segunda-feira, 31 de julho de 2023

Homeopatia, acupuntura e psicanálise são falsificações da ciência, diz Natalia Pasternak

Uirá Machado - São Paulo

Mulher ruiva e homem de barba grisalha e óculos posam abraçados
 Natalia Pasternak e Carlos Orsi, autores de "Que Bobagem!" - Divulgação

Livro 'Que Bobagem!', da microbiologista e do jornalista Carlos Orsi, critica o que chamam de pseudociências

É fácil, para quem vive numa bolha progressista, criticar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por sua insistência nada científica no uso de ivermectina e cloroquina contra a Covid-19. Bem mais difícil é criticar, também como nada científicas, práticas como homeopatia, astrologia, acupuntura e –atenção— psicanálise.

Pois é o que fazem a microbiologista Natalia Pasternak e o jornalista Carlos Orsi no recém-lançado "Que Bobagem! Pseudociências e Outros Absurdos que Não Merecem Ser Levados a Sério" (ed. Contexto).

"A gente sabia que o título ia incomodar", afirma Pasternak, que é professora de ciência e políticas públicas na Universidade de Colúmbia (EUA) e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC).

"Mas, se não incomoda, não tira ninguém da zona de conforto. E, se não tira ninguém da zona de conforto, não traz para o debate público e não causa mudanças na sociedade", diz.

Orsi, diretor do IQC, brinca que um título alternativo seria "Crenças Epistêmicas Não Justificadas", o qual dificilmente despertaria curiosidade no público geral.

No fundo, é disso mesmo que o livro trata: campos do conhecimento que procuram desfrutar da credibilidade e do prestígio típicos da ciência, mas que, segundo os autores, não passam de falsificação ou impostura.

"Pseudociências não são inócuas. Elas são danosas para a sociedade", diz Pasternak. "A gente tomou o cuidado de não ofender pessoas. A gente discute temas, assuntos. Mas pessoas morrem por acreditar em bobagens", afirma.

A dupla reúne diversos tipos de estudos acadêmicos já existentes e apresenta contexto histórico (por exemplo, o fato de que a medicina tradicional chinesa nem é tão tradicional assim), evidências empíricas e testes de laboratório para sustentar o argumento.

O resultado está dividido em 12 capítulos. São abordados, além das quatro práticas já citadas, temas como discos voadores, deuses astronautas, constelação familiar, paranormalidade, curas energéticas e modismos de dieta, entre outros assuntos não religiosos.

"É uma postura pessoal minha. Acho que crenças religiosas precisam ser respeitadas", diz Pasternak.

Feita a ressalva, entraram tópicos que os autores classificam como pseudociências populares no Brasil, muitas das quais oferecidas no SUS. Se fosse uma obra voltada para o público dos EUA, onde eles residem, a lista seria diferente. Homeopatia e psicanálise ficariam de fora, por exemplo, mas entraria quiropraxia.

Manifestante carrega frascos vazios de medicamentos homeopáticos e um cartaz que diz: "Homeopatia é feita de nada"
Manifestação em São Paulo contra a prática da homeopatia; campo é chamado de pseudociência por autores de novo livro - Paula Giolito - 5.fev.2011/Folhapress

Homeopatia e psicanálise, por sinal, têm sido responsáveis pela maior parte das polêmicas relacionadas ao livro. Sobre a primeira, Pasternak e Orsi afirmam que ela já foi testada exaustivamente e que não funciona; sobre a segunda, escrevem que a pesquisa de Freud é toda baseada em fraudes e distorções.

Diversas entidades médicas publicaram manifestos em prol da homeopatia, inclusive o CFM (Conselho Federal de Medicina), depois de seu primeiro vice-presidente, Jeancarlo Cavalcante, dizer ao jornal O Estado de S. Paulo que o reconhecimento da especialidade poderia ser revisto.

Psicanalistas, por sua vez, defenderam a prática criada por Freud. Ana Cláudia Zuanella, diretora da Febrapsi (Federação Brasileira de Psicanálise), disse à Folha que a área "engloba um conjunto de conhecimentos solidamente estabelecidos através de pesquisas clínicas e infindáveis debates teóricos".

E as reações não pararam por aí. Nas redes sociais, "Que Bobagem!" tem sido motivo de inúmeras discussões sobre limites da ciência e negacionismo, nem sempre em tom cordial e, na visão dos autores, nem sempre com o alvo certo.

"As pessoas começaram a desenvolver um livro imaginário na cabeça. Esse livro imaginário é raivoso e agressivo, e a Natalia –porque não falam do Carlos— ataca todo mundo, é descontrolada, louca, histérica", diz Pasternak.

Orsi acrescenta: "A gente não recebeu críticas sobre os dados, sobre as fontes utilizadas, e sim críticas de quem não gostou de ver a sua crença de estimação ao lado de outras coisas que a pessoa acha que são bobagem. ‘Como você colocou a minha cultura/atividade/terapia favorita junto com disco voador?’".

É um clima diferente do vivenciado pelos autores com o livro anterior, "Contra a Realidade" (ed. Papirus), no qual combatem o negacionismo, definido como a atitude de negar "fatos bem estabelecidos ou um consenso científico, na ausência de evidências contundentes".

Publicado em 2021, "Contra a Realidade" pegou o caminho bem pavimentado por atitudes como a de Bolsonaro diante das vacinas contra a Covid –um despautério evidente para boa parte da sociedade.

"Que Bobagem!" não teve esse mesmo benefício, por assim dizer. Ao criticar práticas tão populares, o livro encontrou adversários bem mais numerosos. Mas, segundo Orsi, isso também faz parte do pacote.

"O mau uso da ciência não ocorreu só na pandemia", diz o jornalista. "O mundo sempre foi irracional, e a gente queria mostrar que essas coisas estão em estado de latência o tempo todo."

Daí por que, no novo livro, a introdução é dedicada a uma explicação sobre o que é o método científico e como ele serve para nos proteger de erros humanos durante o processo de conhecimento.

Exemplos de erros são, entre outros, a ilusão de causalidade (tendência de achar que o que veio depois é necessariamente causado pelo que veio antes) e o viés de confirmação (tendência de prestar mais atenção no que confirma uma crença do que em algo que a contraria).

E, segundo Pasternak e Orsi, é sobretudo na ausência do método científico que as "pseudociências e outros absurdos" ganham terreno.

Se uma pessoa recorre a uma terapia –homeopatia, psicanálise, acupuntura ou qualquer outra— e depois se sente melhor, o cérebro vai se deixar levar pela ilusão de causalidade, mas nada impede que a melhora tenha outra causa.

O método científico tem a função de filtrar a nossa percepção e eliminar, tanto quanto possível, essas fontes de erros, para identificar se a pessoa de fato melhorou devido à terapêutica ou se foi por outro motivo.

Outro motivo que pode até ser o efeito placebo, que eles explicam assim: "mudanças no estado de um paciente causadas pela percepção ou crença de que existe um tratamento em curso, mesmo que tudo não passe de simulação".

O efeito placebo produz alterações fisiológicas reais, inclusive em animais não humanos, e a própria consulta médica, se for bem conduzida, tem a capacidade de provocá-lo.

"Sempre podemos nos beneficiar do efeito placebo em qualquer consulta médica ou tratamento, se o médico ou profissional de saúde for atencioso e carinhoso. Talvez esta seja a única grande lição que a medicina alternativa tem mesmo a ensinar", escrevem Pasternak e Orsi.

“Que Bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2023/07/homeopatia-acupuntura-e-psicanalise-sao-falsificacoes-da-ciencia-diz-natalia-pasternak.shtml

No Le Monde, Janja diz que mulheres são mais expostas à violência da guerra

Nelson de Sá*

Cogumelo formado pela bomba lançada em Nagasaki, no dia 9 de agosto de 1945.

Descrita como socióloga, cita Hiroshima e escreve que 'homens decidem', mas 'mulheres e meninas' pagam pelos conflitos

Janja Lula da Silva, mulher do presidente brasileiro, assina artigo no jornal francês Le Monde sob o título "As mulheres são as mais expostas às violências da guerra" (abaixo e aqui, publicada sob o editorial). No enunciado online, "São os homens que decidem ir para a guerra, e são as mulheres que sofrem as piores consequências".

O texto é compartilhado em mídia social com foto da guerra na Ucrânia, da AFP, mostrando uma mulher em Sloviansk, no Donbass.

O artigo começa lembrando visita ao museu da cidade de Hiroshima, "acompanhando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva" na cúpula do G7, e a "visão das ruínas deixadas pela explosão nuclear".

Segundo Janja, "toda vez que um conflito armado irrompe, onde quer que esteja, é a população já vulnerável que mais sofre". Acrescenta depois que "mulheres e meninas têm a responsabilidade de manter alguma forma de normalidade e, ao mesmo tempo, são as mais vulneráveis aos diferentes tipos de violência causados pela guerra, incluindo a violência sistemática contra seus corpos".

Cita conversa com a embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield, em que "compartilhamos nossos pensamentos sobre a contribuição crítica das mulheres para a pacificação em comunidades afetadas por conflitos".

Encerra dizendo que, "sem paz, não podemos enfrentar nenhum dos outros desafios da humanidade: a luta contra a fome e a desigualdade, as pandemias ou a crise climática. E nós, mulheres, temos muito a contribuir para a construção de uma paz duradoura, baseada na cooperação para um mundo mais justo para todos os povos".

Janja é descrita como socióloga no início do texto, com o acréscimo posterior de ser "filiada ao Partido dos Trabalhadores e esposa do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva. Durante décadas, trabalhou para desenvolver políticas de inclusão social, fortalecer a participação das mulheres na política e combater a discriminação racial e de gênero".

* Correspondente da Folha na Ásia, jornalista publica a coluna Toda Mídia 

Imagem da Internet

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/nelsondesa/2023/07/no-le-monde-janja-diz-que-mulheres-sao-mais-expostas-a-violencia-da-guerra.shtml

 

Cuidado para não repetir os erros da Roma antiga.

Artigo de Carlo Rovelli*

https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2023/07/31_07_destruicao_curso_do_imperio_thomas_cole_dominio_publico.jpg

"É a difusão da riqueza, não uma depressão econômica, que leva ao fim do império romano. A produtividade econômica se desloca das zonas centrais e se espalha para a periferia, dentro e fora das fronteiras, gerando novas riquezas e, portanto, novos centros de poder. O centro permitiu o enriquecimento da periferia, agora tem que acertar as contas com um adquirido poder econômico e político das novas elites. Os reinos dos Vândalos e dos Godos que gradualmente se impõem politicamente sobre Roma durante o século V, e a força de que eles dispõem, são o produto da influência econômica e cultural da própria civilização romana. A nova riqueza da periferia permite aliviar a sujeição a Roma e limitar o fluxo de riqueza que alimentava o domínio imperial"

Segundo ele, 'hoje há dois caminhos à frente do Ocidente: tentar a todo custo conter o crescimento do resto do mundo, para manter o atual domínio, baseando-se na força militar e em sua agora já insuficiente centralidade econômica (as sanções não fizeram ruir, como muitos esperavam, a economia da Federação Russa), ou aceitar o mundo mais colaborativo e pacífico que tantos países de novas riquezas estão nos pedindo".

Eis o artigo. 

Por que o império romano caiu? Peter Heather, diretor do departamento de história medieval do King's College de Londres, e um dos historiadores mais respeitados de antiguidade tardia, recentemente concluiu com John Rapley, ativo economista político na Universidade de Cambridge, um livro esclarecedor sobre a queda do Império Romano: um texto que derruba ideias conhecidas e oferece elementos valiosos para entender o presente.

A história tradicional fala-nos de um declínio econômico e demográfico, em decorrência de que o Império Ocidental não pode mais resistir à pressão dos povos germânicos. O Império do Oriente sobrevive, mas não muito tempo depois é drasticamente reduzido pela expansão árabe.

Não foi o que aconteceu, nos contam Heather e Rapley. Arqueologia e historiografia recentes convergem ao revelar um quadro muito diferente da antiguidade imperial tardia: um período de crescimento econômico e de bem-estar que se espalha não só internamente, mas também para as áreas externas limítrofes ao império. A estabilidade oferecida pela estrutura política central, instituições, estradas, comércios, toda a cultura romana, permitem a propagação de uma prosperidade crescente.

É essa difusão da riqueza, não uma depressão econômica, que leva ao fim do império. A produtividade econômica se desloca das zonas centrais e se espalha para a periferia, dentro e fora das fronteiras, gerando novas riquezas e, portanto, novos centros de poder. O centro permitiu o enriquecimento da periferia, agora tem que acertar as contas com um adquirido poder econômico e político das novas elites. Os reinos dos Vândalos e dos Godos que gradualmente se impõem politicamente sobre Roma durante o século V, e a força de que eles dispõem, são o produto da influência econômica e cultural da própria civilização romana. A nova riqueza da periferia permite aliviar a sujeição a Roma e limitar o fluxo de riqueza que alimentava o domínio imperial.

Economicamente enfraquecida em termos relativos, não absolutos, Roma não tem mais os meios para manter o domínio, e perde a fidelidade das elites periféricas, que preferem se aliar aos novos centros de poder.

O argumento, desenvolvido no livro com riqueza de detalhes históricos, é convincente, também porque oferece uma interessante chave de leitura para entender como os centros de poder migraram também nos séculos seguintes.

A Itália do início da Renascença gera uma riqueza comercial que acaba por alimentar as economias do norte da Europa que logo assumem a primazia. A Europa da revolução industrial desencadeia o desenvolvimento econômico dos Estados Unidos, que acabam por prevalecer. Centros de poder econômico e, portanto, político, perdem o domínio não porque encontram um declínio, mas porque o seu próprio sucesso gera oportunidades econômicas nas periferias, dando origem a novas riquezas face às quais o centro antigo passa a se encontrar numa situação de relativa fragilidade.

Rever a queda do Império Romano do Ocidente nesses termos é esclarecedor para entender o presente. O texto de Heather e Rapley discute a fundo essa analogia. O Ocidente dominou o mundo durante os séculos de colonialismo. Continuou a dominá-lo após a Segunda Guerra Mundial, mesmo quando seu centro se deslocou para o outro lado do oceano. O domínio militar persiste, aliás, se expandiu, mas a centralidade econômica foi radicalmente reduzida nos últimos anos. Não porque o Ocidente esteja em declínio (sua riqueza está aumentando, embora agora menos igualmente distribuída). O domínio ocidental se reduziu, ao contrário, devido ao desenvolvimento econômico muito pujante das periferias.

Pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente gerava de longe a parte preponderante da riqueza do planeta. Hoje, o crescimento econômico da periferia — China, Índia, Brasil, Estados árabes, África do Sul, Indonésia, leste e sudeste asiático e assim por diante - reduziu a economia ocidental para um componente entre outros. Basta pensar no crescimento espetacular da economia chinesa, inexistente em escala mundial na década de 1950, agora comparável à dos Estados Unidos. O PIB per capita da China é 36 vezes maior do que três décadas atrás: ou seja, em média, um chinês é hoje quase quarenta vezes mais rico que seu pai.

O Ocidente mantém o domínio planetário graças ao seu restante megapoderio militar, mas não mais alicerçado numa decisiva superioridade econômica: uma situação cada vez mais instável. Como durante o Império tardio, foi justamente o desenvolvimento desencadeado pelo domínio ocidental, por sua influência cultural, que permitiu que as periferias crescessem até estar em condições de começar a resistir ao longo período de exploração colonial sobre o qual o Ocidente construiu a sua riqueza durante os últimos séculos.

O problema político que o Ocidente enfrenta hoje não é um declínio: é o simples fato de que as periferias, como no século V, enriqueceram muito mais rapidamente, diminuindo drasticamente o seu peso econômico relativo.

Muitos hoje preveem, temem que seja difícil evitar, a iminência de um confronto armado entre Ocidente e China. (Lembramos que o governo italiano pretende enviar um porta-aviões para o acompanhamento dos EUA no Mar da China). Também sobre isso o livro de Heather e Rapley nos oferece uma alarmante analogia histórica. O Império Romano do Oriente, que escapou da queda daquele do Ocidente, se envolveu em um conflito prolongado com o Império Persa, percebido então, como a China hoje, como rival “outra superpotência”. Os dois impérios, desgastados por uma longa guerra que consumiu seus recursos, se viram ambos exauridos no século VII e, por causa disso, ensinam Heather e Rapley, tornaram-se presa fácil para a jovem e possante expansão árabe. O Império Persa foi varrido. O Império Bizantino reduzido a um pequeno estado.

O livro de Heather e Rapley não é pessimista. Não prevê uma queda do Ocidente análoga à trágica queda de Roma no século V. Pelo contrário, oferece essa perspicaz analogia histórica como instrumento de leitura do presente, para que possa nos ajudar a evitar os erros políticos cometidos pelo Império tardio. Para o Ocidente, um futuro próspero continua sendo possível aceitando o fato de que o surgimento das periferias é um evento histórico de grande escala, inevitável.

A China voltou a ser o que foi por milênios: uma grande potência, a maior do mundo, com uma história relativamente bem menos belicosa do que aquela do Ocidente. Construindo uma cultura de colaboração com a China e com o resto do mundo, à semelhança do que a Europa e os Estados Unidos fizeram entre si, é o caminho que pode evitar a catástrofe. A alternativa, na qual a liderança ocidental infelizmente parece no momento emaranhada - o esforço inútil para conter as periferias tentando conservar o domínio militarmente - é uma receita para a catástrofe, tornada ainda mais ameaçadora pelas armas nucleares e pela crise ecológica que o planeta só pode enfrentar unido.

Como séculos atrás, o Império Romano se viu enfrentando tanto a Pérsia quanto a pressão das novas periferias, assim hoje o Ocidente se depara com uma China renascida e as numerosas potências econômicas que cresceram, libertas do jugo colonial e pós-colonial, e que reclamam um assento à mesa das decisões.

Aconteça o que acontecer, o Ocidente não voltará à supremacia completa que desfrutou nos séculos XIX e XX. A estrutura econômica do mundo mudou em profundidade. Como para Roma, mudou justamente graças ao sucesso do Ocidente. Se então tivermos um mínimo de senso moral não podemos nem mesmo lamentar demais a exploração sobre a qual foi construída a riqueza do Ocidente; pelo contrário, podemos nos orgulhar da esplêndida herança econômica e cultural com o qual o Ocidente contribuiu para o crescimento de todo o planeta.

Hoje há, portanto, dois caminhos à frente do Ocidente: tentar a todo custo conter o crescimento do resto do mundo, para manter o atual domínio, baseando-se na força militar e em sua agora já insuficiente centralidade econômica (as sanções não fizeram ruir, como muitos esperavam, a economia da Federação Russa), ou aceitar o mundo mais colaborativo e pacífico que tantos países de novas riquezas estão nos pedindo. Por mais que seja facilmente vendável politicamente para um eleitorado interno ainda impregnado de ideologia colonial e propaganda sobre a superioridade ocidental, escrevem Heather e Rapley, o conflito tem um preço ruinoso, quando comparado com a escolha política, menos fácil, mas de visão muito mais ampla, de aceitar o crescimento das periferias e entrar em colaboração com elas. A história não se repete, mas ensina.

Seremos capazes de tirar lições disso, nos perguntam Heather e Rapley, ou continuaremos como míopes a olhar apenas um dia de cada vez, e não ver onde estamos arriscando ir?

 *Físico italiano Carlo Rovelli, professor no Centro de Física Teórica da Universidade de Marseille, na França, e diretor do grupo de pesquisa em gravidade quântica do Centro de Física Teórica de Luminy, ao comentar o livro de Peter Heather e John Rapley, sobre a queda do império romano.

 O artigo é publicado por La Lettura, 30-07-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/630946-cuidado-para-nao-repetir-os-erros-da-roma-antiga-artigo-de-carlo-rovelli

domingo, 30 de julho de 2023

Se você espirrar na hora errada, pode ser acusado de ataque à democracia

Luiz Felipe Pondé*

A ilustração figurativa de Ricardo Cammarota foi executada manualmente em técnica lápis grafite sobre papel branco e colorizada em tom amarelo pálido.   A imagem horizontal na proporção 17,5cm x 9,5cm, apresenta uma figura que se assemelha a estátua “A Justiça” do STF: figura de mulher sentada com olhos vendados e espada, em um restaurante suntuoso, sendo servida por um garçom, à esquerda, que segura uma bandeja com uma garrafa de vinho e taça e, na outra mão, coloca outra taça cheia na mesa. À direita, um chefe de cozinha, com uma pequena cumbuca e colher, finalizando um prato que está nos colo da estátua. 
Ilustração de Ricardo Cammarota para a coluna de Luiz Felipe Pondé de 31.jul - Ricardo Cammarota

Se Israel teme um governo religioso engolindo o Supremo, aqui a Corte já foi engolida pelos terrivelmente evangélicos


Aquele tiozão das redes, especialista amador em epidemiologia na pandemia e que no início de 2022 se tornou especialista amador em geopolítica do leste europeu, agora encontrou nova área de expertise: a reforma judicial em Israel.

Essa turma imagina que Bibi Netanyahu tenha uma foto do Bolsonaro no seu criado mudo, e que sonha em tê-lo como ministro da defesa. Ao contrário de Bolsonaro, o primeiro-ministro de Israel tem uma carreira militar sólida. Participou da libertação dos sequestrados de um voo da extinta Sabena —a aviação belga— no aeroporto de Tel Aviv. Era um comando, um grupo de elite pertencente ao exército de Israel.

Quando seu irmão Ionni Netanyahu foi morto em Entebe em 1976, libertando os passageiros de um voo da Air France sequestrado por terroristas palestinos, Bibi decidiu entrar na política. Seu partido Likud, de centro direita, liberal, secular, foi o protagonista do acordo de Camp David, em que Israel fez a paz com o Egito, patrocinado por Jimmy Carter, devolvendo o Sinai em troca. Menahem Begin, do Likud, era o primeiro-ministro. O Sinai tinha sido ocupado depois da invasão egípcia, e síria, no feriado de Yom Kippur em 1973.

Bibi é um dos magos da transformação de Israel em potência nuclear e econômica. Para montar um governo depois de eleições sucessivas que deram empate, fez a pior coalização dos últimos tempos —com a extrema direita religiosa— e isso foi uma catástrofe.

A reforma judicial em Israel divide o país hoje. Mais da metade dos israelenses entende que ela é necessária, mas a maioria desses não concorda com o modo que está sendo feita porque qualquer um que tenha juízo não confia em partidos de extrema-direita.

O Supremo Tribunal em Israel faz seu papel de freio e contrapeso ao parlamento —legislativo e executivo são um só. Não há senado e constituição.

Um dos motores da reforma judicial em Israel é a suspeita de que não existam freios e contrapesos efetivos que contenham a Suprema Corte, e, por isso, ela teria se transformado num "gabinete dos seculares" ou num governo paralelo.

Israel no momento vive um conflito grave e profundo entre seus religiosos e seus seculares —mas isso é outro assunto. Por trás do que está acontecendo habita esse conflito.

E nós com isso? As tensões com o Supremo em Israel podem nos servir de oportunidade para pensarmos em nossa própria casa, apesar de sermos um país muito diferente. Israel é rica e cercada de inimigos que querem sua extinção —apesar das mentiras que dizem por aí— e o Brasil é cercado de "companheiros" e sofre de corrupção metastática.

Se os seculares em Israel temem que um governo religioso engula o Supremo, aqui a Corte já foi engolida por terrivelmente evangélicos ou terrivelmente lulistas. Aqui, a Corte, hoje, já é política.

Após as eleições dramáticas em 2022 em que o STF e o TSE tiveram um papel fundamental para a contenção de grupos golpistas, já é hora de alguém dizer para a Corte Suprema que ela deve recuar. O Supremo não governa o país nem foi eleito como representante da população.

Mas, por que ninguém dá um toque neles? Antes de tudo, porque não há freios e contrapesos a Corte no Brasil. O senado seria, mas, como você e eu sabemos, o senado faz sabatinas "amigas" para candidatos ao Supremo. A Corte hoje faz o que bem quiser no país.

Muita gente não crê na imparcialidade jurídica da Corte. Prova cabal dessa desconfiança é que a "branquitude masculina" da sua formação majoritária é objeto a priori de dúvida de muitos. "Que coloquem uma mulher negra" é apenas uma prova, apesar de muito bem disfarçada, de que não se crê na pretensa neutralidade das ações da Corte.

Se você espirrar na hora errada, você poderá ser acusado de ataque a democracia. Esse argumento virou um trunfo para calar a boca dos desafetos do governo. Alguém devia dizer aos membros da Corte Suprema que não devem frequentar eventos, não devem discursar em público, principalmente sobre política, não devem almoçar em restaurantes caros com ricos e poderosos, enfim, devem agira com maior discrição em relação ao fato notório de que são as pessoas mais poderosas da República hoje.

* Escritor e ensaísta, autor de "Notas sobre a Esperança e o Desespero" e “A Era do Niilismo”. É doutor em filosofia pela USP. 

Fonte:  https://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/

Qual a relação entre o meu pedido online e as mudanças climáticas globais?

Por Isabela Almeida, Huang Wei, Camila Ludovique, Bruno Cunha e Alexandre Szklo

Com o crescimento do e-commerce, o transporte urbano de última milha no Brasil foi responsável pelo lançamento de 10,78 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera em 2022

De roupas a livros, de eletrodomésticos a artigos para pets. Navegar em sites de produtos é quase um hobby, onde o carrinho de compras se enche tão rápido quanto a fatura do cartão de crédito. O e-commerce vem experimentando um crescimento contínuo nos últimos anos, mas desde 2020, ano em que a pandemia de covid-19 eclodiu, os pedidos online se tornaram um hábito arraigado entre os consumidores. Entre 2013 e 2022, o número de pedidos online triplicou, passando de 88 milhões para 258 milhões de pedidos por ano, conforme ilustrado pela Figura 1. No entanto, nessa empolgação das compras virtuais, os consumidores muitas vezes não consideram os possíveis impactos ambientais e sociais decorrentes da entrega desses produtos.

É importante compreender que produtos internacionais e nacionais têm impactos diferentes nesse aspecto. Os produtos internacionais são transportados por navios ou aviões e, posteriormente, são separados em caminhões para entrega nas diferentes regiões do país. Por outro lado, os produtos nacionais dispensam o transporte marítimo ou aéreo, resultando em um menor impacto ambiental. No entanto, ambos os tipos de produtos exigem o transporte de última milha, ou seja, o trajeto realizado do centro de distribuição até a residência do comprador.

O transporte de carga urbano é predominantemente realizado por caminhonetes, camionetas e utilitários, que compõem cerca de 12,6% da frota total do país, o equivalente a aproximadamente 14 milhões de veículos, de acordo com dados do Ministério da Infraestrutura. No entanto, é importante ressaltar que nem todos os veículos desse tipo são utilizados para o transporte de última milha.

Torna-se essencial buscar soluções para tornar as entregas mais eficientes, sustentáveis e alinhadas com a preservação do meio ambiente

Apesar disso, o setor de transporte de última milha foi responsável por cerca de 8,5% do consumo energético do setor de transporte de carga brasileiro em 2020, conforme relatório da EPE (Empresa de Pesquisa Energética). Essa participação tende a aumentar nos próximos anos, especialmente com a previsão de que os grandes centros urbanos abrigarão mais de 90% da população brasileira até 2030. Como resultado, espera-se um aumento no número de pedidos realizados e, consequentemente, um maior número de veículos necessários para realizar as entregas, cuja fonte de energia atual é predominantemente de combustíveis fósseis.

Assim, torna-se essencial buscar soluções para tornar as entregas mais eficientes, sustentáveis e alinhadas com a preservação do meio ambiente. Uma tendência global que se ajusta perfeitamente às características do transporte de última milha é a eletrificação de frotas. As viagens curtas e a possibilidade de recarga diária nas garagens dos veículos, além do uso urbano, onde a frenagem regenerativa ocorre com maior frequência, são compatíveis com as limitações de autonomia dos veículos elétricos e necessidade de infraestrutura de carregamento.

Um estudo realizado pelo laboratório Cenergia da Coppe (UFRJ), em parceria com o instituto iCS 1, analisou os efeitos da introdução gradual de veículos elétricos na frota de transporte de última milha em diferentes tipologias de cidades no Brasil. Foram elaborados dois cenários diferentes: um com a renovação da frota para veículos elétricos e outro sem essa mudança de fonte energética. O estudo buscou quantificar os benefícios da adoção de veículos elétricos na modalidade de última milha no Brasil, levando em consideração o número de pedidos online, o gasto energético, a eficiência dos veículos, seu tempo de vida, a quilometragem percorrida e o tamanho da frota.

Os resultados do estudo, ilustrados na Figura 2, revelam a diferença significativa que a eletrificação pode fazer na redução das emissões de CO2 e NOx.

Para melhor compreensão do debate, é importante entender o que são o CO2 e o NOx e como eles afetam o meio ambiente. O dióxido de carbono (CO2) é um gás de efeito estufa emitido principalmente pela queima de combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás natural. Ele contribui para o aquecimento global, aumentando a retenção de calor na atmosfera. Já os óxidos de nitrogênio (NOx) são compostos formados pela combinação de nitrogênio e oxigênio durante a queima de combustíveis, principalmente em veículos e processos industriais. Esses poluentes contribuem para a formação de chuva ácida e para problemas respiratórios em humanos e animais. Portanto, reduzir as emissões de CO2 e NOx é essencial para mitigar os impactos das mudanças climáticas e melhorar a qualidade do ar.

Enquanto as emissões de CO2 e NOx no cenário de referência aumentam ao longo do tempo, no cenário de eletrificação, elas diminuem drasticamente, chegando a uma redução de 74%, em 2035, em relação ao ano base (2022). Essa análise evidencia a importância da adoção de medidas sustentáveis, como a eletrificação, para enfrentar as questões relacionadas às mudanças climáticas e à qualidade do ar nas cidades. Como cobenefício, também vale citar a economia acumulada de diesel de baixo teor de enxofre, equivalente a 20,8 bilhões de litros entre 2022 e 2035, sendo esse energético importado pelo país.

emissão de poluentes atmosféricos e locais do transporte de última milha

No entanto, essa transição requer investimentos na renovação da frota, em infraestrutura de recarga, incentivos governamentais e conscientização por parte das empresas e consumidores. Além disso, é importante explorar outras estratégias para otimizar as operações de transporte de última milha, como a consolidação de entregas, rotas mais eficientes e o uso de veículos de menor porte.

A adoção de fontes de energia como a eletricidade, aliada a práticas sustentáveis no transporte de última milha, pode contribuir para a redução dos impactos ambientais e promover uma entrega de produtos mais sustentável e responsável. Essa mudança é essencial para atender às demandas crescentes do comércio online e garantir um futuro mais sustentável para as cidades e o meio ambiente.

Portanto, a eletrificação do transporte da última milha tem potencial de minimizar as externalidades negativas causadas pelo comércio online, ao mesmo tempo em que fornece uma abordagem inovadora para a avaliação dos impactos do setor. Diante desse cenário, é de extrema importância que as empresas, os consumidores e os governos assumam um compromisso sério com esse processo de transformação. Somente por meio dessa colaboração e engajamento conjunto será possível alcançar uma prática sustentável e consciente no âmbito das compras online, contribuindo assim para um futuro onde a preservação ambiental seja uma prioridade inegociável.

Camila Ludovique Callegari é engenheira de produção formada pela UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), mestre e doutora em planejamento energético pela COPPE/UFRJ. Atualmente, é pesquisadora pós-doutoranda na mesma instituição, desenvolvendo pesquisa na área de modelagem do setor de transporte como pesquisadora especialista do CenergiaLab (Centre for Energy and Environmental Economics).

Alexandre Szklo é engenheiro químico pela faculdade de química da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e doutor em ciências pela mesma instituição. É professor associado do Programa de Planejamento Energético da UFRJ(PPE/COPPE/UFRJ). É coordenador do desenvolvimento de modelos nacionais e globais de avaliação integrada e de otimização para refinarias de petróleo e suas aplicações em vários projetos internacionais e nacionais financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Mundial, Greenpeace e Embaixada Britânica Brasileira. Coordena a cooperação entre o Cenergia e o Instituto Francês do Petróleo.

Huang Ken Wei é engenheiro mecânico, mestre em Planejamento Energético pela UFRJ e atualmente é doutorando do Programa de Planejamento Energético pela COPPE/UFRJ. Sua pesquisa é focada na área de transportes, principalmente no uso de combustíveis alternativos e na aplicação para o setor marítimo. Atua como pesquisador na área de modelagem do setor de transportes de carga do CenergiaLab (Centre for Energy and Environmental Economics).

Bruno S. L. Cunha é economista pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) com extensão na U.Porto (Universidade do Porto), em Portugal. É doutor e pesquisador visitante no Programa de Recursos Humanos 41.1. da ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) dentro do Programa de Planejamento Energético da COPPE/UFRJ. Desenvolve um modelo econômico global para investigar políticas climáticas. É autor contribuinte do AR6, o sexto relatório de avaliação do grupo de trabalho 3 do IPCC. É membro do conselho acadêmico e mentor do YCL (Youth Climate Leaders).

Isabela Souza de Almeida é graduanda em engenharia elétrica pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e faz iniciação científica no CenergiaLab (Centre for Energy and Environmental Economics), na área de mobilidade

“As redes sociais nos geram angústia, prazer e ciúmes”.

Entrevista com William Davies

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Desde finais de 2019, um livro percorre o mundo de modo silencioso. Sem estridências, diz que vivemos os tempos mais acirrados desta era que muitos querem batizar, mas não acertam em conferir a mesma o nome exato. Estamos vivendo um tempo nervoso? É, certamente, o tempo das emoções e paixões, em particular discussões, ódios, iras e tempestades diversas. A estas se refere o sociólogo e economista britânico William Davies (1976), autor do livro “Estados nerviosos. Cómo las emociones se han adueñado de la sociedad” (Ed. Sexto piso, tradução para o espanhol de Vanesa García Cazorla).

“Empresas e políticos sem escrúpulos exploram intensamente nossos instintos e emoções para nos convencer a acreditar ou comprar coisas que, com uma reflexão mais atenta, não acreditaríamos, nem compraríamos”, diz Davies, em seu livro. Além disso: “O medo da violência pode ser uma força tão disruptiva como a violência real, e pode se tornar difícil de amenizar, uma vez estendida”.

Sobre todos os estados nervosos da humanidade, e no contexto da pandemia, Davies conversou com a Revista Ñ, por telefone, de Londres, que busca reconquistar a si mesma, sem muita certeza sobre o real achatamento das curvas do coronavírus.

A entrevista é de Hector Pavon, publicada por Clarín-Revista Ñ, 28-05-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Começa o livro falando das emoções, nossa mais humana ocupação. No entanto, diz que a tecnologia digital captura a informação de nosso comportamento. O que diria Sigmund Freud a esse respeito?

Penso que Freud ficaria muito surpreso em ver como as coisas mudaram. Algumas das ideias da psicologia, que agora inspiram o Vale do Silício, já existiam na época de Freud. Por exemplo, o behaviorismo que sustenta que nossos estados mentais e emocionais são, na verdade, físicos, e parte de nosso corpo. O psicólogo e filósofo estadunidense William James foi muito influente em seu pensamento sobre as emoções, em particular, na ideia de que uma emoção é algo que começa em nossos corpos e depois chega a nossa mente.

Então, Freud não concordaria com a perspectiva do Vale do Silício, que é efetivamente que todos os estados – felicidade, ira, alegria, desespero – podem ser definidos em termos de movimentos faciais, usos de linguagem ou em certa maneira de deslizar o dedo pela tela. São coisas que podem ser conhecidas de maneira objetiva. Freud tinha esperanças científicas elevadas, mas não teria pensado que as síndromes que lhe interessavam pudessem ser compreendidas sobre a base de dados como estes.

Vamos aos casos concretos: O que acontece quando votamos? Qual é o papel das emoções? Como se chegou a optar por Trump, Bolsonaro e o Brexit?

Penso que certas emoções foram estimuladas e usadas nos último 10 anos, particularmente emoções de ressentimento, uma emoção interessante. É uma emoção em que desejo estar bem, mas fico irritado porque o outro está melhor e desejo fazer algo para deter isso. No caso de Trump, a maioria de seus simpatizantes são pessoas que estão relativamente bem, mas estão irritadas porque os afro-americanos ou as mulheres estão melhores, ou talvez existam pessoas mais ricas que eles, que estão melhores.

Há um tipo de emoção que foi interpelada. Existem emoções mais positivas que foram usadas no passado para influenciar o comportamento do voto. As ferramentas de persuasão ao público de massas são usadas desde que existe o voto geral. Nos casos de Bolsonaro e Trump, são formas de emoção que prosperaram em termos de uma crescente insegurança econômica, mas também em paranoia. E algo dessa paranoia vem de um particular clima onde as pessoas deixam de confiar nos principais meios de comunicação e no governo.

Também existem muito mais perspectivas com as quais podem lidar com o que está acontecendo, graças às redes sociais. Cada vez mais, as únicas orientações que possuem são suas próprias sensações de injustiça. Sentem que o mundo não está bem, que estão sendo maltratadas, que não são governadas por pessoas honestas, e que não existe justiça. Torna-se algo cada vez mais pessoal, sentem que não estão sendo respeitadas, que não recebem voz ou o reconhecimento que merecem.

São emoções que no passado poderíamos ter identificado com grupos objetivamente marginalizados, por razões raciais ou de classe. Mas, agora, vemos que é algo que as pessoas carregam consigo, é algo que as etnias e classes comparativamente privilegiadas também podem sentir. E isto é algo que os líderes políticos demagógicos fazem muito bem. O uso das fake news é muito poderoso para gerar estas coisas.

Que emoções despertam os movimentos antivacinas, que observamos, por exemplo, aqui, na Argentina, em tempos de pandemia?

O movimento antivacina prospera entre aqueles que sentem que não confiam no governo, nem nos meios de comunicação. Acreditam que foram ignorados e marginalizados e que vivem em um espaço onde a confiança é muito frágil, não acreditam nas perspectivas prevalecentes, o que prevalece é algo em que não se pode confiar. É claro, vacinar seu filho implica altos níveis de confiança, porque se permite que um estranho coloque um pedaço de metal no braço de seu filho, injetando uma droga. Isto implica um nível de confiança importante. E para que isto funcione deve haver confiança na profissão médica. As vacinas, diferente de outros modos de cuidado sanitário, operam em um nível societário, não em termos individuais.

Penso que os que suspeitam das vacinas são pessoas que tem emoções de querer segurança, de querer, obviamente, cuidar do próprio filho e da família. E por isso estas coisas são tão poderosas. As fake news sobre o coronavírus viajam pelo WhatsApp, porque dizem “por favor, você e sua família precisam saber que este tratamento é perigoso, precisam saber que é uma mentira. Alguém está mentindo para vocês”. E falam à emoção de que minha família e eu estamos em perigo, de que o governo não se importa e que esta informação é fornecida por alguém que sente o mesmo que eu. Porque percebo que neste vídeo sentem a angústia que eu sinto, e por isso posso confiar neles, porque sentem o mesmo que eu. Ao passo que este jornalista ou político não demonstra sentir interesse, só falam de dados o tempo todo e fazem anúncios formais.

Então, há uma mistura de medo, e o instinto de proteger a própria família, os próprios filhos. E isto é uma combinação muito poderosa. Há estudos na França que mostram que estes movimentos antivacinas se movem nos mesmos círculos que populistas como Marine Le Pen.

Qual é a sua opinião a respeito de redes como Facebook e Twitter? São dois monstros que provocam nossas emoções?

As redes possuem propriedade viciantes, nos geram angústia, prazer e ciúmes. Há um ciclo viciante de gratificação e insegurança. Mas fazem com que nos sintamos reconhecidos quando nos dão um feedback positivo. Falam a um aspecto primário de nossa estrutura emocional.

O Facebook tenta compreender as respostas emocionais das pessoas, porque vendem estas descobertas aos que fazem publicidade. Procuram traçar um perfil emocional de grandes grupos de pessoas. Isto faz parte do capitalismo, são dados que podem ter usos comerciais e também de segurança. Ao mesmo tempo, processam informação baseada em análises para ajudar os serviços de segurança a identificar ameaças e futuros perigos.

No livro, você destaca que a função do Google Maps não é retratar a realidade, mas executar um plano. Que plano?

Antes de ter smartphones, a maioria de nós tinha um mapa ou um atlas, que carregava na mochila, que nos dizia como andar pela cidade. Ao passo que agora vivemos em uma era de satélites. O GPS diz a você se vira à direita ou à esquerda, nos dá uma espécie de conhecimento, mas não é representacional.

A capacidade de usar um mapa tradicional é muito sofisticada, exigente, pois implica olhar para um pedaço de papel, com uma estranha imagem, e pensar como corresponde com esta situação confusa, tridimensional, na qual se está. E há um modo de abstração que ocorre nesse conhecimento. Já o Google Maps não requer essa capacidade de objetivar, nem de abstrair, só requer a habilidade de permanecer no fluxo de impressões, movimentos e instruções. O mapa se torna o executor do plano e não a imagem do mundo.

Por que acredita que a vigilância é o modelo de negócios da internet?

Acredito que se tornou o modelo de negócios da internet. Efetivamente, a internet entrou na sociedade “mainstream”, nos anos 1990. Durante muito tempo, não se sabia como fazer dinheiro com isso. Veio a bolha e depois houve um ponto de inflexão, em 2004, ou 2005, quando o Google percebeu que podia fazer dinheiro com os dados obtidos. Isto se tornou o início de uma nova fase de empresas muito grandes de tecnologia. Em vez de tentar fazer com que as pessoas pagassem pelos serviços, era preciso fazer com que usassem a infraestrutura para depois acumular grandes quantidades de dados. É assim que também funcionam o Facebook, a Airbnb, etc.

Neste sentido, usar a internet como uma ferramenta de vigilância é a maneira como a mesma se tornou parte do capitalismo. Nos anos 1990, nem sequer estava claro que fosse compatível com fazer dinheiro, o que as pessoas viam era esta rede de computadores que destruíam modelos de negócios. Não pareciam estar criando nenhum novo. Mas depois se descobriu com o Google e o Facebook que, sim, havia um modelo de negócios.

O propósito do ‘troll’ não é o poder, mas causar dor, sustenta no livro. Isto é igual para todas as estratégias desestabilizadoras dos ‘trolls’?

Há um instinto nas democracias liberais de buscar romper certas estruturas sem ter algo para substituir. Ser antiestrutura, anti-instituição. Acredito que foi disto que se tratou, em grande medida, o Brexit: o desejo de causar dano às elites que pareciam estar acima da democracia. Não quer dizer que todos os que votaram no Brexit são trolls, mas que existe uma lógica comum, que é a que nesta era, em que a representação política parece não funcionar, as pessoas não acreditam que a democracia representativa seja legítima.

A legitimidade, então, está na pessoa que chama a atenção para as mentiras, a pessoa que de uma maneira muito inflamada está disposta a entrar no debate “mainstream”, ou seja, algo escandaloso: “vocês são todos mentirosos, são todos tontos, são todos idiotas”. E de algum modo isso é o que Trump pôde fazer em 2016. Não parecia credível, não parecia dizer a verdade, não se interessa em representar as pessoas pelos canais normais da democracia institucional. Contudo, estava disposto a fazer explodir algo que parecia estar podre dentro de Washington.

Essa é a mesma lógica de atuação dos “trolls” online. O clássico comportamento deles é entrar em discussões “mainstream” e ser disruptivos, e torná-las impossíveis com comportamentos obscenos ou absurdos para conseguir fazer com que essa discussão termine. E fazem isso para ganhar o respeito e o riso de outros trolls, em certo sentido. É uma maneira de fazer naufragar a vida pública “mainstream”.

Por que acredita que a internet seja tão efetiva em minar as instituições democráticas, mas não tanto quando se trata de criar novas?

Enquanto as instituições funcionam entre o consentimento e o consenso, a internet é muito boa para criar dissenso. As instituições criam regras e normas. Ainda que as pessoas possam ter diferentes perspectivas do mundo, são capazes de reconhecer as decisões que podem ser tomadas em nome de milhares ou milhões de pessoas que poderiam não representar perfeitamente todos os pontos de vista, mas, em certo nível, deram o consentimento para isso, e existe um consenso aparente. E assim a democracia representativa, os parlamentos e os meios de comunicação funcionam. Não existe uma forma perfeita de contar a história do que ocorreu. Sempre é uma aproximação da informação que está ali, é uma aproximação que a maioria está disposta a aceitar como válida, mesmo que não seja perfeita.

A Internet permite que todas as perspectivas de dissenso apareçam. É um espaço no qual as pessoas que não estão de acordo, observadores de primeira mão, com uma perspectiva diferente, pessoas que tem um telefone com câmera, podem estar. E é muito boa para romper o consenso ou o consentimento e permitir que se expresse uma maior diversidade de pontos de vista. Isto tem efeitos positivos.

Nos primeiros dias de internet, pensava-se que todas as comunidades minoritárias iriam poder se expressar. Tudo isso ainda é verdade. A Internet tem a capacidade de denunciar a corrupção. Houve escândalos que foram expostos graças ao poder da publicação amadora e as redes sociais. É mais difícil poder se esconder. E, nesse sentido, deveríamos estar agradecidos.

O que se provou é que a internet é muito ruim para construir credibilidade para o consenso. Sempre confere o poder às pessoas que rompe o consenso. Isto porque é uma rede descentralizada, que sempre irá oferecer uma voz que se opõe. A Internet sempre oferecerá a descentralização e dará a voz aos de fora.

Como caracteriza o papel dos tecnocratas? Os governos os acusam por todas as crises, mas continuam sendo convocados...

Sempre há uma tensão entre o conhecimento especializado e a democracia. As comunidades de especialistas sempre envolvem esforços para se isolar da política e do público, para estabelecer um consenso sobre certas coisas. Quando há especialistas que buscam encontrar uma vacina para a covid-19, não costumam ser comunidades democráticas, não precisam responder ao público, estão dentro dos laboratórios, e todos devemos esperar que tenham êxito. A maioria das pessoas confia neles, mas seu poder, que provém de uma mistura de capital e governos, não responde ao público.

Penso que o termo “tecnocrata” tende a aparecer quando essa visão da autoridade dos especialistas passa dos limites, de certo modo, e se move para um espaço que deveria ser democrático. Durante a crise do euro, Mario Monti claramente foi inserido como primeiro-ministro da Itália, sem qualquer consenso democrático. Simplesmente porque o Banco Central Europeu insistiu.

Os bancos centrais são a forma icônica da tecnocracia dos últimos quarenta anos. A própria visão dos bancos centrais, que começou a surgir nos anos 1970, era a que tinha que ser um tipo de poder não democrático, mas antidemocrático. Para que o dinheiro continuasse tendo valor, deveria ser governado de modo impermeável às decisões do público. De certo modo, uma das razões pelas quais os bancos centrais continuam existindo é porque os mercados financeiros parecem insistir nisso, e os governos ainda temem os mercados financeiros, em certos sentidos.

A pandemia é um entre muitos outros problemas...

Há problemas e riscos como pandemias, também a mudança climática, que parece desafiar a possibilidade da democracia. Há certos problemas que tem uma complexidade e uma urgência que parece demandar soluções tecnocráticas. Houve um período particular, entre os anos 1980 até 2016, a era neoliberal, em que houve um esforço conjunto de empurrar algumas áreas das políticas públicas, especificamente na economia, mas não só na economia, para as mãos não democráticas. E acredito que se trata do que agora, em parte, provocou a emergência dos populismos.

E diante desta crítica aos tecnocratas, por acaso, podemos esperar dos políticos a solução para todos os problemas?

(Sorri) Isso responde a pergunta. Problemas como o movimento antivacina são muito difíceis de desarmar, porque as teorias conspiratórias tendem a envolver as pessoas. Alguns destes movimentos populistas têm alguns benefícios, porque começam a empurrar a democracia contra o poder dominante dos tecnocratas. Há uma necessidade de tentar pensar como algumas formas de políticas tecnocráticas podem ser reconectadas às vidas cotidianas das pessoas.

Existem certos modos de autoridade que não sofrem a perda da confiança, particularmente a profissão médica. Uma das razões pelas quais a profissão médica mantém sua autoridade é porque muda e melhora a vida das pessoas. As políticas econômicas e o conhecimento econômico se tornaram uma linguagem abstrata e completamente sem sentido, que parece seguir para outro rumo e com frequência parecem suprimir a democracia. E penso que isso foi um terrível fracasso dos últimos dez a quinze anos. Foi o que ocorreu na política econômica.

Acredito que muitos liberais e tecnocratas perceberam que estão com problemas. Emmanuel Macron foi populista pela forma como chegou ao poder, mas buscou defender o liberalismo de uma maneira nova e apaixonada. Pode ser que esta crise ofereça novas oportunidades para apresentar visões de democracia e de conhecimento especializado que façam uma diferença na vida das pessoas. Há muitos tipos de problemas, particularmente dentro dos partidos políticos.

Que outros atores decepcionam neste contexto? Jornalistas, juízes, intelectuais?

Sim, considero que os indivíduos que sofrem os piores níveis de confiança nas democracias liberais são os políticos e os jornalistas, o que é fatal, realmente, porque estas são figuras centrais da esfera pública. É muito daninho que exista esta perda de confiança na esfera pública. E ocorreu muitas vezes de uma forma não merecida. Há muitos excelentes jornalistas totalmente credíveis por aí, mas as pessoas não querem prestar atenção neles.

Pode-se ver a forma em que populistas como Trump e Viktor Orbán e, em menor medida, Boris Johnson, buscam aumentar os níveis de ressentimento e suspeita não somente em relação aos jornalistas e juízes, também contra os intelectuais, principalmente de humanidades. Orbán tornou ilegal ensinar estudos de gênero na Hungria: o antifeminismo ocupa um lugar importante. No coração desse tipo de bestá a ideia de uma ordem natural, uma ordem racial e de gênero natural, destruída pelo capitalismo global. Isto confere muita força à visão de mundo de pessoas como Marine Le Pen.

Acredita que o coronavírus possa deixar um transtorno do estresse pós-traumático?

Sem dúvida, deixará feridas. O estresse pós-traumático é uma categoria de diagnóstico muito específica. Uma das características centrais do transtorno do estresse pós-traumático é a que está associada à sensação de estar preso e de ter perdido totalmente o controle. Pode ser o produto de uma experiência de violência, um acidente, uma relação abusiva ou seja o que o for. Provavelmente, existem indivíduos que se sentem presos de maneira horrível por causa do coronavírus. Ficam presos em relações abusivas ou na sensação de terrível pobreza ou na sensação de absoluta impotência. Esse é o aspecto particularmente daninho de uma experiência traumática, essa sensação de aguda impotência.

Suponho que algo assim acontecerá com as pessoas, como resultado do coronavírus, mas não necessariamente com todos. O transtorno do estresse pós-traumático foi diagnosticado pela primeira vez nos soldados que voltavam do Vietnã, que pareciam reviver suas experiências nos Estados Unidos. Pode ser que existirão pessoas que se sentirão traumatizadas por terem sido confinadas. Talvez a sensação de estar preso deixe nelas uma cicatriz. Haverá uma exacerbação das desigualdades, desenvolvimentos emocionais que ainda não se deram nas sociedades. Ou feridas emocionais que precisarão ser tratadas com o tempo. Isto deixará cicatrizes.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/categorias/599484-as-redes-sociais-nos-geram-angustia-prazer-e-ciumes-entrevista-com-william-davies

‘Barbienheimer’: dois mundos que deveriam se conectar

Natalia Figueiredo

Barbienheimer': dois mundos que deveriam se conectar | Nexo Jornal

Após assistir ‘Barbie’, que apresenta de forma tão didática nossa sub-representação no mundo dos homens, é impossível retirar as ‘lentes cor-de-rosa’ e contemplar ‘Openheimer’ na sequência sem elas

Pode ser difícil de imaginar, mas as duas grandes estreias cinematográficas do momento se encontram fortemente no dicotomismo de suas escolhas narrativas.

A história da boneca adulta que pode ser tudo e seu namorado que era apenas Ken é uma sátira divertida e certeira com questões femininas e existenciais de como é ser uma mulher fora da Barbielândia, no mundo real.

O live-action da diretora e roteirista Greta Gerwig acerta ao usar um recurso de inversão dos papéis esperados para cada gênero e com isso enfurecer os conservadores de plantão. Esses já anunciaram boicotes ao filme, mas nem de longe conseguiram impedir a onda rosa que já aponta como a maior bilheteria do ano no Brasil. Somente na estreia, em 20 de julho, a arrecadação foi de R$ 22,9 milhões, segundo a Comscore. É a maior estreia de um filme dirigido por uma mulher na história do cinema norte-americano.

No filme, Barbie, vivida por Margot Robbie, começa a apresentar defeitos e é aconselhada a viajar para encontrar a criança que brinca com ela. No mundo real, as coisas não eram bem como ela esperava e Barbie acaba sendo levada à “nave-mãe”, o prédio da empresa Mattel. Lá, ela se surpreende por não ter uma mulher no comando. Essa é uma das muitas autocríticas que a empresa vai fazer.

O problema, minha cara leitora, é que após assistir ao longa é impossível retirar as “lentes cor-de-rosa” despertadas por diretora e elenco, que apresentam de forma tão didática nossa sub-representação no mundo dos homens. Ao assistir “Openheimer”, na sequência, as lentes já estavam postas.

O filme do diretor Christopher Nolan é impecável e com certeza levará grande parte das estatuetas no Oscar, representando a categoria de “filmes sérios”. A temática mexe com nossa memória coletiva em um dos capítulos mais vergonhosos da história. Quando o físico Robert Oppenheimer trabalha com sua equipe de cientistas, a serviço do governo americano, no projeto Manhattan para o desenvolvimento da bomba atômica.

É impactante como um filme sobre física quântica consegue seguir envolvendo a plateia ao longo das três horas de exibição. Entretanto, choca ainda mais determinadas escolhas narrativas, que não cabem mais em nosso tempo, e não deveriam ser justificadas pela época dos acontecimentos históricos.

Em uma história tão importante, o roteiro consegue resumir a participação feminina na sexualização de seus corpos, na histeria na fala das personagens mulheres mesmo em momentos de lucidez e em coadjuvantes sem relevância no enredo.

A primeira mulher a ter um diálogo com o protagonista, interpretado por Cillian Murphy, é Jean Tatlock, psiquiatra, médica e membro do Partido Comunista. Os dois têm um debate rápido sobre roubo e propriedade privada, que parece mais um jogo de sedução do que uma primeira conversa entre duas pessoas extremamente capacitadas. Para nossa surpresa, ou não, 10 segundos depois, ela, somente ela, está nua na tela.

Perceba que esse era o primeiro diálogo em 30 minutos de sessão com alguém do sexo feminino. E faz parte da caracterização do protagonista viril, falho e “mulherengo”.

A personalidade da doutora Tatlock não é clara, ela é representada como alguém dependente emocionalmente, mas que odeia flores. Uma relação confusa, que não é aprofundada. Apenas a normalização de um papel bastante restrito que nos é dado. Se não há uma interação sexual, não vamos nos alongar.

Outra atuação a ser mencionada é de Emily Blunt, que interpreta a bióloga Kitty Oppenheimer, esposa do protagonista, que quando perguntada sua profissão, responde que no momento é especialista em cuidar do lar, para logo ser caracterizada como uma mulher descontrolada, alcoólatra, deprimida, histérica e péssima mãe.

Os dois filmes são extremamente dignos de serem assistidos nas telonas, mas interessante seria colorir um pouco o cinza de Nolan com as ideias cor-de-rosa de Gerwig

Ora, se não somos prêmios de consolação, esposas ou amantes, o que nos resta nas telas dos filmes feitos por homens para homens? A forma como mulheres são representadas está diretamente ligada a como somos tratadas, vistas, respeitadas ou reconhecidas na rua, no meio acadêmico e no mercado de trabalho. É um exercício de responsabilidade social as escolhas de como seremos representadas a milhares de espectadores em todo mundo.

É importante salientar que a representação justa de nossa voz e existência, não é sobre mudar a história, mas de contá-la como se deve. No livro “The Girls of Atomic City – The Untold Story of the Women Who Helped Win World War II” (As Garotas da Cidade Atômica – A História Não Contada das Mulheres que Ajudaram a Vencer a Segunda Guerra Mundial, em tradução livre), a autora Denise Kiernan retrata a história de cientistas a faxineiras que trabalharam no Projeto Manhattan.

São inúmeras mulheres, cujas histórias não ganharão grandes proporções e que participaram sem saber do enriquecimento do urânio que serviria às ogivas nucleares. “Elas eram maioria no local, mas proibidas de alugar casas – coisa que só os homens podiam fazer – e tinham de viver em pequenos dormitórios.” Mesmo que a ordem fosse de tratamento igualitário, negros viviam em alojamentos, sem direito a visitas.

As narrativas cinematográficas dominantes reforçam modelos femininos que precisam ser superados urgentemente. Quando nossos diálogos são resumidos a fins sexuais, nossos argumentos ganham tom de histeria e a participação é um mero adereço para ajustar uma gravata antes de um discurso. Erramos. E quem ainda não consegue ver, precisa se esforçar mais.

Em 1985, a cartunista americana Alison Bechdel criou um teste que mede a representação do papel da mulher. Ele é bem simples, mas certeiro. O Teste de Bechdel avalia se um filme faz bom uso de personagens femininas a partir de três regras: 1) ter duas personagens com nome; 2) ao menos uma cena em que elas conversem entre si; e 3) o papo não ser sobre homem.

Na época, Alison creditou a ideia do teste a uma amiga, Liz Wallace, que por sua vez se inspirou no ensaio “Um teto todo seu”, escrito por Virgínia Woolf em 1929.

Sabemos que, dificilmente, essa será uma crítica que afete o sucesso de “Openheimer”, uma obra-prima analógica de mais US$ 100 milhões. Mas foi considerado absurdo por muitos, o namorado de uma boneca ser representado como um idiota. Neste caso, acusações de guerra dos sexos e superioridade feminina crescem em comentários em páginas sociais sobre o filme.

O deboche é o trunfo de Gerwig para nos conectar a uma existência difícil, mas sua sensibilidade emociona. Como na cena que a boneca Barbie estereotipada encontra uma senhora e se depara com a beleza de envelhecer fora da perfeição de sua existência.

“Barbie” não vai dar conta de tudo, nem mesmo do desserviço que a boneca fez a milhares de meninas que sonharam com um padrão de beleza inalcançável. Mas a diretora convida justamente a olhar esses absurdos, que hoje não cabem mais, e retomar nossas lembranças mais antigas, de quem sonhávamos ser e que caminho tomamos.

As duas produções são extremamente dignas de serem assistidas nas telonas para acessar as grandiosidades dessas duas histórias - na ordem que preferir - interessante seria colorir um pouco o cinza de Nolan com as ideias cor-de-rosa de Gerwig.

Natalia Figueiredo é formada em comunicação pela UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro). Cursou videojornalismo na Universidade Columbia (EUA) e pós-graduação em Big Data e Inteligência de Marketing na ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing). Atua como estrategista digital, CMO e é co-fundadora da agência Outlab.

Fonte:  https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2023/07/29/%E2%80%98Barbienheimer%E2%80%99-dois-mundos-que-deveriam-se-conectar?posicao-home-esquerda=3