segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Questão de fé

Juremir Machado da Silva*


O cotidiano sempre me fascina. Afinal, é nele que vivemos e morremos. Ouço todo dia coisas que me espantam Sábado passado, chegando para bater uma bolinha, fui abordado pelo mendigo que faz plantão perto da igreja e do ginásio onde jogamos. Ele me pediu umas moedas para comprar um lanche na padaria. Levei alguns instantes para conseguir extrair o dinheiro do bolsinho da calça jeans. Enquanto eu puxava as moedas, ele me observava com ar blasé. Sim, mendigos podem ter ar blasé. Finalmente, com ar dubitativo, me perguntou: "Será que vai chover?". Achei que era de bom tom responder ironicamente: "Isso, meu chapa, eu não tenho como saber". O sujeito sorriu.
Depois de um segundo de hesitação, afirmou: "Isso só Deus pode saber". Foi a minha vez de sorrir. Olhei para ele como se buscasse no seu corpo uma evidência da verdade que acabara de proferir. Por fim, eu disse: "Se tu achas...". E segui para o meu jogo. Mal dei dois passos, ouvi a sua voz se elevar: "Sei o que tu tá pensando". Parei. Virei-me. Recuei um passo: "Ah, é!". Ele riu mostrando seus dentões escurecidos pelo tabaco e pela falta de cuidados diários. "Tu acha que eu não tenho motivos para acreditar em Deus." Fiquei embaraçado. Que peça era aquela que o cara estava me pregando? Por que será que sempre duvidamos da inteligência dos miseráveis? Talvez ressoe demais na minha cabeça o título de um lindo romance d egípcio Albert Cossery, "Os homens esquecidos de Deus." Ha uma ambiguidade proposital aí: são homens que esqueceram Deus ou que foram esquecidos por Deus?
Fiquei sem saber o que responder. Ele falou por mim: "Deus existe, doutor". Pensei candidamente: quem sou eu para negar o que exigiria um debate teológico? Que argumentos poderia eu ter para contestar o que ouvia? O homem continuava a me olhar como que dizendo: Deus não tem culpa da minha situação. Eu olhava para ele como que perguntando: não tem mesmo? conversa morreu ali. Eu me limitei a balbuciar: claro, claro. Segui para o ginásio com um sorriso nos lábios. Aquele mendigo acabava de me dar uma lição. Revelara de um golpe os meus preconceitos. A gente passa por um mendigo e acha que se trata de um vegetal, que está ali, parado, fazendo a fotossíntese sem pensamentos, ideias ou crenças. Um mendigo pensa.
Albert Cossery passou a maior parte da vida em Paris. Morou durante 57 anos no mesmo quarto de hotel. Defendia a preguiça. Dizia não poder escrever mais de uma frase por dia. Buscava o prazer acima de tudo. Mas os seus prazeres eram simples. Construiu uma obra modesta em número de volumes (apenas oito), mas grandiosa. Restou-me pensar que o meu mendigo era um personagem extraviado das páginas de Cossery. Ou, quem sabe, uma reencarnação dele? O problema é que e não acredito em reencarnação. Depois do papo com o mendigo estou mais humilde: quem sou eu para saber o que realmente existe? No próximo sábado, vou dizer simplesmente isto: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia". Não duvido que ele me responda com o nome do autor dessa frase célebre.
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* Filósofo. Escritor. Colunista do Correio do Povo.
Fonte: Correio do Povo online, 03/10/2010

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