segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Luis Fernando Verissimo: O Analista de Bagé receberia Bolsonaro com um joelhaço, diz.

em pé, verissimo, com uma camiseta polo azul, se apoia no braço de uma cadeira de madeira

  Verissimo, para quem a volta a textos telegráficos e signos são desserviço à escrita tradicional - Ricardo Jaeger - 11.abr.2019/Agência O Globo

Escritor diz não entender 'como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda'

São Paulo 
 
A convite da Folha, Luis Fernando Verissimo imaginou como atuaria o Analista de Bagé diante de alguns temas contemporâneos.

Por exemplo: Jair Bolsonaro. O presidente seria recebido no consultório com uma das clássicas joelhadas de um dos mais famosos personagens criados pelo escritor gaúcho.

Lançado em 1981, o "Analista" foi um sucesso instantâneo. Psicanalista heterodoxo, de traços gaúchos marcantes, o personagem ganhou um monumento em Bagé. Além de uma do próprio Verissimo, há estátuas do Analista e de sua secretária, Lindaura, fundamental para ajudá-lo a resolver os casos mais complicados.

Aos 83 anos, Verissimo reclama dos males do corpo, mas não deveria ter nenhum motivo para se queixar da mente. Está intacto o pensamento aguçado e bem-humorado que fez dele um dos mais populares escritores brasileiros.

Sua fama o transformou numa vítima frequente de fake news nas redes sociais. "Já fui muito elogiado pelo que nunca escrevi", afirmou ele à Folha há dois anos.

Nesta conversa, Verissimo escreveu. Optou por fazer a entrevista por email, após um encontro em São Paulo –onde ele participaria de uma homenagem ao pai, o também escritor Erico Verissimo (1905-1975).

À saída, diante do elevador, o repórter disse à mulher de Verissimo, Lúcia Helena, e às filhas Mariana e Fernanda que compreendia a opção pelo formato da entrevista: "Se eu escrevesse como ele, também preferiria responder por escrito".

*

Como seria uma consulta de Jair Bolsonaro com o Analista de Bagé? O Analista receberia o Bolsonaro com um joelhaço, para inveja de muita gente.

E se Olavo de Carvalho estivesse na antessala com Lindaura, que indicação ela daria ao Analista? Ela avisaria: "esse veio pelo SUS, doutor, que no caso dele quer dizer Sou Uber Sim".

O Analista de Bagé teria um tratamento para os aspectos que o escritor Luis Fernando Verissimo critica no governo Bolsonaro? Teria, mas envolveria tratamento com águas, lobotomias e talvez uma nova eleição. Séria, desta vez.

Para encerrar essa jornada do Analista de Bagé: como o inventor do personagem narraria, em 2019, uma consulta de um transexual no consultório do Analista? O sr. se sente como o roteirista de 'De Volta para o Futuro' ao pensar nisso? O transexual procuraria o Analista por estar em revolta contra a sua porção mulher, o que poderia ser interpretado como homofobia.

Quando as fake news ganharam a visibilidade atual, imagino que o sr. tenha pensado algo como "bem-vindos ao meu mundo". As fake news chegaram a ser engraçadas para o sr.? Se sim, deixaram de sê-lo? Quando? Na medida em que são formas de ficção, as fake news requerem alta dose de criatividade para competir com as news de verdade, estas sim, frequentemente incríveis.

O Bolsonaro e alguns dos seus ministros são claramente figuras do realismo mágico, mas reais.
Luis Fernando Verissimo discursa durante a abertura oficial da Flip 2012 - Adriano Vizoni - 4.jul.2012/Folhapress
Uma hipótese: o sr. recebe muito mais comentários de leitores quando escreve sobre temas políticos do que sobre outro assunto. Se certa a hipótese, isso faz sentido? Por que tamanho fascínio das pessoas em discutir política? A eleição de um candidato improvável como o Bolsonaro energizou o meio político. Parafraseando o que disse aquele irmão Karamázov do Dostoiévski sobre a ausência de Deus, se um Bolsonaro chegou à Presidência do Brasil, tudo é permitido.

As pessoas mundo afora se cansaram de fazer política no sentido de ganhar corações e mentes? Eu acho que é o contrário, grupos que não sonhavam com o sucesso político, quase sempre de extrema direita, estão chegando ao poder pela via eleitoral em várias partes do mundo.

Quando o sr. navega em redes sociais, o que mais chama sua atenção? O ódio das pessoas. Prova do que eu sempre digo: o mundo não é mau, é só muito mal frequentado.

É cansativo ser de esquerda? Ou seria mais cansativo não ser de esquerda? Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência. Mas que às vezes desanima, desanima.

Como o sr. escolhe um tema para escrever uma coluna no jornal? A crônica, ou a coluna, nos permite variar de assuntos e chamar o que sair de crônica. Não nos obriga nem a ser coerentes na escolha do tom, do "approach" como dizem na Mooca, ou do estilo. Pelo menos eu não me sinto obrigado.

Como é ser convidado a opinar sobre tudo? O sr. se impõe limites? (Por favor, não os estabeleça nesta entrevista). É bom ter a liberdade de opinar sobre tudo, dentro dos limites da clareza e do bom senso que você mesmo se impõe. Eu comecei a ter um espaço assinado em jornal em 1969. Época do Médici, da censura à imprensa, dos assuntos proibidos. Sei bem como era.

É triste constatar que voltam a falar em controle da mídia e ameaçar com uma nova edição do AI-5. No Brasil a nostalgia é uma força politica ainda a ser estudada.

A possibilidade de o leitor reagir a qualquer mensagem hoje é muito maior. Em que medida isso altera a mensagem original? Quem escreve pode ficar com medo da polêmica? Ou, ao revés, escreve tão somente para procurá-la? Não se deve escrever com medo da reação e da polêmica, ou atrás da reação e da polêmica. Deve-se aproveitar a liberdade que existe hoje, com todas as restrições econômicas combinadas com a revolução tecnológica que afetam os jornais e os jornalistas, antes que os censores e os nostálgicos voltem.
O sr. lê as mensagens que recebe? Só os elogios.

O sr. gosta de lembrar que a medicina melhorou. E a literatura: melhorou? Não estou capacitado para responder. Leio sempre com prazer o Milton Hatoum e o Sérgio Rodrigues, estou lendo o último Le Carré e o último Chico Buarque está na fila, mas não sou mais o leitor voraz e omnívoro que fui um dia.

A despeito de ela ter ou não melhorado, os escritores, como conjunto, têm menos impacto na sociedade do que já tiveram antes. Isso é irreversível? Os escritores não têm mais o impacto que já tiveram na sociedade? Não sei. Talvez os atuais cronistas, como o time de humoristas da Folha, estejam recuperando o impacto que tiveram Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino e Antônio Maria, na época clássica da nossa crônica.

Voltando às fake news: elas são literatura? O que as aproxima ou as distancia disso? As fake news que funcionam como fatos falsos e mentiras convincentes obviamente fracassam como literatura.

O sr. costuma ouvir poesia em podcast? O que lhe parece? Ouço e leio pouca poesia. Culpa minha, não da poesia.

Quantos livros uma criança deveria ler? Quais? Que roteiro básico o sr. indicaria a um pai de uma criança de, digamos, dez anos, que lhe perguntasse isso de bate-pronto? Os livros infantis ficaram muito bonitos, acho que a função do pai ou do avô deve ser a de fornecer beleza, torná-la disponível e deixar o ato da descoberta para a criança.

O sr. acredita que os vídeos assumiram ou assumirão o lugar dos livros na transmissão do conhecimento? É a velha questão do veículo e do conteúdo, que existe desde os tabletes de barro da Mesopotâmia. O que é mais importante, veículo ou conteúdo?

Um texto numa tela de computador ou num vídeo ainda é um texto, no caso o conteúdo é que vale. Ou o texto em qualquer outro veículo que não seja papiro, papel ou Kindle é inadmissível? Se o livro como nós o conhecemos e amamos vai desaparecer é outra questão. Já anunciaram a morte do livro várias vezes, mas era sempre boato.

É possível manter a profundidade de um livro num vídeo? É. Depende do valor do conteúdo, não da natureza do veículo.

Como isso pode impactar a maneira como as pessoas raciocinam? Estão dizendo que num futuro próximo os robôs raciocinarão por nós, portanto essa questão estará resolvida.

Escrever no celular algo para publicação: não vou perguntar ao sr. se esse outro mundo é possível porque eu mesmo o faço. Mas pergunto o seguinte: que consequências isso tem no que escrevemos? O principal é não nos deixarmos intimidar pela técnica, esquecermos o veículo e nos concentrarmos no texto.

Como o sr. consome informação jornalística? Zero Hora, Estadão, Folha e Globo pela ordem de entrega em casa, The New York Times, The Guardian, a revista The New Yorker, TV.

E não jornalística: como o o sr. consome ficção? Em que plataformas? Confesso, envergonhado, que tenho lido pouca ficção, além da já citada. Plataforma zero.

A fotografia mais e mais trocou um papel de registro por um de comunicação –informar instantaneamente algo a outras pessoas. O texto sofreu transformação parecida? Ou, pelo contrário, as redes fizeram um desserviço à escrita? Na medida em que voltamos ao texto telegráfico e a signos em vez de palavras acho que houve, sim, um desserviço à escrita tradicional, que depende de tempo e espaço para se desenvolver e se explicar.

E os desenhos, como quadrinhos e charges? Eles terão espaço razoável no mundo digital? A charge é uma das tradições mais antigas e perenes do jornalismo internacional e continua forte na sua capacidade de resumir uma opinião ou um "insight" como faz desde o século 18.

O que será a tradução do papel das cartas nas artes em, digamos, 50 anos. A troca de tuítes? No que o ato de escrever uma carta é diferente disso? Os robôs saberão o que fazer.

O futebol brasileiro ainda existe? O futebol brasileiro hoje parece ser o Flamengo com um deserto em volta.

O que o sr. faz para tentar chegar bem até os cem anos? Vamos com calma. Quando chegar aos 99, eu revelo como foi.
-------
FONTE:  https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/01/o-analista-de-bage-receberia-bolsonaro-com-um-joelhaco-diz-luis-fernando-verissimo.shtml

domingo, 5 de janeiro de 2020

Karen Armstrong, ex-freira e teóloga, pondera sobre o fanatismo religioso

Um sacerdote ortodoxo grego lê as escrituras na Igreja da Natividade 
Foto: Natalie Behring-Chrisholm/Reuters

Para a escritora, a raiz do fanatismo é que as pessoas ou consideram a religião de modo exageradamente literal ou a negam completamente

  
04 de janeiro de 2020

Comumente pensamos na escritura com um texto escrito, parte de um cânone fechado, sacrossanto, como uma verdade literal. Mas para a autora Karen Armstrong, que aos 75 anos é embaixadora com a United Nations Alliance of Civilizations, esta concepção equivocada é a razão das “nossas atuais dificuldades no tocante à religião”. Ou seja, hoje as pessoas ou consideram a religião de modo exageradamente literal ou a negam completamente. 

Esperando corrigir esse equívoco, Karen Armstrong, em seu livro mais recente, faz um histórico de como as escrituras do mundo foram produzidas e desenvolvidas. Em vez de tentar fazer com que a escritura diga o que desejamos, usando-a para promover a divisão e a intolerância, ela acha que devemos ver a “ambiguidade das escrituras mais como a expressão da complexidade do dilema humano e compreendê-las como obras evoluídas de arte que viabilizam a transcendência e a transformação moral”. 

A introdução e conclusão de The Lost Art of Scripture (A Arte Perdida das Escrituras) têm um tom de manifesto, mas este trabalho robusto constitui, por outro lado, um tour panorâmico da história das religiões em que a autora não explora profundamente uma única escritura. Não se trata de uma exegese ou de ideias originais – ela é uma estudiosa, não acadêmica. E repetidamente se refere à escritura como uma forma de arte. Não obstante o título do livro, ela não explica satisfatoriamente porque a arte está “perdida” ou os textos sagrados necessitam ser “resgatados”. Mas Karen Armstrong é uma excepcional narradora e seu livro é fascinante. É um compêndio de filosofia religiosa. 

Ela começa reformulando material de livros anteriores, particularmente A History of God (Uma História de Deus) traçando o desenvolvimento da Bíblia Hebraica, desentranhando-a e esmiuçando como é seu estilo. De Israel ela salta para a Índia, traçando as origens dos Vedas, e depois para a China e as escrituras mais antigas, no sentido moderno de textos sagrados escritos: os oráculos chineses. Em meio a esta história itinerante, ela ocasionalmente sublinha que a escritura não tem por fim ser lida “com os olhos passando rapidamente por uma página escrita, mas “sua mensagem tem de ser digerida, inscrita no coração e na mente e fundida com as profundezas do ser”. Por meio de rituais que combinam música e movimentos corporais, a escritura permite que os participantes incorporem a tradição. Desta maneira a escritura resulta não só em transcendência, mas em transformação moral. 

Passando por Israel, Índia e China, Karen Armstrong traça as revoluções da escrita que refletiram “a maior transformação social, política e econômica” no século 6 a.C. Nesse momento havia Esdras, Confúcio e as Upanishads, Mêncio, Mahavira, Lao Zi e Buda – como foi retratado no Cânone Pali e nas sutras Mahayana, que podem ser as primeiras “fanfics” (contos escritos por pessoas inspiradas em outros autores). Mais ou menos no meio de seu livro, Armstrong se atém aos Gospels, que chama adequadamente de “midrash”, “um entrelaçamento de versos escritos para criar uma história que insere significado e esperança no presente confuso”.

Com seções meticulosas sobre os Talmudistas, neoconfucianos, os teólogos medievais e os cabalistas, Karen continua a história até o Grande Despertar, O hasidismo e a ascensão do fundamentalismo moderno – sem dúvida o mais equivocado desenvolvimento religioso do livro. 

Em várias seções ela contextualiza as tendências agressivas do islamismo, explicando que no Alcorão “a jihad está principalmente associada não à guerra, mas à resistência não violenta”, como “a luta” para a entrega espiritual. Cada sura violenta do Alcorão, ela afirma, foi escrita durante a luta dos muçulmanos pela sobrevivência e elas foram na maior parte ignoradas até a era moderna, quando o colonialismo provocou uma reação violenta que precisava de uma justificativa religiosa. O significativo é que Karen Armstrong não tem explicações tolerantes similares no caso de qualquer outra escritura. Mas ela, que foi uma freira católica, não poupa críticas ao protestantismo. Na sua visão, empreendemos o caminho errado na Reforma, com sua ênfase na palavra escrita divorciada do ritual – no literalismo às custas da metáfora. Armstrong condena a Reforma como “uma ressurgência do hemisfério esquerdo do cérebro” e se existe um único deslize no seu livro é a sua tentativa de examinar a história religiosa através de lentes neurobiológicas. 

“Os neurologistas descobriram que o hemisfério direito do cérebro é essencial para a criação de poesia, música, e religião”, ela escreve na introdução. Esta descoberta permite a ela escrever que “na Índia as pessoas recitam o mantra com o fim de lograr a transição do hemisfério esquerdo do cérebro, analítico e discursivo, para uma forma mais profunda e intuitiva de consciência”. A autora afirma ainda que o Deus da Bíblia não pode ser conhecido cognitivamente nos moldes do hemisfério esquerdo do cérebro: esta percepção exige a visão holística do direito em que o bem e o mal são fundidos de algum modo indescritível”. 

Mas este apelo à neurociência é um tanto simplista. Por um lado, a escritura tem a ver com a mente, não com o cérebro e a autora não faz menção à mente – talvez porque os neurocientistas sabem pouco sobre ela. E ainda, ao filtrar a compreensão escritural através do prisma cérebro esquerdo/cérebro direito, ela cai na mesma armadilha que condena: tentar compreender a religião racionalmente.
Talvez Karen Armstrong esteja tentando convencer os céticos, mas ela própria admite que este enfoque é errado. À medida que chega perto do fim do livro, ela diz que ciência e escritura “são bem diferentes e aplicar uma à outra leva a confusão”. 

A missão da autora de disseminar a compaixão por meio do entendimento é louvável. Mas apesar da extensa pesquisa e escrito com lucidez, os fins e os meios de The Lost Art of Scripture infelizmente são confusos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 
-----------------
*RANDY ROSENTHAL É MESTRE EM ESTUDOS TEOLÓGICOS PELA UNIVERSIDADE DE HARVARD, ONDE É PROFESSOR 
Fonte:  https://alias.estadao.com.br/noticias/geral,ex-freira-e-teologa-karen-armstrong-pondera-sobre-o-fanatismo-religioso,70003142148

O amanhã pode ser o instante seguinte

Ignácio de Loyola Brandão*
 Resultado de imagem para rua de sao paulo no feriado

No final de ano acaba sendo um grupo de umas 20 pessoas, há o cerimonial do café da manhã


Primeiros dia pós Natal e Ano Novo. Ruas vazias, silenciosas. O que é estranho nesta cidade.  

Após estranhos dias em que tudo o que se viu foi gente correndo para shoppings, mercados, armazéns, mercearias, fica um vácuo, um buraco no ozônio de nossos cérebros. Na infância, em manhãs como esta, eu garoto remediado corria pelas ruas de Araraquara, batendo nas portas e desejando Boas Festas. Ganhava nozes, figos secos, pedaços de bolo (nem se sabia o que era panetone), uma moeda ou uma raspança: “Ora essa, garoto sem vergonha, não venha nos acordar de manhã, suma daqui!”. 

Amanhã seguimos para o interior de Minas Gerais. Seis horas de carro e mal passamos de um estado para outro. Lugar isolado, difícil com o Wi-Fi, um temperamental. O que é maldição para muitos, ninguém se desconecta mais, ficam desesperados, ansioso, insones, querem saber o que acontece no mundo. E interessa? Por exemplo, só de saber o que acontece em Brasília é uma angústia, nos leva a ingerir litros de ansiolíticos.  fazenda Cangalha (geringonça que tropeiros colocavam no lombo dos animais para transportar mercadorias) é de um casal, Ivo e Sueli, amigos novos, de uns dez anos para cá, aos quais nos afeiçoamos. Nosso grupo ali terá gente de São Paulo e do interior de São Paulo e de Minas, paisagistas, arquitetos, professores, lavradores, músicos, escritores, agricultores, produtores de mel (é o Harvey, um americano que veio para cá, adorou, ficou) e especialistas em azeite de oliva.  

No final de ano acaba sendo um grupo de umas 20 pessoas, há o cerimonial do café da manhã, todos juntos, cerca de oito e meia ou nove. Há o almoço e tudo ali é local. O leite é das vacas, a manteiga é batida ali, os queijos a Renatinha faz, da ricota ao fresco, o leite vira também, doce, pudim, ambrosia, etc, os sucos vêm do pomar (frutas, amoras, ameixas, maçãs, laranjas, mexericas, tangerinas, goiabas, mamão, uvaias, sem tóxicos) ou da horta (couves e verduras, coisas da moda, dizem que ajudam a emagrecer). 

O café é passado no coador, como antigamente. Compra-se na cidadezinha vizinha, Aiuruoca, pequena, mas berço da Isis Valverde, estrela da Globo, uma sensação. O interior surpreende. Agora, nosso amigo Ivo tornou-se cidadão honorário da cidade, afinal foi dos primeiros produtores de azeite de oliva local. 

No final da tarde, toma-se gim tônica com zimbro, voltou à moda. Na minha juventude nos reuníamos no Bar do Pedro, no hotel Municipal em Araraquara tomando gim tônica. Uma vez, aos 20 anos, tomei um porre, quase entrei em coma alcoólico, uma barra, fiquei mal três dias, levei mais de 40 anos para voltar a tomar gim. Sem falar no castigo paterno.  

As comidas são diversas. Cada um leva alguma coisa pronta, carne, carneiro, salmão, peixe, vitela, massa, molhos (ou ali se fazem molhos), etc. Quem cozinha vai para a cozinha, exibe-se.  

Nada sei fazer, é um defeito grande. Passeamos, descansamos, lemos, ficamos na varanda, caminhamos (eu cada vez menos), tomamos sol.

O tempo escoa em outro ritmo. A paisagem é ensurdecedora de tanto silêncio. De tão linda, surpreendo-me levantando os olhos do livro e fico absorto, contemplando montanhas altíssimas, verdes, ou pedras gigantescas que nos fazem anões. 

Leio Pontos de Fuga, segundo volume da trilogia de Milton Hatoum, sempre impecável. E também o Pequeno Manual Antirracista, de Djamila Ribeiro. Deleito-me com A Elite na Cadeia, de Walter Nunes, que mostra o dia a dia dos corruptos na prisão de Curitiba. 

“Momentos. Na vida o que valem são os momentos”, dizia o falecido Giovanni Bruno, grande personagem entre os chefs de cozinha paulistanos. O amanhã existirá? Aqui em São Paulo todos se lembram do jovem de 18 anos que saiu da festa de um amigo na rua Bela Cintra e ao chegar ao térreo, a marquise do prédio desabou sobre sua cabeça, matando-o. Amanhã? O amanhã pode ser o minuto seguinte a este. Ou o instante.
---------------
* Contista, romancista, jornalista brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras. Possui uma uma vasta produção literária, tendo sido traduzido para diversas línguas. Recebeu, entre alguns prêmios, o Jabuti em 2008.
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,o-amanha-pode-ser-o-instante-seguinte,70003142113 
Imagem da Internet 

2020

Luis Fernando Verissimo*
 Resultado de imagem para 2020

E vamos nós para o ano vinte-vinte, na esperança de que a repetição dos números signifique alguma coisa

E vamos nós para o ano vinte-vinte, na esperança de que a repetição dos números signifique alguma coisa. Vivemos sempre com a expectativa que uma anomalia, qualquer anomalia, qualquer ruptura com o normal – como um ano com números reincidentes – seja um sinal. Estão querendo nos dizer alguma coisa. Quem, e o quê? Os avisos chegam de todos os lados, caberia a nós entendê-los. A Terra fala conosco por meio dos seus desastres naturais: terremotos e vulcões seriam recados a serem decifrados. A História fala conosco por meio dos seus intérpretes. E o Universo se dirige a nós pelos astros.

***

As pessoas procuram nos astros a evidência de que não estão sozinhas, que algo guia seu passos e orienta sua vida – de longe, bem longe. A persistente crença em astrologia, apesar da dificuldade em conciliar seus princípios e sua linguagem com o bom senso, não tem explicação – ou só se explica pela renuncia à racionalidade que também é uma forma de buscar uma direção na vida, venha ela de onde vier, das religiões ou de Júpiter. 

***

História pessoal, que já contei mais de uma vez: quando comecei a trabalhar na imprensa, há 200 anos, fazia de tudo na redação, depois de passar o dia no meu outro emprego de redator de publicidade. Um dia me pediram para fazer o horóscopo, já que o astrólogo profissional insistia em ganhar um aumento, uma reivindicação irrealista, dadas as condições do jornal. Como eu já fazia de tudo na redação, comecei a fazer o horóscopo também. Todos os dias inventava o destino das pessoas e distribuía as previsões e os conselhos pelos 12 signos do zodíaco.

***

O horóscopo era a última coisa que eu fazia no jornal antes de ir me encontrar com a Lucia e, se tivéssemos sorte, ir a um cinema, de modo que meu horóscopo era sempre feito às pressas, e com a escassa energia que sobrava depois de um dia fazendo de tudo, na agência de publicidade e na redação. E então bolei uma solução genial para liquidar o horóscopo em pouco tempo e ir embora. Como era óbvio que as pessoas só querem saber o texto do seu próprio signo e não o dos outros, comecei a fazer um rodízio: mudava os textos de signo e de lugar. O que um dia era o texto para libra no dia seguinte era para sagitário, etc. Ninguém iria notar a trapaça sideral, os deuses me perdoariam.

***

Não demorou para que o editor do jornal me chamasse. Tinha muita gente reclamando do horóscopo. O que eu pensava que era óbvio não era. Minha pseudoesperteza tinha sido descoberta, aparentemente todo o mundo lê todo o horóscopo todos os dias. Minha breve carreira de astrólogo terminou ali. Mas eu só queria dizer que, mesmo quando era eu que escrevia os textos, nunca deixava de olhar para ver o que libra reservava para meu futuro. Fazer o quê? Precisamos de uma direção na vida, venha ela de onde vier. 
----------
* Jornalista. Cronista. Escitor
Fonte: https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,2020,70003144015 
Imagem da Internet

Isabel Allende: ‘A humanidade vive uma transição sem precedentes’

Lori Barra/Divulgação

A escritora de língua espanhola mais vendida da atualidade diz que convulsões como as que tomaram o Chile são uma passagem para uma civilização melhor

Sobrinha do ex-presidente Salvador Allende e testemunha do capítulo mais sombrio da história do Chile, a jornalista e escritora Isabel Allende, 77 anos, tem a América Latina como cenário, se não como protagonista, de sua vasta obra literária. Ela saiu do país em 1975, depois de o tio, apunhalado pelo golpe militar de Pinochet, em 1973, ter tirado a própria vida, encurralado no Palácio de La Moneda, e foi morar na Venezuela. As últimas três décadas passou na Califórnia, nos EUA, onde se casou com um americano, sem nunca ter deixado de visitar e obser­var o Chile e vizinhos, como o Brasil. Ela vem acompanhando “minuto a minuto” a temperatura em Santiago, tomada por manifestações de rua desde outubro de 2019. Autora de língua espanhola mais vendida no mundo, Isabel, que acaba de lançar seu 23º romance, Longa Pétala de Mar (Bertrand Brasil), falou a VEJA por telefone.

Como a senhora avalia a onda de manifestações no Chile? Ninguém poderia prever aquilo. O Chile sempre foi considerado uma ilha de prosperidade na América Latina por seu desenvolvimento econômico e social e suas instituições sólidas. Aí, de repente, a multidão foi para as ruas, em um movimento sem liderança nem organização, como tem ocorrido em vários cantos do mundo. Foram necessárias apenas umas poucas horas para juntar mais de 1 milhão de pessoas. A amplitude da revolta causou enorme surpresa, sobretudo a governantes. É um sinal claro de que algo não vai bem.

O que exatamente não vai bem? O Chile está em situação melhor que a da média dos países da América Latina, e é preciso reconhecer que o período democrático trouxe ajustes importantes ao modelo implantado pela ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990). Mas isso coexiste com uma pobreza diluída nas estatísticas e uma alta desigualdade: enquanto 1% dos mais ricos detém 25% da renda nacional, 40% vivem esfolados por dívidas com saúde, educação e moradia.

Houve uma recente consulta popular sobre a elaboração de uma nova Constituição no Chile. Acha que uma revisão da Carta resolve? Isso tem de ser feito mesmo, uma vez que o texto atual é dos tempos da ditadura, mas definitivamente não dá para esperar todo o demorado processo envolvido na feitura de uma nova Constituição para agir. O governo deve começar a se mexer já, tomando medidas que acalmem os ânimos, aplaquem a crise e aliviem o custo de vida elevado.
Publicidade
 
O presidente Sebastián Piñera entregou bons resultados na economia. Qual foi, afinal, seu pecado? Ele não soube lidar com a tensão que se acumulava na sociedade desde o princípio da redemocratização. E essa falta de visão, tão comum na classe política, está cobrando seu preço de forma radical. Quando a situação explodiu incendiando as ruas, Piñera pôs a culpa nos manifestantes. Sim, houve excessos por parte de quem saiu para protestar, mas o governo, por sua vez, atuou de forma autoritária, respondendo com violência policial. Resultado: a popularidade do presidente despencou para 10%. Agora, cabe ressaltar que a rejeição a Piñera não se explica apenas por questões chilenas. Ela se insere em um fenômeno maior, que se evidencia em outras manifestações vistas em países bastante distintos.

Não é uma simplificação colocar no mesmo balaio realidades tão diferentes quanto as de Chile, Hong Kong e Irã, só para citar alguns exemplos? Pesadas as diferenças, e elas são muitas, na base dos protestos nesses países reside um mesmo abismo entre os anseios de uma geração mais jovem e o olhar de governantes ainda distantes dos grandes desafios do século XXI. Creio que a humanidade vive uma transição sem precedentes. Mas é como um parto doloroso, que, acredito, vai nos levar a um estágio de civilização mais elevado.
“Entrevistei o Neruda em idade já avançada, e ele disse que eu era uma repórter ruim. Sugeriu que trocasse de ofício e virasse escritora, para poder contar as minhas mentiras. Foi uma ótima dica”
O que os governantes estão deixando de enxergar? Percebo em boa parte deles uma ignorância em relação aos usos modernos da tecnologia, que deveria ajudar a conferir transparência à gestão, e à questão do clima, tão cara às novas gerações. Elas entenderam que vão pagar a conta dessa catástrofe que é o aquecimento global, o que vem criando um embate permanente com a política tradicional. Os jovens estão furiosos com seus representantes, a quem culpam também pela falta de habilidade no enfrentamento com as desigualdades e as mazelas sociais. É esse caldeirão de insatisfações que abre espaço para vertentes perigosas, como o populismo. Espero que expoentes talentosos da atual juventude cheguem logo ao poder, aposentando líderes que já deram inúmeras provas de estar ultrapassados.

Após as manifestações no Chile, um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o deputado Eduardo Bolsonaro, mencionou uma reedição do AI-5, ato que caçou as liberdades individuais no Brasil. O próprio presidente já teceu elogios a Pinochet. Há clima para a volta de ditaduras na América Latina? Sobre Bolsonaro, sei pouco, então prefiro não opinar. Quanto ao retorno aos regimes autoritários, não acredito que aquele período de trevas vá se repetir. Ainda que haja altas doses de violência, desigualdade e corrupção na América Latina, ingredientes notoriamente desfavoráveis à estabilidade, o período dos golpes reuniu condições que não existem mais, como a tensa geopolítica da Guerra Fria. Não creio que um novo impulso autoritário possa prosperar nas democracias da América Latina.

O que sustenta sua convicção? O povo e a própria comunidade internacional estão prontos para rechaçar o surgimento de ditaduras. Um bom antídoto é o engajamento dos jovens, como fazia décadas que não se via. Apesar dos muitos sacolejos, a América Latina claramente passa por uma transformação rumo a dias melhores.

E o que dizer da atual ditadura da Venezuela, que vive seus piores dias? Não há dúvidas de que Hugo Chávez e Nicolás Maduro traíram a democracia, virando as costas para a população em nome de um regime ditatorial. Ainda assim, rejeito a ideia de uma intervenção externa. Os Estados Unidos já fizeram isso, até no Chile, e o resultado foi desastroso. Minha observação de décadas de América Latina me permite dizer que a melhor forma de reconstruir uma nação é a partir de uma transição negociada. Um ditador como Maduro não vai abrir mão do poder facilmente.

Durante a ditadura de Pinochet, a senhora exilou-se por mais de dez anos justamente em Caracas. Como compara a Venezuela de hoje àquela em que viveu? Eu era uma refugiada privilegiada. Deixei um Chile aterrorizado, com a sombra de Pinochet por todos os cantos, e desembarquei em uma Venezuela no extremo oposto: uma ilha de democracia em um continente assolado por ditaduras. Caracas era limpa, segura e cosmopolita. Criei meus filhos com ótima qualidade de vida por lá. Foi um país fundamental para minha formação de escritora. Não poderia ter seguido com o ofício no Chile.
“Chávez e Maduro traíram a democracia, virando as costas para a população em nome de um regime ditatorial. Quando me exilei ali, em 1975, a Venezuela era uma ilha de democracia no continente”
Como era a relação com seu tio, o ex-presidente Salvador Allende, deposto em 1973 pelo golpe de Pinochet? Allende foi a única pessoa do lado paterno da família que ficou perto da minha mãe quando meu pai a abandonou. Eu era muito nova. Tinha um enorme carinho por Allende, que ocupou esse vazio. Adorava contar piadas, era irônico e conseguia rir de si mesmo. Assim o guardei na memória. Lembro-me da última vez que o vi, em um almoço meses antes do golpe militar. Ele dizia que o povo chileno o havia escolhido, que não ia ceder. Sua morte mudou minha vida. Só quando me exilei na Venezuela, dois anos depois, tive a dimensão do que seu desaparecimento representou para o Chile.

Por que nunca mais voltou a viver em seu país? Durante a era Pinochet, se eu ficasse no Chile correria alto risco, algo que demorei uns dois anos para entender. Aí fiquei esperando o fim da ditadura em Caracas. Quando ela finalmente terminou, minha vida já tinha mudado de rumo. Conheci um americano com quem me casei e acabei me enraizando na Califórnia. Mas jamais me desliguei do Chile, que visito e acompanho minuto a minuto.

Que tal a vida nos Estados Unidos? Honestamente, adoro. Admiro a consciência. o otimismo e o engajamento dos jovens daqui. A Constituição americana é uma obra primorosa, que garante o direito de todos à busca pelo objetivo maior, a felicidade. Confesso, porém, que mesmo depois de todo esse tempo nunca deixei de me sentir uma imigrante latina. A começar pelo meu inglês, que é diferente.

O governo de Donald Trump vem fechando o cerco aos imigrantes. Isso a atinge em algum grau? Não diretamente, mas, por meio da fundação de ajuda a mulheres imigrantes que mantenho, escuto histórias horripilantes de gente que tenta cruzar a fronteira com o México. Assusta-me as vias do populismo e das medidas espetaculares nas quais tantos governantes apostam para equacionar o problema da imigração, como faz Trump ao achar que um muro resolverá um nó tão difícil de desatar. O drama dos refugiados é, a meu ver, o tema mais urgente do século XXI, e vai se agravar.

Em seu novo livro, a senhora presta homenagem ao poeta Pablo Neruda (1904-1973). Chegou a conhecê-lo pessoalmente? Conheci. Como jornalista, fui entrevistá-lo quando ele já tinha idade avançada. Neruda disse que eu era uma repórter ruim. Sugeriu que eu mudasse de ofício e virasse escritora para poder contar minhas mentiras. Foi uma ótima dica.
 
Em 2018, o movimento feminista criticou a ideia de batizar um aeroporto com o nome de Neruda, a quem acusavam de estupro e de ter abandonado a própria filha. A senhora endossa o coro? Penso que os erros de Neruda podem e devem ser condenados. Mas não nos cabe apagar seu legado. E isso não se aplica só a ele. Cientistas, políticos e historiadores cometem erros na vida privada. Se você for rejeitar por completo a obra dessas pessoas, o que sobra? Afinal, quem teve uma vida perfeita?
Publicado em VEJA de 8 de janeiro de 2020, edição nº 2668
---------------
Reportagem  Por Ernesto Neves - Atualizado em 3 jan 2020
Fonte:  https://veja.abril.com.br/mundo/a-humanidade-vive-uma-transicao-sem-precedentes-diz-isabel-allende/

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Reduzir o homem a pó

O escritor italiano Primo Levi Gianni Giansanti/Getty Images
Coletânea de poemas mostra que Primo Levi, além de autor de um dos maiores testemunhos sobre o Holocausto, era também grande poeta

Willian Vieira 01dez2019 02h00
Levi, Primo 
Mil sóis: poemas escolhidos 
TRAD. e APRES. Maurício Santana Dias 
Todavia • 160 pp • R$ 54,90 / R$ 29,90
Primo Levi é o corvo que rasga o céu da noite mais escura da civilização europeia com um canto incômodo, certeiro e cristalino. Diante do ocaso supremo, quando o mundo testemunha, envergonhado, os destroços do maior perigo possível à humanidade — deixar de reconhecer no outro o que é, no limite, humano —, seu estertor reverbera a inadiável verdade de forma paradoxalmente serena. Mesmo na narrativa implacável sobre o horror da máquina nazista de aniquilar o sujeito, o poeta traz a possibilidade de “mil sóis”. Cada vez que se concede a outro homem o direito à existência, surge, enfim, uma pequena aurora — e ele viu mostras de empatia até em quem já não cabia na definição de homem.

Ao fim de É isto um homem?, célebre relato sobre a experiência concentracionária, Levi narra uma cena de extrema bondade. Na iminência da libertação, quando Auschwitz está já sem soldados, e seus presos, após meses ou anos no campo, descobrem a ansiada comida escondida, eles lhe oferecem uma ração extra de pão — afinal, ele havia instalado uma estufa que evitara que morressem de frio. “Foi o primeiro gesto humano entre nós”, afirma. “Acho que poderíamos marcar naquele instante”, diz, “o começo do processo pelo qual nós, que não morremos, de Haftlinge [prisioneiros] voltamos lentamente a ser homens.”

Seus relatos são dotados de uma economia da palavra que só quem conjuga imanência e transcendência sem julgamentos e esteticismos alcança. Sua fala sobre o bem é tão ou mais pungente que os relatos sobre o mal. Há mais do que morte, assim, na escrita calculada de Primo Levi. Há também vida — e em versos: foi na linguagem poética, inclusive, que o italiano rascunhou os primeiros esboços da monumental tarefa de descrever o Holocausto.

“Buna Lager” apareceu em 1946 no semanário comunista L’ Amico del Popolo, que mais tarde abrigaria os capítulos de É isto um homem?. “Buna” é a goma que a fábrica que escravizou judeus como ele em Auschwitz deveria produzir, mas nunca o fez — os alemães perderam a guerra pouco antes, o que permitiu aos que sobreviveram a chance de contar o que viveram. Levi narrou seu primeiro quinhão meses depois de voltar para casa — não em prosa, mas em versos. O poema, curiosamente, não faz parte da coletânea Mil sóis, que a Todavia lança no Brasil. Mas existe muito do Lager, do campo de aprisionamento, nos versos escolhidos de Levi.

A banalidade do mal
Vide os dois “cantos do corvo” que emergem, dilacerantes, na coleção. No primeiro, de janeiro de 1946, um ano após ser libertado, ele escreve: “Eu cheguei de muito longe/ Para trazer a má notícia./ Passei por cima da montanha,/ Atravessei a nuvem baixa,/ Espelhei no pântano meu ventre./ Voei sem descanso,/ Para encontrar sua janela,/ Para encontrar seu ouvido,/ Para trazer-lhe a terrível nova/ Que lhe tire a alegria do sono,/ Que lhe corrompa o pão e o vinho,/ Que se assente à noite em seu coração”.

Quem leu a prosa que até hoje convida o leitor a um mergulho nas profundezas da banalidade do mal não deixará de procurar, com lupa, os reflexos da experiência do campo em cada poema. “A má notícia” que o corvo vem dar, assim, parece versar sobre a crueza da verdade obscena do nazismo — até hoje negada por muitos em sua dimensão de catástrofe. Sim, o homem é capaz do mal absoluto. E é isso que ele vai gritar na sua janela, leitor — essa verdade impreterível, urgente, sem data, mesmo que atrapalhe seu sono burguês, o sabor da comida farta que quem o lê tem à mesa sem perceber o valor.

Levi levou quase três anos entre sua libertação de Auschwitz, em janeiro de 1945, e a publicação de É isto um homem?, em 1947. Mas já no fim de 1945 começou a escrever poemas, que classificou como “precisos e sangrentos”. Era ainda uma produção “errática e sem método”, explica Maurício Santana Dias, crítico literário, professor da Universidade de São Paulo (usp) e responsável por traduzir Mil sóis. Mas já detinha uma força ímpar, cuja “voz lírica oscila entre o desespero, a notação da realidade dura e algumas tentativas, ainda bastante incipientes, de buscar uma luz em meio às trevas”.

O autor seguiu escrevendo poemas, cerca de um por ano, nos anos 1960 e 1970. Alguns foram publicados em revistas literárias e, mais tarde, num volume apócrifo. Em 1975, uma coletânea devidamente assinada viu a luz do dia — Em hora incerta, primeiro compêndio editado como um corpus lírico, detinha 63 poemas. Parte deles está em Mil sóis, em italiano e em português, na ordem cronológica e diarística original, o que ajuda o leitor nessa trajetória que conjuga memória e abertura poética. Um trunfo a quem deseja encontrar a sonoridade original e a genética temporal da poesia de Levi.

A esmagadora maioria do público conhece Levi por seu relato sobre os onze meses passados no horror cotidiano de Auschwitz. Ler Mil sóis sem ter lido É isto um homem? seria um exercício curioso. Afinal, tudo o que Levi narra em detalhes com crueza quase obscena em sua prosa, na poesia ganha a força do lirismo (quiçá) inerente ao gênero. Uma exegese mais profunda dos versos passa, assim, pela comparação dos gêneros.

 O que é, afinal, um homem?
“A capacidade humana de cavar-se uma toca, de criar uma casca, de erguer ao redor de si uma tênue barreira defensiva, ainda que em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e merecia um estudo profundo”, escreveu Levi. É isto um homem? é esse estudo — retrato do embate em torno da humanidade e dos paroxismos do homem. De um lado, mostra o esforço, que o projeto nazista previu nos mínimos detalhes por meio do maquinário perverso do campo, para exterminar a humanidade do povo judeu — violência que ultrapassa o assassinato em massa visando à aniquilação completa do sujeito. De outro, mostra como o homem se aferra a qualquer resquício de subjetividade que lhe permita resistir ao açoite do absurdo e sobreviver, um dia, só mais um.

É isto um homem? é um documento sobre a experiência do horror a ser guardado como material indelével de uma experiência que jamais deve ser esquecida. É também o bastião do que se convencionou chamar de “literatura do testemunho”, marco do reconhecimento da experiência narrada como objeto de valor nas ciências humanas e na literatura. Mas mesmo esse livro é aberto por um poema. “Shemà”, presente também em Mil sóis, volta-se ao leitor que não viveu o horror e nunca conseguirá imaginá-lo sem sua ajuda.

“Vós que viveis seguros/ Em vossas casas aquecidas/ Vós que achais voltando à noite/ Comida quente e rostos amigos:// Considerais se isto é um homem,/ Que trabalha na lama/ Que não conhece paz/ Que luta por um naco de pão/ Que morre por um sim ou por um não.”

Pois “a convicção de que a vida tem um objetivo está enraizada em cada fibra do homem”, escreve Levi. Para o homem do Lager, onde o sono suplanta a fome e esta espanta a dor, onde as noções de “certo” e “errado” se moldam ao sabor da luta por sobreviver mais um dia, onde “não há nada vivo, a não ser as máquinas e os escravos; mais vivas aquelas do que estes”, é preciso ter um horizonte além da cerca eletrificada. O dele era contar o que viu.

Levi descreve a luta diuturna por manter um fiapo de humanidade ao qual se apegar, aquele símbolo que permite que o homem se reconheça como humano no limite — além do qual está o muçulmano, figura esta que desistiu de resistir, que já não luta pela vida, que apenas segue à espera da morte, sendo este o sucesso da empreitada nazista de reduzir o homem a um animal sem alma.

Além do trabalho forçado e do frio, da “fome crônica”, das doenças e castigos sem aviso ou razão, a maior luta no campo era para seguir humano. Por isso ele se banhava, engraxava os sapatos, caminhava ereto — tudo era “essencial à dignidade moral” sem a qual viraria alguém “interiormente oco, nada mais que um invólucro, como certos despojos de insetos que encontramos na beira dos pântanos, ligados por um fio às pedras e balançados pelo vento”. Esse fio era o desejo inadiável de narrar sua experiência.

Ao se ver em meio a milhares de homens nus, sem sapato, cabelo ou nome, Levi percebeu que “nossa língua não tem palavras para expressar essa ofensa, a aniquilação de um homem”. O que reverbera uma crítica comum na academia a respeito do “indizível” — para alguns, narrar a experiência do Holocausto é empreitada vã: um horror tamanho, que inexiste fora da experiência subjetiva do aniquilamento, jamais encontraria palavras. Mas, como pontuou Giorgio Agambem, dizer que Auschwitz é “indizível” equivale a adorá-lo em silêncio. Melhor “manter fixo o olhar no inenarrável”.

É o que faz Levi quando conta o sonho recorrente em que se via no calor do lar, saciado e confortável, narrando sua história. De repente, porém, percebe que ninguém o ouve. “Por que o sofrimento de cada dia se traduz, constantemente, em nossos sonhos, na cena sempre repetida da narração que os outros não escutam?” Porque o desejo supremo do homem é ser escutado. Por isso, nos poemas de Mil sóis, o corvo canta seu canto lúgubre a destroçar a paz de quem vive a anos-luz da “zona cinzenta”. E por isso os poemas dão a quem leu seu relato em prosa um bilhete de retorno ao mundo às avessas de Auschwitz.

A beleza da repetição
Levi é poeta da repetição. Sua escrita revolve os mesmos temas ao extremo, extraindo sempre uma nova verdade. Como escreve o ensaísta Ernesto Ferrero: “Não só ele não esquece, mas quer que o leitor realize com ele reiteradamente o mesmo trajeto, as operações de uma mesma verificação”. Sua lírica, escreve Dias, é modular, formada de temas que vão e voltam ao longo da vida e da escrita. Os poemas dos anos 1940, por exemplo, versam sobre o horror da deportação e o esforço de restauração da humanidade quase perdida no lager. Mas “O sobrevivente”, de 1984, escrito quase quatro décadas depois, traz a “mesma energia ambivalente entre destruição e restauração”.

Mas ele sabe que sua vida não é culpa de um erro seu. “Ninguém morreu em meu lugar/ Ninguém./ Retornem ao seu nevoeiro./ Não tenho culpa se vivo e respiro/ E como e bebo e durmo e visto roupas.” Há aqui, como lá, a mesma “busca da claridade, um trabalho contínuo contra as sombras”.

O efeito da repetição sobre a compreensão do indizível que ele consegue dizer é fundamental para ler Levi. Em “Levantar”, de 11 de janeiro de 1946, por exemplo, o autor desenha uma síntese da vida no campo: “Sonhávamos nas noites ferozes/ Sonhos densos e violentos/ Sonhados com corpo e alma: Voltar; comer; contar/ Até que soava breve e abafado/ O comando da autora ‘Wstawac’;/ E no peito o coração partia.// Agora reencontramos a casa,/ Nosso ventre está saciado,/ Terminamos de contar./ É o tempo. Logo ouviremos de novo/ O comando estrangeiro: ‘Wstawac’.”

Em 22 de agosto de 1953, mais de sete anos depois, “O canto do corvo (2)” traz o mesmo canto, a mesma “mensagem”, a mesma “nova” que precisa ser ouvida.

“Quantos são os seus dias? Eu os contei:/ Poucos e breves, todos de tormentos;/ Dessa angústia da noite inevitável,/ Quando a sós nada serve de anteparo;/ Do temor da alvorada seguinte,/ Da espera por mim, que o aguardo,/ De mim, que (inútil, inútil fugir!) [...]// Até que se cumpra o que foi dito/ Até que sua força se desfaça,/ Até que você mesmo se acabe / Não com um baque, mas com um silêncio,/ Como em novembro as árvores se despem,/ Como se encontra parado um relógio.”

A fome, o cansaço, o sono e a ânsia de liberdade se sucedem, como versos que “zumbem ao redor como falenas bêbadas”, que “você só tem que esperar, com a caneta pronta” para agarrá-las e verter em escrita — é o que escreve em “Um ofício”, de 1984. Afinal, como diz em “Autobiografia”, de 1980, seu “velho corpo está marcado por estranhos sinais”. E eles o assombram, fantasmas que só a escrita pode tentar (em vão) extirpar.

Daí outro tema recorrente em sua tabela periódica de vocábulos ser a escrita inacabada ou inalcançável. Em “No princípio”, ele insta os “irmãos humanos” a pensar nos “milhares e milhares de sóis,/ e esta mão que escreve”. Em “Medidas não despachadas”, de 1981, confessa que deixa “muito trabalho incompleto”; quem tiver a força de procurar, porém, “encontrará restos dele em minha gaveta”. Ele não teve “tempo de desenvolvê-lo./ Uma pena,/ Teria sido uma obra fundamental”.

Em “Encargos pendentes”, de 1984, Levi diz que “gostaria, se possível,/ De me afastar em silêncio” — por meio da “obra ainda inacabada”: afinal, “(Toda vida é inacabada)”. Por fim, em “A obra”, de 1983, escreve:
“Pronto, agora acabou: nem mais um toque./ Como me pesa a caneta na mão!/ Era tão leve pouco tempo atrás,/ Viva como a prata viva:/ Eu só precisava segui-la,/ Ela me guiava a mão/ O que fazer agora? Como separar-se dela?/ A cada obra que nasce você morre um pouco.”

Afinal, “tornar-se normal novamente — depois do mundo às avessas de Auschwitz — significava escrever sobre as preocupações centrais aos poetas de qualquer época”, escreve a professora de inglês da Stonehill College e especialista na poesia de Levi, Barbara Estrin.  Levi teceu poemas sobre animais, reais e mitológicos; sobre a inspiração de homens de ciência como Galileu Galilei; fala de Plínio, de Catulo, poetas latinos que ama; e escreve sobre a guerra, como em “Canto dos mortos em vão”. É o horror que reduz o homem a pó, sobretudo, seu Leitmotif fundamental.

Em busca do silêncio perdido
Levi deixou Auschwitz para mergulhar numa vida absurdamente comum. Por trinta anos trabalhou como químico numa fábrica de tintas, enquanto escrevia poemas, contos e ensaios no tempo livre. Não ficou famoso até décadas depois de publicar É isto um homem?. Mesmo assim, em cada entrevista, dizia-se não poeta, não escritor, mas químico. É o que afirmava em sua autobiografia de 1975, A tabela periódica, na qual cada capítulo de sua vida tinha como título um elemento químico.
Seu objetivo maior talvez fosse narrar tantas vezes o horror da espera da aurora de mais um dia de tormentos sem fim até que nele finalmente se fizesse o silêncio. Em “Um vale”, de 1984, ele escreve sobre essa árvore vigorosa encontrada num vale aonde chegou sozinho e a que não se deu nome. “Não tem iguais: fecunda a si mesma./ Seu tronco carrega velhas feridas/ Das quais destila uma resina/ Amarga e doce, fonte de esquecimento.”

Interpretar a poesia é reduzir uma arte novamente à palavra. Mas como não ver na resina amarga o relato poético do horror nazista? Primo Levi a trabalhou, como um químico insistindo num experimento infundado, até os últimos dias. Ou até que o abraçasse o descanso da morte. Levi morreu após cair de uma escada em 1987 — para a polícia e os biógrafos, ele se suicidou, vítima de uma depressão sem fim. Enfim o corvo se calou, enfim o silêncio.
----------
Fonte:  https://www.quatrocincoum.com.br/br/resenhas/p/reduzir-o-homem-a-po  
Revista dos livros: QUATRO CINCO UM, nº 29 - dez/19 - janeiro/20- pg. 60/61.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Do bar ao cemitério

Roberto DaMatta*
 Resultado de imagem para Bar
 
Sabia da morte e a conhecia, mas fiquei surpreso com sua impositiva realidade 


Eu a vi com o rosto de mármore, e os olhos para sempre fechados. Peguei no seu braço: estava como um pedaço de gelo. Sabia da morte e a conhecia, mas como ocorre na vida e no amor, fiquei surpreso com sua impositiva realidade. 

Mario Batlha, meu querido amigo me pronunciou essas palavras neste Natal, no bar do Soares aqui em Niterói, no nosso encontro anual de velhos amigos – velhos pois todos temos mais de 89 anos. 

Quando entramos no bar, os jovens atendentes sorriem, pois todo jovem gosta de ouvir histórias contadas por velhos. Elas revelam como somos tolos e antigos. E é preciso sentir-se esperto e moderno neste Brasil onde o sujeito que chama o outro de tosco não sabe o quão tosco ele é. 

Vamos ao bar em busca da juventude que a amizade e o álcool – o espírito – fornecem. Bar tem a ver com alegria, piada, aventura e bebidas. É um espaço aberto e ambíguo, pois abriga e revela, permite sair e entrar sem pedir licença. É público no ambiente, mas suas mesas são como casas oferecendo a seus ocupantes uma certa privacidade. 

Foi ali que meu querido amigo Mario Batalha me olhou com olhos marejados de lágrimas e eu o olhei de volta com meus olhos molhados e turvos de velho. 

Perdi a esposa que o Dr. Alzheimer roubou de mim faz uma década, complementou ele numa explicação patética como ocorre em todo sofrimento.  

Fomos ao enterro de Sueli, a infortunada esposa de Mario. Lé estava ele com suas roupas antigas, magro como um tuberculoso, triste como um profeta. Olhava para todos com a surpresa dos que descobrem que o mundo é feito de sofrimento e, naquele momento, ele o vivia integralmente. No centro daquele triste mundo, jazia sua mulher cercada de flores numa imobilidade de estátua. Era a presença da morte na antessala do cemitério, pois a casa dos mortos é um dormitório do qual os religiosos dizem que se desperta para o outro mundo. 

Pessoas chegavam e saíam, repetia Mario com um sorriso sem graça no rosto. Eram amigos queridos e alguns parentes. Todos estavam tocados pela magia da morta, minha mulher que foi generosa e tranquila. Todos diziam que tivesse “força”, a palavra de conforto da época de Star Wars quando, de fato, ali nada tinha de naves espaciais. Muito pelo contrário, continuou Mario Batalha tragando seu uísque, ali ia-se para o fundo de uma cova, para dentro da terra de onde um o primeiro homem saiu. Um barro fosco e malcheiroso do qual nasceu Deus sabe como, um espírito voltado para cima. Um olhar para as estrelas e, eventualmente, para o sol que cega. 

Calma Mario, disse com compaixão e afaguei suas mãos magras de velho. Tudo passa... 

Todos os outros amigos e até o Boca Mole e seu marido concordaram. Estavam de bom humor e faziam intrigas alegres e bem-humoradas em honra ao amargor de Mario. Fulano dissse X de sicrano que, por sua vez, comentou Y de beltrano... 

A conversa ia do bar ao cemitério. De um lado o álcool, que é um espírito que despertava; do outro, o espírito liberto da carne pronta a apodrecer e fazia chorar em impulsos sofridos, como um orgasmo maldito. 

Eu olhava tudo como de fora, mas os laços de amizade me envolviam. Eu amo meu amigo Mario Batalha, um cara zangado, mas que jamais foi capaz de dizer um não. Um sujeito cuja generosidade é maior do que o Pão de Açúcar visto de Icaraí, e por isso sofria. 

Dez anos de doença. Dez anos de sentimentos de culpa. Dez anos de lágrimas represadas. Subitamente, Mario Batalha tirou seu revólver 38 da cinta de oficial de infantaria da reserva devidamente aposentado e começou a atirar para cima, calmo, no Bar do Soares causando pânico, dando-lhe um ar jovem e ativo de puteiro animado. Fregueses ocasionais corriam, mas nós ficamos e bebemos ao surto do Mario. Era uma legítima manifestação de sua dor. Coisa singular e espalhafatosa, sem dúvida, mas não feriu ninguém, exceto algumas lâmpadas e garrafas que se quebram ou mudaram de prateleira. Tal como a esposa que fora linda e jazia inerme no seu caixão, prestes a ser enterrada no que me pareceu um enorme buraco.
------------------- 
*Antropólogo, conferencista, consultor, colunista de jornal e produtor brasileiro de TV.
Imagem da Internet 

Entre remorso e ansiedade

Leandro Karnal*

Resultado de imagem para imagem ano novo 2020

Remorso pelo que houve e ansiedade pelo que pode vir são uma dupla irracional

Chegamos a 2020. Quando eu era adolescente, fazíamos o cálculo de quantos anos teríamos no ano 2000. Eis que já se passaram duas décadas daquele horizonte de futuro. O tema não é ideal para sentimentos de ano novo, mas nos próximos 30 anos terminará a maior parte da geração baby boomer, aquela que assistiu à emersão do admirável mundo novo da tecnologia e viu surgir o computador, o celular e a internet. Já somos testemunhas estranhas de coisas como datilografia, telegrama ou mimeógrafo. Depois de nós, nenhum ser vivo terá usado isso e apenas museus de tecnologia mostrarão a jovens nascidos na década de 2020 os aparelhos que eles, talvez, comentarão com piedade similar àquela com que observamos machados do paleolítico: “nossa, eles usavam isso”.  

Ano-novo não é lugar de memória do passado, mas de projeção para o futuro. Muitos budistas afirmam que o excesso de ênfase no passado aumenta remorso e culpa. Projetar toda sua atenção para o futuro pode estimular ansiedade. O ideal não estaria em trabalhar instâncias temporais imutáveis ou abertas (o que já ocorreu e o que existe no porvir). Um homem sábio viveria o aqui e agora, o presente, o único momento em que minha ação pode exercer influência direta. 

A chave parece estar nesse equilíbrio entre remorsos, melancolias do passado e ansiedade pelo que pode ocorrer daqui para frente. Recentemente, desenvolvi o hábito de fazer um exercício mental de me perdoar pelo passado. Fiz muitas escolhas erradas, disse coisas ruins para pessoas que eu amo, fui seco e grosseiro sem necessidade, reagi com impaciência a gestos de amor e, como quase todos os descendentes de Adão, fui babaca inúmeras vezes. Tenho desenvolvido a experiência de tentar aprender sempre com os erros e, sem esquecê-los, deixar de cultivar o fel do remorso. Em resumo, perdoar-se pode ser um exercício curioso. Os fatos ocorridos são imutáveis, a memória pode ser pedagógica e deixar de pesar. Experimente, nesse início de novo ano, fechar os olhos e dizer que seus erros foram tão fundamentais para seu progresso como para seus acertos. Peça as desculpas a quem acha que ofendeu e, em seguida, a você mesmo. As dores moldaram sua biografia e sua consciência. Eu fiz e percebi que isso tem um imenso poder de ressignificar o passado. Também percebi que perdoar a si ajuda a conviver com a imperfeição alheia. Diminua sua dor e ela não fará eco à dor alheia. Sua família não é perfeita e isso é ótimo, você desejaria ser um desajustado em uma família ideal? Seus colegas de trabalho são chatos por vezes, bem parecidos com o cara que você olha toda a manhã no espelho.  

Diminuir remorso do passado sem esquecer erros (para que continuem sendo pedagógicos) é um salto e tanto. Trata-se de um exercício de sabedoria. O outro gesto, coerente tanto com religiosos como com filósofos estoicos, diz respeito a não sofrer com o que não existe, o futuro. A ansiedade (eu sou muito ansioso) é um defeito, pois aumenta, com a bruma do medo, o vulto embaçado do amanhã. O que teremos pela frente neste ano? Certamente problemas muito complexos, como tivemos sempre. Eles podem ser vencidos (como foram os anteriores) ou podem nos vencer (como já ocorreu). Nos dois casos, é pouco produtivo pensar que minha acidez estomacal ditada pela angústia de hoje possa dissolver o drama do amanhã. Durma como um justo ou revire-se agitado e angustiado no leito a noite toda e, fato indubitável, o amanhecer chegará igual com a luz do novo dia e novos problemas. Remorso pelo que houve e ansiedade pelo que pode vir são uma dupla irracional que afeta o único momento da ação efetiva que é agora.  

É uma escolha estratégica de concentração e foco para o símbolo do ano novo. O mais elaborado antecipador que está pagando, desde agora, o plano funerário para ter um bom enterro é alguém que toma decisões hoje e paga hoje e atua hoje, mesmo que seja o longínquo e indesejado dia da morte. A própria noção de estratégia mira no futuro, todavia cria táticas no presente. Focar no presente não significa esquecer-se do futuro; implica saber que o futuro será consequência do que for realizado hoje, apenas hoje, exclusivamente no instante atual.  

Quem se preocupa em demasia com fatos hipotéticos não acrescenta um minuto de tranquilidade à vida. Melhor do que ter usado branco no Réveillon, mais útil do que a lentilha que talvez tenha sobrado da festa, melhor do que amuletos é a ação real e efetiva hoje. Um fundo de reserva por menor que seja, hábitos saudáveis, melhorias no convívio com as pessoas, metas claras e exequíveis, diminuição da angústia pela reflexão e, enfim, a decisão de ser protagonista hoje são melhor do que toda a “energia” de gestos mágicos.  

Entre remorso e ansiedade abre-se o novo ano e suas possibilidades. As contas continuarão chegando e as pessoas serão o que sempre foram. Os dramas da política fluem como sempre e continuarão. Não vivemos o inferno total e o paraíso continua distante. Estamos abaixo da Suécia e acima da Venezuela. Temos mais poder do que um cascalho e menos do que Deus. No meio dessas impossibilidades ilimitadas, nossa vida única e irrepetível chega ao limiar da nova etapa. Evitar a morte é bom, porém, acima de tudo, o desafio maior é viver. Feliz ano-novo a todas as minhas queridas leitoras e estimados leitores. Que venha 2020! 
------------
* Historiador brasileiro, professor da Universidade Estadual de Campinas, especializado em história da América.
Fonte:  https://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,entre-remorso-e-ansiedade,70003140715
Imagem da Internet