sábado, 7 de janeiro de 2023

O elefante na sala

 Eduardo Hoornaert*

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Certa vez, ao discutir questões filosóficas com um colega num gabinete da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, nos anos 1940, Ludwig Wittgenstein, com sua conhecida impetuosidade, gritou: Há um elefante na sala. Com isso, ele quis indicar que seu interlocutor, ao que lhe parecia, não enxergava o óbvio.

A imagem desse elefante me parece apropriada para passar um olhar crítico pelos vastos campos da atual cognição na civilização ocidental. Desde os primeiros esboços na Mesopotâmia, a impressão que se tem é que o próprio processo civilizador impede de enxergar ‘elefantes’, principalmente o elefante da escravidão. Na Grécia clássica, que nos lega a filosofia, a escravidão é onipresente, mas invisível. Dizem os historiadores que, na cidade de Atenas em tempo de Péricles (séc. V aC), cinco mil cidadãos vivem sustentados por cem mil escravos, um número aproximativo, pois acerca de escravos não existe registro escrito. No Liceu de Atenas (fundado por Aristóteles no século IV aC) não é difícil se imaginar um vai-e-vem incessante de ‘pedagogos’, escravos que trazem e levam crianças e jovens de famílias boas para participar de exercícios educativos. Pelo pátio do referido Liceu, homens e mulheres se cruzam, a preparar as mesas, servir comidas e bebidas, limpar o chão e as latrinas. Os estudantes não lhes dão atenção. Nem o próprio Mestre Aristóteles, que lhes dedica apenas umas linhas de sua ‘Política’ (não cito textualmente): esses nossos servidores fazem o que lhes compete fazer para o bom andamento do Liceu e isso lhes dá satisfação. A natureza cria uns para mandar e outros para obedecer. Os ‘servi ex natura’ (servos por natureza) nos são úteis, e mais não digo, já que temos que nos conformar com as leis da natureza, que dispensam reflexões filosóficas. Em outras palavras: Aristóteles deixa o elefante perambular tranquilamente por seu território.

Séculos depois, o teólogo cristão Agostinho (séc. V dC) não pensa diferente. Ele se mostra triste com os destinos da humanidade pecadora, essa ‘massa damnada’ herdeira do ‘pecado original’ de Adão e Eva. Mas não parece afetado pelo fato que, na guarnição militar costeira romana, sediada em Hipona, onde ele é bispo, se despacham rotineiramente grupos de africanos algemados, com destino aos mercados de escravos existentes na Itália. O teólogo lamenta o ‘inferno’ dos pecadores, mas não parece ouvir os lamentos e sussurros de africanos escravizados.

Desde a era da modernidade, sucessivos ‘elefantes’ entram na sala da cognição ocidental. Spinoza, Galileu, Kant, Hegel, Darwin, Freud, Marx, cada um num determinado setor, apontam evidências não reconhecidas ou mesmo abertamente negadas pela oficialidade. Eles formam o topo de um ‘iceberg’, pois o povo, tradicionalmente silencioso, mostra simpatia por seus posicionamentos. Parece que percebe o andar do elefante, mais que a elite. As mulheres, de seu lado, não deixam de apontar, por vezes de modo aberto e ativo, outras vezes silenciosamente, o sistema largamente heterônomo em que são obrigadas a passar a vida.

A cultura dominante, desde os tempos da modernidade até hoje, tapa os ouvidos e fecha os olhos, para não ver o elefante passar. A igreja dominante, por exemplo, desde os séculos XVII, só abre a boca para condenar, perseguir e mesmo levar à morte: inquisição [inúmeras mortes], fogueira [entre 40 e 50.000 ‘bruxas’ queimadas], Syllabus, índice livros proibidos, condenação, silenciamento, censura por todo canto. Ela passa a enxergar heresia em todo canto. Assim chega ao absurdo de condenar Santa Joana d’Arc à fogueira por se vestir de homem! A inquisição é um inferno: todos têm medo de todos, pois todos podem acusar o outro de ‘heresia’. Uma exasperação ‘a longo prazo’, repercussão impressionante da política de fechar os olhos e tapar os ouvidos. Para não ver o elefante passar.

* Nasci em Bruges, na Bélgica, no ano de 1930. Estudei línguas clássicas na universidade de Lovaina e teologia em preparação ao sacerdócio católico, entre 1951 e 1955. Em 1958 viajei ao Brasil (João Pessoa). Fui professor catedrático em história da igreja, sucessivamente nos institutos de teologia de João Pessoa (1958-1964), Recife (1964-1982), e Fortaleza (1982- 1991). Sou membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA), fui coordenador para o Brasil entre 1973 e 1978, responsável pelo projeto de edições populares entre 1978 e 1992, e entre 1993 e 2002 responsável pelo projeto "História do Cristianismo". Entre 1994 e 1997 fui pesquisador visitante no mestrado de história da universidade federal da Bahia. Durante esses anos todos administrei cursos e proferi conferências em torno de temas como: história do cristianismo; história da igreja na América Latina e no Brasil; religião do povo. Atualmente estou estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

Fonte: http://eduardohoornaert.blogspot.com/2023/01/o-elefante-na-sala.html

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