A evolução consciente e a integração
entre ciência e espiritualidade
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"Não há nenhuma razão para supor que a evolução da humanidade para na forma atual do Homo sapiens sapiens. Somos uma espécie jovem, imatura, incompleta e, na verdade, não viável em nosso estado atual de consciência. A última esperança é que a evolução da consciência e da liberdade está ocorrendo naturalmente entre nós".
A opinião é da cientista política e escritora norte-americana Barbara Marx Hubbard, presidente da Foundation for Conscious Evolution [Fundação para a Evolução Consciente]. Membro da Jonas Salk Foundation, Hubbard é fundadora e membro do Santa Barbara Conscious Evolution Community. Obteve o primeiro doutorado em Evolução Consciente pelo Emerson Institute. É autora, dentre outros, de "Conscious Evolution: Awakening the Power of Our Social Potential" [Evolução consciente: Despertando o poder do nosso potencial social] e "The Evolutionary Journey: Your Guide to a Positive Future" [A jornada evolutiva: Seu guia para um futuro positivo].
O artigo foi publicado no sítio The Huffington Post, 15-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Eis o texto.
Estamos hoje vivendo uma crise que poderia destruir a civilização e os nossos sistemas essenciais de suporte da vida, mas também estamos vivendo uma mudança de fase mais profunda na própria evolução. Estamos entrando na primeira era da evolução consciente – a evolução da própria evolução, do estado de inconsciência a uma escolha consciente.
Essa mudança de fase começou perceptível e violentamente quando os Estados Unidos lançaram as primeiras bombas atômicas sobre o Japão em 1945. Um sinal de que agora temos o poder de destruir o nosso mundo atravessou o corpo social – uma consciência autocentrada com esse grau de poder não é viável a longo prazo.
Somos a primeira espécie que está diante da extinção por meio de seus próprios atos e que sabe disso.
Esse é apenas o começo. Por meio do advento de tecnologias evolutivas, tais como a biotecnologia, a nanotecnologia, a robótica, as viagens espaciais, a procura de dispositivos de energia de ponto zero e mais, a espécie humana está adquirindo poderes que atribuía anteriormente apenas aos deuses.
Mas podemos não apenas destruir o nosso próprio sistema de suporte da vida, mas também podemos vislumbrar o nosso potencial para uma transformação radical de ordem evolutiva.
Quando nos imaginamos passando por essa crise, tão difícil quanto possa ser, e nos projetamos para a frente no futuro mais distante, até mesmo a meros 100 anos, vemos o surgimento de uma "espécie universal" capaz de coevoluir com a natureza e cocriar com o espírito. Aprendemos a estar alinhados com o impulso da natureza rumo à complexidade e à consciência – nesta Terra, em nosso sistema solar e, finalmente, nas galáxias mais além.
Para além das nossas muitas emergências, está chegando a emergência, e para além da competição, uma maior cooperação, já que as redes sociais aumentam entre aqueles que estão inovando e transformando. Estamos no limiar de uma conectividade não linear e exponencial que é altamente criativa.
A integração da ciência, da espiritualidade e da tecnologia está acontecendo.
Um dos grandes avanços da própria ciência foi a descoberta relativamente recente da cosmogênese, a história do universo, como Brian Swimme e Thomas Berry chamam-na: a consciência misteriosa e de fato impressionante de que do Nada Absoluto evoluiu Tudo o que foi, o que é e o que será. Somos participantes de um drama evolutivo, da narrativa do nosso próprio nascimento. Estamos nos tornando o universo em pessoa!
O mistério do processo de criação está além da compreensão humana, embora percebamos, por meio da ciência, muitos padrões recorrentes. Vemos como a natureza evoluiu, crise após crise, em direção a uma consciência, complexidade e ordem mais elevadas, durante bilhões de anos, muitas vezes pressionada pelas próprias crises.
A nova história evolutiva de base científica do nosso universo nos deu a percepção de que a natureza e nós mesmos estamos evoluindo. Há uma direção nesse processo, rumo a uma ordem mais complexa, a mais consciência e a mais liberdade para destruir ou para evoluir.
Muitos de nós estão trabalhando juntos em direção a algo que nunca vimos antes em qualquer escala – uma sociedade sustentável, em evolução, cocriativa, em que cada pessoa é encorajada a fazer o seu melhor. Uma mente/coração global de coerência e amor está surgindo em meio ao medo, à competição e ao caos.
Uma espiritualidade evolutiva está surgindo, experimentada como o impulso da evolução, o processo de criação, a ordem implicada, um processo de padronização que vem por meio dos nossos próprios corações. Ela é sentida como o núcleo sagrado da espiral evolutiva, o Deus em evolução que se levanta ou mesmo que se encarna dentro de cada um de nós como o nosso próprio impulso para cocriar. É o "criador interno", que se expressa unicamente por meio de cada pessoa como uma nova forma de "cosmogênese social". O poder gerador de evolução universal está nos guiando para uma democracia mais sinérgica e cooperativa.
Através da evolução natural da complexidade e da consciência, impulsionada pelos avanços crescentes nas práticas comunicacionais, conectivas e espirituais, milhões de pessoas estão ganhando a experiência de estar conectada com o Campo do qual tudo está coemergindo, internalizado como orientação interior, a quieta voz de Deus.
É como se fôssemos submetidos à evolução da nossa espécie não como seres extraordinários, mas sim como a nova norma. Grandes avatares, santos e místicos prepararam o caminho. As almas pioneiras do século XXI estão explorando como se tornar humanos criadores, em coevolução, universais.
Esse humano emergente tem sido chamado por muitos nomes. Teilhard de Chardin chamou-o de Ultra Humano, ou Homo progressivus, no qual a "chama da expectativa queima, atraída para o futuro como um organismo que progride em direção ao desconhecido". Sri Aurobindo, o grande sábio da evolução indiano, chamou-o de Humano Gnóstico, o indivíduo em quem a própria Força da Consciência, o poder supramental da criatividade universal, se encarna e começa a transformar o corpo/mente dentro das próprias células que evoluem para muito para além da fase humana .
Outros chamaram-no de Homo noeticus, um ser da gnose ou do conhecimento profundo do Campo do qual estamos coemergindo. Ou Homo divina, como diz a Irmã Judy Cauley. Ou o humano universal, ligado pelo coração a toda a vida, despertando a partir de dentro pelo núcleo da espiral da evolução. A ordem implícita está se tornando explícita em nós, transformando-se no eu essencial, animado por um apaixonado propósito de vida de expressar a nossa criatividade.
Não há nenhuma razão para supor que a evolução da humanidade para na forma atual do Homo sapiens sapiens. Somos, obviamente, uma espécie jovem, imatura, incompleta e, na verdade, não viável em nosso estado atual de consciência. A última esperança, acredito, é que a evolução da consciência e da liberdade está ocorrendo naturalmente entre nós, como uma espécie de evolução espontânea, um equilíbrio interior evidente no meio do caos, percebendo isso como o fruto da evolução universal. Somos parte integrante da natureza, e o processo evolutivo acontece dentro de nós quando abrimos nossos olhos para vê-lo, para sê-lo e para fazer o nosso melhor para participar dele.
Assim como espiritualidade, ciência e tecnologia se misturam, a história evolutiva se torna em nós o caminho sagrado para a evolução consciente: um caminho de desenvolvimento rumo à coevolução de uma humanidade universal.
_________________________Fonte: IHU online, 03/10/2010

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