quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Três textos de Dostoiévski

 Por SALETE DE ALMEIDA CARA*


Considerações sobre “A aldeia de Stepántchikovo”, “Notas de inverno sobre i
mpressões de verão” e “O crocodilo”

Uma novela farsesca publicada em 1859, que começou a ser elaborada na Sibéria; um diário de viagem escrito entre 1862 e 1863 sobre os meses de julho e setembro de 1862 passados na Alemanha, França e Inglaterra; a versão de 1864 de um conto satírico e fantástico inacabado, com desdobramentos indicados por anotações nos arquivos russos. O que dizem esses textos no âmbito da prosa do escritor que volta a Petersburgo em 1859, depois de dez anos entre prisão, trabalhos forçados e serviço no exército russo na Sibéria? [i]

Traduzida na Europa a partir da década de 1880, a prosa de Dostoiévski contribuiu, sobretudo “durante o decênio que precedeu a Primeira Guerra Mundial”, para aguçar nos leitores europeus a “crise moral e [se] algo assim como um pressentimento da catástrofe iminente”, para retomar os termos de Erich Auerbach.[ii] A novela siberiana é A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes (das memórias de um desconhecido), o diário de viagem é Notas de inverno sobre impressões de verão e o conto inacabado O crocodilo.[iii]

1.

No diário de viagem publicado em capítulos na revista Vrêmia (O Tempo) [iv] o tom das conversas com o leitor na condução dos seus argumentos, pedindo reflexão, expõe uma relação inusitada do narrador com os conteúdos postos em discussão. Digamos que, num diário de viagem, sem obrigação de constituir enredo, o trato desses argumentos é compartilhado como material com dimensão histórica de tal envergadura e complexidade que, por isso mesmo, já não é possível perder de vista a decisão de como contar. “Faz tantos meses já que vocês, meus amigos, me pedem que lhes descreva o quanto antes as minhas impressões do estrangeiro, sem desconfiar que, com este pedido, simplesmente me põem num beco sem saída. O que hei de lhes escrever?”

Também pudera! Esse defensor da nacionalidade, do “solo pátrio” e das raízes cristãs do povo, que apostou num czarismo reformador e, preso em 1849 pela participação num grupo de liberais, abandonou na prisão a condescendência superior com os servos, habitual entre os ocidentalistas,[v] não passou indiferente pelas massas miseráveis expostas pelas ruas de Londres e escondidas nas ruas de Paris. Decerto vem também daí sua polêmica com o movimento populista russo, que pretendia conciliar sociedade moderna e a comunidade rural primitiva da época.

Rodando pela Europa num trem com seu caderno de notas e contato eventual com algum passageiro, mostra saber bem do que quer tratar e, sobretudo, como o fará. “Mas ao assunto, ao assunto!” O narrador não é turista ansioso com seu guia na mão, numa “angústia sem objeto”. Do primeiro aos últimos dos nove capítulos seu objeto se adensa. A saber, quer pensar comparativamente funcionamentos diversos da ordem burguesa comum em Paris e Londres (que vê com desgosto e apreensão) e a modernização capitalista na Rússia patriarcal impregnada por ideias europeias, dando no que chamará “fantasmagorias”. “Uma mosca passa voando, e nós já pensamos que por ali conduziram um elefante. Inexperiência de juventude, acrescida de fome” e sujeição dos servos camponeses ao jugo tirânico e castigos corporais. Os proprietários rurais (com quem também simula conversa), muitas vezes gente de hábitos simples, aos mujiques lhes parecem próximos.

No primeiro capitulo uma pergunta aponta o desafio: como contar e qual a função do narrador? “O que lhes representarei? Um panorama, uma perspectiva? Algo a voo de pássaro?”. Ou então: “Mas, meus amigos: eu os avisei, ainda no primeiro capítulo dessas notas, de que talvez fosse pregar-lhes terríveis mentiras. Não me atrapalhem portanto. Vocês bem sabem com certeza que, se eu mentir, terei assim mesmo certeza de não estar mentindo. E, a meu ver, isto é mais do que suficiente. E, nesse caso, permitam que me expresse livremente”. Desse modo, se distancia da pretensão de fidelidade à fachada realista, comum em sketches jornalísticos. O motivo da mentira atravessa as anotações de viagem (“eu não posso fornecer-lhes as informações exatas. Forçosamente, devo mentir às vezes, e portanto…”).

Observa, tira suas conclusões e sugere que possíveis mentiras e volteios narrativos poderiam ser debitados na conta de humores pessoais e indisposições psíquicas, causados pelo sentimento de inferioridade de um “patriotismo ferido”. Mas adverte: “Todavia, não se deve concluir daí que o patriotismo surja unicamente com mau tempo”. Algum leitor também poderia atribuir o que escreve sobre Londres e Paris à “tolice doentia” do escritor. No capítulo 5 (“Baal”) o motivo da mentira revela sua natureza ficcional: “formulei uma definição de Paris, escolhi para ela um epíteto e insisto nele.” [vi] Sublinhando o sentido das referências às estações meteorológicas, escolhidas para o título, desafia o leitor a acompanhar suas “imagens arbitrárias, e até devaneios”.

Antes de iniciar o terceiro capítulo (“E inteiramente supérfluo”) adverte: “Caceteiem-se com ele todos vocês, e os demais podem incluí-lo como supérfluo.” A vida russa continua a ser assunto de seus “pensamentos ociosos”. Referências a autores, ao jornalismo dito progressista do tempo, alusões menos ou mais cifradas a textos literários, periódicos, teatro e diálogos irônicos. A certa altura expõe seu sentimento de estrangeiro no próprio país, onde progresso e “vocação civilizadora” implicam “certa repugnância nova e insólita” ao mundo popular. Além disso, do começo ao fim, um contador de casos.

A grande “fantasmagoria” e a “mascarada” russa já eram visíveis em tempos passados nas “jaquetas francesas” e “botinas alemãs” em “pernas gordas, desajeitadas, que se enfiavam em meias de seda”. Essas “terríveis marotices” podiam não passar despercebidas, mas asseguraram a permanência da opressão social, dificultando reconhecer que “nós apenas trocamos uns preconceitos e baixezas por outros maiores ainda”. E assinala com ironia que, na cidade de Petersburgo, até parece que ”já somos plenamente europeus e já crescemos o suficiente”. São os tempos de “tirania de mão leve” ou de “tudo sem socos e com mais êxito ainda”. Nessa marcha poderia até chegar a hora de defender “a necessidade do tráfico negreiro”, a exemplo dos norte-americanos do sul, mas… “baseado em textos”!

No primeiro parágrafo de “Em lugar de prefácio” reconhecera que não teria nada de novo a dizer. “Quem de nós, russos (pelo menos dos que leem revistas), não conhece a Europa duas vezes melhor do que a Rússia?”. Sublinhada a ironia, um desses russos poderia ser o progressista liberal Matviéitch do conto “O crocodilo” (escrito dois anos depois). No caso, a ilusão de um funcionário de repartição, trancafiado na barriga de um bicho, e incapaz de dar conta da experiência social degradada na qual está metido. Ele acredita piamente no encontro feliz entre interesses do sujeito (“sou eu, sou eu próprio” que pode saber muito bem “o que é mais vantajoso para mim”) e da sociedade (“nós dois vamos nos unir com igualdade de direitos”), num acordo levado a cabo por uma “administração forte e robusta”. [vii]

A satisfação com a própria precariedade positivada, a “mascarada” e a “fantasmagoria” das ideias modernas formam conjunto na matéria russa, dando em experiência “desigual e combinada” com o andamento da civilização burguesa pós 1848, que o escritor apreende nessas Notas de inverno. Do outro lado do mundo, a percepção crítica dos impasses da modernização capitalista à brasileira também estará encravada nos procedimentos formais da prosa realista de Machado de Assis, tal como estudado por Roberto Schwarz. [viii] Não custa lembrar que já nas crônicas reunidas em Aquarelas (1859), Machado de Assis afirmou ter “como alvo esboçar em traços ligeiros as formas mais proeminentes da individualidade”, em suas feições nacionais, como “aberrações do tempo moderno”. [ix]

O “tema da ordem” costura o diário de viagem de Dostoiévski. O andamento da vida prática e mental (uma ordem desordenada ou vice-versa) implica desejos, fantasias e ilusões que empurram para o que virá. [x] “Pois bem, estou em Paris. Mas não pensem que eu vá contar a vocês sobre a cidade propriamente dita”. Em Paris o formigueiro humano parece organizado e o burguês também parece convencido de que “tudo está assegurado”. O que significa e no que pode dar aquela “regulamentação interior, espiritual, nascida da alma” numa cidade que, como irá observar, esconde “certos aspectos selvagens, suspeitos e alarmantes da vida” ou, dizendo com todas as letras, esconde “os pobres em alguma parte, para que não lhes perturbem o sono e não os assustem inutilmente”? Em Londres o “tema da ordem” é o pressuposto material da desordem aparente.

O sentido mais fundo da desordem que vê em Londres, cavada no fervor e na turbulência da industrialização, se explicita na Exposição Universal (1862) do Palácio de Cristal de ferro e vidro: “uma força terrível une num só rebanho todos estes homens inumeráveis, vindos do mundo inteiro; tem-se a consciência de um mundo titânico; sente-se que algo já foi alcançado aí, que há uma vitória, um triunfo”. Triunfo e medo diante de um “pensamento único”, de um “rebanho único” opressor e definitivo “que chegou ao seu término”, como “profecia do Apocalipse que se realiza aos nossos olhos”. E pergunta: como resistir e “não aceitar o existente como sendo o ideal”?

Andando pela cidade descreve, com perplexidade, imensas e sombrias comemorações dos operários e suas famílias (“escravos brancos”), com comidas e muita bebida à custa de penosas economias, mulheres e crianças no bairro de prostituição e cassinos High Market, onde são distribuídos folhetos com propaganda religiosa, como fazem as missões nos cantos pobres do planeta. As pessoas parecem se acomodar nessa estranha ordem do mundo. “Em Paris… Mas que é isto? Mais uma vez, não estou em Paris…Quando será, meu Deus, que me acostumarei à ordem?” E retoma Paris, mais uma vez em conversa com suposto interlocutor. Quer entender melhor o burguês sob Napoleão III e o sentido paradoxal da imposição de um destino.

No “Ensaio sobre o burguês” e “Continuação do anterior” brilha a mascarada de Napoleão III na cidade de “repuxozinhos” e fontes, que o narrador dá a ver em conversa e perguntas ao leitor (“você”). Brilha o “amor à eloquência” que, vindo de Luis XIV, reconhece no velho guia do Panteão, no embuste parlamentar sustentado pela aparência de “suffrage universel”, na sedução gentil das relações do comércio que embrulham o cliente, nas lisonjas aos poderosos que dão em cooptação e oportunismos, na representação sempre enfática de um suposto caráter nobre, nas imposições da moda que as “patroas russas, na distante Petersburgo, invejam até a histeria”. Reunindo tudo, brilha o projeto de “acumular fortuna” e objetos como “código de moralidade”, que adquire “certo ar por assim dizer sagrado”.

O burguês que, em 1848, massacrou seus inimigos de classe (“liquidou-os a fuzil e baioneta nas barricadas de junho”) “paga terrivelmente caro por essa prosperidade e a tudo teme”. [xi] Mas vá lá, reconhece o narrador, “é possível que tenha me enganado também quanto ao fato de que o burguês se encolhe, de que ainda vive temendo algo”. Próspero, mas encolhido e com medo? “A condição de lacaio penetra cada vez mais a natureza do burguês”. Afinal, o que inquieta o burguês sob Napoleão III? “Os fazedores de frases”, os “argumentos da razão pura”, os operários, os camponeses, os comunistas, os socialistas? Seus argumentos levam aos dois últimos. O socialista, no entanto, nada pode fazer se ao homem ocidental falta um “princípio fraterno” que exigiria abrir mão de “apenas uma partícula de sua liberdade individual”.

Desmontando o engodo das divisas liberdade, igualdade e fraternidade, submetidas a princípios econômicos e individuais, sublinha que a primeira depende do poder do dinheiro, a segunda (a igualdade perante a lei), tal como praticada, deveria ser considerada “ofensa pessoal’ pelo cidadão francês e a terceira, como vida comum entre os homens e a natureza, seria preciso ser criada com o desenvolvimento da personalidade “num grau mais elevado do que o daquele que se definiu agora no Ocidente”. No entanto, logo se corrige. “Mas que utopia, meus senhores! Tudo baseado no sentimento, na natureza e não na razão. Mas isto parece até uma humilhação da razão. O que lhes parece? É utopia ou não é?”.

Como corte histórico, está a vitória do burguês nos massacres de junho: ele se sentiu “o único sobre a terra”. Nesse sentido, o burguês foi salvo por Napoleão III, que “lhes caiu do céu, como única saída das dificuldades e única possibilidade do momento”. Daí em diante ele teme, ameaçado pela perda de uma prosperidade que exige genuflexão aos poderosos, servilismo e superficialidade no trato com os problemas do mundo. “Não riam, por favor, mas o que é, atualmente, o burguês?” A afirmação “ainda que o socialismo seja possível, não o será na França” tem sido interpretada como aposta no sentimento de fraternidade próprio do fundamento cristão russo. No entanto, a intenção crítica de uma possível estratégia autoral, na novela siberiana e mesmo no conto (apesar de inacabado) dos anos de 1850 e 1860, já traz questões mais complexas. [xii]

Se não for ver demais, e guardadas as diferenças, talvez seja possível ousar lembrar o prólogo de Herbert Marcuse a O 18 de Brumário de Luís Bonaparte de Marx: “A consciência da derrota e até do desespero fazem parte da teoria e da sua esperança. A fragmentação do pensamento – sinal da sua autenticidade frente à realidade fragmentada – determina o estilo de O 18 de Brumário: contra a vontade de quem a escreveu, a obra se torna alta literatura. A linguagem torna-se conceito da realidade, o qual, mediante a ironia, resiste ao horror dos eventos. Diante da realidade, nenhuma fraseologia, nenhum clichê – nem mesmo os do socialismo. Na medida em que os homens traem, vendem a ideia de humanidade e chacinam ou trancafiam os que lutam por ela, a ideia como tal deixa de ser pronunciável; o escárnio e a sátira constituem a aparência real da sua verdade”. [xiii]

2.

A Aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes (das memórias de um desconhecido) foi finalmente publicada em 1859 no periódico Anais da Pátria, em duas partes, sem despertar interesse de leitura e cercada de indiferença. A crítica do tempo julgou a novela artificial, de enredo frouxo excessivamente dramatizado e humor forçado, acusando ainda a ausência de uma discussão sobre o assunto do momento, a libertação e suspensão dos castigos corporais dos servos prometidas por Alexandre II e que o escritor apoiava. Medida que, em 1861, iria trazer pesados impostos aos camponeses. [xiv]

Na propriedade rural onde se passa a história, o turbilhão um tanto destrambelhado dos acontecimentos pode lembrar um mundo às avessas, sem que haja nada de libertário. O narrador para lá se encaminha a convite do tio viúvo, o coronel proprietário que, por carta sigilosa, lhe propôs casamento com a preceptora dos filhos ameaçada de despejo. Fica sabendo, através de um contato casual, que talvez esteja sendo armada uma trama para casar o coronel e uma rica herdeira. A ideia viria do agregado Fomá Fomitch Opískin em conluio com a mãe generala do Coronel Rostâniev, tendo ela pelo agregado uma “adoração mística”. Nos dois dias em que se passam os acontecimentos, o narrador tentará entender (de que modo?) os termos do domínio exercido pelo agregado sobre o coronel proprietário submisso, sempre esperando ser perdoado pelo egoísmo de que lhe acusam Fomá e a mãe generala.

Pensada inicialmente como peça teatral, o procedimento da prosa tem o foco narrativo como chave. Nas primeiras palavras da Introdução, lemos: “Meu tio, o coronel Iegor Olitch Rostániev, tendo se reformado, mudou-se para a aldeia de Stepántchikovo, que recebera como herança, e passou a viver nela como se por toda a sua vida tivesse sido um dono de terras local, do tipo que nunca sai de sua propriedade”. Em seguida, valendo-se de “uma busca especial”, suposições, versões do próprio Fomá e de “diziam que”, um sumário de longo alcance no tempo passado é alargado por avaliações psicológicas e comportamentais de várias figuras, num retrospecto que inclui mesmo as que não estão presentes na trama narrada. O narrador insiste em informar, distanciado: “Eis como isso aconteceu”.

Um exemplo do movimento do foco narrativo é o capítulo seis da Primeira Parte, “Do boi branco e do mujique Kamárinski”. No primeiro dia em que o narrador põe os pés na casa do tio em Stepántchikovo, e antes mesmo “de ter a honra de apresentar ao leitor o recém-chegado Fomá Fomitch” na sala do chá, um retrospecto narrativo conta a tortura à qual o agregado costumava submeter Falaliei, o ”menino da criadagem. Fomá ensina ao jovem criado “a moralidade, as boas maneiras e a língua francesa”, controla seus sonhos e ridiculariza seu interesse por certa dança de “mujique detestável”. A onisciência do narrador é recurso que pretende assegurar a “verdade” da sua narrativa, o que se vê em relação aos sentimentos de terror de Falaliei e também ao agregado (“Fomá jurou a si mesmo que…”, “Por muito tempo Fomá Fomitch sentiu raiva, mas…”).

A oscilação entre primeira pessoa e onisciência narrativa explicita uma ambivalência (de conteúdo e forma), exposta por uma estratégia autoral, que assim enfrenta a complexidade da matéria e do assunto como tensão entre conteúdo do enunciado (experiência social) e sua formalização. Essa tensão está implicada tanto na matéria narrada, que gira sobre si mesma, quanto na dupla posição do narrador que, ao fim e ao cabo, procurar enquadrar as ações e ideias das personagens tanto como tipos individuais, em termos psicológicos, quanto como tipos sociais, ambos precários. O resultado da prosa arma um problema formal, ao colocar os próprios impasses narrativos como parte do assunto e da matéria, a saber, as condições objetivas expostas naquela casa de alienados e na exploração direta do próximo.

O esforço de compreensão do narrador sobre o que se passa na casa do tio não elimina sua pretensão crítica, mas não alcança os fundamentos materiais (e subjetivos) da irracionalidade que presencia. O leitor irá aos primeiros capítulos de posse de informações sobre os antecedentes do enredo, o passado de humilhações do agregado Fomá (um “homem memorável”), e com as hipóteses do narrador sobre a personagem – “eu jamais poderia explicar de outro modo que não explicando de antemão ao leitor o caráter de Fomá Fomitch tal como eu mesmo o compreendi posteriormente”.

Já na Introdução, o narrador convoca o leitor para compreender Fomá. “Reconheço que é com certa solenidade que anuncio essa nova personagem. É indiscutivelmente uma das personagens mais importantes de meu relato. Não explicarei em que medida ela merece atenção: é mais adequado e mais digno que o próprio leitor julgue tal questão”. Segundo afirma, trata-se de um amor-próprio exacerbado como reação de um “rejeitado pela sociedade” que, em alguns casos, “surge da mais completa insignificância” de alguém “ofendido, reprimido pelos árduos fracassos do passado”. Para confirmar a particularidade do amor-próprio “inflamado” do agregado, sugere: “Quem sabe: talvez haja exceções, às quais pertença o nosso herói. Ele era de fato uma exceção à regra, o que se explicará posteriormente”.

A que servem e qual a função das ideias admiradas e aceitas por todos da casa? Princípios humanitários, morais e religiosos; fantasia de nobreza; ode à natureza; exaltação da ciência, erudição, filosofia, literatura; promessa (trazida por um “homem alado”) de uma obra literária futura que “ecoaria pela Rússia inteira”, antes que o agregado fosse se enfurnar num monastério para rezar “pela felicidade da pátria”: eis algumas obsessões expostas em cenas histriônicas protagonizadas por Fomá, com inigualável eloquência e concordância geral (no diário de viagem, como se viu, o recurso à eloquência será considerado um ingrediente da modernização levada a cabo por Luis Bonaparte).

O estratagema rocambolesco e oportunista de Fomá para salvar a própria pele confirmará definitivamente o consentimento do seu mando. O narrador admite, com pesar, que “o triunfo de Fomá foi completo e inquestionável” ao aceitar o casamento do coronel com a preceptora. Entre os da casa será definitivamente entronizado, por unanimidade, como “o mais nobre dos homens”, o único “erudito” sobre a face da terra. “Era a infinita a gratidão daqueles a quem ele tornara feliz”. De que felicidade se trata? Na Conclusão, em conversa com o tio e ao que parece para agradá-lo, deixa de lado suas críticas ao agregado e prefere concordar (“falei até da Escola Natural; para concluir até declamei versos”). Sim, nas “profundezas” impenetráveis da “mais decadente das criaturas” podem existir os “mais elevados sentimentos”.[xv]

Se por obra e graça dos chiliques e “sandices” de Fomá até “o banquete de casamento parecia um enterro”, não fica abalada a devoção do casal extremamente religioso ao agregado, mesmo depois de morto. “Acabou-se a história. Os amantes se uniram, e na casa passou a reinar absoluto o gênio do bem, na pessoa de Fomá Fomích. Aqui poderiam ser dadas muitas explicações oportunas; mas, na realidade, todas essas explicações seriam, agora, de todo supérfluas. Tal é, pelo menos, a minha opinião”.

Assim, sem o grau da ironia que, no capítulo “E inteiramente supérfluo” das Notas de invernos sobre impressões de verão, expondo o modo de narrar pede atenção ao que é narrado (“fiquei demasiado imerso em cismas, pensando em nossa Europa russa; (…) Aliás, não há motivo para se pedir perdão em demasia. Bem que o meu capítulo é supérfluo”),[xvi] o narrador de A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes acatará as regras prescritas por um modelo de prosa que prevê dar conta “do destino que tiveram todos os heróis de meu relato”. E o faz equilibrando primeira pessoa e onisciência narrativa.

No absurdo normalizado que, como se viu, inclui servos domésticos como Falaliei, estão também os mujiques que pertencem à propriedade. O fato é que, com ou sem as ameaças de Fomá – as exaltadas pregações que escutavam “maravilhados”, os incômodos projetos de ensinar francês, astronomia e hábitos de higiene àqueles “abrutalhados” – a servidão permanecerá a mesma. Sempre com o apoio deslumbrado do boníssimo coronel. É bom lembrar que, se a libertação dos servos estava em questão naquele momento no país, já libertos eles continuarão na mais absoluta miséria.

O que significa encaixar a figura do agregado na “condição de profetas, de bufões e de parasitas”, um caso localizado em Stepántchikovo, como Fomá tem sido tratado, via de regra, pela fortuna crítica da novela? O leitor é desafiado pela pergunta que atravessa essa novela siberiana: de que “exceção” se trata, afinal, aquela atribuída à humilhação sofrida por um homem de “sórdida ignorância” que se torna um “especialista” na arte de criar devotos? O que significa a farsa como material e como verdade da casa? Na normalidade de um delírio irracional e doutrinário, acentuadamente de araque, também germina um horizonte totalitário. Seriam os habitantes e os hóspedes daquela casa precursores (e contemporâneos) das novas “tiranias de mão leve”, como estará no diário de viagem tratando de São Petersburgo? “Tudo sem socos ou com mais êxito ainda”?

É possível dizer que a construção dessa novela diz respeito aos desafios enfrentados pelo escritor para tratar, nos termos da experiência russa, a modernização capitalista que é ela mesma, sempre e em toda parte, alienação e exclusão, absurdo e realidade. Diz respeito, portanto, a impasses histórico-sociais e formais que apontam para as obras que virão e seu peculiar realismo literário. [xvii]

3.

O crocodilo é um conto inacabado. Essa condição limita uma leitura analítica, mas traz pistas dos caminhos dessa sátira. “É difícil escrever uma sátira. Não só porque nossa situação – que precisaria dela mais do que qualquer outra – faz troça de toda troça”, escreveu Theodor Adorno. [xviii] A sátira nesse conto trata de “um sonho monstruoso”, como diz o narrador. No primeiro capitulo estamos numa moderna galeria de Petersburgo no ano de 1865 (mais precisamente “no dia treze de janeiro, ao meio-dia e meia”). O “acontecimento extraordinário ou Passagem na passagem” já tinha sido enunciado na epígrafe. “Relato verídico de como um cavalheiro de idade e aspecto conhecidos foi engolido vivo e inteiro por um crocodilo na Passagem, e o que disto resultou’”.

O narrador acompanha um casal de amigos, já de malas prontas para ver as novidades europeias, à galeria onde está exposto um enorme crocodilo, novidade num país de “clima úmido e inóspito”, além de outros animais exóticos trazidos do estrangeiro. O amigo é um funcionário de repartição e homem culto. Ao fazer cócegas no focinho do bicho, o infeliz é engolido vivo pelo animal. Diante da terrível cena, o narrador pensa que “se tudo tivesse acontecido comigo e não com Ivan Matviéitch, como seria desagradável”.

Ainda no primeiro capítulo a preocupação imediata do narrador é com os gritos da mulher, que parece exigir espancamento do animal quando, na verdade, pede que abram sua barriga. É que, na sala de conferência ao lado, fala um conferencista ilustre, e a palavra espancamento, proibida no país de instituição servil, poderia provocar “vaias da cultura e caricaturas”. De fato, a confusão atrai um senhor “progressista” que a ameaça de ser “vaiada na crônica do progresso e nas nossas folhas satíricas”, e é despejado a sopapos do local pelo alemão dono dos animais. O casal de alemães se desespera com a hipótese de perder sua fonte de rendas e quer negociar. Subitamente a voz do engolido sai daquelas entranhas.

Com o humor em dia, ele está preocupado com a reação dos seus superiores na repartição e concorda com o “princípio econômico” do proprietário, levando em conta sua própria condição “em nossos tempos de crise financeira”. Dá instruções precisas ao amigo para entabular conversa gentil com um funcionário superior, mas subalterno da chefia. E como o crocodilo é completamente oco, como se saberá, pensa tirar uma soneca no seu aconchego. Mais tarde Matviétch dará explicações científicas, filosóficas, etimológicas e comportamentais para o crocodilo vivo só carcaça, provocando reação do narrador: “sou capaz de jurar que ele estava contando vantagem, em parte por vaidade e em parte para me humilhar”.

O absurdo tomará rumo duplamente insólito na conversa do narrador com Timofiéi Siemiônitch, o funcionário indicado. Já que Ivan Matviéitch pode ser um multiplicador do valor do “crocodilo estrangeiro”, num estímulo à economia, é preciso combinar interesses econômicos e trâmites burocráticos para que ele se torne útil ao progresso do país. O funcionário, no entanto, considera o colega Matviéitch um caso de desvio “progressista” por “excesso de instrução”. “Nós em lugar de proteger o proprietário estrangeiro, queremos abrir a barriga do próprio capital de base. Ora, há coerência nisso?” Timofiéi pensa nos “benéficos resultados da atração de capitais estrangeiros à nossa pátria”.

As propostas que discute com o narrador em relação a Matviéitch tem respaldo nas suas posições. Diante da preguiça e bebedeira de mujiques protegidos em propriedades coletivas (defendidas pelo movimento populista russo) ele aposta no capitalismo, na criação de uma burguesia e no livre mercado, sob o qual “o mujique trabalhará três vezes mais apenas para ganhar o pão de cada dia, e será possível enxotá-lo quando bem se entender”. E sabendo que o preço de venda do crocodilo está em tendência de alta, o empreendimento pode valer a pena apesar dos riscos, no caso da chegada de novos crocodilos que poderia levar a uma nova classe de funcionários interessados em ficar no macio do bucho e exigindo comissões, sem trabalhar.

Ivan Matviéitch se entusiasmará com a perspectiva de uma missão oficial com funções “tanto do ponto de vista moral como científico”. Não vê inconveniente em ali permanecer, a não ser pela casimira do terno de fabricação russa, que não resistiria aos mil anos que pretende viver. E contabiliza as vantagens: proeminência social, aplausos da imprensa, número crescente de visitantes, dentre os quais viriam por certo as “pessoas mais cultas da capital, as senhoras da alta sociedade, embaixadores estrangeiros, juristas e outros”, o que lhe dará “uma cátedra da qual hei de instruir a humanidade”. De um “posto subalterno” na repartição ao reconhecimento como possível ministro das Relações Exteriores ou candidato a posto governamental, exulta. O narrador comenta: “O que mais me irritou foi o fato de que, impado de orgulho, ele tivesse deixado quase completamente de empregar os pronomes pessoais”.

Matviéitch também tem planos para a mulher, com quem acredita formar um casal perfeito em beleza e inteligência. Como “brilhante dama literária”, ela reuniria, no seu salão, “cientistas, poetas, filósofos, mineralogistas em viagem, estadistas”, mantendo uma palestra diária que ele próprio iria proferir. Pelo seu lado, no entanto, a quase viúva, cobiçada e cortejada desde o início daquela situação, mira a possibilidade de desfrutar os brilhos da vida e pensa requerer divórcio.

A divulgação do caso pela imprensa, tão aguardada por Matviéitch (a crítica localiza referências a periódicos da época) talvez ocupasse, num conto acabado, a função de um coro que completaria a sátira. A tendência da imprensa é ver o russo com desdém e exaltar o crocodilo. Para um jornal de assuntos cotidianos e culturais, a questão é gastronômica: devorado vivo por um conhecido gastrônomo da cidade, o crocodilo – iguaria apreciada no estrangeiro – aponta um ramo de prósperos negócios.

Para um jornal de tendência progressista, o crocodilo estrangeiro também é saudado como estímulo para novas fontes de renda e vítima de um russo gordo e bêbado (“sem nenhum aviso prévio introduz-se pela goela do crocodilo o qual, naturalmente, não tinha outro remédio senão engoli-lo”), cujo comportamento “nos enxovalha aos olhos do estrangeiro”. Outras informações se embaralham com a notícia, confirmando que “os russos tem cabeça dura”.

4.

Dois anos antes na viagem à Europa, tecendo seus “devaneios” sobre as ilusões e crenças russas, Dostoiévski ali depara com a “luta de morte” instalada no que seria “de algum modo uma comunidade”, em cujo futuro “talvez os próprios generais do progresso não tenham suficiente fé”. No entanto, mesmo “não de todo satisfeito com a ordem que ele defende”, o burguês procura impô-la e consertar “suas fendas”. Ao longo das notas de viagem, Dostoiévski sublinha e problematiza, como possíveis, os juízos do narrador: “não esperem que eu me ponha a demonstrar que a civilização há muito tempo já está condenada no próprio Ocidente”, ainda que o burguês, “conscientemente quase”, esteja certo “de que tudo deve ser assim mesmo”.

Na entrada 134 da Mínima Moralia, ao se referir à dificuldade de escrever uma sátira “quando nossa situação precisaria dela mais do que qualquer outra”, Theodor Adorno aponta os rumos do Esclarecimento em tempos contemporâneos: ironização generalizada que “pressupõe a ideia do óbvio”, num “consenso” dissonante das consciências e das práticas sociais. “Quem tem os que riem a seu lado não precisa de provas”. É que o motor da ironia é hoje o “gesto desprovido de conceito da expressão ‘É assim mesmo’ (…) que o mundo dirige a todas as suas vítimas”. E a posição dos sujeitos (“conscientemente quase”? “Inconsciente e instintivamente na orientação vital de toda a massa?” sugeriu Dostoiévski) é constituída no “a priori formal da ironia (…) que se transformou num acordo universal sobre conteúdos. Enquanto tal, ele seria o único objeto digno de ironia e ao mesmo tempo tira-lhe o chão sob os pés”.

Os “traços restauracionistas” de um Karl Kraus viriam, assim, da ênfase sem contestação de juízos fulminantes, rápidos e incontestáveis – “tão rápida é a consciência da relação entre as coisas” – sobre uma “evidência imediata e objetiva”, uma obviedade reconhecida como tal e, sem qualquer hesitação ou dúvida, como tal condenada. Tendo o “humanismo como invariante”, Kraus fala de um mundo que desaba (e a Primeira Guerra já aponta). A conclusão de Adorno, tendo em vista que já “não há nenhuma fenda na rocha da ordem estabelecida, onde o irônico possa se agarrar”, é que “contra a seriedade mortal da sociedade total, que recolheu toda instância a ela contrária, como a objeção desamparada que a ironia outrora sedimentava, não resta senão a seriedade mortal, a verdade apreendida no conceito”.[xix]

Na observação já citada de Herbert Marcuse sobre O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, ele diz que diante do “horror dos eventos” de 1848, e numa reação não programada, Marx apreendeu pela sátira e escárnio daquela realidade a “aparência real da sua verdade”, nos termos de “alta literatura” (“A linguagem torna-se conceito da realidade”), na qual se vale da ironia como recurso. É o que se vê no trabalho formal da prosa de Dostoiévski e de Machado de Assis que revelam, na particularidade das relações sociais na periferia, a própria constituição da civilização capitalista moderna, fazendo pensar no seu funcionamento e na sua marcha histórica. [xx] Vamos então, mais uma vez, a duas perguntas decisivas plantadas, com ironia, em Notas de inverno sobre impressões de verão: “Como não aceitar o existente como sendo o ideal”? “Mas que utopia, senhores! Tudo baseado no sentimento, na natureza e não na razão. Mas isto parece até uma humilhação da razão. O que lhes parece? É utopia ou não é?”

*Salete de Almeida Cara é professora sênior da área de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa (FFLCH-USP). Autora, entre outros livros, de Marx, Zola e a Prosa Realista (Ateliê Editorial).

Referências


Fiódor Dostoiévski. A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes (das memórias de um desconhecido). Tradução: Lucas Simone. São Paulo: Editora 34, 2021.

Fiódor Dostoiévski. O Crocodilo e Notas de inverno sobre impressões de verão. Tradução: Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2000.

Notas


[i] Os anos de formação social, política e literária de Dostoiévski, sua participação em grupos políticos e leituras de escritores europeus, interesse pelo teatro e estréia com o romance epistolar “Pobre Gente” (1846) foram tratados por Joseph Frank, As sementes da revolta (1821 a 1849), tradução de Vera Pereira. São Paulo: Edusp, 1999.

[ii] Cf. Erich Auerbach, Mimesis. São Paulo: Editora Perspectiva, 6ª edição, 1ª reimpressão., p. 470.

[iii] A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes (das memórias de um desconhecido), tradução de Lucas Simone. São Paulo: Editora 34, 2021, 2ª edição/2ª reimpressão; O Crocodilo e Notas de inverno sobre impressões de verão, tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2000, 3ª edição. No prefácio ao volume acima citado, Boris Schnaiderman sugere uma relação entre esses textos, Memórias do subsolo, também de 1864, e os romances que virão. Cf. Boris Schnaiderman, ob. cit., pp. 8-11. Para Joseph Frank, Notas de Inverno sobre Impressões de Verão é “o prelúdio das Memórias do Subsolo, ou melhor dizendo, um rascunho preliminar dessa obra”. Em A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes,, o crítico aponta uma antecipação de personagens de romances posteriores, sobretudo pelo viés da psicologia do agregado Fomá Fomitch e do coronel Rostânov. Cf. Joseph Frank, Dostoiévski. Os efeitos da libertação (1860 a 1865), tradução de Geraldo Gerson de Souza. São Paulo:, Edusp, 2002, p. 327. Cf. tb. Os anos de provação (1850 a 1859), tradução de Vera Pereira. São Paulo: Edusp, 1999, p. 390.

[iv] No mesmo prefácio, Boris Schnaiderman lembra que a revista O tempo foi fechada por acusação de conspiração política contra o czar Nicolau I. O escritor consegue autorização para uma nova revista, Epokha (A Época), “após muitas promessas de bom comportamento político”, onde publicará O crocodilo.

[v] Sobre os debates dos intelectuais russos sobre a europeização da Rússia desde Pedro, o Grande e Catarina II, cf. V. Guitermann, “Ocidentalistas e eslavófilos”, tradução de Homero Freitas de Andrade, in Storia della Rússia. Firenze: Nuova Itália, 1973, pp. 190-218.

[vi] Ele se refere a Baal como deus pagão, sinônimo de Belzebu (demônio) e, portanto, um falso deus, ou, como escreve Joseph Frank, “o deus encarnado do materialismo” do qual já se aproximara o jovem Dostoiévski, leitor de Balzac.

[vii] Trata-se de um diálogo entre o narrador e Matviéitch, incluído nos rascunhos não publicados do conto (apêndice na tradução de Boris Schnaiderman). O assunto seria a redação de um documento para trazer sob escolta a mulher da personagem, que defende a coação como método. “Ela está sujando o meu nome”, justifica. E o narrador: “Então onde fica o liberalismo? Quer dizer que você defende a ordem vigente.”

[viii] Cf. Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo, Duas Cidades/Editora 34, 2000, 4ª edição. Em Ao vencedor, as batatas, tratando do papel das idéias burguesas relativizadas entre “as idas e vindas do arbítrio e do favor” e, por isso mesmo, do “alcance mundial que têm e podem ter as nossas esquisitices nacionais”, Roberto Schwarz sugere: “Algo de comparável, talvez, ao que se passava na literatura russa. Diante desta, ainda os maiores romances do realismo francês fazem impressão de ingênuos. Por que razão? Justamente, é que a despeito de sua intenção universal, a psicologia do egoísmo racional, assim como a moral formalista, faziam no Império Russo efeito de uma ideologia ‘estrangeira’, e portanto localizada e relativa. De dentro de seu atraso histórico, o país impunha ao romance burguês uma quadro mais complexo. A figura caricata do ocidentalizante, francês ou germanófilo, de nome frequentemente alegórico e ridículo, os ideólogos do progresso, do liberalismo, da razão, eram tudo formas de trazer à cena a modernização que acompanha o Capital. Estes homens esclarecidos mostram-se alternadamente lunáticos, ladrões, oportunistas, crudelíssimos, vaidosos,parasitas etc O sistema de ambiguidades assim ligadas ao uso local do ideário burguês – uma das chaves do romance russo – pode ser comparado àquele que descrevemos para o Brasil”. Cf. “As idéias fora do lugar”, in Ao vencedor as batatas. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000, 5ª edição, pp. 27-28. Cf. também Paulo Arantes, Sentimento da dialética na experiência intelectual brasileira (Dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz). São Paulo: Paz e Terra, 1992, pp. 75-107.

[ix] Cf. “Os fanqueiros literários”, “O parasita”, “O empregado público aposentado”, “O folhetinista”, in Melhores crônicas de Machado de Assis, direção de Edla van Steen, seleção e prefácio de Salete de Almeida Cara. São Paulo: Editora Global, 2003, pp. 21-42.

[x] Sobre as relações entre a figura do burguês e o desenvolvimento capitalista, através de análises literárias, cf. Franco Moretti, O burguês (entre a história e a literatura), tradução de Alexandre Morales, São Paulo: Três Estrelas, 2014.

[xi] Durante a monarquia de Luís Felipe o descontentamento acumulado pela fome, miséria e desemprego explode em junho de 1848 nas barricadas de Paris, barbaramente reprimidas. O regime autoritário do II Império de Napoleão III se instala com o golpe de Estado a dois de dezembro de 1851. Pela voz do The Economist, de Londres, o capitalismo concorrencial saúda Luís Napoleão como o grande protetor da Bolsa de Valores européias. “O Presidente é o guardião da ordem, e é agora reconhecido como tal em todas as Bolsas de Valores da Europa”, dizia o jornal. Capitalismo financeiro com casas bancária e Bolsa de Valores (uma “aristocracia financeira” já instalada nos anos de 1848-1850, como mostra Marx em 18 de Brumário de Luís Bonaparte), industrialização tardia, exploração de mineração, construção de ferrovias, expedições colonialistas e projeto de urbanização de Paris. . O progresso vai cavando o abismo entre o operário e o burguês, que Napoleão III tenta amenizar com medidas liberais entre 1864 e 1870. O II Império termina em 1870, com a guerra franco-prussiana. Em 1871 virá a Comuna de Paris, e a primeira crise capitalista mundial ente 1873 e 1896. Cf. Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, tradução Nélio Schneider. São Paulo: Boitempo, 2011.

[xii] Dolf Oehler examinou respostas diversas, e muitas vezes ambíguas, da geração dos intelectuais e escritores europeus ao massacre dos insurgentes em junho de 1848, que deu lugar à exposição aberta do ódio de classe e ao “palavrório” da fraternidade” (Marx). Referindo-se ao capítulo “Ensaio sobre o burguês” de Dostoiévski, ele vê semelhanças com o juízo de Renan, para quem “a burguesia compreende perfeitamente a liberdade, parcialmente a igualdade, mas ignora completamente a fraternidade’” e, a partir dessa comparação, também afirma que para Dostoiévski “‘o indivíduo da Europa ocidental’, ao contrário do homem russo, é incapaz de fraternidade” , o que pode ser insuficiente para dar conta do papel do patriarcalismo cristão nos termos tratados pela sua obra literária. Cf. “Crise dos signos: a semântica do junho de 1848 e sua crítica pela modernidade literária”, in O Velho mundo desce aos infernos, tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 199, p. 83..

[xiii] Cf. Herbert Marcuse, “Prólogo”, in O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, ob. cit., p. 13.

[xiv] Os anos entre a prisão e a volta a São Petersburgo, os projetos literários de Dostoiévski nesse tempo e as novelas siberianas O sonho do tio e A aldeia de Stepántchikovo são os assuntos tratados por Joseph Frank no segundo volume que dedicou ao escritor, Os anos de provação (1850-1859), ob. cit.

[xv] Já nos anos de 1840 o escritor começava a se distanciar da compaixão humanitária da Escola Natural e seu interesse pelas “fisiologias” – folhetins jornalísticos voltados para os tipos populares e urbanos. Para uma leitura dos folhetins de Dostoiévski e desse distanciamento, cf. Joseph Frank, As sementes da revolta (1821 a 1849), ob. cit.

[xvi] Cf. Notas de inverno sobre impressões de verão, ob. cit., p. 103.

[xvii] “Para enfrentar o primado da desinteligência social, horizonte epistemológico novo, que dificultava o papel do narrador e lhe tornava problemática a desenvoltura opinativa, os romancistas mais conseqüentes trataram de inventar soluções técnicas a que não se pudesse objetar parcialidade. Fazem parte do quadro o esforço metódico de impessoalidade (Flaubert), a tentativa de dar padrão científico à ficção (Zola), o reconhecimento dos problemas ligados ao ponto de vista (Henry James), a utilização demonstrativa da primeira pessoa do singular – o prisma espontâneo por excelência – em espírito de exposição dela mesma, como se a pessoa fosse terceira (Dostoiévski nas Memórias do subsolo). (…) Autoridade e significação relativa são conferidas pela mediação do método literário, sobretudo por seus efeitos deslocadores, que funcionam como instâncias e como alegorias da precedência da formação social sobre as intenções subjetivas.” Cf. Roberto Schwarz, Um mestre na periferia do capitalismo. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000, 4ª edição, pp. 179-180.

[xviii] Cf. Theodor Adorno, Mínima Moralia, tradução Luiz Eduardo Bicca, revisão Guido de Almeida. São Paulo: Editora Ática, 1992, p. 183.

[xix] Cf. Theodor Adorno, ob. cit, p. 185. É de Adorno a seguinte observação sobre Dostoiévski: “se porventura existe psicologia em suas obras, ela é uma psicologia do caráter inteligível, da essência, e não do ser empírico, dos homens que andam por aí. E exatamente por isso Dostoiévski é avançado”. Cf. “Posição do narrador no romance contemporâneo”, in Notas de Literatura I, tradução Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, p. 57.

[xx] “Tirar as devidas conseqüências da feição grotesca que ciência e progresso iam assumindo entre nós, vem a ser uma outra maneira de indicar que a Dialética – tanto a do ensaísta quanto a do movimento narrativo – e crítica imanente da ideologia não podem deixar de andar juntas, e isso desde os tempos em que o renascimento moderno da dialética apresentou-se antes de tudo como uma teoria da consciência aparente, porém concebida de tal modo que a própria consciência traria em si mesma a medida da sua verdade e da sua falsidade. Dialética era esse confronto interno do objeto com o seu próprio conceito, sendo o momento da negação a denúncia de promessas não cumpridas.” Cf. Paulo Arantes, in Sentimento da Dialética na experiência social brasileira (Dialética e dualidade segundo Antonio Candido e Roberto Schwarz), ob. cit., p. 98.

Fonte: https://aterraeredonda.com.br/tres-textos-de-dostoievski/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novas_publicacoes&utm_term=2023-01-18

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