terça-feira, 17 de março de 2009

A escola: território conflagrado

Moacyr Scliar*

Não é de admirar que dois recentes sucessos cinematográficos, Quem Quer Ser um Milionário? e Entre os Muros da Escola tenham em comum o fato de que os protagonistas são jovens pobres enfrentando difíceis problemas. Aliás, se acrescentarmos aos dois o brasileiro Cidade de Deus, estaremos caracterizando uma verdadeira vertente no cinema da atualidade. É o cinema de uma época de crise: a crise econômica, que está nas manchetes dos jornais, a crise étnica, a crise cultural, a crise religiosa, a crise nos relacionamentos.
O filme de Laurent Cantet passa-se numa escola pública de Paris. Os alunos, adolescentes, retratam o que é a Europa de hoje, um “melting pot”, um cadinho em que se misturam as mais variadas nacionalidades. Ali temos jovens antilhanos, africanos, chineses, os filhos de imigrantes que continuam migrando para o Ocidente em busca de uma vida melhor. O que lhes custa muito trabalho, muito sacrifício e muita coragem para enfrentar os movimentos racistas estimulados por um Le Pen e outros da mesma laia. São famílias que vivem uma permanente crise, e esta acaba repercutindo na escola, caixa de ressonância da problemática social. Cantet não foi, claro, o primeiro a percebê-lo. Isto já estava presente em Sementes da Violência (Blackboard Jungle, 1955), dirigido por Richard Brooks, no qual um jovem professor tem de enfrentar a hostilidade de seus estudantes. O filme fez história, inclusive porque a trilha sonora apresentava um novo gênero musical que teria sucesso duradouro: o rock’n’roll.
Os dois filmes têm um grande mérito: mostram a figura do professor em sua dimensão humana. No caso de Entre os Muros da Escola, este aspecto é extraordinariamente ajudado pelo desempenho de François Begaudeau. Não por acaso, ele foi professor e escritor antes de se tornar ator (aliás, o diretor Cantet é filho de professores). O que temos no filme é um educador democrático, que interage com os alunos, que os estimula a expressar seus conflitos e suas aspirações. Não é um mártir, não é um apóstolo: é um ser humano como qualquer outro, que comete erros, que tem acessos de raiva. E os jovens atores são tão espontâneos, que temos a impressão de estar vendo um documentário filmado em sala de aula. Não é Hollywood, portanto, não é A Sociedade dos Poetas Mortos, aquele filme que tinha Robin Williams no papel principal. É diferente e, em muitos sentidos, melhor, mais autêntico. Isto explica que tenha sido o primeiro filme francês a receber a Palma de Ouro em Cannes em 21 anos.
O filme aborda problemas cruciais de nosso mundo e faz uma homenagem mais do que merecida aos professores. E agora vejam a coincidência: neste último domingo figurava, na Folha de S. Paulo (página de Mônica Bergamo), uma reportagem com o significativo título de “Aula de coragem”. Nela, professores falam sobre as sombrias experiências que passam nas salas de aula. Viviane Grace Costa, do Rio, conta que uma de suas alunas, grávida, veio procurá-la, apavorada: o namorado tinha invadido a escola e queria bater nela. Viviane enfrentou o agressor, apesar deter sido ameaçada de morte por este, e conseguiu proteger a moça.
Seguramente qualquer professor do Rio Grande do Sul poderia narrar histórias semelhantes. Qualquer um deles poderia estrear o belo fime de Cantet. O Dia do Professor ainda está longe, mas isto não impede que a gente faça esta homenagem. No território conflagrado que hoje é a escola, os professores são os guardiães de nossa esperança.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A felicidade desesperadamente: uma sabedoria do desepero, da felicidade e do amor

" O que sabemos é que a felicidade é desesperadora. Freud escreve em algum lugar, retomando uma fórmula de Goethe acho, que não há nada mais dificil a suportar de que uma sucessão ininterrupta de três lindos dias... Talvez para todos os que só sabem viver de esperança: tres lindos dias que se seguem é difícil porque não deixam mais grande coisa a esperar... É o estresse do nomalien, no ano que segue o exame de ingresso no magistério. O estudo é demorado, difícil, o estudante se dizia anos a fio: "Como serei feliz no dia em que tudo isso acabar, quando eu passar no exame!" E de repente você é professor e lhe oferecem mais um ano na École Normale, para você aproveitar a vida ou começar uma tese... O que mais esperar ou que de melhor esperar? Nada. É o momento mais fácil da vida, o mais feliz, ou que deveria sê-lo... Mas a realidade é bem diferente: é o momento em que o normalien fica deprimido e se pergunta se já não é tempo de filosofar de verdade... Alguns deles, em todo caso. (...) Então, o que sabemos é que a felicidade é desesperante; o que tento pensar é que o desespero pode ser alegre: que a felicidade seja desesperadora e o desespero, feliz! Isso quero dizer que o desespero, no sentido em que eu o tomo, não é o extremo da infelicidade ou acabrunhamento depressivo do suicida. É antes o contrário: emprego a palavra num sentido literal, queas etimológico, para designar o grau zero da esperança, a pura e simples ausência de esperança. Também podiamos chamá-lo de inesperança." (André Comte-Sponville - A felicidade, desesperadamente, Martins Fontes, 2005, pp.64-66)

Outono

LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL*


Olhe em volta, vá à janela. Deixe o jornal por um momento. Observe a luz, mais quebrada, mais doce, mais próxima, mais íntima. Veja as paineiras das ruas e praças. Já estão floridas. Veja os maricás, rentes à estrada.
Veja como as pessoas estão mais lentas e como, nos rostos, ilumina-se um novo olhar. Até falam mais baixo.
Nossa sombra, projetada no chão, é cada dia mais alongada e, por vezes, confunde-se com o horizonte, dando-nos a certeza de que somos eternos.
Se for noite, olhe para cima, para o céu. No céu aparecem novas estrelas. O Cruzeiro começa a ficar alçado no horizonte. A Via-Láctea torna-se mais visível. O ar é nítido. As noites já são mais amenas, concedendo-nos o repouso de um sono que o verão nos nega. Os cães ladram menos, os gatos recolhem-se às suas casas. Tudo se cala, tudo é mais suave.
Os pássaros piam em surdina, e tornam-se douradas as folhas das videiras, saciadas do estio, quando nos deram os frutos com que fazemos o vinho. É menos difícil galgar as escadas. É o outono que lentamente se instala no Sul.

***

A existência do outono, ao Sul, é a garantia de que ainda somos humanos.

***

Até mesmo as artes mudam, no outono: há mais delicadeza na curva sinuosa que faz o braço da bailarina; o cantor tem a voz mais cálida; a pintora, ante a tela, descobre novas soluções para o seu trabalho; os poetas percebem, surpresos, que as palavras são mais capazes de escrever o poema. O clarinetista encontrará um instrumento mais apto a executar o concerto de Mozart.
Mas atenção: isso só acontece aqui, neste Sul. Não procure em outro lugar, porque o outono ao Sul é criação nossa e habita o domínio sobrenatural de nossas lendas e, como toda lenda, é profundamente real.
Em nosso outono, ao contrário do que acontece no mundo inteiro, as coisas não morrem.

domingo, 15 de março de 2009

Pensamento da noite

A Tagarelice
"É delicado e difícil para a fiolosofia empreender
a cura da tagarelice.
Pois seu remédio,
a palavra,
é feito para aqueles que ouvem,
e os tagarelas não ouvem ninguém,
já que estão sempre falando.
eis o primeiro mal contido
na incapacidade
de ouvir"
( Plutarco - Sobre a Tagarelice - Ed. Landy)

Disciplina Antiga

Cesare Pavese*


Os que bebem não sabem falar às mulheres,
se perderam de tudo, e ninguém os aceita.
Andam lentos na rua, e as ruas e postes
não têm fim.
Alguns deles dão giros mais longos,
mas não há o que temer: amanhã eles voltam pra casa.
O que bebe imagina que está com mulheres
- como os postes à noite são sempre os mesmos, assimas mulheres são sempre as mesmas -; nenhuma o escuta.
Mas o bêbado tenta, e as mulheres não o querem.
As mulheres, que riem, conhecem de cor suas palavras.
Por que riem assim as mulheres ou gritam, se choram?
O homem bêbado quer e deseja uma bêbada
que o ouvisse calada. Mas elas o atiçam:
"Para ter esse filho, é preciso contar com a gente."
O homem bêbado abraça-se ao bêbado amigo
que esta noite é seu filho, nascido sem elas.
Como pode uma zinha que chora e que grita
dar-lhe um filho amigo? Se aquele é um bêbado,
não recorda as mulheres no andar inseguro,
e esses dois perambulam em paz. O filhinho que conta
não nasceu de mulher - pois seria mulher
também ele. Caminha com o pai e conversa:
toda a noite iluminam-lhe os passos os postes.

* Um dos principais poetas italianos.Poema cortado pelo autor na edição final -Do Estadão, 15/03/2009.

Mulher de Fé

ENTREVISTA
Mariza Gomes da Silva,
mulher do vice-presidente José Alencar,
acredita que a luta do marido
contra o câncer
tem encorajado as pessoas


Quando perguntam a Mariza Campos Gomes da Silva qual é a sua postura como mulher do vice-presidente José Alencar, ela responde:
– Estou pronta quando solicitada.
A máxima é comprovada dia a dia, como companheira inseparável do marido em sua luta contra o câncer. Natural de Caratinga, Minas Gerais, mãe de três filhos e avó de cinco netos, ela conta nesta entrevista de onde sai tanta força para enfrentar as adversidades dos últimos anos. E confessa: “Gostaria de ser um pouco mais vaidosa”.
Pergunta – De onde a senhora tira sua fé?
Mariza da Silva – Da educação e formação religiosa que recebi de meus pais. Ao longo da vida, senti em vários momentos a presença da Virgem Maria ao meu lado.
Pergunta – A senhora e o vice-presidente recebem muitas mensagens de apoio?
Mariza – As mensagens são as mais emocionantes possíveis, de amigos e de desconhecidos que têm nos acompanhado nessa luta pela saúde. Há pacientes em tratamento que se espelham no José, adquirem força para continuar, se esquecem de si mesmos e passam a rezar por nós.
Pergunta – Qual é a sua postura em relação à atividade política?
Mariza – José e eu sempre estivemos ligados à política, de classe empresarial e social. Quanto a engajamento em partido, prefiro não me manifestar. Sou solidária às decisões dele.
Pergunta – Quais são suas principais lembranças da infância?
Mariza – Tive uma infância tranquila, participava das brincadeiras da época em frente de nossa casa ou no coreto. Eram típicos costumes do interior, como brincar de roda, amarelinha, queimada, pique. Participava no colégio em peças de teatro ou declamações, estudava piano, violão, aprendi tricô e costura.
Pergunta – A senhora tem algum hobby?Mariza – Meu hobby principal é cinema. Sou cinéfila desde criança. Gosto de ler e gostaria de ter tempo para o esporte. Quanto à culinária, sou boa em alguns pratos, mas só quando necessário.
Pergunta – A senhora é vaidosa?
Mariza – Eu me cuido visando à saúde. Há muito não tenho tido tempo para mim. Gostaria de ser um pouco mais vaidosa.

Cântico dos Cânticos

Eu te darei o meu amor

Teu talhe é de palmeira;
teus peitos, dois cachos.
Eu pensei: subirei à palmeira
para recolher suas tâmaras:
teus peitos são para mim
como cachos de uvas;
teu hálito, como aroma de maçãs.
Ai! tua boca é um vinho generoso
que flui acariciando
e me molha os lábios e os dentes!
Eu sou do meu amado
e ele me busca cheio de paixão.
(Ct 7, 8-11 - Bíblia do Peregrino)

Fritjof CAPRA e Oscar MATOMURA


No diálogo, dois pensadores – um austríaco radicado nos Estados Unidos, o outro paulistano – refletem sobre o que significam os sinais emitidos pela crise mundial e como os executivos devem reagir a eles. Fritjof Capra, 70 anos, físico teórico, escritor e palestrante, é autor de best-sellers como O Tao da Física e O Ponto de Mutação. Neles, traça paralelismo entre a física moderna e as filosofias e os pensamentos orientais tradicionais. Capra mantém há 15 anos um relacionamento próximo com Motomura, 65 anos, fundador da Amana-Key, em busca de respostas heterodoxas para os dilemas corporativos. Capra, que vive com a família em Oakland, nos arredores da Universidade de Berkeley, é uma das vozes mais eloquentes do pensamento sistêmico, assim chamado por propor uma visão da sociedade global como um organismo interconectado. “Ele é o tipo de pessoa de mente aberta, como se estivesse o tempo todo em busca de novos conhecimentos”, diz Motomura, que recebeu seu amigo para uma conversa, a pedido de Época NEGÓCIOS (onde mantém uma coluna), na sede da instituição que preside nos arredores de São Paulo – um centro de pesquisas de inovações radicais em gestão, por onde já passaram centenas de executivos brasileiros da primeira liga.

Oscar MotomuraComo um pensador sistêmico explica a crise financeira internacional?Fritjof Capra – O princípio fundamental da organização do mercado é a ideia de que ganhar dinheiro está sempre acima de qualquer valor humano, seja a proteção do ambiente, dos direitos humanos, da saúde ou da democracia. Quando a questão está entre ganhar mais dinheiro ou proteger esses outros valores, o dinheiro sempre prevalece. Pensadores como Manuel Castells, Hazel Henderson, Vandana Shiva e eu fazemos essa crítica à economia global há 15 anos, mas o que mais me surpreendeu nesta crise é que até a simples ética comercial, do negócio honesto, foi sucateada. Tendemos a pensar que as pessoas de negócios diriam que a confiança mútua nas transações empresariais é essencial. Mas isso foi deixado de lado em episódios como o escândalo da Enron e outros similares, nos quais os CEOs chegaram até a falsificar o quadro financeiro de suas empresas, não disseram a verdade sobre a saúde financeira de suas corporações e sacaram enormes gratificações enquanto suas empresas iam à bancarrota. Quando a crise se intensificou, chegamos a uma situação em que, de uma hora para outra, até os bancos perderam a confiança uns nos outros. A confiança se deteriorou completamente e o pânico se instalou. Do ponto de vista dos negócios simplesmente, resgatar a ética nos mercados é essencial. Sem isso, esta crise não poderá ser resolvida pela base. E outras poderão surgir.
Motomura No momento em que a maximização dos ganhos passa a ser o objetivo principal, isso, na verdade, representa uma total inversão de valores. Em tese, o objetivo de toda ação humana, de todo empreendimento deveria ser o bem-estar de todos. O dinheiro deveria ser algo que intermedeia as relações. Quando ele se torna o resultado final a atingir, todo o jogo muda. Ele se transforma no jogo da ganância e todo tipo de distorção passa a ocorrer. Um processo perverso que acaba até envolvendo empresas que deveriam estar fiscalizando o processo para que eventuais manipulações não viessem a ocorrer. É doença em cima de doença. E o que parece mais grave nesse processo é que fazemos de conta que essas coisas não existem, que todas as formas de corrupção podem ser controladas. É uma grande ilusão, um jogo de autoenganos...
Capra – Curiosamente, um impacto psicológico positivo é que as pessoas não vão mais acreditar nas autoridades financeiras. Quando uma empresa de investimento de Wall Street disser ‘confie em nós’, as pessoas vão pensar duas vezes... Elas sabem, agora, como o sistema funciona e como não funciona. As ‘autoridades’ já não têm mais a confiança do público. As pessoas perderam a crença nesse mercado livre e sem regras, o que, segundo Milton Friedman e a Escola de Chicago, é a melhor forma de regular as coisas. Isso simplesmente não faz mais sentido. As pessoas não acreditam mais nisso. Outro desdobramento positivo é a constatação de que os problemas do mundo estão interconectados. Não é coincidência que a crise financeira esteja acontecendo ao mesmo tempo em que a mudança climática mundial também chega a um ponto crítico. Todo o sistema econômico, político e cultural ignorou essas conexões por muito tempo. A fragmentação em nosso mundo acadêmico, na política e nas instituições sociais talvez seja a causa raiz da crise que vivenciamos agora. Portanto, esta é uma crise provocada pela fragmentação e por um jeito de pensar mais mecanicista, que vê as coisas de forma isolada.
MotomuraDe quem seria a responsabilidade de liderar a criação dessas soluções?
Capra – Independentemente da profissão, uma coisa que podemos dizer com absoluta certeza é que precisamos de pensadores sistêmicos. Alguém que não pense de forma sistêmica não chegará a nenhum tipo de solução que efetivamente resolva os problemas que vivemos hoje. Quando você pensa sistemicamente, pode se surpreender descobrindo que há caminhos muito diferentes do tradicional. Um exemplo: podemos dizer que, se conseguirmos mudar nossa principal fonte de energia, do petróleo para fontes renováveis, e formos capazes de nos libertar do petróleo do Oriente Médio, poderemos então questionar as centenas de bases militares. Por que temos bases no Cazaquistão e na Geórgia? Bem, oleodutos passam por lá. Por que três bases no Afeganistão? Elas estão posicionadas ao longo dos dutos de petróleo. No Iraque? Se não precisarmos do petróleo dessas regiões, não precisaremos dessas bases. De uma hora para outra, bilhões de dólares serão liberados.

Motomura
“Quando o dinheiro se torna o resultado final a atingir,
todo o jogo muda.
Transforma-se no jogo da ganância”
Capra
“Curiosamente, um impacto psicológico positivo é
que as pessoas não vão mais acreditar nas autoridades financeiras.
Perderam a confiança nesse mercado livre
e sem regras que, segundo Friedman,
é a melhor maneira de regular”


Motomura As mudanças exigidas envolvem reinvenção na área de design. O design é algo que ainda não é muito bem entendido como algo essencial a todas as áreas da atividade humana. O design está presente em tudo. Está inclusive presente no sistema político, econômico e social que prevalece no país. A crise atual é consequência de um design inadequado dos sistemas econômico-financeiros. Essas falhas permitem a ocorrência de irregularidades sem que nada aconteça... A solução da crise pressupõe genialidade em design. E design, por outro lado, pressupõe genialidade em pensamento sistêmico.
Capra – São os Da Vinci de hoje. Em minha opinião, Leonardo da Vinci foi o primeiro e mais brilhante designer de que temos notícia. Ele possuía todas essas qualidades. Uma outra qualidade é a habilidade de organizar esses padrões visualmente e desenhá-los. Leonardo era um solucionador de problemas, um inventor, um pensador sistêmico e um brilhante desenhista. Ele tinha todas as qualidades de um bom designer. Hoje temos um campo muito amplo de design ecológico, que é o da arquitetura verde, da agricultura sistêmica, do design industrial – não focado em produtos, mas em processos –, no qual a matéria flui de forma cíclica. Assim, uma revolução em design está acontecendo: práticas revolucionárias, que incorporam princípios da ecologia; de fato, práticas que se baseiam no aprendizado inspirado na natureza – o conceito de biomimetismo.
Motomura E quem são os Da Vinci de hoje? Temos muitos deles... Mas, onde estão e o que eles e elas estão fazendo? Estão trabalhando. Muitos têm bons empregos. Não são mais os mecenas que os patrocinam. São empresas. São órgãos do governo. E fazem o quê? Criam novas tecnologias, criam ‘internets’, satélites artificiais, novas armas nucleares, sistemas de inteligência complexos, capazes de monitorar a vida de cada cidadão. São os gênios de hoje.
Capra – Uma coisa que aprendemos sobre sistemas não-lineares – por meio das teorias dos sistemas e pela complexidade dos novos estilos de gestão – é que não podemos estabelecer uma cadeia de causa e efeito. Você não pode dizer: ‘Sou o CEO aqui, vou tomar determinada diretriz e mais tarde obterei este resultado’, porque o sistema possui muitos elos de feedback, ele é muito complexo. O que você pode fazer é proporcionar um ambiente em que energia e criatividade sejam liberadas, e então algo acontecerá. No entanto, durante uma crise, as empresas tendem a agir de forma mais conservadora, ficam mais temerosas. Em geral, essa é a tendência, mas não é isso que vai acontecer. As empresas não podem chegar aos analistas do mercado de ações e dizer que vão atuar de modo conservador daqui para a frente. Ser conservador hoje em dia significa desastre. Vai ser preciso agir, seguir em frente... Mas, é claro, com cautela.
MotomuraE como um CEO pode se tornar um pensador sistêmico na vida diária?
Capra – Quero reforçar esse ponto com a minha experiência conduzindo seminários em empresas. Em geral, peço às pessoas para, na primeira sessão, apenas ouvirem e não pensarem em aplicar nada, pois, em geral, elas têm essa tendência de saltar imediatamente para a aplicação. Assim, elas ficam preocupadas primeiro em entender. Mas, com certeza, após a primeira metade do dia, na hora do almoço, você vai ouvi-las falando sobre o que podem fazer na empresa em que atuam e qual seria o próximo passo. Os executivos são bons nisso. Não precisamos ensinar a eles como aplicar o novo em suas organizações. Podemos apenas abrir-lhes algumas portas.

FRITJOF CAPRA, 70 anos, austríaco nascido em Viena e radicado na California, Estados Unidos, é físico teórico, escritor e palestrante. OSCAR MOTOMURA, 64 anos, é educador e especialista em estratégia. Fundador da Amana-Key, é também colunista de Época NEGÓCIOS.
http://epocanegocios.globo.com/Revista/Common/0,,EMI62819-16380,00.html -Reportagem da revista ÉPOCA NEGÓCIOS, Edição Especial de Aniversário, março de 2009 Nº 25.

É preciso mudar o Homem

Georges Bourdoukan

Dez mil anos já se passaram desde que o primeiro homem aproveitou-se do trabalho do vizinho para lucrar. E até agora nada mudou. Civilizações surgiram e desapareceram. Impérios soçobraram. Guerras, fome e miséria acompanham a humanidade desde então. E nada. Absolutamente nada mudou.
Culpar a quem, senão ao próprio homem?
Propostas surgiram, avançaram, mas jamais alcançaram o bem-estar.
O homem continua só e solitário. A batalha do dia-a-dia não lhe permite raciocinar.
E o que é a batalha do dia-a-dia senão guerra de outro tipo?
E o que é a exploração do homem pelo homem que não escravidão disfarçada?
O que fazer?
Essa pergunta já foi feita e deu no que deu.
Outra pergunta: É possível mudar o sistema sem mudar o homem?
É a História quem responde: nada feito.
Mudar o homem.
Eis a solução.
Mas de que forma?
Alguém tem alguma idéia?
Diógenes percebeu isso há 2.500 anos. Quando lhe perguntaram a razão de andar com uma lanterna acessa durante o dia, respondia: procuro o homem.
Platão fez algumas sugestões, Aristóteles também tentou. Que o digam Santo Tomás de Aquino e Santo Agostinho.
Os utopistas cansaram de oferecer alternativas.
Thomas Morus dirá que o decapitaram e depois o santificaram.
Tudo por obra do animal homem.
Até Marx foi enganado.
Porque acreditava no homem generoso e no homem solidário.
O resultado todos conhecem.
Então não haverá solução?
Claro que há.
Ela começa por você!

http://carosamigos.terra.com.br/ - Edição 144 da revista CAROS AMIGOS.

A hora da poesia

Rubem Alves*
Há pessoas que já nascem na poesia. Assim foi com Fernando Pessoa, Cecília Meireles, Adélia Prado, Emily Dickinson. Comigo não foi assim. Se a poesia já estava em mim ela estava dormindo, como a Bela Adormecida. Eu não sabia que ela estava lá. Foi preciso que um poema a acordasse.
Não estou bem certo. Mas a minha memória diz que foi um poema de Robert Frost, aquele que tem o título de Parando pelos Bosques numa Noite de Neve. É assim que ele termina:
“Os bosques são belos, escuros, fundos.
Mas tenho promessas a guardar
e muitas milhas a andar
antes de poder dormir.
Sim, antes de poder dormir.”
Eu lia esse poema para os meus alunos — o que fazia por puro prazer porque nunca tive competência para ser professor de literatura. A beleza pede para ser repetida. Ler uma vez, outra vez, bem devagar...
Há de se saber o tempo do poema. Poemas são como a música. Os compositores colocam no alto da primeira página a indicação do tempo, adágio, allegro, presto.
A beleza segue um ritmo certo. Talvez os poetas devessem fazer com seus poemas o que fazem os compositores com suas músicas.
Li num tempo vagaroso, duas vezes, voz baixa...
Foi quando ouvi um soluço no fundo da sala. Alguém chorava. Uma aluna. Perguntei a razão do choro. Ela me disse: “Esse poema, esse poema...” “Mas o que no poema a faz chorar?”, perguntei. Ela respondeu: “Não sei, não sei, só sei que ele me fez chorar”.
E aí fiquei pensando na presença que se escondia no bosque belo, escuro, fundo... A presença não dita que se esconde no bosque é a morte.
Note o “mas” que separa o primeiro verso do resto do poema. Por que o “mas”? Parece não haver razão. A menos que o poeta, ao olhar para a beleza escura que morava na fundura do bosque tenha ouvido uma voz a chamá-lo, a voz de uma presença invisível no meio das árvores.
Esse “mas” é um declinar do convite. “Não, agora não...” É certo que chegará um momento em que o convite não poderá ser recusado — mas agora não, ainda tenho promessas a cumprir e milhas a andar...
Não, poesia não é uma coisa, um texto, um poema impresso ou recitado. Muitos ouviram esse mesmo poema e nada lhes aconteceu. Corpo e alma ficaram inertes. Não tremeram.
Esse tremor pode ser tristeza, riso, beleza, silêncio. Emily Dickinson, a solitária poeta norte-americana, escrevendo a um amigo, revelou-lhe o que era, para ela, a marca da poesia. “Quando leio um texto e me sinto tão fria que nenhum fogo pode me aquecer, sei que aquilo é poesia. Se leio um texto e sinto como se o topo da minha cabeça me tivesse sido arrancado, sei que aquilo é poesia.” Ela não mencionou nenhuma propriedade formal como ritmo ou rima como o essencial da poesia. Ele mencionou algo que acontece com o corpo quando tocado pela palavra poética.
Poesia é música. Por isso é preciso lê-la em voz alta. Ouve-se sempre uma música nos interstícios das palavras do poeta. “... e a melodia que não havia se bem me lembro faz-me chorar”. Era assim que Fernando Pessoa sentia.
A poesia tem sua hora, como os pássaros. Os tempos do dia são vários. Num momento de vagabundagem em que seus olhos brincavam com os pássaros que voavam Albert Camus notou que pela manhã eles se parecem com crianças que brincam, voam em todas as direções. Mas ao pôr-do-sol eles se tornam graves e voam numa única direção. O pôr-de-sol é hora de voltar para casa.
Fantasio o rosto grave do poeta, atento às palavras que lhe vêem, ele não sabe de onde. Imaginei que era o crepúsculo. O dia havia chegado ao fim, hora quando não há nada mais a ser feito porque a noite vai logo cobrir o mundo com o seu veludo e o poeta, à semelhança do casal que Millet colocou na tela “Ângelus”, para e medita.
Medita sobre o quê? Medita sobre a vida. Medita sobre a morte.
Ao ler pela primeira vez o poema O Haver, do Vinícius, senti-me numa luz crepuscular. Mas logo me dei conta de que o “crepúsculo” seria a minha hora, a hora da minha vida e da minha morte. Eu sou um ser crepuscular. É ao pôr-do-sol que a poesia me toca mais fundo.
Mas o Vinícius não era um poeta do crepúsculo. Era um poeta da noite. Há as noites das noitadas, dos amigos, do uísque, do violão. E há a noite quando todos se foram, o silêncio. Noite madrugada. Noite solidão. Noite oração. Apenas o som de passos de alguém que caminha na rua. Era nas madrugadas que a poesia lhe vinha mais funda, metafísica.
Sob a luz do crepúsculo eu medito. Releio o poema de Frost:
“Os bosques são belos, escuros, fundos.
Mas tenho promessas a guardar
e muitas milhas a
andar antes de poder dormir.
Sim, antes de poder dormir.”
Vejo o bosque escuro. Ouço uma sedutora voz que me chama, convidando-me ao cobertor aconchegante da noite. Aí eu digo “Não”! Tenho ainda promessas a cumprir — promessas que fiz a mim mesmo, livros a escrever, que é o jeito que tenho de espalhar-me por muitos para não desaparecer... E muitas milhas a andar porque há muitas coisas a amar...
Aí eu sinto a mesma coisa que sentiu a minha aluna na sala de aula. Tenho vontade de chorar...

A Saia Almarrotada

O monçambicano MIA COUTO com o livro
O Fio das Missangas* (Companhia das Letras)
traz 29 narrativas curta sobre mulheres:

Trecho
Na minha vila, a única vila do mundo, as mulheres sonhavam com vestidos novos para saírem. Para serem abraçadas pela felicidade. A mim, quando me deram a saia de rodar, eu me tranquei em casa. Mais que fechada, me apurei invisível, eternamente noturna. Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha.
Belezas eram para mulheres de fora. Elas desencobriam as pernas para maravilhações. Eu tinha joelhos era para descansar as mãos. Por isso, perante a oferta do vestido, fiquei dentro, no meu ninho ensombrado. Estava tão habituada a não ter motivo, que me enrolei no velho sofá. Olhei a janela e esperei que, como uma doença, a noite passasse. No dia seguinte, as outras chegariam e falariam do baile, das lembranças cheias de riso matreiro. E nem inveja sentiria. Mais que o dia seguinte, eu esperava pela vida seguinte.
Minha mãe nunca soletrou meu nome. Ela se calou no meu primeiro choro, tragada pelo silêncio. Única menina entre a filharada, fui cuidada por meu pai e meu tio. Eles me quiseram casta e guardada. Para tratar deles, segundo a inclinação das suas idades.
E assim se fez: desde a nascença, o pudor adiou meu amor. Quando me deram uma vaidade, eu fui ao fundo. (A Saia Almarrotada)

*Miçangas - Ele prefere grafar a palavra com dois esses.
Reportagem de Ubiratan Brasil no Estadão impresso, 15 de março de 2009.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Direito ao aborto

Frei Betto*
Embora contrário ao aborto, admito sua descriminalização em certos casos, como o de estupro, e não apoio a postura do arcebispo de Olinda e Recife ao exigir de uma criança de 9 anos assumir uma gravidez indesejada sob grave risco à sua sobrevivência física (pois a psíquica está lesada) e ainda excomungar os que a ajudaram a interrompê-la.
Ao longo da história, a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva quanto ao aborto. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez. Atrás dessa diferença de opiniões situa-se a discussão sobre qual o momento em que o feto pode ser considerado ser humano. Até hoje, nem a ciência nem a teologia têm a resposta exata. A questão permanece em aberto.
Santo Agostinho (séc. 4) admite que só a partir de 40 dias após a fecundação se pode falar em pessoa. Santo Tomás de Aquino (séc. 13) reafirma não reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40 dias, quando então lhe é infundida a “alma racional”.
Essa posição virou doutrina oficial da Igreja a partir do Concílio de Trento (séc. 16). Mas foi contestada por teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano (séc. 3) e de santo Alberto Magno (séc. 13), defendem a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação trata-se de um ser humano em processo. Essa tese foi incorporada pela encíclica Apostolica Sedis (1869), na qual o papa Pio IX condena toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.
No século 20, introduz-se a discussão entre aborto direto e indireto. Roma passa a admitir o aborto indireto em caso de gravidez tubária ou câncer no útero. Mas não admite o aborto direto nem mesmo em caso de estupro.
Bernhard Haering, renomado moralista católico, admite o aborto quando se trata de preservar o útero para futuras gestações, ou se o dano moral e psicológico causado pelo estupro impossibilita aceitar a gravidez. É o que a teologia moral denomina ignorância invencível. A Igreja não tem o direito de exigir de seus fiéis atitudes heroicas.
Roma é contra o aborto por considerá-lo supressão voluntária de uma vida humana. Princípio que nem sempre a Igreja aplicou com igual rigor a outras esferas, pois defende o direito de países adotarem a pena de morte, a legitimidade da “guerra justa” e a revolução popular em caso de tirania prolongada e inamovível por outros meios (Populorum Progresio).
Embora a Igreja defenda a sacralidade da vida do embrião em potência, a partir da fecundação, ela jamais comparou o aborto ao crime de infanticídio nem prescreve rituais fúnebres ou batismo in extremis para os fetos abortados. Para a genética, o feto é humano a partir da segmentação. Para a ginecologia-obstetrícia, desde a nidação. Para a neurofisiologia, só quando se forma o cérebro. E, para a psicossociologia, quando há relacionamento personalizado. Em suma, carece a ciência de consenso quanto ao início da vida humana.
Partilho a opinião de que desde a fecundação já há vida com destino humano e, portanto, histórico. Sob a ótica cristã, a dignidade de um ser não deriva daquilo que ele é, mas do que pode vir a ser. Por isso, o cristianismo defende os direitos inalienáveis dos que se situam no último degrau da escala humana e social.
O debate sobre se o ser embrionário merece ou não reconhecimento de sua dignidade não deve induzir ao moralismo intolerante, que ignora o drama de mulheres que optam pelo aborto por motivos que não são de mero egoísmo ou conveniência social, como é o caso da menina do Recife. Se os moralistas fossem sinceramente contra o aborto, lutariam para que não se tornasse necessário e todos pudessem nascer em condições sociais seguras. Ora, o mais cômodo é exigir que se mantenha a penalização do aborto. Mas como fica a penalização do latifúndio improdutivo e de tantas causas que, no Brasil, levam à morte, por ano, de cerca de 21 entre cada 1.000 crianças que ainda não completaram 12 meses de vida?
“No plano dos princípios” — declarou o bispo Duchène, então presidente da Comissão Espiscopal Francesa para a Família — “lembro que todo aborto é a supressão de um ser humano. Não podemos esquecê-lo. Não quero, porém, substituir-me aos médicos que refletiram demoradamente no assunto em sua alma e consciência e que, confrontados com uma desgraça aparentemente sem remédio, tentam aliviá-la da melhor maneira, com o risco de se enganar”. (La Croix, 31/3/79)
O caso do Recife exige profunda análise quanto aos direitos do embrião e da gestante, a severa punição de estupros e violência sexual no seio da família, e dos casos de pedofilia no interior da Igreja. E, sobretudo, como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário.
* Escritor, autor em parceria com L. F. Verissimo e outros, de o desafio ético (Garamond), entre outros livros.
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 13/03/2009

Professor do século 21

Danilo Gandin*

Imagine um grupo de jovens entrando na universidade. Querem ser professoras e professores do ensino básico. Como vamos prepará-los?
Teremos bastante tempo: são quatro anos com umas 800 aulas por ano. Não aceite menos, mas também não exija mais. A formação de um professor requer um amadurecimento durante toda a vida; ele vai crescer enquanto for professor. E, se forem aproveitadas, 3,2 mil aulas são suficientes para um excelente começo de preparação.
Antes de tudo, vamos debater com eles como deve ser uma pessoa “culta” no século 21. Pensaremos conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias e, a partir disto, prepararemos um currículo para estes universitários e para um futuro grupo de alunos do ensino básico. Queremos que um professor do ensino básico seja um cidadão completo naquilo que é necessário nos dias de hoje. Obviamente este “completo” estará no esforço para sê-lo. De ninguém se exige a perfeição, mas o caminhar sempre em sua direção.
Insistiremos: não queremos um currículo de disciplinas; queremos um conjunto de temas, de ações, de regras, de atitudes que nossos futuros professores e nossos futuros alunos do ensino básico terão que debater e vivenciar para poderem participar na sociedade em todos os seus aspectos. Será necessário, por exemplo, conhecer a natureza, o próprio ser humano e a sociedade da qual farão parte e, além disto, definir procedimentos éticos e desenvolver habilidades necessárias para agora. Haverá nisto, também, um grau de liberdade porque nem todos terão os mesmos conhecimentos, as mesmas habilidades e os mesmos valores.
Nada, pois, de limitar o ensino à matemática, à geografia, à história, à química etc. O mundo se abriu, o conhecimento se expandiu. A pergunta mais importante é: quais os conhecimentos, as habilidades, os valores mais importantes no mundo de hoje para que uma pessoa seja um cidadão eficaz em nossa sociedade. Isto não pode ser tratado com a escolha de um conjunto de disciplinas; não será possível porque deveriam ser tantas, que inviabilizariam as escolas. De qualquer modo, disciplinas são para preparar especialistas e este não é o caso aqui. Em vez delas, teremos um professor único por turma de alunos (pelo menos no Ensino Fundamental), ajudando-os a se constituírem como cidadãos.
Depois, melhor, ao mesmo tempo, estudaremos o ser humano, como ele é, como ele evolui e, sobretudo, como ele aprende e como incorpora valores.
Para a formação do professor, haverá outro ponto fundamental: o domínio de processos, técnicas e instrumentos didáticos. A intervenção do professor para o crescimento dos alunos não é apenas necessária, é imprescindível.
*Professor, escritor e conferencista
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2436730.xml&template=3898.dwt&edition=11891&section=1012 - 13/03/2009

segunda-feira, 9 de março de 2009

O século das mulheres

Mauro Santayana
Meses antes de sua morte, em 1982, conversei com Alceu Amoroso Lima, em uma entrevista para a Folha de S. Paulo. Ele havia perdido, pouco antes, a sua mulher, e a lembrança de Maria Tereza intervinha, sempre, enquanto ele tratava das ideias de seu tempo e das previsões sobre o século que viria. Busquei, de sua inteligência do mundo, o que era possível no diálogo de um dia inteiro. Ele recordou sua vida e, nela, o surgimento das ideias, dos compromissos, das revisões ideológicas e políticas, das influências poderosas, como as de Jackson de Figueiredo, da admiração pelo sogro, Alberto de Faria, e pelo cunhado, o romancista Otávio de Faria. Quando chegamos à atualidade em que estávamos, e entramos no terreno das perspectivas, Alceu me disse que o século 21 seria o das mulheres e dos negros.

Lembrei-me disso, ontem, Dia Internacional da Mulher. Alceu via essa ascensão como resultado das lutas históricas. Era inadmissível, na sua visão dos 88 anos (quando conversamos), que a minoria de homens brancos mantivesse o poder sobre essas duas parcelas da humanidade. Alceu não era marxista. Não me ocorreu perguntar sobre as lutas das mulheres, nos últimos dois séculos. Ontem, é claro, foi o dia de Clara Zetkin, a brava militante comunista que, no Congresso Internacional das Mulheres (Copenhague, 1910) propôs que a data de 8 março fosse um dia de luta internacional das mulheres por seus direitos à igualdade, em homenagem a tecelãs de Nova York. Em greve, elas foram massacradas pela polícia em 8 de março de 1857.

Nesse mesmo ano, Clara Zetkin nascia na Alemanha, e os Estados Unidos eram governados pelo pior presidente de sua história, antes de Bush – of course – James Buchanan. A partir de então intensificou-se, nos Estados Unidos e na Europa, a luta das mulheres trabalhadoras. Em 25 de março de 1911, um ano depois do Congresso de Copenhague, um incêndio, talvez criminoso, em uma confecção de roupas femininas, também em Nova York, a Triangle Shirtwaist Factory, daria mais significação ao Dia Internacional da Mulher. Por muito tempo se discutiu a origem do fogo, que matou 148 mulheres, em sua maioria imigrantes europeias, algumas delas ainda meninas de 12 anos, que trabalhavam 15 horas por dia e recebiam a metade do salário de um homem. O fato revelou o regime de trabalho semiescravo das mulheres e estimulou sua organização política e sindical.

Clara Zetkin se uniu aos espartaquistas alemães logo depois da guerra e se elegeu deputada, em 1920, ao Bundestag, onde, durante os 12 anos que se seguiram, dedicou-se à luta contra a ascensão dos nazistas. Na abertura do Parlamento, em 1932, fez violento discurso contra a chegada de Hitler à Chancelaria, e foi das primeiras expurgadas do Bundestag pelo Führer. Exilada, morreu em Moscou, no ano seguinte. As mulheres brasileiras não estiveram ausentes do movimento feminino. No mesmo ano de 1910, Deolinda Daltro fundava o Partido Feminino Republicano e reivindicava o direito de voto para as mulheres. Em 1917, elas conseguiriam o direito de trabalhar no serviço público. Em seguida, Bertha Lutz se destacaria na reivindicação do direito à igualdade intelectual com os homens e ao voto.

A astúcia do capitalismo se apoderou da data de 8 de março, convertendo-a em oportunidade comercial. É o dia de trocar presentes, de homenagens às mulheres, apenas por serem mulheres, e não pela bela e forte história de sua resistência contra a opressão. A data é de luta.

Alceu não deu muita importância à eleição de Mme Thatcher para a chefia do governo britânico: a Inglaterra estava em seu ocaso. Para ele, mais importante era a presença de Indira Gandhi na liderança da Índia. Posso imaginar o sorriso franco de Alceu, se ainda estivesse vivo, com a eleição de Barack Obama para a Casa Branca e, antes disso, com a presença do africano Koffi Annan na Secretaria Geral da ONU. E, é claro, com tantas mulheres ocupando o poder, no Brasil e em outros lugares, a ponto de já se elegeram para a chefia de estados modernos, Michelle Bachelet, Cristina Kirchner, Angela Merkel, e as candidatas Segolène Royal, Hillary Clinton e Heloisa Helena (derrotadas por Sarkozy, Obama e Lula). Agora surge o nome de Dilma Roussef.
Alceu acreditava que os negros e mulheres governariam melhor, porque conhecem mais de perto a opressão.

Justiça social, desenvolvimento e trabalho

José Carlos Ferreira*
Celebrou-se no último dia 20 de fevereiro, pela primeira vez, o Dia Mundial da Justiça Social, aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, um convite à retomada dos objetivos e metas propostos na Conferência Mundial para o Desenvolvimento Social. No Brasil, não houve nenhuma referência à campanha.
Os representantes dos países presentes à Conferência concordaram em que o desenvolvimento deve ter por meta o atendimento das necessidades do homem, traduzidas na defesa de seus direitos como cidadão, no acesso ao emprego, à Justiça, à integração social e ao meio ambiente equilibrado.
Posteriormente aos resultados da Conferência, se somaram os Objetivos do Milênio, fortalecendo ainda mais o papel reservado à luta pela redução da pobreza no mundo como meio para se alcançar a justiça social. Tem-se, portanto, claramente, proposta universal de agenda para o desenvolvimento social. Resta decidir sobre a melhor estratégia a ser formulada e implementada em cada país.
Ao se formular estratégia de desenvolvimento social tem-se que definir, simultaneamente, a forma pela qual a complementaridade das ações dos diversos atores sociais se processará. Posteriormente, a estratégia deveria ser posta para discussão junto aos representantes da sociedade com vistas a buscar a sua compreensão e comprometimento nos esforços projetados. Esse papel estaria reservado ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social.
Não se pode pensar numa estratégia desenvolvimentista sem que estejam envolvidos e compromissados os governos municipais e, nesse nível, as lideranças locais, sua vocação econômica e sua interação com os municípios vizinhos. Consequentemente, não se pode pensar numa estratégia de desenvolvimento local sem levar em consideração as cadeias produtivas existentes ou a serem criadas.
Não se pode pensar em desenvolvimento sem levar em consideração as grandes diferenças e desequilíbrios regionais, suas vocações produtivas, suas vantagens comparativas e o grau de desenvolvimento social já alcançado.
Não se pode pensar em desenvolvimento sem que haja integração entre os ministérios, avaliando os requisitos e os impactos setoriais e regionais antes mesmo da alocação dos recursos financeiros requeridos. Não se pode pensar numa estratégia de desenvolvimento sem que o desenvolvimento alcançado seja autossustentável, para o qual é fundamental a geração de mais e melhores empregos. Gerar mais empregos é consequência dos investimentos públicos e privados. Gerar melhores empregos significa formular políticas de proteção ao trabalhador, formal e informal, de erradicação do trabalho infantil e das condições de trabalho análogas às do trabalho escravo. Significa gerar políticas de inserção social, tendo por foco os grupos sociais mais desprotegidos, como os jovens e as mulheres negras e pobres.
Por melhores e mais abrangentes que sejam as políticas acima mencionadas, a falta de conscientização nacional quanto à sua observação certamente enfraquecerá seu alcance. Veja-se, por exemplo, a situação das empregadas domésticas, cujos dados indicam que a maioria ainda não dispõe de qualquer proteção social.
Por outro lado, quantas e quantas famílias ainda se apoiam no emprego de meninas menores de 16 anos, por receberem menor salário, fazendo o trabalho de um adulto, sacrificando a formação escolar e comprometendo sua qualidade de vida quando adulta. Em condições semelhantes sobrevivem os trabalhadores informais, principalmente os que prestam serviços em empresas não legalmente constituídas, sem direito a nenhum dos benefícios aplicáveis ao trabalhador com carteira assinada.
Promover a justiça social pressupõe somar esforços para alcançar maior inclusão social, promovendo o pleno emprego e o trabalho decente mediante o desenvolvimento social sustentável. Definir estratégia de desenvolvimento não é tarefa fácil, e essa tarefa se torna ainda mais difícil quando se pensa num país do tamanho do Brasil, com a cara do Brasil e com o jeito do Brasil.
*Técnico de planejamento e pesquisa do Ipea
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 09/03/2009

domingo, 8 de março de 2009

Apóstolo do mercado

Guy Sorman
Entrevista
O polêmico Guy Sorman não se abalou com a hipótese da inevitável e cada vez maior participação do Estado na economia depois da crise. Liberal convicto, o filósofo e economista francês foi professor do Instituto de Ciências Políticas de Paris e atualmente trabalha como conselheiro econômico do governo de vários países como Coréia do Sul, Polônia, Argentina, Turquia, Irã, além da própria França. Nesta entrevista concedida à CULT, de Paris, Sorman fala sobre o capítulo dedicado ao Brasil em seu último livro, A economia não mente (editora É Realizações, 2008). Segundo a hipótese nada evidente do autor, o avanço das igrejas pentecostais no país teria facilitado a difusão da crença interna no mercado. Sorman também fala sobre a crise, que deveria ter sido um golpe duro à mentalidade liberal. O escritor, no entanto, contemporiza: "A intervenção do Estado na economia não é uma questão teológica, mas uma questão prática".

Reprodução

CULT - Por que você acredita que o futuro já chegou ao Brasil?
Guy Sorman - Os brasileiros constataram que a aliança entre democracia e economia de mercado produz resultados positivos. O progresso para o maior número de pessoas resulta dessa visão pragmática da história.

CULT - Quais as vantagens ou os inconvenientes que o Brasil tem, na sua opinião, em relação aos demais países do BRIC (grupo de países emergentes que inclui Brasil, Rússia, Índia e China)?
A noção de BRIC não faz sentido: comparam-se civilizações distintas e modelos econômicos diferentes.

CULT - Em seu último livro A economia não mente (publicado no Brasil em 2008), você questiona a validade do determinismo religioso ou cultural no desenvolvimento econômico. Mas no capítulo dedicado ao Brasil você diz que as igrejas neopetencostais ajudam os brasileiros a compreender melhor o espírito capitalista.
Rejeito todo tipo de determinismo. Não existe uma religião em si, mas fenômenos religiosos que evoluem. Assim, o islã pode ser tanto favorável ao desenvolvimento (como na Turquia) quanto em contradição com ele (Magreb). No Brasil, como em vários países da AL, a igreja católica frequentemente esteve contra a economia; isso foi superado pelos movimentos evangélicos que acompanham e favorecem o crescimento.

CULT - Existiria, para você, uma América Latina moderna e outra arcaica?
Há duas AL's, aquela que sonha com a revolução e aquela que está mais engajada com o mundo real. Se bem que alguns movimentos revolucionários, como o da Bolívia, são mais étnicos do que ideológicos.

CULT - Como interpreta a crise atual? Há paralelos com 1929?
A crise é mundial porque a economia é mundial. Em 1929, a crise foi provocada por uma bolha especulativa nos EUA. A diferença em relação a 1929 não tem a ver com as causas da crise, mas com o fato de que sabemos administrá-la. Aquela de 1929 foi longa porque os governos fecharam as fronteiras. Desta vez, as fronteiras estão abertas: a crise deverá ser mais rápida.

CULT - Como avalia a reabilitação do keynesianismo e a nova onda de intervenção dos governos sobre a economia? Essa intervenção pode contornar a crise ou será ineficaz?
A intervenção do Estado na economia não é uma questão teológica. É uma questão prática. Existem intervenções justificadas como a emissão de moeda pelos bancos centrais para que o crédito continue. Mas intervenções podem ser prejudiciais se acarretarem em inflação ou se impedirem a criação de novas atividades. O mais eficaz em tempos de crise é favorecer a inovação, com Estado ou sem Estado. Keynes não tinha compreendido, em sua época, que o motor do crescimento era a criação destruidora; foi Schumpeter quem compreendeu isso.

CULT - Qual sua posição em relação às hipóteses de que a crise atual romperá com a hegemonia americana na economia?
Os EUA conservarão a vantagem graças às suas universidades e ao seu exército. Um terço dos diplomas no mundo, em 2008, veio dos EUA, seguido de Japão, Europa e Coréia: é como uma projeção da economia de amanhã. E o exército americano é naturalmente o único a preservar a ordem mundial; sem ele, o comércio internacional seria interrompido. Não há candidato alternativo para assumir esse posto de polícia mundial.

CULT - Você acredita que essa crise pode ajudar a construção, a longo prazo, de um governo mundial?
Um governo mundial não me parece algo desejável, pois não seria democrático; certamente seria despótico.

CULT - A França foi duramente afetada pela crise. O contexto econômico dará ocasião para a liberalização da economia francesa ou haverá uma recrudescência do papel do Estado?
O governo francês deveria logicamente utilizar a crise para liberalizar nossa economia, que é bastante burocrática. Mas, na realidade, o reflexo bonapartista decidiu pelo contrário. Por sorte, somos impedidos por algumas regras europeias de cometer erros irreparáveis.

CULT - Seu último livro, publicado antes da crise, possui um tom otimista. Você continua otimista com o destino do liberalismo e do mercado capitalista?
Os liberais não são otimistas, mas realistas. Dizemos que o caminho do desenvolvimento existe, em todas as civilizações. Este caminho é caótico como são as sociedades humanas: a economia não é melhor do que o homem. Além disso, as crises são inerentes ao crescimento porque este se fundamenta na inovação: a inovação não aparece todo dia. A crise atual não questiona, portanto, o realismo liberal. Os idealistas, por sua vez, procuram um sistema perfeito. Eles têm o direito a isso, mas eu desconfio.

CULT - Como avalia o início do governo Obama?
Obama é um presidente centrista e laico: isso é novo nos EUA. Sua política externa será a mesma de seus predecessores: um imperialismo benevolente. Sua política econômica está petrificada de contradições, ao mesmo tempo pró-capitalistas e estadistas. Mas o governo americano pode se permitir a erros, pois o mundo inteiro compra bônus do tesouro em dólares. A poupança chinesa pagará pelas falhas da gestão nos EUA.
Reportagem de Gunter Axt - 06/03/2009 - Revista Cult on-line

sábado, 7 de março de 2009

A mão invisível

Frei Betto*

Desde criança tenho, como todo mundo, meus medos. Já foram maiores: medo de ver meu pai bravo, de ser obrigado a comer jiló, de tirar zero na prova de matemática. Medo, sob a ditadura, de me ver abordado por uma viatura policial. Medo, sob a chuva capixaba, de que meu barraco na favela, erguido à beira de um precipício, fosse levado pelas águas.

Hoje, coleciono outros medos. Um deles, medo da mão invisível do Mercado. Aliás, do que é invisível só não temo Deus. Temo bactérias e extraterrestres. As primeiras, combato com antibióticos - termo inapropriado, pois significa "contra a vida" e, no entanto, os inoculamos para favorecê-la.

Quanto aos extraterrestres, fiquei menos temeroso ao saber que o mais longo alcance no espaço conseguido por nossa tecnologia é atingido pelas emissões televisivas. Com certeza, ao captá-las, os exploradores interplanetários chegaram à conclusão de que na Terra não há vida inteligente...

Volto à mão invisível do Mercado. Onde ele a enfia? De preferência, no nosso bolso. Em especial, no dos mais pobres. Ela é invisível porque safada, como todo delito praticado às escondidas. Por exemplo, o Mercado pratica extorsão no bolso dos mais pobres através dos impostos embutidos em produtos e serviços. Tudo poderia nos custar mais barato se não fosse essa mão-boba que se imiscui no que consumimos.

Agora que o Mercado entrou em crise - pois a bolha que inflou estourou na cara dele - onde anda enfiando a sua mão invisível? A resposta é visível: no bolso do governo. Nos EUA, o Mercado, nos estertores da administração Bush (de infeliz memória), meteu a mão em US$ 830 bilhões e, agora, arranca mais US$ 900 bilhões da recém empossada administração Obama. Tudo pra enfiar essa fortuna no bolso furado do sistema financeiro.

Aliás, a mão invisível do Mercado ignora o bolso dos cidadãos. Viciada, sempre beneficia o bolso dos ricos. É o caso do Brasil. Diante da crise (e das próximas eleições) o governo trata de anabolizar o PAC, de modo que a mão do Mercado possa abastecer, o quanto antes, o bolso das empreiteiras e das empresas privadas encarregadas das obras.

Minha avó advertia: "Veja lá, menino, onde põe esta mão!" E me obrigava a lavá-la antes de sentar à mesa. Acho que a mão do Mercado é invisível porque jamais se lava. Ao contrário, lava dinheiro sem se lavar da sujeira que a impregna. É o que deduzo ao ler a notícia de que, nos paraísos fiscais, a liquidez dos grandes bancos foi assegurada, nos últimos anos, graças aos depósitos do narcotráfico.

A mão pode ser invisível, mas suas impressões digitais não. Onde o Mercado bota a mão fica a marca. Sobretudo quando tira a mão, deixando ao relento milhares de desempregados, jogados na rua da inadimplência, enforcados em dívidas astronômicas.

O Mercado é como um deus. Você crê nele, põe fé nele, venera-o, faz sacrifícios para agradá-lo, sente-se culpado quando dá um passo em falso em relação a ele - ainda que a culpa seja dele, como no caso da compra de ações que ele lhe vendeu prometendo fortunas e, agora, elas valem uma ninharia.

Como um deus, só se pode conhecê-lo por seus efeitos: a Bolsa, o salário, a hipoteca, o crédito, a dívida etc. Ele se manifesta por meio de sua criação, sem no entanto se deixar ver ou localizar. Ninguém sabe exatamente a cara que tem e o lugar onde se esconde, embora seja onipresente. Até na vela vendida à porta da igreja ele se faz presente. E mete a mão, a famosa mão invisível, a temida mão invisível, essa mão mais execrável que a de tarados que ousam enfiá-la sob a saia da mulher de pé no ônibus.

Nem adiante gritar: "Tira essa mão daí!" Apesar de a mão invisível manipular descaradamente nossa qualidade de vida, privilegiando uns poucos e asfixiando a maioria, dela ninguém se livra. Como é invisível, não se pode amputá-la. Só resta uma saída: cortar a cabeça do Mercado. Mas isso é outra história. Hoje falei da mão. A cabeça fica pra outro dia.

* Escritor e assessor de movimentos sociais
http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37608 -o6/03/2009

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pensamento solto

“Quando o modelo
de vida leva a
um esgotamento,
é fundamental questionar
se vale a pena continuar
no mesmo caminho”.
(Mário Sérgio Cortella, em Qual é a tua obra?)

O efeito Gisele

MARTHA MEDEIROS*

Até o momento em que escrevo, não foi confirmado se Gisele Bündchen se casou mesmo com Tom Brady no dia 26 de fevereiro. De qualquer forma, ao ler a notícia num site, resolvi xeretar os comentários deixados pelos internautas a respeito do assunto e afora dois ou três tacanhos que se queixavam de ela ter casado com um americano em vez de um brasileiro (reserva de mercado para o amor?) e de ter virado uma Maria Chuteira (tadinha, precisa mesmo se escorar na fama de um homem), a maioria esmagadora cumprimentou o casal por ter sido discreto, sem se render a castelos e outras frescuradas para sair em capa de revista. Ao optarem por uma cerimônia íntima, junto aos familares e protegida dos flashes invasivos dos paparazzi, ambos receberam elogios de seus inúmeros fãs. Claro que, se esse casamento for confirmado, Gisele acabará dando alguma declaração e liberando uma foto oficial à imprensa, já que sempre foi bem-tratada por jornalistas, mas está certa ela: tudo a seu tempo.
Voltando aos comentários: quase todos salientaram que a discrição é uma atitude de classe. E isso reforçou o que já venho pensando: que a vida real não se deixa intoxicar pelos factoides que inundam as editorias de variedades. Ou seja, a maioria das pessoas não tem sonhos megalômanos, a maioria não aplaude a ostentação, a maioria não troca de “amor pra sempre” a cada três meses, enfim, a maioria não está representada pela minoria que vira notícia por causa de suas extravagâncias e que nos induz a achar que a vulgaridade tomou conta do mundo.
Na verdade, temos a mania de propagar no boca-a-boca as fofocas que a gente lê nos sites de entretenimento e acreditar que aquilo possa ser representativo. Sem perceber, disseminamos a ideia de que todas as relações andam descartáveis, que toda mulher daria a vida por um guarda-roupa de grife, que só o que interessa são as aparências, que ninguém mais educa os filhos, que o dinheiro manda e desmanda, e que certos princípios foram pro ralo. No entanto, olho para os lados e vejo muitos amigos que não rezam por essa cartilha, nem as pessoas da minha família, nem um monte de outras famílias, então há algo exagerado nessa avaliação.
Gisele, ao dispensar os holofotes em um momento extremamente privado, ajuda a diferenciar o que é realidade e o que é circo, e os elogios que recebeu por sua atitude, bem mais numerosos que as críticas, recoloca as coisas em seus devidos lugares. Isso de que “todo mundo” é exibicionista, “todo mundo” é erotizado, “todo mundo” quer aparecer e “todo mundo” se coisificou não passa de um nivelamento por baixo, porque não existe essa entidade chamada “todo mundo”. Existe você, existe dona Maria, existe seu Romualdo, existe o Zé da farmácia, existe o Betinho que cursa o supletivo, existe a Tereza que trabalha de doméstica, existe a Patricia que é empresária e o Osvaldo que é servente e cada um no seu quadrado. Fazem parte da maioria que assiste ao circo, mas não entra no picadeiro, mantendo seus valores onde eles sempre estiveram.
É um alento: Gisele é única e exclusiva em sua estonteante beleza, mas tem uma outra beleza que muitos de seus súditos têm também, igualzinha.

terça-feira, 3 de março de 2009

O Deus do coração e o Deus do poder

Afirma que
"defender o Estado laico [...]
é [...] um dever
que os cidadãos religiosos
deveriam ter
no coração".
Libertar o Estado da religião significou consentir que a religião se expandisse livremente na sociedade, reforçando a sua própria força atrativa.

Esse é um dos ensinamentos que a história da Europa moderna nos oferece. E libertar o Estado da religião foi possível quando o estado de direito venceu a própria batalha contra o estado confessional. Em um livro interessante sobre a idade do secularismo, Charles Taylor, talvez o filósofo católico mais notável e representativo do nosso tempo, mostrou muito bem como a idade secular não foi, de fato, uma idade de incredulidade, mas sim uma idade de renascimento religioso justamente pelo respeito afirmado pela liberdade individual, como liberdade de consciência e liberdade religiosa, que é tanto liberdade de acreditar quanto liberdade de escolher em que acreditar.

Pré-modernidade e modernidade denotam, segundo Taylor, dois modos de ser da religião: de um lado, uma religião na qual os fiéis “pertenciam a Deus”, e a sua fé era identificada com ritos, práticas eclesiásticas e hierarquias. De outro, uma religião que, espécie de crítica da velha fé em nome da autonomia moral individual, considerou possível o afirmar-se da religião como “fenômeno de fé” – um fenômeno pelo qual “Deus pertence a nós”, como criaturas que desejam a eternidade e a transcendência e, portanto, acreditam por escolha.

Nesse sentido, o humanismo serviu à causa da religião, e o secularismo foi um trabalho não antirreligioso, mas sim a condição para que a religião voltasse a viver no coração humano, em vez de viver nos ritos e nas hierarquias. Quando a religião constituída dá um passo atrás, a religião como crença dá um passo adiante: essa foi, desde o século XVI, o ensinamento da filosofia da liberdade religiosa e da tolerância, uma filosofia graças à qual as comunidades políticas podem ser lugares de tranquilidade e de respeito recíproco.

Defender o Estado laico – ou seja, o Estado de direito – é, por isso, um dever que os cidadãos religiosos deveriam ter no coração de modo particular, não menos do que os outros. Estado laico não é estado secularista, mas Estado que se dá como critério para legislar e julgar a separação do justo do bem. A arte da separação não é a arte da negação ou da hipocrisia: separar os nossos critérios de juízo quando raciocinamos como cidadãos e quando raciocinamos como indivíduos sociais não significa, de fato, silenciar as razões éticas para que as razões políticas triunfem.
A arte da separação é a arte que permite que quem tenha uma dimensão religiosa de vida viva em coerência com essa sua crença e que não imponha, com a arma da lei, a sua visão do bem. E fazendo isso, não respeite só ou simplesmente quem não tem crenças religiosas particulares, mas antes de tudo quem tem uma forte crença religiosa e, por isso, também a si mesmo. Como é verdade que só quem é livre crê – se é verdade que o crer é um ato de liberdade pessoal fundamental –, então quem crê não pode ver o próprio credo traduzido em um artigo do código penal. Não é pela lei que a nossa crença terá a certeza de ser respeitada, mas sim pela nossa responsabilidade e escolha pessoais.

Não é a ausência de uma lei que garante à mulher decidir responsavelmente a própria maternidade que liberta a mulher do dever da escolha, e a sociedade, do aborto. Estamos verdadeiramente certos de que silenciaremos o nosso sentido de dever com relação à vida quanto algum representante político encontre um compromisso com esse ou aquele procedimento? E como um crente pode aceitar que se delegue a alguns – em tudo semelhantes a ele – o fato de tomar decisões que só ele poderá e deverá tomar na realidade?

Em um Estado de direito, a lei não impõe a todos aquilo que alguns (não importa quantos) pensam que seja bom fazer em um campo, o moral, onde só a consciência do indivíduo tem o dever da escolha. É essa lei, não uma lei ética, que protege a dignidade do crente. E aquilo que é bom para o crente é também para o cidadão, nesse caso.

Que a democracia seja um governo de iguais significa, de fato, nada mais do que dar um critério mais legítimo para decidir do que a contagem dos votos, e isso não porque a democracia seja medíocre ou vulgar, mas porque ela é humaníssima. A democracia presume que ninguém seja infalível e sábio acima de todos. Nenhum representante meu pode decidir por mim o que é bom que eu faça para defender a minha dignidade moral. É aviltante quando se assiste um Parlamento que se arroga o direito de nos tratar como crianças, que dita as suas máximas éticas e, além disso, e por necessidade, as condições ao compromisso e à contagem dos votos.

O crente religioso e o cidadão têm aqui o mesmo interesse: o de ter políticos que não tornem a vida um objeto de compromisso político. É justamente a dignidade, a de todos – mas sobretudo a dos crentes – que está em jogo quando se pede ao Estado que deixe de ser estado de direito para se tornar órgão de uma doutrina religiosa ou ética.
*Politóloga. Doutora pelo Instituto Universitário Europeu de Florença e professora nas universidades de Nova Iorque, Pennsylvania, Princeton e agora em Columbia, Nadia defende que "o crente religioso e o cidadão têm aqui o mesmo interesse: o de ter políticos que não tornem a vida um objeto de compromisso político". A tradução é de Moisés Sbardelotto. - IHU/03 de março de 2009.
http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=20333

segunda-feira, 2 de março de 2009

Leitura do dia

"... o passado não é atraente há muito; o futuro tampouco. Fica o presente, que se torna única referência, fica esse fragmento de tempo que esquarteja o fluxo do tempo.
A sociedade se torna hedonista, em busca desses fragmentos de alegria que são os prazeres.
As pessoas se tornam consumistas: não herdam bens, os adquirem; não deixam bens, os consomem, como o fogo.
Elas aderem ao descartável, àquilo que não vem do passado e que não irá para o futuro.
Vários acabam até por sentir certo deleite em ver que nada dura, que tudo é efêmero, que nada é sólido, que as obras humanas são quimeras, que a vida é pequena. Como o escreve Finkielkraut ( Nous autres Modernes, Paris,2005,p.170): "Os românticos tomam partido pelo que cai. Os pós-modernos, pelo que faz cair. Aqueles choram, estes debocham. (...) o homem contemporâneo não deseja se fixar. Não quer se fixar em lugares, em ideais, em pessoas, em projetos. Afirmam Sloterdijk e Finkielkraut (La battements du coeur - Paris, 2003, p.90): "Todos nós somos veículos, procuramos um estacionamento, não um país". (Do livro: Formação ética, Yves De La Laille, Artmed, Poa, 2009, pp.35/36).

Pensamento solto

"Esperar é desejar sem gozar...
Esperar é desejar sem saber...
Esperar é desejar sem poder..."
(Comte-Sponville. A felicidade desesperadamente, Martins Fontes, SP, 2005, pp.49-64)

Sexo seguro

Fábio Toledo

Durante o Carnaval, o presidente da República se empenhou pessoalmente em distribuir preservativos no sambódromo do Rio de Janeiro. Esse gesto não é algo improvisado. Ao contrário, é muito coerente com uma campanha do que se convencionou chamar sexo seguro. Com ela, se prega que as pessoas tenham relações sexuais livremente, com os parceiros que desejarem, quando e como quiserem, conquanto que tomem a cautela de se protegerem das doenças sexualmente transmissíveis, especialmente da Aids. Trata-se o ato sexual como mero instrumento de prazer, ou, menos ainda, como uma necessidade fisiológica.
Mas será que o sexo é apenas isso? Encontrar um parceiro (ou uma parceira) com quem se relacionar numa noitada de Carnaval é uma mera necessidade fisiológica, semelhante a que temos de nos alimentar? Nessa linha, estaria o nosso presidente, ao distribuir preservativos no Carnaval, simplesmente aprimorando o programa Fome Zero?
É inegável que o ato sexual proporciona um prazer enorme e, de certa forma, indescritível. Porém, será esse prazer um fim em si mesmo, ou será ele como que um meio para algo mais sublime?
Tenho um amigo, casado há vários anos com a mesma esposa, que certa vez me fez um relato fantástico, que muito pode nos ajudar a descobrir o verdadeiro sentido do relacionamento sexual. Diz ele:
“Essas pessoas que se lançam a aventuras passageiras, a cada hora com uma pessoa diferente, no fundo ainda não aprenderam nada sobre o verdadeiro amor. Eu estou casado com minha esposa há mais de 20 anos e, nesse tempo, nosso relacionamento sexual ficou cada vez mais gostoso. De fato, com o passar dos anos, vêm os filhos, o cansaço do trabalho e do dia-a-dia, de modo que fica um pouco mais difícil conquistá-la. O apetite sexual dela diminui. Mas eu me considero um conquistador e não me dou por vencido. Porém, uso esse talento sempre com a mesma mulher.
“Quando queremos ter relação, eu ou ela fazemos uma insinuação com certa antecedência, muitas vezes por uma mensagem de celular que somente nós entendemos. Ela tem uma camisola um tanto provocante que reserva para esses dias e só a veste diante de mim. Eu, da minha parte, faço a barba à noite, pois sei que ela gosta disso. Também costumamos conversar com frequência, sem vergonha, sobre o nosso relacionamento sexual. Falamos do que agrada e do que atrapalha. Com isso, conseguimos que, após esses anos todos, nossas relações sejam muito mais prazerosas do que foram na lua-de-mel.
“E o que é melhor de tudo isso: quando terminamos o ato, não fica aquela sensação horrível de estar com um estranho, com um objeto que usamos para uma satisfação egoísta. Ficamos deliciosamente abraçados por muito tempo. Afinal, dormimos juntos todas as noites. Não fica na boca um gosto amargo de desconfiança, de traição, de abuso. Ao contrário, fica o sabor delicioso de se doar uma vez mais a quem amamos. Após cada ato sexual parece que uma vez mais confirmamos aquilo que um dia nós prometemos: ‘na alegria e na tristeza... amando-te e respeitando-te por todos os dias da minha vida’.
“E o prazer, então? Duvido que esses que ficam pulando de galho em galho consigam sentir mais prazer que eu sinto sempre com a mesma mulher. Aliás, esses loucos, para assegurarem um pouquinho de um prazer doente, têm de usar preservativo. Eu, como estou certo da minha fidelidade e da minha esposa, não preciso ‘chupar a bala com casca’. Que coisa mais sem sabor! Se as pessoas soubessem como é bom guardar o coração bem guardado, com muito carinho, apenas para uma pessoa, por certo descobririam a maravilha do prazer do relacionamento sem ter de experimentar o desprazer do day after”.
Que pena que esse meu amigo não estava no sambódromo para dizer isso ao presidente! Eu adoraria vê-lo repetindo um trocadilho que aprendeu há muitos anos: fidelidade, felicidade, felicidade, fidelidade. É que ele está convencido de que a felicidade depende muito diretamente da fidelidade que guardamos aos compromissos que assumimos e às convicções que adquirimos em nossas vidas.
Acredito que esse meu amigo tem razão. Isso, sim, é verdadeiramente sexo seguro. E, de sobra, muito mais prazeroso.
*Fábio Henrique Prado de Toledo é juiz de Direito em Campinas

Póvoa de Varzim

Luiz Antonio de Assis Brasil*

Para quem gosta de Eça Queirós a cidade acima não é estranha: foi onde nasceu o autor de Os Maias. Só esse fato já seria motivo de orgulho para os povenses. Mas não, eles vão além: há 10 anos criaram um dos maiores eventos literários mundiais, denominado Correntes D´Escritas. Se pensarmos em termos ibéricos, é o maior. Para comemorar a década, a Câmara Municipal, tendo o apoio de toda a comunidade, especialmente do Cassino da Póvoa, reuniu neste mês 120 escritores de expressão lusa e castelhana. A representação gaúcha contava com nada menos de seis autores, a maioria dentre os brasileiros. Durante quatro dias, lançaram-se livros e discutiram-se todos os aspectos que envolvem o “fazer literatura” numa língua cujo número de usuários cresce a cada dia e que agora, com a ortografia unificada, ganha ainda maior relevo. Mas não só: o Correntes foi, não sendo seu propósito inicial, um espaço de negócios; ali estiveram presentes inúmeros agentes literários, à caça de autores que pretendem ver publicados na Europa. Foi possível observar, no lobby do hotel, uma atividade fervilhante: eram escritores tratando de seus contratos.
De um modo geral, deu para perceber algumas constantes: em primeiro lugar, que a literatura em língua portuguesa está num de seus melhores momentos, com profusão de autores e, o principal: autores que são lidos em ambos os lados do Atlântico. Em segundo, que começa a haver um espaço para os autores menos citados – o leitor português já sabe que nossa literatura vai além de Jorge Amado e Paulo Coelho. E nós, de cá, sabemos que há portugueses que quebram a díade Fernando Pessoa e José Saramago. Podemos ainda acrescentar a importância que vem assumindo a poesia na literatura contemporânea. Os saraus poéticos animavam a noite de Póvoa de Varzim, sempre com enorme assistência. O público, aliás, foi exemplar, concorrendo ao Auditório Municipal, e eram pessoas de todos os lados de Portugal, para além de outros europeus.
O Correntes D´Escritas não é um evento aparatoso, nem solene, nem conta seu sucesso pelo número de participantes (que é enorme, diga-se): é um evento em que a leitura e a literatura estão em primeiro lugar; ademais: não há estrelas; os escritores convidados não buscam protagonismo, nem há clima para isso. Enfim, é um evento humano, o qual pode servir de modelo aos nossos.
*Escritor
ZH, 02 de março de 2009

domingo, 1 de março de 2009

Astroteologia

Marcelo Gleiser*
É alta a chance de que "eles"
sejam mais inteligentes

Aparentemente, foi o filósofo grego Epicuro que sugeriu, já em torno de 270 a.C., que existem inúmeros mundos espalhados pelo cosmo, alguns como o nosso e outros completamente diferentes, muitos deles com criaturas e plantas.
Desde então, ideias sobre a pluralidade dos mundos têm ocupado uma fração significativa do debate entre ciência e religião. Em um exemplo dramático, o monge Giordano Bruno foi queimado vivo pela Inquisição Romana em 1600 por pregar, dentre outras coisas, que cada estrela é um Sol e que cada Sol tem os seus planetas.
Religiões mais conservadoras negam a possibilidade de vida extraterrestre, especialmente se for inteligente. No caso do cristianismo, Deus é o criador e a criação é descrita na Bíblia, e não vemos qualquer menção de outros mundos e gentes. Pelo contrário, os homens são as criaturas escolhidas e, portanto, privilegiadas. Todos os animais e plantas terrestres estão aqui para nos servir. Ser inteligente é uma dádiva que nos põe no topo da pirâmide da vida.
O que ocorreria se travássemos contato com outra civilização inteligente? Deixando de lado as inúmeras dificuldades de um contato dessa natureza- da raridade da vida aos desafios tecnológicos de viagens interestelares- tudo depende do nível de inteligência dos membros dessa civilização.
Se são eles que vêm até aqui, não há dúvida de que são muito mais desenvolvidos do que nós. Não necessariamente mais inteligentes, mas com mais tempo para desenvolver suas tecnologias. Afinal, estamos ainda na infância da era tecnológica: a primeira locomotiva a vapor foi inventada a menos de 200 anos (em 1814).
Tal qual a reação dos nativos das Américas quando viram as armas de fogo dos europeus, o que são capazes de fazer nos pareceria mágica.
Claro, ao abrirmos a possibilidade de que vida extraterrestre inteligente exista, a probabilidade de que sejam mais inteligentes do que nós é alta. De qualquer forma, mais inteligentes ou mais avançados tecnologicamente, nossa reação ao travar contato com tais seres seria um misto de adoração e terror. Se fossem muito mais avançados do que nós, a ponto de haverem desenvolvido tecnologias que os liberassem de seus corpos, esses seres teriam uma existência apenas espiritual. À essa altura, seria difícil distingui-los de deuses.
Por mais de 40 anos, cientistas vasculham os céus com seus rádio telescópios tentando ouvir sinais de civilizações inteligentes. Quem viu "Contato" com Jody Foster ou leu o livro de Carl Sagan que inspirou o filme lembra das várias cenas em que ela tenta decifrar os sinais de rádio que recebia. Infelizmente, até agora nada foi encontrado. Muitos cientistas acham essa busca uma imensa perda de tempo e de dinheiro. As chances de que algo significativo venha a ser encontrado são extremamente remotas.
Em quais frequências os ETs estariam enviando os seus sinais? E como decifrá-los? Por outro lado, os que defendem a busca afirmam que um resultado positivo mudaria profundamente a nossa civilização. A confirmação da existência de outra forma de vida inteligente no universo provocaria uma revolução. Alguns até afirmam que seria a maior notícia já anunciada de todos os tempos. Eu concordo. Não estaríamos mais sós. Se os ETs fossem mais avançados e pacíficos, poderiam nos ajudar a lidar com nossos problemas sociais, como a fome, o racismo e os confrontos religiosos. Talvez nos ajudassem a resolver desafios científicos. Nesse caso, quão diferentes seriam dos deuses que tantos acreditam existir? Não é à toa que inúmeras seitas modernas dirigem suas preces às estrelas e não aos altares.
*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo".

Liberalismo e estado mínimo

Carlos Eduar do Novaes*

Liberalismo, o Neo, bateu à porta da quitinete onde morava o Estado Mínimo e sua numerosa família. O Estado Mínimo ­ diga-se de passagem ­ já fora o máximo no passado, requisitado por todos, vivia confortavelmente em uma cobertura duplex no edifício Keynes. A partir dos anos 80, seu prestigio começou a declinar diante da campanha orquestrada pelo Liberalismo que avançou no seu patrimônio e privatizou suas empresas sob o pretexto de que ele, Estado, não entendia nada de economia, cobrava altos impostos e impedia a maximização dos seus lucros. Empobrecendo, o Estado teve que se mudar para um apartamento menor e depois para outro menor ainda e hoje vive em uma modesta unidade no conjunto habitacional Milton Friedman.

O Estado Mínimo abriu a porta e assustou-se ao dar de cara com o Liberalismo, que só o procurava para fazer criticas e reduzir seus espaços. Pôs-se na defensiva. ­
- Veio me diminuir mais ainda? ­
- Que isso? Nem pensar! – ­ reagiu o Liberalismo, solicito e simpático como não se via desde 1930. ­ Vim procurá-lo porque preciso de sua ajuda! ­
- Não acredito! ­– surpreendeu-se o Estado. ­ - Você precisando de minha ajuda? Logo você que sempre me julgou um incompetente, um entrave na sua vida. O que é? Está querendo privatizar os Três Poderes?

Liberalismo ouviu calado, de cabeça baixa. Sua aparência não era das melhores. Havia perdido aquele sorriso vencedor de outros tempos e vestia roupas baratas de lojas de departamentos. ­

– Sabe o que é meu caro? Estou com um probleminha. Acho que dei liberdade demais para meu filho Mercado e ele andou fazendo um monte de besteiras. Estou sendo questionado por todo mundo e com isso a saúde de papai se deteriorou. Ele está deprimidissimo! ­
– O Capitalismo está mal? Mas como? Ele vivia em um estado de euforia permanente desde a queda do Muro de Berlim!! Parecia-me sempre tão feliz! ­
– Há quanto tempo você não o vê? ­
– Desde a crise do subprime! ­
– Foi aí que ele caiu de cama! Está magro, abatido, demitindo seus empregados e o que é pior: todo endividado! Será que dá para você nos emprestar algum? ­
– Para tirar você do buraco eu sirvo, não é? Quanto?
– Uns US$ 787 bilhões! Quando a situação melhorar prometo que lhe devolvemos, com juros e correção. ­
– E quem me garante que com esse dinheiro a situação de seus negócios vai melhorar? Seu filho Mercado não tem o menor equilíbrio emocional! ­
– Ele me prometeu que vai se controlar. ­
– A mulher dele, a Bolsa, é outra porra-louca que sobe e desce sem qualquer lógica. Os contribuintes não vão gostar de saber que estou emprestando dinheiro para seus bancos, suas montadoras, sem contrapartidas. Preciso de garantias. Tenho que estabelecer limites.

Liberalismo detestava a ideia de ter seu campo de ação limitado, mas não estava em condições de se impor, como no passado. ­

– Você é quem manda! ­ disse com humildade. ­ – O que precisa para me passar essa grana? ­
– Antes de tudo, reduzir os salários de seus executivos! ­
– Concordo que eles foram longe demais. ­
– Preciso voltar a regulamentar as atividades financeiras. Essa farra especulativa tem que acabar! ­
– Assim você vai comprometer minha imagem... ­
– Vou precisar também estatizar alguns de seus bancos! ­
– O que? Papai vai ter um enfarte quando souber! ­
– Diga a ele que essas medidas são para salvá-lo. Não queremos perdê-lo nessa altura da História! Mesmo porque não temos ninguém para botar no seu lugar.

Liberalismo despediu-se beijando a mão do Estado Mínimo em sinal de agradecimento. Estado Mínimo fechou a porta e berrou para a família amontoada na sala: ­
– Aí galera! Vamos nos mudar para um apartamento maior!