filósofo premiado, com livros publicados no mundo todo, inclusive no Brasil, ele foi ministro da Educação da França entre 2002 e 2004 – ocasião em que tomou a polêmica decisão de banir os véus islâmicos das escolas francesas – e é autor de histórias em quadrinhos que adaptam lendas da mitologia grega para o público contemporâneo, algo inusitado para um filósofo. 

Ferry esteve no Brasil em novembro para se apresentar no Fronteiras do Pensamento, ciclo de palestras que em 2019 girou em torno do tema Sentidos da Vida. O autor, que acaba de lançar na França Sagesse et Follie du Monde Qui Vient (Sabedoria e Loucura do Mundo por Vir), concedeu uma entrevista por e-mail ao Aliás. Leia a seguir:

Há quase uma década, em seu livro ‘A Revolução do Amor’, o senhor afirmou que no Ocidente ninguém morreria por uma religião. Hoje, como o senhor vê a ascensão do nacionalismo e do fundamentalismo em vários países ocidentais?
Nacionalismo e fundamentalismo são coisas completamente diferentes. O primeiro cresce em nossos países, o segundo vem do exterior, do mundo das teocracias islâmicas. A verdade é que, neste início do século 21, os valores democráticos se impõem cada vez mais como os únicos legítimos, se não como os únicos imagináveis. Comparando-se com os regimes totalitários dos anos 1930, os terroristas do Estado Islâmico continuam sendo, apesar de tudo, atores menores. O exército do terrorismo é temível, mas é no máximo o exército dos fracos contra o dos poderosos. Está longe de ter o poder dos mísseis soviéticos e dos tanques alemães. No fundo, se pensarmos objetivamente, fora do terrorismo o mundo todo mostra há 40 anos mais as vantagens da democracia que suas desvantagens. Essa evolução salutar tem uma razão de fundo, essencial ou estrutural, que vai além dos imprevistos da história: a democracia não é ocidental, ela é humana; não é particular, é universal, simplesmente por ser o único modo de governo que convém às pessoas adultas, a uma humanidade autônoma e livre. Perto dela, todos os outros regimes são regressão. Podemos sem dúvida aperfeiçoar os regimes democráticos, melhorá-los em vários aspectos, lutar contra corrupção, dar mais peso às consultas populares. Considerando-se tudo, porém, é sob essa forma política que a humanidade, pesando bem a liberdade que a caracteriza mais que tudo, tornou-se ela mesma. Daí a ideia de um fim da história, que não é tão estúpida. Pode-se argumentar que os nacionalismos de hoje são catastróficos, na Itália, na Hungria, nos Estados Unidos, no Brasil. Mas são muito menos se comparados àqueles do século 20. A 1.ª Guerra Mundial fez 20 milhões de mortos; a 2.ª, 60 milhões. Podemos não gostar de Trump, mas por enquanto ele não matou em massa. Ao mesmo tempo, os sistemas democráticos sobrevivem em paz, as eleições não foram suspensas nos países que acabei de citar e os eleitores podem sempre mudar o voto no próximo pleito. Enfim, o nacionalismo é ligado ao fato de que a globalização assusta. O mercado se tornou mundial, mas as políticas continuaram nacionais, o que as torna pouco efetivas. As pessoas têm o sentimento de que, voltando aos valores nacionais, retomarão o controle do mundo. É um erro, mas compreensível. 

Como ex-ministro, como o senhor vê a importância do investimento em educação?
Investir na educação é vital, não apenas pelo bem das crianças, mas pelo bem do país. Por que ela é necessária? Porque o mundo que vem aí é o da tecnologia. A terceira revolução industrial é a das novas tecnologias, do digital, da robótica e, principalmente, da inteligência artificial. Para quem não estiver preparado para esse mundo, viver nele será terrível. Eles estarão sem rumo, relegados a profissões medíocres, condenados ao desemprego. É essencial para nossas crianças, mas também para nossos países, estar preparados para esse mundo que vem, e isso só pode acontecer por meio de nossos sistemas educativos. 

Como poderemos lutar por um humanismo secular como o que o senhor defende em uma época na qual as pessoas não têm como distinguir informações verdadeiras das falsas?
Nada de pânico, por favor! Assumir que somos manipulados pelos dados é paranoia, visto que na realidade não há nada de misterioso no fato de a publicidade e o discurso político tentarem nos convencer: é seu papel explícito, sua finalidade manifesta. Cabe a nós reagir, conservar nosso espírito crítico. Que os estrategistas da inteligência artificial possam prever e antecipar nossas escolhas não tem nada de errado e nem vai contra a liberdade, uma vez que nosso uso da tela ou de objetos conectados a redes lhes dá essas informações. Todos os nossos amigos sabem mais ou menos como votamos, onde passamos férias e se gostamos de chocolate. O fato de que a máquina à qual você confiou livremente essas informações saiba coisas a seu respeito não prova que suas escolhas não sejam livres. Na verdade, tentando superproteger as pessoas, tratando-as como menores incapazes, negamos-lhes a liberdade.  

Seus quadrinhos falam de mitologia grega. Como o senhor explica a presença tão forte de muitos mitos gregos em nosso mundo contemporâneo?
Por que essas “velhas histórias” de gigantes, ninfas, sátiros, górgonas, nos interessam até hoje? Porque elas levantam uma questão que nos toca a todos, a do que é a vida boa para os mortais. Vejamos um pouco a Odisseia, de Homero. Sob muitos aspectos, ela é a matriz, com a Teogonia, de Hesíodo, da mitologia e da filosofia gregas. A Odisseia não é uma narrativa de aventuras, nem uma epopeia literária, mas o itinerário filosófico de um homem, Ulisses, que vai da guerra à paz, do ódio ao amor, do exílio à volta para casa, do caos à harmonia – em resumo, da vida má à vida boa. Ele busca a solução da questão da qual derivará toda a filosofia: existe uma vida boa para os mortais? E ele nos dá a primeira grande resposta: para se chegar à vida boa, é preciso vencer os medos e fugir da nostalgia do passado, da esperança de um futuro melhor, a fim de viver no presente. Como Ulisses em Ítaca, o sábio se ajusta ao cosmo como uma pequena peça de um quebra-cabeça se integra ao quadro formado. Ora, como o cosmo é eterno, o próprio sábio se torna um fragmento da eternidade. É uma mensagem grandiosa que atravessa os séculos: a vida boa é a harmonia do homem com a harmonia do mundo. Meus quadrinhos oferecem um meio de entrar no universo grego: os desenhos são fiéis aos menores detalhes das roupas, armas, joias, palácios, barcos e carruagens da época. Além disso, eu sempre parto dos textos e histórias originais mais antigos, o que põe os quadrinhos no mesmo nível dos melhores cursos universitários… 

O senhor veio ao Brasil falar sobre o significado da vida. Qual seria uma forma satisfatória de dar sentido à vida sem criar um sistema religioso de pensamento, mantendo-se uma filosofia secular? 
Muita gente pensa que espiritualidade signifique religião. É um erro grave, pois todas as grandes filosofias são espiritualidades laicas. Para entender isso, é necessário fazer uma distinção infelizmente oculta do debate público: é preciso evitar confundir duas esferas de valores muito diferentes, comparáveis àqueles pelos quais nossas vidas se orientam permanentemente: valores morais de um lado e valores espirituais de outro. Vejamos isso um pouco melhor. A moral, em qualquer sentido que se entenda, é o respeito ao outro, aos direitos do homem, ao qual se soma a benevolência, a generosidade, a gentileza. Atuar moralmente é respeitar o próximo e lhe desejar, se possível ativamente, o bem. Não conheço nenhuma moral que diga o contrário. Seja Sócrates, Jesus, Buda ou Kant, todos nos convidam a respeitar o outro, a ter compaixão e a rejeitar a violência. Imaginemos por um instante que dispuséssemos de uma varinha mágica que nos permitisse, de um só golpe, fazer com que todos os seres humanos se conduzissem moralmente uns com os outros. Se aplicássemos com perfeição os valores morais, não haveria mais neste planeta nem massacres, nem estupros, nem roubos, nem assassinatos, nem injustiças e nem, provavelmente, uma desigualdade social tão grande. Seria uma revolução. Entretanto – e é aí que vem à luz a diferença entre valores espirituais e valores morais – isso não impediria que envelhecêssemos, morrêssemos, perdêssemos um ente querido, sofrêssemos por amor ou simplesmente nos aborrecêssemos com uma vida cotidiana marcada pela banalidade. Pois essas questões – velhice, luto, amor, tédio – não são essencialmente morais. Você pode viver como um santo ou uma santa, ser gentil como os anjos, respeitar e ajudar o próximo, defender os direitos do homem... que mesmo assim envelhecerá, morrerá, sofrerá. Essas realidades, como diz Pascal, são de outra ordem, que depende da “espiritualidade” compreendida no sentido da vida do espírito, aquela espiritualidade que não se limita ao religioso e vai além da moral. De que se ocupa ela? De nossa relação com a morte ou, na verdade com a questão da vida boa para os mortais, o que é a mesma coisa. Desse ponto de vista, é evidente que existem dois tipos de espiritualidade, duas maneiras de abordar a questão da sabedoria e do bem viver para os que vão morrer e sabem disso, ou seja, todos nós: a espiritualidade que tem deuses e fé são as religiões; a espiritualidade sem Deus e pelo caminho da simples razão são as grandes filosofias – que, de Platão a nossos dias, se ocupam da questão final sem passar por Deus e pela fé. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ
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quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

PARIS e a ALIANÇA

Gilles Lapouge*
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Líderes dos países membros da OTAN junto à Rainha Elisabeth e o Príncipe de Gales para o encontro de 2019 da cúpula em Londres Foto: Yui Mok/Pool via The New York Times

A celebração dos 70 anos da Otan nada tem de gloriosa; não só não trouxe paz e felicidade ao mundo, como os confrontos causaram estragos no interior da própria aliança

A Otan (Organização Tratado do Atlântico Norte) está reunindo todos seus membros em Londres para o 70.º aniversário da aliança atlântica. Quando a Guerra Fria terminou, o filósofo da Casa Branca, Francis Fukuyama, anunciou que o mundo entrava em uma nova era profetizada no século 19 pelo filósofo Friedrich Hegel: o “fim da História”. Estava aberto o caminho para que desabrochassem a democracia, a paz universal e as sociedades liberais. Sem mais tensões e fúria, sem mais guerras. 

No lugar disso, a felicidade. Naquele dia, porém, Fukuyama, que é um bom filósofo, teria feito melhor se ficasse calado. Desde 1990, ou seja, desde “o fim da História”, as guerras, as revoluções, os golpes, as microtiranias, tumultos, intolerâncias, o caos, as ansiedades, a miséria, longe de desaparecer, prosperaram. Europa, África, Ásia, América continuam lindos, mas cheios de bestas ferozes. A tal ponto que um humorista pôde escrever: “Dê-nos a nossa velha Guerra Fria, pois ela deu fim às pequenas guerras quentes.” 

A celebração dos 70 anos da Otan nada tem de gloriosa. Não só não trouxe paz e felicidade ao mundo, como os confrontos causaram estragos no interior da própria aliança. A Turquia é um membro essencial, um país poderoso, dotado de formidável Exército e ocupa um centro nevrálgico na transição entre Europa e Ásia. Mas o presidente Recep Erdogan decidiu, sem avisar a Otan, atacar os curdos que haviam lutado ao lado da aliança na longa guerra contra o Estado Islâmico. Emmanuel Macron criticou e Erdogan respondeu com desprezo: “Macron é um amador”, disse o turco. 

É claro que Macron estava certo, mas ele respondeu com virulência desnecessária. Esse é o “pecado venial” de Macron. Suas análises são sólidas e razoáveis. Mas ele as expressa sem tato, tentando atingir o outro. Dia desses, Macron se voltou contra a Otan. Aqui também, seu diagnóstico estava correto. Mas ele achou inteligente expressá-lo com uma fórmula insultuosa. “A Otan está em estado de morte cerebral.” A fraqueza de Macron está aí: o diagnóstico é exato, mas é expresso com uma violência não apropriada entre países amigos. 

A Otan desempenhou um papel benéfico na proteção dos países da Europa contra os desejos predatórios da URSS. Então, começou a declinar ou até cometer grandes erros, por exemplo, a guerra estúpida contra a Líbia, de Muammar Kadafi, ditador, mas que protegia o Ocidente do maléfico avanço do jihadismo. Hoje, é toda a África que se confronta com o horror extremista. A Otan está inerte e muda.  

Apenas os soldados franceses tentam impedir que a região do Sahel se torne, após o fim do EI no Iraque e na Síria, um novo refúgio para assassinos. Macron analisou bem. Mas sua voz não se impõe tanto quanto há um ano. Se alguém fizer um balanço de sua ação em política externa, é obrigado constatar um fracasso. Ele havia iniciado seu mandato, há dois anos, com um hino à concórdia, à união, e com a meta de ouvir os outros. Ele não obedeceu a tais resoluções. Arruinou grandes oportunidades. 

Ele contava com Angela Merkel para revitalizar a União Europeia, que precisa urgentemente disso. Mas suas vaidades caíram sob a austera chanceler alemã. Renovar a UE graças à amizade franco-alemã, meta tão querida de Macron, não está mais na agenda. Merkel não perde uma oportunidade de contradizer o francês. 

Apesar de tantas falhas, Macron não se acalma. Ele tem outros projetos. Primeiro, gostaria que a Europa parasse de tratar Putin como uma vítima da peste. Mais uma vez, ele está certo. É estúpido demonizar Putin. Grande parte da opinião pública europeia compartilha dessa análise. Finalmente, Macron conseguirá moldar um grande projeto diplomático? Integrar a Rússia à esfera europeia, em vez de deixar Moscou se aproximar da Ásia? 

Novamente, o diagnóstico de Macron está correto. Mas será que ele conseguirá esquecer sua arrogância, seu hábito de distribuir aos outros “pontos positivos”, de nocautear seu público com discursos inteligentes, sutis, mas pedantes, pretensiosos e narcisistas? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO
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*É CORRESPONDENTE EM PARIS
FONTE:  https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,paris-e-a-alianca,70003112573 04/12/2019

Margaret O’Mara: “Não é possível escapar de Apple, Microsoft, Amazon, Google e Facebook”, diz autora do best-seller The C

A historiadora americana Margaret O’Mara, autora do livro The Code

Em entrevista ao NeoFeed, Margaret O’Mara, autora do livro “The Code”, que narra o processo da fundação do Vale do Silício, fala sobre inevitável regulação das Big Tech e da falta de diversidade nas empresas da região

Ela anseia o futuro justamente por entender o passado: a historiadora americana Margaret O’Mara investiu os últimos cinco anos de sua vida pesquisando sobre as raízes do Vale do Silício e acredita que a região mais tecnológica do mundo está à beira de um novo ponto de virada.

Explicando todos os seus argumentos em seu terceiro e mais recente livro publicado – “The Code” –, a autora prevê que as eleições presidenciais do ano que vem e as discussões sobre privacidade e antitruste tragam novos rumos para as empresas globais baseadas na Califórnia.

PhD em história pela Universidade da Pensilvânia, Margaret trabalhou na Casa Branca durante a gestão de Bill Clinton e, como professora, atuou em Stanford e na Universidade de Washington, onde ainda leciona.

Ela, que tem textos publicados no The New York Times, Los Angeles Times, The Washington Post, Newsweek e outros grandes veículos de mídia, conversou com exclusividade ao NeoFeed e falou sobre meritocracia, machismo e a política do Vale do Silício.
Veja, a seguir, a entrevista completa.

Você poderia contextualizar um pouco o seu novo livro The Code? Por que escrever sobre a história do Vale do Silício?
Meu interesse pela história da tecnologia não é novo e nem novidade. Pesquiso sobre o assunto há 20 anos e, talvez por isso, receba tantas perguntas sobre o tema. Comecei a notar, então, que certas questões se repetiam: é possível criar um novo Vale do Silício? Esse polo poderia ter surgido em outra região dos EUA? Perguntas interessantes para as quais eu não tinha ainda uma resposta. Foi esse o ponto de partida do livro, porque eu queria entender a “fórmula mágica” da região que abriga as cinco empresas das quais ninguém consegue escapar.

Ninguém consegue escapar…?
Não é possível escapar de Apple, Microsoft, Amazon, Google e Facebook. Você pode não ter uma conta na rede social, mas talvez use o WhatsApp. Ao pedir um Uber, por exemplo, você está utilizando o Amazon Web Service sem nem saber. Virtualmente, estamos todos consumindo e dependendo dessas empresas. E a história delas é também, de certa maneira, a história dos EUA. É preciso saber o que veio antes para explicar o agora e entender o que acontece depois.
“Quebrar as Big Tech, como propõem alguns, acho que não. Mas as regulamentações estão ganhando força em diferentes setores da sociedade”
Então antes de falar sobre o passado, uma pergunta sobre o futuro: o que vem pela frente no Vale do Silício?
Acho que estamos num ponto de virada. Se você observar o que tem acontecido em Washington, com as pautas de regulamentação, sabe que algo vai mudar. Quebrar as Big Tech, como propõem alguns, acho que não. Mas as regulamentações estão ganhando força em diferentes setores da sociedade. A Califórnia mesmo tem discutido sua legislação e, dependendo do que aconteça nos próximos anos, o cenário vai mudar completamente.

Pode ser o fim do Vale do Silício?
A indústria tecnológica cria a próxima geração de sucesso, numa espécie de “autorregeneração”. Se as investigações e pautas antitruste surtirem algum resultado mais austero, seja limitando as companhias ou suas ações, pode ser que tudo mude. Estou acompanhando o desenrolar dessa história com grande interesse.

Acha que pode existir uma outra região no mundo com esse mesmo potencial? O que aconteceu para que o Vale do Silício se tornasse o que é hoje?
Investimento e decisões. Depois da Segunda Guerra Mundial e Guerra Fria, lá por meados dos anos 1950, os Estados Unidos passaram, pela primeira vez, a investir fortemente em em engenharia e áreas afins. As universidades passaram a ter fundos e a educação superior se transformou.

Foi uma decisão de priorizar a educação, então?
Não foi algo assim tão nobre, porque o pano de fundo desses investimentos eram militares. O cenário geopolítico da época colaborou para isso. O governo passou a comprar e investir em computadores e em tecnologia, mas por motivações bélicas.
“A gente sabe, hoje, que essa hiperconexão tem seu preço, mas o otimismo da troca está nas raízes do Vale do Silício”
E quando foi que isso mudou?
Em 1960, esses jovens escolarizados, passaram a questionar a posse da tecnologia por parte do governo. Todo acesso passava, de alguma maneira, pelo controle estatal. Ali começou a ideia do computador pessoal como uma forma de revolução social, para que as pessoas pudessem conversar umas com as outras sem interferência do Estado. A gente sabe, hoje, que essa hiperconexão tem seu preço, mas o otimismo da troca está nas raízes do Vale do Silício.

Mas o Vale do Silício não poderia ter surgido em outro lugar dos EUA, talvez um mais perto da capital?
Eu acredito que não, porque a Califórnia era o Estado que mais recebia dinheiro do fundo militar e soube investir bem em educação, construção e estrutura. Prédios, rodovias, cabeamento… tudo isso conta. Além disso, a Califórnia era o único Estado americano a permitir que um funcionário aceitasse imediatamente uma oferta na empresa concorrente sem que sua migração fosse passível de processo. Isso permitiu um fluxo de talentos inédito e, no final das contas, os profissionais são os maiores e mais caros recursos de uma companhia. Também é preciso destacar que o clima da Califórnia colaborou para o sucesso da região, bem como a universidade de Stanford, que sempre foi um hub para a indústria eletrônica.

Teve alguma descoberta que a surpreendeu ao longo da pesquisa para o livro?
Acho que muita gente pensa em concorrência, quando eu descobri mais cooperação. Quando falamos do Vale do Silício, podemos pensar que cidades como Boston e Seattle competiam pelo posto de pólo tecnológico, mas era uma relação simbiótica. Houve muita troca positiva entre esses centros, e eu falo aqui de networking, pesquisa, investimento e talentos.

Questões como o machismo, por exemplo, não causaram surpresa?
Engraçado, enquanto eu escrevia o livro começaram a falar pela primeira vez sobre o machismo no e do Vale do Silício. É fácil de entender e contextualizar a falta de diversidade, porque tudo ali acontecia na base da indicação e do contato. Venture capital é um negócio muito arriscado, e uma forma de minimizar os riscos é apostando em algo ou alguém conhecido e que seja fácil de prever. Então acabavam apostando sempre nos mesmos semelhantes. Via de regra, os engenheiros eram todos homens, brancos e héteros. Ao ganhar dinheiro, eles adquiriam o poder de tomar as decisões e, de novo, investiam em algo parecido. Os vencedores da geração passada escolhem os vencedores da próxima geração.
“Um dos problemas que o Vale enfrenta hoje é consequência, justamente, da falta de diversidade”
E isso não pode mudar?
Acho que está mudando, mas vagarosamente. Um dos problemas que o Vale enfrenta hoje é consequência, justamente, da falta de diversidade. Porque não há pluralidade na equipe, eles não sabem em quais produtos apostar, por exemplo. Além disso, outras pessoas, com outros perfis, começaram a ganhar dinheiro e apoiar classes historicamente excluídas do Vale. Está mudando, não na velocidade desejada.

Não existe meritocracia no Vale do Silício, portanto?
Acho que, no começo, era uma terra com oportunidade para homens brancos de origem humilde: se você trabalhasse duro, conseguiria ganhar algum dinheiro na região. Mas a grande verdade é que esse discurso de meritocracia é muito limitado. Dizem que se você for bom, terá uma chance por lá, e que a predominância masculina se dá porque “mulher não liga para tecnologia” – e isso não é verdade. Mulheres tiveram de lutar pelo direito de estudar e, certas áreas, como essa da tecnologia, foram mais resistentes. O contexto explica.

O empreendedorismo não poderia ter mudado esse cenário e trazido mais diversidade?
A cultura do empreendedorismo é, também, exclusiva. Quem pode se dar ao luxo de viver à base de macarrão instantâneo, trabalhando 18 horas por dia? E quem tem que mandar dinheiro para a família todo mês, ou quem tem filhos para criar, como fica? Não são todos que contam com a sorte do suporte familiar para garantir moradia e salário numa região cara como é a Califórnia. Empreendedorismo tem muito privilégio. Não por isso vemos que boa parte dos empreendedores de sucesso são garotos de 20 e poucos anos, que topam passar dias comendo mal, dormindo mal e sem tomar banho, sacrificando tudo pelo negócio. E é mentira achar que, quem não aceita esse esquema, não está interessado em empreender. Alguns não podem e outros simplesmente não querem essa rotina.

Como esse pensamento moldou a cultura americana?
Passamos a colocar toda a pressão no indivíduo: se você for inteligente e trabalhar pesado, você está feito. Isso ainda ecoa pelo país, mesmo não sendo verdade. Acho que deixamos de lado o pensamento do “vamos juntos”. Passamos a defender menos governo e mais iniciativa privada, mas não podemos ter um mundo de pessoas individualistas querendo “chegar lá” sozinhas – porque é preciso uma grande estrutura para atravessar a jornada.
“Apple e Microsoft, que já foram considerados os bad boys do setor, hoje parecem os adultos da sala, defendendo um diálogo mais saudável com Washington”
Por falar em governo, o Vale do Silício tem links direto com Washignton DC. Você comenta que o pólo tecnológico americano passou de republicano para democrata…
Os partidos mudaram muito ao longo dos anos também. No começo, o Vale era tomado por empresários que tinham o típico pensamento de “menos impostos” defendido pelos republicanos. Mas eles nunca foram conservadores nos costumes, tanto que não davam muita bola para Ronald Regan. Paralelo a isso, uma nova geração de democratas, com um novo discurso, passou a se aproximar do setor de tecnologia. Bill Clinton e Barack Obama, por exemplo, eram abertamente tech friendly e adotaram políticas importantes para o setor, como diminuição dos impostos e flexibilização das regras migratórias para a mão-de-obra especializada.

E essa aproximação do Vale e de Washington é boa?
Muita gente no Vale do Silício ainda quer distância da capital e da política, mas as coisas não se separam tanto. É preciso discutir as regras e o poder dessas empresas. O lobby das Big Tech, em DC, é enorme. Da mesma forma, muita gente que passou pela Casa Branca hoje trabalha no Vale. O que é curioso nisso tudo é que Apple e Microsoft, que já foram considerado os bad boys do setor, hoje parecem os adultos da sala, defendendo um diálogo mais saudável com Washington.
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Fonte:  https://neofeed.com.br/blog/home/nao-e-possivel-escapar-de-apple-microsoft-amazon-google-e-facebook/?fbclid=IwAR1pZetIFC4l1TAELPMsINtZczKYcTcEKiAiUBO6WhrupjjpNUpQ_F5SKlg - Acesso 04/12/2019