quarta-feira, 16 de outubro de 2024

Em tempos de eleições: agências de checagem não são suficientes para conter o distúrbio informacional

Por Magaly Prado, professora convidada do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

 

Magaly Prado – Foto: Arquivo Pessoal

 
As agências de checagem de fatos desempenham um papel essencial no combate à desinformação, promovendo uma cultura de verificação que deveria ser adotada por todos. É crucial ressaltar que a apuração rigorosa e a incessante checagem de fatos são responsabilidades inatas do jornalista. No entanto, o pensamento crítico, essencial para lidar com o atual ambiente informacional, é adquirido ao longo da carreira e com a vivência pessoal. O uso acelerado de robôs (bots) nas redes sociais e aplicativos de mensageria instantânea, especialmente para disseminar mensagens falsas, discursos de ódio e teorias da conspiração, é uma preocupação constante entre os estudiosos da comunicação.

A circunstância do tempo de atenção dos internautas revelou-se tão significativa que se pode afirmar que essa aceleração está gerando um novo “sensorium“, uma forma superficial e apressada de consumir material digital. Esse comportamento, cada vez mais comum, tende a se espalhar amplamente, contaminando o modo como todos interagem em rede. Este é o ponto nevrálgico de preocupação para o jornalismo, que busca atrair e manter a audiência para cumprir seu propósito maior: fornecer informações de interesse público com a ética que lhe é inerente.

Ademais, é necessário redobrar a checagem de informações provenientes de fontes não profissionais, que muitas vezes carecem de responsabilidade ética ao compartilhar conteúdo. É fundamental combater o “efeito manado” que leva à disseminação indiscriminada da turbulência da informação. Para que um fato se torne notícia, ele precisa ser verdadeiro, respeitando a prioridade ética do jornalismo: a busca pela “verdade factual”, expressão cunhada por Hannah Arendt (1906-1975) em seu ensaio Verdade e Política, publicado na revista New Yorker em 1967. Dominique Wolton destaca a importância do jornalista em distinguir a expressão pessoal da informação factual nas redes sociais, ressaltando que a internet exige um trabalho contínuo de verificação para garantir a qualidade das informações compartilhadas.

A prática de verificação de fatos, fundamental na era das deepfakes – ápice da desinformação –, exige uma atenção meticulosa aos detalhes. A provocação das deepfakes é que são criados vídeos e áudios extremamente realistas e difíceis de distinguir da realidade, tornando a checagem mais intrincada. No entanto, a prática da verificação não é nova. Nos Estados Unidos, ela surgiu nos anos 1990 como uma forma de autenticar declarações feitas em anúncios políticos veiculados na televisão. Hoje, centenas de organizações ao redor do mundo se dedicam a desmascarar mensagens falsas (veja exemplos ao final). A importância delas nunca foi tão evidente, pois estamos diante de uma proliferação de conteúdo crescente de baixa qualidade, muitas vezes elaborado com o intuito deliberado de distorcer os fatos.

O desafio, no entanto, vai além da simples checagem de fatos. A vulgarização de mensagens falsas obriga os jornalistas a desviar tempo e recursos para verificar boatos e fraudes, tarefa que, até recentemente, não era parte integral de suas responsabilidades. Hoje, além de fiscalizar governos e produzir reportagens apuradas, os jornalistas lidam com a tarefa árdua de análise de conteúdo e de contexto para desmascarar mentiras, corrigir desinformações e tentar conscientizar o público sobre os danos causados por essas falsidades. Embora as agências de checagem tenham surgido como resposta à era do desarranjo informacional, a imensidão do problema supera sua capacidade de resposta.

Mesmo com o trabalho de jornalistas e “fact checkers”, a velocidade e o alcance da superindústria das mensagens falsas, direcionadas e amplificadas por algoritmos e bots – conjurando fakers humanos e não humanos – tornam a tarefa de verificação insuficiente. Além disso, os danos causados pela escalada de mensagens falsas podem se alastrar rapidamente quando acessados por determinados grupos. A propagação viral de desinformações, muitas vezes impulsionada pelo desejo dos internautas de consumir conteúdos que confirmem suas crenças, acaba por ameaçar o debate público e compromete a qualidade da informação circulante.

Sinalizar e reduzir a visibilidade de mensagens falsas

Quando os algoritmos restringem o conteúdo, contribuem para regular e, ao mesmo tempo, atrapalhar dificultando a comunicação digital e o livre fluxo de informações. Mas quem deveria denunciar essas mensagens sem fundamento? A responsabilidade pela checagem dos fatos, das histórias, do que circula, não deveria recair apenas sobre a imprensa ou as empresas de comunicação, mas também sobre as pessoas com um mínimo de instrução, as famílias e o sistema educacional, que precisa se adaptar às demandas deste cenário bicudo e desafiador. É imprescindível promover estudos de letramento, literacia tecnológica e habilidades críticas de informação, também conhecidos como educação midiática. Enfim, mesmo com o surgimento das agências de checagem de fatos, é necessário continuar educando os consumidores sobre o perigo das mensagens engendradas enquanto elas persistirem.

A era digital trouxe um aumento significativo na participação e expressão das pessoas, mas nem sempre de forma responsável. Vivemos em um mundo de transparência e, muitas vezes, de fontes abertas, onde qualquer indivíduo pode se tornar um “veículo” de comunicação, o que facilita a propagação da desinformação. O conteúdo qualificado, que passa por rigorosa apuração, checagem de informações e transparência de fontes, contrasta com o material desinformativo, que frequentemente se resume a rumores ou notícias plantadas com interesses escusos.

O agravante é que muitos dos meios onde essas mensagens deturpadas são publicadas se assemelham aos tradicionais veículos jornalísticos, com sites falaciosos imitando o design e a identidade visual da imprensa legítima. Utilizam cores, fontes e até nomes parecidos com os de veículos de comunicação estabelecidos, confundindo o público. Essa estratégia associa de forma equivocada o conteúdo enganoso ao trabalho jornalístico, criando textos pseudo-noticiosos, sem vínculo com a realidade, mas que imitam reportagens.

Esses falsários fazem um twist adaptando e distorcendo acontecimentos do dia para criar o que chamamos de “sites gêmeos” ou “clones”, copiando a arquitetura dos sites legítimos, com as mesmas fontes, layout e, muitas vezes, imagens roubadas. As manchetes, títulos e subtítulos são modificados para enganar o público. Até que as agências de checagem consigam desmascarar essas falsidades, Inês é morta. O cândido público é facilmente tapeado, enquanto os velhacos aproveitam a situação para reafirmar suas crenças, e, assim, não se aborrecer, não sair do estado de ataraxia, sem se preocupar com o impacto psicológico de lidar com a verdade.

As grandes plataformas comerciais, movidas por algoritmos de inteligência artificial, modulam o pensamento do público, muitas vezes atingindo de forma predatória grupos vulneráveis. Redes como Facebook (incluindo WhatsApp e Instagram) e Google (com o YouTube) – apesar de iniciativas (controversas) como o Facebook’s Fact-Checking Program e o Google News Initiative – têm milhões de acessos por segundo e estão em uma era de distribuição, controlando a visibilidade de conteúdo, ao mesmo tempo em que permitem a circulação destrambelhada de mensagens, porque qualquer pachorra advinda das brigadas da web tem lugar a ser publicado.

Muitas agências de checagem de fatos são afiliadas ou operadas por veículos de comunicação tradicionais, o que lhes permite utilizar os recursos e a audiência desses veículos para amplificar o impacto de suas checagens. Paralelamente, a imprensa, as bibliotecas e as agências de checagem trabalham incansavelmente para reforçar a importância da verdade factual e da informação precisa, enquanto tentam combater a desinformação em tempo real. Os checadores de fatos vêm de uma variedade de formações acadêmicas e profissões, e a diversidade de formações e experiências permite as várias perspectivas e metodologias para refletir a natureza multidisciplinar do trabalho de verificação na explosão de informações.

Embora a maioria das checagens de fatos ainda seja realizada em formato escrito e distribuída online, existem iniciativas de checagem de fatos em formato de áudio, incluindo programas de rádio e podcasts, que tornam o reporte de checagem mais acessível para quem prefere consumir informação dessa maneira. Isso é especialmente importante em comunidades onde a rádio é uma das principais fontes de informação. O formato em áudio também permite uma abordagem dinâmica e envolvente, com discussões e entrevistas que aprofundam as verificações.

Áudios falsos, manipulados ou enganadores são frequentemente desmascarados por agências de checagem de fatos, mas o processo pode ser um pouco mais complexo do que para textos ou imagens.

Métodos com ferramentas para checar áudios falsos

Análise técnica do áudio
• Verificação de origem: Análise de metadados e rastreamento da origem do arquivo.
• Reconhecimento de voz e análise forense: Para verificar se o áudio é autêntico ou se foi manipulado.
Contextualização
• Checagem de conteúdo: Para ver se as informações fornecidas são precisas ou enganosas. Isso pode incluir verificar declarações e compará-las com fontes confiáveis.
• Verificação de fontes: Se o áudio inclui declarações de figuras públicas ou fontes identificáveis, as agências podem buscar confirmação dessas declarações com as fontes originais ou verificar se foram realmente feitas.
Consultas
• Com especialistas em áudio e tecnologia para confirmar se o áudio foi alterado ou manipulado.

Essas agências, que desempenham um papel crucial na verificação, detecção de fontes e recontextualização de informações, enfrentam uma batalha difícil contra o rápido espalhamento de mensagens falsas. A tarefa é semelhante a “enxugar gelo”: uma vez que o público tenha sido exposto à desinformação, corrigir essas mensagens a tempo é um grande desafio.

Uma das mudanças mais cruciais no jornalismo digital é a velocidade com que a informação circula. No entanto, o que permanece inalterado é o processo de produção da notícia: o planejamento da reportagem, a pesquisa do tema, a busca por fontes e personagens, a apuração, a checagem, a identificação, a captação de informações, a redação, a revisão (feita pelo repórter ou pelo editor) e a edição.

Culturalmente, não é comum realizarmos checagens frequentes de falhas, deslizes e fraudes. Ficamos dependentes de mediadores para nossas transações. No entanto, há um elemento perverso nesse processo: muitas vezes, as desinformações são propositalmente plantadas para desviar a atenção dos checadores, obrigando-os a desmentir incessantemente, o que acaba afastando o foco de outras checagens importantes. O ideal seria que houvesse mais ferramentas de inteligência artificial (exemplos: Hoax – analisa a propagação de mensagens falsas – e para detectar deepfake: Deepfake Detector, Truepic e Sensity AI), capazes de automatizar a checagem das “mentiralhadas” e, assim, garantir um combate mais eficaz e consistente a essa prática.

Automação e IA: Utilização de tecnologia de detecção

Diversas ferramentas de inteligência artificial têm sido desenvolvidas para a detecção de desinformação, incluindo:
• Análise de sentimentos: Utiliza técnicas de processamento de linguagem natural para avaliar o tom e a emoção das palavras em uma mensagem. Mensagens com tom negativo ou excessivamente emotivo podem indicar desinformação.
• Detecção de linguagem enganosa: Emprega algoritmos de aprendizado de máquina para identificar padrões de linguagem frequentemente encontrados em mensagens falsas. Detectam frases com linguagem ambígua ou que utilizam fontes anônimas.
• Verificação de fatos automatizada: Compara informações em notícias ou postagens nas redes sociais com bancos de dados de informações verificadas, automatizando a checagem da precisão dos dados.
• Rastreamento de fontes: Utiliza técnicas de inteligência artificial para rastrear a origem de uma postagem ou história, verificando se a fonte é confiável. Esse método é útil para identificar mensagens falsas criadas por bots ou outras técnicas automatizadas.

Imparcialidade, transparência e precisão

As agências se dedicam ao esforço extraordinário de conferir a veracidade da ansiedade das informações na internet e identificar as mensagens falsas. Baseando-se em evidências e fontes confiáveis, elas produzem conteúdo esclarecedor e informativo para o público. No entanto, é importante lembrar que algumas dessas agências recebem financiamento de empresas tecnológicas, muitas das quais abrigam desinformação e não tomam medidas suficientes para eliminá-la. Além disso, essas plataformas também possuem conteúdo checado pelas próprias agências que financiam. Isso levanta uma questão válida sobre a independência editorial dessas organizações. Para garantir que as verificações sejam conduzidas de maneira imparcial, é indispensável que as agências de checagem mantenham sua autonomia, mesmo quando financiadas por grandes empresas de tecnologia.

Emily Bell, diretora do Tow Center for Digital Journalism da Columbia University, destaca que “é importante lembrar que as mesmas empresas que estão presentes em nossas redações, treinando e conversando com jornalistas, também estão fazendo o mesmo com políticos (…) e vendendo pacotes de software para autoridades educacionais locais.” Avaliar o nível de independência do jornalismo nessas circunstâncias é complexo. Bell ressalta que “essas são preocupações muito sérias e, sinceramente, pouco discutidas devido à influência penetrante do dinheiro.”

Embora as agências de checagem garantam ter total liberdade para realizar seu trabalho, essa independência deve ser constantemente defendida. Existem códigos de princípios que as agências de checagem devem seguir para promover a excelência na verificação de fatos, e muitas delas estão sob constante escrutínio. Um exemplo é a International Fact-Checking Network (IFCN), da Poynter. Alexios Mantzarlis, diretor da IFCN, reflete sobre a complexidade do financiamento, afirmando: “É um tanto injusto, de certa forma, que com todo esse financiamento, parece que você tem que justificar que não está respondendo ao seu doador, de um jeito que não acontece em outras transações. Quando você tem um cliente grande, também não está respondendo mais ou menos aos desejos dele?”. A IFCN defende que a “verificação de fatos transparente e apartidária pode ser um instrumento poderoso para o jornalismo de prestação de contas.” Os verificadores de fatos comprometidos com a IFCN seguem rigorosos padrões de transparência em seu trabalho diário, semelhante ao incansável trabalho de formiguinhas (lembrando que formigas são conhecidas por sua inteligência!).

O status de signatário da IFCN pode ser concedido a organizações legalmente registradas que publicam relatórios imparciais sobre a precisão factual de declarações de figuras públicas, instituições proeminentes e questões de interesse público. Um exemplo de ação coletiva ocorreu quando mais de 80 organizações de checagem de fatos em todo o mundo publicou uma carta aberta à CEO do YouTube, Susan Wojcicki, acusando a plataforma de ser um dos principais canais de desinformação. A carta listou exemplos de vídeos de diferentes países que causaram danos na vida real e pediu que o YouTube ampliasse seus esforços contra a disseminação de mensagens falsas em idiomas além do inglês. Entre os signatários, de mais de 46 países, estavam o Africa Check, o Washington Post Fact-checker, dos EUA, e as brasileiras Agência Lupa e Aos Fatos.

Opiniões de todos os lados nos ecossistemas de informação

Ao permitirmos que não profissionais compartilhem informações em ambientes sociotécnicos, sem apuração, checagem ou fontes confiáveis, distribuídas na blogosfera, por meio de torpedos, sites e caixas de comentários, e, posteriormente, nas redes sociais, observamos uma proliferação de opiniões tão disparatadas quanto verossímeis. Esse cenário, repleto de informações desencontradas, fica à mercê de especialistas em propaganda maliciosa, que podem usá-las para tentar modular o pensamento e comportamento do público, colocando em risco a democracia, que já passa por condições para lá de adversas com todo esse imbróglio aumentando a entropia do sistema.

Nas redes sociais e nos mensageiros interativos instantâneos, predomina a busca pela confirmação. Apenas aqueles que concordam com a opinião do outro se aproximam, enquanto o banimento daqueles que discordam se tornou prática comum, muitas vezes acompanhada de ofensas. O gigantismo do espaço virtual reforça a tendência de engajamento com informações que confirmam crenças pré-existentes. Como resultado, observamos mudanças de atitude nas pessoas expostas à poluição comunicacional, gerando desconfiança e uma atmosfera confusa, especialmente nas mídias sociais, com impactos diretos na participação política e cultural. A ausência de informações verdadeiras e precisas causa estragos sem precedentes, e vale lembrar que a informação é um direito humano fundamental.

Apesar de a automação e algoritmos possam facilitar e melhorar a eficiência na checagem de fatos, eles ainda não são capazes de substituir completamente o trabalho humano. A combinação de tecnologia e análise humana é atualmente a abordagem mais eficaz, permitindo que a automação lide com tarefas de grande volume e os humanos se concentrem na interpretação e verificação detalhada. A evolução contínua da tecnologia e a integração com habilidades humanas são essenciais para enfrentar os desafios da desinformação de maneira eficaz.

Essa discrepância do volume de dados, quando a taxa de geração de informações é muito maior do que a quantidade possível de ser consumida, pode ser descrita pelo aumento da entropia informacional. O ideal é aplicar a inteligência de rebanho e, de quebra, entender o esquema dos algoritmos o bastante para tentar enganá-los e, com isso, perderem força. Mesmo que rebaixem ou derrubem sites e perfis de má-fé aqui e ali, estes voltam de novo. Portanto, é inevitável e fundamental que possamos debater a justiça dos dados, as leis que vão reger quem provoca o distúrbio informacional. Talvez punições para quem estarrece com mensagens falsas.

Assim, mesmo com o trabalho de formiguinhas com olho vivo das agências de checadores – algo imprescindível, o alerta é apenas em parte dos usuários, pois não consegue ir aos mesmos lugares que os bots, sobretudo porque o público que consome a cacofonia informacional muitas vezes não está exposto aos resultados das checagens de fatos nos mesmos canais que elas são divulgadas. Isso pode incluir diferenças em hábitos de mídia, como preferências por certas redes sociais, sites ou plataformas. Além disso, os algoritmos das redes sociais e plataformas podem criar bolhas de filtro onde os usuários são evidenciados principalmente a informações que confirmam suas crenças preexistentes. Isso pode limitar a exposição a checagens de fatos para aqueles que precisam delas. Ainda algumas pessoas podem ter uma visão cética das agências de checagem de fatos, especialmente se percebem essas organizações como tendenciosas ou alinhadas a certos interesses. Portanto, melhorar a eficácia na comunicação e alcançar o público certo é um aspecto essencial para a eficácia das iniciativas de checagem de fatos.

A discrepância entre o volume de dados e a capacidade de consumo pode ser descrita como aumento da entropia informacional. Para enfrentar esse desafio, é essencial adotar uma abordagem estratégica, como utilizar a “inteligência de rebanho” e compreender os algoritmos para tentar manipular ou diminuir seu impacto. Embora a remoção de sites e perfis maliciosos possa ter algum efeito, esses frequentemente reaparecem.

Diante desse cenário, torna-se urgente:

1) na educação, estimular jovens e adultos, por meio de uma alfabetização midiática robusta, a desenvolverem consciência, visão e ouvido crítico diante das mensagens falsas que assolam o ciberespaço e a identifica-las por conta própria;
2) nas agências de checagem, desmascarar incansavelmente a desinformação, um esforço árduo que se assemelha a um calvário, já que, ao desmentir uma mensagem falsa, outras rapidamente surgem em seu lugar; e
3) na Academia e nas empresas, investir em pesquisas e experimentos que busquem novas formas de armazenar conteúdo de maneira inviolável, como o uso de plataformas baseadas em blockchain, e fomentar a compreensão do público, permitindo sua participação na elaboração de leis de regulação que não recaiam na censura ou ameacem a liberdade de expressão.

Portanto, é crucial discutir a justiça dos dados e as leis que regulamentarão os responsáveis pela desordem informacional. Punir aqueles que disseminam mensagens falsas pode ser uma abordagem necessária. Para combater a discórdia fomentada por desinformadores, replicar boas práticas e adotar a contrafala como tática de combate pode ser eficaz. Se todos contribuírem para desmascarar uma fraude por dia, podemos reduzir o impacto das mensagens falsas.

Nota: Algumas das agências de checagem brasileiras como a Agência Lupa, Aos Fatos, Comprova, G1 Fact Checking/Fato ou Fake, Boatos.org, UOL Confere, Estadão Verifica, entre outras, são referências significativas no campo. Entre as internacionais, como são muitas, deixo aqui as globais, presentes em vários continentes, com checagens em vários idiomas como a Agence France-Presse (AFP) Fact Check e a Reuters Fact Check. Para registro, o pioneirismo do FactCheck.org fundado em 2003 por Amy Goodman e dirigido pelo Annenberg Public Policy Center da Universidade da Pensilvânia é um dos primeiros sites dedicados exclusivamente à checagem de fatos e ainda é uma referência importante na área.

Assista ao clipe: Na saúde e na política

Fonte:  https://jornal.usp.br/artigos/em-tempos-de-eleicoes-agencias-de-checagem-nao-sao-suficientes-para-conter-o-disturbio-informacional/

Nobel de Economia passou de “grande apoiador” de Lula a “extremamente desapontado”

Por Roberta Ribeiro

Daren Acemoglu, vencedor do Nobel de Economia que passou de "grande apoiador" de Lula a "extremamente desapontado"

Daren Acemoglu, vencedor do Nobel de Economia que passou de “grande apoiador” de Lula a “extremamente desapontado”| Foto: Nobel Prize Outreach/ Niklas Elmehed

O economista turco Daron Acemoglu, um dos laureados com o Nobel de Economia na segunda-feira (14), disse no ano passado que as relações e o posicionamento do Brasil em relação aos BRICs e, principalmente, à China o desapontaram. “Fui um grande apoiador do presidente Lula, mas agora estou extremamente desapontado”, afirmou em entrevista à revista Veja publicada em outubro de 2023.

Acemoglu, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), recebeu o Nobel de Economia juntamente a Simon Johnson, também professor do MIT, e James A. Robinson, docente da Universidade de Chicago. O trio foi premiado por sua pesquisa a respeito de como as instituições sociais são formadas e impactam o desenvolvimento e a prosperidade das nações.

Segundo os vencedores do Nobel de Economia, instituições inclusivas e fortalecidas são fundamentais para o desenvolvimento econômico e político saudável e, portanto, para geração de riqueza. Por outro lado, instituições frágeis ou autoritárias, ou as instituições extrativas, como as chamam, levam a pouco crescimento econômico e político, corrupção e outros vícios de poder nas nações.

Em outubro de 2023, quando deu a entrevista, o futuro Nobel de Economia já era mundialmente reconhecido por seu sucesso editorial Por que as Nações Fracassam, também assinado por seu colega de Nobel James A. Robinson, entre outros autores. Naquele momento, em entrevista à revista Veja, ele afirmou que tinha se decepcionado ao ver que o governo de Lula não teria feito nada para impedir o domínio chinês sobre os BRICs.
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“Devo expressar minha profunda decepção em relação aos países do Brics, especialmente o Brasil. Fui um grande apoiador do presidente Lula, mas agora estou extremamente desapontado. A atual expansão do grupo me parece ir em direção equivocada aos interesses do bloco”, disse.

Na visão de Acemoglu, o mundo em desenvolvimento precisa de uma “voz independente”. O economista ainda afirmou que a China “parece estar se movendo em uma direção mais repressiva em comparação com uma década atrás” e que os BRICs parecem estar se colocando sob a influência chinesa.

“Essa situação é lamentável. Para o Brasil, que parece concordar com essa mudança, é uma tristeza profunda. Trata-se de um retrocesso significativo”, afirmou.

Segundo o vencedor do Nobel de Economia, países como Brasil, Turquia, Indonésia, Índia e Bangladesh precisam ter uma voz independente, contrária à supremacia da China e dos EUA, principalmente no que diz respeito à tecnologia, inteligência artificial e aos impactos do comércio global.

Enfatizando ainda mais seu posicionamento contrário ao rumo tomado pelos BRICs, Acemoglu afirmou que os países integrantes do bloco parecem estar se tornando “meros clientes dos chineses e dos russos”. Ele reforçou ainda mais suas preocupações em relação à China, por ir na contramão da democracia.

O professor afirma que a China age “reprimindo movimentos democráticos em diversas regiões e usando a tecnologia para o controle autoritário”. Ele também destaca que essas práticas não se restringem ao território chinês.

“A repressão e a falta de liberdade na China são comparáveis às de regimes fascistas do passado. Além disso, a China exporta tecnologias de vigilância, censura e monitoramento para pelo menos 60 países, a maioria dos quais não é democrática, o que mina a sociedade civil e organizações semelhantes. Isso cria problemas significativos em todo o mundo”, afirmou.

Em relação aos EUA, o economista destaca a preocupação com a abordagem tecnológica e o empoderamento de corporações, sendo que ambos os aspectos trazem “desafios substanciais” para o mundo.
Nobel de Economia afirmou que é preciso ir além das políticas de redistribuição de renda

Outro ponto abordado pelo economista são os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. O economista elogiou o programa, no entanto, passadas duas décadas de sua implementação, afirmou que não é o suficiente.

Segundo o Nobel de Economia, as estratégias não podem se firmar somente nas “transferências diretas de renda”, mas devem ser expandidas para medidas educacionais e de geração de empregos.

Acemoglu explicou que, nesses casos, a melhor estratégia “está relacionada ao mercado de trabalho” e que “isso envolve a criação de oportunidades para pessoas de diferentes níveis de habilidade e a prevenção do poder excessivo de tecnologias e corporações no mercado de trabalho”.

Ao citar os exemplos de Noruega e Suécia, campões mundiais na distribuição igualitária de renda, onde há altos investimentos em educação e especialização de mão de obra, o professor indica o melhor caminho, na sua visão, para o Brasil:

“Nesse contexto, a criação de empregos e oportunidades para trabalhadores com diferentes níveis de habilidade desempenha papel fundamental. O Brasil deveria seguir por esse caminho”, disse.

Na entrevista à Veja, o laureado com o Nobel analisou ainda a relação entre desigualdade e democracia, argumentando que alta desigualdade corrói as bases democráticas, prejudicando a estabilidade política e abrindo espaço para líderes populistas e autoritários. Era, segundo a revista, uma referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

“Em países onde a desigualdade é exacerbada, a confiança nas instituições democráticas diminui, e figuras políticas que antes seriam impensáveis começam a ganhar apoio, como um presidente que expressou simpatia pela ditadura militar ou manifestou intenções autoritárias. Portanto, tanto a desigualdade quanto a corrupção representam ameaças ao funcionamento saudável da democracia e devem ser enfrentadas de forma decisiva”, disse ele.

Acemoglu ainda falou sobre a importância da imparcialidade do Judiciário no combate à corrupção e dos perigos da perseguição a adversários políticos.

“É importante contar com instituições independentes, como um sistema judiciário que atue de forma imparcial. No entanto, é fundamental evitar que o combate à corrupção seja utilizado como pretexto para perseguir adversários políticos, como ocorreu especialmente na China. Ao lidar com a corrupção, é preciso exercer cautela para não aprofundar ainda mais a polarização política e preservar a independência das instituições democráticas”, concluiu.

Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/economia/nobel-de-economia-passou-de-grande-apoiador-de-lula-a-extremamente-desapontado/?utm_source=salesforce&utm_medium=emkt&utm_campaign=newsletter-economia&utm_content=economia

Não existe pobre de direita.

 Por: IHU e Baleia Comunicação | 16 Outubro 2024

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2024/10/16_10_john_william_waterhouse_pandora_1896.jpg

 Reprodução da obra Pandora, de John William Waterhouse| Domínio Público

Entrevista especial com Luís Fernando Vitagliano

Para o professor, política é uma coisa e o compartilhamento de valores morais é outra, de tal modo que é preciso fugir da análise rasa e da posição elitista de que a periferia é de direita

O ambiente digital se tornou a Caixa de Pandora do fascismo da extrema-direita. Amparados em uma estética do horror, que tem ganhado corpo nas plataformas digitais, a ultradireita tem um discurso baseado na criação de pânicos morais de toda a ordem e a certeza de que os algoritmos farão circular seus conteúdos radicalizados.

Na tentativa de pensar alternativas ao retrocesso civilizatório que esse modelo de política impõe, o professor Luís Fernando Vitagliano defende a “criação de espaços de políticas públicas e ações republicanas dentro das redes”. Segundo sugere, “é preciso permear a lógica das Big Techs com espaços e possibilidades de ações públicas e valorização do espaço público. Se a internet for essa terra sem lei e sem orientação de todos contra todos, continuará o ‘Deus nos acuda’”, pontua.

E é no alcance dos algoritmos nas mais diferentes camadas da sociedade que se revela a aproximação dessa direita extremada aos mais pobres, ao convencer a coletividade de que um dos lados simboliza o mal e o outro o bem. “Assim, não se avalia política na construção de um projeto de sociedade, de uso e formas de atuação da coisa pública, mas de uma avaliação moral dos políticos, das suas propostas vistas pelo prisma do julgamento de valores e se esse valor do candidato é compartilhado com o meu”, assinala o entrevistado. Para o pesquisador, “não existe pobre de direita. Existe pobre que é convencido de que seu voto deve levar em consideração seus valores e espelhar esses valores – o que o faz esquecer a política, porque política não trata de valores, mas de consideração a respeito da coisa pública”, explica Vitagliano na entrevista a seguir concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Em relação à América Latina, Luís Vitagliano pondera que a ascensão do radicalismo no continente está atrelado ao fracasso dos governos progressistas. É “a região do mundo com maior concentração e renda e riqueza e, mesmo com todo o prejuízo que isso causa, há um crescimento do apoio àqueles que defendem as medidas neoliberais. Isso só é possível de entender considerando que os governos progressistas têm dado respostas medíocres aos problemas sociais da América Latina”, analisa.

Luís Fernando Vitagliano (Foto: Instituto Lula)

Luís Fernando Vitagliano é assessor da presidência do IBGE, onde coordena projetos especiais e é diretor do convênio do Instituto com o PNUD. Participa do Comitê Técnico para o 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, do Comitê de Tecnologia da Informação e Comunicação (CTIC) e do Comitê de Afastamento para Pós-graduação (CAPG). É também graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (2001) e mestre em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (2004) e doutor (2024) em Mudança Social e Participação Política pela EACH/USP. Coordenou o projeto e formação do Instituto Luiz Inácio Lula da Silva, (2020-2023), tendo liderado projetos na área da formação política com e parcerias externas, e na Fundação Perseu Abramo, onde coordenou os cursos de Difusão do Conhecimento em Gestão e Políticas Públicas (2014-2018) e a Rede Nacional de Pesquisadores Associados (2019-2020). Foi bolsista CAPES no mestrado e FAPESP na iniciação científica.

Confira a entrevista.

IHU – Em que sentido a ultradireita trava batalha mais profunda que a eleitoral?

Luís Fernando Vitagliano – A ultradireita de hoje talvez seja o maior diferencial em relação às propostas de direita do passado recente e de momentos que antecederam o golpe civil-militar de 1964. O conservadorismo proposto por eles implica uma visão de mundo que envolve uma visão específica de família, propriedade e liberdade. Específica porque é excludente em relação à família, considerando o padrão monoparental de pai e mãe progenitores e filhos. Excluindo a complexidade do conceito desde as famílias informais, passando pelas homoafetivas, mas também essa conceituação é um problema para famílias reconstruídas.

Liberdade para a ultradireita atual é em relação ao mercado – que é uma liberdade predatória e sem nenhuma regulação. E a defesa da propriedade vai além do uso social da propriedade para a defesa radical e irrestrita do direito a propriedade. O curioso é que esses três elementos já foram julgados e recusados em outros momentos da história.

Eleitoralmente, a direita perdeu e perde eleições quando o sentido real do que essa defesa significa torna-se público sem teorias da conspiração e exageros catastrofistas. Por isso, a profundidade da proposta só ganha volume capaz de vencer uma eleição se vier com uma boa dose de deformações sobre o que a extensão desses conceitos pode significar. Ou seja, a ultradireita, uma direita radical, que significa uma direita que tem seus princípios e posições sólidas ao ponto de as tornarem inegociáveis, é uma exceção que a história já julgou e, provavelmente, vai julgar novamente como indesejada. É por isso que, também, acompanha o seu sentido um viés golpista. Faz parte do projeto como faz parte a deformação do outro lado.

IHU – Como o bafio arcaico do passado somado às ruínas do presente compõe uma certa moldura abjeta da política atual?

Luís Fernando Vitagliano – Esse bafio só é viável se você não apenas defendê-lo, mas ridicularizar o debate. Em certo sentido, infantilizar. Veja, é na infância que, para desenharmos nossa moral, os conceitos de certo e errado, que formamos um mundo binário de bom e mal para as pessoas. À medida que amadurecemos, vamos percebendo que as atitudes boas e más estão presentes em muitos lugares. Boas pessoas podem ter decisões ruins e que pessoas indigestas podem ter atitudes nobres. Isso faz parte do amadurecimento do caráter. Assim, aqueles desenhos que tínhamos heróis e vilões não fazem mais sentido na vida adulta. E o maniqueísmo dá lugar a uma vida mais complexa de escolhas com decisões e suas consequências positivas e negativas com as quais temos que conviver. Acontece que, coletivamente, é muito difícil atingir essa maturidade. Então se eu convencer pessoas de que um lado da sociedade representa o mal, logo, você votando desse lado está do lado do bem.

Assim, não se avalia política na construção de um projeto de sociedade, de uso e formas de atuação da coisa pública, mas de uma avaliação moral dos políticos, das suas propostas vistas pelo prisma do julgamento de valores e se esse valor do candidato é compartilhado com o meu. Não existe pobre de direita. Existe pobre que é convencido de que seu voto deve levar em consideração seus valores e espelhar esses valores – o que o faz esquecer a política, porque política não trata de valores, mas de consideração a respeito da coisa pública.

Ao reconhecer que tanto o pobre quanto o rico têm seus valores no âmbito privado, o desafio é fazê-los considerar que no espaço público seus valores devem considerar a relação e a convivência com outros valores. Essa segunda parte da história é, em muitos casos, desconsiderada, porque a maioria das pessoas reconhece que os valores dos outros deve se adequar aos seus valores. Quando consigo essa evolução, tenho um eleitor progressista.

IHU – Até que ponto o fascismo estende seus tentáculos sobre a política não somente no Brasil, mas em todo o continente latino-americano? Que exemplos evidenciam esses sinais do tempo?

Luís Fernando Vitagliano – Qualquer filósofo minimamente comprometido com o rigor, que for consultado para uma análise de conjuntura, vai dizer que cada época representa seu próprio desafio. Nossa época tem essa radicalização da direita com ganho social de densidade para responder ao ponto que chegamos. No caso da América Latina, muitos desafios nos colocam. Entre eles, entender por que a direita se permite ser neoliberal no subcontinente com a maior desigualdade de renda em todo o mundo. A América Latina representa a região do mundo com maior concentração de renda e riqueza e, mesmo com todo o prejuízo que isso causa, há um crescimento do apoio àqueles que defendem as medidas neoliberais.

Isso só é possível de entender considerando que os governos progressistas têm dado respostas medíocres aos problemas sociais da região. Assim como é preciso reconhecer que Néstor Kirchner foi de grandes avanços sociais na Argentina, é preciso reconhecer que os governos de Cristina e Alberto Fernández foram rasos, assim como no Brasil que teve grande sucesso com Lula I e Lula II e acabou tendo uma sequência insuficiente. Isso quer dizer também que se Lula III não mostrar a que veio, é consenso que a direita volta com mais força que chegou antes.

Isso nos leva a considerar uma reflexão: a ascensão da ultradireita é o lado oposto da crise de identidade da esquerda. Não há uma correlação causal entre elas, mas são fenômenos correlatos. Quando a esquerda é incapaz de organizar as classes oprimidas, abre espaço para setores ultrajantes da sociedade exercerem esse papel.

IHU – Quem é ou o que é, hoje, o sujeito latino-americano?

Luís Fernando Vitagliano – Imagino que sua pergunta seja no sentido de quem é o sujeito coletivo da história, como a classe operária representa essa força política para a leitura marxista. Isto foi sempre muito complicado na América Latina, onde os operários sempre foram minorias. Representaram apenas 30% da força de trabalho local, no auge da industrialização, em alguns poucos países como México, Colômbia e Brasil. Tampouco tivemos uma classe campesina no sentido trabalhado pelos intelectuais europeus. O ibero-americano, de José Martí, ou no livro “Ariel”, de José Enrique Rodó, é um debate que precisamos retomar. Abapurú, de Tarsila do Amaral, é uma boa imagem da forma distorcida que assumimos em relação à imagem do colonizador. Esse debate está em aberto.

Seremos os cristãos fervorosos que interpretam a bíblia dos católicos para formar as leis de uma nação? Ou seremos os trabalhadores empreendedores individuais que abrem mão dos seus direitos sociais e são movidos por um propósito como prega Pablo Marçal? Ou seremos o país de integração social que preconizou Stefan Zweig? Cada vez menos conseguimos falar em América Latina e latino-americano. Assim como boa parte das referências de unidade nacional e internacional tem perdido espaço, o que me permite dizer que a sua pergunta vem no sentido oposto da conjuntura; você me pergunta sobre unidade e identidade, e a conjuntura me apresenta fragmentação e desconstrução.

IHU – Historicamente, como a América Latina serviu de laboratório ao neoliberalismo? Que episódios atestam essa hipótese? Quais suas consequências?

Luís Fernando Vitagliano – A primeira experiência neoliberal na América Latina foi em 1975 com a guinada que o governo [Augusto] Pinochet fez em relação ao neoliberalismo. Ali, criou-se o primeiro laboratório de implementação do neoliberalismo no mundo. Antes de Margaret Thatcher, Ronald Reagan e Helmut Josef Michael Kohl, tivemos Pinochet como experimento no terceiro mundo. A partir dos anos 1980, além da mudança da política de juros do Federal Reserve dos EUA, as políticas privatistas de Thatcher na Inglaterra se estenderam pela Europa, mesmo que não no mesmo patamar.

Concomitante, neste mesmo período, um grupo de lideranças latino-americanas foi aliciado pelo Instituto de Economia Internacional – IEE presidido por John Williamson. O IEE fez uma série de conferências com lideranças latino-americanas para propor políticas de Estado. Essas recomendações, resumidas em dez pontos em 1989, ficaram conhecidas como “Consenso de Washington” e determinaram a política para os países da região, inclusive com pressões dos organismos multilaterais como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional, para que os governos adotassem essas medidas.

A consequência é que isso gerou uma corrida ao individualismo e ao desmonte das políticas públicas que colocaram a desigualdade como principal chaga das sociedades latino-americanas e um problema sobre o desenvolvimento que nos une como região, tamanho é o problema gerado pelas políticas de austeridade sugeridas a partir do norte. É importante destacar que os problemas apresentados são recorrentes porque internamente há grupos sociais que se associam a essas propostas colonialistas. Não existe, portanto, essa colonização econômica sem que, internamente, não haja grupos hegemônicos que implementam os princípios básicos dessa colonização.

IHU – O discurso da ultradireita se assenta em dois pilares elementares: a produção constante e infindável de pânicos morais (e medo) de toda ordem – dos costumes à agenda econômica – e uma certa garantia de circulação dos seus conteúdos radicalizados nas plataformas digitais, inclusive impulsionado por regras algorítmicas. Como fazer frente a essa estética do horror e defender um projeto civilizatório?

Luís Fernando Vitagliano – Esse é um ponto central a se considerar. O que a ultradireita tem feito de novo é alcançar um domínio impressionante da internet. Não porque a internet é feita para a ultradireita, mas porque as necessidades da ultradireita cabem exatamente na lógica da internet que tem sinergia com a os algoritmos e a rede. Os algoritmos, por exemplo, funcionam sob a lógica da “toca de coelho”. Ou seja, valorizam os assuntos que você entra e começa a navegar dentro dele, navegar, navegar... e ficar imerso na quantidade de coisas publicadas sem nenhuma conclusão ou com a pretensão mesma de não concluir e manter o usuário viciado no tema para que acesse mais, procure mais e fique aprisionado. A ultradireita precisa desse tipo de procedimento para difundir suas teorias conspiratórias.

Por exemplo, a teoria de que as urnas são hackeadas e manipuladas ajuda a difundir uma ideia de que as eleições são elementos frágeis e a democracia precisa ser revista. O que garante a elas desafiar as instituições quando se sentir ameaçada. Também as teorias contra a vacina ou as teorias do kit gay. Tudo se encaixa nas propostas de radicalizar as posições que as lideranças de direita assumem em relação à sociedade, e o algoritmo adora. Isto aumenta o engajamento, mobiliza grupos, faz com que o tempo médio de permanência nas redes aumente e, principalmente, faz com que os usuários se tornem alvos fáceis das propagandas e manipulações das empresas que querem vender soluções. E isso precisamos também discutir: como essas empresas criam problemas para vender as soluções. Exemplo: criar a depressão para vender antidepressivo.

Para fazer frente a essa estética do horror, será preciso regular (mas não é suficiente), taxar (que também não resolve) e, principalmente, criar espaços e práticas de políticas públicas e ações republicanas dentro das redes. Veja que esse é um problema dos países liberais. Em países em que há uma política nacional que submete a internet a ela, o problema das conspirações e da influência da ultradireita é outro. Porque estão submetidos a uma concepção privada e neoliberal da rede, como espaço de lucro de multinacionais. Então, é preciso permear a lógica das Big Techs com espaços e possibilidades de ações públicas e valorização do espaço público. Se a internet for essa terra sem lei e sem orientação de todos contra todos, continuará o "Deus nos acuda".

IHU – No Brasil, nem sequer conseguimos alcançar o Estado de bem-estar social, mas apenas direitos muito elementares a partir de 1988. Contudo existe, desde a chamada “ponte para o futuro”, um projeto agressivo de destruição de algo que nem foi plenamente construído. Esse projeto pretende colocar o que no lugar de nossos parcos direitos?

Luís Fernando Vitagliano – Esse é um problema mais profundo a respeito do que é o debate sobre as redes e o que é a ultradireita. Que é: como desenvolver e estender a cidadania à universalidade dos brasileiros? Não foram o desenvolvimentismo ou o nacional-desenvolvimentismo nem a Constituição de 1988 ou os governos progressistas que conseguiram estender a universalidade dos direitos aos brasileiros, porque uma parte da sociedade se recusa a assumir políticas que expressem a cidadania. Quando no Brasil se viajava muito de avião e pessoas que nunca tiveram condições de voar conseguiram comprar passagem, o ruído desse grupo foi que os aeroportos estavam parecendo rodoviárias e que as pessoas não sabiam se comportar como passageiros de avião.

Ou quando direitos da Consolidação das Leis do Trabalho – CLT se estenderam às empregadas domésticas e os patrões se recusavam a entender-lhes os direitos. É uma sociedade ainda de mentalidade escravocrata que considera que determinados direitos só cabem a quem tem “alma” (porque a ausência de alma era uma das justificativas do direito a escravizar outros seres humanos). Assim, só os “almados” merecem direitos humanos. Aos criminosos, aos pobres (excetuando os ‘limpinhos’), aos marginalizados, não há direitos porque fazem parte de uma categoria que não é reconhecida por não terem o pré-requisito fundamental para se humanizar, que era, antes, a alma e, agora, pode ser qualquer outra justificativa, seja o padrão considerado normal, seja o cidadão de bem ou qualquer outra coisa.

O fato é que o escravismo acabou, mas a mentalidade escravagista se mantém e divide a sociedade entre o nós (os que têm os direitos incluídos – os cidadãos de bem) e os outros (os desalmados, os malditos, os degenerados – eles). Mas, ao termos resquícios dessa mentalidade escravagista, não preciso nem reforçar o argumento de que o terreno é fértil para a segregação da ultradireita.

IHU – Como sair dessa encruzilhada posta pela extrema-direita e avançar em direção a uma sociedade capaz de enxergar a si própria de maneira mais realista em seus limites e possibilidades?

Luís Fernando Vitagliano – Somos um país de sobressaltos. Colonizados até 1822, depois com o primeiro e  osegundo reinados divididos por nove anos de regências. Primeiro Reinado 1822-1831. O reinado é interrompido pela Regência (1831-1840). Depois, um reinado longo de 1940-1888. A República Velha (1889-1930). Interrompida pela ditadura Vargas (1930-1945), a Segunda República (1945-1964). Outra ditadura (1964-1988) e a Nova República (1989-atual). Portanto, temos que o Segundo Reinado foi o período mais estável da nossa história com 48 anos de duração ininterruptos. Depois vem a República Velha, com 41 anos de duração; a Nova República, com os atuais 35 anos de duração. Portanto, nossa estabilidade política é baixa e instável, de modo que não podemos descartar as lições que a história ensina.

Nós podemos terminar esse período da Nova República com mais uma ruptura democrática. Uma segunda hipótese é que conseguiremos sustentar a democracia. Mas me parece que a sociedade brasileira acaba escolhendo a democracia e a república como forma de se manifestar politicamente. Pelo menos foi isso que acabou sendo o resultado dos vários plebiscitos feitos no Brasil. Em 1963 e em 1993 decidiu-se pelo presidencialismo e pela democracia. Mas, diante da instabilidade, a democracia pôde vir depois de uma ruptura institucional. Portanto, há a maneira lenta e a maneira curta de sair da situação. Mesmo com uma minoria apoiando a ruptura, a baixa organização da sociedade civil permitiria que um golpe acontecesse sem grandes resistências. O problema é que esse golpe não teria fôlego para um regime diferente, mas nos colocaria em um período longo de dominação da extrema-direita e essa é a aposta deles.

O segundo caminho é o institucional em que a extrema-direita vai ser derrotada pela sua própria ineficiência em corresponder aos anseios populares. Uma coisa é eu fazer proselitismo contra a violência na sociedade dizendo que o cidadão de bem deve se armar para se defender. Outra coisa é eu considerar isso política pública. Ou associar ao armamento civil o aumento da violência policial. Ao perceber que essas soluções são inócuas e dificultam a política, o eleitor vai rejeitar o discurso rapidamente. Isso considerando que os setores progressistas vão continuar politicamente incompetentes nesse debate. Ou seja, pela via democrática, a própria incapacidade de resolver os problemas vão tirar a ultradireita dos governos com a mesma velocidade que o neoliberalismo sucumbiu. Se esse caminho curto acontecer, optar por defender as instituições da democracia ainda que reconhecendo os seus limites acaba sendo uma opção viável.

IHU – Agora uma questão que retoma um debate subjacente a todas as anteriores: como nos ressensibilizamos em direção ao humanismo ético e plural?

Luís Fernando Vitagliano – Em uma sociedade de mentalidade escravagista, vamos ser bem-sucedidos em partes. Ou seja, de modo geral, vamos conseguir recuperar valores humanistas e éticos, ainda que a internet, as plataformas e redes sociais tenham nos colocado dificuldades circunstanciais. Mesmo que o crescimento da extrema-direita tenha se manifestado de forma imperativa em alguns casos, o efeito de ressaca também se impôs. Nos EUA, Trump conseguiu a façanha de não se reeleger. No Brasil, Bolsonaro foi o primeiro presidente da Nova República a não se reeleger desde que a lei foi aprovada. Teremos que acompanhar a Argentina de Javier Milei, mas tenho a impressão que terá muito mais dificuldades para se reeleger do que foi para se eleger. Isso porque se começa a separar o voto de protesto, da dificuldade que se tem para cumprir promessas, e também o perfil das realizações fica mais claro o caminho em dissonância com o discurso. Aí, ocorre o engano do eleitor com as confusões estimuladas pela campanha de segregação que não se justificam.

IHU – Deseja acrescentar algo?

Luís Fernando Vitagliano – Um ponto importante do debate é que a democracia é pedagógica. Ela ensina a sociedade a respeito dos seus limites e possibilidades e também a respeito das perspectivas de mundo. Um grupo que aposta na segregação e na tradição num país como o Brasil, ansioso por modernidade e inclusão, está fadado ao fracasso. Ou no curto e médio prazo a direita se transforma e faz gestões que vão escandalizar seus parceiros neoliberais, ou será descartável e descartada.

A pauta de costumes recorrentemente tem efeito de escândalo, mas seu ponto de impacto é paliativo. Como já foi dito aqui, o fato de que houve falta de compreensão da esquerda em relação aos seus próprios governos permitiu que propostas fantasiosas e o desvio da pauta se fizessem. Há inclusive uma dificuldade compreensível de se fazer alguns debates como o da necessidade de direitos sociais e de direitos humanos nas redes sociais e nas plataformas que têm algoritmo atuando em favor do neoliberalismo, mas também houve erros de avaliação dos setores progressistas. Inicialmente, foi muito bem, mas depois de 2013 uma série de manifestações detonou insatisfações que as esquerdas não souberam trabalhar e faltou humildade em reconhecer que precisava rever postura e método.

As urnas são implacáveis em relação à conjuntura: se você não fizer a leitura correta da conjuntura vai sempre considerar o eleitor como ingrato. Mas, sinceramente, entre o diagnóstico de que o eleitor foi ingrato ou de que o político não entendeu as necessidades que cabem à política pública, eu fico com a segunda opção.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/644816-nao-existe-pobre-de-direita-entrevista-especial-com-luis-fernando-vitagliano

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Do bom uso da razão cordial e sensível

 Por Leonardo Boff

O que é Gaia

Face à crise atual que afeta  o inteiro planeta de forma perigosa pois pode desembocar na terceira guerra mundial que poria em risco a biosfera e a vida humana, devemos resgatar o que poderia mudar o rumo da história.

Comungo da interpretação  que sustenta ser o atual estado do mundo deriva de, pelo menos duas grandes injustiças: uma social com a geração, por um lado, de uma desigualdade sociais perversas e, por outro, de uma acumulação de riqueza como jamais houve há história a ponto de 8 pessoas (não empresas) deterem mais riqueza que mais da metade da população mundial. A outra é a injustiça ecológica: o planeta Terra com seus biomas está sendo, há séculos, depredado a ponto de que precisamos de mais de uma Terra e meia para atender o consumo humano,preferencialmente dos países consumistas do Norte Global.

A reação de Gaia, a Terra  como Super-Organism vivo, se mostra por uma gama significativa de vírus e pelo a aquecimento crescente, provavelmente irreversível,  que causa tufões, ciclones e tornados altamente destrutivos, ameaçando a biodiversidade, crianças e idosos, incapazes de se adaptar e condenados a morrer.

Retomo o tema: esta tragédia eco-social é fruto da razão que degenerou  em racionalismo (despotismo da razão) e se traduziu em técnicas, por um lado benéficas à nossa vida moderna e por outro tão mortal que pode destruir tudo o que temos construído em milênios de história, ameaçando as bases ecológicas que sustentam o sistema-vida.

Ela teve origem lá no passado, pelo século Vº a.C, da virada do pensamento mítico para o pensamento racional dos mestres gregos. Inicialmente mantinha-se grande equilíbrio entre todos os principais eixos existenciais: do Pathos (capacidade de sentir), do  Logos (forma de compreender o real), o Ethos (nossa forma de bem viver e conviver), do Eros (nossa potência de vida) e do Daimon (a voz da consciência).

Esse ideal foi excelemente expresso por Péericles (495-429 a.C),grande estadista democrático, general, exímio orador, em Atenas:”Amamos o belo mas não o vulgar; dedicamo-os à sabedoria, mas sem vanglória; usamos a riqueza para empreendimentos necessários, sem ostentações inúteis; a pobreza não é vergonhosa para ninguém; vergonhoso é não se fazer o possível para evitá-la”.

Eis um exemplo da justa medida. Não sem razão em todos os pórticos dos templos gregos, podia-se ler: “méden ágan”(nada de excessivo).

Mas logo, a fome de poder, característica de Alexandre,o Grande (356-323 a.C), aquele que com 33 anos de idade estendeu seu império até à Índia, rompeu o equilíbrio. A razão, transformada em vontade de poder e de instrumento de dominação dos outros e da natureza ganhou a primazia. É o que ainda subjaz ao atual modo de organizarmos nossas sociedades, especialmente, a sua forma mais excessiva e desumana, o capitalismo que tomou conta de todo o orbe. Poderia ser diferente? Era inevitável? O que podemos dizer é que foi uma opção histórico-social, o nosso “destino manifesto”, hoje numa radical crise de seus fundamentos.

Quero dar o exemplo de uma cultura que colocou o coração e não a razão, como eixo estruturador de sua organização social: cultura náuatle do México e da América Central, (hoje são cerca de 3,3 milhões de habitantes), sendo desta etnia os aztecas e toltecas. Para os nauatles o coração ocupava a centralidade. A definição de ser humano não é, como entre nós, a de um animal racional, mas a de um “dono de um rosto e de um coração”.

O tipo de rosto  identifica e  distingue o ser humano de outros seres humanos. No rosto a rosto, no cara a cara, nasce o sentimento ético, nos ensinou Levinas.  No rosto fica estampado se o acolhemos,  se dele desconfiamos, se o excluímos. O coração, por sua vez,  define o modo-de-ser e o caráter da pessoa, a sensibilidade face ao outro  a acolhida cordial e a compaixão com quem sofre.

A educação refinada dos náuatles, conservada  em belíssimos textos, visava formar nos jovens um “rosto claro, bondoso e sem sombras”, aliado a um “coração  firme e caloroso, determinado e hospitaleiro, solidário e respeitoso das coisas sagradas”. Segundo eles, era do coração que nascia a religião que utilizava “a flor e o canto” para venerar suas divindades. Colocavam coração em todas as coisas que faziam. Essa cor-dialidade passava às belíssimas obras de arte a ponto de encantar o pintor renascentista alemão Albert Dürer ao contemplá-las.

Tiremos algumas lições desta cultura do coração e da cor-dialidade.

1.Em tudo o que pensar e fizer coloque coração. A fala sem coração soa fria e formal. Palavras ditas com coração tocam o coração das pessoas. É isso que facilita a compreensão e conquista a adesão.

2.Procure junto com o raciocínio articulado colocar a emoção cordial. Não a force porque ela deve espontaneamente revelar a profunda convicção naquilo que crê e diz. Só assim comove o  coração do outro  e se faz convincente.

3.A inteligência intelectual,indispensável para organizar nossas sociedades complexas, quando recalca a inteligência cordial gera uma percepção   reducionista e distanciada da realidade. Mas também o excesso da inteligência cordial e sensível pode decair para o sentimentalismo adocicado e para proclamas populistas. Importa sempre buscar a justa medida entre mente e coração mas articulando os dois polos a partir do coração.

4.Quando tiver que falar a um auditório ou a um grupo, não fale só a partir da cabeça mas dê primazia ao coração. É ele que sente, vibra e faz vibrar. Só são eficazes as razões da inteligência intelectual quando elas vêm amalgamadas pela sensibilidade do coração.

5.Crer não é pensar Deus. Crer é sentir Deus a partir da totalidade de nosso ser,começando pelo interior, pelo  coração. Então nos damos conta de que não estamos submetido a um Deus julgador, mas um Realidade amorosa e poderosa que sempre nos acompanha.

*Teólogo. Escritor.

Fonte:  https://leonardoboff.org/2024/10/15/do-bom-uso-da-razao-cordial-e-sensivel/

Inteligência Artificial: “A autonomia está em perigo e isto é ruim para a democracia”.

 A entrevista é de Manuel G. Pascual, publicada por El País, 11-10-2024. A tradução é do Cepat.

 https://www.ihu.unisinos.br/images/ihu/2024/10/15_10_IA_pexels.png

Entrevista com Adela Cortina

15 Outubro 2024

Adela Cortina (Valência, 77 anos) nunca imaginou que escreveria um livro sobre Inteligência Artificial (IA). “Nós que trabalhamos no campo da ética temos muito interesse que o conhecimento progrida. A ciência e a tecnologia, bem direcionadas, são extraordinárias para a humanidade”, dispara ao iniciar a conversa com o El País. “A questão é que às vezes estão e às vezes não”. É disso que se trata a sua nova obra: Ética o ideología de la inteligencia artificial? (Paidós).

Professora emérita de Ética e Filosofia Política da Universidade de Valência e doutora honoris causa de oito universidades nacionais e estrangeiras, Cortina é uma das pensadoras mais conhecidas da Espanha. Foi a primeira mulher a ingressar na Real Academia de Ciências Morais e Políticas e é autora de mais de trinta livros, entre os quais se destacam Aporofobia: a aversão ao pobre (2017) e Para que serve realmente a ética? (Prêmio Nacional de Ensaio 2014). Nesta ocasião, a filósofa se concentra na tecnologia que monopoliza a atenção do mundo desde que, há dois anos, surgiu o ChatGPT.

Eis a entrevista.

Por que você está preocupada com a IA?

Penso que [Karl-Otto] Apel e [Jürgen] Habermas tinham razão quando diziam que existem três interesses do conhecimento: o técnico, o prático e o da emancipação. Quando o interesse técnico é regido pelo prático, o da moral, leva a uma verdadeira emancipação da sociedade.

A IA é saber científico-técnico que deve ser conduzido para alguma direção. Se quem o controla são grandes empresas que querem poder econômico ou países que querem poder geopolítico, então, não há nenhuma garantia de que será bem utilizado. Se esta tecnologia afeta toda a humanidade, deve beneficiar toda a humanidade.

Considera que o debate em torno da IA está ideologizado?

No livro, concentro-me nas duas posições principais: a dos temorosos da IA, que acreditam que ela será a fonte de todos os males, e a dos mais entusiastas, os transumanistas e pós-humanistas, que acreditam que a IA ajudará a alcançar um mundo absolutamente feliz.

Há quem, como Ray Kurzweil [diretor de Tecnologia do Google], apresente data: diz que em 2048 teremos acabado com a morte. Isso seria ideologia, no sentido tradicional do termo: uma visão distorcida da realidade que é mantida para perseguir determinados objetivos. Aí não se está agindo como na ética.

Parece-me extremamente perigoso mentir, dizer que vamos solucionar tudo com a IA. O perigo dessa posição é que está assentada na autoridade da ciência, e isto faz com que as pessoas a levem a sério. Sou seguidora da Escola de Frankfurt, que diz que a ciência e a técnica são maravilhosas, mas quando se tornam ideologia, porque já são uma força produtiva, então, mudamos o sentido do assunto.

Quais princípios éticos deveriam reger uma IA confiável?

A sociedade emancipada é a que está livre de ideologias e para isso deve estar dotada de uma ética. Os princípios básicos são o da não maleficência (não causar danos), o da beneficência (fazer o bem), o da autonomia e o da justiça.

Além desses, existem os princípios da rastreabilidade e explicabilidade, um tema complicado quando lidamos com algoritmos, e o da prestação de contas. E há ainda o princípio da precaução, que nós, europeus, demonstramos.

Existe uma boa legislação sobre este assunto?

Nós, europeus, costumamos ser chamados de excessivamente normativistas, mas penso que não está errado sermos cautelosos, há vidas humanas em jogo. Isto não deve impedir que a pesquisa prossiga. É necessária uma ética da responsabilidade. Delimitar até onde chegamos na pesquisa não é simples.

No livro, você debate se a IA pode ser sujeito ou sempre será uma ferramenta. Já está na hora de um debate a este respeito?

Os especialistas dizem que, no momento, não chegamos à inteligência artificial geral, o que seria equiparável à dos seres humanos. Para isso, seria necessário que tivessem um corpo biológico, pois é a forma de ter significatividade, intencionalidade etc. O que temos são inteligências artificiais especiais, capazes de realizar muito bem certas tarefas, até melhor do que nós.

Penso que é muito importante sabermos onde estamos e que se abra um debate sério sobre isso. Hoje, é um instrumento e, portanto, deve ser utilizado para um fim ou outro, mas nunca para substituir os seres humanos. Não se pode substituir os professores, os juízes e nem os médicos por algoritmos. Os algoritmos não tomam decisões, mas fornecem resultados. É a pessoa que deve ser responsável pela decisão última.

Uma das consequências muito ruins que o uso da IA pode ter é a de transformar as máquinas em protagonistas da vida. É preciso ter muito cuidado porque temos tendência ao comodismo, e quando um resultado já vem dado, você pode ter a tentação de simplesmente adotá-lo.

Faz sentido falar de ‘roboeticistas’ ou de ética das máquinas?

Já há algum tempo que se tenta criar máquinas éticas que tenham uma série de valores incorporados. Parece-me muito interessante que esses códigos possam ser assumidos de alguma forma, seja nos algoritmos que dirigem veículos ou nos robôs que cuidam dos idosos, para que tomem decisões sem a necessidade de ter um humano perto o tempo todo.

Você dedica a última parte do livro para abordar a relação entre a educação e a IA. Por que você se concentra nesta atividade?

A educação é a chave de nossas sociedades e está muito descuidada. Na China, estão muito preocupados em aplicar a IA na educação, porque dizem que se explicamos às pessoas sobre o ontem, perdemos o amanhã.

Para mim, o tema central da educação é a justiça: há muitas pessoas que não têm acesso a essas ferramentas, o que faz com que a desigualdade aumente cada vez mais. Também estou preocupada com a autonomia. Uma das grandes tarefas do Iluminismo é potencializar a autonomia das pessoas, para que saibam dirigir suas próprias vidas.

Devemos educar para que haja cidadadãos críticos, maduros, que se movam por si, por suas próprias convicções. Que não se deixem levar por andadores, como dizia Kant, mas, ao contrário, que se guiem por sua própria razão.

E isso é muito difícil em um mundo onde as plataformas estão buscando que as dediquemos muito tempo para que coletem os nossos dados. Estão tornando o ensino superficial e as pessoas cada vez menos autônomas. Penso que a autonomia está em perigo e isto é ruim para a democracia.

Fonte:  https://www.ihu.unisinos.br/644760-inteligencia-artificial-a-autonomia-esta-em-perigo-e-isto-e-ruim-para-a-democracia-entrevista-com-adela-cortina