sábado, 8 de novembro de 2008

MOACYR SCLIAR - QUEIXAS DE MÉDICOS

Recebi, via internet (esta verdadeira caixa de ressonância da nossa cultura), um curioso texto intitulado “Como enlouquecer um médico em 12 lições”. Contém coisas do tipo: “Comece a consulta reclamando da demora, mesmo que tenha sido atendido rapidamente. Depois, diga ao médico que ele é o 13º que você procura e que você só quer mais uma opinião, pois não confia muito em médico. Diga também aquela frase clássica: ‘Cada médico fala uma coisa’”. E: “Nunca responda diretamente às perguntas. Caso ele pergunte se você teve febre, diga que teve tosse. Conte tudo detalhadamente, começando, se possível, desde quando você ainda era criança”. Ou ainda: “Leve sempre três crianças com você (nem precisam ser seus filhos), especialmente aquelas que mexem em tudo, sobem nos móveis, ficam fazendo perguntas no meio da consulta. Combine previamente com uma delas para quebrar o termômetro do médico”.
Querem mais? “Quando o médico estiver se despedindo de você, na sala de espera, diga bem alto, para outros ouvirem também: ‘Vamos ver se agora o senhor acerta!’” E, ao voltar: “Inicie com: ‘Estou pior do que antes’. Aproveite para incluir, no relato, novas queixas. Diga que você passou por um farmacêutico, muito antigo e muito conceituado no bairro onde sua tia mora, e ele resolveu trocar os remédios”. Uma alternativa para o consultório: “Descubra onde seu médico dá plantão à noite, e só passe a procurá-lo lá. Dê preferência a hospitais públicos, onde ele não ganha por ficha de paciente”. O coroamento: “Diga que não concorda nem com o diagnóstico nem com os medicamentos que ele está indicando. E que você tem a sorte de ter um farmacêutico amigo”.
O texto, como muitos outros que circulam na rede, é anônimo. Mas certamente foi escrito por um médico ou por alguém que está muito familiarizado com a prática médica, porque se refere a situações reais, a problemas que provavelmente incomodam muitos profissionais. Mas a maneira como isto é feito preocupa. Porque sugere uma situação de latente hostilidade entre médicos e pacientes. E isto, numa situação em que todos os esforços devem convergir para um objetivo comum, é, para dizer o mínimo, preocupante.
O médico sabe como deve atender o paciente. Pelo menos é treinado para isso nas escolas de medicina. Pergunta: deveria ser o paciente também “treinado” para consultar o médico? Indagação mais que pertinente: com as pessoas cada vez mais informadas (inclusive pela internet), não são poucos aqueles que vão ao consultório já com dúvidas e perguntas, às vezes escritas num pedaço de papel (era o famoso “malade au petit morceau de papier” dos clínicos franceses). Mas, a julgar pelo texto, providências, quando tomadas, mais atrapalham que ajudam. Que fazer, então?
***
Nenhum paciente precisa receber um curso sobre como consultar o médico. Mas seria muito útil se o paciente soubesse aquilo que o médico espera dele para ajudar no diagnóstico e no tratamento. Quem pode transmitir estas informações ao paciente? Só o próprio médico. Não se trata de estabelecer regras, não se trata de 12 lições; trata-se apenas de informar, com franqueza, precisão e sobretudo afeto, aquilo que ajuda e aquilo que atrapalha. E aí certamente textos anônimos sobre o assunto não precisarão estar circulando por aí.
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2285335.xml&template=3916.dwt&edition=11053&section=1028 - 08/11/2008

1. Comece a consulta reclamando da demora, mesmo que tenha sido atendido rapidamente. Depois, diga ao médico que ele é o décimo - terceiro que você procura pelo mesmo motivo, e que você só quer mais uma opinião, pois não confia muito em médico. Diga também aquela frase clássica:'Cada médico fala uma coisa'.
2. Nunca responda diretamente às perguntas.Caso ele pergunte se você teve febre, diga que teve tosse. Conte tudo detalhadamente, começando,se possível, desde quando você ainda era criança...
3. Leve sempre 3 crianças com você (nem precisa ser seus filhos), especialmente aquelas que mexem em tudo, sobem nos móveis ficam fazendo perguntas no meio da consulta etc Combine, previamente, com uma delas, para quebrar o termômetro do médico.
4. Peça receita de um medicamento controlado. Diga que não é para você,mas para uma vizinha muito amiga sua. Não esqueça de dizer que ela toma esses rémedios há anos e que não fica sem eles, e que você quer retribuir um favor dela.
5. Quando o médico perguntar que rémedio você está tomando, diga que não se lembra do nome, mas 'que é um comprimido branco' e que você está pensando em parar porque não está funcionando e está 'atacando o estômago' como, aliás, todos os comprimidos que você toma. Aproveite para pedir uma 'injeção'.
6. Quando o médico estiver se despedindo de você, na sala de espera, diga bem alto, para os outros ouvirem também: 'vamos ver se agora o senhor acerta!'
7. No retorno da consulta, inicie com: 'Estou pior que antes'. Aproveite para incluir, no relato, novas queixas. Diga que você passou por um farmacêutico, muito antigo e muito conceituado no bairro que sua tia mora, e ele resolveu trocar os remédios.
8. Insista para que o médico tente descobrir a causa daquela cólica que você teve há seis meses, e que desapareceu misteriosamente. Insista em contar os sintomas com riqueza de detalhes.
9. Traga os exames solicitados por médicos de outras especialidades. Se ele for clínico geral, consiga um eletroencefalograma para ele dar laudo. Pergunte se ele faria o favor de ver a mamografia da sua vizinha (outra).
10. Descubra onde seu médico dá plantão à noite, e só passe a procurá-lo lá. Dê preferência a hospitais públicos, onde ele não ganha por ficha de paciente.
11. No final da consulta, pergunte se ele não faria o favor de dar um atestado, pois você não 'teve condições de trabalhar hoje' ou então,diga que você tinha que resolver uns probleminhas e não deu para ir trabalhar.
12. Finalmente.. Vá ao hospital, às 3:15 da madrugada, e comece a consulta dizendo que tem umas dores há + ou - 6 meses, e que agora nem tá doendo tanto, mas como essa hora não tem fila no hospital, resolveu dar uma passadinha!!!

SEJA UM IDIOTA

A idiotice é vital para a felicidade.

Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz!
A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota!


Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.


Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice.


Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto. Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça? hahahahahahahahaha!...


Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?


É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar? Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.


Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... A realidade já é dura; piora se for densa. Dura, densa, e bem ruim.


Brincar é legal. Entendeu? Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva. Pule corda!


Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte. Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável. Teste a teoria. Uma semaninha, para começar. Veja e sinta as coisas como se elas fossem os que realmente são: passageiras.


Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir... Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!


Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora? "A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios". "Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche" Sejam felizes, só isso!!!

Autor desconhecido.

OS ESPELHOS DE GALEANO

O escritor uruguaio Eduardo Galeano lança seu novo livro, Espelhos _ uma história quase universal, em sessão de autógrafos dia 13, às 20h30min, no centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Andradas, 1.223), em Porto Alegre. Espelhos (L&PM, 360 páginas, R$ 42 _ ou R$ 33,40 com o desconto, na Feira do Livro) reúne 600 crônicas baseadas em relatos bíblicos e em fatos históricos. Apresentam a versão de Galeano para episódios que, segundo ele, muitas
vezes ficam escondidos no lixão da história.

Abaixo, trechos do novo livro do autor de As veias abertas da América Latina:

Aleijadinho
O homem mais feio do Brasil cria a mais alta beleza da arte colonial americana.
O Aleijadinho talha em pedra a glória e a agonia de Ouro Preto, a Potosí do ouro. Filho de uma escrava africana, esse mulato tem escravos que o movem,
o lavam, lhe dão de comer e atam os cinzéis aos seus cotocos de braço.
Atacado pela lepra, ou sífilis, ou quem sabe o quê, o Aleijadinho perdeu um olho e os dentes e os dedos, mas esse resto dele talha pedras com as mãos
que faltam.
Noite e dia trabalha, como vingando-se, e brilham mais que o ouro seus cristos, suas virgens, seus santos, seus profetas, enquanto a fonte do ouro é
cada vez mais avara em fortunas e mais pródiga em desventura e revoltas.
Ouro Preto e a região inteira querem dar razão à antecipada sentença do conde de Assumar, que foi seu governador:
Parece que a terra exala tumultos e a água, motins; as nuvens vomitam insolências e os astros, desordens; o clima é tumba de paz e berço de rebeliões.

Pedagogia do sangue
Enquanto os Estados Unidos e o Japão levavam adiante suas independências, outro país, o Paraguai, foi aniquilado por fazer exatamente a mesma
coisa.
O Paraguai era o único país latino-americano que se negava a comprar salva-vidas de chumbo dos mercadores e banqueiros ingleses. Seus três vizinhos,
Argentina, Brasil e Uruguai, tiveram que dar ao Paraguai, a sangue e fogo, um curso sobre os usos e os costumes das nações civilizadas, conforme
explicou o jornal inglês Standard, que era publicado em Buenos Aires.
Todos acabaram mal.
Os alunos, exterminados.
Os professores, falidos.
Tinham anunciado que em três meses o Paraguai levaria sua merecida lição, mas as aulas duraram cinco anos.
Os bancos britânicos financiaram essa missão pedagógica e cobraram caro por ela. Os países vencedores acabaram devendo o dobro do que deviam
cinco anos antes, e o país vencido, que não devia um centavo a ninguém, foi obrigado a inaugurar sua dívida externa: o Paraguai recebeu um crédito
de um milhão de libras esterlinas. O empréstimo foi feito para pagar a indenização aos países vencedores. O país assassinado pagava aos países assassinos
pelo muito que lhes havia custado assassiná-lo.
Do Paraguai desapareceram as tarifas alfandegárias que protegiam a indústria nacional; desapareceram as empresas do Estado, as terras públicas,
os fornos siderúrgicos, a ferrovia que tinha sido uma das primeiras da América do Sul; desapareceu o arquivo nacional, queimado com todos os seus
três séculos de história;
e desapareceram os homens.
O presidente argentino, Domingos Faustino Sarmiento, educado educador, comprou em 1870:
— Acabou-se a guerra. Não sobra mais nenhum paraguaio com mais de dez anos.
E celebrou:
— Era preciso purgar a terra de toda essa excrescência humana.

Ao vivo e em cores
O Brasil inteiro assiste.
Um espetáculo em tempo real.
A televisão não perde detalhe do momento em que o criminoso, negro como tinha de ser, transforma em reféns os passageiros de um ônibus no Rio
de Janeiro, certa manhã do ano de 2000.
Os espelhos de Galeano
Os jornalistas vão contando o que acontece como se fosse uma mistura de futebol e de guerra, a emoção explode-corações de uma final de Copa do
Mundo narrada no tom épico-trágico do desembarque da Normandia.
A polícia cercou o ônibus.
No tiroteio, morre uma moça. O público vocifera maldições contra a fera selvagem que não vacila em sacrificar inocentes vidas humanas.
No final, depois de quatro horas de muitos gritos e muita ópera, uma figura da ordem derruba o perigo público. Os policiais exibem seu troféu, o
criminoso, diante das câmaras.
Todos querem linchá-lo, os milhares que estão ali e os milhões que não estão mas vêem.
Os policiais o agarram.
Entra vivo no carro da patrulha. Sai estrangulado.
Em sua breve passagem pelo mundo, chamou-se Sandro do Nascimento. Ele era uma das muitas crianças de rua que dormiam nas escadarias da
igreja da Candelária, numa noite de 1993, quando choveu metralha. Oito morreram.
Dos que sobreviveram, quase todos foram mortos pouco depois. Sandro teve sorte, mas era um morto em gozo de licença provisória.
Sete anos depois, cumpre a sentença.
Ele sempre sonhou em ser estrela da televisão.
(Zero Hora, Cad. Cultura - Porto Alegre, RS - Sábado, 08/11/2008)

LEANDRO KONDER - O comunista

A crise do capitalismo é providencial.

Filósofo lança livro de memórias em que reafirma a sua condição de comunista

Rodrigo de Almeida

O filósofo Leandro Konder se diz um sobrevivente: comunista do século 20, tenta, neste início de século 21, reinterpretar os juízos e propostas formulados por Karl Marx no século 19. O professor já se deu essa missão há alguns anos. Agora, lança um livro no qual não só revisa o comunismo como a própria condição de comunista. Chama-se Memórias de um intelectual comunista (Civilização Brasileira, 264 páginas, R$ 39) a obra que chega agora às livrarias.
Nela, Konder ­ um dos mais respeitados intelectuais do país ­ repassa histórias de sua vida: das lembranças de um garoto "programado para progredir" ao presente de saúde frágil (o Mal de Parkinson o obrigou a abandonar atividades políticas e acadêmicas). A leveza de estilo e a franqueza da autocrítica estão lá ­ e se espelham na entrevista a seguir.

Estamos numa crise grave. O que comunistas têm a dizer? ­
Vejo de fora, pois quase não tenho atividade política por razões de saúde. Está faltando um embasamento teórico mais desenvolvido das forças da esquerda. Essa crise do capitalismo foi providencial, porque veio lembrar que o capitalismo também tem seus colapsos. Marx dizia: cada crise é diferente da anterior. Têm em comum o fato de serem crises. Temos de estar preparados para aproveitar essas crises. O que vamos fazer para superá-la, não sei. Cada crise tem seu ineditismo. Não estamos preparados para responder a ela. Nós, comunistas, nos espantamos tanto quanto a burguesia.

A começar do título, a questão do intelectual permeia todo o livro. O senhor escreve: "Posso reconhecer minha condição de intelectual sem cometer a tolice de me envaidecer com ela". Por que a preocupação?
­ A crítica só se aprofunda mesmo quando acompanhada da autocrítica. E a autocrítica não é aquela encenação dos partidos comunistas. Os comunistas faziam a autocrítica em nome de vantagens imediatas, e acho que a autocrítica é algo mais sério. Envolve tanto uma crítica das circunstâncias presentes como o exame crítico daquilo que você vem fazendo. E o que você vem fazendo não é plenamente satisfatório. Nunca é plenamente satisfatório.

Por quê? ­
Porque a realidade é sempre mais rica do que a representação que fazemos dela. Falamos em autocrítica, mas não fazemos. Portanto, estou tentando contribuir para uma tomada de consciência e o fortalecimento da nossa coragem de fazer autocrítica. Vale para comunistas, para não-comunistas e para mim.

Qual a autocrítica necessária? ­
Nós, marxistas, temos sido insuficientemente críticos e ousados na visão de como transformar os nossos conceitos. A realidade mudou muito. Temos de olhar para a frente, criarmos novos conceitos, definirmos novas propostas de percepção e de análise da realidade. Estamos muito atrasados nessa autocrítica.

Em que Marx ainda faz sentido neste início de século? ­
A luta de classes ainda é convincente. Está vigente. As formas da luta de classes mudaram muito, hoje são muito sofisticadas. No tempo de Marx não existiam partidos de massa nem o sufrágio universal. São duas conquistas que mudaram o mundo. Marx morreu antes, não poderia levar em conta isso. Mas o Marx que mais me interessa é o filósofo. Sua concepção do homem e da História é bastante original e está viva. Agora, a visão que ele tinha da realidade política não corresponde à realidade de hoje. É uma realidade diferente. É preciso ir adiante.

O que significa "ir adiante"? ­
Trabalhar com categorias e conceitos que nos permitam revitalizar a esquerda, que está muito confusa, dilacerada, fragmentada. Uma boa teoria ajudaria a superar isso.

Essa fragmentação é resultado de uma teoria falha do presente, ou a teoria ficou falha em função dessa fragmentação? ­
Eu não diria que é resultado de uma teoria falha. É resultado de uma política falha. A teoria ajudaria a superar isso, se ela fosse revitalizada, aprofundada, como Marx fez com a teoria no tempo dele. Era preciso radicalizar a teoria de Marx. Radicalizar no bom sentido. Ir até a raiz. E a raiz do homem é o próprio homem, como diz Marx. O Marx que mais me interessa é o filósofo. Sua concepção do homem e da História é bastante original e está viva.

Passa pelos atores políticos? ­
Quem faz política passa por dois momentos inevitáveis: o conflito e a negociação. Na parte da negociação entra o capítulo das alianças. Há de fazer alianças, mas alianças aceitáveis. Mas quando se fazem alianças amplas demais o povo desconfia. Você sacrifica sua própria identidade aos olhos da população. Não se pode ampliar sem limites. /

O senhor se refere ao governo do presidente Lula? ­
Acho o Lula um fenômeno que precisa ser estudado. Não me animaria a fazer a análise do fenômeno agora. Não sou cientista político.

O senhor descreve a sua decepção com o PT. ­
Gostei da idéia de um partido de esquerda radical, com identidade própria e ao mesmo tempo pós-leninista. Mas, com algumas alianças que fez, o PT virou um pouco o partido pós-tudo. Aí não dá.

O senhor escreve: ser comunista não é repetir, no século 21, propostas e juízos formulados por Marx no século 19. E o que significa ser comunista hoje? ­
Se conservo a concepção marxista do homem e da História, sou comunista. Posso discordar de Marx em vários pontos, mas o fundamental é que ele está me dando a concepção do homem e da história. A concepção do homem é ser o mesmo sujeito que se faz nas circunstâncias que lhe são impostas. Nasci no Brasil, sou um homem do século 20, sobrevivente no século 21, então essa concepção do homem me ajuda a não adotar esquemas explicativos baseados numa relação de causa e efeito. A concepção da história é a ação, a práxis, a atividade construtiva do homem. O homem transforma a realidade e se transforma.

O comunismo entrou muito cedo em sua vida. O senhor conta que, de início, lhe parecia uma estranha religião. Mas percebia os comunistas reunidos em torno do seu pai como "seres humanos iguais aos outros". ­
As crianças enxergam coisas que os adultos não vêem. Os comunistas eram, no fundo, muito parecidos com os não-comunistas. Então havia certa relatividade do conceito. Essa relatividade não era aceita pelo sistema, vivíamos numa sociedade que funcionava com um sistema intolerante. Os comunistas eram perseguidos, presos, espancados. Os partidos comunistas hoje existem legalmente e participam do jogo eleitoral. Ninguém vai gritar: "Prendam os comunistas!". Exceto os malucos da direita, que são bem mais malucos do que os da esquerda.
Isso criou um grande estigma. ­ O anticomunista continua com vitalidade maior do que o comunista. A direita mantém um núcleo anticomunista que está vivo, que exerce uma influência enorme, muito maior do que a esquerda.

A que se deve essa diferença? ­
A direita é pragmática. Tem um órgão de grande sensibilidade, a carteira, que acusa a diminuição dos lucros. Quando acusa, toma medidas práticas para acabar com isso. E, em geral, culpa os comunistas.

No livro o senhor expõe a sua doença e descreve as limitações. Não teve receio da exposição? ­
A partir de um certo nível de participação na vida coletiva, temos de abrir mão de algumas situações nas quais tendemos a nos proteger demais da publicidade. Não podemos nos limitar a sermos políticos na esfera política e defender a intimidade na outra esfera. O intelectual tem de estar exposto, discutir seus males e os da sociedade. Eu me coloco diante dessa necessidade de expor esse mal, que é a doença. Gostei da idéia de um partido de esquerda radical, com identidade própria e ao mesmo tempo pós-leninista. Mas, com algumas alianças que fez, o PT virou um pouco o partido pós-tudo
Perfil
Nascido em Petrópolis em 1936, formou-se em Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde em 1984 obteve o título de doutor em filosofia. Foi professor da Universidade Federal Fluminense e, desde 1985, leciona na PUC-RJ. Viveu na Alemanha e na França durante par te da ditadura. Tem mais de 20 livros publicados, incluindo dois romances. FOICE E MARTELO REVISTOS ­ "Os comunistas faziam a autocrítica em nome de vantagens imediatas"

FELICIDADE: construa a sua

Um objetivo a cada vez

Simplicidade, foco e
maturidade são fundamentais
para quem quer encontrar
sua fórmula de bem-estar

Simplificar a vida e definir o que é importante para você. Eis a última etapa da nossa busca pela felicidade. Avalie: você precisa mesmo daquele celular de última geração? Se achar que sim, vá em frente. Mas pense se não vale mais a pena investir o dinheiro em uma viagem, por exemplo. Segundo Tal Ben-Shahar, Ph.D. em psicologia e filosofia e professor de psicologia positiva na Universidade de Harvard (EUA), pesquisas mostram que uma vez que nossas necessidades básicas estejam supridas - alimento, abrigo e educação, por exemplo -, renda extra ou prestígio fazem pouca diferença.

Uma prova viva disso é Mitch Dorge, outro entrevistado pela psicóloga Sonja Lyubomirsky e ex-percussionista da banda canadense Crash Test Dummies, que atingiu relativo sucesso mundial no começo dos anos 1990 com o hit "Mmm Mmm Mmm Mmm". Na época, o músico concorreu ao prêmio Grammy, participou de programas como o "Saturday Night Live" e viajou pelo mundo. Mas as coisas começaram a dar errado. Ele saiu da banda, perdeu sua mansão e rompeu com a mulher. Hoje, vive próximo a Winnipeg (Canadá), em uma região pouco habitada e gelada, em companhia dos dois filhos pequenos. Em paz e envolvido com sua música. "Já tive dinheiro e fama. Agora não os tenho, mas meu nível de felicidade é o mesmo. Não há nenhuma diferença", diz Neil. Esse estilo de vida não funcionaria para todo mundo, obviamente. Mas o importante aqui é que o músico encontrou seu foco.
Às vezes, a promessa de ganhar um bom dinheiro motiva mudanças radicais. Esse é o caso de centenas de jovens jogadores de futebol que vão trabalhar em outros países. Em troca de um bom (às vezes milionário) salário, enfrentam obstáculos como idioma, comida, clima e diferenças culturais. Mas muitos não estão preparados. De acordo com o livro "Futebol Exportação" (Editora Senac-Rio), dos jornalistas Fernando Duarte e Claudia Silva Jacobs, dos 804 boleiros que em 2005 deixaram o Brasil, mais da metade retornou: 491.
Nossa crença na importância do acúmulo de bens, dinheiro e prestígio para nossa felicidade pode
ter raízes evolucionárias

Mania de acumular
Muitos ainda não têm a maturidade para adaptar-se a uma situação adversa, fator determinante no percurso rumo à satisfação, segundo os psicólogos. Esse foi o caso do jogador Denílson de Oliveira, atualmente no Palmeiras. Em 1998, com quase 21 anos e destacando-se no futebol brasileiro, o atacante foi comprado pelo time espanhol Real Bétis, tornando-se o jogador mais caro do mundo. "Era impossível recusar, mas se o contrato fosse assinado hoje eu teria reagido de outra maneira. A pressão para ser o melhor do mundo pesou muito", afirmou em entrevista aos autores do livro. Até seu jeito espontâneo atrapalhou a convivência em outra cultura. "Ser alegre me prejudicou. Você sorri e não te levam a sério", afirma Denílson.

Então por que ainda acreditamos que ter mais bens ou status vai nos trazer felicidade? Sob uma abordagem evolucionária, pode ser que nosso passado distante determine nosso comportamento atual. "Quando éramos coletores caçadores, o estoque de riquezas - comida, principalmente - determinava se iríamos sobreviver à próxima seca ou inverno rigoroso", afirma Tal Ben-Shahar. Estocar tornou-se parte de nossa existência, mas hoje acumulamos muito mais do que realmente precisamos.

Isso não significa que você não deve se preocupar com dinheiro ou trabalho. Afinal, a realização profissional também pode ser uma fonte de satisfação. Principalmente se você estiver envolvido com um trabalho que traga um senso de valor e pertencimento, cujos esforços resultem em efeitos palpáveis. "Isso vale tanto para a atividade de um médico quanto para a de um varredor de rua", diz o psiquiatra Hermano Tavares. Afinal, ambas as ocupações trazem um benefício para a sociedade.

A chave neste ponto é descobrir o que move você. Gretchen Rubin, a advogada do "Projeto Felicidade", dá seu palpite. "Quando me pedem conselhos de carreira, eu pergunto: 'O que você faz no seu tempo livre?' Sugiro que transformem isso em trabalho". Para Gretchen, pode ser difícil descobrir sua paixão, mas é fácil se lembrar do que você curtiu fazer nos últimos domingos. Ela mesma deixou um emprego bem-sucedido na Suprema Corte americana para se dedicar em tempo integral ao hobby de escrever. Alguém dúvida que Bill Gates, fundador da Microsoft, acertou em cheio quando transformou sua paixão por informática em trabalho?

MÃOS À OBRA

>>> Simplifique sua vida. Geralmente estamos muito ocupados tentando espremer mais e mais atividades em cada vez menos tempo
>>> Segundo o psicólogo Tal Ben-Shahar, a felicidade situa-se na intersecção entre prazer e significado. No trabalho ou em casa, o objetivo é engajar-se em atividades que sejam importantes e agradáveis. Se você adora animais, que tal colaborar com algum projeto de adoção de cães e gatos, por exemplo
>>> Tenha controle sobre a própria vida. Aprenda a dizer não quando não puder ou não quiser fazer algo>>> Tente transformar seu hobby em fonte de renda
>>> Faça uma lista de objetivos concretos, como conseguir um emprego melhor, fazer exercício, passar mais tempo com a família ou, por que não, comprar uma roupa bacana - afinal, se você chegou até aqui já entendeu que o segredo é dosar as coisas, e um pouco de consumo não faz mal. (Revista GALILEU, nov/2008, pg.50-51- Reportagem de Juliana Tiraboschi)

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

CARTA AOS PAIS DOS HOMOSSEXUAIS

Prezados pais,

Os seus filhos são um presente de Deus criador a vocês e à humanidade, assim como a vida de todo ser humano. E vocês são para eles um instrumento da Providência divina para tenham vida, afeto, educação e valores.

Nós chamamos a Deus de ‘Pai’, conforme a nossa tradição judaico-cristã. Usamos a nossa linguagem e experiência humanas para nos dirigirmos a alguém que ultrapassa os limites do mundo e da nossa vivência. Também reconhecemos nele os traços da ternura materna. A experiência do amor incondicional, que os pais proporcionam, é fundamental para o despertar da fé e para uma sadia relação com Deus.

Ter filhos homossexuais lhes remete à complexa realidade da diversidade sexual. Ao longo da história e em diferentes culturas, esta questão foi tratada de vários modos.

A nossa tradição de séculos longínquos e recentes já considerou a relação entre pessoas do mesmo sexo uma abominação e uma séria doença, impondo um pesado fardo a gays e lésbicas. No entanto, há mudanças que não podem ser negligenciadas, como a evolução dos direitos humanos, a superação da leitura da Bíblia ao pé da letra e, nos anos 1990, a supressão da homossexualidade da lista de doenças da Organização Mundial de Saúde. Trata-se de uma condição, e não de opção, que alguns carregam por toda a vida.

A sociedade e as famílias estão por aprender uma nova maneira de lidar com a homoafetividade; a Igreja Católica, que é parte da sociedade, também. Ao se falar da Igreja, freqüentemente se pensa em proibições e condenações. Este não é um ponto de partida adequado.

A Igreja ensina que ninguém é um mero homo ou heterossexual, mas antes de tudo um ser humano, criatura de Deus e, pela graça divina, filho Seu e destinado à vida eterna. E acrescenta que os homossexuais devem ser tratados com respeito e delicadeza. Deve-se evitar para com eles toda forma de discriminação injusta.

No nível local, há mudanças importantes acontecendo na Igreja. Em 1997, os bispos católicos norte-americanos escreveram uma bela carta pastoral aos pais dos homossexuais. O título é: Always our children (Sempre Nossos Filhos). Segundo eles, Deus não ama menos uma pessoa por ela ser gay ou lésbica. A Aids não é castigo divino. Deus é muito mais poderoso, mais compassivo e, se for preciso, mais capaz de perdoar do que qualquer pessoa neste mundo. Os bispos exortam os pais a amarem a si mesmos e a não se culparem pela orientação sexual dos filhos, nem por suas escolhas. Os pais de homossexuais não são obrigados a encaminhar seus filhos a terapias de reversão para torná-los heteros. Os pais são encorajados, sim, a lhes demonstrar amor incondicional. E dependendo da situação dos filhos, observam os bispos, o apoio da família é ainda mais necessário.

Prezados pais, os seus filhos serão sempre seus filhos. Vocês não fracassaram e nem erraram por causa da orientação sexual deles. O estigma de infâmia e de doença ligado à homossexualidade precisa ser vencido. A aceitação da condição de seus filhos torna a vida de ambos muito melhor e mais feliz. Esta tarefa não é fácil, mas também não é impossível. A prova disso é o depoimento de tantos pais que já conseguiram, ainda que tenham levado alguns anos.

A confiança no bom Deus, fonte de todo o bem e do amor incondicional, há de tornar este caminho mais suave e exitoso.

Cordialmente,
Pe. Luís Corrêa Lima, S.J.

UM ACERTO DE CONTAS COM DEUS

Presente de professor de religião para a família já vendeu 2 milhões de exemplares
Bolívar
Torres


Quando escreveu o romance A cabana, uma reflexão sobre como lidar com a fé e a perda dos entes queridos, o professor de religião canadense William P. Young não tinha a menor intenção de se tornar best-seller. O que era para ser apenas um presente para a mulher e as crianças se transformou num dos maiores fenômenos editoriais dos Estados Unidos. Publicado no fim de 2007 sem campanha de marketing, numa edição para amigos limitada a 15 cópias, o livro se beneficiou de um inesperado boca-a-boca. Em junho deste ano, já aparecia na lista do New York Times, com quase 2 milhões de exemplares vendidos.

– Foi uma coisa de Deus – diz Young ao Jornal do Brasil, que já está negociando uma adaptação cinematográfica da história. – Ninguém esperava. Quando escrevi, tudo que queria era desabafar.

Culpa e tristeza
O livro conta a história de Mack, um homem cuja filha é brutalmente assassinada numa cabana. Depois de quatro anos de culpa e tristeza, o pai recebe um bilhete assinado por Deus, convidando-o a voltar ao lugar onde aconteceu a tragédia. Sua ida se transforma numa jornada espiritual que mudará todas as suas percepções sobre a vida.
Para Young, a "cabana" em questão é uma metáfora. Trata-se do lugar onde nos machucamos e ficamos presos e onde precisamos lidar com nossa raiva e angústia.
– Eu sou Mack – confessa. – Estava com 50 anos e quis analisar a minha vida. Tinha levado 38 anos para voltar à minha "cabana". Queria fazer para minhas filhas e mulher um resumo das minhas várias idéias sobre a vida.
Por causa de sua visão peculiar sobre a fé, o livro levantou algumas polêmicas nos Estados Unidos. Além de criticar alguns aspectos do cristianismo, retrata Deus como uma figura feminina e mostra Jesus de uma maneira familiar. Em um capítulo, o protagonista chega a fazer um alegre piquenique com o Messias, empanturrando-se de guloseimas. Tanto Deus quanto jesus batem papo naturalmente com Mack, dizendo coisas como "Não preciso castigar as pessoas pelos pecados. O pecado é o próprio castigo, pois devora as pessoas por dentro". Ou então: "O humano, formado a partir da união material e física, pode ser habitado pela vida espiritual, a minha vida".

Educação religiosa
Nascido em Nova Guiné, filho de pai missionários, Young recebeu uma educação religiosa, mas acabou tendo conflitos com a fé durante boa parte da vida. Hoje, não pertence mais a uma corrente religiosa específica.
– Esse não é um romance cristão – afirma o escritor. – A instituição cristã não trabalha para aqueles que estão machucados. Infelizmente, temos uma teologia que mostra Deus como uma força que nem sempre está ao nosso lado, às vezes irritado com a gente.
Para o autor, quando nos sentimos desesperados, não costumamos ir na direção de Deus, não o vemos como Pai.
– Existe uma separação e quis acabar com ela. Queria mostrar: Deus não é assim e está do nosso lado.
(http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117579/97609# 07/11/2008)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

PENSAR É ESTAR DOENTE DOS OLHOS

Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...

(Alberto Caeiro)
O nome do poema não existe assim...

O DEUS DE BARACK OBAMA

Quinta-feira, Novembro 06, 2008

A vida religiosa do recém-eleito presidente norte-americano, Barack Obama, é descrita no livro O Deus de Barack Obama, editado pela Thomas Nelson Brasil. Escrito por Stephen Mansfield, mesmo autor de The Faith of George W. Bush [A Fé de George W. Bush], o livro conta a história religiosa do democrata e lembra que Obama será o primeiro presidente dos Estados Unidos não criado em um lar cristão. Ao contrário, ele passou seus primeiros anos de vida sob a influência do ateísmo, do islamismo popular e de um entendimento humanista que vê a religião como um produto do homem. Apesar disso, ainda de acordo com o autor, durante a campanha era muito comum correligionários usarem palavras como "chamado", "escolhido" e "abençoado" para descrever o político. "Embora esses termos tenham pertencido ao discurso da direita religiosa, agora estão se tornando expressões correntes de uma esquerda religiosa a despertar de um movimento progressivo baseado na fé", defende Stephen Mansfield.
O livro revela um Obama responsável por uma virada na história religiosa dos Estados Unidos. Mansfield apresenta números de pesquisas de opinião realizadas em fevereiro de 2008 que mostram a preferência de eleitores evangélicos praticantes por um candidato democrata. Em contrapartida, no pleito que elegeu George W. Bush, esse número chegava a 62% em favor dos republicanos, partido do atual presidente. "Os números atuais mostram que os eleitores evangélicos, historicamente um suporte para políticos republicanos, começaram a abandonar o partido", analisa o autor.
Episódios curiosos a respeito da biografia de Obama também estão no livro. Desde 1985, Obama freqüenta uma igreja evangélica, mesmo assim, Mansfield chama a atenção para os questionamentos do democrata a respeito da fé cristã. Para ele, a religião de Obama é uma fé que admite dúvida, incerteza e mistério. "Há aspectos da tradição cristã com os quais me sinto confortável e outros com os quais não me sinto. Há passagens da Bíblia que fazem todo o sentido pra mim e outras sobre as quais eu digo não tenho certeza disso", revela o biografado.
O livro relembra ainda a curiosa entrevista que Obama concedeu ao apresentador Jay Leno na qual foi perguntado se havia tragado quando fumou maconha. Barack respondeu "Essa é a idéia".(Escritório de Comunicação Lu Fernandes)

RÉPLICA AO TESTAMENTO DO MENDIGO


(Tere Penhabe)
Todos querem, meu amigo
esse seu rico legado
terá uma mina de ouro
no testamento deixado?
Sua vida chega ao fim
para o fim caminha a minha
quisera ter a sua riqueza
deixá-la à minha menina.
Eu tenho pra quem deixar
meus pertences e meus bens
o que eu não tenho é amor
esse amor que você tem.
Pela sua calça puída
pelo céu, pelas estrelas
até pelo olhar perdido
que não se cansa de vê-las.
Por isso quero lhe pedir, se puder, se me permitir
inclua em seu testamento
um benefício pra mim.
Deixe-me seus olhos mansos
tão doces e tão profundos
que só com eles se pode
ver esse lado do mundo.
Se não for pedir demais
deixe também seu coração
para eu aprender a amar
sem desejar por a mão.
E um dia, como você
vagalumes eu terei
cercando meu corpo feliz
nas andanças que farei.
E o sol, ah... o sol!!!Por favor, deixe prá mim,
eu amo vê-lo nascer
mas nunca o senti assim.
Desse jeito que você
tão docemente descreve
é como se o sol pudesse
ser tudo que nos apetece.
E para não ser injusta
que não quero aproveitar
deixe-me o frio que senti
nuna madrugada a raiar.
Os pardais, os dê a outro
pois esses eu tenho demais
são os únicos que me sobraram
de tudo que ficou pra trás.
E os jornais, eu não os quero
pois nunca mais os quis verdes
de que um presidente
pôs minha vida a perder.
Se precisar, e eu não creio
cobrirei meu corpo trêmulo
com essa tua lembrança
que quase me parte ao meio.
Se lhe encontrei, algum dia
por certo lhe dei moedas
não por ser boa, afinal
meu medo era acabar igual.
As palavras "Deus lhe pague"creio, será um problema
porque igual estoque eu tenho
de palavras "Assim seja".
Todas as folhas de outono,
tuas sandálias viajadas até mesmo o pó da estrada
é meu coração quem os quer.
As saudades profundas
dos sonhos que não sonhou
com elas poderei sentir
os sonhos que não vivi.
Tudo que é seu é bem vindo
não se acanhe em me deixar
por certo, enriquecerei
pois seu tesouro é real.
A marca do beijo eu tenho
muito mais pobre que o seu
de um menino interesseiro
querendo um presente meu.
Se só fingiu que chorou,
suas lágrimas foram falsas
mil lenços eu já gastei
no lugar desse seu trapo.
E já que assim decidiu
a outro mendigo doar tudo o que você conseguiu
nesta vida angariar...
Vou fazer como se fazem ilustres homens de bem
subornar o tal mendigo
e ficar com o que lhe dê.
Só prometo contrariarem tudo que eu conseguir
quando ele me procurar
não negar e dividir.
Porque essa vida é assim
junta-se ouro e tesouros
mas pra ser realmente feliz
é só como você diz.
Vai, meu amigo mendigo
se acabou sua missão
eu peço a Deus, um legado:
-Que algum dia, em outra vida
eu possa ser seu irmão!!!

Itanhaém, 28/05/2004_8:06 hs
http://www.amoremversoeprosa.com/200replicatestamentomendigo.htm

ADULTÉRIO NA INTERNET - Contardo Calligaris

Quando, num casal, um dos dois gosta de pornografia, existe razão para se sentir traído?


MUITAS MULHERES se queixam de que o computador se tornou seu rival: os maridos passam horas, sobretudo noturnas, na internet, atrás de conteúdo erótico e, quem sabe, de encontros sexuais.
Algumas, mais atrevidas, conseguem descobrir a senha de usuário dos maridos e se familiarizam com o uso de Explorer, Safari, Firefox etc. para monitorar o "histórico" das navegações noturnas de seu parceiro. Às vezes, elas conseguem até invadir o MSN e ler outro histórico, mais incômodo: o das conversas passadas do usuário. Difícil dizer, aliás, se os maridos se esquecem acidentalmente de apagar os rastros de sua navegação e de suas conversas ou se eles os deixam de propósito.
Talvez queiram ser descobertos para acabar de vez com os subterfúgios de sua dupla vida e forçar assim uma separação que lhes permitirá, enfim, ficar no computador livremente, noite e dia.
Ou talvez eles gostem de alimentar a desconfiança de sua parceira: ao se sentirem vigiados, a um passo de serem descobertos, eles satisfazem a nostalgia de uma infância "feliz", em que "se esqueciam" de trancar a porta do banheiro, espreitando e receando a chegada da mãe.
Seja como for, o uso erótico da internet pelos maridos está se tornando argumento de brigas e divórcios.
Nesse clima, li com especial interesse o artigo de Ross Douthat, "Is Pornography Adultery?" (será que a pornografia constitui adultério?), no número de outubro 2008 do "Atlantic". O texto é especialmente instrutivo porque Douthat deixa inteiramente de lado o uso da internet para procurar encontros e aventuras "reais".
A questão que ele levanta é a seguinte: quando, num casal, um dos dois tem o hábito (geralmente, secreto) de assistir a material pornográfico (prática facilitada imensamente pela net), será que o outro se sente traído? E será que é certo sentir-se traído nesse caso?
Uma pesquisa recente entre estudantes universitários dos EUA mostra que 70% das mulheres nunca entraram num site pornô, enquanto a mesma coisa vale só para 14% dos homens. Ou seja, os homens procuram pornografia na net muito mais do que as mulheres. Essa constatação trivial confirma outra, também trivial: com muito mais freqüência do que as mulheres, os homens alimentam seu desejo com fantasias sexuais conscientes e detalhadas, uma espécie de cinema erótico de bolso. Se eles se interessam pela pornografia é porque, com sorte e dedicação, em algum canto do repertório, esperam encontrar a prova de que suas fantasias podem ser realizadas.
Na verdade, um casal funciona quando cada um consegue fazer parte das fantasias do outro. Mas Douthat argumenta de maneira um pouco diferente. Ele sugere primeiro que as mulheres poderiam tolerar com condescendência o uso da pornografia por seus parceiros, numa atitude parecida com a de pais liberais com a masturbação dos filhos pré-adolescentes. E não seria o caso, aliás, de sentir ciúmes: essa espécie de ginástica sexual masculina, ao contrário, pode alimentar o desejo do homem pela sua companheira -a qual se beneficiaria, portanto, do inócuo passatempo do marido.
Mas, Douthat continua, as coisas não são tão simples assim. Imaginemos um marido que, voltando do trabalho, pare num bar para solteiros e festeje o fim do dia sentado a um balcão sobre o qual se agitam dançarinas seminuas; a mulher deveria se sentir traída? Talvez não.
E se o mesmo marido pagar uma prostituta para vê-la transar com outro homem? Será que a coisa não complicaria? Ora, esse segundo caso não é mais próximo do uso da pornografia?
Seja como for, segundo uma pesquisa de 2003, de Bridges, Bergner & McInnis, "Romantic partner's use of pornography: its significance for women", (uso da pornografia pelo parceiro amoroso, seu significado para as mulheres, "Journal of Sex and Marital Therapy", vol. 29,1), apenas um terço das mulheres vivenciaria o uso da pornografia por seu parceiro como uma traição.
Um terço parece pouco, mas talvez a pergunta tenha sido mal colocada. Talvez diante do uso masculino da pornografia, as mulheres não se sintam tanto traídas quanto abandonadas.
A mulher que vai para cama sozinha (enquanto o marido, noite adentro, fica na sala teclando em prazeres virtuais) sofre sobretudo de exclusão, sofre por constatar que ela não faz parte dos sonhos de seu parceiro -apenas da realidade da qual ele tenta fugir.

O TESTAMENTO DO MENDIGO - Urbano Reis


Agora, no fim da vida
Como mendigo que sou,
Me sinto preocupado,
Intrigado e num momento
Me pergunto, embaraçado,
Se faço ou não testamento.
Não tendo, como não tenho
E nunca tive ninguém,
Pra quem é que eu vou deixar
Tudo o que eu tenho: os meus bens?
Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Minhas calças remendadas,
O meu céu, minhas estrelas,
Que não me canso de vê-las
Quando ao relento deitado
Deixo o olhar perdido,
Distante, no firmamento?
Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Minha camisa rasgada,
As águas dos rios, dos lagos,
Águas correntes, paradas,
Onde às vezes tomo banho?
Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Vaga-lumes que em rebanhos
Cercam meu corpo de noite,
Quando o verão é chegado?
Se eu fizer um testamento
Pra quem vou deixar,
Mendigo assim como sou,
Todo o ouro que me dá
O sol que vejo nascer
Quando acordo na alvorada?
O sol que seca meu corpo
Que o orvalho da madrugada
Com sua carícia molhou?
Pra quem é que vou deixar,
Se fizer um testamento,
Os meus bandos de pardais,
Que ao entardecer, nas árvores,
Brincando de esconde-esconde,
Procuram se divertir?
Pra quem é que eu vou deixar
Estas folhas de jornais
Que uso para me cobrir?
Se eu fizer um testamento
Pra quem é que eu vou deixar
Meu chapéu todo amassado
Onde escuto o tilintar
Das moedas que me dão,
Os que têm a alma boa,
Os que têm bom coração?
E antes que a vida me largue,
Pra quem é que eu vou deixar
O grande estoque que tenho
Das palavras "Deus lhe pague"?
Pra quem é que eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Todas as folhas de outono
Que trazidas pelo vento
Vêm meus pés atapetar?
Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Minhas sandálias furadas,
Que pisaram mil caminhos,
Cheias dos pós das estradas,
Estradas por onde andei
Em andanças vagabundas?
Pra quem é que eu vou deixar
Minhas saudades profundas
Dos sonhos que não sonhei?
Pra quem eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Os bancos dos meus jardins,
Onde durmo e onde acordo
Entre rosas e jasmins?
Pra quem é que vou deixar,
Todos os raios de luar
Que beijam minhas mãos
Quando num canto de rua
Eu as ergo em oração?
Se eu fizer um testamento
Pra quem é que vou deixar
Meu cajado, meu farnel, e a marca deste beijo
Que uma criança deixou
Em meu rosto perguntando se eu era Papai Noel?
Pra quem é que eu vou deixar,
Se fizer um testamento,
Este pedaço de trapo
Que no lixo eu encontrei
E que transformei em lenço
Para enxugar minhas lágrimas quando fingi que chorei?
Se eu fizer um testamento
Testamento não farei
Sem nenhum papel passado,
Que papéis eu não ligo,
Agora estou resolvido:
O que tenho deixarei,
Na situação em que estou,
Pra qualquer outro mendigo,
Rogando a Deus que o faça,
Depois que eu tiver morrido,
Ser tão feliz quanto eu sou.

Abração....

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O GOOGLE nos faz idiotas?


O uso freqüente da internet reduz nossa capacidade de ler textos longos, diz especialista.
Com pouca paciência para
textos longos,
leitores do mundo virtual limitam-se
a ler
títulos e resumos.

Os artigos e livros de Nicholas Carr têm sido uma fonte de desgosto para os aficionados de internet. No início deste ano, o jornalista e escritor americano lançou The Big Switch (“A grande virada”), em que revela os perigos de uma rede de compu-tadores cada vez mais inteligente e poderosa. Agora volta à carga em artigo na revista Atlantic Monthly, no qual aborda uma ameaça mais sutil do mundo virtual. Carr deu-se conta dela ao perceber que tinha cada vez menos paciência para ler textos longos ou livros. Sua concentração se dispersava depois de duas ou três páginas. “Estou sempre tentando trazer minha mente de volta ao texto”, diz. O que antes fazia com prazer virou um martírio. “Não penso mais da maneira que costumava pensar”, lamenta. Carr está convicto de que não se trata de um problema pessoal. Ex-editor da Harvard Business Review, ele ouviu blo-gueiros e intelectuais que confessaram igual dificuldade para chegar até o último parágrafo de um livro.
O título do artigo – O Google está nos tornando estúpidos? – dá uma pista. Carr acredita que a internet transformou nossas mentes. Os meios de comunicação não são canais passivos de informação. “Eles fornecem o conteúdo de nossos pensamentos, mas também modelam o processo de pensamento”, diz Carr, citando o pensador canadense Marshall McLuhan. Resultado? Um internauta que salta de site em site condiciona a mente a receber informações de forma rápida e superficial. Os circuitos neuro-lógicos adaptam-se a essa nova realidade, afirma o escritor, baseado em pesquisas que mostram que o cérebro, mesmo o de adultos, é dotado de enorme plasticidade. “O cérebro consegue se reprogramar em pleno vôo, alterando a forma como funciona”, afirma o neurocientista James Olds, da George Mason University, em apoio aos argumentos de Carr.

Uma pesquisa recente da University College London confirma a dificuldade que as pessoas têm hoje de mergulhar em textos longos. O levantamento examinou, durante cinco anos, o comportamento dos visitantes de dois populares sites de pesquisa – da Biblioteca Britânica e de um consórcio de instituições de ensino – que dão acesso a jornais, e-books e outras fontes de informa-ção. Descobriram que os usuários exibem um comportamento ligeiro e inconstante. Lêem no máximo uma ou duas páginas de um artigo ou de um livro antes de trocar de site. Alguns arquivam textos longos, mas raramente voltam a consultá-los. “Fica evidente que os usuários não lêem no sentido tradicional”, dizem os autores do estudo. “É uma nova forma de leitura. Navegam por títulos, sumários e resumos de textos. Parece que estão online apenas para evitar uma leitura no sentido tradicional.”
A mesma superficialidade parece contaminar a academia, segundo estudo recente do sociólogo James Evans, da Universida-de de Chicago. Apesar de ter à sua disposição uma quantidade cada vez maior de versões online de publicações científicas, os pesquisadores tendem a pesquisar na internet um número reduzido de artigos – os mais comentados entre os colegas, ignorando todo o restante. “A pesquisa científica online acelera o consenso”, diz Evans. É um comportamento bem diferente daquele exibido por pesquisadores de outras eras, que gastavam um tempo enorme fuçando trabalhos em bibliotecas e que, pela própria natureza da consulta, esbarravam em trabalhos de diferentes campos do conhecimento, que, ao final, acabavam sendo citados nos seus estudos.
A repercussão do artigo de Carr foi imediata. Em seu blog, o escritor Evan Ratliff, colaborador da revista The New Yorker e do jornal The New York Times, disse que o uso incessante da internet provavelmente afeta também a nossa memória, uma vez que não temos mais a necessidade de lembrar daquilo que está facilmente à nossa disposição no universo virtual. O que não é, ne-cessariamente, negativo. São circuitos neurológicos que podem ser empregados em outras atividades.
Muitos apontam um pessimismo exagerado em Carr. O jornalista Kevin Kelly, editor da revista Wired, afirma em seu blog que, se o nosso desempenho intelectual cai quando estamos fora da rede, melhora quando estamos online. “Será que não ficamos mais idiotas quando estamos fora do Google, mas mais espertos quando estamos no Google? É muito provável que sim”, diz. Para Danny Hillis, escritor e consultor da IBM e da Hewlett-Packard, o autor de The Big Switch erra ao apontar o culpado. “O dilúvio que está nos afogando é o do excesso de informação”, afirma. Para ele, o Google e outros instrumentos da internet apenas nos ajudam a sobreviver em meio ao enorme fluxo de dados da sociedade contemporânea. (Revista ÉPOCA NEGÓCIOS, out/2008, pg.120-121)

ALVIN TOFFLER - Superávit de complexidade


Veja resumo da palestra realizada pelo escritor Alvin Toffler na conferência Vision América Latina, em agosto de 2008 por Camila Hessel
Em palestra para executivos brasileiros, Alvin Toffler conecta mudanças no mundo dos negócios a transformações mais profundas na sociedade. A seguir, um resumo de suas idéias principais.

Revolução mais que industrial
"Há três séculos, a economia da Inglaterra migrou da agricultura para a indústria. A chamada revolução industrial foi bem mais do que isso: ela transformou completamente a estrutura familiar, a cultura, a religião e, por fim, a civilização como a conhecemos hoje. A migração do homem do campo para as cidades e o trabalho nas fábricas criou um novo modo de vida, fazendo com que a transformação econômica passasse a fazer parte de um processo revolucionário bem maior."

Dos músculos ao cérebro
"Tão impactante quanto a Revolução Industrial no século 18 foi a revolução que Heidi e eu chamamos de 'A Terceira Onda' e que dá nome ao nosso livro. Ela nada mais é do que o resultado numa mudança nos meios de produção. Primeiro tivemos uma revolução agrícola, depois a industrial, e, na seqüência, a revolução do conhecimento. O principal meio de produção já não são os músculos, mas sim o cérebro. E isso sepulta o industrialismo e nos leva a um mundo com novas convicções, atitudes, éticas e empregos. A terceira onda fomentou uma nova civilização — a atual — que será responsável por revolucionar os meios de produção de riqueza."

Não há escassez de conhecimento
"Falamos em riqueza revolucionária calcados na certeza de que o nosso meio de produção tem uma diferença fundamental em relação aos dos momentos anteriores: ele não é escasso e não se exaure ao ser compartilhado. Pelo contrário: quanto mais se dissemina o conhecimento, mais poderoso ele tende a ser. E isso é inédito. Compartilhar não era palavra de ordem no meio rural ou numa linha de produção. Com o conhecimento é diferente. Temos todo interesse em torná-lo disponível. O conhecimento é intangível. Idéias simples podem produzir mudanças enormes. Pensemos no Yahoo, por exemplo. Ou mesmo no Google. Ao compartilhar o conhecimento, também o fazemos crescer. É que idéias amam outras idéias. O conhecimento se apaixona por ele mesmo e produz muitos frutos. Quanto mais ele circula, mas 'promíscuo' fica."

Conhecimento é velocidade
"Por crescer e se transformar ao ser compartilhado, o crescimento também promove uma mudança de ritmo. As mudanças ocorrem num tempo cada vez menor e, a cada dia, a velocidade com que as transformações ocorrem acelera. O fato de sermos seres multitarefa, que executam diversas atividades ao mesmo tempo é um reflexo claro desse impulso à velocidade trazido pela economia da informação. Um estudo da consultoria McKinsey mostra que esse ritmo também se reflete na economia. Hoje, os ativos financeiros crescem numa velocidade bem superior à da produção, fazendo com que o tamanho do mercado financeiro de um país seja muitas vezes maior do que o de seu Produto Interno Bruto."

Desmassificação = diversidade
"Uma das principais características da revolução no modo de produzir riqueza é o movimento de desmassificação que se torna cada vez mais intenso. Temos hoje uma diversidade de produtos impensável há um século. E essa diversidade é um reflexo — e também um fator de estímulo — do declínio nos meios de produção de massa. Hoje, variedade e mudança são mais baratas do que no passado. O consumidor não aceita a uniformidade. Essa diversificação ocorre não apenas no mundo do consumo e da produção. Ela já pode ser verificada na estrutura das famílias. Antes, havia um único modelo possível de núcleo familiar: pai, mãe, filhos. Hoje há famílias formadas por duas mães ou dois pais, há casais que criam filhos de outros cônjuges em conjunto com os que têm posteriormente e até mesmo os casais sem filhos são considerados como famílias. É a desmassificação estendendo seus tentáculos."

Implosão das fronteiras
"A aceleração das mudanças e a desmassificação da produção e da cultura produzem uma sociedade infinitamente mais complexa. Temos hoje um superávit de complexidade, mas somos incapazes de medí-lo porque não dispomos de ferramentas ou de métricas para fazê-lo. Ainda não somos capazes de avaliar os efeitos implícitos dessa maior complexidade. Para isso, temos de transformar estruturas que foram criadas para atender às necessidades de uma cultura de massa. Empresas divididas em departamentos ficarão engessadas demais para reconhecer e atender aos anseios do novo consumidor. São fronteiras cujo destino inevitável é a implosão."

Educação: o passo definitivo
"Nossas escolas tradicionais não passam de uma linha de produção de conhecimento. Elas não nos servem mais. Elas não são capazes de formar indivíduos inovadores, que reconhecem que o fracasso é parte do processo de produção de riqueza. De todos os passos necessários a uma revolução efetiva, a transformação do modelo educacional é o mais crítico. É também a parte mais difícil do processo. Mas está em curso. Estamos criando um sistema de riqueza revolucionária em que a geração de valor está tanto nas mãos de quem produz quanto de quem consome. Pouco a pouco vamos criando também uma nova civilização para acompanhá-lo."

ENVELHECER

"Para que serve envelhecer? para isso e talvez para nada. Para alargar a visão, amar o singular e viver às vezes a abolição do tempo que sua presença nos dá. Hugo entendeu isso, ele que foi uma das raras pessoas a ter respondido, em um de seus mais belos poemas, à derradeira questão. Deixo com ele a última palavra:
"Booz era bom ano e fiel parente
Ele era generoso embora poupador.
As mulheres olhavam mais para Booz do que para um jovem
Pois o jovem é belo, mas o velho é grande...;
O velho que volta para a fonte primeira
Entra nos dias eternos e sai dos dias cambiantes
Vê-se chama nos olhos dos jovens
Mas no olho do velho se vê luz". ( Do poema de Victor Hugo "Booz adormecido")
A beleza não é grandeza, nem a chama, luz, e talvez seja isso o que dá sentido a essa estranha e singular experiência que é a existência humana" . (FERRY, Luc. Vencer o Medo - a filosofia como amor e sabedoria. VMF Martins Fontes, SP, 2008, pg.94)

PENSAMENTO DO DIA

"O sonho permanece vivo. Hoje é o dia da resposta para as suas dúvidas. Vocês colocaram as mãos no arco da história e escolheram a esperança de um novo dia", (Obama, -Discurso em Chicago, após a vitória, 04/11/2008)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O RISO

Rubem Alves

Alma não come pão. Alma come beleza. O pão engorda, faz o corpo ficar pesado. A beleza, ao contrário, faz a agente ficar cada vez mais leve. Não é raro que os comedores de beleza se tornem criaturas aladas e desapareçam no azul do céu, onde moram os deuses, os anjos e os pássaros. A beleza é coisa da leveza.

Há dois tipos de beleza.

O primeiro é a beleza que os deuses oferecem aos homens como dádiva. Ela cai dos céus, à semelhança do maná. A segunda é a beleza que os homens oferecem aos deuses como dádiva. Ela sobe da terra aos céus, como fumaça ou bolhas de sabão.

Conhece-se a beleza dádiva dos deuses por aquilo que ela produz na alma dos homens. Quem é possuído por ela entra em êxtase: cessa o riso, cessa o choro, o pensamento pára, a fala emudece. É mística. A alma está tomada pela felicidade da tranqüilidade absoluta. Era assim que se sentia o Criador ao contemplar, ao final de cada dia de trabalho, o resultado da sua obra: “Está muito bom! Do jeito como deveria ser! Nada há a ser modificado! Amém!”.

A beleza dos deuses aparece nos corais de Bach, nas telas de Turner e Constable, nos escritos poéticos de Bachelard. São sacramentos de bem-aventurança celestial.

A beleza que os homens oferecem aos deuses como dádiva é de dois tipos.A primeira é a beleza trágica, que faz chorar. Exemplos de beleza trágica: a Sonata ao Luar, de Beethoven; a tela Corvos Sobre um Campo de Trigo, de Van Gogh; os Pobres na Praia, de Picasso; a canção Construção, do Chico.

A beleza trágica nasceu depois que o homem perdeu o paraíso. No paraíso não havia beleza trágica porque, para existir, ela precisa de lágrimas. Mas, como é sabido, paraíso é precisamente o lugar onde não há lágrimas. A beleza trágica nasce das entranhas dos que sofrem, como uma forma de oração.

Mas no paraíso havia um outro tipo de beleza. Era diferente da beleza divina, pois não produzia êxtases místicos de tranqüilidade. Era diferente também da beleza trágica, pois não fazia chorar. A beleza paradisíaca fazia rir.

Os especialistas em beleza acham impróprio que se dê o nome de beleza a algo que produz o riso. É compreensível. Havendo perdido a memória do paraíso, esqueceram-se de que a vocação original da beleza é a produção da alegria. A beleza paradisíaca é o fruto que pendia da árvore da vida. Bastava uma mordida para que o corpo se transfigurasse pelo riso. É para o riso que Deus nos criou. Adão e Eva, tolos, preferiram morder o fruto da árvore da ciência – e perderam o paraíso. Ficaram tristes.

Jacob Boehme, místico que viveu no século XVI, disse que o paraíso foi perdido no exato momento em que os homens abandonaram a leveza brincalhona das crianças e optaram pela gravidade séria dos adultos. O paraíso é o lugar onde se sabe que a vida é uma brincadeira divina. Deus criou os homens para ter companheiros de brincadeira. Lá toda a beleza era alegre e risonha. A memória dessa identidade original entre a beleza e o brinquedo está preservada no inglês e no alemão: as palavras play, em inglês, e spielen, em alemão, tanto podem se referir ao ato de tocar a Appassionata quanto ao ato de soprar bolhas de sabão... A beleza paradisíaca é aquela que brota do corpo das crianças. E as crianças sabem que o propósito da vida é o brinquedo.

Mozart era um especialista em beleza paradisíaca. Brincava com os sons. A sua Eine kleine Nachtmusik (Pequena serenata) é um delicioso brinquedo. O teólogo protestante K. Barth, para quem teologia era também brinquedo, dizia que os anjos, diante de Deus todo-poderoso, tocavam Bach. Mas, entre eles, tocavam Mozart... Injustiça para com Bach. É difícil encontrar peça mais brinquedo de criança que a sua Badinerie, para flauta e orquestra, da suíte orquestral n 2. E Miró? Não conheço nada mais moleque que seus quadros. E há Mário Quintana, poeta que, mesmo velho, continuava criança. E aquela brincadeira musical do Chico – eu rio toda vez que a ouço –, toda ela em rimas em “im”, pelo nariz, “um anjo safado, o chato do querubim”, que decretou que estava predestinado “a ser todo ruim”. E a brincadeira vai de “im” em “im”: chinfrim, bandolim, Quixeramobim, clarim, assim, até o fim...

Alberto Caeiro, uma criança especialista em coisas leves, escreveu essa delícia:

“As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as coisas.
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser...”
Tudo o que o Caeiro toca fica assim, redondinho e leve e é impossível não rir
– e a gente se descobre outra vez criança.

O Riobaldo era bom teólogo. Conhecia por dentro o coração de Deus. E foi isso que ele disse: “O que Deus quer, é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza!”

Rubem Alves é escritor, teólogo e educador.

http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1598275&area=2220&authent=55D6127228165255F4125028345277

HOUTART: O MUNDO PRECISA DE ALTERNATIVAS, NÃO SÓ DE REGULAÇÕES


Nós não podemos nos satisfazer em falar apenas na crise financeira e na necessidade de regulação. Se não se fizer nada, de 20% a 30% de todas as espécies vivas poderão desaparecer daqui a um quarto de século. O nível e a acidez dos mares aumentarão perigosamente, o que pode gerar entre 150 e 200 milhões de refugiados climáticos a partir da metade do século XXI.

François Houtart

Painel sobre a crise financeira proferido na Assembléia Geral das Nações Unidas, em Nova York, no dia 30 de outubro de 2008.

O mundo tem necessidade de alternativas e não somente regulações. Não é suficiente renovar um sistema, trata-se de transformá-lo. É um dever moral e para compreendê-lo, adotar o ponto de vista das vítimas permite ao mesmo tempo fazer uma constatação e exprimir uma convicção; a constatação que o conjunto das crises, financeiras, alimentares, energéticas, hídricas, climáticas, sociais, assinala uma causa comum, e a convicção que podemos transformar o curso da história.
François Houtart é professor emérito da Universidade Católica de Louvain (Bélgica); Fundador do Centro Tricontinental
O artigo é longo. Você pode lê-lo, na íntegra, acessando o seguinte endereço eletrônico: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4021&boletim_id=484&componente_id=8503

FIM DE UM MODELO FUNDAMENTALISTA


Para Chomsky, crise marca o fim de um modelo fundamentalista

A crise financeira atual representa também a crise de um modelo cultural que tem como principal doutrina o fundamentalismo do livre-mercado. A opinião é do lingüista e intelectual norte-americano Noam Chomsky.
Em rápida entrevista à Agência Reforma, do México, Chomsky diz que esse modelo foi um desastre para a humanidade, "um duro golpe contra a democracia" nas últimas décadas. Confira abaixo:

Qual é a magnitude da atual crise econômica?
Ninguém sabe quão grave será. E não é uma só crise: são várias. Uma é a crise financeira que se encontra nas primeiras páginas. Outra é a recessão na economia real, ou seja, a economia produtiva. Uma terceira, nos Estados Unidos, é a iminente crise do ineficiente e custoso sistema privado de atenção à saúde. Esses problemas interagirão de maneira complexa.
Não vejo nenhuma utilidade em compará-la com a queda do Muro de Berlim. Esse foi um passo crucial para a queda da União Soviética. Não dá indícios de que as instituições do Estado capitalista estejam enfrentando um destino similar, exceto setores como os bancos de investimento e, por diferentes razões, setores industriais como o automobilístico nos Estados Unidos.

Quais são as lições dessa crise?
A mais imediata é que o fundamentalismo de mercado foi um desastre, o qual não deveria surpreender os latino-americanos ou outros povos submetidos a essa disciplina. Mais especificamente, a liberalização financeira conduz ao desastre. Também o fato de que a liberalização é um sério golpe contra a democracia. Outra lição sublinha a sensível observação política do principal filósofo social estadunidense do século 20, John Dewey: a política é "a sombra que as grandes empresas projetam sobre a sociedade".

Será o ocaso do poder dos EUA e o início da hegemonia da China ou da Índia?
É muito pouco provável, apesar de que a crise pode levar adiante o processo de diversificação da economia mundial. Os EUA têm enormes vantagens, além de seu opressor poderio militar. A Europa tem uma economia de escala comparável, mas é heterogênea e prefere se manter à sombra dos EUA. China e Índia vêm crescendo, assim como outros países da Ásia que desafiam a lógica ortodoxa neoliberal, mas têm enormes problemas internos. Um indicador está dado pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU: a China ocupa o 81º lugar; a Índia, o 128º. E isso é apenas a superfície.

É a crise das finanças ou a crise de um modelo cultural?
É a crise de um "modelo cultural" se desse modo nos referirmos a um sistema doutrinário: o fundamentalismo do livre-mercado. Mas, apesar das pretensões, essa doutrina nunca foi aceita pelos mesmos centros de poder ocidentais. Isso é como um patrão histórico que se remonta por séculos, e é um importante fator na criação do Terceiro Mundo nas regiões colonizadas.

Quais serão as conseqüências da crise econômica no âmbito cultural?
Isso é imprescindível. As crises econômicas freqüentemente vêm acompanhadas pela aparição da grande arte.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

DESEJO IMPEDE DE SER FELIZ...

"Na medida em que desejamos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Por que? Porque o desejo é falta, e porque a falta é um sofrimento. Como você pode querer ser feliz se lhe falta, precisamente, aquilo que você deseja? No fundo, o que é se feliz? Evoquei a resposta que encontramos em Platão, Epicuro, Kant, em qualquer um: ser feliz é ter o que se deseja. Não necessariamente tudo o que se deseja, porque nesse caso é fácil compreender que nunca seremos felizes e que a felicidade, como diz kant, seria um ideal não da razão mas da imanginação. Ser feliz não é ter tudo o que se deseja, mas pelo menos uma boa parte, talvez a maior parte, do que se deseja. Seja. mas, se o desejo é falta, só desejamos, por definição, o que não temos. Ora, se só desejamos o que não temos, nunca temos o que desejamos, longo nunca somos felizes. Não que o desejo nunca seja satisfeito, a vida não é tão dificil assim. Mas é que, assim que um desejo é satisfeito, já não falta, logo já não há desejo. Assim que um desejo é satisfeito, ele se abole como desejo: "O prazer", escreverá Sartre, "é a morte e o fracasso do desejo". E longe de ter o que desejamos, temos então o que desejávamos e já não desejamos" . (COMTE-SPONVILLE, André. A felicidade, desesperadamente. Martins Fontes, SP, 2005, pgs. 26-28)

A alma não se separa do corpo nem depois da morte

“A alma não se separa do corpo nem na vida, nem na morte e nem depois da morte”. Entrevista especial com Renold Blank
IHU On-Line – O que há depois da vida é uma pergunta que tem acompanhado a humanidade ao longo da sua história. Em diálogo com os modernos modelos filosóficos e científicos, como a teologia cristã busca responder hoje a esta pergunta?
Renold Blank – Nos últimos vinte, trinta anos, sobretudo a partir da física quântica, nós temos modelos que dizem que a vida simplesmente não pode parar, nem pode ser aniquilada de tal maneira que se acredita que não há algo depois da morte. Existem modelos quânticos que dizem que algo deve continuar. Há também a questão, dentro da física, da termodinâmica, que diz que a energia não pode ser destruída e que o ser humano é um potencial energético. Então, alguma coisa desse potencial deve continuar. Tudo isso são tentativas de a física dizer se há algo depois da morte. Agora, dentro da religião cristã, de maneira específica na Igreja Católica, no fundo, não se entra muito nesta questão científica. A única coisa que constatamos é que existe a pergunta: haverá vida após a morte? E essa declaração cada vez menos contradiz aquilo que a ciência atual pode dizer. Isso é uma coisa boa porque ainda no início do século XIX se dizia que a ciência falava em algo totalmente contrário àquilo que a religião diz. Hoje, constatamos o contrário: a afirmação religiosa e modelos da ciência estão se aproximando.
IHU On-Line – É grande o número de cristãos/ãs brasileiros/as que em busca de uma resposta à morte aproximam-se do Espiritismo. A que se deve isso?
Renold Blank – Pois é. Realmente o número é relativamente grande daqueles que buscam no espiritismo a resposta, principalmente no que diz respeito à doutrina da reencarnação. O que causa isso? Primeiro, a doutrina da reencarnação aceita que a pessoa irá evoluir através de outra vivência e esta concepção, à primeira vista, parece muito lógica, mais compreensível do que a idéia da ressurreição. Este parecer, porém, se torna problemático a partir do momento em que se começa a questionar as bases da concepção. A maioria dos cristãos e das cristãs não conhece essas bases. Na base da concepção da reencarnação, há a idéia do dualismo antropológico e de que o ser humano é o princípio de um "material corpo" e um princípio "espiritual alma", e na morte a alma se separa do corpo. Durante séculos, nas religiões cristãs, se dizia a mesma coisa e, depois, sobretudo no catolicismo, observamos uma imensa evolução. Desde o fim dos anos 1960, a ciência, sobretudo a psiquiatria, mostra cada vez mais claro que o ser humano não é tão simples, tão rudimentar, um compósito de dois componentes que na morte se separam. O ser humano, pelo contrário, é uma estrutura muito mais complexa, de muitas dimensões e nenhuma delas pode separar-se da outra. Em termos simples, na morte, a alma não pode se separar do corpo; isso é impossível e provado cientificamente pela neurobiologia e pela ciência antropológica. Então, se a alma não pode se separar do corpo, não há reencarnação. Mas este fato a maioria dos cristãos não sabe. Por causa disso, sobretudo na Igreja Católica, já se começou um grande trabalho para superar esse dualismo antropológico, para mostrar aos fiéis que a alma não se separa do corpo nem na vida, nem na morte e nem depois da morte. (IHU on line, 02/11/2008).

Pirataria para salvar o capitalismo

A reportagem é Tarso Araújo da revista SuperInteressante de novembro de 2008. Para o economista (e dj) inglês Matt Mason, jovens rebeldes e idéias copiadas podem reinventar a economia.
Tapa-olho, espadas, bandeiras negras e navios de canhões em riste. Esqueça esses adereços. Os piratas mudaram de armas e estão trabalhando ali na esquina perto da sua casa, vendendo os filmes do próximo verão a preço de dvd virgem. Estão mais fortes do que nunca em nossa cultura do "copie e cole" . Sua influência vai muito além dos oceanos e coloca em xeque os maiores impérios comerciais do mundo globalizado. É sobre isso que fala o inglês Matt Mason no livro "O Dilema do Pirata" ( The Pirate´s Dilema, sem previsão de lançamento no Brasil). Ele mistura o que aprendeu fazendo remixes em rádios piratas e clubes londrinos na adolescência com a sua experiência como economista para mostrar que a pirataria é um caminho sem volta. Num texto cheio de histórias saborosas, ele revela como a contracultura, o punk e o hip-hop forjaram uma aliança com as novas tecnologias da informática e da comunicação para mudar para sempre as regras do jogo capitalista. E conclui: isso é bom para todo mundo. Os piratas nos fornecem novos canais de distribuição e consumo, e forçam as empresas a trabalhar duro em busca de produtos que nos agradem mais. De seu apartamento em Nova York, onde vive há 3 anos, Mason explicou como a pirataria pode mudar (aliás, já está mudando) o mundo para melhor.
SI: Muitas indústrias querem prender os piratas. Não tem medo de ser preso?
Mason: Não, porque teriam de prender todo mundo que pratica pirataria. E acho que não querem mandar todos os garotos que estão baixando músicas para a cadeia. Tudo o que fazemos, desde encaminhar um e-mail com uma imagem até tirar uma foto com uma TV no fundo, pode representar violação de direitos. Mas as pessoas a quem me refiro como piratas são aquelas que usam informação de forma realmente não convencionais.
SI: São os jovens, principalmente?
Mason: Sim, porque download, software livre, creative commons e movimento contemporâneo da pirataria fazem parte da cultura jovem. É coisa de gente nova, muito insatisfeita e muito apaixonada pelo que faz, e que quer mudar o mundo e fazer as coisas do seu jeito. A cultura jovem é como um experimento social, em que sempre há novas abordagens para operar o mundo real, fora do mainstream. Se esss idéias são boas, e fazem sentido para muita gente, elas se espalham. É da juventude que vêm as respostas sobre como competir e sobreviver quando a informação não é mais limitada pelas velhas leis de propriedade intelectual.
SI: Então a pirataria e a cultura jovem estão ajudando o capitalismo a se renovar?
Maison: Sim. O dinheiro continua fluindo, mas de um jeito diferente. As pessoas podem gastar menos com cds, mas elas estão ainda apaixonadas pela música e ainda gastam dinheiro com ela, com camisetas, shows etc. Vejo a pirataria como parte natural do capitalismo, que de tempos em tempos o faz mudar.
SI: Por que você entende a pirataria como um velho ingrediente do capitalismo?
Maison: Existem vários exemplod disso. Quando os EUA foram fundados, a política oficial do governo era não reconhecer nenhum tipo de propriedade intelectual, patentes, marcas nem nada. Então começaram a construir suas indústrias contrabandeando o know-how da Revolução Industrial européia. Isso é uma das razões que os levaram a se industrializar tão rapidamente. A fama de contrabantistas dos americanos era tão grande durante o século 19 que os europeus passaram a chamá-los de jankes, uma palavra holandesa usada para se referir aos antigos piratas que, na pronúncia inglesa, acabou virando yankees. Se você for buscar na história de muitas indústrias, também verá a pirataria como um ingrediente realmente importante.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Pensamento do dia

Levanta-te e mira as montanhas, donde te vem o vento, o sol e a água. Tu que diriges o curso dos rios, tu que semeaste o vôo de tua alma. Levanta-te e olha tuas mãos, para crescer, apertar a de teu irmão; juntos iremos, unidos ao sangue, hoje é o tempo que pode ser amanhã". (Victor Jara)

segunda-feira, 30 de junho de 2008

DEU NA IMPRENSA

* "Cerca de 10 mil jovens estão aprendendo a língua portuguesa nos EUA e houve aumento de 20% no número de professores de história do Brasil". (VALOR - Eu & Fim de Semana, 22,28 e 29 de junho de 2008, p.10)
* "A economia se reduz às finanças, o enfoque é o das finanças, sempre. Essa forma de ver o mundo econômico e o mundo material se torna dominante e consensual, no sentido de que ela se instala nas consciências sem que se tenha feito uma opção por ela.(...) O trágico é que apenas uma maneira de ver a economia vai se instalando, vira senso comum". (Revista Caros Amigos, junho/2008, p.13)
* Há o prazer de se praticar o mal e não simplesmente fazer o mal sem nenhum prazer. Por outro lado, o mal pode ser sublimado por meio da arte e da criatividade". (Elisabeth Roudinesco, historiadora e psicanalista francesa, in Entrevista no Estadão, Cad. Cultura, capa, 29/06/2008)

UMA ESTRATÉGIA ÉTICA VIÁVEL

Essa estratégia ética viável e eficiente pode ser resumida nos seguintes pontos:
* Ela deve partir logo do que é mais urgente, de um despertar imediato das consciências e de um projeto de ação organizada, abraçando todos os cidadãos e mtodos os planos da vida pessoal, familiar, social e política.
* Para obter um consenso real e eficiente em torno desse projeto ético, é necessário conciliar valores éticos, de caráter universal, e os interesses particulares, que constituem a motivação mais ampla e atuante da população.
* Semelhante despertar e tal projeto de ação supõem um plano e uma prática de educação, que prolongaria a educação ativa e solidária de Paulo Freire.
* O plano de educação compreenderia as instâncias e os patamares da educação institucional e uma educação permanente, por todos os meios da mídia e orientação da sociedade.
* Toda essa estratégia ecológica estará dependendo de uma vontade política animando os governos, galvanizando a opinião pública e as diferentes formas de organização partidária, profissional, sindical e cultural de cada país e do mundo inteiro. Ao mesmo tempo, ela terá de suscitar e orientar a política, sobretudo a política econômica, educacional e sanitária. (JOSPHAT, CArlos, OP. Revolução univeral do amor, a ética mundial de defesa e promoção da vida, in Revista Convergência- pp. 358-359, CRB, junho/2008)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

APRENDIZ DE HOMERO - Nélida Piñon

“... Educar é também desconsiderar os obstáculos da miséria e do obscurantismo, e fazer a criança sonhar, o adolescente derrubar os entraves culturais, para que pleiteiem um mundo à altura da sua imaginação.


Educar é fazer o aluno fruir dos bens do planeta em todas as suas manifestações. Para que sua fantasia, seu verbo, sua linguagem, sejam libertárias, destemidas, sem freios. É fazer do ato de pensar um feito tão natural quanto respirar. Um dom ao alcance de todos, independente de sua condição.


Educar é defender o exercício e a prática que transformam o sujeito passivo em sujeito da própria história. É dar fé a quem esteja na sala de aula de ser ele uma entidade inviolável, uma aposta do futuro.


Educar é prender o aluno à escola, empenhar todos os recursos para evitar a evasão escolar, a fuga da vida. É despertar nele o desejo de vir a ser um projeto existencial magnífico, sem brechas, fissuras. De vir a se no futuro um congressista, um artista, um escritor, um operário, um mestre. Alguém que, ao explorar sua irrenunciável vocação para a vida, nela inclua como meta o saber, o desvendamento da inteligência, o coração ardente, a mirada camaleônica e reveladora.


Educar é também convencer alunos e cidadãos que o professor é a única entidade social capaz de modificar a sociedade e torná-la melhor. É um ser aparelhado para opor-se à barbárie. Pois quem, senão o Mestre, tem a habilidade de chegar mais perto e rapidamente ao coração jovem que recém deixou as paredes da casa?


Educar é ajudar a traduzir historicamente o que separa os indivíduos, enquanto lhes explica o que pode uni-los sob a tutela da lei e da solidariedade cidadã. É auxiliar a distinguir o que pertence à órbita do individual e o que emerge do coletivo.


Educar é combater a realidade reducionista do aluno, é introjetar em sua caixa de memória o desejo irrenunciável de apropriar-se do conhecimento. É fomentar-lhe o gosto pela leitura que, por si mesmo, combate a resignação, a passividade, e concede-lhe, em troca, infindáveis oportunidades, dando-lhe o acesso, ao infinito mundo.


Educar é fazer crer ao aluno, e por conseqüência à sociedade, que a imaginação está ao alcance de todos. Com ela, esgrime-se o cotidiano, compatibiliza-se o sonho e realidade, apropria-se do que até então, não havíamos aprendido.


Educar é combater o trivial, o frívolo, o que permanece na área dos equívocos acumulados. É ajudar a formar um indivíduo para que ele possa decidir, com rara propriedade, de que modo conduzir sua vida. É permitir que a matéria humana, dada a sua transcendência moral, converta-se finalmente em um ser, uma pessoa, um bem intangível.” (Nélida Piñon – Aprendiz de Homero – Ed. Record, RJ, 2008, pp.236 a 238)

domingo, 1 de junho de 2008

CÉLULAS-TRONCO - Alan Smith

Entrevista - Alan Smith
Cientista inglês aplaude a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias no Brasil
Renata Mariz Da equipe do Correio

De Gramado (RS), onde participou na última semana de um congresso sobre genética, o cientista inglês Alan Smith comemorou a liberação das pesquisas com células-tronco de embriões no Brasil. E adiantou que o país tem um “potencial muito grande no campo da ciência”. Smith publicou, 38 anos atrás, o primeiro artigo sobre o momento exato em que começava a tarefa dos genes que compõem o DNA humano. “Sinto um arrepio até hoje, uma emoção por essa descoberta”, diz Smith, atualmente chefe de pesquisa de uma multinacional no ramo da biotecnologia. PhD em Biologia Molecular pela Universidade de Cambridge, Smith não tem dúvidas de que o futuro, no que diz respeito ao tratamento de doenças, será a terapia celular. “A questão é quando. Isso nós não podemos precisar. Mas acho que temos estudos bem adiantados”, diz, citando pesquisas feitas nos Estados Unidos. Para ele, a terapia derivada de células-tronco, tanto embrionárias quanto adultas, fugirá do convencional padrão de medicamentos de hoje. “O ideal será descobrirmos uma forma de mobilizar as células-tronco dentro do próprio corpo do paciente”, destaca.
CB -Os estudos com células-tronco apresentam perspectivas reais de resultados? Qual tipo, células adultas ou embrionárias, é melhor?
SMITH - Não tenho dúvida que as células-tronco serão a chave para o futuro terapêutico. A questão é quando. Isso nós não podemos precisar. Mas temos estudos bem adiantados. Companhias dos Estados Unidos conduzem atualmente pesquisas em fases avançadas para doenças de rins, transplantes de órgãos sólidos e diabetes. No estágio atual, porém, não podemos dizer que tipo de célula é melhor, embrionária ou adulta. Na verdade, a utilização de células embrionárias é menos um problema científico e mais político, cultural.
CB -Então o Brasil deu um passo correto, ao liberar as pesquisas com embriões humanos?
SMITH - Isso é maravilhoso. Essa decisão abrirá um campo importante de pesquisas. O Brasil é um país muito forte, com um potencial muito grande no campo da ciência. Nos Estados Unidos, ainda existe um debate muito intenso, por conta de relações do tema com o aborto.
CB - Dá para termos uma idéia sobre o formato desse tipo de terapia com células-tronco, quando for uma realidade e já estiver acessível a quem precisa?
SMITH - Ninguém sabe ao certo. Mas eu acho difícil que consigamos manipular as células em um laboratório para, a partir delas, criarmos medicamentos que resolverão problemas de saúde, como ocorre hoje. O ideal, na minha opinião, será descobrirmos que tipo de medicação podemos usar para mobilizar as células-tronco dentro do corpo do próprio paciente. Precisamos investir para que, a cada sinalização das células sobre o aparecimento de uma doença, possamos ativar as células-tronco para que entrem em ação.
( Fonte: http://www.correiobraziliense.com.br/ 01/06/2008)

INTERNET EMBURRECE

O professor MARK BAUERLEIN, diretor de pesquisa e análise da Fundação Nacional para as Artes nos Estados Unidos, que tem sido criticado na imprensa e por internautas, diz que prevalecem na web linguagem pobre e "recreações adolescentes". O ataque começa já no título do livro. É a "geração mais estúpida", anuncia "THE DUMBEST GENERATION: How the Digital Age of Stupefies Young American and Jeopardizes Our Future - Or, don't Trust Anyone Under 30" ("A Geração Mais Estúpida: Como a Era Digital Embasbaca Jovens Americanos e Põe em Risco Nosso Futuro - Ou, Não Acredite em Ninguém com Menos de 30"- lançado nos Estados Unidos, há duas semanas.
Os principais argumentos do livro:
- Aproximação - embora tenham acesso a muita informação, os jovens não têm conhecimento históricos nem interesse por questões internacionais. Na Internet, dedicam-se somente a sites que os aproximam de outros jovens, como o Facebook.
- Leitura de livros - Pesquisas indicam que crianças e adolescentes cada vez menos lêem livros - e cada vez menos acreditam que isso seja algo necessário para a sua formação.
- Dificuldade na escrita - Com a leitura superficial resultante da abundância de informações a que têm acesso na internet, os jovens de hoje têm dificuldade de escrever e de embasar argumentos.
- Passando adiante - Eles não conseguem armazenar informações. Crianças e adolescentes acessam a rede mundial somente para encontrar materiais e passá-lo adiante, "como em um sistema de delivery". (Reportagem do Jornal O Sul, 01/06/2008, pg.7)