"Na medida em que desejamos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Por que? Porque o desejo é falta, e porque a falta é um sofrimento. Como você pode querer ser feliz se lhe falta, precisamente, aquilo que você deseja? No fundo, o que é se feliz? Evoquei a resposta que encontramos em Platão, Epicuro, Kant, em qualquer um: ser feliz é ter o que se deseja. Não necessariamente tudo o que se deseja, porque nesse caso é fácil compreender que nunca seremos felizes e que a felicidade, como diz kant, seria um ideal não da razão mas da imanginação. Ser feliz não é ter tudo o que se deseja, mas pelo menos uma boa parte, talvez a maior parte, do que se deseja. Seja. mas, se o desejo é falta, só desejamos, por definição, o que não temos. Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, longo nunca somos felizes. Não que o desejo nunca seja satisfeito, a vida não é tão dificil assim. Mas é que, assim que um desejo é satisfeito, já não falta, logo já não há desejo. Assim que um desejo é satisfeito, ele se abole como desejo: "O prazer", escreverá Sartre, "é a morte e o fracasso do desejo". E longe de ter o que desejamos, temos então o que desejávamos e já não desejamos" . (COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. Martins Fontes, SP, 2005, pgs. 26-28)
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
A alma não se separa do corpo nem depois da morte
“A alma não se separa do corpo nem na vida, nem na morte e nem depois da morte”. Entrevista especial com Renold Blank
IHU On-Line – O que há depois da vida é uma pergunta que tem acompanhado a humanidade ao longo da sua história. Em diálogo com os modernos modelos filosóficos e científicos, como a teologia cristã busca responder hoje a esta pergunta?
Renold Blank – Nos últimos vinte, trinta anos, sobretudo a partir da física quântica, nós temos modelos que dizem que a vida simplesmente não pode parar, nem pode ser aniquilada de tal maneira que se acredita que não há algo depois da morte. Existem modelos quânticos que dizem que algo deve continuar. Há também a questão, dentro da física, da termodinâmica, que diz que a energia não pode ser destruída e que o ser humano é um potencial energético. Então, alguma coisa desse potencial deve continuar. Tudo isso são tentativas de a física dizer se há algo depois da morte. Agora, dentro da religião cristã, de maneira específica na Igreja Católica, no fundo, não se entra muito nesta questão científica. A única coisa que constatamos é que existe a pergunta: haverá vida após a morte? E essa declaração cada vez menos contradiz aquilo que a ciência atual pode dizer. Isso é uma coisa boa porque ainda no início do século XIX se dizia que a ciência falava em algo totalmente contrário àquilo que a religião diz. Hoje, constatamos o contrário: a afirmação religiosa e modelos da ciência estão se aproximando.
Renold Blank – Nos últimos vinte, trinta anos, sobretudo a partir da física quântica, nós temos modelos que dizem que a vida simplesmente não pode parar, nem pode ser aniquilada de tal maneira que se acredita que não há algo depois da morte. Existem modelos quânticos que dizem que algo deve continuar. Há também a questão, dentro da física, da termodinâmica, que diz que a energia não pode ser destruída e que o ser humano é um potencial energético. Então, alguma coisa desse potencial deve continuar. Tudo isso são tentativas de a física dizer se há algo depois da morte. Agora, dentro da religião cristã, de maneira específica na Igreja Católica, no fundo, não se entra muito nesta questão científica. A única coisa que constatamos é que existe a pergunta: haverá vida após a morte? E essa declaração cada vez menos contradiz aquilo que a ciência atual pode dizer. Isso é uma coisa boa porque ainda no início do século XIX se dizia que a ciência falava em algo totalmente contrário àquilo que a religião diz. Hoje, constatamos o contrário: a afirmação religiosa e modelos da ciência estão se aproximando.
IHU On-Line – É grande o número de cristãos/ãs brasileiros/as que em busca de uma resposta à morte aproximam-se do Espiritismo. A que se deve isso?
Renold Blank – Pois é. Realmente o número é relativamente grande daqueles que buscam no espiritismo a resposta, principalmente no que diz respeito à doutrina da reencarnação. O que causa isso? Primeiro, a doutrina da reencarnação aceita que a pessoa irá evoluir através de outra vivência e esta concepção, à primeira vista, parece muito lógica, mais compreensível do que a idéia da ressurreição. Este parecer, porém, se torna problemático a partir do momento em que se começa a questionar as bases da concepção. A maioria dos cristãos e das cristãs não conhece essas bases. Na base da concepção da reencarnação, há a idéia do dualismo antropológico e de que o ser humano é o princípio de um "material corpo" e um princípio "espiritual alma", e na morte a alma se separa do corpo. Durante séculos, nas religiões cristãs, se dizia a mesma coisa e, depois, sobretudo no catolicismo, observamos uma imensa evolução. Desde o fim dos anos 1960, a ciência, sobretudo a psiquiatria, mostra cada vez mais claro que o ser humano não é tão simples, tão rudimentar, um compósito de dois componentes que na morte se separam. O ser humano, pelo contrário, é uma estrutura muito mais complexa, de muitas dimensões e nenhuma delas pode separar-se da outra. Em termos simples, na morte, a alma não pode se separar do corpo; isso é impossível e provado cientificamente pela neurobiologia e pela ciência antropológica. Então, se a alma não pode se separar do corpo, não há reencarnação. Mas este fato a maioria dos cristãos não sabe. Por causa disso, sobretudo na Igreja Católica, já se começou um grande trabalho para superar esse dualismo antropológico, para mostrar aos fiéis que a alma não se separa do corpo nem na vida, nem na morte e nem depois da morte. (IHU on line, 02/11/2008).
Renold Blank – Pois é. Realmente o número é relativamente grande daqueles que buscam no espiritismo a resposta, principalmente no que diz respeito à doutrina da reencarnação. O que causa isso? Primeiro, a doutrina da reencarnação aceita que a pessoa irá evoluir através de outra vivência e esta concepção, à primeira vista, parece muito lógica, mais compreensível do que a idéia da ressurreição. Este parecer, porém, se torna problemático a partir do momento em que se começa a questionar as bases da concepção. A maioria dos cristãos e das cristãs não conhece essas bases. Na base da concepção da reencarnação, há a idéia do dualismo antropológico e de que o ser humano é o princípio de um "material corpo" e um princípio "espiritual alma", e na morte a alma se separa do corpo. Durante séculos, nas religiões cristãs, se dizia a mesma coisa e, depois, sobretudo no catolicismo, observamos uma imensa evolução. Desde o fim dos anos 1960, a ciência, sobretudo a psiquiatria, mostra cada vez mais claro que o ser humano não é tão simples, tão rudimentar, um compósito de dois componentes que na morte se separam. O ser humano, pelo contrário, é uma estrutura muito mais complexa, de muitas dimensões e nenhuma delas pode separar-se da outra. Em termos simples, na morte, a alma não pode se separar do corpo; isso é impossível e provado cientificamente pela neurobiologia e pela ciência antropológica. Então, se a alma não pode se separar do corpo, não há reencarnação. Mas este fato a maioria dos cristãos não sabe. Por causa disso, sobretudo na Igreja Católica, já se começou um grande trabalho para superar esse dualismo antropológico, para mostrar aos fiéis que a alma não se separa do corpo nem na vida, nem na morte e nem depois da morte. (IHU on line, 02/11/2008).
Pirataria para salvar o capitalismo
A reportagem é Tarso Araújo da revista SuperInteressante de novembro de 2008. Para o economista (e dj) inglês Matt Mason, jovens rebeldes e idéias copiadas podem reinventar a economia.
Tapa-olho, espadas, bandeiras negras e navios de canhões em riste. Esqueça esses adereços. Os piratas mudaram de armas e estão trabalhando ali na esquina perto da sua casa, vendendo os filmes do próximo verão a preço de dvd virgem. Estão mais fortes do que nunca em nossa cultura do "copie e cole" . Sua influência vai muito além dos oceanos e coloca em xeque os maiores impérios comerciais do mundo globalizado. É sobre isso que fala o inglês Matt Mason no livro "O Dilema do Pirata" ( The Pirate´s Dilema, sem previsão de lançamento no Brasil). Ele mistura o que aprendeu fazendo remixes em rádios piratas e clubes londrinos na adolescência com a sua experiência como economista para mostrar que a pirataria é um caminho sem volta. Num texto cheio de histórias saborosas, ele revela como a contracultura, o punk e o hip-hop forjaram uma aliança com as novas tecnologias da informática e da comunicação para mudar para sempre as regras do jogo capitalista. E conclui: isso é bom para todo mundo. Os piratas nos fornecem novos canais de distribuição e consumo, e forçam as empresas a trabalhar duro em busca de produtos que nos agradem mais. De seu apartamento em Nova York, onde vive há 3 anos, Mason explicou como a pirataria pode mudar (aliás, já está mudando) o mundo para melhor.
SI: Muitas indústrias querem prender os piratas. Não tem medo de ser preso?
Mason: Não, porque teriam de prender todo mundo que pratica pirataria. E acho que não querem mandar todos os garotos que estão baixando músicas para a cadeia. Tudo o que fazemos, desde encaminhar um e-mail com uma imagem até tirar uma foto com uma TV no fundo, pode representar violação de direitos. Mas as pessoas a quem me refiro como piratas são aquelas que usam informação de forma realmente não convencionais.
SI: São os jovens, principalmente?
Mason: Sim, porque download, software livre, creative commons e movimento contemporâneo da pirataria fazem parte da cultura jovem. É coisa de gente nova, muito insatisfeita e muito apaixonada pelo que faz, e que quer mudar o mundo e fazer as coisas do seu jeito. A cultura jovem é como um experimento social, em que sempre há novas abordagens para operar o mundo real, fora do mainstream. Se esss idéias são boas, e fazem sentido para muita gente, elas se espalham. É da juventude que vêm as respostas sobre como competir e sobreviver quando a informação não é mais limitada pelas velhas leis de propriedade intelectual.
SI: Então a pirataria e a cultura jovem estão ajudando o capitalismo a se renovar?
Maison: Sim. O dinheiro continua fluindo, mas de um jeito diferente. As pessoas podem gastar menos com cds, mas elas estão ainda apaixonadas pela música e ainda gastam dinheiro com ela, com camisetas, shows etc. Vejo a pirataria como parte natural do capitalismo, que de tempos em tempos o faz mudar.
SI: Por que você entende a pirataria como um velho ingrediente do capitalismo?
Maison: Existem vários exemplod disso. Quando os EUA foram fundados, a política oficial do governo era não reconhecer nenhum tipo de propriedade intelectual, patentes, marcas nem nada. Então começaram a construir suas indústrias contrabandeando o know-how da Revolução Industrial européia. Isso é uma das razões que os levaram a se industrializar tão rapidamente. A fama de contrabantistas dos americanos era tão grande durante o século 19 que os europeus passaram a chamá-los de jankes, uma palavra holandesa usada para se referir aos antigos piratas que, na pronúncia inglesa, acabou virando yankees. Se você for buscar na história de muitas indústrias, também verá a pirataria como um ingrediente realmente importante.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Pensamento do dia
Levanta-te e mira as montanhas, donde te vem o vento, o sol e a água. Tu que diriges o curso dos rios, tu que semeaste o vôo de tua alma. Levanta-te e olha tuas mãos, para crescer, apertar a de teu irmão; juntos iremos, unidos ao sangue, hoje é o tempo que pode ser amanhã". (Victor Jara)
segunda-feira, 30 de junho de 2008
DEU NA IMPRENSA
* "Cerca de 10 mil jovens estão aprendendo a língua portuguesa nos EUA e houve aumento de 20% no número de professores de história do Brasil". (VALOR - Eu & Fim de Semana, 22,28 e 29 de junho de 2008, p.10)
* "A economia se reduz às finanças, o enfoque é o das finanças, sempre. Essa forma de ver o mundo econômico e o mundo material se torna dominante e consensual, no sentido de que ela se instala nas consciências sem que se tenha feito uma opção por ela.(...) O trágico é que apenas uma maneira de ver a economia vai se instalando, vira senso comum". (Revista Caros Amigos, junho/2008, p.13)
* Há o prazer de se praticar o mal e não simplesmente fazer o mal sem nenhum prazer. Por outro lado, o mal pode ser sublimado por meio da arte e da criatividade". (Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, in Entrevista no Estadão, Cad. Cultura, capa, 29/06/2008)
* "A economia se reduz às finanças, o enfoque é o das finanças, sempre. Essa forma de ver o mundo econômico e o mundo material se torna dominante e consensual, no sentido de que ela se instala nas consciências sem que se tenha feito uma opção por ela.(...) O trágico é que apenas uma maneira de ver a economia vai se instalando, vira senso comum". (Revista Caros Amigos, junho/2008, p.13)
* Há o prazer de se praticar o mal e não simplesmente fazer o mal sem nenhum prazer. Por outro lado, o mal pode ser sublimado por meio da arte e da criatividade". (Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, in Entrevista no Estadão, Cad. Cultura, capa, 29/06/2008)
UMA ESTRATÉGIA ÉTICA VIÁVEL
Essa estratégia ética viável e eficiente pode ser resumida nos seguintes pontos:
* Ela deve partir logo do que é mais urgente, de um despertar imediato das consciências e de um projeto de ação organizada, abraçando todos os cidadãos e mtodos os planos da vida pessoal, familiar, social e política.
* Para obter um consenso real e eficiente em torno desse projeto ético, é necessário conciliar valores éticos, de caráter universal, e os interesses particulares, que constituem a motivação mais ampla e atuante da população.
* Semelhante despertar e tal projeto de ação supõem um plano e uma prática de educação, que prolongaria a educação ativa e solidária de Paulo Freire.
* O plano de educação compreenderia as instâncias e os patamares da educação institucional e uma educação permanente, por todos os meios da mídia e orientação da sociedade.
* Toda essa estratégia ecológica estará dependendo de uma vontade política animando os governos, galvanizando a opinião pública e as diferentes formas de organização partidária, profissional, sindical e cultural de cada país e do mundo inteiro. Ao mesmo tempo, ela terá de suscitar e orientar a política, sobretudo a política econômica, educacional e sanitária. (JOSPHAT, CArlos, OP. Revolução univeral do amor, a ética mundial de defesa e promoção da vida, in Revista Convergência- pp. 358-359, CRB, junho/2008)
segunda-feira, 2 de junho de 2008
APRENDIZ DE HOMERO - Nélida Piñon
“... Educar é também desconsiderar os obstáculos da miséria e do obscurantismo, e fazer a criança sonhar, o adolescente derrubar os entraves culturais, para que pleiteiem um mundo à altura da sua imaginação.
Educar é fazer o aluno fruir dos bens do planeta em todas as suas manifestações. Para que sua fantasia, seu verbo, sua linguagem, sejam libertárias, destemidas, sem freios. É fazer do ato de pensar um feito tão natural quanto respirar. Um dom ao alcance de todos, independente de sua condição.
Educar é defender o exercício e a prática que transformam o sujeito passivo em sujeito da própria história. É dar fé a quem esteja na sala de aula de ser ele uma entidade inviolável, uma aposta do futuro.
Educar é prender o aluno à escola, empenhar todos os recursos para evitar a evasão escolar, a fuga da vida. É despertar nele o desejo de vir a ser um projeto existencial magnífico, sem brechas, fissuras. De vir a se no futuro um congressista, um artista, um escritor, um operário, um mestre. Alguém que, ao explorar sua irrenunciável vocação para a vida, nela inclua como meta o saber, o desvendamento da inteligência, o coração ardente, a mirada camaleônica e reveladora.
Educar é também convencer alunos e cidadãos que o professor é a única entidade social capaz de modificar a sociedade e torná-la melhor. É um ser aparelhado para opor-se à barbárie. Pois quem, senão o Mestre, tem a habilidade de chegar mais perto e rapidamente ao coração jovem que recém deixou as paredes da casa?
Educar é ajudar a traduzir historicamente o que separa os indivíduos, enquanto lhes explica o que pode uni-los sob a tutela da lei e da solidariedade cidadã. É auxiliar a distinguir o que pertence à órbita do individual e o que emerge do coletivo.
Educar é combater a realidade reducionista do aluno, é introjetar em sua caixa de memória o desejo irrenunciável de apropriar-se do conhecimento. É fomentar-lhe o gosto pela leitura que, por si mesmo, combate a resignação, a passividade, e concede-lhe, em troca, infindáveis oportunidades, dando-lhe o acesso, ao infinito mundo.
Educar é fazer crer ao aluno, e por conseqüência à sociedade, que a imaginação está ao alcance de todos. Com ela, esgrime-se o cotidiano, compatibiliza-se o sonho e realidade, apropria-se do que até então, não havíamos aprendido.
Educar é combater o trivial, o frívolo, o que permanece na área dos equívocos acumulados. É ajudar a formar um indivíduo para que ele possa decidir, com rara propriedade, de que modo conduzir sua vida. É permitir que a matéria humana, dada a sua transcendência moral, converta-se finalmente em um ser, uma pessoa, um bem intangível.” (Nélida Piñon – Aprendiz de Homero – Ed. Record, RJ, 2008, pp.236 a 238)
Educar é fazer o aluno fruir dos bens do planeta em todas as suas manifestações. Para que sua fantasia, seu verbo, sua linguagem, sejam libertárias, destemidas, sem freios. É fazer do ato de pensar um feito tão natural quanto respirar. Um dom ao alcance de todos, independente de sua condição.
Educar é defender o exercício e a prática que transformam o sujeito passivo em sujeito da própria história. É dar fé a quem esteja na sala de aula de ser ele uma entidade inviolável, uma aposta do futuro.
Educar é prender o aluno à escola, empenhar todos os recursos para evitar a evasão escolar, a fuga da vida. É despertar nele o desejo de vir a ser um projeto existencial magnífico, sem brechas, fissuras. De vir a se no futuro um congressista, um artista, um escritor, um operário, um mestre. Alguém que, ao explorar sua irrenunciável vocação para a vida, nela inclua como meta o saber, o desvendamento da inteligência, o coração ardente, a mirada camaleônica e reveladora.
Educar é também convencer alunos e cidadãos que o professor é a única entidade social capaz de modificar a sociedade e torná-la melhor. É um ser aparelhado para opor-se à barbárie. Pois quem, senão o Mestre, tem a habilidade de chegar mais perto e rapidamente ao coração jovem que recém deixou as paredes da casa?
Educar é ajudar a traduzir historicamente o que separa os indivíduos, enquanto lhes explica o que pode uni-los sob a tutela da lei e da solidariedade cidadã. É auxiliar a distinguir o que pertence à órbita do individual e o que emerge do coletivo.
Educar é combater a realidade reducionista do aluno, é introjetar em sua caixa de memória o desejo irrenunciável de apropriar-se do conhecimento. É fomentar-lhe o gosto pela leitura que, por si mesmo, combate a resignação, a passividade, e concede-lhe, em troca, infindáveis oportunidades, dando-lhe o acesso, ao infinito mundo.
Educar é fazer crer ao aluno, e por conseqüência à sociedade, que a imaginação está ao alcance de todos. Com ela, esgrime-se o cotidiano, compatibiliza-se o sonho e realidade, apropria-se do que até então, não havíamos aprendido.
Educar é combater o trivial, o frívolo, o que permanece na área dos equívocos acumulados. É ajudar a formar um indivíduo para que ele possa decidir, com rara propriedade, de que modo conduzir sua vida. É permitir que a matéria humana, dada a sua transcendência moral, converta-se finalmente em um ser, uma pessoa, um bem intangível.” (Nélida Piñon – Aprendiz de Homero – Ed. Record, RJ, 2008, pp.236 a 238)
domingo, 1 de junho de 2008
CÉLULAS-TRONCO - Alan Smith
Entrevista - Alan Smith
Cientista inglês aplaude a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil
Renata Mariz Da equipe do Correio
Renata Mariz Da equipe do Correio
De Gramado (RS), onde participou na última semana de um congresso sobre genética, o cientista inglês Alan Smith comemorou a liberação das pesquisas com células-tronco de embriões no Brasil. E adiantou que o país tem um “potencial muito grande no campo da ciência”. Smith publicou, 38 anos atrás, o primeiro artigo sobre o momento exato em que começava a tarefa dos genes que compõem o DNA humano. “Sinto um arrepio até hoje, uma emoção por essa descoberta”, diz Smith, atualmente chefe de pesquisa de uma multinacional no ramo da biotecnologia. PhD em Biologia Molecular pela Universidade de Cambridge, Smith não tem dúvidas de que o futuro, no que diz respeito ao tratamento de doenças, será a terapia celular. “A questão é quando. Isso nós não podemos precisar. Mas acho que temos estudos bem adiantados”, diz, citando pesquisas feitas nos Estados Unidos. Para ele, a terapia derivada de células-tronco, tanto embrionárias quanto adultas, fugirá do convencional padrão de medicamentos de hoje. “O ideal será descobrirmos uma forma de mobilizar as células-tronco dentro do próprio corpo do paciente”, destaca.
CB -Os estudos com células-tronco apresentam perspectivas reais de resultados? Qual tipo, células adultas ou embrionárias, é melhor?
SMITH - Não tenho dúvida que as células-tronco serão a chave para o futuro terapêutico. A questão é quando. Isso nós não podemos precisar. Mas temos estudos bem adiantados. Companhias dos Estados Unidos conduzem atualmente pesquisas em fases avançadas para doenças de rins, transplantes de órgãos sólidos e diabetes. No estágio atual, porém, não podemos dizer que tipo de célula é melhor, embrionária ou adulta. Na verdade, a utilização de células embrionárias é menos um problema científico e mais político, cultural.
CB -Então o Brasil deu um passo correto, ao liberar as pesquisas com embriões humanos?
SMITH - Isso é maravilhoso. Essa decisão abrirá um campo importante de pesquisas. O Brasil é um país muito forte, com um potencial muito grande no campo da ciência. Nos Estados Unidos, ainda existe um debate muito intenso, por conta de relações do tema com o aborto.
CB - Dá para termos uma idéia sobre o formato desse tipo de terapia com células-tronco, quando for uma realidade e já estiver acessível a quem precisa?
SMITH - Ninguém sabe ao certo. Mas eu acho difícil que consigamos manipular as células em um laboratório para, a partir delas, criarmos medicamentos que resolverão problemas de saúde, como ocorre hoje. O ideal, na minha opinião, será descobrirmos que tipo de medicação podemos usar para mobilizar as células-tronco dentro do corpo do próprio paciente. Precisamos investir para que, a cada sinalização das células sobre o aparecimento de uma doença, possamos ativar as células-tronco para que entrem em ação.
( Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/ 01/06/2008)
( Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/ 01/06/2008)
INTERNET EMBURRECE
O professor MARK BAUERLEIN, diretor de pesquisa e análise da Fundação Nacional para as Artes nos Estados Unidos, que tem sido criticado na imprensa e por internautas, diz que prevalecem na web linguagem pobre e "recreações adolescentes". O ataque começa já no título do livro. É a "geração mais estúpida", anuncia "THE DUMBEST GENERATION: How the Digital Age of Stupefies Young American and Jeopardizes Our Future - Or, don't Trust Anyone Under 30" ("A Geração Mais Estúpida: Como a Era Digital Embasbaca Jovens Americanos e Põe em Risco Nosso Futuro - Ou, Não Acredite em Ninguém com Menos de 30"- lançado nos Estados Unidos, há duas semanas.
Os principais argumentos do livro:
- Aproximação - embora tenham acesso a muita informação, os jovens não têm conhecimento históricos nem interesse por questões internacionais. Na Internet, dedicam-se somente a sites que os aproximam de outros jovens, como o Facebook.
- Leitura de livros - Pesquisas indicam que crianças e adolescentes cada vez menos lêem livros - e cada vez menos acreditam que isso seja algo necessário para a sua formação.
- Dificuldade na escrita - Com a leitura superficial resultante da abundância de informações a que têm acesso na internet, os jovens de hoje têm dificuldade de escrever e de embasar argumentos.
- Passando adiante - Eles não conseguem armazenar informações. Crianças e adolescentes acessam a rede mundial somente para encontrar materiais e passá-lo adiante, "como em um sistema de delivery". (Reportagem do Jornal O Sul, 01/06/2008, pg.7)
segunda-feira, 19 de maio de 2008
MANIFESTO CONTRA A ETIQUETINHA
SOMOS PESSOAS educadas. Mesmo. Nossas mães fizeram um bom trabalho. Não gritamos com os outros. Sabemos dar bom dia, agradecer, comer de boca fechada. Mas odiamos a obrigação de ser educado por etiqueta. Se a sua mãe te obriga a telefonar para aquela amiga de quem você nem gosta muito (e que nem gosta de você) só para agradecer ao convite de uma festa porque o código social manda que sim, rebele-se.Na boa? Para que ligar? Para ser falsa? Sim, a etiqueta é amiga da falsidade. Assim como o bom caráter é amigo da educação. Por outro lado, às vezes a falsidade pode demonstrar uma certa educação. Expliquemos.
Quando somos contra a etiquetinha
Nós, os educados contra a etiquetinha, quando ligamos para alguém, é porque realmente queremos falar com aquela pessoa. Quando agradecemos, é porque de fato ficamos gratas. Basicamente, seguimos a etiqueta do coração e cada dia mais achamos que devemos fazer o que temos vontade. Se não estamos com a menor vontade de ir a uma festa, não vamos só porque vai pegar bem. Porque vai ser falta de educação faltar a uma festa que nós iríamos odiar.
Quando somos a favor da falsidade
Ao mesmo tempo, odiamos pessoas sincerinhas sem necessidade. A situação: você está tendo devaneios por um sujeito qualquer. Um devaneio frívolo, tipo "ele me ama, e vamos nos agarrar a qualquer momento". E vai passar, talvez dentro de três dias. Então, chega seu amigo "sincero". Você não pediu conselho, você não está se afundado na lama por causa do sujeito, só está curtindo uma ilusão. E ele joga a verdade na sua cara: "Ele não está a fim de você". Alguém perguntou? Inclusive os sincerinhos sem necessidade podem ser facilmente identificados porque começam as frases com "eu sei que você não perguntou mas... sua franja está uó".
Ou seja, uma ECE (educada contra etiqueta) jamais é grossa e não gosta de magoar pessoas. Ela só não tem paciência com quem finge que se magoa com qualquer coisa. Ou com quem acha que nada magoa. Por isso, se você receber um convite nosso, não precisa responder. Se a gente quiser mesmo saber se você vai, a gente, que não segue etiqueta nenhuma, vai telefonar ou perguntar pelo MSN. Ou escrever no e-mail RESPONDA PELOAMORDEDEUS. E quando você receber um telefonema ou um e-mail nosso, tenha certeza, foi de coração. Não que isso seja grande coisa. Mas aquilo foi sincero. Saiba disso.
Momento de histeria
Sai para lá, Pinóquio!
(Texto da FSP on line - dois Neurônios - , 19/05/2008-Jô Hallack,Nina Lemos eRaq Affonso).
domingo, 18 de maio de 2008
NÃO DEIXE QUE A TECNOLOGIA DOMINE SUA VIDA
Ethevaldo Siqueira
De modo quase imperceptível, eu estava sendo dominado pela tecnologia. O computador, o celular e a internet passaram a devorar horas e horas de meu tempo. Eu estava perdendo quase metade de meu dia de trabalho navegando sem rumo, dispersivamente, na internet. E, pior, estava sacrificando as coisas realmente agradáveis da vida, como o convívio com a família, o lazer e o contato com a natureza.
Suponho que muitos leitores vivam ou já viveram essa mesma situação. A todos eu digo: não se deslumbrem diante da tecnologia, por mais fascinante que ela seja. A vida tem coisas muito melhores.
Ao fazer meu diagnóstico, concluí que eu me havia transformado num usuário obsessivo dessa parafernália tecnológica que nos cerca. Alguns amigos mais próximos me punham apelidos ridículos: webdependente, bitnômano, celularmaníaco, audiovidiota.
Reconheci o problema em toda sua extensão e busquei remédio em diversos locais. Quase tudo em vão. Na internet só encontrei sugestões bizarras, desabafos, protestos e gritos de insatisfação como: “Um dia sem internet. Um dia sem o Google ou sem o celular”. Ou propostas de fuga para uma espécie de paraíso perdido: “Quero uma casa cercada de flores na Serra Gaúcha, sem TV, sem computador, sem messenger, sem Orkut, sem e-mails, sem telefone”.
Depois de longas sessões com um grupo de amigos que viviam o mesmo drama - a que eu chamei de Neuróticos Digitais Anônimos -, aprendi que não podia mais passar 6 ou 8 horas por dia na internet. Nem viver ansioso, consultando obsessivamente meu smartphone, em busca de e-mails urgentes, em restaurantes, hotéis ou aeroportos, como tantos executivos e jornalistas que conheço.
REAJA, LEITOR
Se o seu problema é o mesmo, leitor, reaja.
Arme-se com mais tecnologia, para defender-se de sua tirania. Seja mais frio diante dos avanços digitais e resista ao fascínio que eles exercem. Nunca perca o senso crítico diante deles. Um amigo, pragmático, me aconselhou:
“Use a tecnologia a seu favor, para relaxar, para divertir e para fugir da rotina”.
Ao final, me curei sem precisar banir a internet nem as novas tecnologias, para sempre ou por apenas por um dia. Apenas aprendi a dosar sua utilização para o resto de minha vida. Esse é o segredo: trabalho e lazer na medida certa. Por isso, os acessórios mais importantes de meu desktop são hoje as novas caixas acústicas do sistema de multimídia. Com o melhor áudio estéreo, posso interromper meu trabalho por alguns minutos, para ouvir música.
A cada hora de trabalho diante do computador, faço uma pausa de cinco minutos. Nesse intervalo, ouço, às vezes, a Balada nº 1 de Chopin, com Arthur Rubinstein, numa gravação em Super Audio CD. Fecho os olhos e me sinto transportado para a Sala São Paulo ou para a Concertgebow, de Amsterdã.
Com disciplina e planejamento, consegui mudar radicalmente meus hábitos de workaholic digital. E, creiam, hoje trabalho menos e produzo mais. Consigo estar à frente das necessidades. Cumpro rigorosamente os compromissos de lazer e sou mais flexível com as obrigações de trabalho.
Não navego mais a esmo na internet. Só consulto locais específicos e volto às tarefas anteriores. A não ser que seja pelo prazer de visitar uma Wikipédia ou sites muito especiais, como www.prs.com ou www.ted.com. Tudo sem neurose.
Neste fim de semana, estarei voando para a Finlândia, numa longa viagem. Diferentemente do que fazia no passado, não passarei três ou quatro horas debruçado sobre o laptop, escrevendo no avião. Minha prioridade agora é relaxar. Com meu fone de ouvido cancelador de ruídos (noise cancelor) conectado ao meu iPod, poderei ouvir pelo menos duas horas de Vivaldi, Bach, Beethoven, Brahms ou Chopin. Com o noise cancelor, o ronco das turbinas se transformará num leve ruído de fundo e eu poderei curtir o Canon de Pachelbel e, depois, mergulhar em sete horas de sono.
Ao retornar de viagens como essa, terei que enfrentar a defasagem de fusos horários, o terrível jet leg. Nas primeiras noites de insônia, meu remédio será afundar-me numa poltrona, diante do home theater e rever um show de Andrea Bocelli, Under the Desert Sky, em Las Vegas, o primeiro com canções populares em inglês e espanhol.
O receituário que aprendi com os Neuróticos Digitais Anônimos reúne conselhos que funcionam, leitor. Pense neles. Interrompa seu trabalho, para relaxar, para ouvir música ou para três minutos de alongamento. Aprenda a respirar. Você se sentirá outro.
Desligue seu celular nos fins de semana e consulte a caixa postal apenas uma vez por dia no sábado e no domingo. Pratique algum esporte. Tome mais sol e caminhe em praias desertas, ao amanhecer. Brinque com seus filhos. Viaje nas férias sem laptop. Ouça muito mais música. Troque o uísque por suco de frutas. Nas horas vazias, leia mais. Estou curtindo um livro excelente: Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson. Nas últimas férias li Jorge Amado, Lya Luft, Machado de Assis e Carl Sagan.
Em síntese: faça como eu, liberte-se da tecnologia.
http://www.estado.com.br/editorias/2008/05/18/eco-1.93.4.20080518.22.1.xml
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sexta-feira, 16 de maio de 2008
Por que vivemos, se temos de morrer?
Por que vivemos, se temos de morrer, isto não sei responder em definitivo. Só sei que em toda parte no mundo, a vida está ligada com a morte. Não há vida sem morte, nem entre os animais e nem entre as plantas. Também nós, seres humanos, participamos dessa realidade; nós também vivemos sob a lei da morte e do renascimento. Nossa vida é finita. Não podemos fugir disso, apesar de todas as tentativas da ciência de postergar a morte. A questão é como lidar com isso. Se aceitamos que nossa vida é finita, então isto dá ao tempo vital que nos está disponível um valor especial.
Nossa vida é única. Pos isso devemos vivê-la cuidadosamente. A arte da vida consiste em integrar a morte em nossa vida e, dessa forma, viver mais intensamente. A morte nos convida a sentir o mistério da vida e estamos agora, neste instante, totalmente presentes. Quando penso na minha morte, sou estimulado por este pensamento a viver conscientemente, a dizer as palavras que há muito queria ter dito, a escrever aquilo que corresponde de fato ao meu íntimo e de fazer aquilo que acho ser minha tarefa no mundo. E não viverei inadvertida e descuidadamente por aí, mas vou degustar cada momento com muito apreço. Sinto, na perspectiva da morte, o gosto pela vida. Quando todo dia pode ser o meu último, não vou desperdiçá-lo inutilmente.
Quando a morte é o limite da minha vida. Todo o limite tem dois lados, o aquém e o além, que se completam pela separação. A morte é o limite que me convida a viver consciente e intensamente dentro dos limites. Mas é também o limite que eu ultrapasso e que me conduz da limitação da minha existência condicionada por uma série de restrições históricas para uma nova amplidão. No ultrapassar desses limites, não morro para o nada, mas para a plenitude da vida, para dentro de Deus. Portanto, minha morte não é só fim, mas também um novo começo, uma transformação desta vida, a satisfação de meu desejo mais profundo... (GRÜN, Anselm. O livro das respostas. Ed. Vozes, RJ, p.63/64 - Grün é monge beneditino da Abadia de Münsterschwarzach (Alemanha). Tem seus livros poblicados em 28 línguas)
BETTO, Fr. - Cavalos de fogo
Observo a conjuntura mundial, a alta do preço dos alimentos, a fissura dos governantes teimando em abastecer veículos e não bocas, enfim, o cruel manuseio do poder, e este aberrante paradoxo: a ONU clama por US$ 2 bilhões para socorrer as vítimas da fome (854 milhões de pessoas), enquanto os EUA gastam na invasão do Iraque meio trilhão de dólares, segundo relatório do Serviço de Investigação do Congresso (CRS, sigla em inglês).
Recordo-me da queda de Faetonte, personagem de uma das narrativas paradigmáticas da mitologia grega. Filho do Sol, o jovem Faetonte, tomado pela inquietação própria da idade, viu-se desafiado a provar sua ascendência divina e dirigir o carro do pai.
Ao apresentar-se no palácio de Hélio, Faetonte aproximou-se do trono onde o deus-sol reinava cercado de seu séqüito: o Dia, o Mês, o Ano, o Século e as Horas. Em volta, a Primavera com a sua coroa de flores; o Verão coberto de espigas de cereais; o Outono com sua cornucópia repleta de uvas; e o Inverno com seus cabelos brancos como a neve.
Faetonte exigiu do pai uma prova de amor. Hélio prometeu atender-lhe tão logo manifestasse um pedido. Logo se arrependeu ao ouvir o filho expressar o desejo de trazer em mãos as rédeas do carro guiado por quatro cavalos incandescentes que expeliam labaredas e, graças aos ventos, disseminavam a luz e o dia por toda a Terra.
Hélio julgou absurdo o pedido do filho. Como confiar a um jovem imaturo o carro capaz de impedir o mundo de viver mergulhado nas trevas? Retrucou-lhe:
— Ó, filho, quisera eu poder voltar atrás em minha promessa! Pede-me algo que está além de suas forças. Você é jovem e mortal; almeja mais do que outros deuses são capazes de obter. Nenhum deles logra equilibrar-se sobre o eixo incandescente. Íngreme é o caminho de minha carruagem, só com muito esforço meus cavalos, ao amanhecer, conseguem galgá-lo. O meio do caminho é alto, no centro do Céu. E no final o caminho declina abruptamente, exige uma condução segura, para que não mergulhe o carro nas profundezas do mar. Lembre-se de que o Céu se move num ímpeto constante, e é preciso viajar em sentido contrário a esse movimento. Como você haveria de conseguir isso? Volte atrás em seu pedido. Peça o que quiser, todas as riquezas do Céu e a da Terra, menos isso.
O rapaz não arredou pé, convencido de que seria capaz de dissipar as trevas que encobrem o mundo. Ao ver que a Aurora já se aproximava para inaugurar um novo dia, Hélio concordou que o filho o acompanhasse na carruagem. Faetonte, entretanto, insistiu em guiá-la sozinho. Uma das Horas, nervosa, alertou o deus solar:
— Hélio, é hora de atrelarmos os corcéis de fogo ao carro. Veja, a Aurora já está a caminho. Urge que seu carro flamejante siga atrás.
Como todo pai fraco de caráter, o rei abriu mão de seus princípios para não contrariar o filho. Frente à insistência do jovem, cedeu ao coração em detrimento da razão.
Faetonte subiu no carro e conduziu os cavalos a galope pela linha etérea que os manteria eqüidistantes da Terra e do Céu, de modo a não incendiar as moradas dos homens e dos deuses. Rédeas nas mãos, sentiu-se senhor do mundo, cuja luz provinha de seu carro flamejante. Contudo, o brilho das labaredas turvaram-lhe os olhos e a mente. Não conseguiu manter o equilíbrio da carruagem. Os cavalos puxavam mais que a força de suas mãos. Desabalados, mergulharam em direção à Terra. Ao passar por montanhas cobertas de neve, o calor do carro as derreteu, o bafo dos animais incendiou cidades e calcinou países, fez arder florestas, secar os rios e os mares.
Zeus, indignado, atirou um de seus raios e despedaçou o carro, dispersando os cavalos. O corpo de Faetonte, com os cabelos em chamas, caiu como uma estrela cadente. As náiades o depositaram num túmulo, em cuja lápide gravaram este epitáfio: “Aqui jaz Faetonte. Na carruagem de Hélio ele correu; e se muito fracassou, muito mais se atreveu”.
O pecado de Adão e Eva consistiu em comer o fruto do conhecimento do Bem e do Mal — quiseram equiparar-se a Deus. Só Ele sabe discernir com nitidez esses dois pólos, e é a adequação de nossa vontade à Dele que nos permite fazer a “Sua vontade assim na Terra como no Céu.” Fora disso, somos conduzidos, às cegas, pelos cavalos de fogo de nossas atrevidas pretensões. Com grave prejuízo aos nossos semelhantes e à mãe Terra. (Frei BettoEscritor, autor de Sinfonia universal — a cosmovisão de Teilhard de Chardin (Ática), entre outros livros )
http://www.correiobraziliense.com.br/ 16/05/2008
http://www.correiobraziliense.com.br/ 16/05/2008
domingo, 11 de maio de 2008
UMBERTO ECO - Entrevista
FOLHA - Há uma cena em sua vida, quando toca trompete para os "partigiani" [movimento antifascista], aos 13 anos, na praça de Alexandria, que transmite felicidade... O sr. sempre parece estar tão feliz!
UMBERTO ECO - Aqui há duas coisas: aquele garoto e a felicidade. São diferentes, não podem coincidir. Não acredito na felicidade -estou lhe dizendo a verdade. Acredito apenas na inquietude. Ou seja, nunca estou feliz por completo -sempre preciso fazer outra coisa. Mas admito que na vida existem felicidades que duram dez segundos ou meia hora, como quando nasceu meu primeiro filho -naquele instante, eu estava feliz. Mas são momentos muito breves. Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto. Aquele menino é o que irá aparecer em "O Pêndulo de Foucault", e aquele foi um momento feliz, sem dúvida, mas não estou certo se o foi realmente naquele momento ou no momento em que o estava narrando. Existem momentos de felicidade quando você consegue expressar alguma coisa que o deixa contente. Além disso, enquanto contava sobre aquele menino, eu estava feliz porque -sei bem que é uma afirmação muito reacionária- acredito que a vida serve apenas para recordar nossa própria infância.
PERGUNTA - Aí entra a literatura.
ECO - É o que dizem. Cada momento em que consigo me recordar bem de um instante de minha infância é um momento de felicidade, mas isso não quer dizer que os momentos de minha infância tenham sido momentos de felicidade. A infância e a adolescência são períodos muito tristes. As crianças são seres muito infelizes. Talvez eu, enquanto tocava trompete, com medo de que fosse a última vez em que tocaria aquele instrumento, tenha sido um menino infeliz. Sinto-me feliz agora, ao lembrar disso, e talvez seja essa a razão pela qual escrevo, para encontrar esses momentos muito breves de felicidade que consistem em relembrar momentos da própria infância. Sim, é por isso que escrevo. (Partes da Entrevista na FSP on line com o tïtulo: O professor aloprado, 11/05/2008)
sexta-feira, 9 de maio de 2008
PENSAMENTO não do dia, de sempre (2)
"A realidade
Sempre é maios ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios..."
(Fernando Pessoa - Odes de Ricardo Reis. Livro: Poesias, L&PM pocket, Porto Alegre, 1996,p.107)
Sempre é maios ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós próprios..."
(Fernando Pessoa - Odes de Ricardo Reis. Livro: Poesias, L&PM pocket, Porto Alegre, 1996,p.107)
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Leonardo BOFF- Quatro "erres"contra o consumismo
A fome é uma constante em todas as sociedades históricas. Hoje, entretanto, ela assume dimensões vergonhosas e simplesmente cruéis. Revela uma humanidade que perdeu a compaixão e a piedade. Erradicar a fome é um imperativo humanístico, ético, social e ambiental. Uma pré-condição mais imediata e possível de ser posta logo em prática é um novo padrão de consumo.
A sociedade dominante é notoriamente consumista. Dá centralidade ao consumo privado, sem auto-limite, como objetivo da própria sociedade e da vida das pessoas. Consome não apenas o necessário, o que é justificável, mas o supérfluo, o que questionavel. Esse consumismo só é possível porque as políticas econômicas que produzem os bens supérfluos são continuamente alimentadas, apoiadas e justificadas. Grande parte da produção se destina a gerar o que, na realidade, não precisamos para viver decentemente.
Como se trata do supérfluo, recorrem-se a mecanismos de propaganda, de marketing e de persuasão para induzir as pessoas a consumir e a fazê-las crer que o supérfluo é necessário e fonte secreta da felicidade.
O fundamental para este tipo de marketing é criar hábitos nos consumidores a tal ponto que se crie neles uma cultura consumista e a necessidade imperiosa de consumir. Mais e mais se suscitam necessidades artificiais e em função delas se monta a engrenagem da produção e da distribuição. As necessidades são ilimitadas, por estarem ancoradas no desejo que, por natureza, é ilimitado. Em razão disso, a produção tende a ser também ilimitada. Surge então uma sociedade, já denunciada por Marx, marcada por fetiches, albarrotada de bens supérfluos, pontilhada de shoppings, verdadeiros santuários do consumo, com altares cheios de ídolos milagreiros, mas ídolos, e, no termo, uma sociedade insatisfeita e vazia porque nada a sacia. Por isso, o consumo é crescente e nervoso, sem sabermos até quando a Terra finita aguentará essa exploração infinita de seus recursos.
Não causa espanto o fato de o Presidente Bush conclamar a população para consumir mais e mais e assim salvar a economia em crise, lógico, à custa da sustentabilidade do planeta e de seus ecossistemas. Contra isso, cabe recordar as palavras de Robert Kennedy, em 18 de março de 1968: ”Não encontraremos um ideal para a nação nem uma satisfação pessoal na mera acumulação e no mero consumo de bens materiais. O PIB não contempla a beleza de nossa poesia, nem a solidez dos valores familiares, não mede nossa argúcia, nem a nossa coragem, nem a nossa compaixão, nem a nossa devoção à pátria. Mede tudo menos aquilo que torna a vida verdadeiramente digna de ser vivida”. Três meses depois foi assassinado.
Para enfrentar o consumismo urge sermos conscientemente anti-cultura vigente. Há que se incorporar na vida cotidiana os quatro “erres” principais: reduzir os objetos de consumo, reutilizar os que já temos usado, reciclar os produtos dando-lhes outro fim e finalmente rejeitar o que é oferecido pelo marketing com fúria ou sutilmente para ser consumido.
Sem este espírito de rebeldia consequente contra todo tipo de manipulação do desejo e com a vontade de seguir outros caminhos ditados pela moderação, pela justa medida e pelo consumo responsável e solidário, corremos o risco de cairmos nas insídias do consumismo, aumentando o número de famintos e empobrecendo o planeta já devastado.
(Envolverde)
http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=2808 - Acesso 05/05/2008
(Envolverde)
http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=2808 - Acesso 05/05/2008
GILBERTO DUPAS - Acabaram as utopias?
- Assim como a esperança, a utopia não morrerá nunca. Mas seu destino parece sempre fazer morada em outro lugar -
O MUNDO parece abandonar definitivamente as utopias e atirar-se de joelhos diante do mercado. A China virou uma das sócias maiores do capitalismo global; a Itália entrega-se mais uma vez ao megaempresário Berlusconi; e Cuba abre brechas à propriedade privada e à sociedade de consumo. O capitalismo transformou-se em regime único. O mercado implacável define ganhadores e perdedores, o Estado de bem-estar social definha e parecemos nos satisfazer com iPods, telefones celulares, telas de plasma e carros de US$ 3.000.
Isso significa que qualquer proposta de transformação do mundo capitalista passou a ser uma ilusão irrealizável? Não é mais possível projetar para o futuro fundamentos de uma nova ordem? Os versos de Eduardo Galeano esclarecem: "Para que serve a Utopia?/ Ela está diante do horizonte./ Me aproximo dois passos/ e ela se afasta dois passos./ Caminho dez passos/ e o horizonte corre/ dez passos mais à frente./ Por muito que eu caminhe/ nunca a alcançarei. Para que serve a Utopia?/ Serve para isso: para caminhar". Francisco Fernández Buey nos recorda que Thomas More escreveu "Utopia", sua ilha imaginária, inspirado nas notícias sobre o novo mundo vindas pelas cartas de Américo Vespúcio no início do século 16. More era um realista e falava em caminho oblíquo: o que não pode tornar-se bom, que se torne o menos mal possível. Embora vários utópicos contestassem a propriedade privada como raiz de todos os males, More era cuidadoso; não achava viável que todas as coisas fossem comuns.
Curioso ter sido o México, mais uma vez o novo mundo, o destino da primeira experiência utópica renascentista que Vasco de Quiroga, juiz e bispo de Nova Espanha, propôs levar à prática. Em 1530, com o apoio do imperador Carlos 1º, proibiu a escravidão dos índios. Fundou um colégio conservando as línguas autóctones e fazendo uma insólita experiência sociocultural. Durou pouco.
No final daquele século, Campanella imaginou que poderia operar uma transformação completa da sociedade e inventou uma república universal na sua Calábria. Foi submetido à Inquisição por suas práticas utópicas. Na prisão, idealizou "A Cidade do Sol", governada por um magistrado supremo e por três adjuntos, representando sabedoria, poder e amor. Nela, o direito era uma virtude coletiva, e a política, um ramo da ética.
Já Robert Burton propôs sua Atlântis, mas achava ser impossível sacerdotes imitadores de Cristo, advogados caridosos, médicos modestos, filósofos que conheciam a si mesmos, nobres honestos, mercadores que não mentissem e magistrados que nunca se corrompessem. Queria tentar o possível, com penas severas aos infratores: mãos cortadas a sacrílegos, morte a adúlteros e trabalho escravo para ladrões. Era realista como Maquiavel, para quem é máxima do demagogo que homens bons produzem boas leis. Para o legislador, as boas ordens é que fazem homens bons. O pensamento utópico supõe sociedade de abundância: passar do reino das necessidades para o da liberdade; substituir a desordem -o mercado- por organização consciente e planejada da produção social; deixar florescer as capacidades humanas, fazendo triunfar a ajuda mútua e a solidariedade sobre o egoísmo da sociedade mercantil.
Em suma, socialismo com democracia participativa. Esse modelo naufragou com o socialismo real. Mas teria sido a Revolução Russa uma utopia? A experiência bolchevista virou uma tentativa fracassada de realização de um ideal em condições históricas dadas. Já do final do século 20 para nossos dias, o pessimismo se acentuou com a direção selvagem do progresso e o descobrimento do lado perverso das novas tecnologias. Buey resgata em Ernst Bloch a utopia como princípio regulador do real, parte substancial do pensar humano. A razão não pode florescer sem esperança, nem a esperança pode falar sem a razão. Já para Bernard Shaw, há quem observe a realidade tal qual ela é e se pergunte por quê? E há quem a observe como ela jamais foi e se pergunte por que não? Mas pode uma boa utopia, que não seja mera ilusão, enunciar mais do que máximas morais ou tendências essenciais? Um outro mundo talvez seja possível. E é o exercício da utopia, negando o narcisismo, que nos obriga a olhar em direção a uma sociedade menos injusta. Assim como a esperança, a utopia não morrerá nunca. Mas seu destino parece sempre fazer morada em outro lugar. Por isso utopia quer dizer nenhum lugar.
GILBERTO DUPAS , 65, é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor, entre outros livros, de "O Mito do Progresso".
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0505200809.htm
GILBERTO DUPAS , 65, é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP, presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI) e autor, entre outros livros, de "O Mito do Progresso".
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0505200809.htm
domingo, 4 de maio de 2008
COISAS RUINS não nos afetam tão profundamente quanto nós esperamos - Entrevista
Psicólogo social afirma que "coisas ruins não nos afetam tão profundamente quanto nós esperamos" Claudia Dreifus Do Science Times Em Harvard, o psicólogo social Daniel Gilbert é conhecido como Professor Alegria. Isso porque esse pesquisador de 50 anos de idade comanda um laboratório que estuda a natureza da felicidade humana. Seu livro "Stumbling on Happiness" foi best seller do "New York Times" durante 23 semanas e conquistou o prêmio 2007 Royal Society Prize for Science Books.
Science Times: Como você entrou nessa área de estudo?
Daniel Gilbert: Aconteceu há mais ou menos 13 anos. Passei a primeira década da minha carreira estudando sobre o que os psicólogos chamam de "erro fundamental de atribuição", ou como as pessoas têm a tendência de ignorar o poder de situações externas sobre a determinação do comportamento humano. Por que alguns acreditam, por exemplo, que pessoas sem instrução são burras? Eu ficaria feliz em trabalhar nisso por muitos anos ainda, mas algumas coisas aconteceram na minha própria vida. Em um curto período de tempo, meu orientador faleceu, minha mãe também, meu casamento se despedaçou e meu filho passou a ter problemas na escola. Eu logo descobri que, por pior que fosse minha situação, não era algo devastador. E fui em frente. Um dia, almocei com um amigo que também estava passando por dificuldades. Eu disse a ele: "Se você me perguntasse há um ano como eu lidaria com tudo isso, eu responderia que não ia conseguir nem me levantar da cama pela manhã". Ele concordou com a cabeça e acrescentou, "Será que somente nós erramos quando tentamos prever como responderíamos a um estresse extremo?" Isso me fez pensar. Eu me perguntava: Com que precisão as pessoas prevêem suas reações emocionais a eventos futuros?
ST: O que isso tem a ver com entender a felicidade?
DG: É que se não podemos prever como reagiríamos no futuro, não podemos estabelecer objetivos realistas para nós mesmos, nem descobrir como alcançá-los. O que observamos repetidamente no meu laboratório é que as pessoas têm uma incapacidade de prever o que nos fará felizes -ou infelizes. Se você não consegue dizer que futuro é melhor que outro, é difícil encontrar a felicidade. A verdade é que coisas ruins não nos afetam tão profundamente quanto nós esperávamos. E isso vale para coisas boas também. Nos adaptamos muito rápido a ambos. Então, a boa notícia é que ficar cego não vai lhe fazer tão infeliz quanto você pensa. A má notícia é que ganhar na loteria não lhe fará tão feliz quanto você imagina.
ST: Você está dizendo que as pessoas são felizes com o que a vida lhes dá?
DG: Como espécie, temos a tendência de ser moderadamente feliz, não importa o que ganhamos. Em uma escala de zero a 100, as pessoas geralmente classificam sua felicidade como 75. Continuamos tentando chegar a 100. Às vezes, conseguimos. Mas não dura muito. Certamente, temos medo das coisas que nos levariam a 20 ou 10 -a morte de uma pessoa querida, o fim de um relacionamento, um desafio sério para nossa saúde. Porém, quando essas coisas acontecem, a maioria de nós vai retornar a nossas bases emocionais mais rápido do que imaginamos. Os humanos são incrivelmente resilientes.
ST: A maioria de nós guarda noções irracionais sobre o que é felicidade?
DG: São idéias errôneas e falhas. Poucos de nós podem avaliar com precisão como iremos nos sentir amanhã ou semana que vem. É por isso que quando você vai ao supermercado de estômago vazio, compra demais, e se for depois de uma grande refeição, compra de menos. Outro fator que dificulta a previsão da nossa felicidade futura é que a maioria de nós tende a racionalizar as coisas. Esperamos nos sentir devastados se nossa esposa nos deixar ou se não ganharmos uma boa promoção no trabalho. Mas quando coisas assim acontecem, logo dizem "ela não era para mim", ou "eu estava mesmo precisando de mais tempo com a minha família". As pessoas têm um talento incrível para encontrar formas de suavizar o impacto de eventos negativos. Assim, elas estão enganadas quando imaginam que golpes como esses sejam mais devastadores do que são.
ST: Então, se não tivéssemos esses mecanismos, estaríamos deprimidos demais para seguir adiante?
DG: Isso tem a ver. Pessoas clinicamente depressivas muitas vezes parecem não ter a capacidade de se recompor. Isso sugere que, se o resto de nós também não tivesse essa capacidade, estaríamos todos depressivos também.
ST: Como autor de um best seller sobre felicidade, você tem algum conselho sobre como as pessoas podem alcançá-la?
DG: Sabemos que o melhor indicador para a felicidade humana são os relacionamentos e a quantidade de tempo que as pessoas passam com sua família e amigos. Sabemos que isso é significantemente mais importante que dinheiro e um pouco mais importante que saúde. Isso é o que mostram os dados. O interessante é que as pessoas sacrificam seus relacionamentos sociais para conseguir outras coisas que não as farão feliz -como dinheiro. Outra coisa que sabemos através de estudos é que as pessoas tendem a obter mais prazer de experiências do que de coisas. Então, se você tem dinheiro para gastar nas férias ou em bons filmes e restaurantes, isso vai lhe trazer mais felicidade do que um bem durável ou um objeto. Uma razão para isso é que as experiências tendem a ser compartilhadas com outras pessoas e os objetos, não.
ST: Você não acaba de expressar uma idéia muito antiamericana?
DG: Ah, você pode gastar muito dinheiro com experiências. As pessoas pensam que um carro vai durar e que por isso vai lhes trazer felicidade. Mas não vai. Ele fica velho e acabado. Mas as experiências, não. Você "sempre terá Paris" -e é exatamente isso que Bogart quis dizer quando falou essa frase para Ingrid Bergman em Casablanca. Mas você sempre terá uma máquina de lavar? Não. Hoje, eu vou para Dallas para encontrar minha esposa e viajo de primeira classe, que é ridiculamente mais cara. Mas a experiência será mais prazerosa do que um terno novo. Outro jeito de seguir o que aprendi com os dados do estudo é que eu não corro mais atrás de dinheiro, agora que tenho o suficiente, pois sei que será necessária uma enorme quantidade de dinheiro para aumentar só um pouco a minha felicidade. Eu não perderia uma brincadeira com minhas netas nem por US$ 100 mil. E não é porque sou rico. É porque sei que essa grana não vai me trazer mais felicidade do que curtir minhas netas.
ST: Então, você defende a idéia de que "dinheiro não traz felicidade"?
DG: Eu não diria isso. Os dados mostram que, no caso dos mais pobres, um pouco de dinheiro pode comprar muitas alegrias. Se você é rico, um monte de dinheiro pode comprar só um pouco mais de felicidade. Mas em ambos os casos, o dinheiro faz isso.
ST: Você, Dan Gilbert, é uma pessoa feliz?
DG: Sou. Coisas boas estão acontecendo comigo e acredito que vão continuar assim. Não sou otimista com relação ao resto da espécie, mas sou tão abençoado que quase chega a dar medo. Desculpe desapontá-la, mas me tenho uma disposição incrível. Adoro rir. Meu livro é cheio de piadinhas.
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2008/05/02/ult586u559.jhtm
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2008/05/02/ult586u559.jhtm
quarta-feira, 30 de abril de 2008
MATURANA e XIMENA - Pensamento sistêmico
Humberto Maturana propõe o fim dos líderes e o resgate dos relacionamentos humanos nas empresas
Por Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos
Por Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos
O chileno Humberto Maturana é médico e biólogo de formação. Sua compreensão da biologia humana levou a teorias que originaram o pensamento sistêmico, um dos fundamentos da moderna gestão empresarial. Junto com Ximena Dávila, fundou e dirige no Chile o Instituto Matriztico, no qual trabalham com organizações humanas - sejam famílias ou empresas - a partir do que chamam de Matriz Biológica da Existência Humana. Nessa matriz, entrelaçam-se a Biologia do Conhecer e a Biologia do Amar. Humberto Maturana e Ximena Dávila estiveram recentemente no Brasil participando de um seminário promovido pela Fundação Nacional de Qualidade. Nesta entrevista, em que fizeram questão de falar juntos por não admitir hierarquia entre a dupla, explicam suas propostas de resgate do ser humano, da sua capacidade de amar e de se relacionar, e de como isso refletiria de maneira positiva nas empresas. Além disso, vêem o nascimento de uma nova era em que os líderes serão dispensáveis.
Instituto Ethos: O que é o pensamento sistêmico e como ele se aplica na gestão das empresas?
Ximena: Primeiro, faço uma pergunta a você: o que você entende por responsabilidade social empresarial?
IE: O Instituto Ethos é um pólo de organização de conhecimento, troca de experiências e desenvolvimento de ferramentas que auxiliam as empresas a analisar suas práticas de gestão e aprofundar seus compromissos com a responsabilidade social empresarial. Para o Instituto Ethos, a RSE é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.
Ximena: No que você me disse, há o pensamento sistêmico-sistêmico. Não é uma empresa flutuando no ar, é uma empresa em um espaço que a faz possível, que a faz sustentável, que lhe dá energia - o que tem a ver com produtividade -, que faça sentido às pessoas. Isso vai fazer com que a empresa se mantenha assim. Porque se eu for vender trajes de banho na Antártida, vou me dar mal. Se tenho uma empresa produtiva, se vendo algo, esse algo é um serviço à comunidade. Mas nós não falamos em "empresas privadas". Dizemos que todas as empresas são "públicas", porque têm de fazer sentido ao espaço social à que pertencem. Então, quando falamos de "empresas privadas", falamos de algo que está fora do contexto da comunidade à qual pertence. E toda empresa pertence a uma comunidade, a comunidade é o que a faz possível. Você pergunta sobre o sistêmico. É o mesmo fundamento do que você nos disse, o olhar que você colocou foi o olhar sistêmico: são as empresas, as pessoas, o entorno, e a ecologia, ou seja, a biosfera. Isso implica ter consciência de um fluir sistêmico-sistêmico, que tem a ver com a dinâmica, com o acoplamento entre pessoas-empresa, empresa-comunidade, comunidade-biosfera.
IE: Vocês dizem que o pensamento sistêmico não é uma teoria. Por quê?
Ximena: O sistêmico não é um pensamento, uma teoria, é um modo de vida. Porque somos constitutivamente sistêmicos-sistêmicos. O que acontece é que nascemos como seres amorosos. Quando nascemos, como bebês, vimos com todas as anteninhas para viver acoplados em coerência com o mundo natural. Mas vivemos em uma cultura que nos encaixota, que nos coloca na "adolescência", na "hiperatividade", na "ambição", no "sucesso", que nos categoriza. Tudo o que significa modo de vida começa então a desvanecer, a desaparecer. O que estamos dizendo não é convidar a um "pensamento sistêmico-sistêmico" como uma novidade, mas talvez recuperar em nós o que é constitutivo do ser humano. É que somos seres sistêmicos. Por exemplo, você fala da sustentabilidade, e a sustentabilidade, para que permaneça no tempo, implica que haja esta colaboração, o estar bem, o estar conversando.
Maturana: Queria propor um exemplo absolutamente cotidiano sobre a dinâmica sistêmica humana. Imagine que estamos na sala de uma casa com a mãe, o pai, os filhos, uma empregada, um conjunto de pessoas. E há um aquário. Um belo dia, o peixe desaparece. O que se transforma? Se transforma tudo. As crianças começam a perguntar onde está o peixe, e se antes tinham de buscar comida para ele, agora já não precisam mais, já não têm peixe. E a casa está diferente, porque o aquário não está mais lá. Tiramos uma coisa que parece tão simples, o peixe do aquário, e se transforma toda a casa. Até onde isso chega? Até onde estão interconectadas essas pessoas no viver social. Essa é uma situação sistêmica. É isso que queremos dizer quando falamos que não é um pensamento, não é uma teoria, é um modo de vida, uma dinâmica relacional.
IE: E como isso se reflete nas empresas?
Ximena: Esse modo de nos relacionarmos faz com que uma organização crie bons produtos, faz com que as pessoas se mantenham mais tempo lá. Portanto, a empresa se sustenta mais no tempo. O que acontece com muitas empresas? Elas se transformam em universidade para as novas pessoas que chegam, que ficam um tempo ali e logo buscam outro lugar, porque esse lugar já não lhes proporciona o que elas desejam em crescimento, em motivação, em capacitação, o que for. E por que não ficam? Muitas vezes não ficam porque não têm o sentido de pertencer.
IE: Maturana, você diz que as empresas são comunidades humanas, espaço de colaboração e co-inspiração. O que significa isso? O que significam esses conceitos?
Maturana: Há várias maneiras de relacionar-se entre as pessoas. Algumas são de autoridade. Sou o chefe, os que me são subordinados me obedecem. Os subordinados estão subordinados aos desejos, às ordens, às aspirações dos chefes. O chefe diz "eu quero tal coisa", e isso é uma ordem. E o subordinado, sem questionar, faz. Essa é uma forma.
A outra forma é que várias pessoas se encontram em um lugar e se movem com independência umas das outras, o que um faz não afeta os outros. E outras formas são aquelas nas quais diferentes pessoas interagem entre si, não em uma relação de autoridade e subordinação, não em uma relação de completa separação, mas fazendo coisas juntos. Este fazer coisas juntos pode conservar-se no prazer de fazê-las juntos ou derivar à subordinação ou à dispersão.
Quando se conserva o prazer de fazer as coisas junto, se conversa. O que um diz não é uma exigência para os outros. É um convite, uma reflexão para gerar um fazer conjunto. Não se vive como isso uma ordem nem como indiferença, se vive como participação, um fazer de todos eles, no qual o que cada um faz é coerente com o que fazem os outros desde a autonomia, por meio da compreensão do que se está fazendo junto. Isso é o que queremos dizer quando falamos de colaboração.
Esse espaço acontece em uma conversação, em uma co-inspiração.
Por exemplo, aqui estamos juntos conversando, como resultado de uma co-inspiração. Em algum momento se sugere a necessidade de uma reunião, e isso se converge no fato de que estamos juntos e nos escutamos. Não há uma relação de autoridade, não estamos dispersos, mas estamos fazendo algo juntos que é uma entrevista, uma conversação, e tem um caráter que vai depender da natureza do que se faz. Mas, que está associado com o momento de estar aqui, de querer estar aqui, de fazer coisas que vão surgindo desta interação que não é de autoridade, e que não é de dispersão.
IE: Vocês fazem uma certa crítica à idéia da liderança, em oposição à idéia da gerência co-inspirativa, pois a liderança seria baseada em obediência a uma autoridade. Mas, tanto nas empresas como nas escolas de gestão, fala-se muito sobre a necessidade da formação de líderes. Como vocês vêem essa necessidade da formação de líderes? E como essa idéia da gerência co-inspirativa é recebida pelas empresas quando vocês a apresentam?
Ximena: As empresas que nos escutam são as empresas responsáveis, sérias e audazes. E a palavra é audaz, pois estamos convidando-as a uma mudança de era, passar da era da pós-modernidade à era da pós-pós-modernidade. A era da pós-modernidade é a era da denúncia, de dizer estamos mal, algo tem de mudar, temos as mudanças climáticas, estão morrendo espécies. Estamos como o discurso, mas estamos parados no mesmo lugar. Passar à era da pós-pós-modernidade é passar à era da ação, à possibilidade de que surja o Homo Sapiens-Amans eticus, cuja ética central é seu viver e conviver. Para esta mudança de era, estamos propondo o fim da era da liderança para entrar na era da colaboração e da co-inspiração. Quando falamos de liderança, estamos dizendo que há pessoas que vão guiar outros de alguma maneira. Acontece que no momento em que alguém guia, tudo nasce em sua mente. Mas, a palavra líder perdeu o sentido no mundo. Não é o líder, é o gerente a pessoa que tem mais responsabilidade, que co-inspira, que colabora. Você é gerente em uma empresa, e por ser gerente não é líder. Mas o que você faz na gerência co-inspirativa é convidar a inspirar-nos juntos, a colaborar em um projeto conjunto. Se eu sou o gerente co-inspirativo, para mim as pessoas são igualmente inteligentes, igualmente criativas, e as convido, inspiro, na direção desse projeto comum. Portanto, estamos convidando a uma mudança de era - passar da era da liderança para a era da colaboração e da co-inspiração em um projeto comum.
IE: Quem são esses tipos de Homo sapiens dos quais vocês falam?
Ximena: Há o Homo sapiens no sentido zoológico. Falamos em Homo Sapiens-Amans amans, Homo sapiens-Amans agressans e Homo Sapiens-Amans arrogans. Porque dizemos Homo sapien- Amans Amans? Porque nascemos como seres amorosos. Quando o chamamos de Agressans, ou uma pessoa que é agressiva numa relação, ela nasceu agressiva ou se transformou em agressiva pela cultura que viveu? Ela nasceu amorosa, como todos. E se transformou em um Homo sapiens-Amans agressans pelo modo de vida. E se transformou em um Homo Sapiens-Amans arrogans pelo modo de vida. Mas nasceu amoroso, da mesma maneira que nascem todos os seres humanos.
Maturana: Homo Sapien- Amans amans tem a ver com a origem do humano, com o conversar, com o que faz isso possível. No olhar zoológico, se fala do Homo sapiens, um ente zoológico. Estamos falando de um ente zoológico-psíquico, zoológico-relacional. É um animal que se constitui na história na conservação da linguagem e do conversar. E a emoção que faz com que seja possível que isso aconteça, na história evolutiva, é o prazer de estar junto, porque para que a linguagem surja, se requer permanecer na companhia dos outros.
(Instituto Ethos)
http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=2796 – Acesso 30/04/2008
(Instituto Ethos)
http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=2796 – Acesso 30/04/2008
segunda-feira, 28 de abril de 2008
ZUENIR VENTURA - Hoje não há geração, há tribo.
ZUENIR VENTURA - Entrevista
Em novo livro sobre 68, jornalista mostra a diferença entre as atitudes da juventude
Em novo livro sobre 68, jornalista mostra a diferença entre as atitudes da juventude
Rodrigo de Almeida
É do jornalista Zuenir Ventura uma das mais fascinantes reconstituições do que ocorreu no Brasil em 1968. Do desbunde às lutas políticas, das paixões libertárias aos dramas soturnos, dos relatos sublinhados pela história oficial aos detalhes daqueles personagens, nada escapou ao olhar arguto de Zuenir em 1968: o ano que não terminou, publicado em 1988. Vinte anos depois daquele livro, 40 anos depois do interminável 1968 e um tanto de experiência a mais, sem abdicar da inquietação jornalística juvenil, Zuenir retoma o tema e publica, pela editora Planeta, 1968: o que fizemos de nós. O título é preciso: mais do que uma reportagem sobre aquele ano revisto hoje, trata-se de um diálogo entre duas gerações. Passado e presente se unem e se confrontam nas diferenças não só dos jovens de ontem e de hoje, como também de jovens que se transformaram em senhores e senhoras.
JB -Um livro sobre 68 corre o risco de exibir um excesso de saudosismo em relação àquela geração e um excesso de crítica frente à atual. No seu livro, a crítica parece ser mútua. Muitos dos personagens ouvidos revelam certo desencanto sobre o que poderiam ter sido e o impacto daquelas idéias nos anos seguintes. Ao mesmo tempo, há uma análise dura sobre a perda das utopias, da esperança, da crença no futuro. Você compartilha desse desencanto?
VENTURA – Procurei ser eqüidistante exatamente por esse risco. Em geral, a visão sobre 68 e mesmo sobre hoje costuma ser muito maniqueísta. Há o risco da apologia e da negação. Em geral, os jovens sofrem o risco de serem rejeitados. Com 68 foi assim e com hoje também é. Há uma tendência a rejeitar o impacto de uma coisa nova. A diferença é que em 68 a resposta era muito agressiva. Dizia-se: "Não confie em ninguém com mais de 30 anos". Mas não acho que haja desencanto. Por natureza, não tenho olhar desencantado, mesmo em relação a hoje, que vivemos tempos difíceis. Costumo dizer que é tão fácil ser pessimista que sou otimista. Há, nas duas gerações, coisas interessantes e coisas críticas. Como Narciso, achamos feio o que não é espelho. Mas o depoimento do psicanalista João Batista Ferreira e a conversa que tive com muitos jovens me ajudaram a ter um olhar mais generoso.
JB - Se era para não confiar em ninguém com mais de 30 anos, hoje esses personagens não são confiáveis...
VENTURA – Quarenta anos pesam em qualquer história, em qualquer biografia. Eu me surpreendi ao entrevistar as três meninas (Maria Lúcia Dahl, Maria Clara Mariani e Marília Carneiro). Todas pareciam revolucionárias e hoje são avós! Quarenta anos deixam você mais conservador. O estranhamento com o mundo das novidades é muito grande. Quando vou a uma festa rave não escondo minha perplexidade diante das coisas que não estou preparado para perceber em termos de comportamento. Não quero bancar o jovem. Por sabedoria, temos de procurar entendê-lo, e não o contrário.
JB - Que mudanças você identifica entre a geração de 68 e a de hoje?
VENTURA – Os jovens de hoje são mais individualistas. O mundo mudou muito, até o conceito de geração mudou. Hoje não há geração, há tribo. Os jovens integram a fragmentação do mundo e, por isso, são voltados para seus interesses, seus desejos. Não têm nenhum apego ideológico, não há interesse na política. Falo isso sem juízo de valor. Mas não é do projeto deles. Aliás, não têm projeto, como havia um em 68. Dizia-se: "Quero um mundo novo". Numa festa rave você se depara com a busca agônica do paroxismo, de vertigem, de êxtase. Ou do ecstasy. Tudo isso é muito diferente em relação àquela geração de 68. O fato é que hoje não há muita razão para ter um projeto, uma vez que se vive num mundo muito inseguro. Como pensar no futuro se não se sabe nem se o planeta terá futuro? Além do desapego e de um amor ao acaso provisório, os jovens de hoje não olham mais para o passado com a nostalgia do não vivido. Não há saudosismo, o que é positivo.
JB - Você cita o filósofo Francisco Ortega, para quem as utopias corporais substituíram as sociais. Ou seja, lida-se com o corpo, mas sem a transgressão?
VENTURA – Exatamente. Aquele momento foi o início do hedonismo, da preocupação de se voltar para o corpo. Mas era tudo muito incipiente. Hoje radicalizou. O tabu saiu da cama e foi para a mesa. Há aquilo que eu chamo no livro de degeneração, que é a pior herança: as drogas. Havia em 68 uma utopia ingênua, em que as drogas permitiriam uma abertura de consciência. Quarenta anos depois sabemos que não é bem assim. A verdade é que a droga não tem a menor graça. Ou melhor, graça tem, porque é prazer e esse é o grande perigo. Por isso é tão difícil lidar com ela. O combate é o mais desastrado possível. É o combate pela polícia, pela criminalização do usuário. Essa é a mesma política de 68. É a herança maldita.
JB - Você ressalta a existência hoje de um "inventário negativo". Por que a tentativa de mostrar que aquele ano definitivamente acabou?
VENTURA – A presença desse inventário negativo é muito forte e não só aqui. Aliás, mais do que no Brasil isso ocorre na França. Primeiro o ex-agitador Daniel Cohn-Bendit é acusado de pedofilia. Depois vem o presidente francês Nicolas Sarcozy dizendo que 68 tem de acabar. A campanha se radicalizou. Depois da indulgência plenária desses anos todos, parece ter chegado a hora da desforra: "Vamos acabar com 68". Temos hoje um olhar sobre 68 tão maniqueísta quanto tínhamos em 68. Temos a tendência de culpar 68 por tudo de ruim: a permissividade, a descrença nos valores, a anomia... E esse olhar é tão errado quanto naquela época, quando se achava que se estava do lado do bem e todo o resto era do mal. Varrer 68 do mapa não é a melhor maneira de rever tudo. A ditadura militar sempre tentou enterrar 68. Mas ocorreu o fenômeno que a psicanálise explica muito bem: o retorno do recalcado. É um mistério como 68 sobrevive no imaginário das pessoas.
JB - No livro, o sociólogo César Benjamim diz: "Se continuamos interessados em 1968 é porque o que então ocorreu ainda nos tem a dizer sobre o futuro".
VENTURA – Está certíssimo. Como ele diz, 68 ainda tem muito que dizer. Avançou-se muito, sobretudo em comportamento. Talvez tenha ido longe demais, e é difícil digerir todas aquelas novidades, invenções, descobertas. Leva tempo. Como receber essa herança é a grande questão. No primeiro livro sobre 68, usei como epígrafe uma frase do Mário de Andrade, sobre a geração dele: "Não devemos servir de exemplo a ninguém. Mas podemos servir de lição". Portanto, há muitas lições. Uma delas é em relação ao voluntarismo. "Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". Não é bem assim. Outra lição é que a democracia é um valor universal.
JB - Você ou os personagens falam do desapego das ideologias, do esvaziamento da ação política. Mas esse esvaziamento ocorre justamente quando vemos, no poder, egressos daquela geração.
VENTURA – É verdade, é um paradoxo. Temos 68 no poder. O Fernando Henrique reivindica para o governo dele certos princípios de 68. Olha-se para o governo Lula e se vê que, em volta dele, há muitos personagens de 68. Se 68 não chegou à Presidência da República, pode-se dizer que chegou ao poder. Aliás, o conceito de geração ali não era por idade, mas por afinidade. Havia várias gerações. Alceu Amoroso Lima, Sobral Pinto, Hélio Pellegrino, todos eram geração 68. Isso é curioso porque revela que 68 é mais plural do que pensamos. Não foi uma geração de esquerda. Essa impressão se deve pelo fato de o PT ter sido o partido que mais condensou os princípios de 68, como a paixão pela coisa pública e ética. Achávamos que o PT era o partido de 68. Nunca fui vinculado a nenhum partido, nem em 68. Mas a minha simpatia pelo PT era pela ética. Mas de uns tempos para cá os escândalos sempre têm alguém do PT. Essa transição para o poder foi chocante.
JB - Você falou do abalo da dimensão ética, mas há também o questionamento das utopias.
VENTURA – Diz-se que a utopia acabou. O fato é que a utopia social caiu em si. Sabemos que não se pode fazer a transformação daquele jeito que imaginávamos em 68. Não pela via da revolução. Mas não acho que o sonho tenha acabado. Se perdermos a capacidade de sonhar, aquele sonho que o Freud associa a desejo, estamos perdidos. Acaba nossa razão de ser. De que maneira sonhar? Com a mudança, com o desejo de melhoria de sua vida, de sua cidade, de seu país. Isso é inseparável da história do homem. Há uma corrente pós-moderna do ceticismo, do cinismo, segundo a qual a utopia, a esperança e a solidariedade seriam sentimentos decadentes. Acho que não. São valores permanentes.
JB - Você só aparece em um ou outro episódio ou no subtexto. Por quê?
VENTURA – Minha participação em 68 foi de testemunha, de repórter. Nós, jornalistas, somos testemunhas do nosso tempo. Então, muito mais interessante do que eu falar seria dar voz aos outros. Eu não tive importância. Se tive um papel, foi de testemunha. (Jornal do Brasil, on line, 26 de abril de 2008)
http://jbonline.terra.com.br/editorias/ideias/papel/2008/04/26/ideias20080426002.html
EDGAR MORIN - Fragmentos de uma entrevista
FOLHA - Mas o mal-estar que causou Maio de 68 permanece...
MORIN - Não só permanece, como agravou-se. Onde há vida urbana e desenvolvimento, há estresse e ritmos de trabalho desumanos. A poluição causa males terríveis, e nossa civilização é incapaz de impedir a criação de ilhas de miséria. Mas o que piorou mesmo foi o fato de termos perdido a fé no progresso. O mundo ocidental dava como certa a idéia de que o amanhã seria radioso. Mas, nos anos 90, percebeu-se que a ciência trazia também coisas como armas de destruição em massa e que a economia estava desregulada, enterrando de vez a promessa de que as crises haviam deixado de existir. O sentimento de precariedade é agravado pelo fato de os pais não saberem se seus filhos terão um emprego. Tampouco há esperança vinda da esfera política. Os políticos hoje se contentam em pegar carona no crescimento econômico. Não bastasse a ilusão de que esse crescimento da economia resolveria os problemas, eis que agora impera a estagnação. O mal-estar está mais profundo, inclusive nas classes que têm acesso ao consumo. E quando não há mais futuro, a gente se agarra a um presente desprovido de sentido ou ao passado -nação e religião.
FOLHA - O senhor acredita no choque das civilizações?
MORIN - Parece cada vez mais grave a confrontação entre os mundos árabe-islâmico e ocidental. Mas isso não é um choque de civilizações, até porque boa parte do mundo muçulmano está amplamente ocidentalizada. O problema é que os países árabe-islâmicos estão tomados por um desespero ligado ao fracasso da democracia e do socialismo naquela região e à imensa corrupção trazida pelo capitalismo. Diante disso, parte da população torna-se ultra-religiosa e pensa que a salvação está numa interpretação integrista da sharia, a lei islâmica. O choque das civilizações é uma profecia que se auto-realiza. Acreditar nela é estimulá-la. Além disso, islã, cristianismo e judaísmo têm um tronco comum. São fés monoteístas muito parecidas. Por isso me tranqüiliza saber que grandes civilizações como a China e a Índia tiveram a felicidade de escapar disso. Muitos males advêm dos monoteísmos. Olhe o que acontece com a questão israelo-palestina. Nos dois lados impera cada vez mais a visão religiosa de um problema fundamentalmente nacionalista. Repare na força dos evangélicos nos EUA, berço da sociedade mais materialista do mundo e onde a teoria do criacionismo não pára de se espalhar. Tudo isso é uma grande regressão. Não acredito no choque das civilizações, acredito na volta da barbárie em suas mais diversas formas.
FOLHA - Uma das maiores mudanças mundiais das últimas décadas, a internet, na sua opinião, afastou ou aproximou as pessoas?
MORIN - Se considerarmos o fato de a internet ser um instrumento polivalente, que serve até aos interesses do crime, acho que a rede aproxima as pessoas. A internet tornou-se um sistema nervoso artificial que tomou conta do planeta. É algo que ajuda muito na hora de desenvolver afinidades, encontrar amigos, amores ou parceiros de hobby. A internet é um fato universal importantíssimo. Mas os sistemas de comunicação não criam compreensão. A comunicação apenas transmite informação. É preciso estimular o surgimento de uma consciência planetária. Se a internet não desenvolver a idéia da comunidade de destinos da humanidade, terá apenas uma função limitada e parcelar.
FOLHA - Que papel restou para o intelectual hoje?
MORIN - O intelectual é alguém que toma a palavra em público para levantar problemas fundamentais. Infelizmente, os intelectuais foram levianos quando se tornaram stalinistas ou maoístas. Eles enganaram as pessoas.Por outro lado, é ruim quando nos deparamos com um mundo entregue a peritos, especialistas e economistas, que são incapazes de enxergar a abrangência dos problemas essenciais e globais.Intelectuais são necessários, mesmo quando eles se enganam. Quanto mais o mundo acha que não precisa deles, mais eles fazem falta (risos).
(Entrevista concedida ao jornalista SAMY ADGHIRNI viajou a convite do evento Fronteiras do Pensamento- Folha de São Paulo, on line, 28 de abril de 2008)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2804200813.htm
domingo, 27 de abril de 2008
UMA ESQUERDA À PROCURA DE SEU ESQUERDISMO
Teologia da Libertação é a referência ideológica e política que aproxima muitos dos governos latino-americanos
José de Souza Martins*
As esquerdas latino-americanas estão à procura do seu esquerdismo. Monsenhor Fernando Lugo, eleito presidente do Paraguai, já explicou que não é de esquerda. O próprio Lula volta e meia explica que também ele não é de esquerda. Multidões de latino-americanos foram induzidas a votar em candidatos de esquerda que não são de esquerda. São de quê? Estamos em face da emergência política de populações residuais da história que se expressam através de rótulos políticos divorciados de sua realidade e de suas possibilidades históricas e sociais. São egressas recentes da prisão de interdições levantadas pelas potências na Guerra Fria, seja o policialismo da CIA e do Departamento de Estado, seja o colonialismo ideológico do Partido Comunista da União Soviética.
Essas populações residuais, literalmente, juntaram os cacos da história de seus países para, com eles, construir alternativas e metas políticas e achar um rumo para suas carências sociais e sua orfandade. Diferente do que é próprio da verdadeira esquerda, a referência social desse nascimento político não é a classe social e menos ainda a classe operária.
Nesses e em outros casos latino-americanos, foi fundamental a participação de setores da Igreja Católica e de algumas igrejas protestantes, inspirados na Teologia da Libertação, apoiados nas comunidades eclesiais de base que por aqui vieram a ser a forma popular de organização da Igreja. Aí está a referência propriamente ideológica e política que, se não unifica a “nova esquerda” latino-americana, ao menos aproxima os protagonistas das mudanças, apesar de suas enormes e dificilmente conciliáveis diferenças.
Nessa perspectiva, a eleição do “ex-bispo” Fernando Lugo, no Paraguai, parece completar um ciclo que se iniciou em 1979, na Nicarágua, com a tomada do poder pelos sandinistas, no início muito apoiados pelos católicos de todos os cantos, em boa parte graças à presença do padre Ernesto Cardenal no governo. Mas as enormes contradições desses híbridos grupos políticos no poder logo anunciaram a relativa brevidade dessas revoluções tópicas. No caso da Nicarágua, já em 1981, com a violenta intervenção militar dos americanos, através dos contra-revolucionários, e o crescente descontentamento popular com a adoção do modelo econômico cubano, o país foi lançado no olho das turbulências da Guerra Fria. O fôlego do sandinismo foi curto.
A eleição de Lugo levanta a questão de como reagirá a Igreja diante de mais essa participação de religiosos no poder e tudo que isso representa, dado que, embora afastado, ele ainda é bispo. O Vaticano não tem como aceitar a militância política direta da fração partidária da Igreja que, ao se dizer marxista e cristã, introduz o desafio da premissa ideológica da luta de classes na religião. E, portanto, o implícito questionamento de sua catolicidade. Mesmo que Lugo diga que não é de esquerda.
Se Marx não está presente nesse cenário, a não ser nominalmente, há um setor da Igreja Católica que está. Pode-se encontrar os mesmos religiosos entrevistando Fidel Castro ou com ele passando férias, assessorando Lula e com ele convivendo no próprio corredor do Palácio do Planalto ou sendo lidos por Monsenhor Lugo e com ele, ostensivamente, indo à missa numa igreja de Assunção no dia da eleição. Mesmo quando se trata de um Chávez tão hostil à Igreja ou de um Evo Morales chavista, organizações como o MST fazem a sua ponte com os setores da Igreja que assumiram funções ideológicas na falta de idéias que supram as necessidades históricas de afirmação política dos recém-chegados.
As figuras de destaque da nova realidade política latino-americana são discrepantes em relação às do modelo convencional de política e à política de imitação que herdamos da Europa para implantar aqui o Estado moderno. Seu esquerdismo decorre da falta de melhor rotulação. São, porém, num certo sentido, figuras mais autênticas na representação política de parcelas significativas de populações dos respectivos países. Resta saber se a autenticidade está só nos retardatários da história que politicamente representam ou se está também na possibilidade de recriar o Estado democrático e pluralista em que tenha representação a nossa peculiar diversidade social.
Se as elites latino-americanas fracassaram em inventar um modelo político, a “nova esquerda” já fracassou na origem porque não dispõe de doutrina nem de teoria que lhe permita apoiar-se num pensamento politicamente inovador e universal. Tem apenas uma teologia. O fracasso vai do petismo no Brasil ao zapatismo no México, passando pelo bolivarismo venezuelano e as diversas variantes desses slogans em outros países do subcontinente. Em todas as partes, a “nova esquerda” não é expressão de maciça opção popular. O governo de Lula tem sido viável unicamente por meio de incondicional aliança com o que há de pior na direita. No caso de Lugo, só poderá governar em aliança com uma das crônicas facções da direita paraguaia. Estamos em face de um cenário de fracasso das formas clássicas de representação política, como expressaram dez ex-presidentes de países latino-americanos, de origem social-democrata e democrata-cristã, em seminário realizado em São Paulo, há alguns meses. Mas também diante do fracasso da “nova esquerda”, incapaz de inovar de conformidade com as possibilidades da massa informe que a sustenta, unida por vago nacionalismo e vaga religião.
A humanidade confinada nos grupos sociais marginalizados do processo político dos diferentes países, desde a respectiva independência, está emergindo como ator político, cuja cara não é reconhecível no espelho da concepção de política que herdamos da Revolução Inglesa e da Revolução Francesa. Nossos países foram constituídos historicamente no embate entre a civilização e a barbárie. Os representantes do que era preconceituosamente definido como a barbárie estão agora no poder. Como os barbarizamos, já não sabemos como tratar com eles nem o que deles esperar. Nem eles.
*José de Souza Martins, professor de Sociologia da Faculdade de Filosofia da USP, é autor de A Sociabilidade do Homem Simples (2ª edição revista e ampliada, Contexto, 2008) e A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34, 2008)
http://www.estado.com.br/suplementos/ali/2008/04/27/ali-1.93.19.20080427.9.1.xml
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RUBEM ALVES - Sobre vírus e demônios
Sabendo que em tempos passados pratiquei a feitiçaria chamada psicanálise, você me pediu um diagnóstico sobre uma perturbação que o possui de tempos em tempos. Li a descrição dos seus sintomas com a maior atenção. Você é uma pessoa educada, madura, generosa, respeitada. Mas, repentinamente, como que atingido por uma descarga elétrica, você passa por uma metamorfose.
Sua descrição da metamorfose me fez lembrar daquele personagem de um seriado, o Hulk. Normalmente, homem simpático e franzino, de repente, quando provocado, ele se transformava num outro, totalmente diferente. Ninguém diria que se tratava da mesma pessoa. Os olhos ficavam estranhos, vidrados, o corpo inchava com músculos descomunais, a pele ficava verde, as roupas rasgavam e ele ficava possuído por uma força e fúria incontroláveis. Ainda bem que não é isso que acontece com você pois, se acontecesse, sua despesa com os alfaiates seria enorme...
Tudo acontece repentinamente. O conselho de contar até 10 não serve para nada. Antes de começar a contagem você já está possuído. Tudo em você fica diferente e os outros o olham com espanto. Mas o outro-você nem liga. Não há palavra que o segure. Como se fosse uma ejaculação de fúria. Aí, passado o surto, o outro-você deixa a cena. Some. E o você-você volta para o corpo, coberto de vergonha. É hora de tentar consertar os estragos.
Você sabe pedir desculpas. Isso é uma virtude. Mas você sabe que há coisas que não podem ser consertadas. Pode ser que a pessoa magoada pelo Hulk o desculpe, mas é impossível que ela se esqueça do que viu. Ela viu o você-outro, de que ninguém gosta. Nem mesmo você. O seu horror é triplo. Primeiro, o horror por aquilo que o outro-você fez. Você feriu uma pessoa que você ama. Segundo, o horror de que os outros o tenham visto daquele jeito monstruoso. Você deve conhecer um brinquedinho, não sei o nome em português. Em inglês é “Jack-in-the-box”. É um cubo de metal com uma manivela. O cubo metálico é bonitinho, suas faces pintadas com imagens engraçadas. Aí, a gente vai rodando a manivela e, de repente, a tampa se abre e de dentro do cubo salta uma cabeça estranha que dá um susto. Vendo o cubo fechado ninguém suspeitaria da cabeça estranha que está dentro dele. Pois você é parecido com o “Jack-in-the-box”. Todo mundo fica com medo de rodar a manivela. Terceiro, o horror de que exista um outro-você que está além do seu controle racional. Se conselhos racionais valessem alguma coisa eu lhe daria vários e até poderia escrever um livro de auto-ajuda sobre o assunto: respire fundo, conte até dez, recite um mantra, invoque seu anjo da guarda... Sim, sim, onde estava o seu anjo da guarda? Acho que os anjos da guarda ou estão muito distraídos ou são fracos demais diante do seu Hulk.
Baseado nos meus conhecimentos híbridos de psicanálise e magia meu diagnóstico está pronto: você sofre de uma possessão demoníaca.
Imagino seu sorriso de incredulidade ao ler isto. “Como é possível que um homem como o Rubem Alves ainda acredite em demônios? Demônios são fantasias do imaginário religioso...”
De fato: os demônios são fantasias do imaginário religioso. As religiões os pintaram como seres repulsivos e feios, com cara de bode, chifres na cabeça, peludos, rabo, masculinos, de genitais em forquilha, e especialistas em soltar ventilações sulfúricas mal-cheirosas por suas ventas e partes inferiores. Invisíveis, vagam pelos espaços à procura de casas onde morar. Casas? Os corpos dos homens. Escolhida a vítima eles se aproximam, e por meio de seduções tentam entrar na casa. Se o dono da casa não abre, eles lançam mão da força. Arrombam a porta. Uma vez dentro da casa eles expulsam o seu dono e tomam conta de tudo. Você já deve ter ouvido falar de alguém: “Ele ficou fora de si”. Se ele ficou fora de si, quem é que ficou dentro de si? Só pode ser um outro que não ele. Então, naquele momento, o seu corpo não é posse sua. Está sob o controle de um outro que faz coisas que ele jamais faria.
Nos tribunais se usa falar em “privação dos sentidos” para se referir a uma pessoa que não é responsável por aquilo que fez. Se cometi um crime com “privação dos sentidos” eu não o cometi. Eu não era dono de mim mesmo. Então, eu não sou criminoso. Não posso ser condenado. Pois eu, quando estou na posse dos meus sentidos, sou uma pessoa boa e mansa que jamais praticaria um ato violento.
A vantagem da explicação religiosa é que ela absolve a pessoa possuída dos atos que ela pratica. Não foi ela. Foi ele, o demônio. A bela imagem da pessoa fica preservada.
Não descarte os demônios com o seu sorriso zombeteiro. Pode ser que o nome e as imagens não sirvam mais. Mas a “coisa” continua a existir com outros nomes. É como um “vírus” num computador. Ele entra sem permissão e faz a maior confusão... Pois assim são os demônios... Vírus, demônios, dois nomes diferentes para a mesma coisa. Com uma diferença: é mais fácil se livrar dos vírus que se livrar dos demônios.
Rubem Alves é escritor, teólogo e educador ( in Jornal on line Correio Popular/Campinas, SP, 27/04/2008)
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