quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

A fé de que Deus está no controle e a atração da direita religiosa.

  Artigo de Jung Mo Sung*

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2022/10/07_10_bolsonaro_foto_Gustavo_Lima_Cmara_dos_Deputados_wikimedia_commons.jpg

"O que podemos fazer nessa situação? Não estou pensando em como dialogar com as lideranças das igrejas que têm interesses em manter esse dogmatismo, mas em pessoas simples que encontraram nesse tipo de comunidades um caminho de sobrevivência"


Após 4 anos de um governo incompetente e corrupto, a pergunta é: como Bolsonaro ou o bolsonarismo ainda têm apoio tão significativo no país? Entender esse processo de manutenção desse apoio é fundamental para reduzir a força da direita radical e reconstruirmos o Brasil.

Sabemos que esse grupo é composto de diversos setores da sociedade (neoliberais, autoritários, racistas, cristãos conservadores...) e, neste artigo, quero focar no setor popular, especialmente o religioso popular (evangélicos, pentecostais e católicos).

Para entendermos o que aconteceu nos últimos seis anos (governos Temer e Bolsonaro), precisamos voltar a 1989 como um marco. Com a queda do Muro de Berlim e a derrocada do bloco comunista e da URSS, o mundo passou por uma profunda transformação geopolítica, ao mesmo tempo que ocorria uma reorganização econômica e tecnológica, conhecida também como a globalização e a “sociedade em rede”. Manuel Castells, no seu clássico livro A sociedade em rede, defendeu a tese de que a noção concreta de “tempo e espaço”, como as pessoas pensam e vivem o seu cotidiano, mudou. Quem não é capaz de se adaptar a novas formas de trabalho e de inserção ao mercado de trabalho vão sendo excluídos dos “benefícios” do mercado e sentir saudades dos tempos passados; e/ou os que não nasceram ou não se alfabetizaram corretamente se sentem desconfortáveis no seu mundo, não compreendem o que está acontecendo no mundo e nas suas vidas concretas.

Com o fim do bloco comunista e a introdução da lógica do mercado na China, mais de 1 bilhão de trabalhadores entraram no mercado de trabalho capitalista mudando completamente a relação de poder de negociação entre os capitalistas e a classe trabalhadora. As indústrias foram para países que pagam menos salários. A cultura de consumo e as tecnologias de manipulação e controle dos desejos e informações aumentaram a obsessão de consumir, ao mesmo tempo em que os salários da maioria diminuíram, gerando ansiedade, frustração e sentimento de culpa.

Uma forma de lidar com essa situação é reduzir o excesso de informações e problemas entrando em ou fortalecer o sentimento de pertença a uma comunidade que lhe oferece certeza e segurança. Nesse processo, as comunidades religiosas oferecem o que lhes desejam: a certeza, por meio de dogmatismo religioso e valores morais absolutas, e segurança de que “Deus está no controle” da sua vida e do mundo. A “certeza” de que Deus está no controle da vida pessoal e da própria história não é uma questão de direita ou de esquerda (muitos defensores da TL também creem nisso), é do dogmatismo religioso.

Para manter essa segurança, não basta estar na comunidade, mas é preciso que eles lutem contra os que não querem colocar Deus no controle da sociedade e da história. Isto é, guerrear contra os “diabos” do nosso tempo: os “comunistas”, a “ideologia do gênero” e os defensores dos direitos humanos. Eles não querem discutir esses conceitos ou valores, pois discutir é ir contra a segurança e a certeza que adquiriram ao entrar na sua comunidade.

O que podemos fazer nessa situação? Não estou pensando em como dialogar com as lideranças das igrejas que têm interesses em manter esse dogmatismo, mas em pessoas simples que encontraram nesse tipo de comunidades um caminho de sobrevivência. Penso que o primeiro passo é reconhecermos que nós, os que pensam que somos muito diferentes dessas comunidades, não são tão diferentes. Todos nós vivemos o desconforto da insegurança material e existencial, além de negarmos também verdades que não queremos ver. Só assim podemos dialogar com eles e elas, pois no fundo “eles e elas” não são tão eles/elas, somos parecidos na mesma vulnerabilidade.

*Teólogo, cientista e professor titular da Universidade Metodista de São Paulo no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/626141-a-fe-de-que-deus-esta-no-controle-e-a-atracao-da-direita-religiosa-artigo-de-jung-mo-sung

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