sábado, 21 de fevereiro de 2009

Eu tomo uma Coca-Cola...

Hermes Aquino*
Dia desses falei que ia ao centro de compras e me perguntaram curiosos: Onde? Tive que apelar para o inglês e mandar um ‘shopping center’, para que me entendessem. Em tempos de crise, a bola da vez é afirmar que cada vez que um americano vai ao shopping, o mundo fica feliz. Claro, eles importam quase tudo e assim sendo... Quem tem dinheiro forte pode comprar de fora e ainda obter bons resultados. Mas a ideia de que eu, aqui no meu cantinho, devesse ficar feliz quando um americano fosse ao centro de compras, confesso, me pôs a pensar.
Na minha santa ignorância imaginava que a cada Coca-Cola que tomávamos, os americanos é que ficavam felizes. E sempre que um filme de Hollywood estourava em nossas bilheterias, os americanos é que deveriam exultar. Afinal, recentemente o simpático ator americano Tom Cruise parou o Rio de Janeiro, transformando-o praticamente numa Sucupira. Filas e filas para um mísero autógrafo. E celebridades nacionais tomando chá de banco para fotografar a seu lado. Eu pensava que isto é que fazia a felicidade americana.
E quando ligava o rádio nas FMs e ouvia trocentas canções americanas, então. Será que isto não fazia a alegria dos americanos? E quando, com esforço hercúleo, tirando daqui e pondo ali, conseguimos financiar um automóvel de uma grande marca americana, não estamos de certa forma contribuindo para a prosperidade deles? Mas não, são eles que quando vão/iam ao shopping fazem a nossa felicidade. Santa ignorância a minha.
Confesso que toda a vez que vejo pais levando seus filhos aos McDonald’s da vida, imagino uma espécie de felicidade geral na nação americana. Afinal, além de um estilo de vida, de uma ou de outra forma, é mais um royalty entrando nos cofres gringos. Claro que eles ficam felizes. E quando você navega no Windows, do Bill Gates (desde que não seja pirata), não faz a felicidade americana? E quando procura algo no Google, não coopera para o bem-estar do Tio Sam?
Não sei, não, mas cada vez que deixo de dizer fones de ouvido para pronunciar headphones, por exemplo, de algum jeito coopero para o orgulho nacional americano. Afinal é a língua falada na América do Norte, imperando mundo afora. Mas quem deve ficar feliz quando um americano vai ao shopping sou eu, dizem os experts. Eu sei que eles (os experts) têm plena razão no que dizem. Os emergentes vivem/viviam praticamente das exportações para o grande irmão do norte. That’s the way we live(d).
A última flor do Lácio está inflacionada de termos ingleses, fruto da imensa e, inúmeras vezes, benéfica influência norte-americana. Dá mais dinheiro, traz mais sucesso e impressiona mais ao brasileiro chamar uma simples loja de artigos para animais domésticos, de pet shop, por exemplo. Por isso estamos estupefatos com a palpável bancarrota do Big Brother do norte. Se o país do dólar, que só faz subir diante do nosso enfraquecido real, está à beira da falência, imagine nós. Se eles deixarem de ir ao ‘Centro de Compras’, juro, não falo mais inglês.
* Publicitário, compositor (ZH, 21 de fevereiro de 2009)
http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2412880.xml&template=3898.dwt&edition=11752&section=1012

O universo do mal

Leandro Konder

Ao que tudo indica, o Universo do Mal é marcado por diferenças internas merecedoras de um exame crítico bastante cuidadoso. Nesses últimos tempos, os jornais têm falado da violência estúpida que vem sendo cometida contra jovens mulheres brasileiras agredidas e eventualmente assassinadas, segundo seus assassinos, por amor. Ficamos todos – ou quase todos – efetivamente muito chocados com essa podridão do Mal.
Enquanto não tivermos espaço para sermos mais generosos, mais solidários, mais verdadeiros, mais justos, teremos de nos conformar com aquilo que o alemão Thomas Mann nos ensina, isto é, teremos de admitir o pacto com o demônio?
O tema ressurge na relação das pessoas com as novelas de televisão. Em A favorita, não foram poucos os telespectadores que opinaram: os personagens mais interessantes eram aqueles que integravam o núcleo do Mal. A Flora de Patricia Pilar e seu marido Dodi, interpretado por Murilo Benício, tinham personalidades mais surpreendentes do que os demais.
Não sei se pela interpretação convincente ou se pelo acerto do escritor e do diretor, Flora e Dodi conseguiam trabalhar as desmesuradas contradições de suas criaturas sem perder o fio da meada. Já outros personagens, que tentavam “pregar o Bem”, eram menos eficientes. Flora e Dodi eram caricaturas assumidas e sem problema de identidade. Os personagens que representavam o Bem eram meio caricaturados, meio transformados em marionetes, fazendo digressões psicológicas.
Nosso ambiente cultural prestigia as novelas e elas proporcionam elementos estimulantes para o entretenimento com um pouquinho de reflexão. Não se pode negar que é muito difícil, com critérios estéticos, fazer surgir uma obra-prima da telinha da TV. As repetições, as reiterações e a lentidão impostas ao ritmo da narrativa podem ser mercadologicamente bem sucedidas, podem ampliar a mobilização dos telespectadores, mas banalizam as obras e, com certeza, não tendem a transformá-las em obras-primas da arte.
O público consumidor quer ser sacudido, provocado e, eventualmente, até assustado por algumas cenas. Porém, não lhe passa pela cabeça defrontar-se com provocações exageradas e com uma relativização promovida com audácia histórica e que lhe dá a impressão de ter perdido o controle da situação.
Esse problema já se apresentava para os escritores e os acompanha quando eles passam a escrever para livros, peças de teatro e seriados da TV. O francês Jean-Paul Sartre, em uma das suas peças mais notáveis, O diabo e o bom Deus, criou uma figura marcante: um padre enlouquecido que participa como radical de um exército camponês sublevado e quer que os bispos e sacerdotes de uma cidade cercada sejam sumariamente executados.
A ação se passa no século 16. Alguém pergunta ao padre louquinho: por que você faz o Mal? Ele: para ser livre. O interlocutor não fica convencido e indaga por que ele não seria livre fazendo o Bem? E o padre esclarece: Porque o Bem já foi feito. Quem o fez foi Deus, o Pai.
Esse diálogo expressa bem uma possível abordagem, um tanto metafísica, mas instigante, do quadro caótico dos valores estéticos e, sobretudo, éticos na atualidade. Como a hierarquia dos valores éticos está embaralhada, os antivalores começam a ter um prestígio crescente.
Se Deus já fez o Bem, os homens podem – e devem – perguntar: por que há tanto Mal em torno de nós? Se Deus fez o Bem, é natural que os seres humanos fiquem perplexos e tenham a impressão de que Ele se apropriou do Bem além da conta e o está sonegando na distribuição para o mundo humano.
Na realidade, o Bem e o Mal são inseparáveis. E o conflito entre eles é constante e gera tensões e confusões o tempo inteiro. A humanidade é convocada para lutar pelo fortalecimento do Bem e se esforça para provocar um recuo do Mal.
O grande golpe vibrado pelo Mal foi o de deixar que o Bem falasse livremente e, em seguida, apontar as inconsequências que apareciam quando o discurso era cotejado com a ação. O Bem era um retórico hábil, mas um político inepto e um administrador cruel. Quem levou a melhor, na atual fase da competição, foi a dupla composta pelo senhor Oportunismo e a senhora Covardia.
Abordado na rua por uma graciosa repórter da TV e solicitado a dizser o que pensava da atual situação do universo do Bem, o senhor Oportunismo confessou: sou mais ligado ao Universo do Mal.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Gente ecológica

"Chegou a hora para reafirmar
nosso espírito tolerante;
para escolher
nossa melhor história;
para prosseguir
com esse precioso dom,
essa nobre ideia, passada de geração a geração:
a promessa dada por Deus de que todos somos iguais,
todos somos livres e
todos merecem uma chance
de buscar sua completa medida de felicidade."
"Nós usaremos o Sol e
os ventos e
o solo
para abastecer nossos carros
e movimentar nossas fábricas.
Nós transformaremos
nossas escolas,
faculdades
e universidades
para suprir as demandas de
uma nova era."
"Uma nação
não pode prosperar por muito tempo
quando favorece apenas
os mais ricos."
"Com velhos amigos e
antigos adversários,
vamos trabalhar incansavelmente para diminuir
a ameaça nuclear,
e reduzir o espectro
do aquecimento global."
"Não podemos senão acreditar que
os velhos ódios passarão um dia;
que as linhas das tribos vão se dissolver rapidamente;
que o mundo ficará menor,
nossa humanidade comum deve revelar-se;
e que a América vai desempenhar
o seu papel em uma
nova era de paz."
"Para aqueles líderes pelo mundo que buscam semear o conflito,
ou culpam o Ocidente pelos males de suas sociedades:
Saibam que seus povos irão julgá-los
a partir do que vocês podem construir,
e não destruir."
"E para aquelas nações como a nossa,
que vivem em relativa riqueza,
queremos dizer que não podemos mais suportar a indiferença
quanto ao sofrimento daqueles que sofrem fora de nossas fronteiras;
nem podemos consumir os recursos do mundo
sem nos importar com as consequências.
O mundo mudou
e nós devemos acompanhar
as mudanças do mundo."

BARACK OBAMA, presidente dos Estados Unidos, durante seu discurso de posse.
(Reportagem da Revista Ecológica do Jornal do Brasil)


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O leitor

Eliana Cardoso*

A publicação da teoria da evolução de Darwin faz 150 anos. Para celebrar o aniversário, o website do "The Economist" reproduziu gráfico da revista "Science" de 2006, baseado em estudo que mostra o atraso das crenças americanas em relação às de outros países ricos. Em 2005, mais de 70% da população da Dinamarca, Suécia, França e Japão aceitava a teoria da evolução. Nos EUA, ao contrário, só 40%. Em matéria de ignorância científica, os EUA estavam mais próximos da Turquia, onde apenas cerca de 30% da população pensava que a teoria de Darwin era verdadeira. O pior é que, nos 20 anos entre 1985 e 2005, a percentagem que acreditava na evolução nos EUA caíra cinco pontos percentuais. Embora 78% dos adultos concordassem que a seleção natural existia entre plantas e animais, 60% afirmavam que Deus criara o ser humano como ele é hoje.

Os dados revelam o analfabetismo científico ainda vigente no mundo moderno e fazem pensar em outras formas de ignorância. No filme "O Leitor", em cartaz nos cinemas de São Paulo, Hanna não sabe ler. Seu analfabetismo serve de metáfora à nossa falta de entendimento do Holocausto.

Ex-guarda em campos de exterminação, Hanna tem um caso amoroso com Michael, um garoto 21 anos mais novo. Em seguida, desaparece. Ele vai estudar direito e se surpreende ao revê-la como ré em julgamento por crimes nazistas. Michael tem uma informação que pode usar para reduzir a pena de Hanna. Mas será que deve revelar a verdade e ajudar quem tem culpa de crimes nazistas? Ou deve misturar-se aos que buscam um bode expiatório? Pode deixar exposto seu relacionamento juvenil com a ré?

Michael quer entender o crime de Hanna e ao mesmo tempo condená-la. Quando seu entendimento avança, sua condenação vacila. Quando a condena, não sobra espaço para entendimento. Entendimento e condenação são tarefas inconciliáveis a um só tempo. Michael nada faz. Talvez porque tivesse entendido que, para Hanna, a vergonha do analfabetismo era mais grave do que o castigo pelos crimes que cometera.

Hanna não é apenas simples e direta. Enquanto analfabeta, ela ignora a diferença entre o bem e o mal. Perto do fim, Michael a visita na prisão e lhe pergunta se ela aprendera alguma coisa durante aqueles anos de isolamento. Ela responde: "Aprendi a ler". E completa: "Sempre tive o sentimento de que ninguém me entendia (...). E quem não entende não pode condenar. Nem mesmo a corte pode me chamar a prestar contas. Mas os mortos podem. Eles entendem. Aqui na prisão eles estão comigo. Eles vêm todas as noites". Tendo aprendido a ler, Hanna aprendeu também a ter culpa e não pode mais viver consigo mesma.

Arnold Toynbee (renomado historiador inglês) e Daisaku Ikeda (líder de organização budista mundial dedicada à promoção da educação) conversaram durante vários dias em Londres, entre 1972 e 1974. O longo diálogo está reproduzido no livro "Choose Life" (2007). Nele, Toynbee diz que o ser humano tem consciência da diferença entre o bem e o mal.

Lendo aquela conversa dos dois sábios, sou levada a acreditar que escolher o bem é escolher a vida. E que, para Hanna, a consciência do bem e do mal veio tarde demais. Tendo escolhido a morte para milhares de outras mulheres, ela não tinha saída. "A lei da vida é o carma", diz Toynbee. "Ações produzem consequências e essas consequências são inescapáveis."

Para Toynbee, o carma vale também para comunidades humanas. A rede de relações entre seres humanos mortais, que substituem seus predecessores e são substituídos por seus sucessores, persiste muito além da vida individual. A continuidade dessas relações perpetua a vida através do tempo e torna possível a operação do carma na história da sociedade humana.

Como ela é uma rede de regras e costumes, mesmo que não pareça existir uma conexão lógica entre as regras que governam o comportamento humano em diferentes áreas, existe uma conexão psicológica. Não é por acaso que uma permissividade excessiva na área sexual se faça acompanhar de abuso de drogas, desonestidade e uso da violência para ganhos pessoais ou poder político.

Entre as ações humanas, nenhuma produz consequências mais trágicas do que a guerra. Ela inverte de forma deliberada a inibição de tirar a vida do outro. Para o soldado - como para Hanna, a guarda nazista - matar outro ser humano é dever e não crime. A reversão arbitrária da mais importante regra ética da humanidade destrói a consciência e perturba a ordem social. O soldado em serviço, arrancado de seu ambiente e das costumeiras restrições sociais, quando comandado a matar, também deixa de ser governado por restrições que condenam o estupro e a pilhagem.

A desmoralização dos soldados americanos no Vietnã e no Iraque ilustra o que acontece com soldados em ação militar. A guerra entre Israel e palestinos alimenta sérios desvios sociais. No México, a consequência dramática da guerra entre os cartéis do tráfico de drogas e a polícia está espelhada no comentário de Martín Gabriel Barrón (do Instituto de Pesquisas Penais) reproduzido no "Estado de S. Paulo" (15/2): "Começamos a observar em alguns pistoleiros uma patologia, na qual eles sentem prazer em descobrir formas criativas de matar e destroçar corpos".

A violência é terrível até mesmo quando disfarçada sob a falácia de que é possível conquistar fim bom através de método ruim. O exame da carreira de dois revolucionários famosos, Robespierre e Lênin, mostra por quê. Ambos se dedicaram, cada um a seu tempo, mas com todas as forças, à tarefa de melhorar a vida dos homens. Ambos cometeram o mesmo erro ético e intelectual. Acreditaram que seus objetivos eram tão elevados que qualquer violência poderia ser justificada. O resultado foi que, no lugar de paraíso terrestre, Robespierre produziu o terror e Lênin um regime totalitário. Árvore que não cresce não dá sombra. Ambos falharam na leitura do mundo e, ao contrário de Hanna, morreram cegos.

*Eliana Cardoso é professora titular da EESP-FGV e escreve, quinzenalmente, às quintas-feiras

Home page www.elianacardoso.com
http://www.valoronline.com.br/ValorImpresso/MateriaImpresso.aspx?tit=O 20leitor&dtMateria=19/02/2009&codMateria=5425675&codCategoria=89 19/02/2009

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Cursos oferecem de psicoterapia à retiros espirituais

Miranda Green
Financial Times18/02/2009


O mundo dos negócios em geral vê os alunos de MBA como aqueles que, de olhos vidrados, perseguem um rumo definido na carreira. Uma tendência recente em escolas da Europa de oferecer um desenvolvimento mais pessoal junto com a aquisição de conhecimento e habilidades "sólidas" vêm expondo um interesse dos estudantes pela introspecção. Um conjunto exótico de ofertas, que vão de retiros espirituais esotéricos à psicoterapia, está surgindo para atender essa necessidade.

Leonidas Pantazopoulos inscreveu-se para fazer MBA na Insead da França e Cingapura, buscando uma experiência que mudasse sua vida, em vez de apenas galgar mais um degrau na carreira. Membros da faculdade afirmam que isso é típico de pessoas que passam por um período de transição, onde frequentemente fazem questionamentos profundos sobre seus objetivos e motivações. "Os esforços feitos pela escola para integrar no MBA a psicologia clínica baseada em pesquisas são bem-vindos", diz Pantazopoulos.

A HEC Paris abriu o caminho para os participantes admitirem que estão em busca de um significado para as coisas, além de mais sucesso na carreira. Os retiros monásticos, que incluem meditação, trabalhos em grupo e individuais, são oferecidos três vezes por ano para todos os participantes de MBA da instituição. Um padre e um filósofo estão à disposição durante as sessões de três dias para ajudar com os questionamentos de valores e ética. A procura pelo seminário é sempre maior que o número de vagas. "A missão, o dever e o valor de um MBA é ajudar as pessoas a refletir sobre o que elas poderão se tornar na vida pessoal e profissional", afirma Valérie Gauthier, reitora associada do programa de MBA da HEC.

O trabalho mais aprofundado, no entanto, está sendo feito no IMD de Lausanne, onde Jack D. Wood, professor de comportamento organizacional e um terapeuta junguiano, oferece psicoterapia subsidiada não só para os alunos de MBA que passam por transformações na experiência de vida, como também para seus colegas. Todos os anos, mais da metade dos grupos da escola aceita a oferta.

O professor Wood e seu ex-colega no IMD e colaborador Gianpiero Petriglieri, um psiquiatra que dá aulas e faz pesquisas no Insead, acreditam que os motivos que as pessoas apresentam para fazer um MBA são sempre um "envólucro" para uma busca interior de uma vida plena e dotada de objetivo, e eles estão lá para ajudar a revelar e examinar outras motivações mais profunda. Petriglieri afirma que resolver problemas de identidade é algo indissociável da preparação de um futuro líder no ambiente inseguro dos negócios de hoje.

Seus alunos parecem concordar. No Insead, os cursos que se concentram na psicologia são os mais procurados. Mas seu trabalho é "uma coisa ligeiramente subversiva", admite Woods, encorajando homens de negócios jovens e ambiciosos em suas dúvidas sobre o que Jung chamou de respostas erradas para as perguntas da vida: posição, reputação, sucesso e dinheiro.

Esses elementos mais esotéricos precisam ser apresentados com cuidado para que não assustem os empregadores, alerta Jochen Runde, diretor do programa de MBA da Judge Business School de Cambridge. Mas esses cursos são bem avaliados pelos alunos, segundo os professores, e serão ampliados. Desde que assumiu como diretor de MBA da Judge, Runde vem revendo o programa e pretende partir para mais orientações pessoais. Ele também está explorando outros caminhos experimentais: no próximo período letivo, os professores de filosofia vão ensinar ética nos negócios. Isso vai desafiar os alunos com um tipo de abordagem diferente, diz ele.

A professora Gauthier tem certeza que os aspectos pessoais de um MBA são muito importantes, mesmo que os alunos não percebam isso naquele momento. "Às vezes, aqueles que mais precisam fogem", admite ela. "Mas três ou quatro anos após terminarem, eles dizem que o que pensavam ser besteira era a parte mais importante."

(Tradução de Mário Zamarian) http://www.valoronline.com.br/ValorImpresso/MateriaImpresso.aspx?tit=Cursos%20oferecem%20de%20psicoterapia%20%c3%a0%20retiros%20espirituais%20&dtMateria=18/02/2009&codMateria=5422585&codCategoria=292

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O direito de dormir

Rubem Alves
Será que não chega o momento
em que a vida diz:
"Estou cansada.
Quero dormir o grande sono..."?

NÃO EXISTE IMAGEM que mais tranquilize a alma que a imagem de uma criança adormecida. Seus olhinhos fechados dizem que o seu pequeno corpo está fechado dentro de si mesmo, num ninho de silêncio e escuridão.
Mas é comum que essa tranquilidade seja precedida por uma luta contra o sono: a criança não quer dormir. Ela tem medo da escuridão. E o medo agita a alma.
Foi pensando nisso que os músicos inventaram um tipo de música chamado "berceuse", que é uma canção doce destinada a ajudar as crianças a dormir. Ah! Como são lindas as "berceuses" de Brahms e de Schumann! Elas acalmam a criança amedrontada que mora em mim, põem os seus medos para dormir. E enquanto seus medos dormem, eu durmo bem longe deles...
Mas isso que os músicos fizeram foi apenas instrumentalizar as canções que as mães de todo o mundo inventaram para fazer seus filhos dormirem. As "berceuses" acalmam as almas das crianças.
Tudo o que existe precisa dormir. O simples existir cansa. A se acreditar nos poetas e nas crianças, até mesmo as coisas.
Minha filha de quatro anos, olhando os vales e montanhas que se perdiam de vista nos horizontes de Campos de Jordão, fez-me essa pergunta metafísica: "Papai, as coisas não se cansam de serem coisas?
"Fernando Pessoa teve suspeita semelhante e escreveu: "Tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, há tanto tempo... Tenho dó delas. Não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas, como das pernas ou de um braço? Um cansaço de existir, de ser, só de ser, o ser triste, brilhar ou sorrir...".
Ele, poeta, estava cansado. Olhava para as estrelas que luziam havia tanto tempo e tinha dó delas. Elas deveriam estar muito cansadas. Suas pálpebras jamais se fechavam. Seus olhos estavam sempre abertos, sem poder dormir jamais...
Pergunto-me então se não haverá um simples cansaço de viver. Será que não chega o momento em que a vida diz, das profundezas do seu ser, como um pedido de socorro aos que entendem a sua fala: "Estou cansada. Quero dormir o grande sono..."?
Os especialistas na arte da tortura descobriram que uma das técnicas mais eficazes e discretas para se obter a confissão de um torturado era a de impedir que ele dormisse. Assentado numa poltrona confortável, o prisioneiro espera. O tempo passa em silêncio, sem interrogatório. Vem o sono. As pálpebras pesam e querem se fechar. Mas alguém que o vigia o sacode para impedir que ele durma. E assim o tempo vai passando. O desejo de dormir vai crescendo, as pálpebras pesam até um ponto insuportável. Nesse momento, a necessidade de dormir é tão terrível que o prisioneiro está pronto para confessar qualquer coisa só para poder dormir.
Foi coisa parecida que fizeram com a Eluana Englaro, mulher italiana com 38 anos de idade, dos quais 17 em vida vegetativa. Seu sono sem despertar dizia que ela desejava dormir. Mas os torturadores, a ciência, as leis e a religião lhe negavam esse direito. Obrigavam-na a continuar viva contra a vontade do seu corpo, que ansiava pelo grande sono. Ligaram seu corpo a máquinas que impediam que ela dormisse. Vivia mecanicamente.Finalmente o direito de dormir lhe foi concedido. Fantasio que ela dormiu como uma criança, ouvindo a "berceuse" de Brahms.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A era da responsabilidade

Robert Zoellick

Os historiadores dividiram a história ocidental em épocas que representam os seus valores culturais, econômicos e políticos. Assim, temos a Baixa Idade Média, a Renascença, a Reforma e o Iluminismo. Como será definida a primeira metade do século 21? Poderá ser chamada de Era da Reversão, em que os países retrocedem para soluções internas, circunscritos em suas fronteiras, levando consigo as memórias de prosperidade? Será a Era da Intolerância, em que os imigrantes e estrangeiros são responsabilizados pelo aumento do desemprego? Ou será conhecida apenas como O Declínio, tão abrupto quanto cruel?
Como o presidente Barack Obama identificou de forma correta, esse período também poderia e deveria ser chamado de Era da Responsabilidade. Para que isso se concretize, serão necessárias mudanças de atitude e políticas de cooperação, nos EUA e no mundo inteiro. Quais seriam as características de uma Era da Responsabilidade?
Em primeiro lugar, seria uma era da globalização responsável, onde a inclusão social e a sustentabilidade prevaleceriam sobre o enriquecimento de poucos. Isso significa o empenho na geração de um crescimento que abranja oportunidades para os pobres, desenvolvimento tecnológico, microfinanças e empréstimos para pequenos empresários, acordos comerciais que beneficiem ambas as partes envolvidas e níveis de ajuda que sejam suficientes para o alcance das Metas de Desenvolvimento do Milênio. As primeiras etapas dessa agenda são a conclusão da Rodada de Doha e a renovação do compromisso de fornecer a ajuda que foi prometida.
Em segundo lugar, deverá ser uma era de gestão responsável do meio ambiente global. Para que isso aconteça, um acordo sobre mudanças climáticas poderia ser instituído em Copenhague, em dezembro, com o objetivo de reduzir as emissões de carbono usando novas tecnologias.
Em terceiro lugar, seria uma era de responsabilidade financeira, tanto no nível pessoal quanto sistêmico. Esse período deveria começar pelo estabelecimento de um acordo, em Londres, na reunião de cúpula das grandes economias que participam do G20, para que os governos cooperem com a expansão fiscal no âmbito de uma estratégia de disciplina orçamentária. Os países deveriam também acordar um plano que reabra os mercados de crédito, solucione os maus empréstimos, de modo que os bancos possam se recapitalizar, e evite o protecionismo.
Em quarto lugar, seria uma era de multilateralismo responsável, em que os países e as instituições procuram soluções práticas para problemas interdependentes. Alguns exemplos disso seriam o esforço para estabelecer acordos sobre o fornecimento humanitário de alimentos e a fixação de preços ou tarifas que estimulem o investimento na conservação e em fontes mais limpas de energia.
Em quinto lugar, seria uma era de partes interessadas responsáveis, em que a sua participação na economia internacional implicaria tanto responsabilidades quanto benefícios. Uma época que presenciaria os antigos clubes de países ricos dando lugar a um conselho diretor expandido, fundamentado nas atuais realidades econômicas. Esse grupo seria desafiado a atuar e discutir questões em conjunto. A nossa Era da Responsabilidade deve ser global e não apenas ocidental.
O modo como responderemos à crise nos próximos meses definirá o curso a ser adotado. Em uma primeira etapa, os países desenvolvidos deverão concordar em destinar 0,7% dos seus pacotes de estímulos econômicos para um fundo de vulnerabilidade, com o objetivo de apoiar os mais necessitados nos países em desenvolvimento. O Banco Mundial poderia administrar a distribuição dos recursos junto com as Nações Unidas e os bancos regionais de desenvolvimento. Poderíamos utilizar os mecanismos existentes para fornecer o capital de modo rápido e flexível, apoiados por esquemas de monitoramento e salvaguardas a fim de que o dinheiro seja empregado de forma adequada.
Após o choque de preços dos alimentos e dos combustíveis, no ano passado, a crise financeira aumenta os riscos para os países e as populações mais pobres. A retração do crédito e a recessão mundial estão minando as receitas governamentais e reduzindo sua habilidade para atingir as metas de educação, saúde e igualdade de gêneros. As transferências de dinheiro se tornam mais lentas. Os investimentos estrangeiros e domésticos estão congelados. O comércio está em declínio. Os distúrbios sociais aumentam. As estimativas sugerem que uma queda de 1% nas taxas de crescimento dos países emergentes insere mais 20 milhões de pessoas na pobreza. Cem milhões de indivíduos já foram levados a essa situação como resultado dos transtornos ocorridos no ano passado.
Os países pobres necessitam de três intervenções: programas de proteção social para ajudar a atenuar o impacto da crise econômica sobre os pobres; investimento em infraestrutura com vistas a criar uma base para a produtividade, o crescimento e a geração de emprego; e crédito para pequenas e médias empresas de forma a abrir postos de trabalho. Os doadores poderiam adaptar as contribuições ao fundo de vulnerabilidade de modo a atender aos seus interesses. Essa abordagem surtiu efeito no recente apoio do Japão e da Alemanha à recapitalização dos bancos promovida pelo Banco Mundial nos países pobres e na decisão de conceder financiamentos provisórios para projetos de infraestrutura viáveis, que ultimamente perderam acesso ao crédito.
Esse plano é possível de ser implementado. O percentual de ajuda estabelecido pelas Nações Unidas corresponde a 0,7% da economia de um país. O patamar de contribuição de 0,7% de cada pacote de estímulo de uma nação desenvolvida representa apenas uma fração mínima das centenas de bilhões destinados ao socorro financeiro proporcionado aos bancos. No entanto, esse percentual poderia fazer uma grande diferença para centenas de milhões de pessoas que são vítimas de uma crise pela qual não são responsáveis. E o que é mais importante: essa iniciativa sinalizaria um compromisso que o mundo está claramente escolhendo assumir, ao invés de ser direcionado pela crise. Ação internacional ou políticas protecionistas? Era da Responsabilidade ou Era da Reversão? A escolha é clara.
*Presidente do Grupo Banco Mundial
(Este artigo foi publicado pela primeira vez no jornal Financial Times, em 25 de janeiro de 2009)
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 16/02/2009

Ecossimplicidade

Leonardo Boff*

O que se opõe a nossa cultura de excessos e complicações é a vivência da simplicidade, a mais humana de todas as virtudes, presente em todas as demais.

A simplicidade exige uma atitude de anticultura, pois vivemos enredados em todo tipo de produtos e de propagandas. A simplicidade nos desperta a viver consoante com nossas necessidades básicas. Se todos perseguissem esse preceito, a Terra seria suficiente para todos. Bem dizia Gandhi: "Temos que aprender a viver mais simplesmente para que os outros simplesmente possam viver".

A simplicidade sempre foi criadora de excelência espiritual e de liberdade interior. Henry David Thoreau, que viveu dois anos em sua cabana na floresta junto a Walden Pond, atendendo estritamente às necessidades vitais, recomenda incessantemente em seu famoso livro-testemunho Walden ou a vida na floresta: "Simplicidade, simplicidade, simplicidade". Atesta que a simplicidade sempre foi o apanágio de todos os sábios e santos. De fato, extremamente simples eram Buda, Jesus, Francisco de Assis, Gandhi e Chico Mendes entre outros.

Como hoje tocamos já nos limites da Terra, se quisermos continuar a viver sobre ela, precisamos seguir o evangelho da ecossimplicidade, bem resumida nos três erres propostos pela Carta da Terra: "Reduzir, reutilizar e reciclar" tudo o que usamos e consumimos.

Algo da montanha, do mar, do ar, da árvore, do animal, do outro e de Deus está em nós

Trata-se de fazer uma opção pela simplicidade voluntária que é um verdadeiro caminho espiritual. Esta ecossimplicidade vive de fé, de esperança e de amor. A fé nos faz entender que nosso trabalho, por simples que seja, é incorporado ao trabalho do Criador que em cada momento ativa as energias que produzem o processo de evolução.

A esperança nos assegura que se as coisas tiveram futuro no passado, continuarão a ter no presente. A última palavra não a terá o caos mas o cosmos. Para os cristãos, o fim bom já está garantido, pois alguém de nós, Jesus e Maria, foram introduzidos corporalmente no seio da Trindade.

A ecossimplicidade nos faz descobrir o amor como a grande força unitiva do universo e de Gaia. Esse amor faz com que todos os seres convivam e se complementem. Na modernidade, nós nos imaginávamos o sujeito do pensamento e a Terra o seu objeto. A nova cosmologia nos afirma que a Terra é o grande sujeito vivo que, através de nós, sente, ama, pensa, cuida e venera. Consequentemente, importa pensarmos como Terra, sentirmos como Terra, amarmos como Terra pois, na verdade, somos Terra, espécie homo, feito de húmus, de terra boa e fértil.

Ao sentirmo-nos Terra, vivemos uma experiência de não-dualidade que é expressão de uma radical simplicidade. Algo da montanha, do mar, do ar, da árvore, do animal, do outro e de Deus está em nós. Formamos o grande Todo. Uma moderna legenda dá corpo a estas reflexões.

Certa feita, um jovem iniciante na ecossimplicidade foi visitado, em sonho, pelo Cristo ressuscitado e cósmico. Este o convidou para caminharem juntos pelo jardim. Depois de andarem por longo tempo, observando, encantados, a luz que se filtrava por entre as folhas, perguntou o jovem: "Senhor, quando andavas pelos caminhos da Palestina disseste, certa feita, que voltarias um dia com toda a tua pompa e com toda a tua glória. Está demorando tanto esta tua volta! Quando, finalmente, retornarás, de verdade, Senhor?". Depois de momentos de silêncio que pareciam uma eternidade, o Senhor respondeu: "Meu irmão, quando para ti, minha presença no universo e na natureza for tão evidente quanto a luz que ilumina este jardim; quando minha presença sob a tua pele e no teu coração for tão real quanto a minha presença aqui e agora; quando não precisares pensar mais nela nem fazeres perguntas como esta que fizeste, então, meu irmãozinho querido, eu terei retornado com toda a minha pompa e com toda a minha gloria".

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O direito de morrer

Rubem Alves*
“Eluana Englaro foi uma mulher italiana que entrou num estado vegetativo persistente no dia 18 de janeiro de 1992, depois de um acidente de carro. Ela se tornou o foco de uma batalha entre aqueles que apóiam e os que não apóiam a eutanásia. Depois de Eluana Englaro ter sido mantida viva artificialmente por 17 anos seu pai pediu que o tubo de alimentação que a mantinha viva fosse removido para que ela morresse naturalmente, declarando que ela havia claramente expresso o seu desejo de morrer no caso de um acidente que a deixasse em coma ou num estado vegetativo. As autoridades inicialmente negaram o seu pedido mas essa decisão foi posteriormente invertida.”
Sempre que se fala em eutanásia os seus opositores invocam razões éticas e teológicas. Dizem que a vida é dada por Deus e que, portanto, somente Deus tem o direito de tira-la. Eutanásia é matar uma pessoa e há um mandamento que proíbe que isso seja feito. Assim, em nome de princípios universais, permite-se que uma pessoa morra em meio ao maior sofrimento.
Pois eu afirmo: sou a favor da eutanásia por motivos éticos. Albert Camus, numa frase bem curta, disse que se ele fosse escrever um livro sobre ética, noventa e nove páginas estariam em branco e na última página estaria escrito “amor”.
Todos os princípios éticos que possam ser inventados por teólogos e filósofos caem por terra diante dessa pequena palavra: “amar”. Deus é amor.
O amor, segundo os textos sagrados, é fazer aos outros aquilo que desejaríamos que fosse feito conosco, numa situação semelhante.
Amo os cães e já tive dezenas. Muitos deles eu mesmo levei ao veterinário para que se lhes fosse dado o alívio para o seu sofrimento. Fiz isso porque os amava, eram meus amigos, queria o seu bem. E eu gostaria que fizessem o mesmo comigo, se estivesse na sua situação de sofrimento.
Defender a vida a todo custo! De acordo. É a filosofia de Albert Schweitzer e a filosofia de Mahatma Gandhi: reverência pela vida. Tudo o que vive é sagrado e deve ser protegido.
Mas, o que é a vida? Um materialismo científico grosseiro define a vida em função de batidas cardíacas e ondas cerebrais.
Mas será isso que é vida? Ouço os bem-te-vis cantando: eles estão louvando a beleza da vida. Vejo as crianças brincando: elas estão gozando as alegrias da vida. Vejo os namorados se beijando: eles estão experimentando os prazeres da vida. Que tudo se faça para que a vida se exprima na exuberância da sua felicidade! Para isso todos os esforços deve ser feitos.
Mas eu pergunto: a vida não será como a música? Uma música sem fim seria insuportável. Toda música quer morrer. A morte é parte da beleza da música. A manga pendente num galho: tão linda, tão vermelha. Mas o tempo chega quando ela quer morrer. A criança brinca o dia inteiro. Chegada a noite ela está cansada. Ela quer dormir. Que crueldade seria impedir que a criança dormisse quando o seu corpo quer dormir.
A vida não pode ser medida por batidas e coração ou ondas elétricas. Como um instrumento musical, a vida só vale a pena ser vivida enquanto o corpo for capaz de produzir música, ainda que seja a de um simples sorriso.
Admitamos, para efeito de argumentação, que a vida é dada por Deus e que somente Deus tem o direito de tira-la. Qualquer intervenção mecânica ou química que tenha por objetivo fazer com que a vida dê o seu acorde final seria pecado, assassinato.
Vamos levar o argumento à suas últimas consequências: se Deus é o senhor da vida e também o senhor da morte, qualquer coisa que se faça para impedir a morte, que aconteceria inevitavelmente se o corpo fosse entregue à vontade de Deus, sem os artifícios humanos para prolonga-la, seriam também uma transgressão da vontade divina. Tirar a vida artificialmente seria tão pecaminoso quanto impedir a morte artificialmente – porque se trata de intromissões dos homens na ordem natural das coisas determinada por Deus.
A vida, esgotada a alegria, deseja morrer. O que eu desejo para mim é que as pessoas que me amam me amem do jeito como eu amo os meus cachorros.

Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1620349&area=2220&authent=6777309FECEA92675530BDECC89245

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Para onde caminha a juventude?

Silvia Pontes*

De quem é o punhal da violência
quando nossas digitais
também estão na faca?



As mais recentes notícias sobre o envolvimento de jovens da classe média com o tráfico de drogas e armamentos apontam para uma questão crucial que afeta toda a sociedade e vem se ampliando: o valor da própria vida.
É fácil condenarmos a violência que ameaça a segurança da sociedade da qual fazemos parte em relação a um determinado grupo. Mas de quem é o punhal da violência contra a sociedade quando nossas impressões digitais também estão na faca?
O problema das drogas ignora fronteiras de classes. Essas fronteiras são construídas pelo medo, pela indiferença, pela arrogância e pela insegurança que fazem as pessoas se separarem umas das outras. Numa sociedade em que o ser humano perde a confiança no próximo a violência prospera, assim como prosperam todos os mecanismos que contribuem para que a segurança e o poder sejam garantidos com mais armas, mais medo, mais violência.

Se aquilo do qual mais fugimos na vida costuma vir ao nosso encontro, exigindo a nossa presença, é cada vez mais imprescindível haver um enfrentamento sério e destemido da situação. Nesse enfrentamento percebemos que há mais coisas em comum entre os jovens da classe média alta e aqueles que circulam pelo tráfico nos redutos das favelas, também portando drogas e armas.
Vamos evoluir ao ponto de também atingirmos o nível de facções de classe média alta como acontece no narcotráfico da coca? Ainda não chegamos a esse ponto. Ainda... é bom lembrar. Mas parece haver um caminho aberto e em expansão para esta possibilidade.

Existe, por outro lado, um caminho pelo qual podemos (e precisamos) compreender o lugar que a droga ocupa na vida do ser humano, especialmente na vida dos jovens de todas as classes. A curiosidade, o exemplo e o desafio costumam inspirar os jovens a buscarem drogas e situações de risco. A necessidade de sentir-se visível em seu grupo de convivência, no qual descobre seu valor, pode levar o jovem a buscar isso fora de casa, sobretudo quando sua família é uma familha, onde as pessoas mal se conhecem, não dialogam, não se tocam. A ausência e/ou falência das figuras parentais, responsáveis pela presença da lei, aqueles princípios básicos que permitem dar ao indivíduo limites e compreensão de sua importância no mundo e para o mundo podem ser fatores significativos na busca dos jovens por uma visibilidade junto ao poder fornecido pelo tráfico.

Os jovens carecem de líderes que os orientem, de espelhos parentais nos quais possam começar a perceber a importância do valor da própria vida, para conseguirem fazer escolhas com consciência. O que espelhamos para os nossos filhos, por meio de palavras e, sobretudo, atitudes no dia a dia?
Lembrando Virginia Satir:
"Quero te amar sem sufocar.
Juntar-me a ti sem invadir.
Estimar-te sem julgar.
Convidar-te sem insistir.
Criticar-te sem te acusar.
Ajudar-te sem te afrontar.
Deixar-te sem culpas.
Se eu puder ter o mesmo de ti,
juntos podemos nos integrar".

*Silvia Pontes é coordenadora especial de Prevenção à Dependência Química da prefeitura do Rio de Janeiro. Bióloga.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Os homens ocos

T.S. Eliot


Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada



Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;



Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam — se o fazem — não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados
(...)

(Editado pelo Jornal Correio Braziliense, 13/02/2009 - Tradução: Ivan Junqueira)
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/

Novos valores para nova civilização

Frei Betto*

No Fórum Social Mundial de Belém se concluiu que as alternativas ao neoliberalismo e à construção do ecossocialismo não se engendram na cabeça de intelectuais ou de programas partidários, e sim na prática social, através de lutas populares, movimentos sindicais, camponeses, indígenas, étnicos, ambientais e comunidades de base.
Para gestar tais alternativas exigem-se pelo menos quatro atitudes.
A primeira, visão crítica do neoliberalismo. Este aprofunda as contradições do capitalismo, na medida em que a expansão globalizada do mercado acirra a competição comercial entre as grandes potências; desloca a produção para áreas onde se possa pagar salários irrisórios; estimula o êxodo das nações pobres rumo às ricas; introduz tecnologia de ponta que reduz os postos de trabalho; torna as nações dependentes do capital especulativo; e intensifica o processo de destruição do equilíbrio ambiental do planeta.
A segunda atitude — organizar a esperança. Encontrar alternativas é um trabalho coletivo. Elas não surgem da cabeça de intelectuais iluminados ou de gurus ideológicos. Daí a importância de se dar consistência organizativa a todos os setores da sociedade que esperam outra coisa diferente do que se vê na realidade atual: desde agricultores que sonham lavrar a própria terra a jovens interessados na preservação do meio ambiente.
Terceira atitude — resgatar a utopia. O neoliberalismo não visa a destruir apenas as instâncias comunitárias criadas pela modernidade, como família, sindicato, movimentos sociais e Estado Democrático. Seu projeto de atomização da sociedade reduz a pessoa à condição de indivíduo desconectado da conjuntura social, política e econômica na qual se insere, e o considera mero consumidor. Estende-se, portanto, também à esfera cultural. Como diria Emmanuel Mounier, o individualismo é oposto ao personalismo. Pascal foi enfático: “O eu é odioso”.
No seu apogeu, o capitalismo mercantiliza tudo: a biodiversidade, o meio ambiente, a responsabilidade social das empresas, o genoma, os órgãos arrancados de crianças etc, e até mesmo o nosso imaginário. Um exemplo trivial é o que se gasta com a compra de água potável engarrafada em indústria, dispensando o velho e bom filtro de cerâmica ou mesmo a coleta da limpíssima água da chuva após um minuto de precipitação.
Sem utopias não há mobilizações motivadas pela esperança. Nem possibilidade de visualizar um mundo diferente, novo e melhor.
Quarta atitude — elaborar um projeto alternativo. A esperança favorece a emergência de novas utopias, que devem ser traduzidas em projetos políticos e culturais que sinalizem as bases de uma nova sociedade. Isso implica o resgate dos valores éticos, do senso de justiça, das práticas de solidariedade e partilha, e do respeito à natureza. Em suma, trata-se de um desafio também de ordem espiritual, na linha do que apregoava o professor Milton Santos, de que devemos priorizar os bens infinitos e não os bens finitos.
O projeto de uma sociedade ecossocialista alternativa ao neoliberalismo exige revisar, a partir da queda do Muro de Berlim, os aspectos teóricos e práticos do socialismo real, em particular do ponto de vista da democracia participativa e da preservação ambiental. O ecossocialismo se caracterizaria pela capacidade de incorporar conceito e práticas de igualdade social e desenvolvimento sustentável a partir de experiências dos movimentos sociais e ecológicos, assim como da Revolução Cubana, do levante zapatista do Chiapas, dos assentamentos do MST etc.
É vital incluir no projeto e no programa os paradigmas ora emergentes, como ecologia, indigenismo, ética comunitária, economia solidária, espiritualidade, feminismo e holística. Esse sonho, essa utopia, essa esperança que chamamos de ecossocialismo, não é se não a continuação das esperanças daqueles que lutaram pela defesa da vida, como Chico Mendes e Dorothy Stang, dois lutadores cristãos que deram suas vidas pela causa dos pobres, dos explorados, dos indígenas, dos trabalhadores da terra e dos povos da floresta.
*Escritor, autor de Cartas da prisão (Agir) entre outros. http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 13/02/2009

A juventude e a ilusão da vida fácil

MANCHETES COMO A DESTACADA ONTEM na primeira página do JB, sobre a prisão de jovens de classe média envolvidos no tráfico de drogas, vêm se tornando cada vez mais frequentes. Ainda assim, mexem com o cidadão comum, que se pergunta o porquê da opção errada conscientemente escolhida por rapazes (e moças) bem-nascidos e educados nos melhores colégios da cidade. Diante da vida profissional quase garantida somada a um futuro promissor, preferem estes jovens o descaminho das drogas ­ não o do consumo puro e simples (que já seria tortuoso), mas o da traficância e do ganho de dinheiro fácil. O fim da história, conforme se percebe na leitura do noticiário, é a perda da liberdade (quando não, a da própria vida).
Na mais recente operação da Polícia Federal, deflagrada quarta-feira, 300 homens da instituição cumpriram 53 mandados de prisão por todo o país. Só no Rio, foram utilizados 22 agentes e presas 44 pessoas. Além dos números envolvidas ­ ao longo dos 10 meses de investigação, foram apreendidos 112.010 comprimidos de ecstasy, 115.399 micropontos de LSD, 7,2 quilos de cocaína, 22,7 quilos de haxixe e 2.962 frascos de lança-perfume ­ o que mais impressiona é o perfil da quadrilha: jovens de classe média alta, moradores da Zona Sul carioca, com idade média de 26 anos. Agora detidos, terão de responder judicialmente por tráfico de drogas, associação para o tráfico e tráfico internacional, cujas penas, somadas, chegam a 30 anos.
Um triste fim para um grupo de adultos recém-formados que, diante de uma série de possibilidades que a vida lhes descortinava, optou pelo crime como método mais rápido para realizar os sonhos de consumo. Em conversa telefônica gravada pelos investigadores, com autorização judicial, um dos criminosos define a filosofia que norteava a gangue: "Para manter a vida que eu gosto de ter, eu preciso fazer isso". Não precisava. Mas assim o quis.
Já é incômoda a adesão, ao tráfico, de crianças e adolescentes que vivem em morros dominados por quadrilhas. Credita-se esse envolvimento, em grande parte, à mão pesada dos bandidos sobre os jovens das favelas e à ausência de perspectivas. São muitos os casos, portanto, em que não há saída. Não há opção. O mesmo não se pode dizer dos jovens de classe média flagrados esta semana. Se a ganância desmedida e a certeza do lucro fácil falaram mais alto, a ilusão da impunidade gritou ainda mais forte na tomada de decisão de cada integrante da quadrilha. Com milhares de crimes sem castigo prosperando no país, o bando supunha que jamais seria alcançado pela Justiça. Pagou caro pela aposta errada, e, caso a lei seja cumprida à risca, os condenados passarão quase tantos anos na cadeia quanto os que já viveram em liberdade.
Antes do momento crítico, a família deveria ter sido mais presente. Parece cômodo para os pais deixar os filhos saírem quando querem, a hora que querem, com quem querem. Mas o relaxamento dos responsáveis tem um preço. Está sendo criada uma geração que não aceita o "não" como resposta, que não enxerga limites, que não respeita leis, deveres ou mesmo outras pessoas. Há de se quebrar este ciclo, o quanto antes. E a educação doméstica pode ser um bom começo quando se pretende restaurar valores e lições imortais. Trata-se de um motivo adicional para estimular ações complementares em casa, em cada família. Os pais devem acompanhar a conduta dos filhos. O diálogo franco e firme ainda é o melhor antídoto contra a imersão em terrenos indesejáveis.

Darwin: paradigma e alicerce para o futuro

Anjali Goswani
Acadêmica do departamento de Ciências da Terra da Universidade de Cambridge, Anjali Goswani é uma apaixonada pela teoria de Charles Darwin e acredita que estamos longe de ver paradigmas tão importantes na ciência como os trazidos pela teoria da evolução. Participante do especial Mês de Darwin no National Geographic Channel, com o documentário Ursos, a cientista lembra, em entrevista ao JB, que o darwinismo será, com o avanço do efeito estufa, tão importante para o futuro como foi até o presente.

Conte um pouco sobre o documentário e quais evidências darwinistas são mostradas.
O documentário é interessante no sentido de mostrar a evolução e a forma como se deu diferentemente entre as espécies. A principal evidência é observar que existe uma transição intermediária entre ancestrais. Dos ursos grandes aos muito pequenos, como se deu esta evolução e como ele está hábil hoje para se adaptar a muitos nichos diferentes do meio ambiente? Pode parecer difícil para alguns entenderem a ligação entre ursos polares e pandas, e esse material nos ajuda a compreender, dos dinossauros até hoje.

Como você avalia a aplicação e as interpretações da teoria?
As interpretações e perspectivas podem trazer algumas evidências que são, aparentemente, contraditórias. Mas valem para fundamentos que vão da medicina à agricultura, em que vemos como a evolução é clara e ocorreu em terreno amplo. Vivenciamos um período em que já passamos por problemas de escassez de alimentos, e entender tais condições podem ajudar.
Por que Darwin ainda continua tão influente nos dias de hoje?
Muitos creem em sua ciência como a principal alternativa à explicação de tudo além da Bíblia, ainda mais por termos evidências de que a vida existia muito antes de qualquer explicação. Esta é a principal razão. Em termos científicos, há evidências biológicas cada vez mais fortes.

Outros paradigmas estão por vir nas próximas décadas?
Acho que em termos de evolução sim. Mas a idéia básica foi testada tantas vezes, em tempos e maneira tão diferentes, com populações naturais distintas, que a mudança será sutil e lenta. A teoria darwinista é bem amparada, e com o advento do aquecimento global, temos a chance de acompanhar de perto a nova evolução ditada pelo fenômeno.
(Entrevista feita por Marsíle Gombata, JB, 13/02/2009)
http://ee.jb.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117676/106509 13/02/2009

Dez coisas que eu sei

L.F. VERISSIMO

1. A preguiça é a mãe de todos os males que não requerem muito esforço.
2. O preço da liberdade é a eterna vigilância, mais a taxa de embarque.
3. Só Deus é onipresente e onipotente, não importa o que digam do juro bancário.
4. O chato desses planos macroeconômicos e dessas políticas a longo prazo é que a gente tem que viver no detalhe.
5. Se todos os banqueiros do mundo fossem colocados lado a lado na linha do Equador – sabe que poderia ser uma solução?
6. A morte é a última coisa que eu quero que me aconteça.
7. Tudo passa. Até esta angústia com a transitoriedade de tudo.
8. Deveriam ter aproveitado a reforma ortográfica para substituir o chapeuzinho por algo mais moderno.
9. Pessimista mesmo não é o cara que não vê luz no fim do túnel, é o que nem tem certeza de que isto seja um túnel.10. Existe um ser superior que dirige os nossos destinos, só não se sabe como ele conseguiu passar no teste psicotécnico.
(Crônica da Zero Hora, 12/02/2009)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Por que não se cria mais hoje?

Rose Muraro*

Onde está o Beethoven do século 21? E o Freud? E o Marx? E o Picasso? E assim todos os campos do conhecimento e da arte humana? Confesso que não sei. Em termos menos ambiciosos, quem substituirá Chico Buarque, Caetano Veloso ou Tom Jobim, ou Guimarães Rosa, ou Carlos Drummond de Andrade? Idem.
Por uma estranha coincidência, até meados do século 20 ainda existiam artistas de peso mundial (Matisse, Picasso, Prokofief, Shostakovich, Fernando Pessoa, Clarice Lispector e outros), mas este século nos parece deserto. Na segunda metade do século 20, ainda havia grandes nomes na ciência como Richard Feynman, o idealizador da nanotecnologia, Illya Prigogine (Teoria da Complexidade) e uns poucos grandes físicos quânticos, porque os maiores (Niels Bohr, Max Planck, Werner Heisemberg, Erwin Schrödinger e outros bem como Einstein) morreram na primeira metade do século 20. O que pode explicar esse deserto de padronização de corações e mentes em que vivemos?
Muito simples. Civilização de consumo, internet e videogames. Em 1978 fui dar aulas na Suécia e vi as casas cheias de samambaias choronas. No ano seguinte, fui a Teresina e lá vi a mesma coisa. Há três décadas já estava instalada a civilização de consumo e o American Way of Life. Mais tarde vi que não eram só as samambaias choronas, mas as cabeças que estavam homogeneizadas. Para criar realmente, principalmente novos paradigmas nas culturas e nos saberes humanos, é preciso que estejamos sintonizados com o nosso ser mais profundo e, portanto, com a profundidade de nosso tempo. Isso só acontece quando não temos elementos externos que nos chamem continuamente para fora de nós mesmos desde o dia do nascimento.
Da segunda metade do século 20 em diante, estamos cercados de uma noosfera imbecil, niveladora por baixo, que faz que os grandes gênios que certamente existem não possam acontecer. Seja pela pobreza material, seja pela pobreza emocional e espiritual. Os grandes criadores sempre foram seres essencialmente solitários e em comunicação profunda com os próprios selves. O self, segundo Jung, é o centro vital de cada ser humano de que podemos nos aproximar sempre, mas não atingimos nunca porque ele vai se aprofundando cada vez mais.
Os grandes pensadores e os grandes criadores sempre souberam disso, mas só que hoje tudo nos impede de chegar à nossa profundidade. Rádio, televisão, videogames, a primazia do consumo sobre a qualidade de vida, tudo isso é ambiente nefasto para o caminhar da espécie humana que está nos fazendo chafurdar nesta realidade rasa e pantanosa, verdadeiro canto da sereia que nos chama para prazeres fáceis em detrimento dos êxtases mais profundos.
Acho quase impossível podermos sair dela. O dinheiro que nada cria, tudo determina, hoje mais do que nunca e de maneira macro e micro ao mesmo tempo. Desde a forma dos nossos edifícios e das nossas megalópoles até a maneira de falarmos. Por isso sinto-me estruturalmente desesperançada. Aí estão problemas a serem resolvidos de tal magnitude como a destruição da espécie pelo excesso de consumo, mas todas as mídias agem como um ópio sobre cada um de nós. É como se o nosso trem estivesse correndo a uma velocidade cada vez mais acelerada para o precipício e nós, que estamos dentro dele, estamos dançando alegremente ao som de sambas, funks, hip-hops, tomando as nossas cervejinhas e “ficando” com cada um ou uma que encontramos e que é perfeitamente descartável.
Aliás, todos somos descartáveis. Perdemos o valor único que nos distinguia dos outros seres humanos e distinguia cada ser humano de outro. Somos realmente massas manipuláveis por um grande irmão onisciente e onipresente que está pouco se importando conosco a não ser com a nossa capacidade de produzir e de consumir. O grande irmão não é ninguém, o grande irmão está em tudo. Por isso nem precisa ser. É uma bela moeda de dólar reluzente como uma bola de futebol muito acima de nossas cabeças. Mas, apesar de tudo, acho que, ao escrever este artigo, estou fazendo a minha parte. Se todos fizerem a sua, tudo poderá ser mudado. Com certeza!
*Rose Muraro, escritora. http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 12/02/2209

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A bomba populacional: somos gente demais?

Blog de Andrea Wialli
30.01.2009

Em 1968, Paul Ehrlich, biólogo da universidade de Stanford, nos Estados Unidos, publicou com grande celeuma seu livro 'The Population Bomb', onde defende que os países adotem um controle populacional rígido, de modo a evitar uma escassez de alimentos e outros recursos naturais.
Na época, ele próprio foi bombardeado por gente da esquerda e da direita. Os detratores da esquerda diziam que ele tinha inspirações nazistas em defender o controle populacional. Os da direita diziam que suas idéias eram uma afronta aos direitos individuais.
Ehrlich tinha 36 anos quando publicou o livro. Ele errou ao prever que, nas décadas de 1970 e 1980, milhões de pessoas morreriam de fome por causa da escassez de comida. Mas hoje, aos 76 anos, Ehrlich volta a ser comentado. Suas idéias caíram no gosto dos estudiosos e ativistas da sustentabilidade. Ele manteve sua idéia original - de que o crescimento sem limites da população e o hiperconsumo não são compatíveis com a finitude dos recursos naturais.
E mais: junto com sua esposa, Anne Ehrlich, o cientista criou uma fórmula matemática para calcular a pressão dos humanos sobre a Terra: I=PAT. Na equação, I é o impacto ambiental, medido pela multiplicação de P (o tamanho da população de uma área), A (média do consumo individual, medido pelo PIB per capita) e T (tecnologias empregadas e seu impacto em termos de emissões de gases de efeito estufa).O debate neomalthusiano voltou a ganhar espaço face a questões como segurança alimentar, pobreza, suprimento de energia e mudança climática.
A população do mundo atualmente está em 6,8 bilhões de pessoas - quatro vezes o tamanho da população há um século atrás - e, embora as taxas médias de fecundidade estejam em queda (2,8 filhos por mulher nas nações mais pobres e 1,6 nas mais ricas), anualmente em torno de 75 milhões de habitantes são acrescentados ao planeta.
Há quem diga que o problema não é a quantidade de pessoas no planeta, e sim seu padrão de consumo e também o desperdício de recursos como água e comida. Nesse time, está a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Em seu relatório “Perspectivas do Meio Ambiente para 2030”, o grupo prevê que só o “stress hídrico” atingirá 3 bilhões de pessoas. “A população não representa um problema em si. As pressões exercidas sobre os recursos naturais não vem do número de habitantes, mas de seus hábitos de consumo.” Nunca é demais lembrar que a OCDE reúne os países mais ricos do mundo, justamente aqueles que tem o padrão de consumo mais elevado.
http://blog.estadao.com.br/blog/vialli/?title=a_bomba_populacional_somos_gente_demais&more=1&c=1&tb=1&pb=1 11/02/2009

As cores do ódio

Roberto Romano
Algumas técnicas permitem dirigir multidões. Goebbels usou de modo inventivo a manipulação dos jornais, rádio e cinema para assassinar milhões. Voltemos ao pensamento platônico para entender a eficácia da ideologia. Na República (Livro 4) Platão mostra a forma de impor atitudes mentais aos protetores da cidade. A obediência será infalível se eles tiverem nas almas “a opinião garantida pela educação relativa às coisas que devem ser temidas”. Sócrates adianta uma figura que explica o seu dito. Os tintureiros, diz ele, se querem aplicar a cor púrpura em tecidos, escolhem o branco e o preparam para receber aquele matiz. O tecido é testado com detergentes, para ver se perde a cor. Caso seja usada uma lã não branca e a tinta não receba tratamento correto, a púrpura se gasta num ridículo descolorido.
Para formar os soldados, finaliza Sócrates, devemos fazer como o tintureiro que aplica a cor indelével. O tecido, agora, é o da alma. Esta última deve ser dócil e receber a opinião da lei, relativa ao que deve ser temido. Se a técnica é falha, a opinião perde força. Magnífica análise, a platônica, dos processos autoritários usados na era antiga e moderna. Doutrinas ideológicas aplicadas com perícia técnica na alma das massas, são indeléveis e se tornam “preconceito” ou “ética”. “Ética” se enuncia de muitos modos. Ela pode ser correta e saudável, ou mortal. Existe a ética médica para garantir vidas e, de outro lado, a exercida na máfia, agrupamentos políticos, etc. Ética é o conjunto de atitudes corporais ou anímicas aprendidas em determinado tempo que, de tanto repetidas, operam automaticamente. Elas podem se desbotar um pouco. Mas são passíveis de reavivamento, de modo a gerar certezas nos adoecidos de ideologia ou pior, nos educados apenas para seguir ideologia.
O antisemitismo é ideologia arraigada na mente de povos antigos e modernos. São inúmeras as tinturarias da alma que funcionaram em ritmo industrial na história do Ocidente, para aplicar nas almas o ódio contra os judeus. A Idade Média imprimiu ódio contra os judeus com a desculpa do deicídio. Entre os protestantes Lutero exagerou em textos como Os judeus e suas mentiras (1543). A atitude genocida encontra-se em outros textos do Reformador, por exemplo no terrível As últimas palavras de Davi. Quem deseja mais dados, leia o escrito de H. Oberman: The roots of anti semitism (Philadelphia, Fortress Press, 1984). Não por acaso aqueles textos de Lutero receberam enorme publicidade na Alemanha, entre 1933 e 1945. A receita de Lutero foi seguida pelos genocidas: queimar sinagogas, arrasar moradias, destruir livros de oração, expulsar os judeus do país.
O caso é estudado por analistas de hoje, recomenda-se aos honestos intelectualmente a leitura de M. U. Edwards Jr.: Luther’s Last Battles: Politics and Polemics, 1531–46 (Ithaca, Cornell Univ. Press, 1983). O antisemitismo do século 20 não foi monopólio dos cristãos. Os supostos ateus da URSS e países auxiliares nutriram ódio contra os judeus, encetaram pogroms e perseguições. A tinturaria das almas tem filiais espalhadas pelo mundo e forma o que M. Ponty denominou, ao falar de Maquiavel, “a comunhão negra dos santos”.
Na semana passada o mundo constatou, sem muita perplexidade dada a eficácia da propaganda contra os judeus, atos gravíssimos. Em primeiro lugar vem a notícia de que o pretenso bombardeio de uma escola da ONU não ocorreu. A mentira foi divulgada pelos jornais importantes com direito a fotos. A verdade aparece, tímida, oculta pelos mesmos periódicos. O governo de Chávez patrocina a destruição de uma sinagoga. No Rio Grande do Sul, outro local de culto judeu foi profanado com símbolos nazistas.
A tinturaria mentirosa opera rápido. Ela apenas revigora os desbotados matizes do ódio que, na vida democrática, pareciam perdidos. Apelo aos honestos: aceitar o antisemitismo de esquerda ou direita é seguir o rumo da barbárie. Esta não salva ninguém da morte coletiva, em especial os árabes que hoje espalham doutrinas racistas. Eles também serão vítimas do que hoje pregam de maneira automática.

*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1619738&area=2190&authent=2C56191066733214C421825EE10A86

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

De volta para o futuro

Bruno Latour
Entrevista


Para o antropólogo francês
Bruno Latour,
os brasileiros são os mais preparados
para a criação de
novas disciplinas e
novas coletividades
Marcelo Fiorin
Com a publicação de sua obra Jamais Fomos Modernos em 1994, Bruno Latour tornou-se célebre em muitos países do mundo quase que instantaneamente. Mas não na França, onde seu pensamento demorou para ser aceito e só começou a ganhar espaço graças ao impacto e à acolhida que seus livros tiveram entre a antropologia da atualidade. Nesse livro, Latour retraça a história ideológica do desenvolvimento da "razão ocidental" e a crítica como uma ilusão que jamais chegou a penetrar mesmo nas práticas mais centrais ou nos espaços mais conceituados da cultura euro-americana. Para Latour, esse desenvolvimento da "razão ocidental" leva à depuração da cultura a que chamamos de modernidade. Novo iconoclasta do pensamento na França, híbrido de sociólogo, filósofo e antropólogo, inovador polêmico, educador transdisciplinar, ao se conversar com Latour fica-nos a nítida impressão de que estamos diante de um pensador que representa hoje uma grande corrente filosófica do futuro, que estará em voga talvez daqui a 20 ou 30 anos.

Mas Latour nos mostra também que esse futuro já estava lá em nosso passado. Um dos aspectos mais surpreendentes de seu pensamento é de fato sua maneira de abordar o passado e a chamada "periferia" da denominada civilização "ocidental", que ele considera uma aberração. Latour mostra como os "centros" de propagação dessa cultura, que são representados pelos laboratórios de ciências hoje em dia, são semelhantes ao que a própria ciência considera periférico e exótico. Para Latour, são os que se consideram modernos que são exóticos, e o Brasil nunca foi realmente moderno, pois nosso país (felizmente) pulou esse retrocesso, cuja expressão maior hoje em dia são os fundamentalismos orientais e ocidentais, espelhos monstruosos de si mesmos. Questionando persuasões filosóficas inteiras de Descartes à sociologia moderna, passando por Émile Durkheim, Karl Marx ou a filosofia analítica, impugnando divisões artificiais que, segundo ele, levaram à separação entre a natureza e a cultura, do inato e do aprendido, além da distinção entre as coisas e os objetos, Latour estende suas análises prático-teóricas à filosofia, à economia, à ecologia, à política. Para Latour, o que é importante nas ciências sociais agora é se interessar pela questão da produção das instituições que permitem a criação das coletividades e das associações que se desenvolvem no mundo de hoje, que não mais tem relação com a que antes chamamos de natureza e sociedade.
Como passamos a maior parte do tempo na história da filosofia, da sociologia, da antropologia, ou mesmo em todas as ciências sociais, a traduzir o que encontramos nos termos de uma ideologia que nada veio nos explicar, um paradigma assimétrico que apenas traduz os termos de uma cultura nos termos de outra, Latour acredita que o campo das investigações hoje em dia começa a abrir para pesquisas mais híbridas que irão realmente transformar as nossas persuasões e disciplinas. Esse processo, para Latour, já está acontecendo, é preciso apenas tirar nossas "lentes de contato" para vê-lo. É preciso também que reconheçamos os meios para refazer um mundo no qual possamos coabitar com outros seres, o que, segundo Latour, os brasileiros estão mais preparados para fazer do que os franceses.

Leia trechos da entrevista:

CULT - Um de seus trabalhos mais conhecidos no Brasil é o livro Jamais fomos modernos. Qual é a relação desse livro com a antropologia ?
Bruno Latour - Em primeiro lugar, a tese desse livro não faz muito sentido ao se falar no Brasil, porque os brasileiros nunca foram modernos. Foram sempre, de uma certa forma, pós-modernos. Este livro foi traduzido em 25 línguas e teve um impacto bastante diverso nos países em que foi publicado. Na França, por exemplo, seu impacto não foi muito grande. O que quis fazer foi uma antropologia daqueles que são chamados "modernos". A distância que tomamos normalmente na antropologia quando nós nos afastamos de nossa cultura para estudar uma outra, por exemplo, para conviver com pessoas com quem não convivemos geralmente, é equivalente neste livro a uma tomada de distância interior, um distanciamento diante da história do chamado "mundo ocidental" nos últimos 300 anos, para mostrar como algo se passou durante este período, algo ligado à atividade científica e técnica, mas que não tem nada a ver com o que se diz ter acontecido.

CULT - O modernismo seria então uma invenção exótica?
BL - Eu diria que esse livro procurou lutar contra o equivalente do exotismo nas sociedades que se denominam modernas, o que se pode chamar de "ocidentalismo". Assim como há um orientalismo para o Oriente, como definiu-o Edward Said, há um exotismo de nós mesmos, quero dizer, da Europa ou da Euro-América. É isso que está ligado à ideia de uma antropologia. Fazíamos a antropologia dos outros, mas não a antropologia de nós mesmos, com exceção das margens, dos aspectos marginais de nossa sociedade, do que sobreviveu: da magia, das festas, da sociabilidade. Mas jamais fazíamos a antropologia do centro que constitui nossas atividades. Eu mesmo aprendi antropologia com excelentes antropólogos na África negra, e quando retornei à Europa, fiquei surpreso com essa assimetria. Quando nós fazemos antropologia (no exterior de nossa cultura), estudamos coisas que nos parecem realmente centrais para as comunidades nas quais passamos a viver. Mas, quando retornamos aos europeus ou aos euro-americanos, pensamos que a antropologia se refere somente à parte marginal. Tudo isso mudou muito. Esse livro foi escrito há 20 anos. Hoje em dia, muitas vezes os antropólogos não mais podem fazer uma pesquisa de campo em outra sociedade, em outros países, pois o acesso a essas áreas tem sido progressivamente restrito ou fechado (é o caso praticamente de toda a África e do Meio Oriente; o que nos resta de fato é apenas a América Latina e talvez uma parte da Ásia). Isso tem redefinido a antropologia como uma reflexão também sobre o centro da sociedade dita moderna, de forma que hoje em dia, essa ideia já se tornou banal, ao passo que na época que escrevi meu livro não era bem assim.

CULT - Qual é a tese desse livro e por que que ele é sub-intitulado como "ensaio de antropologia simétrica"? Isso foi uma ideia original, ou algo desenvolvido a partir do trabalho de outros autores?
BL - Há a controvérsia entre a tese que considera que nós fomos modernos e a tese que não, e tudo repousa sobre uma teoria da ciência. Esse era o problema da área de estudo na qual eu continuo a trabalhar: a science studies, que faz uma antropologia das ciências. É a ideia também do meu livro. Jamais fomos modernos fez talvez, e estranhamente, muito sucesso mesmo se sua tese não foi ainda muito testada empiricamente. Quanto ao termo "simétrico" provavelmente já existia. De toda forma, ele é bastante comum, poderia se dizer também, no lugar de "antropologia simétrica", antropologia "equilibrada" ou mesmo "equitável". Eu escolhi "simétrica" por causa da conotação desse termo na área de estudos das ciências (science studies). Ele implica também uma simetria entre a ciência e a não ciência, ou a ciência ligada ao problema da história das ciências. Mas abandonei o termo "simétrica", pois ele tem o inconveniente de supor que, quando fazemos essa simetria, guardamos os dois elementos que opomos, por exemplo, a natureza e a cultura.

[...]
CULT - Seu trabalho trocou os livros pelas exposições, e trata de arte, ciência, religião e do respeito pela mediação como uma forma de chegar à civilidade, como resposta ao modernismo e ao pós-modernismo. Essa também é a proposta de sua exposição Iconoclash?
BL - Esse é um empreendimento que me interessou muito, em primeiro lugar, porque eu mudei de mídia, e passei do livro à exposição, também ao catálogo também, e assim modifiquei tanto o impacto como a forma da atividade. Assim, creio que é possível mudar de modernidade, ao reencontrar a noção da mediação, o respeito por atividades diferentes: a arte contemporânea, a atividade científica, a atividade religiosa, o sentido da civilização, talvez até o da civilidade, possam ser recobrados através dessas atividades que passam a ser organizadas de forma bastante diferente do que se tem feito. Por sinal, o iconoclasmo é parte da história intelectual crítica do Brasil. Ele faz parte das reflexões da teoria e de todas as religiões que herdamos. Podemos ver que a história do iconoclasmo não é fácil de se ignorar. Ela se aprofunda para além das raízes do modernismo, além do construtivismo. Portanto, reencontrar o sentido da mediação é restabelecer o fio da experiência para as pessoas e inventar assim um empirismo mais realista em relação ao primeiro empirismo que tivemos.

CULT - Mas qual é essa tradição iconoclástica que o senhor menciona em relação ao Brasil?
BL - Fazer proliferar os ídolos, tanto uns como os outros, com toda a liberdade possível. No Brasil, não se imagina de imediato que os ídolos estão lá para serem destruídos. Há uma grande compatibilidade de cultos. Veja, por exemplo, a história das religiões. Ela é interessante. O que chamamos de sincretismo, de amálgama, tudo isso teve um início: foi a maneira como foi vista a história europeia no Brasil. Mas tudo isso se passou de forma diferente. O iconoclasmo emerge na tradição antropofágica, por exemplo. E o iconoclasmo é importante para os euro-americanos, pois enquanto não fizermos o luto desse iconoclasmo, não compreenderemos nada do que é a noção de construtivismo, não respeitaremos jamais as mediações, e portanto cairemos no fundamentalismo. O fundamentalismo é uma espécie de modernismo monstruoso. Não quero dizer que o modernismo foi sempre um fundamentalismo, mas a partir do momento em que ele retira todas as mediações, ele o é.
Depois da passagem do pós-modernismo, que é um momento de liberação e divertimento, ele ainda se quer ater à verdade, sem se ater aos meios. Caímos então no fundamentalismo, é a única solução. Os modernistas e os pós-modernistas que assim o fizeram deixaram como herança apenas o fundamentalismo àqueles que ainda buscam as verdades, e esses ainda são os que poderíamos considerar "os do bem", os que procuram a verdade. Se nós privarmos os que buscam a verdade dos meios, não há outra forma de alcançá-lo senão através do fundamentalismo, seja através do texto, dos livros sagrados (no caso da religião), ou em outros casos. Hoje, podemos ser fundamentalistas nas ciências, na política etc. Pois não há mais os intermediários, as mediações. O respeito pelos meios, pelas mediações, é algo que os brasileiros sabem fazer muito melhor do que os franceses. Nós, euro-americanos, esvaziamos inteiramente os meios para se buscar a verdade. E aqui novamente a teoria da ciência tem uma participação, pois para respeitar as ciências, temos que respeitar os meios que fazem a ciência. Isso parece de uma banalidade imensa, mas o fato é que isso resta sendo um assunto sobre o qual há ainda muita controvérsia, pois existem ainda pessoas que querem a ciência sem respeitar os meios. Os "modernos" são realmente bizarros!
(Reportagem de Marcelo Fiorini, in revista CULT, nº132 - fevereiro/2009. pp.14/20)

Darwin, 200

ENTRE OS pensadores mais influentes dos séculos 19 e 20, só Charles Darwin sobreviveu incólume ao teste do tempo. Os 200 anos de seu nascimento, comemorados nesta semana, encontram sua reputação em excelente forma. Com efeito, nunca foi tão válida a afirmação do grande evolucionista Theodosius Dobzhansky (1900-1975): "Nada em biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução".
A teoria darwiniana sofreu aperfeiçoamentos, mas seu cerne, a seleção natural, permanece intacto. O mecanismo foi exposto em obra clássica, "Origem das Espécies", que também faz aniversário (150 anos): a diversidade observável nos organismos é fruto da acumulação de incontáveis e discretas características hereditárias que tenham contribuído para a sobrevivência e a reprodução de seus portadores.
Outro pilar da teoria darwiniana: os milhões de espécies de plantas, animais e micro-organismos que vivem e já viveram sobre a Terra descendem todos de um ancestral comum, que surgiu há mais de 3 bilhões de anos. Durante um século e meio reuniram-se inúmeras comprovações empíricas desses princípios. A universalidade do DNA, a substância presente no núcleo das células portadora de hereditariedade, é só uma delas.
É uma ideia poderosa, em sua simplicidade. Os organismos não são como são em obediência a um desígnio superior. Ao contrário, sua diversificação resulta do entrechoque de eventos inteiramente naturais -sobretudo mutações genéticas e modificações no ambiente- ao longo de um tempo muito profundo.
Compreende-se que esse modo de encarar a biosfera torne problemáticas outras explicações para a miríade de formas que povoam o mundo, como as inspiradas na literalidade de textos religiosos. Apesar disso, é possível conciliar o mecanismo da seleção natural com a noção de um Deus que o tenha criado.
O próprio Darwin, ateu ou agnóstico, jamais fez de sua teoria uma arma antirreligião. Essa é a caricatura que dele se construiu nos últimos 150 anos. Deixar-se arrastar por ela não faz jus à grandiosidade de sua visão da vida, que está na raiz do enorme avanço da biologia nas últimas décadas e que tanto fez para dissipar ilusões sobre o lugar da espécie humana no universo.

Editorial, Folha de São Paulo, 10/02/2009 - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1002200902.htm

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"Me recuso a culpar as novas gerações"

Julio Groppa Aquino*


Professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em São Paulo, Julio Groppa Aquino, 45 anos, desde o ano passado se incumbe de uma pesquisa monumental com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq): compilar e analisar toda a produção acadêmica brasileira sobre disciplina escolar surgida desde os anos 80. Com dois livros já publicados sobre o assunto, o especialista se considera uma voz dissonante em relação ao coro de educadores que vê nos alunos a origem dos conflitos em sala de aula.
Para Aquino, é preciso abandonar os “jargões educacionais” a fim de compreender mais corretamente os fenômenos que afetam as escolas brasileiras há pelo menos duas décadas – e critica duramente quem considera as novas gerações um entrave ao ensino.
Confira um resumo da entrevista concedida a ZH ontem, por telefone:
Zero Hora – Professores, famílias e diretores reclamam da dificuldade em manter a disciplina em sala de aula. O que está acontecendo?
Julio Groppa Aquino – Em primeiro lugar, observa que há um conluio muito bem-sucedido. Se todos reclamam da mesma coisa, há um óbvio ululante e perigoso. É uma verdade sem contradição nenhuma, pela qual parece que o problema da escola são os alunos. É um equívoco histórico.
ZH – Não há um agravamento da indisciplina nos últimos anos?
Aquino – A crise disciplinar começa nos anos 80. Isso tem a ver com a entrada na escola de personagens que durante 500 anos ficaram longe dela. Com isso, há uma descaracterização das práticas escolares, que até hoje se ressentem com esses alunos pobres. É uma espécie de indigestão da democratização escolar que ainda não foi equacionada.
ZH – Mas existem problemas concretos na sala de aula, não?
Aquino – Sim, gerenciados pela mentalidade de quem se defronta com eles. Hoje, temos problemas que não são diferentes de problemas que havia nos anos 50, mas naquela época se podia bater, excluir. Agora, esses conflitos têm uma escala diferente, outra dimensão, justamente porque aumentou assombrosamente o número de matrículas. Mas há um clima de pânico que revela um desconforto em atender os alunos.
ZH – As queixas incluem as escolas particulares...
Aquino – Nas particulares, você recusa matrícula, o que é uma contravenção, segue a lógica elitista pré-democratização. Na rede pública, tenta se lidar com o problema transferindo o aluno, fazendo uma dança das cadeiras. Na verdade, o que ocorre em todas as escolas é uma espécie de desincumbência do problema.
ZH – Por que isso ocorre?
Aquino – Você quer que eu diga o que todo mundo diz? Que as novas gerações são influenciadas pela internet, pelas novas tecnologias, que são diferentes? Todo mundo diz isso. A educação brasileira está coalhada de jargões. Um deles é o de que as crianças não têm jeito. Isso é a mesma coisa que dizer que o jornalismo impresso está mal porque não há leitores. Uma das tarefas do jornalismo é justamente formar os leitores. Óbvio que existem problemas disciplinares, mas eles são retroalimentados pela gestão escolar.
ZH – Como resolvê-los?
Aquino – Precisam ser resolvidos criativamente. Eu não tenho uma fórmula pronta para isso. É como querer resolver um problema conjugal. O que eu posso fazer é discutir o princípio, o princípio democrático das escolas. Quando educadores, em quase sua totalidade, dizem que não estamos sabendo lidar com as crianças, isso não é estranho? Não podemos dizer que elas não têm jeito. Há um subtexto conspiratório contra a criança e a juventude de parte dos educadores e repetido pela mídia.
ZH – Quais as consequências?
Aquino – Dizem que precisamos excluir crianças, mandar para conselho tutelar, mandar para a polícia. Isso é a morte da educação. Todos dizem que educar virou uma missão impossível. Então, fecha a bodega. Há um ninho de preconceitos e jargões nessa discussão. Liga para uma psicopedagoga e ela vai te dizer: “a criança padece de falta de limites”. Não podemos acusar a criança pelo que não sabemos fazer. Nós somos os educadores, caramba.
ZH – É necessária uma mudança de mentalidade?
Aquino – Tem um bando de educadores dizendo que não consegue educar. É a mesma coisa que você me dizer que não dá para ser jornalista no mundo de hoje. A educação é o setor mais em frangalhos no país, mas todo mundo acha que já fez a sua parte. Esse estado de calamidade interpessoal nas escolas não tem nada de trágico, nós é que provocamos. A educação que temos é a que nós fizemos. A mudança de mentalidade só se faz com choque de ideias. Não vou compactuar com o discurso de que as novas gerações são doentes. Então vamos parar de ter filhos. Ou só o filho dos outros que é doente? Me recuso a culpar as novas gerações.
*Julio Groppa Aquino, especialista em psicologia escolar da Universidade de Sao Paul (USP)
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2398403.xml&template=3898.dwt&edition=11676&section=1015 - 09/02/2009