quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Andre Geim - Entrevista

“É apenas mais um prêmio”


Foram três horas de tentativas de contato. O telefone quase sempre sinalizava linha ocupada ou chamava sem parar. Até que Andre Geim atendeu a ligação, da sala 2.10 da Universidade de Manchester. Perguntou o nome do jornal e aceitou falar por dois minutos. Na entrevista exclusiva ao Correio, o cientista russo de 51 anos não parecia surpreso com o Prêmio Nobel de Física. O inglês carregado de sotaque se misturava a uma voz calma, sem grande entusiasmo. Durante quase oito minutos, Geim falou sobre a descoberta do grafeno e o que o torna um material único e revolucionário. “O grafeno tem uma série de superlativos. É o mais fino e o mais duro material que existe”, explicou. De acordo com ele, a vida de cada ser humano mudará por causa do grafeno, no prazo de uma década. Questionado sobre como sua própria vida se modificará, após a conquista do prêmio mais cobiçado do mundo, Geim deixou a modéstia de lado. Além de descartar transformações em sua rotina, avisou: “Não preciso provar nada”.

O Nobel é o topo que qualquer cientista sonha alcançar. Qual é o significado desse prêmio para o senhor?
Eu não estou realmente surpreso (com o Nobel), porque, durante os últimos anos, jornalistas e até mesmo algumas agências de estatística — como a Thomson Reuters — apontaram nosso trabalho para o Prêmio Nobel. Então, no sentido de esperar, eu esperava ganhá-lo. Eu não sabia quando isso aconteceria. Eu esperei o ano passado, esperaria no próximo ano… Mas aconteceu este ano.
Andre Geim

O que é o grafeno e como ele mudou os fundamentos da física?
Essencialmente, se você olhar ao seu redor, verá inúmeros materiais bastante comuns. Peso, espessura e comprimento. Você encontrará materiais com esses parâmetros, com uma dessas características faltando. Há seis ou sete anos, nós descobrimos uma nova classe de materiais, em que uma dessas características estava faltando. Essencialmente, a espessura é uma espécie de fantasma, por não existir. A nova classe de materiais que encontramos essencialmente não tem espessura. Há apenas um átomo de espessura. É sempre legal descobrir um novo material e uma classe de materiais. Mas quando começamos a estudar esses materiais vimos que suas propriedades eram únicas e incríveis. Foi por isso que levamos o Prêmio Nobel. Não por termos descoberto uma nova classe de materiais, mas pelo fato de as características deles serem tão incomuns e únicas.

Mas o que torna o grafeno tão único?
Sozinho, o grafeno tem uma série de superlativos. É o mais fino material que você pode imaginar. Você dificilmente pode imaginar algo com uma espessura de um átomo. Ao mesmo tempo, é o material mais forte que se pode imaginar. O grafeno é mais duro e mais forte que o diamante. Trata-se do material mais duro que conhecemos. É tão duro que pode esticar 20%, como o cobre. Ao mesmo tempo, é 1 milhão de vezes mais eficiente do que o cobre na condução de eletricidade. Também conduz calor melhor que o cobre, que o diamante e que qualquer coisa que conhecemos. O grafeno exibe suas características melhor que o silicone e que qualquer material usado pela indústria de semicondutores. Apesar de tratar-se apenas de um átomo de espessura, o grafeno não permite a condução de gases e líquidos. Provavelmente, essas características são apenas a metade dos superlativos do grafeno, mas já dão uma ideia do quão único é esse material.

De que modo ele poderá ser usado em benefício da humanidade? Quais suas aplicações?
Neste momento, há centenas ou milhares de pesquisas que tentam encontrar aplicações. Uma das aplicações em processamento é a utilização do grafeno em transistores de frequências ultra-altas, em touch screens, em monitores de tevê, em alguns sensores químicos, no sequenciamento do DNA. Muitas pesquisas estão voltadas para esses materiais únicos. No momento, é difícil prever o que o futuro nos trará. Mas temos certeza de que o grafeno não será apenas mais um material. É realmente um paradigma que estamos experimentando, que vai tocar a vida de cada indivíduo não em cinco anos, mas talvez em uma década. Será um pouco similar ao que aconteceu com os polímeros, que foram descobertos 150 anos atrás. As pessoas realmente não sabiam o que fazer com eles. Atualmente, o plástico é um componente muito importante para as nossas vidas. Todos temos certeza de que o grafeno estará presente em nosso dia a dia.

Como espera que sua vida mude depois de hoje?
Eu sou um daqueles poucos cientistas cuja vida não mudará muito. Eu não ficarei louco nem pensarei sobre minha sabedoria. Eu não preciso provar a ninguém que (o Nobel) não foi uma coincidência. Eu já tive um número de boas peças de trabalho que foram bem menores e estamparam muitos jornais, incluindo os maiores diários do Brasil. São temas como magnetismo, levitação… Então, não preciso provar nada. Eu continuarei meu trabalho. Não foi o primeiro prêmio que ganhei. Espero que não seja o último. Continuarei a remar por minha vida. Eu tenho planos com uma série de outros assuntos. A vida continua. Nada muda muito. É apenas mais um prêmio. (RC)
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Fonte: Correio Braziliense online, 06/10/2010

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