segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Metamorfose

LUIZ FELIPE PONDÉ
Por que os clássicos são pessimistas?
Seria o trágico uma moda?
Três mil anos de moda?
AO SER indagado se não tinha esperanças, Kafka disse, "esperanças há muitas, mas não para nós". Janouch narra um dia em que ele, com 20 anos, disse a Kafka, então com 40, "hoje não estou entendendo nada do que você diz". Kafka respondeu "deve ser a misericórdia de Deus, porque sendo você jovem, e estando eu hoje pessimista, se você me entendesse, você ficaria mal". Confessa: "o pessimismo é meu pecado".
Por que os clássicos são tão pessimistas? Seria o trágico uma moda? Três mil anos de moda? Improvável. Na sua coluna de 21 de janeiro, meu colega ilustrado (velha piada entre nós) Marcelo Coelho critica "meu" pessimismo. Colunistas que "matam a esperança" são supérfluos. O bom jornalismo opinativo é pautado pelo conflito de ideias, por isso, agradeço suas críticas. Ele acha que ao duvidar do Iluminismo reforço forças regressivas na experiência humana. Eu penso que o Iluminismo é que é regressivo porque caminha sobre fantasias enquanto os homens caminham sobre tumbas. Nós modernos somos a raça mais covarde que caminhou sobre a Terra. Não escrevo para tornar a vida do meu leitor melhor. Escrevo e leio para não me sentir só. Quando olho os "avanços" da nossa minúscula história, penso: como nos verão em mil anos? Como a decadência do século 17? Rirão de nós porque demos direitos aos ratos, enquanto fizemos dos bebês lixo reciclável pelo direito de gozar mais? Respondo a pergunta "o que eu acho da Revolução Francesa?" com "ainda é cedo pra dizer qualquer coisa".
Imaginem dois africanos no século 19. Um vende o outro como escravo (negros vendiam negros). O escravo é levado para os Estados Unidos e lá sofre todo tipo de horror da escravidão. O outro fica livre e feliz na África. Adiantem o filme. O bisneto do escravo mora nos EUA, casa na praia, filhos na faculdade, e a esposa, bisneta de outro escravo, médica de sucesso. Voltem pra África. Muitos bisnetos do que ficou lá continuam a viver em seus buracos, matando-se do mesmo jeito (como acabou a escravidão, perderam a chance de vender seus "irmãos"). Famílias afundam na miséria. Qual é a moral desta história? Que a escravidão foi uma bênção para os afro-americanos porque os levou para os EUA? E a liberdade do outro, a maldição de seus bisnetos? Os afro-americanos, que hoje celebram a vitória do Obama, depois de muito sofrimento, diriam "ainda bem que nossos bisavós foram escravos"? Não! A escravidão é um horror. A questão é outra: qual o sentido da história humana? Nenhum. A história não é a luta entre a luz e as trevas. Não porque elas não existam, mas porque não sabemos identificar, com o microscópio das ideias claras e distintas de que dispomos, a trama infinita de suas relações. Um homem faz o que pode em meio a opacidade do mundo. Meu pecado é não fazer o marketing da democracia de massa. Falsos sentimentos são comuns nos homens, logo, quanto mais homens, maior a chance de mentira, por isso desconfio de bons sentimentos em grandes quantidades.
Mais? Os índios não vivem em comunhão com a natureza, apenas ficaram na idade da pedra em técnicas de domínio da natureza, como muitos africanos que ficaram na África. A ciência e a política tampouco fazem os homens melhores. O mundo não é dividido entre elite má e pobre bom. Se a elite é cruel, o povo é violento e interesseiro. Os homens não são iguais, alguns são melhores. A igualdade ama o medíocre. É mentira que todo mundo possa julgar as coisas por si só. A propaganda desta mentira gera uma horda de invejosos que sonham em destruir quem eles julgam livres. Supérfluo? Mentira. Num mundo parasitado pelo marketing como forma de vida, ser pessimista é um método. Não se trata de dizer morbidamente "o mundo é mau", mas reconhecer que no humano a verdade é uma ferida incurável. A esperança que conta é a do animal ferido.
Nada disso implica concordar com crianças mortas. O debate ao redor da esperança não é um problema do quão otimista somos, mas o que em nós nos faria colaborar com nazistas na França ocupada, além do medo. Manter o emprego? A chance de destruir alguém melhor do que eu? Tomar a mulher de alguém? Promoção pessoal? Nada mais banal, nada mais humano. Na "Metamorfose", Gregor Samsa, agora uma barata, vê a delícia que é caminhar de cabeça pra baixo com suas perninhas coladas ao teto. Sente-se finalmente feliz. A barata é a otimista em Kafka.
luiz.ponde@grupofolha.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0902200918.htm

A fé e a política, de Vieira a dom Helder

Mauro Santayana
As homenagens que se prestam à memória de dom Helder Câmara permitem algumas reflexões sobre a Igreja e o Estado, a fé e a política. Em um de seus grandes sermões, o da última sexta-feira da Quaresma, em 1662, na capela real de Lisboa, o padre Antonio Vieira vai ao Evangelho de João, para lembrar o Conselho formado dos principais sacerdotes e fariseus, contra Jesus. Era um tempo de passagem em Portugal, depois da morte de dom João IV, que se encontrava sob a regência da rainha Leonor, durante a menoridade de Afonso VI – mais tarde rei, depois incapacitado para o trono, por demência, e confinado nos Açores.

Afirmou Vieira que aquele Conselho servia de exemplo, pelo que havia tido de político e pelo que deveria ter tido de cristão: era necessário fazer alguma coisa contra Jesus, cujos sinais inquietavam. Se não o matassem, viriam os romanos e lhes tomariam toda a nação. Ponderaram ser melhor que um só morresse, do que todos estivessem perdidos. "Dos erros e acertos daquele conselho, diz o orador, determino formar hoje um espelho à nossa corte. Será este espelho de tal maneira político para os cristãos, e de tal modo cristão para os políticos, que se possa ver nele um conselho, e um conselheiro, e também um aconselhado". E fecha o exórdio, ao anunciar que seria bastante claro e rigoroso em seu sermão: "Se for muito liso, e muito claro, isso é ser espelho". O pregador se arriscava, ao afirmar que, naquele episódio bíblico, como políticos, os sacerdotes e fariseus não haviam errado de todo. Três anos mais tarde, ele seria preso pela Inquisição.
Dom Helder Câmara foi sacerdote e político, como fora Vieira, mas provavelmente mais cristão do que o grande pregador, que parecia mais português do que cristão. Relembro encontro que tivemos em Bonn, quando o Brasil se encontrava no pior momento do governo militar. Contou-me que, jovem padre, fora chamado, no mesmo dia, para celebrar a extrema-unção a dois paroquianos agonizantes: um morria de inanição crônica, o outro, de apoplexia, depois de um almoço farto e regado a álcool. "Naquele dia, tomei meu partido". Inúmeros outros sacerdotes, seguindo a Teologia da Libertação, tiveram a mesma posição, no Brasil e em outros países, nas horas em que ser cristão na América Latina era tão perigoso como ser cristão na Palestina sob Tibério, e em Roma sob Nero, ou ser palestino hoje. Lembrar o nome de todos é impossível, tantos foram e tantos continuam lutando contra a injustiça – e este é o caso de dom Arns e dom Pedro Casaldáliga. Alguns chegaram ao martírio na América Latina, e um deles, dom Oscar Romero, marcou o início do reinado de João Paulo II, que – preocupado em derrubar o regime polonês, limitou-se a uma simples mensagem de condolências. Não podia ir além – já estava associado aos norte-americanos.
A Igreja sempre foi política, desde Constantino, mas há épocas em que nela prevalecem sentimentos cristãos, como ocorreu durante o reinado de Roncalli. Sem embargo disso, o atual papa, Bento XVI, está transformando seu predecessor, o cardeal Wojtyla, em homem moderado. Wojtyla não se arriscara a santificar o fundador da Opus dei, não fizera de 400 franquistas beatos, e tomara a decisão de excomungar os seguidores de Lefebvre, em 1988.
De um lado, parece correta a sua posição contra a eutanásia, no caso da jovem italiana. Como político e como cristão, ele está certo em condenar os massacres contra os palestinos. Como cristão e político, tem o dever de voltar atrás de sua decisão, e manter a excomunhão de Richard Williams, que nega o Holocausto. O nazismo atingiu os judeus, mas vitimou também cristãos e comunistas, ciganos e eslavos. Ao negá-lo, suaviza o crime diante da História. O bispo inglês se recusa a admitir seu erro, e diz que vai "pensar no assunto", em entrevista que concedeu a Der Spiegel, e foi conhecida sábado.
Podemos ser cristãos e exercer a política, como têm feito tantos sacerdotes e tantos leigos. Mas, nesse caso, é preciso que o ato político do cristão esteja de acordo com os mandamentos de Cristo, e não conforme as conveniências temporais das igrejas, seja a católica, sejam as outras confissões. O Estado brasileiro é laico. Sendo assim, o ensino de História Natural deve ter como base a ciência, e não a fé, como pretendem alguns. A fé se transmite nos templos, o conhecimento, nas escolas.
http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117672/106297 09/02/2009

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Badulaque 134

Rubem Alves


Ideias Fortes: Nos tempos em que eu praticava a feitiçaria chamada psicanálise estava atendendo uma paciente e ela disse:“
— É, eu tenho ideia fraca...”
Num tom de brincadeira interferi:“
— Alto lá! Nessa sala somente eu tenho ideias fracas...”
Ela ficou espantada e não entendeu.
Aí eu expliquei: “Eu penso as mesmas loucuras que você pensa...”
Levantei-me e a chamei para ir ver o quadro de Hyerônimus Bosch Jardim das Delícias. É uma loucura completa. De onde Bosch tirou aquelas coisas medonhas? De dentro de sua própria cabeça. Quer dizer: a cabeça de Bosch era morada de loucuras, um hospício. Mas ele não era louco. Era um artista, pintor. Ele não era louco porque suas idéias eram “fracas”. Ele sabia que não eram verdades. Só existiam na sua cabeça. Agora, se ele pensasse que suas idéias eram realidade, ele gritaria de horror.
“Eu penso as mesmas coisas estranhas que você”, continuei. Mas sei que são só pensamentos, nuvens brancas levadas por uma brisa. Sou dono deles. E com eles eu faço literatura. Mas os seus pensamentos são fortes. As nuvens brancas se transformam em nuvens negras, e chove, com trovões e relâmpagos, e você fica toda molhada. Você não é dona deles. Eles são mais fortes que você... Você fica “possuída”, por eles...”
Minha música
Dizem que a razão por que se embalam as criancinhas em ritmo binário é porque durante nove meses ouvimos a pulsação binária do coração da nossa mãe. O ritmo binário do coração da mãe se inscreve no corpo da criancinha como uma memória tranqüilizadora. Se isso é verdade tem de ser verdade também que a música ouvida em tempos anteriores à memória consciente, no sono fetal, torna-se parte na nossa carne. Comecei a ouvir música antes de nascer. Minha mãe era pianista e tocava. A música clássica é parte da minha carne.
Não é meu costume ouvir música enquanto escrevo. Fico possuído pela música, numa espécie de êxtase, e isso faz parar meus pensamentos. Contrariando o meu hábito coloquei no aparelho de CD uma peça que nunca ouvira, sonata para violino e piano de César Frank, autor de Panis Angelicus. Minutos depois eu estava chorando. Aí interrompi o choro e fiz um exercício filosófico. Perguntei-me: “Por que é que você está chorando?” A resposta veio fácil: “É por causa da beleza...” Continuei: “Mas o que é a experiência da beleza?” Sem uma resposta pronta veio-me algo que aprendi com Platão. Platão, quando não conseguia dar respostas racionais, inventava mitos. Ele contou que, antes de nascer, a alma contempla todas as coisas belas do universo. Essa experiência é tão forte que todas as infinitas formas de beleza do universo ficam eternamente gravadas na alma. Ao nascer nos esquecemos delas. Mas não as perdemos. A beleza fica em nós, adormecida como um feto. Todos estamos grávidos de beleza, beleza que quer nascer para o mundo qual uma criança. Quando a beleza nasce reencontramo-nos com nós mesmos e experimentamos a alegria.
Agora vem a minha contribuição. Continuo o mito. Há seres privilegiados — eles bem que poderiam ser chamados de anjos — aos quais é dado acesso a esse mundo espiritual de beleza. Eles vêem e ouvem aquilo que nós nem vemos e nem ouvimos. E eles transformam então o que viram e ouviram em objetos belos que o corpo pode ver e ouvir. É assim que nasce a arte. Ao ouvir uma música que me comove por sua beleza eu me reencontro com a mesma beleza que estava adormecida dentro de mim.
“Quando te vi amei-te já muito antes. Tornei a encontrar-te quando te achei.” Essa é a mais bela declaração de amor que conheço, escrita pelo anjo Fernando Pessoa. Tu já estavas dentro de mim antes que te encontrasse. O nosso encontro não foi encontro; foi reencontro... Isso que o poeta diz para um homem ou uma mulher pode ser dito também para uma música: “Quando te ouvi, ouvi-te já muito antes. Tornei a ouvir-te quando te ouvi...”
O que me comoveu, então, não foi a música de César Frank. Foi a sonata que estava adormecida dentro de mim e que a sonata de César Frank fez acordar. Ao me comover com a beleza da música eu me reencontro com a minha própria beleza. Por isso a música me traz felicidade...
*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador. Correio Popular,Campinas,SP, 08/02/2009
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1619150&area=2220&authent=74DEA99ED6730274FCA9BCD6510256

sábado, 7 de fevereiro de 2009

O protetor

Os homens, quando superam suas desconfianças naturais, procuram organizar-se (induzidos pelo instinto e pela razão), de forma a que cada um possa realizar livremente suas potencialidades, cooperando para que todos possam fazer o mesmo sob a proteção do conforto e da segurança que a organização lhes dá. Mas eles têm de resolver um problema não trivial: como, coletivamente, prover a subsistência material?
O longo processo de seleção produzido pela interação da diversidade genética e a capacidade de adaptação às variações da natureza foram, paulatinamente, transformando o animal-homem, reduzindo a sua animalidade e ampliando a sua humanidade. Foi assim que o animal-homem chegou, em 200 mil anos, ao homem-animal de hoje. Nessa dramática construção, ele experimentou tudo e descobriu algumas coisas fundamentais:
1. O cimento que torna possível a sociedade é a confiança depositada por seus membros entre si. Ela é reforçada por instituições adequadas, garantidas por um Estado (consentido) necessário, que precede a organização social.
2. A confiança é a base para a divisão do trabalho, que amplia dramaticamente a produtividade de cada um pela sua especialização.
3. Como cada um produz para satisfazer as necessidades dos outros, isso exige a organização de mecanismos de troca dos produtos do trabalho. Ou seja, o estabelecimento de equivalência entre eles (preços) e a criação de uma unidade universal de medida (a moeda) e seu prolongamento fundamental (o crédito). Esses, por sua vez, dependem essencialmente da confiança que lhes imprime o Estado.
4. Se o Estado garantir que cada um pode apropriar-se livremente dos benefícios de sua iniciativa, os produtores (também consumidores) tendem a se autoorganizar naturalmente em mercados. Daí a oferta de cada produtor (resultado do seu trabalho) e a demanda de cada consumidor (dos múltiplos trabalhos dos outros) acabam estabelecendo (surpreendentemente) um sistema de equivalência (de preços) que as acomoda.
5. A proteção pelo Estado dos benefícios derivados da liberdade de iniciativa e da capacidade inventiva e inovadora de alguns homens (os empresários) incorpora novas tecnologias e avanços da ciência no processo produtivo que substituem o esforço físico (o trabalho manual do homem) pelo consumo da energia.
6. Essa organização, protegida por instituições sustentadas por um Estado constitucionalmente forte, permite ao homem usufruir da liberdade individual e diminuir o tempo necessário à sobrevivência material.
7. A combinação da liberdade com a eficiência produtiva por meio dos mercados apresenta dois problemas: o nível da atividade produtiva tende a flutuar insitamente e, sendo altamente competitiva, ela tende a ampliar as diferenças de renda entre as pessoas, cuja solução exige a intervenção corretiva da própria sociedade representada no Estado.
Essa história mostra que o Estado precede e sustenta a confiança, condição básica para o bom funcionamento do circuito econômico (em que o dispêndio de um é a renda do outro). Quando, por qualquer motivo, ela é destruída, como na crise que estamos vivendo, sua reconstrução exige a mais radical intervenção temporária do Estado na economia. Quando ele é controlado por uma Constituição que garante a propriedade privada e a liberdade individual, isso não coloca em risco as virtudes do sistema (liberdade individual mais eficiência produtiva).
Talvez a solução da atual crise da confiança no sistema financeiro exija uma solução cirúrgica: nacionalização dos bancos sem indenização aos acionistas, responsabilização dos administradores, segregação do resíduo podre numa agência especial e imediato leilão da parte hígida para novos controladores. Nos países civilizados e com democracias consolidadas, não há risco para o sistema. Naqueles, entretanto, em que tal condição não se verifica, a solução apresenta graves riscos para as liberdades individuais: o monopólio do crédito nas mãos do Estado é uma tentação insuperável para obter o monopólio do poder.
A economia de mercado, cujo codinome é capitalismo, é um corpo vivo que se adapta e regenera. Combinando a liberdade individual com a eficiência produtiva revolucionou o bem-estar do mundo nos últimos 250 anos, depois de milhares de anos de estagnação. O capitalismo precisa e merece aperfeiçoamentos. É muita ignorância histórica propor que podemos substituí-lo, com uma mudança radical e sem o risco de perder, primeiro, a eficiência e, logo depois, a liberdade.
*Delfim Netto, economista e colunista da Revista Carta Capital.
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=3327 - o6/02/2009

Parece, mas não é

CLÁUDIA LAITANO

Crianças de hoje em dia dizem palavras difíceis com a tranquilidade de quem masca chiclete (“inconstitucionalissimamente” já não quebra a língua de ninguém, façam o teste...), começam a ler em inglês sem que ninguém ensine e aprendem a mexer no computador muito antes de tirar as fraldas. São seres complexos esses meninos e meninas deste começo de século. Informação em excesso, rapidez de raciocínio, um mundo de ideias alheias ao alcance de um Google, tudo isso acompanhado de uma certa arrogância – que é o efeito colateral da inteligência quando falta a sabedoria. Invencíveis no videogame e hábeis em tarefas que ainda parecem complicadas para a maioria dos adultos, como montar em cinco minutos um powerpoint cheio de efeitos mirabolantes, as crianças parecem sempre prontas a jogar na cara dos pais a constatação de que são elas que dominam as regras do jogo – pelo menos no que diz respeito ao onipresente universo da tecnologia.
Para os adultos, é fácil confundir os garotos espertos de 10 anos com um adolescente de 15. Eles às vezes ouvem as mesmas músicas, jogam os mesmos jogos, até leem os mesmos livros – caso de séries como Harry Potter e Crepúsculo. Tudo que uma criança quer, aos 10 anos, é ser tão bacana quanto o primo de 15 – enquanto o pessoal de 15, 20, 25 não parece com pressa nenhuma de sair do ninho. É como se existisse de repente uma superlotação de gente na adolescência: as crianças que estão acelerando a saída da infância, os adolescentes que adiam ao máximo as responsabilidades da vida adulta e ainda os adultos que se esforçam para voltar no tempo. Mas a fantasia peter-pânica de ter eternamente 15 anos é apenas isso: um sonho, uma fachada. Se uma bela e jovial senhora de 40 anos tatuar um dragão nas costas, usar uma minissaia de ursinhos e um par de passadores da Hello Kitty no cabelo nem assim será confundida com uma adolescente. Algumas marcas do tempo nem o Pitanguy apaga.
Com as crianças é mais ou menos a mesma coisa. Por mais descolados, espertos ou sexualmente precoces, não deixam de ser o que são: pessoas em idade de desenvolvimento, afetivamente imaturas e incapazes de tomar decisões que podem ter um impacto em suas vidas que elas ainda não têm condições de dimensionar. E crianças devem ser protegidas de tudo aquilo que ainda são incapazes de resolver sozinhas – pelos pais, pela escola e, em última instância, pela lei e pelo Estado. Por esse motivo, há leis que obrigam que frequentem a escola, que não trabalhem, que no caso de um crime não sejam tratadas como adultos.
Para o desembargador Mario Rocha Lopes Filho, relator do processo que considerou que a relação sexual consentida entre uma adolescente de 12 anos e um homem de 20 não é estupro presumido, a norma em vigor está desafasada e precisa ser relativizada. Ele argumenta que, em alguns casos, meninas com menos de 14 anos de hoje em dia já têm capacidade de decidir sobre sua vida sexual – partindo desse ponto de vista, meninas de 12 anos deveriam poder decidir também se estudam ou não e se trabalham ou não, suponho.
Em um país em que a gravidez precoce é endêmica, essa decisão pode ser considerada um enorme desserviço em termos de saúde pública. Mas o que se percebe nessa leitura das meninas de “hoje em dia” não é apenas um equívoco social, mas psicológico. Há uma brutal confusão entre forma e conteúdo, entre essência e aparência. Adulto não é quem parece adulto, fala como adulto e diz que é adulto. Maturidade, inclusive para cuidar do próprio corpo e lidar com as consequências de uma gravidez, é outra coisa. Algumas meninas têm a sorte de contar com a orientação dos pais e da escola. Outras não – e essas, infelizmente, às vezes não podem contar nem com a proteção da lei.

Novas páginas a escrever na história dos e-books

MARK COKER

Especialista americano diz
que crise
fará autores assumirem
a edição

Cláudio Soares*

De segunda-feira a sábado, tem lugar em Nova York a terceira Tools of Change for Publishing Conference, encontro em que são debatidas as ferramentas tecnológicas que estão mudando o setor editorial americano ­ e, é claro, do mundo. Mark Coker, fundador de uma das principais empresas de autopublicação de escritores independentes do Vale do Silício, a Smashwords, é uma das estrelas do evento, no qual coordenará o painel "The Rise of E-books". Nesta entrevista, ele fala sobre a mudança de postura que o crescimento dos livros eletrônicos, comprovado por pesquisas recentes nos Estados Unidos, deve provocar em editoras e escritores.

De acordo com pesquisa publicada pela American Association of Publishers [AAP], os e-books ascenderam novamente, gerando crescimento anual nas vendas de 55% entre 2002 e 2007, versus o anêmico crescimento no comércio global de livros, de apenas 2,5%. Segundo o International Digital Publishing Forum [IDPF], a venda de e-books nos Estados Unidos cresceu 108% em novembro, enquanto as vendas globais da indústria diminuíram. O que representa esse aumento de interesse nos e-books, e como eles cabem nas estratégias para edição digital? ­
Dez anos atrás, havia uma grande agitação a respeito de como e-books mudariam o mundo. Mas eles falharam no cumprimento de tais expectativas e foram considerados um fracasso. Falharam por diversas razões: primeiro, foram penalizados por usarem esquemas de Digital Rights Management [DRM, ou Gerenciamento de Direitos Digitais] para evitar cópia ilegal. Clientes odeiam o DRM, por tratá-los como criminosos e limitarem a sua capacidade para usufruir dos livros. Em segundo lugar, a tecnologia das telas ainda não estava suficientemente avançada para oferecer uma experiência agradável de leitura. Além disso, os preços eram demasiado elevados. Os editores tentavam cobrar por um livro digital o mesmo preço de livros impressos de capa dura. Por último, havia disponibilidade limitada de conteúdo. Hoje, começamos a ver esses problemas resolvidos ou melhorados. Editores que pensam à frente começam a dispensar o DRM, mas ainda temos um longo caminho pela frente. A tecnologia das telas melhorou drasticamente em todos os dispositivos, incluindo os leitores dedicados aos e-books, como Kindle e Sony Reader, os telefones inteligentes, como o iPhone, e os computadores pessoais de baixo custo. Os preços caíram, mas ainda precisamos de mais progressos. Por isso, é claro, a quantidade de conteúdos disponíveis no em e-books está explodindo.
Em seu artigo `A ascenção dos e-books', publicado no final de janeiro no Teleread.org [blog dedicado aos e-books, bibliotecas digitais e tópicos relacionados], o senhor afirmou que os autores precisam começar a expor os seus livros nos domínios digitais. Por que isso é tão importante? ­
A indústria editorial passa por uma dramática mudança, especialmente nos EUA. A desaceleração econômica mundial tem exacerbado os problemas estruturais fundamentais que já existem há muitos anos. Como resultado, do lado dos editores, provavelmente veremos uma maior fusão entre as empresas (haverá poucas grandes), menos editores se expondo a grandes riscos com autores desconhecidos, e primeiras tiragens menores. Do lado da distribuição e vendas, veremos uma consolidação maior entre as livrarias, o que nos Estados Unidos significará menos lojas e menos prateleiras exibindo livros impressos. À medida que os e-books começarem a representar um aumento percentual nas vendas, é possível que isso aconteça à custa da venda de livros impressos. Mesmo se um, dois ou três pontos percentuais de vendas de impressos passem para os livros eletrônicos, as livrarias sentirão um impacto muito grande sobre os seus negócios, porque muitas lojas já estão lutando para manter o lucro. Entretanto, ainda não entendemos bem o impacto que os livros eletrônicos terão sobre os impressos. Se por um lado é possível que os e-books canibalizem as vendas dos impressos, também é possível que o efeito líquido seja que as vendas dos e-books ajudem a impulsionar as vendas de livros impressos, à medida que os leitores desejem adicionar edições impressas às suas bibliotecas. Tais mudanças terão um impacto dramático sobre os autores. Estamos prestes a ver muitos escritores talentosos ficarem órfãos de editores. Veremos também ser negada a estreantes talentosos a oportunidade de publicar em formato impresso nas principais editoras. Os blogs oferecem um roteiro útil para o que poderá acontecer com a autoria de livros digitais. Muitos dos primeiros blogueiros de cinco a dez anos atrás agora estão entre os mais populares da internet. O mesmo acontecerá com os autores.

Como é que os e-books socialmente publicados resolvem o problema dos custos dos livros? ­
Livros impressos são um luxo caro, menos para os habitantes literatos mais ricos do mundo. Quando você olha a tradicional cadeia de abastecimento para um livro impresso, vários intermediários adicionam custos para o livro à medida que este faz o seu caminho do autor ao leitor. Muitos livros seguem o fluxo autor-agente-editora-gráfica-distribuidor-li vreiro-cliente e, em seguida, há o custo do transporte de todos esses livros-feitos-de-árvores-mortas para frente e para trás. Quando um autor autopublica seu livro em formato digital, gera um colapso dramático na tradicional cadeia de abastecimento. Em muitos casos, a nova cadeia torna-se autor-cliente ou autor-livraria on-line-cliente ou, ainda, autor-distribuidora on-line-livraria on-line-cliente e, desde que bits e bytes digitais custam praticamente nada para serem enviados pela internet, grande parte do custo do livro é eliminado. Isso significa que autores de e-books autopublicados podem oferecer seus livros a um custo drasticamente menor por cópia, enquanto fazem um lucro maior por unidade. E quando o preço de qualquer coisa diminui, significa que o produto é comprável por um leque maior de clientes.

Que novas práticas comerciais os editores tradicionais deveriam adotar? ­
Os editores precisam digitalizar rapidamente os seus catálogos, derrubar o DRM e adotar estruturas de preços mais razoáveis para seus livros digitais. Devem experimentar diferentes metodologias de venda digital. Podem considerar a oferta de assinaturas de seus catálogos, ou subgrupos de catálogos, ou ofertas de pacotes, ou combinar seus livros impressos com e-books. Há todo um número de permutações possíveis. É importante que os editores comecem a experimentar agora a ver o que funciona melhor para os seus negócios, seus autores e clientes.

Na indústria da música, temos visto um grande movimento em direção aos artistas indie que alavancam a democratizar a produção, comercialização e venda de música na internet. Isso começa a aparecer no mercado de livros. O que essa tendência pode significar para as editoras tradicionais? ­
A maioria dos autores foi treinada para acreditar que o melhor método de publicação é com uma editora tradicional. Admiro o inestimável papel dos editores de encontrar os melhores autores, cuidar deles e viabilizar sua distribuição. No entanto, com os novos desafios, elas estão sendo menos capazes de investir neste serviço. Isso significa que alguns autores talentosos serão marginalizados. Um número crescente de autores percebe que o ônus da publicidade do livro está caindo sobre seus ombros. À medida que as editoras passem essa responsabilidade para os autores, estes vão começar a perceber que podem se tornar seus próprios editores.

Kevin P . Casey/The New Y o rk Times
*Escritor, analista de TI e editor do Pontolit (www.pontolit.com.br)
Íntegra no blog do Ideias (www.jblog. com.br/ideias.php)
http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117670/106195 07/02/2009

Amores e Cifras

JOAQUIM ZAILTON BUENO MOTTA
A bonita esposa nem percebia o real motivo daquele comportamento, mas vivia se escondendo em um aposento dos fundos, evitando os cômodos bem decorados da sua elegante casa. Na planta original, seria dependência para uma funcionária doméstica, mas agora ela o transformara em um quarto de costura, ali permanecendo por várias horas, todos os dias.
Quando o casal recebia parentes ou visitas, ela servia um café e logo se retirava, anunciando que agora era dona-de-casa e tinha que “cuidar dos cortes”. O marido notou a tendência e, inicialmente, provocou-a com brincadeiras, dizendo nunca ter imaginado casar-se com uma costureira... Depois, começou a se preocupar, pois ela tinha escolaridade de pós-graduada e nunca antes prezara essas funções. Ele insistiu em que ela procurasse ajuda.
Na terapia, a moça disse que conhecera o marido na empresa onde trabalhou até o casamento, que ele era um dos sócios e que ela havia se casado por interesse. E ainda expressava que o único lugar daquela casa que lhe cabia era o “quarto de empregada”.
Ao longo do decurso psicoterapêutico, ela conseguiu dimensionar a extrema idealização que fazia do amor. Na sua perspectiva, se amasse o marido, não poderia se entusiasmar por nenhuma sofisticação ou luxo que ele proporcionasse.
Um livro publicado recentemente nos EUA, The Secret Currency of Love (A Moeda Secreta do Amor), compilado pela jornalista e escritora Hilary Black, realça o confronto entre amor e dinheiro, mostrando a dificuldade dos pares (especialmente das mulheres) conversarem sobre a vida financeira.
Idealizar o afeto pode prejudicá-lo significativamente. Imaginando amar de modo imperfeito (o que é normal e óbvio para nós, seres humanos), a pessoa pode desistir de uma relação que contém o mínimo afetivo necessário para se viabilizar. E o pior: jamais conseguirá aprimorar esse nível.
Os interesses materiais embutidos nos vínculos são os referenciais que determinam as falhas afetivas, dentro dos paradigmas da cultura ocidental baseados na moral judaico-cristã e inspirados na moção romântica.
Oscar Wilde, dramaturgo, escritor e poeta irlandês, expoente da literatura inglesa durante o período vitoriano, enfrentou a intolerância e o puritanismo da época. Uma de suas mais interessantes sentenças ilustra bem o maniqueísmo dos indivíduos que oscilam entre o dinheiro e o sentimento: “De um lado, os cínicos, que conhecem o preço de tudo, mas não sabem o valor de nada; de outro, os sentimentais, que vislumbram um valor incomensurável em tudo, mas não sabem o preço de nada”.
As idealizações do amor apontado como perfeito à medida que seja isento de interesse material são focos de muitas novelas em que os protagonistas abrem mão de riqueza financeira, cargos, cetros. Quase sempre, porém, o final feliz inclui a reconquista do trono, uma herança inesperada, induzindo à conclusão de que esses ideais estarão contemplados exatamente pelo que devem desvalorizar...
Os enredos da realidade também se sujeitam a esses estigmas. Nos eventos do GEA (Grupo de Estudos sobre o Amor) — interaja no site www.blove.med.br —, solicitamos uma colaboração voluntária para ajudar nas despesas. Esse pedido já foi criticado como antagonismo ao afeto!
O ex-reitor da Unicamp, José A. Pinotti, em artigo recente no Correio, comenta: “Talvez a síntese — como diria Hegel na sua teoria dialética historicista da tese antítese e síntese — é o que deveria acontecer agora, ou seja, aproveitar a crise para sairmos dela com algo diferente: mais valor ao trabalho e ao conteúdo das pessoas menos ao capital; educação e saúde como direito e não como mercadoria; vida digna a todos, mais cidadania e menos ditadura apócrifa do capital.”.
O amor se aperfeiçoa à medida que reconhecemos nossa capacidade limitada e imperfeita de amar.

*Joaquim Zailton Bueno Motta é médico psicoterapeuta e sexólogo.
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1619060&area=2190&authent=7E743BBFEEFBB246E6032DD6698AD4

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Do território aos tempos líquidos

Osvino Toillier*
Quando se tem um problema, corre-se o risco de escolher um boneco e bater nele. Para evitar isso, creio que se precise analisar o cenário e avaliar a repercussão das mudanças em todos os níveis da sociedade, evitando simplesmente encontrar culpados.
Subliminarmente, transcende das declarações de entrevistados e articulistas certa saudade da boa escola tradicional, com horário ampliado, respeito ao professor e disciplina clara, conteúdo forte, exigência de estudo, enfim, era o tempo das certezas. Ia-se à escola para aprender, e o professor desdobrava a aula com competência e sabedoria. Sou fruto desse paradigma, muito grato por tudo que me ensinaram e, de certa forma, trabalhei com esse modelo, introduzindo inovações que as transformações sinalizavam, levando à sala de aula novos procedimentos, sem nunca esquecer as antigas e boas práticas.
Queiramos ou não, estamos há muito vivendo transformações profundas e mudanças radicais. É preciso dar-se conta de que temos novo aluno na sala de aula, turbinado por estímulos, que o fazem estar plugado em diversas coisas ao mesmo tempo, não mais disposto a apenas ouvir o professor e prestar atenção nas explicações. Possivelmente tenha consigo celular, verdadeira central de multimídia.
Algumas inovações, como micro-ondas, computador, celular, mudaram a cara do mundo, e não dá para desconhecer essa realidade na análise do comportamento de crianças e jovens em sala de aula. Eles são fruto de novo tempo, e cada geração imprime novas formas de ser ao universo de suas vidas.
A travessia do território das certezas para os tempos líquidos – em que tudo se torna volátil e relativo – é de penosas indefinições. No dizer, Sygmunt Bauman, “o novo padrão de vida líquido-moderno, permanentemente transitório, está sendo testado e pesquisado”. E nessa passagem se decompõem e dissolvem mais rapidamente valores consagrados do que se leva para construir referenciais para novo tempo, o que necessariamente não precisa significar que as verdades de outrora precisam ser jogadas fora do barco.
Temos de retomar, urgentemente, algumas questões fundamentais: a sala de aula deve ser o reator da usina nuclear chamada escola; o professor deve voltar a ser autoridade prestigiada por todos e ter consciência de que se impõe novo jeito de dar aula; aluno não é cliente, é educando e como tal precisa ser tratado; avaliação externa é importante, mas não pode ser o único parâmetro, há coisas que não se medem com régua e compasso na educação; sem corpo docente motivado e valorizado, não existe projeto de educação que dê certo; tornamo-nos aprendizes para o resto de nossas vidas, e isto implica atualização permanente.
Educação é projeto de Estado e não de governo, e precisa desplugar-se de viés ideológico-partidário e corporativo e, sobretudo, tornar-se projeto de sociedade, incluindo as diversas vertentes da livre- iniciativa.
*Presidente do Sinepe/RS
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2395258.xml&template=3898.dwt&edition=11650&section=1012 -06/02/2009

Eu tive um pai...

"Eu tive um pai que nasceu muçulmano,
mas se tornou ateu,
avós que eram
metodistas e batistas
não praticantes e
uma mãe
que era cética
em relação a religiões organizadas,
mesmo tendo sido a pessoa
mais bondosa
e mais espiritualizada
que conheci"
BARACK OBAMA

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Nós falimos e vós falis, ninguém mais!

Dionísio da Silva*
Uma boa notícia para este começo de 2009 é que ele e eles não podem falir. Aliás, tu também não podes falir. E digo mais: até eu não posso falir.
Quem garante é a norma culta da língua portuguesa. Falir veio do latim fallere, enganar, fracassar, naufragar. O mesmo étimo está presente no inglês, o latim do império: fail, sinônimo de break, quebrar, become insolvent, tornar-se insolvente, go bankrupt, ir à bancarrota. Na linguagem de advogados e economistas significa "suspender os pagamentos aos credores por impossibilidade de satisfazê-los e ter declarada judicialmente a falência".

Quem quiser falir no presente, pode fazê-lo também em italiano. O verbo é conjugado em todas as pessoas do presente do indicativo: io fallisco, tu fallisci, egli fallisce, noi falliamo, voi fallite, esse faliscono.
Somos um país feito por imigrantes, muitos dos quais vieram do país de Dante. Não será difícil falir em italiano, já que muitos oirundi faliram, faliriam, faliam e falirão, pois o verbo é conjugado em todos os tempos, modos e pessoas no italiano. O Acordo Ortográfico não vai mexer nesta questão. E o verbo falir continuará defectivo na primeira, na segunda e na terceira pessoas do singular. Na língua portuguesa, nós falimos e vós falis, todas as outras pessoas não podem falir. Pelo menos, no tempo presente do modo indicativo.

O presente do subjuntivo é ainda mais radical. Nenhuma das três pessoas do verbo, tanto do singular como do plural, poderá sequer desejar que venha a falir. Leitores, se alguma autoridade obrigá-los a falir, somente o fará de modo solene, na segunda pessoa do plural: "Fali vós". Mas alguma autoridade dirá isso?

Acho que não. As quebradeiras dispensam as solenidades, ainda que adorem os eufemismos. Lemos que houve descontinuidade no trabalho, não desemprego em massa. Mortes em Gaza? Não, é mais bonito dizer baixas, como se diz dos assassinatos em todas as guerras. Genocídio, vulgo acabar com a raça deles, nem pensar. Limpeza étnica, apesar de a expressão ser horrorosa, soa menos horripilante. Afinal, limpar veio de limpo, do latim limpidus, claro, transparente. O propósito é evitar o disfemismo, antônimo de eufemismo. Disfemia em grego é palavra de mau agouro, blasfêmia. Já eufemismo, do grego euphemismós, pelo francês euphémisme, hoje designa modo de dizer que doura a pílula das palavras para que ouvintes, espectadores e leitores engulam o que a mídia lhes enfia olhos adentro, goela abaixo.

Os políticos não usam mais a segunda pessoa do plural. Os tempos são outros. Getúlio Vargas ainda cultivou a solenidade da segunda pessoa do plural. Nos discursos e na carta com que fez seu testamento político, diz: "Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte". "Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta".
O jornalista Mylton Severiano, entrevistando o professor e sociólogo Francisco de Oliveira na revista Caros Amigos (Ano XII, número 142, janeiro de 2009) lembra a previsão de Graciliano Ramos: o comunismo não daria certo no Brasil porque o proletariado não sabia o que queria dizer uni-vos. Ouve em resposta que o movimento das ligas camponesas "nasceu para comprar caixão de defunto", pois "morria anjinho todo dia".

Os antigos romanos designavam proletarius aquele cuja única produção era a proles, prole, que só sabia fazer filhos. A mortalidade infantil e as proles já não são tão grandes, mas ainda estão ligadas a outras questões delicadas, que se não forem resolvidas levarão muitos à falência, palavra do mesmo étimo de falir e de falecer.

Deonísio da Silva é vice-reitor de cultura e coordenador de letras da Universidade Estácio de Sá http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117668/105951 05/02/2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Nós, canhotos

DIANA CORSO
Quem me conhece sabe que possuo duas mãos esquerdas. Apenas a minha melhor esquerda fica do lado direito, o que sempre me fez passar por destra

Canhotos são como os muito altos, muito baixos, gordos e outros tipos de pessoas fora de padrão. O drama dos baixinhos também não me é estranho. Para os que são fora das medidas e funcionamento padronizados, o mundo precisa de adaptações. Além dos problemas para caber ou alcançar sofridos pelos fora de talhe, estão os de uso dos objetos, que associa os canhotos aos portadores de deficiências motoras. Cadeiras de braço, tesouras, abridor de lata, o mouse deste computador em que escrevo, enfim, todos objetos são pensados para servir à mão dominante. Os que precisam vencer essa inadequação dos objetos ao seu uso dificilmente tenderão à onipotência, à soberba. Os canhotos já receberam uma primeira mão de cartas pouco propícia, terão que ser bons jogadores. Portanto, não somente por ser afrodescendente Obama tem credenciais para o que o mundo espera de sua gestão, mas também por ser canhoto.
Dizem que os canhotos teriam mais condições de ter uma visão abrangente das coisas por serem obrigados à constante experiência da bilateralidade e da inversão espacial. Não sei se isso é neurologicamente procedente, mas acredito que esse esforço de adaptação pode produzir um efeito psicológico interessante: quando se enfrenta algum obstáculo, todo gesto deixa de ser automático, é preciso criar uma solução, analisar o problema, as condições.
Drummond escreveu, para si mesmo, “vai Carlos, ser gauche na vida”, por isso diziam que ele era um “destro com alma canhota”. Gauche, em francês, é esquerdo, mas também desajeitado, malfeito. É pejorativo, mas é do lado esquerdo da tribuna que têm se sentado todos aqueles que tentam ver as coisas desde outra perspectiva.
Suponho que, para Drummond, gauche era a condição de todos aqueles que se sabiam fracos, que se sentiam tontos frente a um mundo maior que sua Itabira natal. Infelizmente não sou poeta nem Obama, mas sou mulher, estrangeira, judia e para complicar as coisas, psicanalista. Por todas essas coisas me considero um tipo de canhota, compartilho o ponto de vista dos que sentem a diferença e vivem com certo esforço de adequação.
Sempre acreditei que são os canhotos que vão endireitar este vasto mundo sem solução. Por isso espero algo da era Obama. Veremos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Bloco esquerdista na América Latina

Michael Hardt
Entrevista
Autor de ‘Império’
diz que encontro de presidentes
durante Fórum Social
aponta integração regional que
poderia servir como contrapeso
ao domínio americano
e europeu

Leda Rosa
SÃO PAULO

A possibilidade da formação de um bloco político com feições mais à esquerda, composto por Brasil, Venezuela, Equador, Bolívia e Paraguai foi um dos mais importantes ganhos da nona edição do Fórum Social Mundial (FSM), que reuniu cerca de 100 mil ativistas em Belém para discutir a Amazônia e a crise da economia mundial. Esta é a opinião do professor Michael Hardt, da Duke University (EUA), e fiel participante das edições anteriores do evento. Para ele, o autor de Império e Multidão – guerra e democracia na Era do Império, o FSM cumpriu seu papel de reunir os movimentos sociais. Sobre a crise da economia, Hardt diz, em entrevista exclusiva ao Jornal do Brasil, que a turbulência marca a morte do neoliberalismo e do unilateralismo americano.

Há seis anos, no Fórum Social de Porto Alegre, o senhor já reclamava que o evento deveria propor mais idéias. Quais seriam as três principais propostas deste Fórum Social?
Infelizmente, seis anos atrás, o jornalista me entendeu mal. O que eu disse é que o fórum não tem idéias e que ele não deverá ter idéias ou tomar decisões. Em vez disso, é um espaço para os movimentos sociais se unirem e encontrarem-se. Os movimentos sociais são os que devem propor idéias e tomar decisões. E eles têm muitas idéias – tantas, na verdade, que sou incapaz de eleger as três principais.

A crise sepulta o neoliberalismo ou se trata apenas de queda importante, mas passageira?
A crise atual marca a morte de gêmeos: o neoliberalismo e o unilateralismo dos EUA. Neoliberalismo e unilateralismo americano, evidentemente, não são a mesma coisa, mas formaram um par indissociável, no mínimo, durante a década passada. Depois de uma série de falhas (militarmente no Iraque e no Afeganistão, economicamente com os fracasso das políticas econômicas baseadas no Consenso de Washington em todo o mundo, e a incapacidade de obter consenso político de outros países), a crise marca a morte destes gêmeos. Os mortos, infelizmente, ainda devem continuar por aí durante alguns anos e ainda podem causar danos, mas já estão mortos.

E como o Império vai agir a partir de agora?
As mortes daqueles gêmeos determinam um período de reorganização interna das hierarquias do Império. Os Estados Unidos já não podem comandar os temas políticos e econômicos e o capital global. Devem procurar uma nova estratégia de gestão e controle.

Neste contexto, que papel caberia à América Latina?
A reunião dos cinco presidentes – Luis Inácio Lula da Silva (Brasil), Evo Morales (Bolívia), Hugo Chávez (Venezuela) e Rafael Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai) – em Belém representa um forte desenvolvimento de uma possível integração. Um bloco regional de governos esquerdistas na América Latina poderia ter o poder para reorganizar profundamente o sistema global e fornecer contrapeso para os Estados Unidos, Europa e os outros países dominantes.

Como vê o acirramento das medidas de caráter nacionalista, como a adoção de maior protecionismo no comércio mundial?
A atual crise econômica demonstra como todas as relações econômicas estão devidamente globalizadas e que os Estados, isolados, não fazem frente à turbulência. Os ministros da área econômica são obrigados a colaborarem entre si em suas estratégias para enfrentar a crise. A crise demonstra, mais do que nunca, como os processos de globalização são irreversíveis.

O senhor diz que os EUA não terão êxito em um projeto global unilateral. A diretriz de Obama, para que seus diplomatas primeiro ouçam os outros países, já reflete a nova postura?
A eleição de Obama é um reconhecimento de que o unilateralismo americano está morto. No que diz respeito à América Latina, ficou claro, pelo menos, desde as reuniões de Mar de Plata (sede da 4ª Cúpula das Américas, realizada em novembro de 2005, na qual os 34 países da região rejeitaram a proposta americana para estabelecimento da Área de Livre Comércio das Américas), que os EUA não podem ditar as linhas políticas e econômicas, como aconteceu no passado.

E como o presidente americano deve pautar as relações com a América Latina?
Obama está procurando uma nova forma de os EUA colaborarem com os países dominantes no mundo, invocando os modelos antigos (de presidentes como Franklin Roosevelt e John Kennedy). Ainda não está claro que tipo de papel o governo Obama vai implementar, mas é muito claro que os dias de unilateralismo chegaram ao fim.
Perfil
Michael Hardt
Nascido em 1960, Hardt é um teórico da área literária e política, e atualmente é professor da Duke University (EUA). Seu livro 'Império', escrito com o filósofo italiano Antonio Negri, é considerado o Manifesto Comunista do século 21.

http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117666/105859 03/02/2009

Simone Weil, 100 anos

JOÃO PEREIRA COUTINHO
Aspectos sombrios do pensamento
da autora lidam com a
condição judaica
que ela reprimiu
O FILÓSOFO Isaiah Berlin, que será centenário neste ano quando junho chegar, escreveu há tempos um brilhante ensaio sobre a busca de identidade em Disraeli e Marx. O texto merece ser lido não só pela elegância e erudição habituais em Berlin -mas porque o autor interpreta o percurso político de Disraeli e Marx sob o prisma de uma desconfortável condição judaica em ambos.Sim, o iluminismo continental e a Revolução Francesa trouxeram a emancipação para os judeus da Europa. Mas, sem uma casa a que pudesse chamar sua, a grande maioria desses judeus continuaria a viver desconfortavelmente a sua própria identidade. Como se fossem intrusos em casas de estranhos.
E, se muitos judeus acabariam por elevar essa singularidade a fator distintivo e mesmo elitista (é o caso de Disraeli, que na impossibilidade de ser um "aristocrata de berço" se apresentou à Inglaterra vitoriana como um "aristocrata de raça"), outros tenderiam a reprimir essa condição, sem no entanto conseguirem apagá-la completamente.
Marx, apesar do seu feroz antissemitismo, apenas transferiu a sua condição de judeu marginal para uma identificação com o proletariado. Quando Marx fala em nome dos oprimidos e explorados, ele fala, subliminar ou inconscientemente, em nome de gerações sucessivas de seres humanos em diáspora. Lembrei Berlin, e sua elegante interpretação psicológica de Marx, a propósito de outra figura centenária. Falo de Simone Weil, que curiosamente nasceu no dia de hoje, 3 de fevereiro, cem anos atrás.
Bem sei que, para o leitor erudito, a evocação de Marx e Weil no mesmo artigo soará estranha: se algum mérito Simone Weil teve, ele reside na forma lúcida como jamais sucumbiu às ilusões soviéticas que faziam sucesso entre a intelectualidade francesa. Antes de Raymond Aron, Weil soube interpretar o stalinismo como uma tirania sangrenta e desumana, indistinguível da tirania sangrenta e desumana que o seu gêmeo rival promovia na Alemanha.
Mas, nos cem anos do seu nascimento, talvez seja tempo de revelar os aspectos mais sombrios do pensamento de Weil. E esses aspectos lidam com a condição judaica da autora, que ela sempre reprimiu. Mais: não só reprimiu como parece ter atribuído ao judaísmo dos seus antepassados uma natureza tirânica.
O feroz antissemitismo de Weil encontra-se, desde logo, no seu pensamento teológico, que reservava ao Deus do Antigo Testamento um estatuto de crueldade que só o cristianismo posterior poderia mitigar.
Porém, e tal como sucedera em Marx, os aspectos antissemitas do pensamento de Weil não a impediram de se reconhecer como parte de uma classe longamente oprimida e humilhada, que ela "santificou" acima de todas as outras. No fundo, a classe dos trabalhadores braçais com que Weil se identificou, trabalhando e vivendo com eles; partilhando as suas misérias e privações; vestindo as mesmas roupas; e, no limite, morrendo por inanição. Ao repudiar sua ascendência judaica, Weil parece ter encontrado no proletariado francês uma irmandade de sofrimento em que se reconheceu.
Infelizmente, essa identificação com os marginalizados da história, essa vertigem quase masoquista para partilhar o sofrimento dos outros, não foi extensível a seu próprio grupo: os judeus reais que marchavam para as câmeras de gás. Conta Francine Du Plessix Gray, notável biógrafa de Weil, que, apesar de a autora ter denunciado o regime de Hitler com virulência assinalável, a natureza antissemita do Reich nunca foi uma das suas prioridades críticas.
Não admira por isso que, no momento em que o governo Vichy decidiu banir os professores judeus de ensinarem nas escolas públicas da França, a professora Weil, indignada, tenha escrito ao ministro da Educação. Não para contestar a natureza antissemita da legislação. Mas para se negar expressamente como judia.
Nos cem anos do seu nascimento, haverá múltiplas formas de relembrar Simone Weil. Pessoalmente, eu regresso a Isaiah Berlin: sem uma casa a que os judeus pudessem chamar sua, Simone Weil expressa bem o desconforto, e a tentativa de o superar, que a sua condição judaica lhe impunha. A criação do Estado de Israel, em 1948, acabaria por diminuir esse desconforto secular ao oferecer aos judeus do mundo a possibilidade de ficarem ou partirem. Mas Weil não viveu para o testemunhar: morreria cinco anos antes, tuberculosa e faminta, depois de uma vida de repugnância por si própria.

A pior idade

Rubem Alves*
Algum demônio disfarçado
de anjo
inventou que velhice é
a "melhor idade".
Só pode ser gozação
ou ironia
DEVE TER SIDO um demônio zombeteiro disfarçado de anjo que inventou que a velhice é a "melhor idade". Chamar velhice de "melhor idade" só pode ser gozação ou ironia.
O que me faz lembrar o acontecido há muitos anos. Naqueles tempos não havia o orgulho em ser negro. As alusões à cor eram tão proibidas quanto as sugestões sexuais. "Ela está grávida" -ninguém dizia isso, a palavra "grávida" era obscena, chula. Em vez da verdade nua e crua, uma expressão que todo mundo entendia sem que a palavra obscena fosse pronunciada era "Ela está num "estado interessante'"...
Pois uma família protestante se preparava para receber a visita de um conhecido pastor negro. (Um parêntese. Nos Estados Unidos, a palavra "negro" era e é ofensiva. Em vez de "negro" ["nigro"] usa-se "black", "black is beautiful". A palavra "negro" era mais ofensiva ainda na sua forma corrompida "niger".
As crianças eram educadas para o racismo como se fosse a coisa mais natural, e eram ensinadas a cantar numa brincadeira "Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by his toe" -"Agarre o crioulo pelo dedão...").
Acontecia que o tal pastor -isso era bem conhecido de todos- sofria de um humilhante complexo por causa da sua cor. Os hospedeiros ficaram angustiados diante da possibilidade de que sua filha de seis anos -um doce de menina- fizesse inocentemente alguma referência a esse fato. Trataram então de adverti-la: "Não diga jamais que o reverendo Clemente é negro...".
A menina ouviu e aprendeu. O hóspede chegou, tudo estava correndo às mil maravilhas, a menina doce se apaixonou pelo reverendo Clemente e, num momento de carinho, assentada no seu joelho, ela tomou a sua grande mão negra nas suas minúsculas mãos brancas e disse: "Sua mão é branquinha, sua mão é branquinha...".
É precisamente isso que acontece quando os alto-falantes das salas de embarque nos aeroportos anunciam: "Terão prioridade para o embarque gestantes, crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e pessoas da melhor idade".
Já reclamei com os funcionários, dizendo-lhes a minha irritação. Eles me disseram que nada podiam fazer porque as ordens vinham de cima. Concluo que "em cima" não há nenhum velho.
O que é melhor? Ser respeitado ou ser desejado?
Velhice é quando a gente começa a ser tratado como "objeto de respeito" e não como "objeto de desejo". Mas o que quero não é ser olhado com respeito, mas com desejo...
Aconteceu faz 25 anos, uma tarde, no metrô, vagão cheio, tudo bem, eu me via jovem, pernas fortes, segurei-me num balaústre. Meus olhos começaram a passear pelo rosto dos passageiros -cada rosto é mais misterioso que um universo- até que meus olhos se encontraram com os olhos de uma jovem que me olhava, eles, os seus olhos, sorriam para mim e eu fantasiei que ela me desejava. Ficamos assim por alguns segundos trocando olhares de namorado até que ela, num gesto delicado, se levantou e me ofereceu o seu lugar... Seu gesto me disse sem palavras: "O senhor é velho. Eu o respeito. Eu lhe dou o meu lugar...". Nesse momento percebi que a minha idade era a pior de todas. A melhor idade era a dela, da mocinha que me deu o lugar...
Sugiro um nome diferente para essa idade, que não é ironia, mas poesia: "Pessoas portadoras de crepúsculos no seu olhar...".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Pensamento ecológico

" Que cada dia amanhece
para eles (índios)
com uma total virgindade"
(PHILIPPE DESCOLA, antropólogo francês, discípulo de Claude Levi-Strauss,
hoje(02/02/2009)no IHU falando do que aprendeu com os índios amazônicos)

Inventor prevê futuro da indústria

Inventor prevê futuro da indústria


Pai do celular diz que aparelho móvel virá
embutido no corpo e
fará exames médicos

Joana Duarte

No dia três de abril de 1973, na Rua 56, esquina com a Avenida Lexington, em Nova York, Martin Cooper realizou a primeira ligação através de um celular, com um aparelho que pesava aproximadamente 1 quilo. Trinta e seis anos depois, em entrevista concedida ao JB, o inventor do telefone portátil devaneia sobre o dia em que os aparelhos poderão ser embutidos no corpo humano e carregados através da energia produzida pelo próprio organismo do usuário. Cooper prevê ainda que o aparelho pós-moderno, com sua tecnologia futurista, realizará exames de saúde periodicamente no corpo do portador, enviando análises diretamente aos especialistas. Check-up, nunca mais.

A primeira ligação feita de um celular foi para quem?
- Na época, eu trabalhava na Motorola, uma pequena empresa em Chicago e tínhamos uma concorrente, a AT&T, que era a maior empresa do mundo. A AT&T disse que tinha inventado o celular, que na verdade era o telefone de carro. Nós achávamos a idéia terrível, porque ter o celular preso no carro era tão ruim quanto tê-lo preso em casa. As pessoas queriam liberdade e o mundo estava pronto para ter um telefone portátil. Quando finalizamos o celular, a primeira ligação que fiz foi para o Joel Engel, meu rival no Departamento de celular da AT&T. Eu disse: "Joel estou te ligando de um verdadeiro celular. O primeiro telefone portátil". Eu acho que ele não gostou muito. O telefone era enorme, pesava cerca de 1 quilo, e a bateria só durava 20 minutos, mas isso não era um problema pois só era possível segurá-lo por segundos.

O que acha do iPhone?
Para mim o iPhone é um aparelho experimental. Tem muitos recursos, alguns muito interessantes, como a tela sensível ao toque. Mas se você pensar na indústria de celular como um todo, 3 bilhões de pessoas usam celular, e numa estimativa otimista, 12 milhões devem usar o iPhone. A questão real é como os celulares podem melhorar a vida das pessoas. Enquanto esses aparelhos não solucionarem problemas críticos, serão apenas gadgets. Eu aposto que os usuários do iPhone usam apenas uma pequena parcela dos recursos do telefone.

Como o senhor vê a indústria do celular hoje?
Nossa indústria é muito nova, ainda está tentando descobrir como fazer mais do que apenas oferecer comunicação em movimento para as pessoas. Até hoje, essa foi a única contribuição: liberdade para comunicar-se em qualquer lugar. De forma geral, estamos fornecendo só comunicação de voz e sms. Todo mundo continua falando sobre o próximo grande aplicativo, isso não existe, o que importa é aquilo que faz as pessoas viverem melhor, ter mais serviços e obter educação. Ainda estamos pensando no meio de criar tecnologias interessantes, mas a questão-chave é melhorar a vida das pessoas.

O que devemos esperar no futuro?
Hoje, o maior problema com o celular é mantê-lo carregado, e se você esquecer disso, a bateria acaba e você perde a comunicação. Por outro lado, o corpo humano está gerando energia o tempo todo, é uma enorme fonte de energia, então porque não colocar o telefone dentro do corpo e ter o aparelho carregado? Outra coisa importante que vai acontecer no futuro está relacionada ao cuidado da saúde. Nos EUA, o custo com a saúde é exacerbado, e é cada vez mais alto. Alguma coisa precisa ser feita para tornar isso mais efetivo e econômico. Então, usar a telefonia móvel para baixar este custo seria um grande benefício. Vamos começar a ver aparelhos embutidos no corpo, que medem todos os tipos de funções, como pressão sanguínea, batimentos cardíacos e temperatura. Quando você estiver doente, ao invés de marcar uma consulta com o médico, enviará o resultado da análise feita pelo celular. O computador fará o diagnóstico com seu médico e você receberá os resultados. A invenção de um telefone embutido no corpo será inevitável.
PERFIL
*Martin Cooper
Formado em engenharia no Instituto de Tecnlogia do Illinois, Martin Cooper, de 80 anos, começou a trabalhar na Motorola em 1954, onde supervisionou as primeiras vendas do celular. Atualmente, é presidente da ArrayComm, empresa que desenvolve "antenas inteligentes".
(Entrevista de Joana Duarte para o JB, segunda-feira, 02/02/2009)

O caminho para a tríade dos iluministas

Paulo Cesar Azevedo Ribeiro*

A educação é um dos meios de acesso dos cidadãos às esferas da produção, do consumo e da cidadania, e entre todos os outros instrumentos de distribuição de renda o mais consistente e democrático. Através da educação os indivíduos podem alcançar as tão desejadas universalidade, autonomia e individualização - a tríade perseguida pelos iluministas: direitos iguais para todos, direito de cada um prover o seu próprio sustento e de professar suas preferências.
Mas, além das necessidades básicas dos indivíduos asseguradas pelas Declaração Universal dos Direitos dos Cidadãos e Cidadãs e pela nossa Constituição de 1988 é preciso ver que a democratização do acesso ao nível superior está também relacionada à carência de qualificação da força de trabalho e à necessidade de dar sustentação a um projeto de desenvolvimento econômico e social, e em especial ao desenvolvimento científico e tecnológico.
De acordo com as declarações do Ministério da Educação (MEC) as vagas de ingresso nas universidades federais do país que eram 113 mil em 2003 chegarão a 227 mil em 2009, ou seja dobrarão. É inegável que houve uma grande expansão do ensino superior nos últimos anos, embora não se possa facilmente avaliar a qualidade e prever a quantidade de jovens entre 18 e 24 anos que serão atendidos na rede pública até 2011. O governo tem como meta 30% dessa faixa etária. Seriam em torno de 400 mil pessoas.
Sabe-se que em torno de 80% das vagas universitárias no país são atendidas pela rede privada das Instituições de Ensino Superior (IES) que podem ser Universidades, Centros Universitários ou Faculdades. É um dos setores de atividade econômica que mais crescem no país, e, o que é pior, cresce desordenadamente, sem adequada fiscalização do poder público. Denúncias de mercantilização da educação são feitas pela Confederação dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino e pelas Federações Regionais de Trabalhadores em Educação sem que os formadores de opinião, as instituições da sociedade civil, os partidos políticos, o Conselho Nacional de Educação e os Conselhos Estaduais e Municipais de Educação tomem uma decisão firme de exigir da União condições mínimas do exercício do poder federal de fiscalizar e, se necessário, fechar cursos que não ofereçam as condições mínimas de funcionamento para atender às necessidades dos usuários do sistema.
Há uma decenal discussão sobre os recursos públicos da educação e da saúde. A verdade é que hoje o estado não tem condições de suprir as necessidades de uma demanda crescente na área de Educação Superior. As IES privadas, entretanto, se expandem com velocidade maior que o setor público e atendem cada vez setores mais pobres da população. Há uma contradição flagrante entre a "intenção e o gesto". O governo - que, na área social, tem focado suas atenções e ações nos setores excluídos com menor nível de renda, aos poucos, elevando o patamar, para englobar um contingente maior da população - na área da educação também buscam aumentar o contingente de excluídos a serem atendidos que vêm recebendo uma assistência maior através do programas estaduais e federais, como o Universidade Para Todos (Prouni).
Quando se trata de oferecer recursos para os jovens de renda mais baixa e das políticas de cotas geram-se muitas polêmicas. Mas, quando os recursos públicos vão para as IES privadas há um silêncio perturbador. As instituições filantrópicas são beneficiadas pelas isenções, embora reclamem da falta de recursos financeiros a juros baixos. Mas algumas IES privadas estão se transformando em sociedade anônimas. Seria o setor educacional compatível com as oscilações das "cirandas financeiras"?
Parece que o Brasil está na contramão da história. Tirando os Estados Unidos todos os outros países do mundo desenvolvido têm realizado maciços investimentos em educação em geral, e em educação superior particularmente. O Brasil é um dos países do mundo com menor proporção de mestres e doutores em relação à sua população. Sem a produção de conhecimento adequada à realidade nacional e sem a atividade de extensão universitária voltada para as necessidades da sociedade as instituições privadas de ensino já são ou estão ameaçadas de se transformarem em supletivos do Ensino Básico, distanciando-se do importante papel que poderiam assumir no processo de busca de desenvolvimento econômico-social sustentado, ao lado das universidades públicas. Este é um desafio que a sociedade e o Estado brasileiro precisam enfrentar.
*Professor Universitário e Diretor do SINPRO-Rio

Cosmologia da dominação em crise

Leonardo Boff*
Há imenso sofrimento produzido pela atual crise econômico-financeira, em todos os estratos sociais, seja ricos seja pobres. Mais que a admiração é o sofrimento que nos faz pensar. É o momento de irmos para além do aspecto econômico-financeiro da crise e descermos aos fundamentos que a provocaram. Caso contrário, as causas da crise continuarão a produzir crises cada vez mais dramáticas até se transformarem em tragédias de dimensões planetárias.


O que subjaz à atual crise é a ruptura da clássica cosmologia que perdurou por séculos mas que não dá mais conta das transformações ocorridas na humanidade e no planeta Terra. Ela surgiu há pelo menos cinco milênios, quando começaram a se constituir os grandes impérios, ganhou força com o Iluminismo e culminou com o projeto da tecnociência contemporâneo.


Errado pensar
que o ser humano
pode produzir
e consumir de
forma ilimitada



Ela partia de uma visão mecanicista e antropocêntrica do universo. As coisas estão aí, uma ao lado da outra, sem conexão entre si, regidas por leis mecânicas. Elas não possuem valor intrínseco, apenas valem na medida em que se ordenam ao uso humano. O ser humano se entende fora e acima da natureza, como seu dono e senhor que pode dispor dela ao seu bel-prazer. Partia de uma falsa pressuposição de que poderia produzir e consumir de forma ilimitada dentro de um planeta limitado, que esta abstração fictícia chamada dinheiro representa o valor maior, que a competição e a busca do interesse individual resultarão em bem-estar geral. É a cosmologia da dominação. Pois esta cosmologia levou a crise ao âmbito da ecologia, da politica, da ética e agora da economia. As ecofeministas nos chamaram a atenção para a estreita conexão existente entre antropocentrismo e patriarcalismo, que desde o neolítico faz violência às mulheres e à natureza.


Felizmente a partir dos meados do século passado, vindo de várias ciências da Terra, especialmente da teoria da evolução ampliada, está se impondo uma nova cosmologia, mais promissora e com virtualidades capazes de contribuir na travessia da crise de forma criativa. Ao invés de um cosmos fragmentado, composto pela soma de seres mortos e desconectados, a nova cosmologia vê o universo como o conjunto de sujeitos relacionais, to- dos inter-retro-conectados. Espaço, tempo, energia, informação e matéria são dimensões de um único grande Todo. Mesmo os átomos, mais que partículas, são entendidos como ondas e cordas em permanente vibração. Antes que uma máquina, o cosmos, incluindo a Terra, comparece como um organismo vivo que se auto-regula, se adapta, evolui e eventualmente, em situações de crise, dá saltos buscando um novo equilíbrio.


A Terra, segundo renomados cosmólogos e biólogos, é um planeta vivo ­ Gaia - que articula o físico, o químico, o biológico de tal forma que se torna sempre benfazejo para vida. Todos seus elementos são dosados de uma forma tão subtil que somente um organismo vivo poderia fazê-lo. Somente a partir dos últimos decênios, e agora de maneira inequívoca, dá sinais de estresse e de perda de sustentabilidade. Tanto o universo quanto a Terra se mostram di recionados por um propósito que se revela pela emergência de ordens cada vez mais complexas e conscientes. Nós mesmos somos a parte consciente e inteligente do universo e da Terra. Pelo fato de sermos portadores destas capacidades, podemos enfrentar as crises, detectar o esgotamento de certos hábitos culturais (paradigmas) e inventar novas formas de sermos humanos, de produzirmos, consumirmos e convivermos. É a cosmologia da transformação, expressão da nova era, a era ecozóica.


Precisamos abrir-nos a esta nova cosmologia e crer que aquelas energias (expressão da suprema Energia) que estão produzindo o universo já há mais de 13 bilhões de anos estão também atuando na presente crise econômico-financeira. Elas certamente nos forçarão a um salto de qualidade rumo a outro padrão de produção e de consumo, que efetivamente nos salvaria, pois seria mais conforme à lógica da vida, aos ciclos de Gaia e às necessidades humanas.

*Teólogo

http://ee.jb.com.br/reader/zomm.asp?pg=jornaldobrasil_117665/105823 02/02/2009

domingo, 1 de fevereiro de 2009

O X da educação

Claudio de Moura Castro*
Entrevista
“Os professores não aprendem a dar aula”


Respeitado como um dos principais pensadores da educação no Brasil, o economista Claudio de Moura Castro acredita que o ensino brasileiro padece de um ciclo vicioso: como a maior parte da sociedade brasileira é educada precariamente, se conforma com a baixa qualidade das escolas. E um dos fatores para a manutenção desse quadro, segundo o pesquisador e colunista da revista Veja, é o processo atual de formação dos professores.
Confira a entrevista concedida na sexta-feira, por telefone, desde seu escritório em Belo Horizonte:
Zero Hora – Por que a educação brasileira não avança como desejado?
Claudio de Moura Castro – Porque começa mal. O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostra que menos da metade dos alunos chega à 4ª série funcionalmente alfabetizada. O problema, então, começa já no primeiro ano do Ensino Fundamental. Não adianta consertar o que vem depois. A grande reforma universitária no país seria reformar a 1ª série.
ZH – O que não funciona?
Moura Castro – Uma pesquisa publicada pela revista Veja mostra 80% de satisfação de pais, alunos e professores com a escola no Brasil. E, politicamente, tudo o que você precisa fazer para melhorar a educação é maldade: o aluno tem de se dedicar mais, a prova tem de ser mais difícil, o professor tem de trabalhar mais, tem de corrigir mais, o diretor tem de ser sargentão. Tudo isso tem custo. Por que o secretário de educação ou o diretor de escola vai queimar o capital político dele, se o próprio público não vê a educação como um problema?
ZH – Mas não há uma parcela importante da população que vê?
Moura Castro – Só os educados sabem que a educação não é boa. Como são muito poucos, acabam não contando. Fica difícil fazer algo que envolve custo se pouca gente acha que precisa. Essas pessoas acham que está bom porque a situação física na escola hoje é melhor, tem computador. Só que a sala de aula continua uma porcaria.
ZH – Por quê?
Moura Castro – Os professores, com honrosas exceções, são mal recrutados. Sentem-se desprezados, mal pagos, maltratados. Os alunos que entram para fazer pedagogia são os mais fracos. Olha os vestibulares, a pedagogia está na rabeira. Os professores não aprendem direito o conteúdo e não aprendem a dar aula durante o curso.
ZH – Aprendem o quê?
Moura Castro – Grandes teorias, Vygotsky, Piaget, que foi um cara que nunca falou de educação. Falou da psicogênese do conhecimento. O que interessa é como deve ensinar verbo irregular, como deve formular uma prova, como fazer um plano de aula. Os mais antigos dizem que antes aprendiam a dar aula. Hoje tem uma barreira, tem uma gosma ideológica fortíssima, uma grande resistência à mudança e uma recusa em ensinar aos professores aquilo que eles devem ensinar. Hoje não pode haver acusação pior do que chamar um professor de conteudista, de ter currículo a ensinar. Aí tem outro problema grave do professor, a resistência a uso de materiais estruturados.
ZH – O que são?
Moura Castro – São obras que entram no detalhe de como conduzir os assuntos de aula, passo a passo. É que há uma convicção de que esse tipo de material não pode, o professor é que tem de inventar a aula. E a minha estimativa é de que entre 2% e 3% dos professores têm competência para inventar aula. E, mesmo se tiverem, não têm tempo para isso.
ZH – Que saída o senhor vê para isso?
Moura Castro – Sou moderadamente otimista. A coisa mais importante que aconteceu nos últimos anos foi o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que existe escola por escola, município por município. E os diretores todos sabem o Ideb da sua escola. Eu fui na pior escola da pior periferia de Belo Horizonte, e a diretora lá sabia qual era o Ideb dela. Então, hoje você tem uma medida, uma espécie de GPS da educação.
ZH – Falta usar esses dados?
Moura Castro – Falta os pais aprenderem a apertar mais a escola: “Como é, esse Ideb de vocês não vai avançar?”. Os dados estão referenciados para permitir a comparação com outros países, então dizem quantos pontos tem de fazer para chegar a um nível de primeiro mundo.
ZH – Hoje há um pacto de mediocridade?
Moura Castro – É, é um pacto de mediocridade. Na verdade, nem é isso, porque acham que está bom.

Solteiros no PODER

A reportagem é de Viviane Paz no Correo Braziliense (01/02/2009) e traz vários depoimentos sobre o tema: sozinhos e poderosos. São homens e mulheres que na América Latina ocupam o Poder máximo nos estados. O assunto é instigante. Um texto curioso. Estou colando na blog apenas uma entrevista sobre o tema ( se interessar a reportagem completa é só enviar e-mail para: zguiotto@hotmal.com ):
"Para os eleitores da região, ter um casamento bem-sucedido não é mais um pré-requisito para os chefes de Estado. Hugo Chávez faz o estilo galanteador, enquanto Bachelet e Lugo são discretos.

“Deixem-me ir antes que eu me apaixone pelo Brasil ou por uma brasileira”, comentou o presidente cubano, Raúl Castro, ao se despedir dos jornalistas em sua vista a Brasília, em dezembro. Raúl, que ficou viúvo em 2007, foi o último a integrar o clube dos mandatários “disponíveis” na América Latina, ao lado de colegas como Evo Morales (Bolívia), Michelle Bachelet (Chile), Hugo Chávez (Venezuela) e Fernando Lugo (Paraguai).

Entrevista // marcelo coutinho
"Cidadão quer mesmo é resultado prático".
Para o coordenador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA) do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Marcelo Coutinho, os eleitorem do subcontinente já não se preocupam tanto com a sexualidade ou o estado civil dos candidatos.
Houve mudanças na forma como o eleitor avalia o estado civil dos candidatos ?
O eleitor não está mais tão preso a laços tradicionais, do tipo que requer do seu candidato uma família e filhos. O eleitor está cada vez menos preocupado com isso e cada vez mais preocupado com resultados práticos no cotidiano.
E no Brasil? Ainda não elegemos diretamente presidentes solteiros ou divorciados…
Nós já tivemos prefeitos como, por exemplo, o de São Paulo (Gilberto Kassab). A coordenação de campanha da candidata oponente, Marta Suplicy, chegou a sugerir que o eleitor conhecesse mais o candidato do DEM, pelo fato de ser solteiro. Havia ali uma sugestão de que o prefeito fosse homossexual. Sinceramente, acho que o eleitor não se preocupou com isso: escolheu o candidato que considerou ter a melhor gestão no momento. Isso me leva a crer que, também nas eleições para presidente, não seria um peso. É claro que sempre existe uma parcela da população mais conservadora.
Os eleitores americanos, nessa questão da família, são mais conservadores?
Existe uma diferença clássica, sociológica, entre países como o Brasil e os Estados Unidos. Nos EUA, a sociedade é mais conservadora e as instituições são mais liberais. No Brasil é justamente o oposto. O povo brasileiro é mais liberal, mas por outro lado, as suas instituições tendem a ser mais conservadoras. Esses valores são cada vez mais anacrônicos, parte do passado. Veja o Chile, que é provavelmente a sociedade mais conservadora na América Latina. No entanto, elegeu uma mulher solteira por considerá-la forte e capaz de dirigir o país.
Há outros elementos que exemplificam a mudança no perfil dos candidatos?
A questão da idade. Existe uma geração nova que ascende ao poder. O mais novo deles é o Correa, em seguida o Morales. São pessoas pós-regimes militares, que não construíram sua carreira política ao longo do regime militar, contra o regime ou no processo de transição para democracia. Apareceram no cenário político depois de tudo isso. (VV)
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 01/02/2009

A preguiça

Rubem Alves*
Escrever é o meu jeito de brincar. Palavras são meus brinquedos. Brinco com as palavras para ter alegria, essa coisa que, segundo Guimarães Rosa, só acontece em raros momentos de distração. Segundo Alberto Caeiro a alegria existe só quando a gente não está pensando nela. É só pensar para que ela se vá. Como quando estou escrevendo fico distraído de tudo, fica mais fácil para a alegria acontecer...
Estou escrevendo um livrinho sobre demônios e pecados mortais, o que me faz rir muito. E acho que também os deuses riem.
Não tive dificuldades para escrever sobre possessões demoníacas. Mais fácil ainda foi escrever sobre os pecados que antigamente lançavam homens e mulheres no Inferno, a ira, a inveja, a gula, a arrogância, a luxúria, a avareza.
Mas estou tendo dificuldades com a preguiça. Porque não estou tão certo assim de que a preguiça seja um pecado. Acho que até pode ser uma virtude. Gostaria de ser possuído por ela de vez em quando.
Preguiça é fazer vagarosamente — ou simplesmente não fazer — aquilo que deveria ser feito rapidamente. Fernando Pessoa devia estar com uma preguiça danada quando escreveu — na verdade sua preguiça não era completa porque se fosse ele não teria escrito coisa alguma — “Ai que prazer não cumprir um dever. Ter um livro para ler e não o fazer! Ler é maçada, estudar é nada...”
Mas por que a preguiça acontece? É a perspicácia psicanalítica prematura de Álvaro de Campos que nos explica num único verso: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim...” Na preguiça o preguiçoso está dizendo: “Não farei aquilo que um “outro” me ordena fazer...”
No preguiçoso mora um germe de rebelião. A preguiça é uma revolta contra uma autoridade que deseja apossar-se do seu corpo e obrigá-lo a fazer o que ele não deseja. O “outro” que manda ordena que aquele a quem ele se dirige faça o seu desejo. Mas o ouvinte, que deveria obedecer, deitado na rede, recusa-se.
Roland Barthes escreveu um delicioso ensaio sobre a preguiça. Se a minha memória é obediente e ainda não se entregou à preguiça, é isso que ela me trás.
Há dois tipos de preguiça. A primeira é a preguiça feliz, desejada e permitida, aquela preguiça que se tem depois de caipirinhas e feijoada. Satisfeito, sem nenhum desejo a ser realizado, o corpo se entrega: deita-se na rede sem sentimentos de culpa, abandona-se ao sono e dorme. Nessa preguiça o preguiçoso atinge a bem-aventurança de estar reconciliado com o mundo. Não lhe passam pela cabeça ações revolucionárias que visam a sua transformação.
Outra é a preguiça infeliz que floresce nas escolas.
O professor — o “outro” — apresenta aos alunos um livro de 235 páginas que deverá ser lido. Além disso os alunos deverão apresentar, como prova de o haverem lido, um “fichamento” do mesmo, fichamento que o professor, também por preguiça, não irá ler. Ele não é tolo.
O aluno está diante do livro fechado. “Leia-me ou te devoro”, o livro lhe diz. Ele não tem alternativas. Terá de fazer o fichamento inútil. Examina o livro e dá uma olhada no seu conteúdo. Decididamente o conteúdo não desperta o seu apetite. Mas ele tem de obedecer contra a vontade.
Por isso o seu corpo, como resistência à ordem do “outro”, começa a se arrastar, debruça-se sobre a mesa, achata-se no chão como se fosse uma panqueca.
Assim, temos duas preguiças: a preguiça que nasce da felicidade e a preguiça que nasce da revolta: as duas estão mais pra virtude que pra pecado.
Eu bem que gostaria de me entregar às delícias das preguiças felizes e das preguiças rebeldes. Mas não posso. O “outro” não me deixa. E não posso me revoltar contra ele porque ele, o “outro”, sou eu...
*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
Publicada em 31/01/2009