Marli Gonçalves*
Aperta lá. Passa o dedo. Deslize
para abrir. Clic,clic,clic. Nossa vida virou um enorme clicar, apertar,
acessar, deletar. Inventar senhas doidas, alfa alguma coisa misturada
com outra. Um novo mundo se desenvolve à nossa frente, tentando
controlar tudo. Saudades do tempo em que a gente apenas não sabia onde
estava o controle da tevê, aquele que ainda teima em se esconder no
buraquinho do sofá
O cão late, um gato mia, o galo cacareja, toca um
trecho de uma música boa para cortar os pulsos, assovios, canto de
passarinho, vozes de new personalidades como o Cumpadi Washington (“Sabe de nada, inocente!”),
fora os sambinhas e outros sons, alguns bem bizarros. Viraram todos
parte de nosso dia a dia, em celulares que agora não mais só tocam para
que se atenda, essa coisa simples e tão ultrapassada. Tem o som do
Whatsapp, da mensagem SMS, da mensagem do Twitter, do Facebook, do
e-mail. Virou uma farra ensurdecedora, que chega a ser engraçada quando,
por exemplo, se está em uma reunião. E para decorar o que cada som quer
dizer? Fora os toques diferentes escolhidos para contatos especiais.
Temo que além dos queixos duplos, possíveis acidentes, logo logo a
humanidade perderá as impressões digitais, gastas, a começar pelos
polegares. Já o indicador vai ficar todo gasto primeiro nas laterais.
Estamos todos teleguiados. E não sei se é bom ou ruim, antes que me
pergunte. Apenas estou constatando que não dá para contar o número de
vezes que, por dia, clico aqui, deslizo lá, para saber mais, ou para
ligar alguma coisa. Também é cada vez mais complicado ficar longe do
computador, mesmo que por algumas horas – você pode estar perdendo a
transmissão online do fim do mundo e não fica sabendo. E o sentimento de
culpa?
Voltando: é ou não é? Reparei que há uma invasão de controles
remotos. Os fios estão sendo assassinados, mas agora tudo se controla
também digitalmente, até o choro do bebê – outro dia ouvi falar de um
aparelho celular com aplicativo meigo que toca música clássica à
distância na tal babá eletrônica. Pensa só que você abre e fecha
portões, põe comida no microondas, se for rico abre a porta de casa
naquelas fechaduras sem chave, pode ver o que acontece em casa via
câmeras, apagar e acender luzes. Já vi uma banheira com a borda toda
cercada de botõezinhos e rapidamente surgiram celulares vibradores,
vibradores – bem, você entendeu para o que serviriam. E se já achava o
máximo a ideia de ter um despertador que sai voando pelo quarto
obrigando que o sonado ser comece o dia empreendendo uma caçada, agora a
coisa já foi ainda mais longe.
Eu sei que, sorria, você está sendo filmado – as câmeras nos prédios,
ruas, shoppings, bancos, apontam para você, algumas até intimidadoras.
Sei de muita gente que tem umas instaladas na porta de suas casas, mas
“frias”, não estão ligadas a nada, serviriam apenas para assustar
meliantes, de quando em quando se mexendo e piscando uma luzinha
vermelha. Tem de tudo. Compra lá na 25 de Março.
Mas também vou admitir que nada nunca superará o ser humano. Já tem
um monte deles, regiamente pagos, funcionando como controles remotos por
aí, defendendo com argumentos absolutamente inacreditáveis cada bobagem
que é dita lá pelos lados do Planalto. E vem surgindo , reparem, outro
tipo que para não ser chamado (ou xingado) de petista, petralha, escreve
como se fosse gente boa, mas querendo calar quem ousa se opor ao Grande
Guia e, principalmente se for personalidade, dá entrevistas sobre a sua
visão do que está acontecendo no país.
São Paulo, 2014, 30 anos depois do Grande Irmão de 1984.
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* Marli Gonçalves é jornalista - Procurando aplicativos que
detectem sórdidos. Economizando para comprar um “Google Glass “de Sol,
para preservar a íris, que em breve deve substituir o clique aqui pelo olhe aqui, para abrir e fechar portas e outras coisinhas.
Fonte: http://marligo.wordpress.com/2014/05/16/artigo-clique-aqui-por-marli-goncalves/
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