VI Encuentro Internacional Emil Cioran (Pereira, Colômbia)
Entre
31 de outubro e 5 de novembro de 2013, aconteceu, na cidade colombiana
de Pereira, a 6ª edição do Encuentro Internacional Emil Cioran, um dos
mais importantes eventos mundiais dedicados aos estudos sobre o homônimo
pensador romeno radicado na França. O congresso, organizado pela
filósofa M. Liliana Herrera e vinculado ao departamento de Filosofia da
Universidade Tecnológica de Pereira (UTP), onde Herrera leciona
filosofia, contou com a presença de acadêmicos nacionais e
internacionais que se dedicam a estudar e a divulgar a obra de Cioran.
Foram no total 4 dias de conferências sobre os mais variados temas
que compõem o pensamento caleidoscópico de Cioran, de um intenso e
envolvente debate em torno de sua obra e vida. Comentarei aqui apenas
algumas das conferências ocorridas nos dois primeiros dias.
VI Encuentro Internacional Emil Cioran em Pereira, Colômbia (divulgação)
Coube à Profa. M. Liliana Herrera as honras de dar boas-vindas aos
participantes, abrindo oficialmente o congresso. A abertura também
contou com a performance da pianista romena Viktoria Gumennaia,
residente na Colômbia, que nos agraciou com uma amostra daquela que
seria a “paisagem musical” da Romênia. Gumennaia tocou ao piano alguns
temas tradicionais da cultura musical romena, estimulando nossos
sentidos para a essência do espírito romeno através da forma de arte que
Cioran mais amava.
Joan M. Marín Torres (Universitat Jaume I, Castelló de la Plana, Espanha)
Abrindo os trabalhos no primeiro dia, Joan Manuel Marín Torres (autor de Cioran o el laberinto de la fatalidad)
falou sobre a paixão de Cioran pela Espanha em conferência intitulada
“Cioran: ensoñaciones de España”. Marín problematizou e esclareceu a
imagem cioraniana da Espanha, os motivos e as circunstâncias de seu
interesse pelo país de Miguel de Cervantes. Mencionou o fato de que,
antes de ir à Alemanha, Cioran contemplava a Espanha como destino de
estudo, onde pretendia seguir os cursos de José Ortega y Gasset. O
romeno teria visitado a Espanha 8 vezes no total, incluindo sua estadia
na praia de Talamanca (Ibiza) da qual resultaria o pouco conhecido Cahiers de Talamanca.
Mencionou também o primeiro encontro que Cioran teve, ainda jovem, com
um espanhol (supostamente um discípulo do filósofo Miguel de Unamuno),
que lhe teria dito: “me gusta la muerte y el sublime” (sic). A atração
do romeno pelos místicos espanhóis não poderia passar em branco. “Cioran
tinha três nacionalidades: a romena, a francesa e a romena; demasiado
para um intelectual que se pretendia apátrida”, brincou.
Mihaela-Genţiana Stanișor (Universidade Lucian Blaga, Sibiu)
Mihaela-Genţiana Stanișor, por sua vez, tratou da questão da
“romenidade”, ou seja, daquela que seria a identidade romena em sua
especificidade cultural, tendo como referências três grandes nomes da
cultura de seu país: Mihai Eminescu, Lucian Blaga e Constantin Noica.
Eminescu teria sido o primeiro a promover a ideia de uma “consciência da
romenidade”, notadamente em seu poema intitulado “A oração de um
dácio”. Mencionou o mito da Mioriţa, que seria tão significativo para os
romenos quanto o é Dom Quixote para os espanhóis. Stanișor apresentou e
explicou algumas entidades linguísticas mais distintivas da cultura
romena, e que seriam, por assim dizer, distintivas do espírito romeno.
Como as palavras dor (pronuncia-se “dór” correspondendo à nossa saudade, ou nostalgia) e bocete,
que designa, por sua vez, uma espécie de elegia, um canto fúnebre
bastante típico. Outra contribuição linguístico-cultural da filóloga
romena oriunda de Sibiu, na Transilvânia, diz respeito à preposição întru
(tão difícil de ser traduzida quanto compreendida em sua amplitude
semântica), que seria bastante elucidativa a respeito do espaço vital
romeno. Esta preposição seria, segundo Stanisor, especialmente
significativa no sentido de ilustrar aquela que seria a “virtude
polivalente” do espírito romeno, ou seja, a qualidade especial de certa
dinâmica vital graças à qual os romenos seriam um povo tão
espiritualmente rico. Întru denota, ao mesmo tempo, as noções de posição e de direção,
isto é, ao mesmo tempo um “estar” (ou ser) e um “em direção a” (a
caminho de…, no sentido de…), o que seria muito significativo, no plano
abstrato da linguagem, no que diz respeito ao fundo trágico do espírito
romeno – verticalidade e horizontalidade em permanente tensão. Um dos
dizeres mais populares na Romênia, e que seria bastante revelador da
alma do seu povo, é: “N-a fost sǎ fie” (Não era para ser; it wasn’t meant to be, em inglês).
Roch Little (Universidad Nacional de Bogotá)
Muito interessante foi a conferência de Roch Little, historiador e
filósofo canadense estabelecido na Colômbia, onde leciona na
Universidade Nacional de Bogotá. Ele se dispôs a analisar aqueles que
seriam os “motivos cínicos” a animar a obra cioraniana. Sua conferência
teve como ponto de partida o verbete “pessimismo” redigido por Michel
Onfray em seu “dicionário hedonista” (Abrégé Hédoniste), no qual o
filósofo francês inclui Cioran, junto a Schopenhauer e Leopardi, como
um representante da respectiva categoria. Onfray parece veementemente
crítico, em particular, a respeito do maior filósofo alemão pessimista:
segundo ele, um poseur. Pessimistas como Schopenhauer seriam como
que farsantes, impostores, pensadores incoerentes que vivem em
permanente contradição com aquilo que pregam com suas palavras. A tese
central de Little é que, muito embora inclua a Cioran no hall dos
pessimistas chorões do qual Schopenhauer seria o mais ilustre exemplar,
Onfray se mostra reticente em relação ao romeno, o que levaria a inferir
que possivelmente reconhece em Cioran uma qualidade que dificilmente
enxerga no autor de O mundo como vontade e como representação. Cioran se distinguiria de Schopenhauer justamente pelo fator poseur,
impostor, farsante, que Onfray tanto critica em Schopenhauer, mas que
no caso do pensador romeno seria uma atitude ironicamente assumida, em
nenhuma contradição com aquilo que pensa e escreve. Sua sempiterna
distância em relação à academia, sua marginalidade conquistada, o desejo
de anonimato, a recusa de honrarias e prêmios, dos quais aceitou apenas
o primeiro (por uma razão bastante compreensível de uma perspectiva
cínica: necessitava do dinheiro para sobreviver em Paris) – eis a
diferença fundamental que, segundo Little, seria decisiva para o
silêncio de Onfray em relação a Cioran. Por fim, o canadense
estabelecido na Colômbia identificou alguns motivos cínicos no
pensamento de Cioran, como a ascese cínica (o ideal de uma vida simples
sem trabalhar no circuito da civilização), o “realismo cru” da parrhesia, isto é, a sinceridade nua e crua, o dizer-a-verdade-doa-a-quem-doer, a bufonaria à la Diógenes, entre outros.
Francia Elena Goenaga, da Universidad de los Andes, abordou a “noção de paraíso nos Cahiers
de Cioran”. Recorrendo a referências como Mary Shelley, René Char,
Starobinski, entre outras, examinou o binômio criatura-criador no quadro
de um uma reflexão sobre a nostalgia do paraíso (“a grande
responsabilidade do criador é fazer com que a criatura seja feliz”), a
imagem da “queda” como figura para dar sentido à condição humana
tragicamente consciente de sua finitude e mortalidade (Char), a
melancolia como sentimento fundamental produzido pela “queda no tempo”,
intimamente ligado à nostalgia do paraíso perdido (Starobinski).
Hugo Peláez (Sevilla, Villa de Cauca)
Hugo Peláez, de Sevilla, Villa de Cauca (Colômbia), brindou o público
com uma conferência sobre o “Emil Cioran e o feitiço musical”. Citando a
filósofa espanhola María Zambrano (“El lugar donde la esperanza se há
refugiado de manera más confiada es la utopía”), que inspirou Cioran, a
partir de uma conversa que tiveram no Café de Flore, em Paris, ao final
da década de 50, Peláez desenvolveu a tese de que o pessimismo de Cioran
assinala o fracasso da utopia, que, no entanto, o pensador romeno
reencontrará na música, a “arte do absoluto”. “Só agimos sob a
fascinação do impossível: isto significa que uma sociedade incapaz de
gerar uma utopia e de consagrar-se a ela está ameaçada de esclerose e de
ruína”, cita Peláez uma passagem do ensaio “Mecanismos da Utopia”, do
livro História e Utopia (1960). Segundo o intelectual sevillano,
só teve uma única certeza: a música, “arte do consolo por excelência.”
Ademais, Peláez comentou a paixão especial de Cioran por Bach e as
afinidades entre os pensamentos do romeno e da espanhola no que concerne
ao tema da utopia, concebido em sentido latu muito além do
sentido histórico. A civilização tem muito mais a ver com a música do
que com a arquitetura e com as instituições políticas e sociais, diriam
ambos.
Rodrigo Menezes (PUC-SP)
Rodrigo Menezes, doutorando em Filosofia pela Pontifícia Universidade
de São Paulo (PUC-SP) com uma tese sobre “niilismo, escritura e
existência” em Cioran, foi o último conferencista do primeiro dia, com
uma comunicação sobre o dogmatismo negativo e o niilismo em Cioran. O
brasileiro problematizou o ceticismo do pensador romeno confrontando-o
com o pessimismo niilista que subsiste mesmo em seus livros franceses,
apesar do ceticismo reivindicado por Cioran a partir do momento em que
adota o francês como idioma oficial. Nas antípodas da música, que seria
como que o limite positivo da dúvida, o fenômeno do mal é outro tema
sobre o qual o discurso cioraniano assume a forma de um logos
dogmático negativo. Conforme escreve Sylvie Jaudeau, “Cioran não
encontrou Deus, mas o mal. […] Tenta comunicar-nos o seu saber funesto
lançando diante de nossos olhos essa parte de trevas que predomina e se
perpetua até no vestígio material de sua escritura… […] A obra de
Cioran, animada por uma vitalidade autônoma, é, em si mesma, uma
figuração do mal”. Como pensa Cioran, só podemos escolher entre a ilusão
e o desespero. O ceticismo é um exercício de tolerância mediante a
disciplina da desfascinação (sendo que toda fascinação, para Cioran,
possui um fundo egocêntrico), mas não é uma saída, uma resposta, uma
solução, pois não pode oferecer nada nem de positivo de ne negativo.
Seguimos então em um mundo em que é impossível duvidar do mal, e onde
inclusive a certeza da dúvida é um mal.
O segundo dia de trabalhos foi inaugurado com outra conferência de
Roch Little, desta vez sobre “a história no pensamento de Cioran”.
Little se concentrou em dois livros de Cioran, História e Utopia (1960) e A Queda no Tempo (1964),
aproximando o pessimismo histórico e a crítica de Cioran à modernidade
da reflexão baudrillardiana sobre a hipermodernidade. Cioran ataca a
essência mesma do pensamento, que postula uma finalidade, um sentido, um
propósito para a história. O filósofo e historiador contrapôs a noção
de queda em Cioran àquela de Kant e também ao pensamento de Rousseau (Sobre a Origem da Desigualdade entre os Homens).
Em seguida, mais uma conferência de Joan M. Marín. Sua segunda
comunicação abordou o tema de “Epicuro e Cioran como terapeutas”. Um
pensamento diurno, por um lado (Epicuro), e um pensamento noturno, por
outro (Cioran); duas disposições de espírito e duas atitudes filosóficas
opostas, mas cujos escritos têm em comum o sentido de certa terapêutica
do espírito. Enquanto que a terapêutica de Epicuro buscaria curar os
espíritos preconizando a moderação, a felicidade simples e arrazoada,
aqui e agora, a terapêutica cioraniana preconizaria a contradição e o
conflito, um estado de lucidez que purga as ilusões mas não oferece, em
contrapartida, nenhum remédio, nenhuma cura positiva para o mal de
existir.
M. Liliana Herrera (Universidad Tecnológica de Pereira, Colômbia)
Ainda no segundo dia, outra palestra de Mihaela-Genţiana Stanișor: “A
escritura como posta em cena do pensamento desassossegado”. Este que
foi um dos mais intensos e ricos dias de trabalhos do encontro
internacional ocorrido em Pereira foi coroado com as últimas
conferências do professor Alfredo Abad Torres e da professora María
Liliana Herrera, ambos da Universidad Tecnológica de Pereira;
respectivamente, uma reflexão a partir do diálogo entre Cioran
(notadamente o capítulo “Odisseia do Rancor” de História e Utopia) e Dostoievski de Memórias do Subsolo,
e uma reflexão sobre “a sulfúrica transfiguração” de Cioran,
conferência que abordou de maneira ampla e aprofundada a questão do
passado político de Cioran tendo como horizonte hermenêutico a filosofia
da história de Oswald Spengler.
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