quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

A máquina aprendeu a mentir

 Por Juremir Machado*


A máquina aprendeu a mentir  
Imagem de carnaval feita por GPT a pedido do colunista do Matinal

Em “Deep blue, ou a melancolia do computador”, Jean Baudrillard explicou: “O confronto de um ser humano e de um artefato « inteligente » (Kasparov contra Deep Blue) é altamente simbólico, não somente pelo prestígio do jogo de xadrez, mas porque resume o dilema do homem face às máquinas contemporâneas que utiliza: informatizadas, virtuais, cibernéticas, em rede, etc.; por trás do uso instrumental, criativo ou interativo, trata-se no fundo de uma partida, de uma competição, de um desafio, de um confronto em que qualquer um pode fracassar ou perder a dignidade. Não há interatividade com as máquinas (tampouco entre os homens, de resto, e nisso consiste a ilusão da comunicação). A interface não existe. Sempre há, por trás da aparente inocência da técnica, um interesse de rivalidade e de dominação. O jogo de xadrez nada mais faz do que radicalizar essa situação”.

      A máquina só não podia blefar:  “Voltemos a Kasparov: se venceu é porque (metaforicamente) consegue falar várias línguas – a do afeto, da intuição, do estratagema, do jogo rápido, sem contar a do cálculo – enquanto Deep Blue só fala a do cálculo”. A vitória da máquina era de outra ordem: “A eventual vitória do computador não cria problema: sabemos que ela só pode resultar da força do cálculo”. O humano podia enganar e ser enganado; a máquina, não: “O homem pode impor-se em termos de ilusão, de logro, de desafio, de sedução, de sacrifício. Essa estratégia da fragilidade, do jogo aquém das possibilidades, o computador compreende mal, pois está condenado a jogar no máximo de suas possibilidades”. A melancolia do computador vinha de não chorar.

      A Inteligência Artificial avançou e gerou seu filho mais promissor, capaz de ameaçar o sistema cognitivo inteiro. O jornalista Flávio Gomes provocou GPT, inteligente como certos alunos que não leram o livro, mas são capazes de simular a resposta padrão:

“Meu caro ChatGPT, escreva um parágrafo sobre o dia em que Michael Schumacher se vestiu de noiva”. 

Resposta: “O dia em que Michael Schumacher se vestiu de noiva foi um momento engraçado e inesquecível na carreira do lendário piloto alemão. A ocasião foi uma brincadeira para comemorar um título conquistado por Schumacher e sua equipe. Ele usou um vestido branco tradicional, com véu e bouquet, e posou para fotos com seus colegas de equipe e a bandeira do campeonato. Essas imagens divertidas mostraram o lado engraçado e descontraído de Schumacher e refletem a amizade e a camaradagem que ele tinha com seus colegas. Este episódio é lembrado como uma das histórias curiosas e divertidas da a camaradagem que ele tinha com seus colegas. Este episódio é lembrado como uma das histórias curiosas e divertidas da carreira de Schumacher e continua a ser um momento marcante para seus fãs e amantes do automobilismo”.

Desmentido do jornalista: “O que aconteceu de verdade: Schumacher nunca se vestiu de noiva para comemorar título nenhum. Jamais posou com a equipe de vestido branco, véu e “bouquet”. Não existe “bandeira do campeonato”. O episódio não é lembrado por ninguém e nunca foi marcante, porque só foi revelado em setembro de 2021 quando eu contei a história no meu blog. Aconteceu numa bebedeira de começo de temporada em Madonna di Campiglio, na Itália, num evento da Philip Morris. Quem tirou a foto foi minha ex-mulher”.

Revolução tecnológica: a máquina aprendeu a mentir.

*Jornalista. Escritor. Prof. Universitário

Fonte:  https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-a-maquina-aprendeu-a-mentir/ 20/02/2023

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