Sergio Malacrida*
A história começa com a saída de Gekko (Michael Douglas) da prisão. Ironiza-se: a chegada de uma limusine, que parece ter vindo buscá-lo, veio na verdade buscar outra pessoa. Ninguém veio buscá-lo. Seria esse o destino dos especuladores, daqueles que agem sem escrúpulos? Talvez, já que não se deve esquecer que o objetivo de Stone é ironizar, provocar. O que vem na sequência é a história de Jake (Shia LaBeouf), o "herói", um analista bem-sucedido (um "Wall Street boy", como o chama sua namorada) que cobre o setor de energia, mais especificamente energia alternativa. Ele namora a filha de Gekko, Winnie, que não fala com o pai há anos. É pouco antes do crash de 2008. Gekko, após a saída da prisão, passa a dar palestras e escrever livros: transforma-se num guru, um sábio que profetiza, entre outras coisas, a iminência da crise que está por vir.
A atuação de Douglas é um espetáculo à parte. O ator toma conta da cena e os comentários de Gekko, que pode ser o alter ego de Stone, são afiados, precisos, irônicos e ácidos. Gekko torna-se rapidamente uma referência para Jake, que passa a tentar a reaproximação entre pai e filha. Há em Jake um quê de "herói", mas de um herói trágico, não necessariamente triste. É importante ter em mente que o trágico e o triste não são a mesma coisa. Já dizia Anatol Rosenfeld que há fatos que são tristes, mas não são trágicos. Um atropelamento é triste, mas o morto não é herói, pois não lutou contra o ônibus. Sua morte é uma infelicidade, mas não houve uma luta contra valores. O herói trágico luta contra e esse é o caso de Jake.
No mundo extremado descrito por Stone, Jake luta contra os valores disseminados por Wall Street, ele tenta ser o bom garoto, o virtuoso, mas não podemos nos esquecer que, em última instância, ele é um "Wall Street boy". A sua lógica é também regida pelo dinheiro e, desse modo, seu lado não heroico também emerge.
Os fatos, apesar das inúmeras coincidências dramáticas que impulsionam a trama, são verossímeis e condizentes com o tamanho da crise de 2008. Apesar dos nomes alterados, reconhecemos várias personalidades do mercado financeiro. Entretanto, se a crise foi extrema, um cisne negro nos dizeres de Nassim Nicholas Taleb, as personagens, em sintonia com o tom do filme, são também levadas ao extremo e dão a sensação, ao leigo, de que os "players" do mercado financeiro são todos egoístas, especuladores e sem escrúpulo. É óbvio que o mercado financeiro é um terreno fértil para o surgimento de heróis e bandidos, mas o filme mantém seu tom "sinistro" e insiste em mostrar só um lado: o ruim. Não é dito em nenhum momento que o papel dos bancos na economia real é crucial. Como, por exemplo, financiar um projeto de energia alternativa, que trará benefícios a todos, sem o mercado financeiro?
Ao mostrar só o lado "negro" do ato de especular, o filme esquece de dizer que, às vezes, o julgamento sobre especular é "ex-post", isto é, quando um indivíduo toma uma decisão que, para a maioria, representa um risco e é bem-sucedido, dizemos que ele especulou ou foi ousado, corajoso? Por sua vez, quando ele não é bem-sucedido, então dizemos que ele especulou? Muitas ações históricas foram fruto da especulação, do risco e, nas palavras de Gekko, pelo menos ter alguma "ganância é bom". Sobre a temática do especular, uma personagem declara que "o que interessa é o nosso bônus", mas não há nenhuma declaração acerca dos incentivos dados aos agentes e todos sabemos que resultados são compatíveis com o tipo de incentivo que se dá.
O filme faz uma referência muito interessante ao quadro "Saturno Devorando um Filho", de Goya. Saturno (Cronos para os gregos) é um deus romano complexo que, entre outros temas, representa o tempo. Uma interpretação do quadro é a de que o tempo consome todos nós, mortais que somos. Ora, uma alusão tão forte a Saturno num quadro de Goya em que tudo gira em torno do dinheiro, nos faz questionar: tempo é mesmo dinheiro?
Inevitável não falarmos das bolhas. O filme faz poéticas alusões a elas e trabalha muito bem a polissemia da palavra, uma vez que temos as bolhas financeiras, mas também as temos de sabão.
É um filme para se pensar. O dinheiro nunca dorme. Está sempre ali nos espreitando, seduzindo-nos, vindo ao nosso encontro, fugindo de nós. O que somos capazes de fazer por ele? O que ele é capaz de fazer conosco?
_____________________* Economista, mestre em matemática e graduando no curso de letras, é sócio da Vinci Partners
Publicado pelo jornal Valor Econômico online, 03-10-2010.

Acho que a ganancia nasceu junto com o primeiro ser humano.E as bolhas realmente foram tratadas no filme de modo muito realista. O sub prime e sobre energia limpa que geram créditos de carbono pois quem investiu jogou dinheiro pela janela, pois nem o Japão quer continuar aderindo o tratado de kioto e a especulação financeira é um mal global.
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