segunda-feira, 15 de julho de 2024

Eckhart: a alma e sua luz.

Entrevista com Marco Vannini

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O filósofo Marco Vannini é o editor do volume Meister Eckhart: la luce dell'anima [Mestre Eckhart: a luz da alma] (Lorenzo de' Medici Press, 2024). Em continuidade com a entrevista Sobre a verdadeira religião (aqui, em italiano), Giordano Cavallari faz-lhe perguntas sobre o conceito místico cristão eckhartiano e, portanto, sobre a sua relevância.

A entrevista é de Giordano Cavallari, publicada por Settimana News, 01-07-2024.

Eis a entrevista.

Marco, o que este volume acrescenta ao conhecimento de Eckhart, em italiano?

Novamente apresenta apenas três sermões, inéditos em italiano, enquanto a Introdução, completamente nova, ouso esperar, acrescenta ou especifica algo sobre o pensamento do Mestre.

Apresento-lhe algumas citações dos sermões deste volume e peço-lhe, brevemente, que os comente. 

"Quem quiser penetrar nas profundezas de Deus […] deve primeiro penetrar nas suas próprias profundezas […] porque ninguém conhece a Deus sem primeiro conhecer a si mesmo."

A teologia é antes de tudo uma antropologia, ou seja, fruto da forma como pensamos e pensamos sobre nós mesmos. Xenófanes já sabia disso: os etíopes imaginam seus deuses como de pele escura, os trácios como loiros, etc. Devemos, portanto, antes de tudo, esclarecer-nos. “Conhece-te a ti mesmo”, advertia a sabedoria grega, e os cristãos acrescentavam: “e conhecerás a ti mesmo e a Deus”.

Esta afirmação é retomada, quase literalmente, não só por Eckhart, mas também por São João da Cruz.

(Foto: Divulgação)

"O homem conhece sob uma luz verdadeira onde não há tempo nem espaço, sem aqui e sem agora."

Existe uma realidade do homem colocada no tempo, na corporeidade, na multiplicidade; mas há também uma realidade diferente (e mais verdadeira), que o situa não no tempo, mas no eterno, não no corpo, mas no espírito, não no múltiplo, mas no Uno.

"Quando Deus fala na alma, Ele e ela são um."

É um dos pontos mais importantes – e difíceis – de Eckhart, argumentar que “a alma e Deus são um”, tema ao qual dediquei um livro com este título específico (2020). Um conceito que pode parecer blasfemo, mas que é especificamente cristão, o do unitis spiritus, como diz São Paulo: “Quem está unido ao Senhor é um só espírito com ele” (1 Cor 6,17).

"A verdade coloca-se num saber único e desprende-se do múltiplo."

O múltiplo é a regio dissimilitudinis alienante de que fala Santo Agostinho, ou seja, o turbilhão de sensações, volições, pensamentos, em que se perde o nosso psiquismo. A luz, a paz, estão no Um.

"O homem habita com Deus numa só luz e portanto não há nele sofrimento nem sucessão."

Estamos sempre no mesmo assunto. Esta frase alude à felicidade de estar no Um, no eterno presente, fora da dimensão alienante do tempo. "Tanto em Deus como na paz", escreve o Mestre.

"A pessoa virgem [...] como Jesus é desapegada, livre e intacta em si mesma."

Eckhart interpreta a virgindade num sentido espiritual, como desapego do ego, do amor próprio. É a condição que Jesus exige de quem quiser segui-lo: “Quem quiser seguir-me, negue-se a si mesmo”, abneget se ipsum, diz o latim da Vulgata.

***

Agora, algumas perguntas para entender melhor. A primeira: que ideia da Trindade Eckhart tem?

Sobre este ponto não há pensamento específico de Eckhart, que se refere ao De Trinitate de Santo Agostinho, com a teoria da Trindade impressa nas faculdades da alma. Mas não devemos pedir a Eckhart uma teologia, isto é, falar de Deus, que é sempre fruto da nossa apropriação: precisamos ir além de cada imagem de Deus, em direção ao fundo da nossa alma, porque ela está aí e só aí que o divino.

O que é “desapego” para Eckhart e como isso é alcançado?

O desapego é a chave de tudo. A própria essência do pensamento, da filosofia desde a sua origem grega, e depois do cristianismo, que, na sua mística, dá continuidade à filosofia clássica, como demonstrou Pierre Hadot. Consegue-se voltando a alma para a verdade, para o Absoluto e, portanto, descobrindo honestamente que tudo o que somos e pensamos é relativo, sujeito ao espaço e ao tempo. Assim se cria um vazio em nossa alma, que se torna receptiva à luz eterna.

Fácil de dizer, talvez mais difícil de conseguir, até porque é um caminho que nunca termina: a cada momento é necessário desapegar-se do egoísmo, que tende incessantemente a reafirmar-se.

O que é o mal para Eckhart e como superá-lo?

Como ensina Santo Agostinho, que sentiu profundamente o problema, a palavra “mal” significa muitas coisas: dor, mal moral, mal ontológico, por assim dizer, ou realidade oposta ao Bem. A especificidade de Eckhart é combater o pensamento do mal neste último aspecto: pensar o mal é pensar que algo não tem causa, e isso é um absurdo. O pensamento do mal é, portanto, um pensamento tolo, sem inteligência.

É claro que isso não significa negar a dor ou o comportamento errado. Igualmente óbvio, o mal moral é superado voltando-se para o Bem.

Que proposições ou ideias foram condenadas em Eckhart?

Primeiro, digo que as proposições condenadas são todas tiradas de contexto. Em sua defesa, Eckhart afirma, portanto, que elas não são de todo heréticas, mas podem ser explicadas de uma forma absolutamente ortodoxa.

Porém, antes de tudo, é condenada a tese da eternidade do mundo, que de fato no pensamento do Um sempre esteve em Deus. Depois, são condenadas algumas proposições que sustentam que o homem bom é o Filho de Deus como Cristo. Outros dizem respeito ao pensamento do mal, como mencionado acima, outros ainda à presença na alma de um componente eterno e incriado. Outros são de importância relativamente menor.

Na introdução deste volume você nota, hoje, além das raízes históricas de Eckhart na tradição cristã platônica e neoplatônica, singulares convergências com a mística oriental (hindu e budista). Como você os explica?

Eckhart estava convencido de que a luz de Deus sempre brilha sobre todos: pagãos, cristãos, etc. Portanto, não precisamos reivindicar um privilégio, pelo qual temos o que os outros não têm ou os antigos não tinham. Mesmo que não existissem as Escrituras, ainda existiria a criatura, e “toda criatura está cheia de Deus e é um livro”: uma frase de profundidade e beleza incomparáveis. Ou seja, a revelação não está no exterior, mas no interior do homem: Ininterno homine habitat veritas, como diz Santo Agostinho.

***

Então, a teologia de Eckhart não torna a própria teologia inútil?

Bem, num certo sentido paradoxal, sim: torna inútil uma suposta ciência de Deus. Não conhecemos Deus como Outro; conhece-se Deus no fundo da alma, tornando-se luz dentro da luz.

A obra de Eckhart não pode aparecer como uma gnose em que o que conta é o esforço do intelectual, do humano, mais do que a graça?

Não, não tem. A graça tem um papel fundamental, como também se pode compreender pelo que foi dito acima: a luz divina, que é graça, sempre se derrama e preenche a alma que criou o vazio necessário para recebê-la. O papel da inteligência é grande, porque é a inteligência que se desprende, pois reconhece sempre o relativo, o finito e, portanto, abre espaço para o Absoluto.

Não é este um pensamento que, para além das intenções de Eckhart, nos distancia do mundo e da boa política?

Esta é uma velha objeção que sempre foi levantada contra os místicos: que eles realizam uma espécie de fuga do mundo. É errado pensar assim; apenas que o místico opera de uma forma profundamente diferente do político.

Por que você acha que Eckhart poderia ser relevante em nossa época?

O que é verdade é atual como sempre, hoje como ontem. Hoje vivemos numa época de grande confusão moral, cultural, existencial, naufragados entre mil propostas psicológicas, teológicas, etc., por isso o ensinamento do Mestre visava, antes de tudo, como dizíamos, ao conhecimento essencial, aquele de nós mesmos, parece particularmente relevante para mim.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/640963-eckhart-a-alma-e-sua-luz-entrevista-com-marco-vannini

A Otan quer a guerra

 

 Foto: Jacquelyn Martin/AP

Em Washington, aliança militar liderada pelos EUA assumiu o giro contra a China, a ampliação do conflito na Ucrânia e o sonho hegemonista dos neocons. O que era arrogância, em 1992, converte-se num delírio muito perigoso. Por quê?

Em 1992, o excepcionalismo da política externa dos EUA tornou-se ainda mais intenso. Os EUA sempre se consideraram uma nação extraordinária, destinada à liderança, e o fim da União Soviética em dezembro de 1991 convenceu um grupo de ideólogos politicamente comprometidos – que vieram a ser conhecidos como neoconservadores ou neocons de que o país deveria agora governar o mundo como a única superpotência incontestável. Apesar dos inúmeros desastres da política externa conduzida pelos neoconservadores, a Declaração da OTAN de 2024 continua a promover a agenda desse pequeno grupo, o que leva o mundo para mais perto de uma guerra nuclear.

Os neoconservadores foram originalmente liderados por Richard (“Dick”) Cheney, que era secretário de Defesa em 1992. Todos os presidentes desde então – Clinton, Bush, Obama, Trump e Biden – seguiram a agenda neocon da hegemonia dos EUA, levando Washington a guerras eletivas perpétuas, entre elas as da Sérvia, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia e Ucrânia, bem como a expansão implacável da OTAN para o leste, apesar de uma promessa clara feita pelos EUA e pela Alemanha ao presidente soviético Mikhail Gorbachev, em 1990, de que a OTAN não se moveria um centímetro nesse rumo.

A ideia central dos neoconservadores é que os EUA devem ter domínio militar, financeiro, econômico e político sobre qualquer rival em potencial, em qualquer parte do mundo. Ela é direcionada especialmente a potências rivais como a China e a Rússia e, portanto, coloca os EUA em confronto direto com elas. A arrogância norte-americana é impressionante: a maior parte do mundo não quer ser liderada pelos EUA, muito menos por um Estado norte-americano claramente movido pelo militarismo, elitismo e ganância.

O plano neocon para o domínio militar dos EUA foi explicitado no Projeto para um Novo Século Americano. Inclui a expansão incessante da OTAN para o leste e sua transformação: de uma aliança defensiva contra a extinta União Soviética em uma aliança ofensiva voltada a promover a hegemonia dos EUA. A indústria armamentista dos EUA é o principal financiador e apoiador político dos neoconservadores. Ela liderou o lobby para a ampliação da OTAN para o leste a partir da década de 1990. Joe Biden tem sido um neocon convicto desde o início – primeiro como senador, depois como vice-presidente e agora como presidente.

Para alcançar a hegemonia, os planos neocon baseiam-se em operações de mudança de regime da CIA; guerras eletivas lideradas pelos EUA; bases militares dos EUA no exterior (atualmente são cerca de 750, em pelo menos 80 países); militarização de tecnologias avançadas (guerra biológica, inteligência artificial, computação quântica etc.); e uso incansável da guerra de informações.

A busca pela hegemonia dos EUA levou a uma guerra aberta na Ucrânia entre as duas maiores potências nucleares do mundo, a Rússia e os Estados Unidos. A guerra na Ucrânia foi provocada pela determinação incontida dos EUA de expandir a OTAN para a Ucrânia, apesar da fervorosa oposição da Rússia, bem como pela participação dos EUA no violento golpe de Maidan (fevereiro de 2014), que derrubou um governo neutro, e pelo enfraquecimento, pelos EUA, do acordo de Minsk II, que garantia autonomia para as regiões etnicamente russas do leste da Ucrânia.

A Declaração de 2024 considera a OTAN uma aliança defensiva, mas os fatos dizem o contrário. A OTAN envolve-se repetidamente em operações ofensivas, inclusive de mudança de regime. A OTAN liderou o bombardeio da Sérvia para dividir essa nação em duas partes, tendo estabelecido uma importante base militar na região separatista de Kosovo. A OTAN tem desempenhado um papel importante em muitas guerras eletivas dos EUA. Os bombardeios da OTAN na Líbia foram usados para derrubar o governo de Moammar Qaddafi.

A busca dos EUA pela hegemonia, que era arrogante e insensata em 1992, é absolutamente ilusória hoje, uma vez que o país claramente enfrenta rivais formidáveis, capazes de competir com os ele no campo de batalha, na implantação de armas nucleares e no desenvolvimento e implantação de tecnologias avançadas. O PIB da China é hoje cerca de 30% maior do que o dos EUA quando medido a preços internacionais, e a China é a produtora e fornecedora mundial de baixo custo de muitas tecnologias verdes essenciais — incluindo 5G, energia fotovoltaica, energia eólica, veículos elétricos, energia nuclear modular e outras. A produtividade da China tornou-se tão grande que os EUA reclamam do “excesso de capacidade” chinês.

Infelizmente, e de forma alarmante, a declaração da OTAN repete as ilusões dos neoconservadores.

A Declaração declara falsamente que “a Rússia é a única responsável por sua guerra de agressão contra a Ucrânia”, apesar das provocações dos EUA que levaram à eclosão da guerra em 2014.

A Declaração da OTAN reafirma o Artigo 10 do Tratado de Washington, segundo o qual a expansão da aliança para o leste não é da conta da Rússia. No entanto, os EUA nunca aceitariam que a Rússia ou a China estabelecessem uma base militar na fronteira dos EUA (por exemplo, no México), como os EUA declararam pela primeira vez na Doutrina Monroe em 1823 e têm reafirmado seguidamente desde então.

A Declaração de 2024 reafirma o compromisso da OTAN com as tecnologias de biodefesa, apesar das crescentes evidências de que os gastos dos EUA com biodefesa nos chamados Institutos Nacionais de Saúde(NIH) financiaram a criação em laboratório do vírus que pode ter causado a pandemia de Covid-19.

A Declaração da OTAN proclama a intenção de continuar a instalar mísseis antibalísticos Aegis (como já se fez na Polônia, Romênia e Turquia), apesar de a retirada dos EUA do Tratado Anti-Mísseis Balísticos (ABM) e a instalação de mísseis Aegis na Polônia e na Romênia terem desestabilizado profundamente a arquitetura de controle de armas nucleares.

A Declaração da OTAN não expressa nenhum interesse em uma paz negociada para a Ucrânia.

A Declaração de 2024 reforça o “caminho irreversível da Ucrânia para a plena integração euro-atlântica, incluindo a adesão à OTAN”. No entanto, a Rússia nunca aceitará a adesão da Ucrânia à OTAN, e portanto trata-se de um compromisso “irreversível” com a guerra.

O Washington Post relata que, na preparação para a cúpula da OTAN, o presidente Joe Biden tinha sérias dúvidas sobre a promessa de um “caminho irreversível” para a adesão da Ucrânia à OTAN, mas seus assessores ignoraram essas preocupações.

Os neoconservadores criaram inúmeros desastres para os EUA e para o mundo, inclusive várias guerras fracassadas, um acúmulo maciço da dívida pública norte-americana impulsionado por trilhões de dólares de gastos militares desnecessários com guerras e o confronto cada vez mais perigoso com a China, a Rússia, o Irã e outros. Os neoconservadores levaram o Relógio do Juízo Final (da guerra nuclear) a apenas 90 segundos para a meia-noite, em comparação com 17 minutos em 1992.

Para o bem da sua segurança e da paz mundial, os EUA devem abandonar imediatamente a busca neocon pela hegemonia em favor da diplomacia e da coexistência pacífica.

Fonte:  https://outraspalavras.net/geopoliticaeguerra/a-otan-quer-a-guerra/

Conservadorismo não é fundamentalismo

Juliano Spyer*

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 A ministra do Meio Ambiente e Mudança Climática, Marina Silva 
- Pedro Ladeira - 2.ago.23/Folhapress

Ódio velado a evangélicos só alimenta a ultradireita religiosa

  • É preciso conversar com os evangélicos ou devemos enfrentá-los? Essa é uma pergunta que está nos corações e mentes de brasileiros que veem com preocupação o crescimento da influência desse grupo no campo político.

Governo precisa de 'bilíngues' para falar com evangélicos, diz sociólogo da religião

 

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Sociólogo especialista em religião e política, Paul Freston afirma que os evangélicos dificilmente vão se aproximar do governo Lula (PT) a partir de políticas públicas ou da melhora na economia.

A reportagem é de Cézar Feitoza e Marinna Holanda, publicada por Folha de S.Paulo e reproduzida por André Vallias em sua página do Facebook, 08-07-2024. 

Para ele, a chave para a aproximação com o segmento é o discurso. "O que precisa, acima de tudo, é de gente bilíngue", disse ele à Folha.

Segundo ele, a esquerda tem preconceito e uma visão massificante sobre os evangélicos, o que precisaria ser abandonado. "Se você não aprender a falar a língua, não vai conseguir mudar as mentalidades."

O acadêmico também avalia o cenário atual da relação de políticos com as igrejas: diz ser perigoso para as próprias igrejas o que classificou como "abraço íntimo" com o populismo. Sobre o aborto, tema de grande repercussão recente, Freston defende que não houve debate sério nas igrejas e que a pauta virou arma para um lado atacar outro.

Inglês naturalizado brasileiro, Freston é professor colaborador do programa de pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos e professor catedrático de religião e política em contexto global na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, em Waterloo, Ontário, Canadá. É autor de vários livros, como "Cristianismo Antigo para Tempos Novos" (Ultimato Editora, 2024).

Eis a entrevista. 

O sr. pesquisa a relação entre religião e política há mais de três décadas. Como os temas se relacionam no Brasil dos últimos anos?

O quadro religioso mudou radicalmente e talvez a gente não tenha se dado conta. Geralmente, quando há uma mudança religiosa rápida no país, ou é por que o Estado agiu para mudar, ou é por causa de imigração maciça de pessoas de outra região.

No caso do Brasil, houve uma mudança rápida, em poucas décadas, que não é fruto da ação do Estado nem de imigração, mas de um processo de conversão que vem basicamente das bases da sociedade, sobretudo nos segmentos sociais menos favorecidos. E isso transformou o país radicalmente.

O pentecostalismo se tornou um ator religioso enorme em pouquíssimo tempo, e também um ator político. A gente tem de ver como as duas coisas se imbricam.

O que torna os pentecostais tão fortes?

São fortes numericamente, para começar. Na redemocratização, os pentecostais vinham crescendo e começaram a perceber que tinham possibilidade de converter esse crescimento numérico em presença política, sem que necessitasse de intermediários.

Mas claro que a gente tem de ver a questão do perfil social. Quando você olha o mapa do crescimento pentecostal no Brasil, vê claramente onde estão as manchas escuras [de maior presença]: nas fronteiras agrícolas e nas periferias de grandes cidades.

Embora os pentecostais hoje abranjam camadas mais diversificadas, ainda assim são, na maioria, pobres, não brancos e femininos. O que é interessante. Porque todo olhar desfavorável ao pentecostalismo que existe por aí não leva isso muito em conta.

O último Datafolha mostrou aumento sutil na rejeição dos evangélicos a Lula. Acha possível o governo se aproximar desse segmento?

Este é um segmento extremamente dividido, mas há uma visão massificante, uniformizante. E assim não tem nenhuma chance de se aproximar.

O governo tem uma visão massificante?

Eu acho que setores da esquerda tradicionalmente têm, sem dúvida, ojeriza. O preconceito existe. A dificuldade para diferenciar as bolas. É tudo bola de sinuca, mas não vê que algumas são vermelhas, outras são azuis. E essas diferenças são teológicas, organizacionais, sociais.

Essa dificuldade de se relacionar com os evangélicos é um problema crônico para a esquerda. O que precisa, acima de tudo, é de gente bilíngue.

Eu sei que há preocupações e iniciativas. O problema agora é que se está correndo muito atrás quando o trem já partiu. Nos anos 2010, você teve aquele sentimento de ameaça diante da aceitação social de outras minorias na sociedade, a crescente pluralização da sociedade. Isso foi criando um sentimento de ameaça [para os evangélicos].

Mas também você teve um sentimento de oportunidade. 'Nós já somos 30% da população. Continuamos crescendo. Então nós temos a possibilidade de fazer mais do que a gente vem fazendo.'

E então surge o bolsonarismo...

[O ex-presidente Jair] Bolsonaro aparece como o grande beneficiário dessa conjuntura. Qual foi a base inicial do movimento dele? Em maioria rico, branco e masculino —todas as pesquisas mostravam isso. Veja bem, o perfil evangélico e principalmente o perfil pentecostal é o extremo oposto disso.

Mas ele percebeu que, para virar um movimento de massas, tinha que ter um pé fincado no meio evangélico. E, veja bem, ele não se converte nem se declara evangélico.

Como tem o vínculo da Michelle [Bolsonaro, que é evangélica], proximidade com gente como [o pastor Silas] Malafaia, o batismo [de Bolsonaro] no rio Jordão... Tudo isso permitiu esse trânsito. E ele consegue lucrar com as vantagens eleitorais da proximidade evangélica sem as desvantagens eleitorais disso.

O ministro dos Direitos Humanos, Sílvio Almeida, participou recentemente de atividade na igreja do pastor Ed René Kivitz, conhecido pela sua posição mais progressista. A esquerda está pregando para convertidos?

Pelo que eu sei, existe um debate dentro da esquerda interessada em se aproximar mais dos evangélicos a respeito da melhor estratégia. Se é melhor cultivar as relações com quem já concorda contigo ou ir atrás de outras lideranças.

Você tem uma certa fração que é bolsonarista até debaixo d'água, e não vai adiantar nada. O que resta? A faixa do meio. Nas últimas eleições, Lula conseguiu algo em torno de 25% a 30% de votos dos evangélicos. Se conseguisse aumentar para 35% ou 40%, já seria um tremendo sucesso.

Parte do governo crê que os evangélicos naturalmente vão voltar a apoiar se a política econômica der certo. O que acha disso?

Uma frase que eu ouvi de alguém que atuou em governos anteriores do PT sobre os evangélicos é que "seus irmãos têm goela larga". A percepção de que você se reúne com esse pessoal e eles vão pedir mundos e fundos. Ou você dá e cria outros problemas, ou você não dá e eles vão alegar perseguição religiosa porque não deu.

Então, uma das estratégias é focar em bases, no pessoal que tem certa projeção, influência. E cultivar.

A aproximação tem de ser pelo discurso?

Eu creio que sim. Tem o que se chama de ad hominem, em latim. O argumento ad hominem é quando você leva em conta onde a outra pessoa está. O posicionamento dela, a linguagem que ela está acostumada a ouvir.

Você parte disso e tenta trazer a pessoa, gentilmente, na sua direção. Mas você não transforma quem está aqui com o discurso ali. Não tem ressonância. Se você não aprender a falar a língua, não vai conseguir mudar as mentalidades.

As lideranças evangélicas foram governistas em todos os governos desde a redemocratização. Agora, são opositoras. Há percepção de que a igreja não precisa mais do governo para conseguir benefícios?

Acho que é cedo para dizer isso porque há uma esperança forte de volta, que o exílio seja curto. A coisa ainda está muito crua para saber que movimento é este: se é o anúncio de uma nova fase em que o situacionismo já não é visto como importante, ou se é outra coisa.

A relação das igrejas com o populismo é perigosa?

Acho que, por várias razões, essa associação muito forte, esse abraço íntimo com o populismo é um perigo para o evangelicalismo no Brasil. Primeiro, porque as raízes do Brasil não são evangélicas, essa é uma religião de crescimento muito recente e ainda minoritária.

Em segundo lugar, aquela tradição de corporativismo eleitoral que vem desde a Constituinte também é posta em perigo pela adesão ao populismo. A bancada evangélica [em 2022] continuou bem forte, mas o número de evangélicos diminuiu. Em parte, o bolsonarismo incorporou várias cadeiras.

A bancada evangélica é representativa mesmo dos evangélicos?

Em certos temas, talvez sim; em outros, não. Tem algumas pesquisas que insinuam que não. A lógica é outra, a bancada tem uma lógica política. O pessoal está agindo de acordo com certas lógicas políticas que nem sempre são compreendidas e muito menos abraçadas pelas bases das igrejas. Eu acho que a representatividade, no máximo, é parcial.

A bancada evangélica pode ser um risco para a laicidade do Estado?

Eu acho que às vezes há um certo abuso dessa frase "ameaça ao Estado laico". A existência em si de bancadas evangélicas não é uma ameaça. Determinadas ações dessas bancadas evangélicas podem ser, como esforços para privilegiar uma determinada religião na esfera pública em detrimento de outras.

Qual a adesão do público evangélico ao PL Antiaborto e sua visão sobre o tema?

Nunca houve um debate sério sobre a questão do aborto no meio evangélico, que pense nas várias dimensões —moral individual, da prática pastoral, da dimensão pública legislativa.

Essa pauta tem sido usada como uma arma para atacar o outro lado. Assim como se diz hoje com essa proposta atual, que seria uma maneira de atacar o governo, de colocar o governo em uma saia justa.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/641197-governo-precisa-de-bilingues-para-falar-com-evangelicos-diz-sociologo-da-religiao

A Terra seria como uma “Placa de Petri”,sinal de nossa extinção?

Leonardo Boff*

 A importância da Placa de Petri para procedimentos com meio de cultura |  Prolab

Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis cientistas, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação.

Tal colapso pode ser verificado com micro-organismos colocados na Placa de Petri (placas de vidro sobrepostas com colônias de bactérias e nutrientes). Por uma espécie de instinto, pouco antes de atingirem as bordas da placa  e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente todas morrem. Nós não estaríamos nesta rota de crescimento exponencial da população humana e expostos a desaparecer? Os dados apontam para essa eventualidade.

A humanidade precisou um milhão de anos para chegar em 1850 a um bilhão de pessoas. A marca de 2 bilhões foi atingida em 1927; a de 3 bilhões em 1960; a de 4 bilhões em 1974; a de 5 bilhões em 1987; a de 6 bilhões em 1999; a de 7 bilhões em 2011; e por fim os 8 bilhões em 2023.Estima-se que por volta de 2050 alcançaremos a meta limite de 10-11 bilhões de habitantes. Isso significa que a humanidade cresceu em 1 bilhão de habitantes a cada 12 a 13 anos, um crescendo de fazer pensar.

É o triunfo inegável de  nossa espécie. Mas é um triunfo que pode ameaçar a nossa sobrevivência no planeta Terra, por efeito da superpopulação e por termos ultrapassado em 64% a capacidade de regeneração do planeta vivo, a Terra.

Para a humanidade, comentam as autoras, em consequência do crescimento crescente e rápido da população, o planeta Terra pode mostrar-se idêntica a uma Placa de Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre, por ser inóspita como os desertos e as altas montanhas nevadas ou rochosas.

Lamentavelmente,segundo vários cientistas, inauguramos uma nova era geológica,o antropoceno. De homicidas, etnocidas e ecocidas nos fizemos biocidas pois somos os que mais ameaçam e destroem a vida da natureza. Sabemos pelas ciências da vida e da Terra que todos os anos desaparecem naturalmente ou pela agressão humana centenas de espécies, depois de terem vivido milhões de anos sobre o planeta.

A extinção de espécies pertence à evolução da própria Terra que  conheceu pelo menos seis grandes misteriosas extinções em massa. Notórias são as do Devoniano há 370-360 milhões de anos que varreu do mapa 70-80% de todas as espécies e aquela do Permiano, de  há 250 milhões de anos, também chama de “A Grande Morte” na qual 95% dos organismos vivos foram extintos. A última, a sexta, está ocorrendo a nossos olhos sob o antropoceno no qual nós humanos, segundo o grande  biólogo falecido E.O.,Wilson extinguimos entre 70-100 mil espécies de organismos vivos.

O fato é que a superpopulação humana tocou nos limites da Terra. Conheceríamos também nós o mesmo destino das bactérias dentro da Placa de Petri, que alcançado um ponto alto de superpopulação, de repente, acabam morrendo?

Pergunta-se, será que no processo evolucionário não chegou  a nossa vez de desaparecer da face da Terra? A hipótese de que o planeta habitado de forma tão acelerada por tantos bilhões de humanos e se ter tornado, efetivamente, uma Placa de Petri ganha todo o sentido.

Somente que desta vez a extinção não seria por um processo natural, mesmo que misterioso, mas pela própria ação humana. Nossa civilização industrialista e sem coração, no afã de poder e de dominação, criou algo absolutamente irracional: o princípio de autodestruição por vários tipos de armas letais de toda a vida também da nossa.

Já temos feito o pior: quando o Filho de Deus se incarnou em nossa carne quente e mortal, nós o rejeitamos, o condenamos por um duplo juízo, um religioso e outro político e o assassinamos, pregando-o na cruz fora da cidade,como sinal de maldição.

Depois desse ato nefasto e ominoso, tudo é possível até a nossa própria autodestruição. Exterminar a nós mesmos é menos grave que matar o próprio Filho de Deus que passou por este mundo somente fazendo o bem.”Veio para o que era seu e os seus não o receberam” constata com infinita tristeza o evangelista João (Jo 1,11).

Mas consolemo-nos: ele ressuscitou, mostrou-se como o “o ser novo”(“novissimus Adam: 2Cor 15,45), já livre de ter que morrer e na plenitude de sua humanidade. Seria uma revolução na evolução e a amostragem antecipada do fim bom de toda a vida.

Para os professantes da fé, cremos e esperamos  que o Spiritus Creator, ainda possa iluminar as mentes humanas para que se conscientizem do risco de desaparecer e acabem voltando à racionalidade cordial, sabendo recuar e definindo um caminho de amorosidade, de piedade e de compaixão  para com todos os seus semelhantes, para coma natureza e para com Mãe Terra. E então teríamos ainda futuro. Assim o queremos e o queira também o Criador.

*Leonardo Boff escreveu Cuidar da Terra – proteger a vida:como escapar do fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010; Cuidar da Casa Comum: pistas para protelar o fim do mundo, Vozes, Petrópolis 2023.

Fonte:  https://leonardoboff.org/2024/07/15/a-terra-seria-como-uma-placa-de-petrisinal-de-nossa-extincao/

Sobre o conceito de história

POR Walter Benjamin

 

 (Wikimedia Commons)

 

Tradução
Sérgio Paulo Rouanet

O crítico literário, filósofo e militante socialista, Walter Benjamin, nasceu neste dia em 1892. Em sua memória, publicamos o ensaio concluído enquanto ele era cercado pelas hordas nazistas que o levaram à morte. Nele, Benjamin trabalha o conceito de História visto do único ponto de vista possível para um revolucionário: o dos oprimidos.

Conhecemos a história de um autômato construído de tal modo que podia responder a cada lance de um jogador de xadrez com um contralance, que lhe assegurava a vitória. Um fantoche vestido à turca, com um narguilé na boca, sentava-se diante do tabuleiro, colocado numa grande mesa. Um sistema de espelhos criava a ilusão de que a mesa era totalmente visível, em todos os seus pormenores.

Na realidade, um anão corcunda se escondia nela, um mestre no xadrez, que dirigia com cordéis a mão do fantoche. Podemos imaginar uma contrapartida filosófica desse mecanismo. O fantoche chamado “materialismo histórico” ganhará sempre. Ele pode enfrentar qualquer desafio, desde que tome a seu serviço a teologia. Hoje, ela é reconhecidamente pequena e feia e não ousa mostrar-se.


“Entre os atributos mais surpreendentes da alma humana”, diz Lotze, “está, ao lado de tanto egoísmo individual, uma ausência geral de inveja de cada presente com relação a seu futuro”. Essa reflexão conduz-nos a pensar que nossa imagem da felicidade é totalmente marcada pela época que nos foi atribuída pelo curso da nossa existência.

A felicidade capaz de suscitar nossa inveja está toda, inteira, no ar que já respiramos, nos homens com os quais poderíamos ter conversado, nas mulheres que poderíamos ter possuído. Em outras palavras, a imagem da felicidade está indissoluvelmente ligada à da salvação.

O mesmo ocorre com a imagem do passado, que a história transforma em coisa sua. O passado traz consigo um índice misterioso, que o impele à redenção. Pois não somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes? Não existem, nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram? Não têm as mulheres que cortejamos irmãs que elas não chegaram a conhecer? Se assim é, existe um encontro secreto, marcado entre as gerações precedentes e a nossa. Alguém na terra está à nossa espera.

Nesse caso, como a cada geração, foi-nos concedida uma frágil força messiânica para a qual o passado dirige um apelo. Esse apelo não pode ser rejeitado impunemente. O materialista histórico sabe disso.


O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido para a história. Sem dúvida, somente a humanidade redimida poderá apropriar-se totalmente do seu passado.

Isso quer dizer: somente para a humanidade redimida o passado é citável, em cada um dos seus momentos. Cada momento vivido transforma-se numa citation à l’ordre du jour – e esse dia é justamente o do juízo final.


Lutai primeiro pela alimentação e pelo vestuário,
e em seguida o reino de Deus virá por si mesmo
Hegel, 1807

A luta de classes, que um historiador educado por Marx jamais perde de vista, é uma luta pelas coisas brutas e materiais, sem as quais não existem as refinadas e espirituais. Mas na luta de classes essas coisas espirituais não podem ser representadas como despojos atribuídos ao vencedor.

Elas se manifestam nessa luta sob a forma da confiança, da coragem, do humor, da astúcia, da firmeza, e agem de longe, do fundo dos tempos. Elas questionarão sempre cada vitória dos dominadores. Assim como as flores dirigem sua corola para o sol, o passado, graças a um misterioso heliotropismo, tenta dirigir-se para o sol que se levanta no céu da história.

O materialismo histórico deve ficar atento a essa transformação, a mais imperceptível de todas.


A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido.

“A verdade nunca nos escapará” – essa frase de Gottfried Keller caracteriza o ponto exato em que o historicismo se separa do materialismo histórico. Pois irrecuperável é cada imagem do passado que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela.


Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso. O perigo ameaça tanto a existência da tradição como os que a recebem. Para ambos, o perigo é o mesmo: entregar-se às classes dominantes, como seu instrumento.

Em cada época, é preciso arrancar a tradição ao conformismo, que quer apoderar-se dela. Pois o Messias não vem apenas como salvador; ele vem também como o vencedor do Anticristo. O dom de despertar no passado as centelhas da esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer.


Pensa na escuridão e no grande frio
Que reinam nesse vale, onde soam lamentos.
Brecht, Ópera dos três vinténs

Fustel de Coulanges recomenda ao historiador interessado em ressuscitar uma época que esqueça tudo o que sabe sobre fases posteriores da história. Impossível caracterizar melhor o método com o qual rompeu o materialismo histórico. Esse método é o da empatia. Sua origem é a inércia do coração, a acedia, que desespera de apropriar-se da verdadeira imagem histórica, em seu relampejar fugaz.

Para os teólogos medievais, a acedia era o primeiro fundamento da tristeza. Flaubert, que a conhecia, escreveu: “Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage“. A natureza dessa tristeza se tomará mais clara se nos perguntarmos com quem o investigador historicista estabelece uma relação de empatia. A resposta é inequívoca: com o vencedor.

Ora, os que num momento dado dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores. Isso diz tudo para o materialista histórico. Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais.

O materialista histórico os contempla com distanciamento. Pois todos os bens culturais que ele vê têm uma origem sobre a qual ele não pode refletir sem horror. Devem sua existência não somente ao esforço dos grandes gênios que os criaram, como à corvéia anônima dos seus contemporâneos.

Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie. E, assim como a cultura não é isenta de barbárie, não o é, tampouco, o processo de transmissão da cultura. Por isso, na medida do possível, o materialista histórico se desvia dela. Considera sua tarefa escovar a história a contrapelo.


A tradição dos oprimidos nos ensina que o “Estado de exceção” em que vivemos é na verdade a regra geral. Precisamos construir um conceito de história que corresponda a essa verdade. Nesse momento, perceberemos que nossa tarefa é originar um verdadeiro Estado de exceção; com isso, nossa posição ficará mais forte na luta contra o fascismo.

Este se beneficia da circunstância de que seus adversários o enfrentam em nome do progresso, considerado como uma norma histórica. O assombro com o fato de que os episódios que vivemos no século XX “ainda” sejam possíveis, não é um assombro filosófico. Ele não gera nenhum conhecimento, a não ser o conhecimento de que a concepção de história da qual emana semelhante assombro é insustentável.


Minhas asas estão prontas para o vôo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo.
Gerhard Scholem, Saudação do anjo

Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas.

O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las.

Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.


Os temas que as regras do claustro impunham à meditação dos monges tinham como função desviá-los do mundo e das suas pompas. Nossas reflexões partem de uma preocupação semelhante. Neste momento, em que os políticos nos quais os adversários do fascismo tinham depositado as suas esperanças jazem por terra e agravam sua derrota com a traição à sua própria causa, temos que arrancar a política das malhas do mundo profano, em que ela havia sido enredado por aqueles traidores.

Nosso ponto de partida é a idéia de que a obtusa fé no progresso desses políticos, sua confiança no “apoio das massas” e, finalmente, sua subordinação servil a um aparelho incontrolável são três aspectos da mesma realidade. Estas reflexões tentam mostrar como é alto o preço que nossos hábitos mentais têm que pagar quando nos associamos a uma concepção da história que recusa toda cumplicidade com aquela à qual continuam aderindo esses políticos.


O conformismo, que sempre esteve em seu elemento na social-democracia, não condiciona apenas suas táticas políticas, mas também suas idéias econômicas. É uma das causas do seu colapso posterior. Nada foi mais corruptor para a classe operária alemã que a opinião de que ela nadava com a corrente.

O desenvolvimento técnico era visto como o declive da corrente, na qual ela supunha estar nadando. Daí só havia um passo para crer que o trabalho industrial, que aparecia sob os traços do progresso técnico, representava uma grande conquista política.

A antiga moral protestante do trabalho, secularizada, festejava uma ressurreição na classe trabalhadora alemã. O Programa de Gotha já continha elementos dessa confusão. Nele, o trabalho é definido como “a fonte de toda riqueza e de toda civilização”. Pressentindo o pior, Marx replicou que o homem que não possui outra propriedade que a sua força de trabalho está condenado a ser “o escravo de outros homens, que se tornaram… proprietários”.

Apesar disso, a confusão continuou a propagar-se, e pouco depois Josef Dietzgen anunciava: “O trabalho é o Redentor dos tempos modernos… No aperfeiçoamento… do trabalho reside a riqueza, que agora pode realizar o que não foi realizado por nenhum salvador”.

Esse conceito de trabalho, típico do marxismo vulgar, não examina a questão de como seus produtos podem beneficiar trabalhadores que deles não dispõem. Seu interesse se dirige apenas aos progressos na dominação da natureza, e não aos retrocessos na organização da sociedade. Já estão visíveis, nessa concepção, os traços tecnocráticos que mais tarde vão aflorar no fascismo. Entre eles, figura uma concepção da natureza que contrasta sinistramente com as utopias socialistas anteriores a março de 1848.

O trabalho, como agora compreendido, visa uma exploração da natureza, comparada, com ingênua complacência, à exploração do proletariado. Ao lado dessa concepção positivista, as fantasias de um Fourier, tão ridicularizadas, revelam-se surpreendentemente razoáveis. Segundo Fourier, o trabalho social bem organizado teria entre seus efeitos que quatro luas iluminariam a noite, que o gelo se retiraria dos pólos, que a água marinha deixaria de ser salgada e que os animais predatórios entrariam a serviço do homem.

Essas fantasias ilustram um tipo de trabalho que, longe de explorar a natureza, libera as criações que dormem, como virtualidades, em seu ventre. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde o conceito complementar de uma natureza, que segundo Dietzgen, “está ali, grátis”.


Precisamos da história, mas não como precisam dela
os ociosos que passeiam no jardim da ciência.
Nietzsche, Vantagens e desvantagens da história para a vida

O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe combatente e oprimida. Em Marx, ela aparece como a última classe escravizada, como a classe vingadora que consuma a tarefa de libertação em nome das gerações de derrotados. Essa consciência, reativada durante algum tempo no movimento espartaquista, foi sempre inaceitável para a socialdemocracia.

Em três decênios, ela quase conseguiu extinguir o nome de Blanqui, cujo eco abalara o século passado. Preferiu atribuir à classe operária o papel de salvar gerações futuras. Com isso, ela a privou das suas melhores forças.

A classe operária desaprendeu nessa escola tanto o ódio como o espírito de sacrifício. Porque um e outro se alimentam da imagem dos antepassados escravizados, e não dos descendentes liberados.


Nossa causa está cada dia mais clara
e o povo cada dia mais esclarecido.
Josef Dietzgen, Filosofia social-democrata

A teoria e, mais ainda, a prática da social-democracia foram determinadas por um conceito dogmático de progresso sem qualquer vínculo com a realidade. Segundo os socialdemocratas, o progresso era, em primeiro lugar, um progresso da humanidade em si, e não das suas capacidades e conhecimentos.

Em segundo lugar, era um processo sem limites, idéia correspondente à da perfectibilidade infinita do gênero humano.

Em terceiro lugar, era um processo essencialmente automático, percorrendo, irresistível, uma trajetória em flecha ou em espiral.

Cada um desses atributos é controvertido e poderia ser criticado. Mas, para ser rigorosa, a crítica precisa ir além deles e concentrar-se no que lhes é comum. A idéia de um progresso da humanidade na história é inseparável da idéia de sua marcha no interior de um tempo vazio e homogêneo. A crítica da idéia do progresso tem como pressuposto a crítica da idéia dessa marcha.


A Origem é o Alvo.
Karl Kraus, Palavras em verso

A história é objeto de uma construção cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de “agoras”. Assim, a Roma antiga era para Robespierre um passado carregado de “agoras”, que ele fez explodir do continuum da história.

A Revolução Francesa se via como uma Roma ressurreta. Ela citava a Roma antiga como a moda cita um vestuário antigo. A moda tem um faro para o atual, onde quer que ele esteja na folhagem do antigamente. Ela é um salto de tigre em direção ao passado. Somente, ele se dá numa arena comandada pela classe dominante. O mesmo salto, sob o livre céu da história, é o salto dialético da Revolução, como o concebeu Marx.


A consciência de fazer explodir o continuum da história é própria às classes revolucionárias no momento da ação. A Grande Revolução introduziu um novo calendário. O dia com o qual começa um novo calendário funciona como um acelerador histórico.

No fundo, é o mesmo dia que retorna sempre sob a forma dos dias feriados, que são os dias da reminiscência. Assim, os calendários não marcam o tempo do mesmo modo que os relógios. Eles são monumentos de uma consciência histórica da qual não parece mais haver na Europa, há cem anos, o mínimo vestígio.

A Revolução de julho registrou ainda um incidente em que essa consciência se manifestou. Terminado o primeiro dia de combate, verificou-se que em vários bairros de Paris, independentes uns dos outros e na mesma hora, foram disparados tiros contra os relógios localizados nas torres. Uma testemunha ocular, que talvez deva à rima a sua intuição profética, escreveu:

“Qui le croirait! on dit qu’irrités contre l’heure
De nouveaux Josués, au pied de chaque tour,
Tiraient sur les cadrans pour arrêter le jour.”


O materialista histórico não pode renunciar ao conceito de um presente que não é transição, mas pára no tempo e se imobiliza. Porque esse conceito define exatamente aquele presente em que ele mesmo escreve a história.

O historicista apresenta a imagem “eterna” do passado, o materialista histórico faz desse passado uma experiência única. Ele deixa a outros a tarefa de se esgotar no bordel do historicismo, com a meretriz “era uma vez”. Ele fica senhor das suas forças, suficientemente viril para fazer saltar pelos ares o continuum da história.


O historicismo culmina legitimamente na história universal. Em seu método, a historiografia materialista se distancia dela talvez mais radicalmente que de qualquer outra.

A história universal não tem qualquer armação teórica. Seu procedimento é aditivo. Ela utiliza a massa dos fatos, para com eles preencher o tempo homogêneo e vazio. Ao contrário, a historiografia marxista tem em sua base um princípio construtivo. Pensar não inclui apenas o movimento das idéias, mas também sua imobilização. Quando o pensamento pára, bruscamente, numa configuração saturada de tensões, ele lhes comunica um choque, através do qual essa configuração se cristaliza enquanto mônada.

O materialista histórico só se aproxima de um objeto histórico quando o confronta enquanto mônada. Nessa estrutura, ele reconhece o sinal de uma imobilização messiânica dos acontecimentos, ou, dito de outro modo, de uma oportunidade revolucionária de lutar por um passado oprimido. Ele aproveita essa oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história; do mesmo modo, ele extrai da época uma vida determinada e, da obra composta durante essa vida, uma obra determinada.

Seu método resulta em que na obra o conjunto da obra, no conjunto da obra a época e na época a totalidade do processo histórico são preservados e transcendidos. O fruto nutritivo do que é compreendido historicamente contém em seu interior o tempo, como sementes preciosas, mas insípidas.


“Comparados com a história da vida orgânica na Terra”, diz um biólogo contemporâneo, “os míseros 50.000 anos do Homo sapiens representam algo como dois segundos ao fim de um dia de 24 horas. Por essa escala, toda a história da humanidade civilizada preencheria um quinto do último segundo da última hora.

O “agora”, que como modelo do messiânico abrevia num resumo incomensurável a história de toda a humanidade, coincide rigorosamente com o lugar ocupado no universo pela história humana.

Apêndice

O historicismo se contenta em estabelecer um nexo causal entre vários momentos da história. Mas nenhum fato, meramente por ser causa, é só por isso um fato histórico. Ele se transforma em fato histórico postumamente, graças a acontecimentos que podem estar dele separados por milênios.

O historiador consciente disso renuncia a desfiar entre os dedos os acontecimentos, como as contas de um rosário. Ele capta a configuração, em que sua própria época entrou em contato com uma época anterior, perfeitamente determinada.

Com isso, ele funda um conceito do presente como um “agora” no qual se infiltraram estilhaços do messiânico.


Certamente, os adivinhos que interrogavam o tempo para saber o que ele ocultava em seu seio não o experimentavam nem como vazio nem como homogêneo. Quem tem em mente esse fato, poderá talvez ter uma idéia de como o tempo passado é vivido na rememoração: nem como vazio, nem como homogêneo.

Sabe-se que era proibido aos judeus investigar o futuro. Ao contrário, a Torá e a prece se ensinam na rememoração. Para os discípulos, a rememoração desencantava o futuro, ao qual sucumbiam os que interrogavam os adivinhos. Mas nem por isso o futuro se converteu para os judeus num tempo homogêneo e vazio. Pois nele cada segundo era a porta estreita pela qual podia penetrar o Messias.

Sobre os autores

foi um ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão. Associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tanto por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo místico judaico de Gershom Scholem.

Fonte:  https://jacobin.com.br/2021/07/sobre-o-conceito-de-historia/

Se o ódio responde ao ódio

Por

Vanaresi, dezembro 2010

Se o ódio responder ao ódio, o ódio nunca cessará. "A que aprouer a

O Buda de Shakyamouni

Nos dias trágicos em que vivemos, é importante sublinhar que se pode experimentar uma profunda aversão à barbárie e ao fanatismo e fazer todo o possível para frutá-los, sem sucumbir ao ódio.

Pode-se experimentar uma repulsa ilimitada em relação aos delitos cometidos por um indivíduo ou por um grupo de indivíduos, bem como uma tristeza insondável em relação ao sofrimento que engendraram, sem ceder ao desejo de vingança.

Acredita-se amplamente que responder ao mal com fúria e violência é uma resposta “humana”, ditada pelo sofrimento e pela necessidade de justiça. Mas não é uma verdadeira humanidade sobre evitar a reação com ódio? Em 1993, na África do Sul, uma adolescente americana foi morta na rua por cinco bandidos. Durante o julgamento, os pais da vítima, ambos os advogados, disseram aos principais agressores, olhando-os diretamente nos olhos: “Nós não queremos fazer com você o que você fez com nossa filha. Esta atitude não tem nada a ver com fraqueza, covardia ou qualquer compromisso. É possível ter uma consciência aguda da natureza intolerável de uma situação e a necessidade de remediá-la, sem ser impulsionado pelo ódio.

Caso contrário, como Gandhi disse com força: “Se você pratica olho por olho, dente por dente, o mundo inteiro logo será cego e sem dentes. "A que aproceda a -pe aprocedar" - "Aí apro-lo a que aprocedar."

Uma vez ouvi na televisão japonesa um político dizer a um de seus oponentes no meio da sessão da Assembleia Nacional: “Você pode morrer um milhão de vezes? Para quem pensa apenas em vingança, mesmo que seu inimigo possa morrer um milhão de vezes, isso ainda não seria suficiente, porque o propósito da vingança não é aliviar nossa dor, mas infligir sofrimento aos outros. Como isso pode nos ajudar a recuperar nossa paz interior e dignidade?

Ouçamos a voz de Etty Hillesum, que perece num campo de concentração nazis: "E estamos a falar de exterminar, é melhor exterminar o mal no homem, não o próprio homem. "A que aprouquenta. - "Aí aprouquentas a que aprour em causa."

Nunca devemos esquecer que não pode haver desarmamento externo sem desarmamento interno.

1. https://pt.wikipedia.org/wiki/Amy-Biehl

Fonte:  https://www.matthieuricard.org/si-la-haine-repond-a-la-haine/

 

IA Generativa poderá automatizar 30% das horas de trabalho até 2030


Num contexto de mercados de trabalho cada vez mais sob pressão e de abrandamento da produtividade, a Europa e os EUA enfrentam mudanças significativas na procura de mão de obra e de competências, impulsionadas pela Inteligência Artificial (IA) e pela automação de processos.

O novo estudo publicado pelo McKinsey Global Institute (MGI), intitulado A new future of work: The race to deploy AI and raise skills in Europe and beyond, revela que, num cenário de adoção, em termos médios, da IA generativa, será possível automatizar até 30% das horas de trabalho atuais graças a esta tecnologia, até 2030.

À medida que esta tecnologia continua a revolucionar o mercado de trabalho, a procura de profissionais com novas competências irá evoluir em conformidade. Nos setores de STEM e da saúde, prevê-se que a procura por profissionais aumente 18 a 30% até 2030. Em contraciclo, os empregos nos setores da produção, do apoio ao cliente e das vendas deverão diminuir até 2030.

«Para se manterem competitivas, as empresas terão de se focar na formação e nos processos de reskilling dos seus colaboradores», afirma Benjamim Vieira, sócio da McKinsey. «Prevê-se que a procura por competências tecnológicas, sociais e emocionais venha a aumentar, enquanto as competências físicas, manuais e cognitivas básicas irão diminuir nos próximos tempos. Além disso, foi identificada uma carência de competências avançadas em TI, análise de dados, pensamento crítico e criatividade, que obrigará a uma requalificação global da força de trabalho existente», acrescenta.

O estudo refere que, num cenário a médio-prazo, as empresas e organizações irão enfrentar mudanças profissionais significativas, com cerca de 12 milhões de profissionais a mudar de emprego, tanto na Europa como nos EUA. Isto significa uma mudança ao dobro do ritmo pré-pandémico, o que irá afetar particularmente as classes com salários mais baixos, que irão necessitar de novas competências para conseguirem ambicionar empregos mais bem remunerados.

Crescimento da produtividade até 3%

A análise da McKinsey sugere que a adoção acelerada da IA Generativa, associada a uma deslocalização proativa dos trabalhadores, poderá ajudar a Europa a atingir uma taxa de crescimento anual da produtividade na ordem dos 3% até 2030.

No entanto, a adoção lenta poderá limitar este crescimento aos 0,2%, mais próximo do atual nível de produtividade na Europa Ocidental. Segundo o estudo, esta transição irá requerer não só novas competências técnicas e de engenharia, como também uma maior adaptabilidade da força de trabalho às novas funções.

Por último, o estudo destaca quatro prioridades fundamentais para os líderes empresariais no contexto da automatização e da IA Generativa. Em primeiro lugar, compreender o potencial destas tecnologias para melhorar e automatizar o trabalho. Em segundo lugar, planear estrategicamente a transição da força de trabalho. Por outro lado, dar prioridade ao desenvolvimento do talento adequado e, em último lugar, dar continuidade à formação sobre tecnologias de automatização para maximizar o seu impacto na empresa.

 https://lidermagazine.sapo.pt/ia-generativa-podera-automatizar-30-das-horas-de-trabalho-ate-2030/

“Uma polegada de uma potencial guerra civil” – quase acidente no tiroteio de Trump também é um apelo acirrada pela democracia american

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O que acabamos de ver, para muitas pessoas da extrema direita, se encaixa muito bem em uma narrativa que eles já construíram e disseminaram nos últimos meses.

A white man with a bloodied face raises his fist as he is surrounded by men in darks suits and sun glasses.
Donald Trump é levado às pressas para fora do palco pelos EUA Agentes do Serviço Secreto durante um comício em 13 de julho de 2024, em Butler, Pensilvânia. Anna Moneymaker/Getty ImagesTradução

Tentativas de assassinato político não visam apenas matar alguém. Eles têm um objetivo maior, não é mesmo?

De muitas maneiras, as tentativas de assassinato ignoram o longo processo de tentar rebaixar e derrotar oponentes políticos, quando há uma sensação de que mesmo uma longa luta política não será suficiente. Muitos perpetradores veem os assassinatos como uma ferramenta que lhes permitirá alcançar seus objetivos políticos de uma maneira muito rápida e muito eficaz que não exige muitos recursos ou muita organização. Se estamos tentando conectá-lo ao que vimos hoje, acho que muitas pessoas veem Trump como um unicórnio, como uma entidade única, que de muitas maneiras realmente consumiu todo o movimento conservador. Então, ao removê-lo, há uma sensação de que isso resolverá ou pode resolver o problema.

Eu acho que o movimento conservador mudou drasticamente desde 2016, quando Trump foi eleito pela primeira vez, e muitas das características do trumpismo são, na verdade, agora bastante populares em diferentes partes do movimento conservador. Então, mesmo que Trump decida se aposentar em algum momento, não acho que o trumpismo – como um conjunto de ideias populistas – desaparecerá do Partido Republicano. Mas eu posso definitivamente entender por que as pessoas que vêem isso como uma ameaça vão sentir que remover Trump pode resolver todos os problemas.

Em um estudo das causas e impactos do assassinato político, você escreveu que, a menos que os processos eleitorais possam abordar “as queixas políticas mais intensas ... a competição eleitoral tem o potencial de instigar mais violência, incluindo os assassinatos de figuras políticas”. É isso que viu nesta tentativa de assassinato?

A democracia não pode funcionar se os diferentes partidos, os diferentes movimentos, não estiverem dispostos a trabalhar juntos em algumas questões. A democracia funciona quando vários grupos estão dispostos a chegar a algum tipo de consenso por meio de negociações, para colaborar e cooperar.

O que vimos nos últimos 17 anos, basicamente desde 2008 e a ascensão do movimento Tea Party, é que há uma crescente polarização nos EUA. E a pior parte dessa polarização é que o sistema político americano se tornou disfuncional no sentido de que estamos forçando a saída de quaisquer políticos e formuladores de políticas que estejam interessados em colaboração com o outro lado. Isso é uma coisa. Segundo, as pessoas deslegitimam líderes que estão dispostos a colaborar com o outro lado, portanto, apresentando-os como indivíduos que traíram seus valores e partido político.

A terceira parte é que as pessoas estão deslegitimando seus rivais políticos. Eles transformam um desacordo político em uma guerra em que não há espaço para trabalhar juntos para enfrentar os desafios que eles concordam que estão enfrentando a nação.

Quando você combina essas três dinâmicas, você cria basicamente um sistema disfuncional onde ambos os lados estão convencidos de que é um jogo de soma zero, que é o fim do país. É o fim da democracia se o outro lado vencer.

Se ambos os lados estão martelando as pessoas de novo e de novo que perder uma eleição é o fim do mundo, então não é uma surpresa que, eventualmente, as pessoas estejam dispostas a tomar a lei em suas mãos e se envolver em violência.

 *Diretora de Estudos de Segurança e Professor de Estudos de Criminologia e Justiça, UMass Lowell 

Fonte: https://theconversation.com/one-inch-from-a-potential-civil-war-near-miss-in-trump-shooting-is-also-a-close-call-for-american-democracy-234628 -TRADUÇÃO / GOOGLE, sem correção.

OBS: Pode ser lida em português aqui: https://neofeed.com.br/insiders/a-um-centimetro-de-uma-potencial-guerra-civil-os-ecos-da-tentativa-de-assassinato-de-trump/

Como criar modelos de futuro

 

 Máscara de luz vermelha em exibição na CES, feira em Las Vegas - 
  Brendan Smialowski - 11.jan.24/AFP

Menos aleatório do que parece, futuro pode ser tratado com cientificidade

Em período eleitoral, o futuro cai na boca do povo. Diversos institutos divulgam suas estimativas, enquanto agregadores geram metatendências, a partir do reprocessamento desses resultados, levando em conta a relevância do instituto, o método utilizado e outras coisas mais.

A grande referência atual é Nate Silver, que abandonou a consultoria para jogar pôquer, no início dos anos 2000, mas ganhou notoriedade pela precisão de suas estatísticas, inicialmente para baseball e depois para política.

Em seu livro mais famoso, "O Sinal e o Ruído", de 2012, o estatístico americano destacou sua predileção pela inferência bayesiana, um método que atribui probabilidades condicionais a eventos e as atualiza conforme novas informações surgem. Embora não seja a abordagem tradicional em neurociências, meu campo de origem, a considero a mais relevante para refletir sobre ocorrências futuras no mundo social e tecnológico, áreas em que o conhecimento prévio e a flexibilidade para atualizar crenças são indispensáveis.

Nate se tornou mundialmente conhecido em 2008, quando previu com precisão o resultado das eleições nacionais americanas em 49 dos 50 estados. Ele cravou novos acertos em 2012 e em várias outras ocasiões, usando uma metodologia adaptada das ciências biomédicas.

No momento da publicação deste artigo, atribui mais de 65% de chance de vitória a Donald Trump sobre Joe Biden nas eleições deste ano, uma previsão que precisa ser tomada com cautela dado que o candidato democrata pode mudar, especialmente após trocar o nome de sua vice pelo de seu concorrente e chamar Zelenski de Putin, justamente quando precisava provar que não está sofrendo de demência.

Entre as várias boas ideias de Nate, está a noção de que os elementos usados em projeções mudam com o tempo. Em uma corrida eleitoral, por exemplo, indicadores econômicos são apenas informativos quando o pleito está distante. À medida que este se aproxima, as pesquisas de opinião tornam-se predominantemente determinantes.

Outra ideia importante é a distinção entre previsões e estimativas, sendo as previsões abertas a múltiplos desfechos e as estimativas definidas estatisticamente a partir de opções específicas. Conforme esclarece em seu livro de 2012, ele prefere se ocupar dessas últimas.

Ocorre que os desafios em que criar opções é essencial costumam superar em relevância aqueles em que a cartela de desfechos é definida de antemão. Em geral, problemas mais imediatos tendem a ser tratados com as opções disponíveis, enquanto problemas projetados para anos à frente são enfrentados de forma mais criativa, utilizando estratégias que mitiguem as chances de concretização dos piores prognósticos.

Um exemplo é o aquecimento global. Uma pesquisa com especialistas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) mostrou que quase 80% projetam que a temperatura subirá 2,5°C em relação aos níveis pré-industriais durante este século, sendo que muitos preveem um aumento de 3°C. Este último valor é considerado o ponto de virada, a partir do qual as consequências, dramáticas, irão se tornar irreversíveis.

Esses números não representam estimativas no sentido em que Nate Silver as concebe, mas sinalizadores da necessidade de mudanças produtivas e comportamentais para evitar que o prognóstico se materialize. Se você fizer um levantamento com autores de artigos que indicam subida de 3°C, provavelmente encontrará alguns com planos de ter filhos.

Os problemas que mais me interessam são justamente esses em que a construção de opções é meio caminho andado. Porém, como sair do domínio do imponderável, injetando cientificidade no processo de construção de cenários e atribuição de risco?

A saída que eu vejo é seguir alguns princípios, começando pela separação das previsões em rígidas e flexíveis, sendo as rígidas sobre o que tende a acontecer e as flexíveis sobre o que pode acontecer. Muitas previsões atingem seu objetivo quando negadas pelos fatos, ou melhor, pelo esforço para a sua evitação.

Outro princípio é sobre os limites do que podemos conceber, ou seja, sobre a natureza das conjecturas. Previsão é o processo de atribuição de chances de realização a cenários hipotéticos. Seu domínio intelectual principal não é a análise de risco, mas a imaginação, que opera por mapeamentos e paralelismos.

A imaginação consiste menos em fabricar representações a partir de bits do que em recombinar imagens e ideias. Fazendo um paralelo com as ciências biológicas, a imaginação é menos o processo de criar células a partir de moléculas e mais o de criar tecidos a partir de células.

O presidente informa que a unidade de negócios em que você trabalha será fechada. Você pode se mudar para Belo Horizonte ou ir embora. Quase imediatamente, você começa a criar cenários mentais sobre essa situação. O fato de nunca ter passado mais do que uma semana na capital mineira de forma alguma o bloqueia. Como isso é possível? A chave está no fato de que cenários futuros são compostos de analogias autobiográficas. Registros do passado fornecem os elementos recombinantes das projeções do amanhã. Até as áreas cerebrais envolvidas são as mesmas.

A consequência é que a criatividade para conceber alternativas é fortemente influenciada pela variedade e profundidade do repertório que se possui. Ninguém é capaz de pensar além dos limites da sua própria realidade, e nenhuma cultura pode se orientar de forma verdadeiramente nova sem a influência direta de outra. Até o helicóptero de Leonardo da Vinci se encaixa aqui.

O mesmo pode ser dito sobre o que sentimos enquanto refletimos em antecipação. A angústia atribuída ao risco de desaparecimento dos empregos devido à inteligência artificial, por exemplo, apenas reativa angústias latentes e manifestas do tempo presente.

Esses princípios iniciais nada informam sobre como fazer previsões melhores. Seu papel é servir de introdução à aplicação dos que tratam diretamente da maneira como o mundo tende a ser.

Neste segundo domínio, um princípio que trago comigo é o de que o passado é o melhor proxy para o futuro. É ele que está por trás dos milhões de reais investidos anualmente por bancos e seguradoras em algoritmos decisórios.

Mesmo quem acha que discorda, na prática, tende a concordar. Imagine que você precise indicar onde encontraremos a maior propensão per capita para cometer crimes em dez anos. Qual seria a sua resposta? Para mim, é óbvia: na cadeia. Ainda que ocorra uma revolução na ressocialização de presos, a chance de reincidência criminal deverá continuar muito superior à de que um crime seja cometido por uma pessoa sem histórico criminal.

Se você não tem a menor ideia do que pode acontecer, parta da hipótese de que as coisas podem simplesmente continuar como estão no nível mais essencial. O problema é que esse raciocínio tem limites; não fosse o caso, a realidade atual seria parecida com a de 1970. Portanto, acrescento um ajuste a ser aplicado quando se tem ideia do terreno em que se está pisando: tudo se transforma, mas as velocidades variam. Quem acha que o mundo está sendo virado de cabeça para baixo tende a errar por excesso de abrangência, enquanto quem acha que nada muda tende a errar pela razão oposta.

Um fundo de investimentos quer saber quais empresas do seu portfólio têm mais chances de lograr êxito em cinco anos. Elas estão divididas da seguinte forma: uma parte é de softwares na nuvem para empresas (SaaS), outra parte é de sistemas de pagamento, uma terceira é composta de marketplaces, mas há também ecommerces e marketing de afiliados, que é o modelo dos influencers. Minha resposta é simples: SaaS, sistemas de pagamento e marketplaces têm boas chances, enquanto ecommerces e marketing de afiliados têm chances bem menores.

Mas como? Qual é a tese sobre o futuro dos mercados que sustenta essa afirmação? É simples: modelos de negócio, sem dúvidas, estão em transformação, mas de forma lenta —muito mais lenta do que os modelos de produtos. Isso favorece a hipótese da convergência ao status quo no intervalo definido.

Os três primeiros modelos de negócios concentram mais de 75% dos atuais casos sucesso de aceleradoras de negócios de referência, como a Y Combinator, enquanto ecommerces e plataformas de afiliados não chegam a 5% do portfólio de acertos.

Outro princípio de natureza empírica que aplico é que toda tendência tende a trazer a semente do seu oposto —um princípio de inspiração hegeliana. Por exemplo, a pandemia fez as massas urbanas perceberem que muitas de suas relações presenciais são pura perda de tempo. Isso levou à crescente valorização do online, o que não tardou a estimular um novo movimento, em que o presencial passou a ser hipervalorizado.

Hoje em dia, quando me perguntam se acho que investir em eventos online é uma boa, digo que não —a tendência do momento é o presencial. Já a médio prazo, acho o oposto.

Também na esfera dos princípios oriundos da filosofia da história, desenvolvi um sobre a relação entre o clima psicossocial dominante e o potencial de uma inovação, que pode ser resumido da seguinte forma: o verdadeiro responsável pelos sucessos maciços do nosso tempo não é a tecnologia, muito menos o marketing, mas as visões de mundo em ascensão no período.

Durante a pandemia, surgiram várias redes sociais de áudio, um formato que funciona melhor de maneira síncrona, sendo ideal para quem está entediado em casa, mas não para quem tem poucas janelas temporais longas para preencher. Bastava refletir sobre isso para perceber que suas chances de consolidação, amplamente divulgadas, eram baixas.

Em contraste, a digitalização da experiência abriu espaço para a interação com avatares. Hoje, o metaverso tornou-se motivo de chacota, mas deixo registrado que acredito que a visão de Mark Zuckerberg tende a se realizar, ainda que muitos anos após sua previsão.

Fecho o inventário de princípios com este: as mudanças planejadas sempre demoram muito mais do que se pressupõe, enquanto a dinâmica da transformação, após engatar, tende a ser mais veloz do que jamais imaginado.

* Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/alvaro-machado-dias/2024/07/como-criar-modelos-de-futuro.shtml