domingo, 2 de fevereiro de 2020

“Falta de horas de descanso faz com que nossa melancolia se torne raiva ou depressão”


Filósofa holandesa Joke J. Hermsen afirma que a epidemia de depressão que assola o mundo, juntamente com o medo, ajuda a explicar a ascensão da extrema direita

Carmen Pérez-Lanzac
25 Jan 2020

Joke J. Hermsen (Middenmeer, Holanda, 1961), doutora em Filosofia e especialista na vida e na obra das filósofas Hannah Arendt e Lou Andreas-Salomé, analisa em seu último livro – La Melancolía en Tiempos de Incertidumbre – um sentimento humano que, diz ela, explica em parte a ascensão da extrema direita. Defende que a epidemia de depressão que assola o mundo se deve ao fato de que não soubemos deter a melancolia em sua versão insana, o que leva o ser humano a cair no lado escuro, na ira e no medo.

Pergunta. De que maneira os políticos influenciam em nossa melancolia?
Resposta. Neste momento temos muitos políticos que semeiam mais o medo do que a esperança. E isso é perigoso. Nossa melancolia precisa de esperança, de amor, de luz, de amizade... e quando a cercamos de medo corremos o risco de transformá-la em depressão. A responsabilidade desses políticos é grande. Existe o perigo, como dizia Hannah Arendt, de cair de novo em um sistema totalitário. Nunca devemos pensar que isso não vai acontecer conosco.

P. E o que podemos fazer para ir nessa direção?
R. Apontar a responsabilidade desses políticos. Tudo o que podemos fazer é criticá-los e fazer propostas esperançosas. Todos nós sofremos de fadiga parlamentar, não acreditamos mais em nossa democracia. Não acreditamos mais que os políticos vão consertar as coisas, temos que inventar outros instrumentos. E o que eu proponho são comitês de cidadãos. Pessoas escolhidas de modo rotativo por sorteio que tenham dias pagos por todos para se informar, debater e tomar decisões. A principal vantagem é que as pessoas se sentiriam mais responsáveis e representadas. Sentiriam de novo sua liberdade política, porque não devemos esquecer que também somos seres políticos. Temos que repensar nossa democracia, experimentar. Não temos nada a perder.

P. A senhora diz que a dificuldade que temos hoje para encontrar a calma é uma das causas da epidemia de depressão no Ocidente.
R. Tento readaptar a distinção feita por Aristóteles entre a melancolia criativa e solidária, a melancolia zen e a melancolia que se transforma em uma depressão muito séria, uma melancolia insana. Existem várias causas para essa evolução; uma delas é a falta de esperança que torna a melancolia cada vez mais escura e que faz com que nos sintamos ameaçados. E outra é a falta de horas de descanso, de calma, de ataraxia, que faz com que nossa melancolia se transforme em cólera ou em medo, em depressão. E este é um problema generalizado.

“Quando crescemos, é importante reaprender a ser 
aquela criança que fomos, que se sentia 
una com o mundo”

P. Outra causa de nossa melancolia, como a senhora diz, está na nostalgia que sentimos por nossos primeiros anos de vida, de que não nos lembramos porque não tínhamos desenvolvido a linguagem.
R. Escrevi minha tese em parte sobre Lou Andreas-Salomé, que descobri através de Nietzsche. Ela elaborou a ideia de que durante a primeira infância temos a impressão de sermos unos, uma unidade com tudo o que nos rodeia. As crianças dizem sempre nós, nunca eu. Se você se olhar no espelho com um bebê nos braços, ele não verá diferenças entre ambos. Nascemos em algo que nos transcende. Por isso é tão importante quando crescemos e nos tornamos esse eu, ou esse ego completamente angustiado, reaprender a ser aquela criança que fomos, que era mais do que apenas ela mesma. É uma forma de pensar sobre a transcendência do eu para o nós. Sempre sentiremos melancolia por aquela criança que fomos, por esse nós.

P. Em que momento começou a falar sobre depressão?
R. Em praticamente todas as culturas encontramos esse estado de alma melancólico ao qual cantamos descrito na poesia, na literatura, na arte... Mas a partir de Freud passou a se chamar depressão. E o que lamento é que percamos o lado positivo da melancolia. A melancolia não é alegria nem tristeza, é algo que combina essas duas sensações. Quando queremos alcançar uma verdade profunda, precisamos das ambivalências, elas nos aproximam melhor da verdade de nossa existência como seres humanos. A condição humana se desenvolve em uma ambivalência maior do que supomos nesses momentos. Mas suportamos cada vez menos as ambivalências. Quando vemos no cinema que todo mundo chora ou todo mundo ri... Pode ser muito divertido, mas existe algo no fundo da alma que não se comove. Muitas vezes o que nos chega realmente é algo melancólico, uma tristeza que sorri ou uma alegria por estar triste.

“Sofremos de fadiga parlamentar. Proponho criar comitês 
de cidadãos, pessoas escolhidas de modo 
rotativo por sorteio”

P. A senhora acredita que para tratar a atual epidemia de depressão o mundo precisa de uma aproximação às pessoas afetadas que integre o tratamento filosófico. Pode explicar melhor?
R. Não proponho isso como remédio. Quero ir mais longe. Nosso estado de alma é melancólico porque estamos conscientes de nossas perdas, estamos conscientes de que um dia morreremos e estamos conscientes dos anos e de tudo o que vamos deixando para trás. E o que é importante é que criemos horizontes de esperança em torno dessas nuvens, à sombra da melancolia. A melancolia precisa de esperança, amor, música, amizade, luz, dança... para não se tornar escura. Não é uma terapia, o que proponho é que percebamos que necessitamos, além da calma, também do amor. Não apenas com relacionamentos românticos, também o amor mundi, o amor pelo mundo mencionado por Hannah Arendt. Que nos sintamos em comunhão com o mundo e que sintamos esse amor compartilhado com ele. Necessitamo-nos mutuamente.

P. As pessoas com depressão são párias do sistema neoliberal?
R. Sim, elas são. O neoliberalismo é quem as deixa doentes. O que é necessário para que a melancolia seja saudável? Descanso, e no capitalismo isso não existe. O sistema faz com que as pessoas fiquem deprimidas e, além disso, essas pessoas não são cuidadas. Ele as afasta. A terapia que proponho não custa dinheiro, mas tempo, entretanto o tempo se tornou o produto de luxo por excelência.
 -------------------------
Fonte: https://brasil.elpais.com/ideas/2020-01-25/falta-de-horas-de-descanso-faz-com-que-nossa-melancolia-se-torne-raiva-ou-depressao.html?utm_campaign=oqel&utm_source=Newsletter

sábado, 1 de fevereiro de 2020

IDEOLOGIA

FRANCISCO MARSHALL*
 Resultado de imagem para ideologia
 
Este neologismo, que une as palavras gregas idea (ideia) e logia (lógica ou ciência), surgiu após a Revolução Francesa e evoluiu para designar o conjunto de crenças e concepções sobre a sociedade e o mundo, próprias para orientar opções e ações políticas. Em sociedades complexas, a palavra passou a designar também as metas específicas de grupos e classes e, logo, também dos movimentos sociais e dos partidos políticos. Assim empregada, a palavra tem a virtude de dar identidade aos diferentes interesses em disputa, permitindo a cada cidadão reconhecer o que mais lhe convém e ao conjunto da sociedade. O termo "ideologia", portanto, não nasce condenado a representar cacoetes, mas, pelo contrário, a identificar e a organizar as relações sociais e políticas.

Não é concebível sociedade contemporânea destituída de ideologias, e é suspeitíssima a pretensão de qualquer grupo ou indivíduo de atuar na vida política isento destas. O argumento de isenção ideológica na política reflete ambições totalitárias ou teológicas, ou demagogia solerte, que acusa o outro de ser ideológico para aparentar que está a salvo e, assim, tentar enganar a sociedade para impor uma visão particular, repleta de interesses. É o que ocorre quando autoridades dizem combater ideologia e tratam de impor a sua própria. Para essa enganação, o discurso religioso serve perfeitamente, como fetiche de uma verdade que é antes ficção em favor dos sacerdotes e seus apaniguados.

As ideologias, todavia, podem abrigar erros, decorrentes de opiniões precárias ou do predomínio de interesses egoístas. Contra esses, contamos com a força de dois antídotos: a ciência e a política, quando visa ao bem comum. Sabe-se que a ciência pode ser manipulada por ideologias, e é por saber-se disso que a ética, o espírito crítico e a força do método nos permitem identificar e purgar erros e ideologias. Assim depurada, a ciência oferece à sociedade as referências seguras com que orientar decisões, superando a precariedade de opiniões e interesses particulares. Diante disso, atacar a ciência passa a ser outra face da estratégia de quem quer impor ideologias e só sabe proliferar enganos.

Por seu turno, a política orientada ao bem comum pode, em sociedades saudáveis, ser realizada por meio da dialética democrática ou por estratégias de quem detém o poder. Cabe ao vencedor a grandeza de estender sua sensibilidade ao que reivindicam os derrotados, ao invés de usar a força para tentar dizimá-los, de modo paranoico e tirânico. Aproveitar o que há de bom nas ideologias adversas é a chance de ampliar a harmonia e caminhar para a superação de impasses. Para isso, é necessário inteligência e grandeza, dons ora muito escassos. Do mesmo modo, as ideologias de classe, caso não evoluam para o bem comum, podem produzir violência, como hoje vemos, com a imposição da ideologia do capital sobre o mundo do trabalho.

Para sairmos da presente cacologia e dos embates de todas as ideologias, valham-nos a arte e a ciência das boas ideias, com que poderemos, um dia, escrever um novo capítulo da História.
 -----------------------------
FONTE: https://flipzh.clicrbs.com.br/jornal-digital/pub/gruporbs/acessivel/materia.jsp?cd=deb80070b600cd6a60ae2fcddbf93a0e 
Imagem da Internet

Misericórdia: não desista de merecer

J.J. Camargo*

Resultado de imagem para misericórdia JJ Camargo

Cada vez mais, necessitamos do “coração compadecido” das outras pessoas

Nunca cometa a insanidade de subestimar a força moral dos misericordiosos. Eles são superiores e se alimentam da energia inesgotável de fazer o bem, este combustível que dispensa aditivos.
Em português, o termo “misericórdia” vem da junção de duas palavras latinas, no caso, miseratio, que deriva de miserere e significa “compaixão”, e cordis, que significa “coração”. Logo, misericórdia significa algo como “coração compadecido”, no sentido de ter compaixão pelo sofrimento e a dor de alguém.
Preparando uma conferência na universidade e estimulado por uma crônica do Pondé, fui à cata dos comentários rabínicos da Criação, onde reza a lenda que, lá no início, quando Deus, pensando em criar o homem e a mulher, resolveu consultar seu parlamento sobre se devia ou não fazê-lo. Primeiro, ouviu a Justiça, que O desaconselhou: “Eles vão criar problemas, não vão te obedecer, isto aqui vai virar um inferno, desista da ideia”.
A seguir, buscando um contraponto, chamou a Misericórdia, que argumentou: “Olha, é provável que eles tragam algum incômodo sim, mas tenho certeza de que algumas vezes eles serão tão maravilhosos que vai valer a pena”. Então, Deus teria tomado a Misericórdia nas mãos e jogado ao chão com toda a força para que se estilhaçasse em mil pedaços, e sentenciou: “Eu vou criar o homem e a mulher, mas eles vão passar a vida catando cada pedaço de misericórdia espalhado sobre a terra”.
A sentença era explícita: como somos seres imperfeitos e pretensiosos, arrogantes e egoístas, incapazes de almejar o bem absoluto, estamos fadados ao erro, a enfiar os pés pelas mãos, a fazer coisas que desagradam aos outros, a sentir inveja e ódio, ou seja, estaremos sempre dependendo da generosidade alheia para sermos perdoados. E ninguém discute que só merece perdão quem for capaz de perdoar.
A agressividade crescente e a intolerância latente em cada gesto do outro sugerem que, ou estamos imunes ao sentimento de culpa, ou não estamos nem aí para sermos ou não perdoados.
Tenho a sensação de que a grande qualificação da medicina, determinando a progressiva protelação da morte, tem estimulado um conceito equivocado: a longevidade não é sinônimo de eternidade, ainda que haja um número crescente de interessados em confundi-la.
O certo é que estamos cada vez menos preparados para a despedida. Refugiados nas redes sociais, associamo-nos à maior usina de ilusões, e na disputa por ver quem fantasia melhor falando bem de si mesmo, estaremos sempre a um passo de acreditar que “essas coisas referidas aí acima nunca acontecerão comigo”!
E, nesse processo de negação protetora, vamos construindo o pior binômio emocional para o adeus: a aliança da tristeza da doença com a tragédia da solidão.
------------
* Médico. Escritor. Colunista da ZH
Fonte:  https://gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/jj-camargo/noticia/2020/01/misericordia-nao-desista-de-merecer-ck62t7q1d0dc401mv77aqiwwv.html

‘A Barata’, de Ian McEwan: a comédia do Brexit

MORDAZ - McEwan: o dia em que um inseto virou primeiro-ministro do reino David Levenson/Getty Images

Com a breve narrativa, escritor usa do humor corrosivo e da influência de Kafka para expor o absurdo do processo de saída da Inglaterra da União Europeia 

Por Eduardo Wolf - Atualizado em 31 jan 2020, 10h22 - Publicado em 31 jan 2020, 06h00  
 
“Naquela manhã, Jim Sams, inteligente mas de forma alguma profundo, acordou de um sonho inquieto e se viu transformado numa criatura gigantesca.” A frase inicial de A Barata, nova ficção do inglês Ian McEwan, graciosamente prepara o leitor para o que vem pela frente. A referência a A Metamorfose, clássico de Franz Kafka em que Gregor Samsa desperta sob a forma de um inseto enorme, é invertida. Desta vez, é uma barata, habitante do Palácio de Westminster, que acorda transformada em um ser humano: apenas quatro membros, “um pedaço de carne úmida e escorregadia” na boca e uma visão terrivelmente estreitada. Acrescente-se: primeiro-ministro da Inglaterra. No lugar do abismo existencial e metafísico de Kafka, a boa e velha sátira política.

Essas não são as únicas inversões que o premiado autor de Amsterdam (1998) opera em sua hilária narrativa: o grande projeto político que divide o reino, objeto de radical polarização e de grave paralisia institucional, é o resultado surpreendente — e, para muitos, absurdo — de um referendo. A decisão popular, que o Parlamento e o primeiro-ministro não conseguem implementar por meses, faz a roda da História girar para trás. Bebendo nas frustrações de trabalhadores e de velhos de todas as classes sociais, o país parece dar um salto no escuro, animado por um sentimento de saudosismo, de revolta contra uma servidão não identificada, de nacionalismo autêntico e insurgente contra uma “ordem corrupta e desacreditada”, que se ocultava por trás de “gráficos e projeções” e de uma “racionalidade árida”.
A BARATA, de Ian McEwan (tradução de Jorio Dauster; Companhia das Letras; 104 páginas
Diante desse enredo, é uma obviedade pensar no Brexit, o traumático processo de saída da União Europeia adotado pela Inglaterra em 2016, após um plebiscito que parece ter deixado as elites intelectuais e tecnocratas na lona. Não tão óbvio é o fato de a palavra “brexit” não ocorrer nem uma única vez nas 100 páginas do relato de Mc­Ewan. Tanto melhor para a diversão do leitor: a decisão dos eleitores britânicos no plebiscito de A Barata é pela adoção do “reversalismo”, doutrina econômica que prega a inversão completa do fluxo do dinheiro — os cidadãos pagam para trabalhar, e, quanto melhor o trabalho, mais caro; por outro lado, todos correm às lojas para receber dinheiro pelos produtos que desejam. Com seu talento, Mc­Ewan dá uma verdadeira “biografia” à doutrina do reversalismo: considerada por muitos um simples experimento mental, tida por praticamente todos como mera piada, “domínio dos excêntricos, de homens solitários que escreviam compulsivamente cartas lunáticas para os jornais”, a doutrina, uma vez aceita, parecia purificadora de todo o sistema. De vez em quando “se revelava atrativa na Europa Ocidental para grupos da direita ou extrema direita porque parecia eliminar o poder do Estado”. E é para implementar o reversalismo, vontade do povo expressa no plebiscito, que as baratas de Westminster, até então acostumadas à serena condição de plateia oculta do teatro parlamentar entre trabalhistas e conservadores, optam por tomar de assalto o governo, assumindo a forma do primeiro-ministro e a de seus assessores.

McEwan extrai tudo o que pode, em matéria de humor, da peculiar confusão política que os ingleses criaram para si. As referências à política real são evidentes. Há um primeiro-ministro que oferece a oportunidade do plebiscito confiante em que sairia vitorioso, exatamente como David Cameron; um líder trabalhista que é, na verdade, um ardoroso defensor do reversalismo, como Jeremy Corbyn sempre foi inimigo da União Europeia. Daí até as extravagantes consequências da implementação do plano, McEwan ilumina uma barafunda que terá mais perdedores que ganhadores. Na sátira mordaz de A Barata, a única que sai vitoriosa é a literatura.
 ----------------------
Publicado em VEJA de 5 de fevereiro de 2020, edição nº 2672
Fonte:  https://veja.abril.com.br/entretenimento/a-barata-de-ian-mcewan-a-comedia-do-brexit/