sábado, 7 de janeiro de 2023

“A ciência também precisa da intuição e da poesia” .

 O arqueólogo Walter Neves atrás de uma escrivaninha. Em cima dela, dois crânios humanos. Ao fundo, outros artefatos arqueológicos.

 Beatriz Raposo—Linguista

14 de mai de 2021


Beatriz Raposo de Medeiros é linguista especializada em fonética e fonologia. Graduou-se em letras pela Universidade Estadual de Campinas. Fez mestrado e doutorado em linguística pela mesma instituição, e um pós-doutorado na Universidade de Provença, na França.


Como você explica a sua área de atuação para quem não sabe o que você faz?

Eu sou foneticista. Nós estudamos os sons das línguas em todas as suas manifestações. Estudamos coisas como a entoação da fala, a comparação da entoação do canto com a da fala, etc. Todos esses são assuntos que existem dentro da fonética.

Qual é a importância de estudarmos a fonética, a fonologia e a produção física e cognitiva da fala?

A fonética e a fonologia são duas disciplinas integradas, que se confundem, no bom sentido. Elas são integradas para explicar a estrutura sonora das línguas, que é uma parte importante delas.

Não tem como você se referir a uma língua, falar sobre ela, sobre estrutura, regras, história e mudanças sem você ter ferramentas conceituais de nomenclatura para falar sobre os sons dela. É isso que a fonética e a fonologia fazem.

Sobre a cognição, que é uma outra área de interesse da minha pesquisa. Tudo está ligado. Tudo que a linguística propôs a partir dos anos 1950 com [Noam] Chomsky vai no sentido de um entendimento sobre como nós sabemos a língua, qual a nossa capacidade e habilidade de falar uma língua.

Nós temos a habilidade de dividir os sons da língua em vogais e consoantes, algo que aprendemos desde criança. Isso demonstra que existe algo propenso na nossa cognição, nas nossas estruturas cognitivas, para definir e categorizar coisas.

No ensino e no estudo da fonética, vogais e consoantes são unidades importantes. Quando você explica isso e a maneira como elas são articuladas, suas características acústicas, é um pulinho para explicar a cognição.

Eu vejo o Brasil como um país forte em fonética. O brasileiro gosta de som, gosta da canção

Como você avalia o estado das pesquisas nessas áreas no Brasil hoje?

Eu vejo o Brasil como um país forte em fonética. O brasileiro gosta de som, gosta da canção. A música do Brasil é a canção, não é a sinfonia, não é a música instrumental, embora tenhamos instrumentistas maravilhosos. Brasileiro gosta de falar.

Há alguns anos, fiz um levantamento sobre laboratórios de fonética na América Latina e, naquele momento, o Brasil era o único que tinha vários laboratórios nas universidades.

Temos um histórico de estudos fonéticos muito bonito. Por exemplo, o [escritor] Mário de Andrade tinha um gabinete de fonética no Departamento Municipal de Cultura de São Paulo [que fundou em 1935], ele sempre foi um entusiasta.

No meu caso, meu foco não é estudar a fisiologia do canto, apesar dela ser importante e fazer parte dos estudos da voz e da fala. Para mim, o importante é entender quais as relações entre a fala e o canto.

Uma das primeiras questões dele, que está atual ainda, e que as pessoas leigas também fazem é: por que é difícil entender o que uma pessoa está cantando quando a nota está muito aguda?

Fazer “i” cantado no agudo, “u” cantado no agudo é muito difícil. Uma das coisas que eu desmistifiquei no meu doutorado é que diziam que os cantores não sabiam cantar, principalmente as cantoras. As críticas eram uma série de coisas que eram impressionísticas, mas não eram científicas.

Reprodução
Uma janela do sistema operacional Windows, mostrando a visualização de ondas sonoras, com ferramentas de análise:

Uma janela do sistema operacional Windows, mostrando a visualização de ondas sonoras, com ferramentas de análise.
Inferface do software Praat, usado para análise fonética

A gente precisa também da impressão. Eu acho que a ciência precisa da intuição, da impressão, se não o novo cientista ou o estudante que quer entrar para a vida acadêmica não vai ser movido. Tem que ter um mote, um movimento, e acho que principalmente a curiosidade e a intuição são fundamentais.

E aí depois disso, começar a colocar as coisas, nomear mais corretamente e explicar, mas a intuição tem sempre que acompanhar, se não acho que não tem graça. Precisamos de uma dose de poesia, uma dose de arte.

A gente não fica só preso ao computador. Uma das coisas que eu faço além de estudar a fala e o canto, eu mesma canto. Fiz questão de trazer para a minha tese de livre docência, que ainda não está defendida, esse lado artístico, para algo que pode ser só científico, que é o caso da análise acústica do som em um software. Eu fiz questão de fazer uma espécie de troca em miúdos.

O que significa uma vogal cantada em uma nota aguda? O que isso implica no canto? No que as pessoas pensam de forma mais impressionística ou leiga? Eu tento fazer esse meio de campo, mostrando que ter a ciência e a arte juntas é o que importa.

Um projeto que você trabalhou recentemente foi justamente uma pesquisa sobre a intersecção entre a fala e o canto. Uma das problemáticas levantadas é que não existe bem um lugar exato onde nós dizemos ‘isso é fala, isso é canto’, que há uma transição gradual. Você pode contar como foi trabalhar nessa pesquisa e o que ela descobriu?

Eu fui no detalhe acústico. Para isso, eu fiz dois testes.

Um teste de produção, onde havia cantoras e atrizes que cantaram, falaram a mesma frase; e um teste de percepção. As pessoas iam até o laboratório e, dentro de uma cabine, diziam o que acharam de uma determinada frase, se era falada, se era cantada, se era canto parecido com fala ou se era fala parecida com canto.

Quando você está diante de uma música, se você liga o rádio e está tocando uma canção, você sabe que o seu ouvido vai escutar aquilo como canto, portanto, música. Se você liga o rádio e está passando uma entrevista, você sabe que aquele trecho –  e me refiro a trechos maiores –  é fala, não é música. No entanto, há entoações de fala que são muito parecidas com canto, como entoações de chamamento [usadas para chamar outras pessoas].

Nós fizemos uma relação das respostas com a característica acústica que estava ali. O que aconteceu é que na maioria das vezes, quando a fala é mais alongada ou tem mais variação de tom, ela é considerada canto ou canto parecido com fala. E quando ela não tem nada disso, nem grandes variações de tom e uma taxa de locução mais parecida com as palavras ditas numa velocidade mais típica de fala, aí é tido como fala.

O que eu gostei mais dessa pesquisa foi a parte artística. Fiz questão de usar trechos de “Macunaíma”, de Mário de Andrade, porque esses trechos têm tanto sua produção falada já consagrada no cinema e no teatro, como, mais recentemente, a versão musicada de trechos fiéis ao texto pela Iara Rennó no CD “Macunaíma Ópera Tupi”.

Depois, começamos a fazer as medidas, testes de percepção. Então, sim, nosso ouvido diferencia canto de fala, às vezes com uma certa dificuldade, se ele não tem o contexto – e propositalmente não demos o contexto.

Temos uma tendência de chamar algo de canto quando há um alongamento das sílabas, das vogais e quando há uma variação maior da frequência fundamental, que popularmente chamamos de tom de voz.

Arquivo Pessoal

A linguista Beatriz Raposo fala ao microfone palestrando em um auditório, sentada em uma mesa. Ao seu lado esquerdo, um colega olha para anotações em cima da mesa.
A cientista Beatriz Raposo e um colega posam ao lado do banner que apresenta a pesquisa sobre a qualidade vocal nas canções da banda de metal Iron Maiden

A linguista Beatriz Raposo de Medeiros em apresentação de artigo

A linguista Beatriz Raposo fala ao microfone palestrando em um auditório, sentada em uma mesa. Ao seu lado esquerdo, um colega olha para anotações em cima da mesa.
A linguista Beatriz Raposo fala ao microfone palestrando em um auditório, sentada em uma mesa. Ao seu lado esquerdo, um colega olha para anotações em cima da mesa. Arquivo Pessoal

A cientista Beatriz Raposo e um colega posam ao lado do banner que apresenta a pesquisa sobre a qualidade vocal nas canções da banda de metal Iron Maiden
A linguista Beatriz Raposo de Medeiros durante evento acadêmico

Essa pesquisa gerou um desdobramento em 2019. Você está trabalhando em uma iniciativa que tem como objetivo de juntar vários projetos do Lafalin (Laboratório de Fonética e Linguagem da USP). Como tem sido esse trabalho? Por que é importante criar esse diálogo interdisciplinar?

Em 2009, dez anos antes desse projeto, eu estava trabalhando com as vogais nasais só na fala. Aproveitei esse mote para dizer que a gente não fica só estudando a mesma coisa.

Podemos diversificar também, podemos sair de um assunto tão específico da linguística, como a vogal nasal do português, e passar para outros. Eu supervisiono um trabalho de fonética relacionado com a voz do paciente esquizofrênico.

Relacionando um pouco com as ciências psicológicas e psiquiátricas com a voz e a fala de um indivíduo, podemos indicar muitas coisas.

A intenção do meu projeto de 2019 é ser um projeto guarda-chuva, abrigando várias subdisciplinas que, ao meu ver, estão totalmente ligadas à linguística, mas que em termos oficiais não são ainda.

Eu faço parte de um projeto bem grande, como colaboradora, que é o SPIRA, uma iniciativa que se dedica a analisar falas de pacientes de covid-19 e de pessoas saudáveis para entendermos onde é que está uma biomarca que possa indicar pela voz e pela fala dessa pessoa que ela pode estar com covid.

Você pode explicar como o SPIRA funciona e como está o andamento do projeto?

O coordenador geral do SPIRA é o professor Marcelo Finger, do Instituto de Matemática e Estatística da USP. Temos vários grupos dentro desse projeto, eu sou daquele que chamamos carinhosamente de Small Data, com linguistas e fonoaudiólogos.

Em 2020, houve uma grande coleta de dados de vozes de pessoas saudáveis e de pessoas que já estavam diagnosticadas com covid-19. Com isso, conseguimos fazer uma comparação.

A gente tinha uma pergunta: qual é a diferença entre as vozes de quem está saudável e de quem está com covid? Parece, ainda não temos dados suficientes, que uma diferença em termos de linguagem é que os falantes que estão com covid fazem mais pausas, isso pode ser considerado um biomarcador.

É um processo longo e gratificante, porque conseguimos ver mais de perto um desdobramento do que pode ser essa doença na voz do indivíduo.

Contudo, temos que fazer com muito cuidado também. Não podemos ser arautos de uma coisa milagrosa. O que posso fazer é anotar esses marcadores, correlacionar eles com sintomas e dizer que há grande possibilidade daquela pessoa portar uma doença respiratória grave.

Eu tento fazer esse meio de campo, mostrando que 
ter a ciência e a arte juntas é o que importa


Enquanto pessoa, qual foi o maior presente que a linguística deu para a sua vida?

Foi poder relacionar a fala com o canto. Eu fico até emocionada, porque isso não era algo que se fazia.

A minha tese de doutorado foi a primeira a falar sobre essa problemática no Brasil. Depois, vieram outras na mesma linha. Fico contente de ver que isso de certa forma floresceu, mas acho que isso se deve muito ao amor do brasileiro pela fala e pelo canto, e é algo que eu acredito que o próprio brasileiro desconhece.

O que é um dia perfeito para você?

Tenho vários dias perfeitos, não um só. Mas, resumindo, eu acho que um dia perfeito é quando eu acordo mais ou menos cedo, na primavera ou no verão.

Quando na parte inicial do dia eu estudo um pouco de música e canto. Quando além de cantar eu consigo estudar um pouco, ler um artigo, ouvir uma entrevista ou ver um grande cientista brasileiro falando. E estar com amigos, brindar com os amigos no final do dia, em comunhão com alguém.

No trabalho, um dia perfeito é quando você consegue responder todos os seus emails.

3 livros que inspiraram Beatriz Raposo

O Nexo pediu para que a cientista indicasse três livros que inspiraram sua trajetória pessoal e profissional.

Amar se aprende amando

Carlos Drummond de Andrade

Lançado em 1985, o livro é o último volume de poemas que o autor publicou em vida, falando sobre os diferentes tipos de amor.

Mensagem

Fernando Pessoa

Publicado em 1934, “Mensagem” reúne 44 poemas de Fernando Pessoa que enaltecem as glórias passadas de Portugal e criticam uma suposta decadência que assolava a nação na época da escrita.

A vingança de Manon

Marcel Pagnol

Continuação do romance “Jean de Florettes”, o livro conta a história de um crime e seu respectivo castigo, além das tensões entre um homem da cidade e dois camponeses. Foi adaptado para o cinema em 1986.

Produzido por Cesar Gaglioni

Arte por Guilherme Falcão e Sariana Fernández

Desenvolvimento por Thiago Quadros

Edição por Letícia Arcoverde

©2021 Nexo Jornal

Link para matéria: https://www.nexojornal.com.br/podcast/2021/05/14/%E2%80%98A-ci%C3%AAncia-tamb%C3%A9m-precisa-da-intui%C3%A7%C3%A3o-e-da-poesia%E2%80%99
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