quinta-feira, 26 de março de 2009

A crença é necessária

Jordan Grafman
Novos estudos mostram
que o cérebro é
“programado” para acreditar em Deus
– e que isso nos
ajuda
a viver
mais e melhor

Jordan Grafman - “A crença é necessária”
O neurocientista diz que o pensamento religioso nasceu junto com o cérebro humano

ÉPOCA – O senhor diria que a religião é um produto acidental de nosso processo evolutivo? Jordan Grafman – Eu não diria acidental. Existe uma tendência para nós pensarmos de certa maneira, e essa maneira, de alguma forma, envolve a necessidade de ter um sistema de crenças. E esse sistema guia nosso comportamento social. Acredito que estamos constantemente criando novos tipos de sistema de crença e é muito provável que os primeiros tenham sido baseados em autoridades religiosas.

ÉPOCA – Somos biologicamente predispostos à religião?
Grafman – Eu diria que somos predispostos biologicamente a ter crenças, e a religiosa é uma delas, mas não a única. Classificaria a religião como uma forma primitiva de crença porque se baseia muito no que é desconhecido. Algumas das regras éticas vieram por meio da religião, mas só se estabeleceram porque ajudaram a ordenar a sociedade. Então, muitas regras tiveram sentido. A religião nasceu claramente de nossa necessidade de entender o que estávamos vendo.
A crença religiosa surgiu no cérebro antes de outras crenças, segundo pesquisas

ÉPOCA – Seu estudo comparou as áreas do cérebro envolvidas nas crenças religiosas e nas crenças políticas. Do ponto de vista neurológico, quais as diferenças entre o pensamento religioso e o político?
Grafman – Ainda não temos uma resposta definitiva a essa pergunta, mas há fortes indicações de que as crenças políticas estão sempre ligadas ao “aqui e agora”, a nossa vida, enquanto as crenças religiosas não necessariamente. Há diferenças em comportamento e também nas áreas do cérebro ativadas. No caso das crenças políticas, usamos as estruturas do cérebro que surgiram por último na evolução humana, enquanto no caso das crenças religiosas usamos áreas anteriores no desenvolvimento da espécie. Nossa hipótese é que a crença religiosa seja a primeira forma de sistema de crenças, que surgiu antes das outras. Nossos estudos mostram que as duas usam partes parecidas do cérebro, mas também que a religião veio antes da política.
Reportagem de Leticia Sorg na revista ÉPOCA, março/2009

quarta-feira, 25 de março de 2009

Cara de um, focinho de outro

Por Deonísio da Silva


A revista Superinteressante (edição 263, março/2009) deu capa aos cachorros, assunto que está ladeado de outros igualmente importantes: "A era dos cornos", em que chama a atenção para novos aspectos da infidelidade, vindos da inclusão do Viagra, do MSN, do celular. E avisa: "Nunca foi tão fácil ser infiel". Logo abaixo da foto do cachorro – os cornos estão ao alto – a revista destaca ainda os seguintes temas: lavagem cerebral, as castas da Índia, se não existisse escola, como sobreviver a um ataque nuclear e todos os fins do mundo.

A matéria sobre os cachorros – muito bem redigida, aliás – é assinada por Alexandre Versignassi, Bruno Garattoni, Emiliano Urbim, Karin Hueck e Larissa Santana, com design de Adriano Sambugaro. Abre comprovando que os cachorros são tratados como filhos. Os termos são os mesmos: creche, criança, pais. A criança é o cachorro. Os pais são os seus donos. "Sim, tratamos nossos cachorros como se eles fossem nossos filhos", diz o texto, logo no primeiro parágrafo, delimitando tema e problemas do contexto. E continua, recorrendo à ciência, informando que os cachorros despertam tanto amor e carinho quanto um bebê. Mas conhecidas afinidades entre homem e cachorro estão alterando os dois.

A chave para que cachorros e crianças sejam tratados da mesma forma, segundo o texto, está num hormônio chamado ocitonina, liberado, por exemplo, nas parturientes, que desperta a sensação de apego por outras pessoas. Pesquisas feitas pelo professor japonês Takefumi Kikusui, da Universidade de Azabu, indicam que o amor que sentimos por crianças e cachorros é o mesmo. Vejam bem, não é que é semelhante, é o mesmo! E o professor não é nenhum Prêmio Ignóbil, criado para satirizar pesquisas ridículas.

Adoram que se lhes diga o que fazer

A reportagem é ilustrada com exemplos concretos. A bilionária americana Leona Helmsley deixou US$ 12 milhões para sua cadelinha Trouble. O site marryyourpet (case com seu cachorro) oferece cerimônias e certidões de casamento. Carolyn, casada há cinco anos com Oliver, nome de seu cãozinho, diz que ele é seu "salvador".

Este é um exagero, mas ilustra até onde vai a substituição de pessoas por cachorros, sobretudo em casais que demoram a ter filhos ou outros que, tendo envelhecido, ficaram sozinhos. Quando a solidão aumenta, o cachorro produz emocionalmente duas substituições: a dos filhos e a do cônjuge que partiu, por separação ou por morte.

Outras pesquisas, estas feitas nos EUA, dão conta de que 34% das mulheres e 23% dos homens americanos consideram o cachorro o par ideal, se este fosse humano.

O biólogo húngaro Ádám Miklósi, da Universidade de Eötvös, especialista em inteligência canina, afirma que, ao contrário de lobos, macacos e gatos, igualmente submetidos à experiência, os cachorros imitam naturalmente as ações humanas e podem ser treinados para milhares de tarefas diferentes com poucas instruções, pois na verdade eles adoram ter alguém que lhes diga o que fazer.

Buldogue tornou-se gordo e enrugado

Os primeiros entendimentos entre o cachorro e o homem datam da Era Glacial, há 15 mil anos, quando o homem deixou de ser nômade, fixou-se em alguns lugares, ensejando o surgimento das primeiras vilas. Os restos de comida passaram a atrair ratos, baratas e... lobos. Estes dividiram-se entre aqueles que fugiam do homem e aqueles que a ele se apegaram, vivendo perto das casas. Foi quando este tipo de lobo mudou, tornando-se cachorro!

De todo modo, o cachorro, na companhia do homem, teve que trabalhar para ganhar a vida. Passou a conduzir e a guardar rebanhos, a guardar casas, puxar trenós etc. Hoje, o cachorro, como tantos homens, está desempregado!

No final do século 19, a partir da Inglaterra, as novas funções dos cachorros mudaram, levando os homens às combinações genéticas que resultaram em dezenas e centenas de novas raças. A International Encyclopedia of Dogs, ainda sem tradução para o português, estima que as 20 raças existentes em 1800, já eram 40 em 1873 e chegaram a 70 na Primeira Guerra Mundial. Hoje, existem cerca de 400 raças.

Depois de tantas experiências e misturas, os problemas não demoraram a aparecer. O buldogue, originalmente atlético, tornou-se gordo e enrugado. Motivo? Alguém achou que ele ficaria mais bonito assim.

Etimologia dá luz adicional

De resto, influenciados pelo homem, os cachorros passaram a ser vitimados pelos males do dono. Foram morar em apartamentos, não fazem mais exercícios, comem demais, tornam-se obesos pela vida sedentária e alimentação excessiva.

Em vez de caminhar – as caminhadas foram reduzidas para uma ou duas vezes por dia – o cachorro imobilizou-se na companhia do dono. E vieram as doenças e distúrbios psicológicos causados pelo novo tipo de vida. Nos EUA, tais males vêm sendo combatidos com remédios. Há seis anos, 25% dos cachorros tomavam algum tipo de remédio. Hoje, são 77%.

No limite, o homem resolve seus problemas com o cachorro mediante soluções drásticas. Nos EUA, aplica-se anualmente a pena de morte a 1.500.000 cachorros que se atreveram a morder alguém. Mas quem o criou feroz? No caso, é executada a vítima das manipulações. Os autores continuam impunes. Também nisso o homem imita o homem, não o cão. O cachorro não maltrata a mão que o apedreja. Para ele, os versos de Augusto dos Anjos soam inverossímeis:
"O Homem, que, nesta terra miserável,/
Mora entre feras, sente inevitável/
Necessidade de também ser fera".
Ao contrário, vivendo com o Homem, o cachorro sentiu necessidade de também ser Homem...

A etimologia pode dar uma luz adicional a tão bela matéria. A palavra cachorro veio do latim cattulus, diminutivo de cattus, gato selvagem, depois também domesticado. O homem apega-se a qualquer filhote, sobretudo de mamíferos e, em português de hoje, passou a chamar de gatinho todo e qualquer filhote, fixando-se a denominação para o cão, filhote ou não.
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=530FDS001 - 23/03/2009

Espiritualidade, empresas e pessoas

Patrícia Bispo

Quando o assunto espiritualidade surge no mundo organizacional, muitos gestores ainda acreditam que esse tema esteja relacionado diretamente a práticas religiosas e que, caso o estimulem, poderão surgir sérios conflitos no ambiente de trabalho. No entanto, a prática da espiritualidade nas empresas assume um papel diferenciado: estimular a harmonia entre as pessoas. Para falar sobre o assunto, o RH.com.br conversou com o consultor e escritor Cesar Romão, que tem se destacado por desenvolver um trabalho voltado para o desenvolvimento humano, onde defende que as empresas e as pessoas não devem ser vistas apenas como fonte de lucro. Em uma de suas obras "Sonhando e Realizando", ele apresenta uma visão futurista de conceitos empresariais. Confira!

RH - Existe um conceito para espiritualidade no ambiente de trabalho?
Cesar Romão - Espiritualidade no ambiente de trabalho consiste num processo de aprendizado constante mediante as adversidades e as diferenças entre as pessoas, assim como sempre visa o benefício de todos os envolvidos no processo organizacional. Não é a lei do ganha, é a lei do dividir para somar.

RH - A espiritualidade no trabalho está relacionada à religião?
Romão - Esta é uma confusão e tanto que se faz no mercado. Muitas empresas não executam processos de espiritualidade pelo fato de acharem que estarão cultuando uma religião na organização e isso poderá criar desavenças. Religião é nossa a escolha, é a aproximação com o Deus que escolhemos dentro de nossa formação e crença. A espiritualidade é nossa conduta no caminho do bem e da prosperidade com ética, auxiliando-se uns aos outros independente de sua crença. A causa é mais valiosa, o relacionamento harmônico é o caminho.

RH - Quem poderia ser considerada uma pessoa espiritualista?
Romão - Seria aquela pessoa que não toma decisões por impulso, mas que confia em sua equipe. Não faz julgamentos, não procura quem cometeu o erro, trata de consertar logo a situação, torce pelo sucesso das pessoas, é uma barreira dizimadora de notícias ruins, confia em seus instintos e na sua própria intuição.

RH - Que contibuições as pessoas espiritualistas trazem para o ambiente organizacional?
Romão - Elas trazem principalmente a harmonia. Hoje o ambiente organizacional é repleto de disputas, de corridas pela vaidade e pelo reconhecimento. Basta apenas se entrar num conjunto de "baias" dos executivos de uma empresa e logo se pode sentir o nervosismo do andamento de trabalho. O medo parece tomar conta das pessoas. A harmonia é o principal benefício que essas pessoas trazem, pois com harmonia consegue-se transformar esforço em resultado positivo.

RH - De que forma as empresas podem estimular a espiritualidade entre os colaboradores?Romão - Infelizmente, ainda existe uma resistência grande em relação à espiritualidade no ambiente organizacional. No entanto, quando as empresas vivenciam uma experiência como essa, não mais desistem dela. A espiritualidade torna-se parte dos planos estratégicos. Dar liberdade de expressão para idéias e pensamentos, ou mesmo ter muito respeito até pelos erros, é uma boa forma de estimular a espiritualidade. O Exército Brasileiro tem um processo muito interessante com seus oficiais. Ali não há discriminação de qualquer religião, todos estão lá em função de uma causa, nossa bandeira e nossa pátria. Assim deve ser nas organizações, a causa tem de ser maior do que as diferenças.

RH - Esses processos são difíceis de serem implantados?
Romão - A visão tem que partir do alto da pirâmide organizacional e fincar alicerces nas bases envolvidas. É uma questão da aceitação da cultura, como toda organização é movida por resultados, quando esse processo resultar em benefícios, tudo tem mais chance de obter uma boa aceitação.

RH - Qual seria o papel do profissional de RH nesse contexto?
Romão - O profissional de RH tem que estar preparado com o máximo de informações possíveis sobre espiritualidade no trabalho, assim como acreditar no projeto e não apenas implantá-lo como uma nova maneira de tentar justificar verbas de treinamento ou de oferecer lucro aos acionistas. O principal é: o RH tem de dar o exemplo. A palavra convence, mas somente o exemplo arrasta e, assim, pessoas são tocadas pelos exemplos e adquirem mais respeito por ações que são justificadas.

RH - Existe alguma relação entre espiritualidade e motivação?
Romão - A espiritualidade é um processo de transformação íntima em nossas emoções, em nossa maneira de ser, de pensar e de agir dentro da ética e do bem, pois só o bem sempre encontra um caminho. Motivação é um sentimento confiante que podemos criar nas pessoas por um determinado tempo com a finalidade de conduzi-las a realizar objetivos e metas. Ninguém consegue ficar motivado durante muito tempo, pois motivação precisa de manutenção. Porém, a espiritualidade pode ser um processo para ser aplicado na sua existência em horas boas e nas adversidades.

RH - As empresas estão sabendo valorizar a espiritualidade?
Romão - Ainda não, pois muitos paradoxos ainda precisam ser vencidos. Imagine que quando faço palestra sobre espiritualidade nas empresas, antes da palestra começar, muitas pessoas vêm ao pé do palco perguntar se sou um pastor. É importante iniciar um movimento de informação sobre o assunto, pautas de discusão, divulgação de exemplos em ação sobre o assunto. É necessário despertar a consciência das pessoas sobre a possibilidade de se vencer sem uma disputa interna, alertar que para no pódio somente existe o primeiro lugar, mas um pódio onde todos cabem no primeiro lugar. Veja, por exemplo, as empresas que valorizam o funcionario do mês. Pergunto: será que só ele foi legal no mês? E os outros? Não pode haver um funcionário do mês, tem de haver uma equipe ou um time do mês, mas um time onde todos possam jogar e ganhar.

terça-feira, 24 de março de 2009

Individualismo

Christoph Wulf – Poderíamos colocar-nos ainda outra questão. Não há também algo como uma mundialização do individualismo? Não estamos assistindo – em vários países, mas sobretudo na Europa - a uma tendência de crescimento do individualismo? Não estamos descobrindo o limite desse desenvolvimento? Gostaria de explicar isso com relação ao nosso contexto: todos estamos obrigados a desenvolver nossa própria biografia. Somos obrigados a escolher, a decidir sobre a maneira segundo a qual desejamos conduzir nossa vida: com que companheiros, em que contexto. E resulta, de fato, que as tradições têm peso menor – que os indivíduos têm peso menor – que os indivíduos tem a liberdade de conduzir sua vida, de fazer dela uma aventura, uma experiência eventualmente – , uma espécie de dinâmica que faz, por exemplo, que as doenças psíquicas aumentem. Nós temos uma ambivalência muito clara do processo de individualização. E creio que isso está correlacionado ao fenômeno da mundialização. É, de certa maneira, o recuo sobre a menor unidade, que podemos interpretar como um movimento oposto. Creio também que aí há exigências exorbitantes; em razão do desenvolvimento da sociedade mundial, há riscos, situações perigosas, como você dizia há pouco. O assassinato do primeiro ministro israelense representa um risco para todos os homens que vivem em outros países ou em outras regiões, mas todos esses fenômenos estão relacionados à vida individual, e é necessário assumir posição em relação a eles. É necessário constantemente tomar decisões, fazer escolhas. É preciso afirmar-se de uma forma nova na própria vida, o que talvez em outras épocas não tenha sido tão necessário, e é aí que vejo a ambivalência das chances de sucesso ou insucesso desse processo.

Edgar Morin – Sim, parece que, efetivamente, a nossa civilização permitiu o desenvolvimento do individualismo, ou seja, a autonomia pessoal e a eventual assunção de responsabilidade, e isso é uma de suas grandes conquistas; mas há um lado crescente de sobra porque esse individualismo se desenvolveu na degradação de todas as antigas solidariedades, que eram as da grande família, e também da pequena família que é hoje tão frágil, das solidariedades de quarteirões, das solidariedades de trabalho. Existe, portanto, esse contraponto do individualismo que é a atomização. O individuo é atomizado, tem uma carência, muita solidão, e por conseguinte, muita infelicidade. Assim sendo, o verdadeiro problema é a relação entre a individualidade e a comunidade: a solidariedade. Nós não temos conseguido produzir novas solidariedades. E creio que é em todos os níveis que devemos criá-las. Nas ruas de uma grande cidade, se alguém cai, ninguém para, porque pensamos que á polícia ou o hospital que devem se encarregar disso. Muito bem. Mas retorno a esta ideia mundial: se nós nos sentimos partícipes do destino comum, nos tornaremos solidários com os outros. E não podemos estabelecer o sentimento de solidariedade por decreto, ele deve ser vivido. E nos chegamos a esta ideia: como viver este duplo imperativo, aparentemente contraditório, e contudo inseparável, de mais comunidade e de mais liberdade? Como sentir-nos responsáveis pelos outros no nosso mundo fragmentado no qual a responsabilidade se perde, já que ninguém vê o todo> Ninguém se sente responsável pelo destino comum. E é a recuperação desse destino comum que é importante para restaurar retroativamente a solidariedade e a responsabilidade. Nós reencontramos o problema da dupla face da mundialização e da retração identitária. De um lado, a perniciosa mundialização que homogeneíza tudo e o perigoso retraimento que se fecha com violência sobre a identidade tradicional...
(Do livro: Planeta - A aventura desconhecida. Edgar Morin e Christoph Wulf, Ed. Unesp, SP, pp.53/57)

UM QUE FALA E UM QUE OUVE

CLÁUDIO MORENO

Os antigos garantem que um conselho firme e sincero de um amigo, de um filósofo ou de um oráculo pode ser decisivo nos momentos mais difíceis. Alguém que nos diga a coisa certa na hora certa pode nos devolver a calma e a confiança que estamos a ponto de perder, ou evitar o pequeno deslize que nos levaria ao desastre. Uns poucos, por conta própria, conseguem fazer os dois papéis ao mesmo tempo, conselheiro e aconselhado, mas esses são muito raros e dignos de admiração.
Pois vejam Ulisses: quando ele voltou para casa, vinte anos depois de ter partido para a guerra de Troia, um perigo ainda maior o esperava dentro de seu próprio palácio: tomando-o por morto, dezenas de chefes guerreiros se apresentaram para disputar o seu lugar no trono de Ítaca e no leito de Penélope. Aqui começa a segunda parte da Odisseia: praticamente sozinho, contando apenas com a ajuda de Telêmaco, seu filho, e de mais alguns servidores leais, ele precisa travar uma batalha sangrenta para se livrar deste pequeno exército invasor. Sua única vantagem é a surpresa, e Atena, sua deusa protetora, transforma-o temporariamente num velho e alquebrado mendigo, a fim de que ele possa se aproximar do palácio sem ser reconhecido.
Ali o desmando é geral. Ignorando as sagradas leis da hospitalidade, todos maltratam o recém-chegado. Os criados tentam enxotá-lo e os pretendentes o insultam, atingindo-o com ossos e com restos de comida. Eles humilham e ameaçam Telêmaco, que tenta defendê-lo, mas o jovem os convence a deixar que o velho durma no palácio. Nunca em sua vida Ulisses lutou tanto para controlar sua ira, mas sabe que o menor gesto pode traí-lo e acarretar sua morte e a de seu filho. À noite, deitado em velhos pelegos que estenderam no vestíbulo, ouve o riso debochado das criadas de Penélope que vão dormir com os pretendentes, seus verdadeiros senhores. Por um segundo, o sangue sobe-lhe à cabeça e pensa em matar todas elas, o que poria tudo a perder. Atena não está ali para acalmá-lo, mas ele consegue dar ouvidos a sua voz interior: “Aguenta, amigo. Já passaste por coisa muito pior do que essa”. Ele se controla e aguarda o dia seguinte, quando então, no momento certo, seu plano acaba lhe trazendo a vitória.
Esta voz de si para si mesmo é a marca dos destemidos. Que o diga Turenne, o grande marechal de Luís 14: apesar de ser veterano de muitas guerras, sempre sentia medo no início de cada batalha. De longe, seus homens ouviam-no gritar, enquanto mergulhava no aceso do combate: “Tu tremes, carcaça? Pois tremerias ainda mais, se soubesses para onde estou te levando!”. Confesso que eu morro de inveja.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Aprender a olhar

Tony Saad*

Outro dia, voltando de uma viagem curta, tive como companheiros (no outro lado do corredor do ônibus) um pai e seu filho, que devia ter uns seis anos. Em dado momento, ao ver seu pai quieto, olhar fixo, absorto na paisagem, o menino perguntou: Pai, o que é que tu tá vendo lá fora?. Ao que o homem respondeu, olhar ainda fixo nas coisas: Nada, filho, só estou olhando. Olha também. Acho que testemunhei, ali, uma bela lição.
Olhar – simplesmente olhar – é, talvez, o mais frequente modo de se aprender. O olhar é a ferramenta que nos permite perceber o mundo à volta, desde um minúsculo grão de areia (você já experimentou olhar para um único grão com atenção?) até as estrelas mais distantes. Pelo olhar, um bebê consegue captar alterações de humor em seus pais, através do olhar, pautamos nosso julgamento das pessoas com quem nos relacionamos, e julgamos até aquelas com quem nunca temos contato direto. É justamente porque possuímos o poder de olhar – e ver –, que se inventou a fotografia, o cinema, o desenho, a pintura, a mímica, a moda, a escrita, a luz artificial, e até este jornal. Olhar é uma considerável parte de nosso viver, de nosso vivenciar-o-mundo. Ou seja, olhar é aprender.
Mas o olhar também pode ser um elemento de distração, um sentido que, por ser tão presente em nosso dia-a-dia, nos tira o foco de coisas que perceberíamos se não estivéssemos recebendo o massacrante input visual que o mundo nos impõe a todo momento. É fato notório que pessoas que não veem têm os outros sentidos mais apurados. Mecanismo de compensação ou não, é fato que o olhar também pode ser responsável por deixarmos de aprender.
Talvez não baste apenas olhar; talvez seja preciso aprender a olhar. Talvez precisemos resgatar o olhar daqueles que têm a maravilhosa capacidade do espanto diante do banal. Talvez, para aprender mais, para apreender mais o mundo, seja necessário fazer como aqueles que moldaram o olhar ocidental, que deram base e rumo ao pensamento de grande parte da humanidade: os gregos. O olhar, para eles, era o início de todo pensamento, a janela pela qual passava o mundo a ser olhado e pensado. Para eles, olhar era, sim, aprender.
O educador Rubem Alves é um dos poucos pensadores a dar valor ao olhar na educação. Diz ele que educar é ensinar a ver. É lastimável que, entre os milhares de livros sobre educação e formação de pessoas, não encontremos livros sobre a importância do olhar. A educação se divide em duas partes: a educação das habilidades e a educação das sensibilidades. Sem a educação das sensibilidades, todas as habilidades são tolas e sem sentido. Rubem Alves tem razão quando diz que as palavras só têm sentido se nos ajudam a ver melhor o mundo. É isso mesmo: aprendemos as palavras para melhorar os olhos. O conhecimento nos dá meios para viver; a sabedoria nos dá razões para viver. O mundo está aí – basta saber olhar.

É preciso excomungar Jesus

Frédéric Lenoir*

A Igreja católica atravessa uma crise de uma amplitude inédita em muitas décadas. Essa crise é muito mais profunda, já que sua credibilidade é colocada em questão em todos os âmbitos: por nós, católicos, pelas pessoas de cultura católica e pelos fiéis praticantes.
A Igreja não é vítima de uma agressão externa. As causas dos seus males atuais não surgiram por causa de "inimigos da fé" ou de anticlericais. Dois graves escândalos, que se referem à responsabilidade da sua hierarquia, expuseram brutalmente as suas contradições: a revogação da excomunhão de quatro bispos integralistas, dentre os quais um que fez declarações negacionistas, e a excomunhão, quase concomitante, por parte do arcebispo de Recife, de uma mãe e de uma equipe médica que praticou um aborto em uma menina de nove anos, grávida de gêmeos, vítima de estupros, cuja vida estava em perigo.
A isso, acrescentam-se as afirmações de Bento XVI no avião que o levou à África, continente atingido em grande parte pela pandemia da Aids: "Não se pode resolver o problema da Aids com a distribuição de preservativos. Pelo contrário, a sua utilização agrava o problema".
O primeiro caso escandalizou sobretudo pelas declarações negacionistas odiosas de dom Williamson e pelo tríplice erro do Vaticano, que não informou o Papa das palavras conhecidas desde novembro de 2008; que promulgou o decreto no dia 24 de janeiro, quando tais declarações estavam na primeira página de todos os jornais do mundo desde o dia 22 de janeiro; e, enfim, pela lentidão da condenação dessas palavras.
Mas essa revogação de excomunhão "sem condições", preâmbulo de um processo de reintegração na Igreja, também perturbou profundamente muitos católicos ligados ao Concílio Vaticano II (1962-1965) e aos seus valores de liberdade religiosa e de diálogo com as outras religiões, constantemente negados pelos integralistas. Na carta aos bispos publicada no dia 12 de março, o Papa reconhece os erros na gestão do caso Williamson e tenta justificar-se sobre a revogação da excomunhão utilizando o argumento da misericórdia: "Quem anuncia Deus como Amor levado 'até ao extremo' deve dar testemunho do amor: dedicar-se com amor àqueles que sofrem".
Pode-se entender que, em nome da mensagem evangélica, o Papa quer perdoar e dar uma nova chance às ovelhas perdidas que ainda dizem palavras extremistas e intolerantes há anos. Mas então por que a Igreja continua proibindo a comunhão aos divorciados que casam de novo? Por que condena com tal dureza as pessoas próximas de uma menina estuprada que salvaram sua vida fazendo-a abortar? A misericórdia deve ser aplicada só aos integralistas? E como é possível considerar o estupro de uma menina menos grave do que um aborto, que, além do mais, foi realizado em favor da vida?
O escândalo é tal que diversos bispos franceses decidiram intervir para condenar uma decisão iníqua que contradiz não apenas a moral comum, mas também a mensagem evangélica. Basta citar o episódio em que Jesus se recusa a condenar uma mulher adúltera, que, segundo a lei, deve ser apedrejada, e grita aos ultralegalistas da época: "Quem não tem pecado que atire a primeira pedra" (João 8). Ele mesmo transgrediu mais vezes a lei religiosa. Dostoievski havia imaginado que, se Jesus voltasse à Espanha de Torquemada, seria condenado ao fogo por ter pregado a liberdade de consciência. Pergunta-se se, na Igreja de Bento XVI, ele não seria excomungado por ter pregado a superação da lei com o amor.
Ninguém pede que a Igreja renuncie afirmar as próprias convicções. Mas o que não se entende é a maneira teórica e às vezes brutal utilizada pela hierarquia para reafirmar a norma, enquanto existem apenas situações concretas, singulares e complexas. Como destacada dom Yves Patenôtre, bispo da Mission de France, a decisão de excomunhão pronunciada pelo arcebispo de Recife, confirmada por Roma, "despreza a prática tradicional da Igreja católica que é a de escutar as pessoas em dificuldade, acompanhá-las e, em matéria de moral, levar em conta o 'mal menor'". Pode-se dizer a mesma coisa sobre a luta contra a Aids. O uso do preservativo não é, sem dúvida, a solução ideal, mas, de fato, é a melhor defesa contra a difusão da epidemia para todos aqueles que se cansam de viver a abstinência e a fidelidade pregadas pela Igreja. Os padres africanos sabem disso.
A história da Igreja é marcada por essa tensão permanente entre fidelidade à mensagem de compaixão com relação a toda pessoa pelo seu fundador e a atitude dos dirigentes que acabam, muitas vezes, perdendo de vista essa mensagem e privilegiando o interesse da instituição – que se tornou um fim em si mesmo – ou fechando-se em um legalismo meticuloso, absurdo e desumanizador.
O pontificado de João Paulo II foi caracterizado por uma marca de profunda ambiguidade: intransigente e tradicionalista no plano moral e doutrinal, foi também um homem de diálogo e de coração, que multiplicou os gestos fortes com relação aos humildes e às outras religiões. Bento XVI é o herdeiro do seu predecessor apenas na vertente conservadora. E na Igreja de hoje não há mais nem um Abbé Pierre [1] nem uma Soeur Emmanuelle [2], aqueles "fiéis confiáveis", capazes de lançar um grito de protesto contra as decisões dogmáticas desumanizadoras, desenvolvendo portanto um papel catártico e servindo como preciosos mediadores entre os fiéis e as instituições.
Um cisma silencioso ameaça a Igreja à esquerda, muito mais grave do que o dos tradicionalistas. Bento XVI pretendia "reevangelizar" a Europa. Conseguirá, talvez, reconquistar um punhado de integralistas, causando a perda de numerosos fiéis ligados aos valores evangélicos e de indivíduos em busca de sentido, aos quais parece que Roma não sabe oferecer outra coisa a não ser dogmas e normas.

Notas:
1. Henri Antoine Groués, mais conhecido como Abbé Pierre (1912-2007) foi um sacerdote capuchinho francês. Morreu aos 94 anos. Revoltado ao ver que num país rico como a França pessoas morriam de frio na rua, Abbé Pierre, em 1954, pediu apoio nas rádios para salvar os mais pobres de uma morte certa. O seu trabalho de assistência iniciou-se durante a Segunda Guerra Mundial. Recebeu numerosas honrarias, distinções e condecorações militares pelo combate em prol da França. Com a paz, foi eleito deputado da Assembléia Nacional Francesa, que abandonou por protesto contra uma lei eleitoral que ele julgava injusta, em 1951. A partir daí dedicou-se ao Movimento Emaús, que está hoje presente em mais de 40 países.
2. Soeur Emmanuelle (cujo nome de batismo era Madeleine Cinquin) (1908-2008) foi uma irmã belga, que dedicou a vida a ajudar os mais pobres, sobretudo no Cairo. Tendo estudado na Universidade Sorbonne de Paris, Irmã Emmanuelle foi professora de Filosofia e Letras em Istambul, Tunísia, Cairo e Alexandria. Em 1971, quando tinha 63 anos, decidiu compartilhar a sua vida com os pobres do Cairo, no Egito, motivo pelo qual era chamada de "irmãzinha dos mendigos". Em 1993, deixou o Egito, aos 85 anos, e regressou à França, estabelecendo-se na comunidade da Congregação de Nossa Senhora do Sion, para a qual havia entrado aos 20 anos, dedicando seu tempo à oração e à meditação, sem jamais deixar de ajudar os sem-teto e os imigrantes ilegais.
*Filósofo e escritor francês. O artigo é do jornal Le Monde, 19-03-2009, tradução de Moisés Sbardelotto e publicado no IHU/Unisinos em 23/03/2009.

Economia rasa e economia profunda

Leonardo Boff*

Existe uma economia profunda? Embora não dominante, penso que existe e estimo que deva existir. Nos inícios dos anos 70 do século passado o filósofo norueguês, recentemente falecido, Arne Naes introduziu uma distinção, hoje amplamente acolhida nos meios ambientalistas, entre ecologia rasa e ecologia profunda. A rasa seria aquela que separa o ser humano da natureza e o coloca fora e acima dela, pressupondo que as coisas só possuem sentido quando úteis a ele. A profunda vê o entrelaçamento homem-natureza, afirma o valor intrínseco de cada ser e se dá conta de que uma teia de relações envolve a todos, formando a comunidade de vida. Há um Todo orgânico e cheio de propósito, e o ser humano é capaz de identificar o fio condutor que liga e religa tudo e o chama de Fonte Originária de todo o ser, base de valores infinitos (veneração, amor, justiça) que enchem de sentido a vida humana. A profunda ajuda a rasa a se autolimitar e a não ser destrutiva.
Apliquemos estas reflexões ao campo da economia. A economia rasa seria aquela que se centra somente nela mesma, nos capitais, nos mercados, nos investimentos, nos lucros, numa palavra, no PIB, sem preocupação com a delapidação da natureza, com a ruptura da autorregulação da Terra e com o crescente fosso entre ricos e pobres. São externalidades, fatores que não entram no cálculo econômico.
Sua lógica é a de um sistema fechado, como se a economia fosse tudo numa sociedade. Efetivamente, como foi amplamente denunciado pela escola de Frankfurt, particularmente por Polaniy, no capitalismo avançado, a economia absorveu todas as instâncias sociais (política, ética, estética, ciência), transformando tudo em mercadoria e, por isso, em oportunidade de ganho. Estabeleceu-se como o eixo articulador do todo social. Isso teve como consequência o excesso insano da vontade de enriquecer a todo custo e nos conduziu ao caos socioeconômico atual. É a loucura da racionalidade econômica rasa.
Que seria a economia profunda? Seria a volta ao sentido originário de economia como técnica e arte de atender às necessidades da casa, hoje, da Casa Comum, a Terra viva, respeitando seus ciclos e sua capacidade suporte. Ela se inseriria no todo que constitui uma sociedade. Nesta haveria uma base que, em última instância, asseguraria a vida material: a economia. Haveria uma forma de organização, de distribuição do poder e leis que permitiram a todos viverem juntos sem demasiados conflitos. Haveria um conjunto de valores morais, éticos e ideais que dariam sentido à vida social e humanizariam as relações sempre tensas entre as diferenças. E, por fim, haveria um horizonte de sentido maior que ancoraria a história numa instância mais alta e desenharia o quadro final do universo: a espiritualidade.
Assim teríamos, idealmente, uma sociedade que poderíamos considerar verdadeiramente humana, porque teria uma visão integradora da complexidade humana.
Aqui emergeria a economia profunda, aquela que sabe seu lugar no conjunto da estruturação social e responderia à questão: como produzir o suficiente e decente conservando o capital natural e em harmonia com a comunidade de vida?
O economista profundo pensaria assim face à crise atual : como podemos resolver os problemas da humanidade, e não como salvar o sistema econômico em crise?
A mudança da pergunta envolve a mudança da resposta. E esta somente virá se houver uma quebra do paradigma antigo – a ditadura da economia – e recolocarmos a economia no seu devido lugar no conjunto da sociedade. Esse seria um novo paradigma, sustentável a longo prazo. Então, a economia seria parte da política, que seria parte da ética, que seria parte da espiritualidade. A economia rasa seria incorporada na profunda. E diferente seria o futuro.
*Teólogo e escritor

Cultura das armas contra o humanismo

Dalmo Dallari*

As tragédias decorrentes do uso de armas, ceifando vidas e enlutando famílias, continuam a ocorrer em ritmo crescente, ao mesmo tempo em que o comércio de armas é cada vez mais próspero e já foi identificado, nos Estados Unidos, como um dos grandes beneficiários da crise econômico-financeira, pois o medo do aumento da criminalidade provocou uma explosão na venda de armas. A multiplicação de tragédias armadas vem acontecendo em países ricos, e os autores das violências armadas são jovens da classe média superior, alunos ou ex-alunos de universidades e colégios de alto nível, ficando evidente que tais violências não decorrem da marginalização social, de frustrações resultantes da pobreza ou da impossibilidade de acesso à educação. Exatamente por isso é necessária uma reflexão, que sirva de alerta para que não se instalem ou não ganhem força no Brasil as mesmas causas que estão provocando aquelas violências. É preciso identificar as causas mais prováveis, o que deverá ser feito a partir dos fatos mais expressivos, como o que ocorreu na Alemanha há poucos dias.
No dia 11 de março, em Winnenden, cidade bem desenvolvida, com bons estabelecimentos de ensino e população de 25 mil habitantes, um jovem de 17 anos da idade, mascarado e com uniforme de combate, invadiu uma escola profissional, na qual se tinha diplomado em 2008. E ali, às 9h da manhã, entrou em três salas de aula portando uma pistola e atirou na cabeça de nove alunos e três professores, matando-os. Impedido de continuar atirando, fugiu do local e na saída matou mais uma pessoa, sequestrou um motorista e, perseguido por carros da polícia, foi encurralado no pátio de uma concessionária de automóveis. Saiu do carro atirando e matou mais duas pessoas, sendo ferido numa troca de tiros e, afinal, cometendo suicídio. E aqui vêm alguns pormenores expressivos. Segundo o noticiário, o assassino era filho de um empresário bem-sucedido e, embora reservado, não demonstrava pendor para a violência, sabendo-se apenas que ele tinha uma coleção de filmes de horror. Um dado de grande relevância é que seu pai é membro de um clube de tiro e tinha em casa 15 armas, uma das quais foi utilizada pelo jovem para os assassinatos. Além disso, o próprio assassino era atirador registrado e sabia atirar, o que explica a precisão dos tiros na cabeça das vítimas.
Essa tragédia provocou uma comoção nacional, e a imprensa alemã noticiou o fato falando na urgência de uma reflexão, para identificar as causas de tanta violência nas escolas e dos impulsos assassinos de jovens bem formados e de boas familias. Uma informação divulgada pelos jornais alemães é que a Alemanha está em segundo lugar no mundo, nas estatísticas de violências em escolas, perdendo apenas para os Estados Unidos. Foi lembrado que no ano de 2002, num antigo liceu da cidade de Erfurt, um jovem de 19 anos, aluno daquela escola, matou 16 pessoas antes de se suicidar. Mais recentemente, em novembro de 2008, na cidade de Emsdetten, um jovem abriu fogo contra seus colegas e feriu 37 pessoas, suicidando-se em seguida. Esses e outros fatos igualmente trágicos estão chamando a atenção para a introdução das armas no cotidiano das pessoas, o que implica a facilidade do acesso às armas e a disposição para utilizá-las. Isso é ainda agravado pelo modismo das ações violentas, com o cinema, a televisão e a comunicação eletrônica exaltando como pessoas corajosas e decididas os indivíduos que sempre têm uma arma na mão e são capazes de matar pessoas e multidões com grande entusiasmo, como se fossem atos heroicos.
*Professor e jurista
Segunda-feira, 23 de Março de 2009 - 00:00 - Jornal do Brasil online
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/03/23/sociedadeaberta/cultura_das_armas_contra_o_humanismo.asp

domingo, 22 de março de 2009

A mulher que tinha um olho verde e outro marrom...

Rubem Alves*
Gosto demais da Adélia Prado. Lendo os poemas dela fico com saudades das Minas Gerais da minha infância. Tenho dó de quem não é mineiro porque não vai entender. Para explicar o que é um queijo a quem nunca viu um queijo nem todas as palavras do mundo seriam de valia. Um queijo é inefável, está além das palavras do dicionário. Pra explicar o que é um queijo é só mostrar um queijo sem falar nada. Mas, e se os queijos deixarem de existir? Somente aqueles que haviam comido queijos enquanto existiam é que saberão. Quando o queijo não existe mais, não tem o que mostrar. Não tem jeito de explicar. Minas é um queijo que não existe mais feito as montanhas de Itabira que as mineradoras roeram. Quem viu sabe. Quem não viu não sabe. Para sempre.
A Adélia é mineira e católica de coração, beata do jeito dela. Escreve poesia pra se salvar porque Deus é poesia. Beata herética-erótica, vai teimando, sob a proteção da Virgem e dos santos, no seu “caminho apócrifo de entender a palavra pelo seu reverso.”
Já eu sou protestante apóstata e se ocasião houver tomo comunhão com ela a despeito da proibição do papa. Acho que ela não acredita no papa. Ele nunca foi a Minas Gerais e por isso não pode entender os nossos mistérios. Ela é a teóloga que mais cito, muito embora não tenha diploma de seminário. Os teólogos diplomados são os piores porque pensam que poesia é rima que se recita pra enfeitar sermão. Fazem teologia como quem faz tese de mestrado. Não sabem que a palavra “é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda, (que) foi inventada para ser calada”. Não sabem que o céu estrelado convence mais que os argumentos. Poesia é o lugar do santo dos santos.
A teologia da Adélia é pura heresia que ela disfarça muito bem de poesia e compaixão. Se o papa entendesse o que está escondido por detrás das metáforas dela há muito que a teria colocado sob a punição de um “silêncio obsequioso”, a pior coisa que se pode fazer a um poeta ou a um profeta, proibição de escrever e de falar.
Gastei boa parte do meu tempo lendo teologia e li muitos textos de eclesiologia, que é o saber que os teólogos pretendem ter sobre a igreja. Mas nunca me passou pela cabeça que se pudesse escrever sobre a igreja do jeito como ela escreveu, com chifre e os cheiros de que cachorro gosta.
“A Igreja é o melhor lugar. Lá o gado de Deus pára pra beber água, rela um no outro os chifres e espevita seus cheiros que eu reconheço e gosto a modo de um cachorro. Igreja é a casamata de nós. Tudo lá fica seguro e doce, tudo é ombro a ombro buscando a porta estreita... (74)
A Adélia gosta da igreja. Eu já gostei. Não gosto mais. Lá ninguém gosta do meu cheiro e eu não gosto do cheiro deles. E ao invés de relar seus chifres nos meus, o que o gado faz é me cutucar com a ponta dos seus chifres. Saio sempre machucado. Lá não volto mais. Lendo a Adélia fiquei com saudade porque houve um tempo em que era gostoso estar na igreja.
Durante um bom tempo da minha juventude a igreja foi minha casamata, o meu melhor lugar. Não pensava nos mistérios da Santíssima Trindade, nem nos horrores do Inferno e nem tinha medo. Eu não procurava a porta estreita. Pra dizer a verdade eu não pensava nem na estreita e nem na larga. Não pensava na salvação da minha alma. O bom mesmo era o ombro a ombro. A igreja era o lugar das amizades simples sem complicações teológicas.
Quem me levou para a igreja foi uma mulher, a dona Jenny. Ela não me falou de pecado, nem do inferno e nem da necessidade da salvação. Que eu me lembre ela nunca me falou de religião. Nunca tentou me converter para salvar a minha alma. Ela sabia que eu já estava salvo. Eu fui para a igreja porque a casa dela ficava no fundo da igreja, era a casa pastoral, o marido dela era o pastor. Estar na igreja era um jeito de estar perto da dona Jenny.
Tinha um olho marrom e outro verde. Falava manso, baixinho, olhando nos meus olhos. Foi a primeira pessoa que me levou a sério, que ficou no mesmo nível que eu. Conversava sobre as coisas da vida, inclusive da vida dela. E me escutava em silêncio, seus olhos marrom e verde nos meus. Na solidão fazia poesia. Uma vez me mostrou um poema que escrevera enquanto viajava de maria-fumaça pelas montanhas de Minas em direção a Caxambu. Era sobre um vaso de cristal. Escarafunchei via sobrinha até uma filha. A filha me mandou uma cópia. Era assim:
“Ganhei um lindo vaso de cristal
Que foi o meu tesouro de valor!
Seu brilho era perfeito, sem igual,
E à luz do sol variava a sua cor.
Ao seu redor meus sonhos multicores
Descansavam sem descanso doidamente
E eu lhe dava, sorrindo, belas flores,
E ele brilhava mais, de tão contente!
Mas um dia trincou-se o meu cristal...
Sulco escuro, em contraste com a luz;
Num canto a sós ficou, e do rosal,
Nunca mais uma flor eu nele pus!”
Confidências entre uma mulher de mais de quarenta anos e um adolescente de dezesseis: coisa estranha. Entendi o que não estava escrito. Eu sabia quem era o vaso de cristal rachado. O seu vaso de cristal, ela o amara apaixonadamente, paixão primeira, de corpo e alma, e se entregara a ele, uma entrega proibida e maldita. Um amigo é uma pessoa que adivinha e faz silêncio: aprendi isso do meu filósofo amado, Friedrich Nietzsche. Adivinhei e fiz silêncio. Imagino que ela sabia que eu sabia. Da. Jenny era um espelho bom. Olhando nos seus olhos verde e marrom eu me vi refletido: eu era um menino bonito. Eu era seu confidente. Ela me contava suas tristezas de amor.

*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1625636&area=2220&authent=150047104315621522473243376237 22/03/2009

Os bancos dos jardins e a pira de molambos

Mauro Santayana
As prefeituras de São Paulo e do Rio encontraram um meio para limpar as duas cidades dos detritos humanos que as infestam. É ainda o início do processo, que promete completar-se com outras medidas. Os bancos das praças e jardins, usados pelos miseráveis sem-teto, serão separados por placas divisórias. Dessa forma, os mendigos não poderão neles dormir. Os bancos dos jardins, disse uma autoridade carioca, se destinam às "pessoas de bem", que, deles, poderão contemplar as belezas da cidade. A premissa se impõe: quem é de "bem" no Brasil? Provavelmente essa sábia e justa autoridade considere que as pessoas de bem sejam as pessoas "de bens". Se assim for, poderíamos estabelecer uma escala, dentro de moderna definição moral. Poderiam criar um registro para que as pessoas se inscrevam, de acordo com sua riqueza e renda, devidamente atestadas pela Receita Federal. Quanto maiores os bens, maior seria sua respeitabilidade. A transubstanciação do advérbio "bem" no substantivo plural "bens" atende à nova linguagem do poder.
Trata-se da continuação de processo antigo e reanimado pelo novo liberalismo, que sofre agora seu desaire, mas não se considera vencido. O raciocínio é singelo: o mundo é lindo se for habitado por pessoas bem vestidas, sadias, belas. "Beleza é saúde", dizem os slogans de propaganda. Antes mesmo de Hitler, houve quem propusesse programas de eugenia, com a esterilização dos deformados e inúteis. Os eugenistas relacionam a estética ao comportamento, como o fez Lombroso: o feio é sempre malfeitor. O feio, o sujo, o desempregado, o demente, o descalço, o descamisado, o macróbio. Enfim, para resumir, o pobre e indefeso.
O processo de exclusão, se não for contido, evoluirá. Daqui a pouco, as posturas municipais – e, mais tarde, a legislação estadual, antes da federal – exigirão que só andem nas ruas os que estiverem bem vestidos. Postos de vigilância serão instalados nos terminais de ônibus, e detectores digitais utilizados, para mandar de volta aos subúrbios e favelas os que não estiverem devidamente aptos ao convívio "civilizado", para usar o eufemismo corrente. Esses instrumentos identificarão os acometidos de alguma doença contagiosa, que serão isolados, no ato. O processo, para seu êxito final, reclama medidas ainda mais rigorosas. Como os mais velhos se lembram, houve quem se atrevesse a mandar afogar os mendigos no Rio da Guarda, e quem aconselhasse a resolver o problema das favelas cariocas mediante o fogo saneador.
Como ocorre em tempos semelhantes, há "voluntários" e "justiceiros" que se adiantam na ação de "limpeza". Em Brasília, bravos rapazes, filhos de gente "de bem" e de bens, queimaram um índio que dormia na parada de ônibus. Outros os imitaram, em várias cidades brasileiras. Em São Paulo, moradores de rua morreram a tiros. No campo, cerca de 1.500 trabalhadores sem terra foram abatidos nos últimos anos, segundo estatísticas da CNBB.
A concentração da riqueza, associada à inevitabilidade da transparência, com os novos meios de comunicação da cidadania, está semeando o inconformismo e, fatalmente, conduzirá à revolta dos excluídos. Os pobres, sempre mais pobres, constituem hoje nova etnia, consciente da injustiça que sofre. Essa consciência cresce, enquanto aumenta a hostilidade contra os excluídos, na humilhação cotidiana e no soberbo desdém que lhes destinam parcelas alienadas da classe média. Os pobres se encontram acuados como animais de presa, e chegará o momento em que o medo será substituído pelo desespero.
Em setembro de 1935, os alemães promulgaram as leis de Nurenberg. Sua primeira aplicação se fez nos bancos dos jardins e praças públicas, com a inscrição que os vedava ao uso dos judeus: nicht für juden. Nos anos seguintes, houve os campos de extermínio, as câmaras de gás, a morte de 6 milhões de judeus, 20 milhões de eslavos, ciganos e outras "raças inferiores", e o sacrifício de milhões de jovens combatentes nos dois lados do front. Em abril de 1945, o corpo do suicida Adolf Hitler foi torrado às pressas junto aos restos de uma cadela e seus filhotes, em pira de molambos e gasolina.
O Ministério Público deve agir, e já. Todos os seres – e não só os homens – têm o inegável direito a dormir, quando e onde lhes for possível. Privá-los do sono é abominável forma de tortura.
temadodia/coisas_da_politica_os_bancos_dos_jardins_e_a_pira_de_molambos.asp

sexta-feira, 20 de março de 2009

Planeta - A aventura desconhecida.

Excerto do livro
que surgiu de um programa radifiônico,
levado ao ar na França.
Diálogo entre Edgar Morin, cientista político frances e
Christoph Wulf, filósofo alemão,
catedrático da Universidade Livre de Berlim,
concentra seus estudos e publicações na área de
Antropologia Histórica.
Christoph Wulf:
"Rimbaud usou esta soberba expressão: “Eu é um outro”. Creio que essa é de fato uma questão essencial. De um lado, é preciso compreender que o “eu” nunca emerge a não ser do encontro com o outro. Poderíamos dizer que é a primeira experiência da formação cultural e individual fazer a experiência de um outro, de um exterior. Esse é um processo que se aplica ao individuo. Trata-se igualmente de conhecer lados que não conhecemos, quando nos tornamos de alguma forma estranhos a nós mesmos. A estranha diante de si mesmo é uma experiência essencial, pois ela permite abrir-se às outras criaturas, e ao outro. O que é decisivo aqui é não ter essa atitude de querer compreender a outro, utilizando essa compreensão para colonizá-lo. Temos exemplos como a conquista da América Latina. Os espanhóis chegaram ali porque eram bem mais capazes de compreender diretamente os estrangeiros, compreendiam os astecas e, por isso, souberam manipulá-los de forma diferente. Portanto, compreender pode ser uma estratégia de poder. E é por isso que eu gostaria de inverter os termos, e dizer que o que é essencial é partir da não-compreensão, de uma situação em que não compreendemos o estranho nem compreendemos a nos mesmos. A partir dessa incerteza, temos uma atitude muito menos violenta com relação ao outro e com relação a nós mesmos. Defendo um pensamento heterogêneo e “heterológico”. Isso é de fundamental importância para o processo de mundialização. É a única maneira de permitir a sobrevivência de culturas estrangeiras tal como elas são, sem utilizar o estratagema da compreensão como uma estratégia de poder para subjugá-las. Essas culturas são como são, diferentes portanto, e é preciso aceitar essa tensão. De resto, é um questão de tradução para ver como podemos comunicar-nos com culturas estranhas. Mas no plano estratégico, quero insistir, é necessário partir da incompreensibilidade do estranho. Essa é uma posição extrema que torna supérfluo o uso da violência".
(Edgar MORIN e Christoph WULF. Planeta– A aventura desconhecida – Ed.Unesp, 2003, pp.36/38)

A paciência do pensamento

MARILENA CHAUI
A entrevista,
na íntegra,
está na revista CULT*.
Aqui reproduzo apenas uma resposta da filósofa espinosiana,
dita pela revista, "a filósofa mais importante do país".
CULT - Quando as pessoas perguntam “qual a utilidade, para que filosofar?”, deixam entrever uma concepção exclusivamente instrumental do conhecimento, concepção esta que é desmentida pela história da filosofia. Parece que a filosofia, ao contrário da matemática e da biologia, precisa continuamente legitimar seu direito à existência. Apesar disso, existiria uma dimensão instrumental, “funcional” , da especulação filosófica, que justificaria sua implantação curricular no ensino médio? De que maneira a filosofia pode hoje fornecer respostas concretas para o enfrentamento de problemas sociais urgentes?

MC – É conhecido o ditado: “A filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual”. Ou seja, não serve para coisa nenhuma. O “para quê?” indica que tendemos a considerar o conhecimento de um ponto de vista instrumental como um meio e não como um fim e, como não se vê qual a instrumentalidade da filosofia, decreta-se sua inutilidade. Certa vez, perguntaram a um filósofo: para que filosofia? Ele respondeu: para não darmos nosso assentimento às coisas sem maiores considerações. Ou seja, a atitude filosófica se inicia quando desconfiamos da veracidade ou do valor de nossas crenças cotidianas, desconfiança que surge, sobretudo, no momento em que nossas crenças, nossas idéias, nossos valores parecem contradizer-se unas aos outros. A filosofia é uma interrogação sobre o sentido e o valor do conhecimento e da ação, uma atitude crítica com relação ao que nos é dado imediatamente em nossa vida cotidiana, um trabalho do pensamento para pensar-se a si mesmo e da ação para compreender-se a si mesma.

Por isso vou dividir minha resposta em duas partes. Pelo que eu disse, é óbvio que não penso que o estudo da filosofia no ensino médio deva ser tomado como algo “funcional”, uma vez que a noção de funcionalidade implica, por um lado, a adequação a algo já dado e, de outro, o instrumento que melhora a operação disso que já está dado. Esses dois aspectos da funcionalidade contrariam o núcleo do ensino da filosofia, qual seja, o desenvolvimento da capacidade crítica e o não conformismo com o que está dado. Ou seja, a funcionalidade faz supor que o mundo dado, a sociedade dada, a cultura dada são naturais e que seus problemas são desajustes de um funcionamento que precisa ser consertado por alguns ajustes pontuais. Mas a filosofia leva o estudante a indagar, antes de mais nada, se o dado é “natural” (o famoso “é assim mesmo”) ou se foi instituído pela ação humana, e se os problemas não exigiriam uma reflexão sobre sua gênese, suas causas, em vez de um ajuste.

Passo, então, à segunda parte de minha resposta. O que caracteriza a sociedade contemporânea, sob os efeitos do neoliberalismo, é a desigualdade num patamar jamais visto, dando origem à violência generalizada: não apenas o estímulo ao estado de guerra permanente entre nações, mas também a chamada guerra civil tácita entre os diferentes grupos sociais de uma mesma nação, além do individualismo exacerbado ou da competição mortal na busca de “sucesso”. Também caracteriza a sociedade contemporânea, sob os efeitos das tecnologias de informação, a fragmentação do espaço e do tempo, isto é, o espaço e o tempo são a tela (do computador, da televisão, do celular), tela sem profundidade, que reduz o espaço ao “aqui” e o tempo ao “agora”; todas as experiências são vividas como efêmeras e fugazes, sem passado e sem futuro. Essas características da sociedade contemporânea colocam questões que, além de políticas e econômicas, são filosóficas: a violência abre a interrogação sobre a ética e a política; a fragmentação do espaço e do tempo abre a interrogação sobre o sentido das ciências, das técnicas, das artes e da história; o privilégio da imagem (que é sempre instantânea e imediata) abre a interrogação sobre o sentido da cultura, isto é, da ordem simbólica da linguagem e do trabalho, que é uma ordem de mediações e de capacidade humana para lidar com o ausente e o possível. Certamente há como interessar os alunos para essas questões. Vela a pena levá-los a interrogações que lhes permitam uma primeira compreensão crítica das condições efetivas de suas próprias vidas.
*CULT, reportagem entrevista com o título: A paciência do pensamento, é feita por Juvenal Savian Filho e Eduardo Socha. março/2009, pp.16/23.
OBS.: Parte da entrevista impressa pode ser lida on line: http://www.revistacult.com.br/

quinta-feira, 19 de março de 2009

Coisa de homens

CONTARDO CALLIGARIS*
Os atiradores parecem agir
na tentativa desesperada
de se levarem
a sério

DUAS notícias na Folha de quinta passada. Em Wendlingen, Alemanha, Tim Kretschmer, 17, saiu de casa com uma Beretta 9 mm e 200 cartuchos. O pai do jovem colecionava armas, todas legais e bem guardadas, salvo a fatídica pistola, que estava na gaveta de um cria- do mudo.
Kretschmer matou 15 pessoas, no colégio do qual ele tinha sido aluno, ao longo da estrada e numa revenda de carros, onde ele, enfim, suicidou-se. Em sua grandíssima maioria, os alvos eram femininos. Kretschmer não tinha um rancor especial pela escola onde se formara e, campeão de tênis de mesa, não era marginalizado socialmente.
Em Kinston, Alabama, EUA, Michael McLendon, 28, matou dez pessoas, começando pela mãe. McLendon (com dois fuzis, uma pistola e uma espingarda) eliminou uma lista de parentes que, aparentemente, ele detestava. As autoridades declararam: "Ele não tinha sido demitido, não houve rompimento amoroso. Ele não tinha ficha criminal nem história de distúrbios mentais". Os assassinatos em massa já são uma tradição nos EUA (desde o massacre de Columbine, em 1999) e na Alemanha (desde o massacre de Erfurt, em 2002). Mas a epidemia começou na Escócia, em 1996, com a morte de 16 crianças e um professor (mais o assassino, suicida).
E houve duas manifestações na Finlândia (nove mortos em 2007 e 11 em 2008). Isso sem contar o Iêmen, em 1997, com a morte de seis crianças e dois adultos. Claro, a mídia facilita a identificação por contaminação: de país em país, o comportamento extremo de alguém se torna "exemplar" para outros. Mas isso não nos diz a razão da série, apenas explica sua possibilidade.
A cada vez, a gente se pergunta o que pode levar alguém a sair matando. Uma patologia? Um evento inadmissível? A sensação de uma exclusão irremediável? A história de cada atirador é diferente.
Alguns eram de classe média, outros de classes menos favorecidas. Alguns pareciam ter um brilhante futuro, outros acabavam convencidos de que o mundo não era lugar para eles. Entre esses, havia os que execravam sua exclusão e os que a curtiam como se fosse um privilégio. Alguns sofriam de depressões ou transtornos mais graves, mas não todos.
Será, então, que a série de horrores corresponde a um traço cultural? E lá vamos nós, reinventando banalidades sobre o "horror" moderno. Seja como for, diante dos massacres, é difícil não procurar denominadores comuns. Por exemplo, esses gestos homicidas e suicidas são propositalmente públicos. Não se trata de alvejar os passantes a partir de uma janela escondida: a matança é teatral.
Como se, para os atiradores, encarnar o anjo da morte (dos outros e deles mesmos) fosse uma demonstração, uma prova, que deve valer aos olhos de todos. Uma prova de quê? Pois é, os atiradores são sempre homens. O que eles querem provar? A identidade da gente é um tecido de imagens incertas; nesse jogo de espelhos, há poucos atos "reais", que possam dizer a que viemos sem que seu sentido dependa do olhar dos outros.
Como dizia um psicanalista famoso, é possível que haja só dois atos dessa qualidade: dar à luz e morrer. Claro, para os "meninos" só sobraria morrer. Mas acrescento: morrer e, talvez, matar. Atrás da singularidade de suas razões, os atiradores parecem agir numa tentativa desesperada de se levarem a sério e de serem, enfim, levados a sério. Algo assim: "O mundo me desprezará, mas, diante de meu ato, não poderá negar que sou um "macho de respeito'".
Faz décadas que a masculinidade está doente: sofre de uma incerteza aguda sobre o que a demonstraria de maneira irrefutável. As máscaras masculinas herdadas do século 19 (do provedor de paletó ao garimpeiro) não bastam mais. Qual é a nova fronteira que é preciso desbravar para "ser" homem? Na aurora da modernidade, Hegel escrevia que o desprendimento em encarar a morte era a marca do mestre. Depois de dois séculos higienistas, que fizeram a apologia da sobrevivência a qualquer custo, nestas décadas em que arriscar a vida num esporte extremo é apenas um entretenimento televisivo, talvez, aos olhos de alguns, a verdadeira marca do mestre pareça ser o desprendimento em matar.
Num dos romances de Jean-Patrick Manchette (não lembro mais qual), um jovem circula de carro pelo bulevar periférico de Paris. Ele carrega uma pistola e, enquanto dirige, sussurra: "Eu vou lhes mostrar que sou gente grande".
ccalligari@uol.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1903200924.htm -19/03/2009

terça-feira, 17 de março de 2009

"...nunca houve tanta riqueza e tantos pobres como agora".

François Houtart
Foro Diamantino*

O sociólogo belga François Houtart (Bruxelas, 1925), uma das vozes mais radicais do movimento antiglobalização cristão, inaugurou o curso do Centro Mediterrâneo da Universidade de Granada ‘O caminho que estamos vivendo’, no qual participam destacados intelectuais, como Federico Mayor Zaragoza, Carlos Tablada, Joaquín Estefanía, José Vidal-Beneyto e Riccardo Petrella. Houtart, delegado especial do presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas para a Reforma do sistema Financeiro e Monetário, fundador do Centro Tricontinental da Universidade Católica de Lovaina.
- Como vê a crise atual?
- Fala-se muito de crise financeira; porém, ela é um epifenômeno de um problema muito mais grave que é a lógica da organização econômica mundial. Há uma convergência de diversas crises: alimentar, energética, climática, social, humanitária, ecológica...

- Como será essa ‘sociedade do futuro’ da qual o senhor fala no curso?
- A sociedade do futuro tem que ser pós-capitalista e somente pode ser construída sobre quatro grandes eixos. Primeiro, uma relação de respeito e não de exploração com a natureza. Na prática, significa declarar a água e as sementes patrimônio universal e não permitir sua privatização. O segundo eixo é privilegiar o valor de uso sobre o valor de troca, o que significa que os produtos e os serviços teriam que ser desenvolvidos em função das necessidades e não do usufruto. Estamos em uma situação absurda: nunca houve tanta riqueza e tantos pobres. Para a acumulação do capital é mais interessante desenvolver de maneira espetacular 20% da população mundial do que produzir bens e serviços para os demais 80% que não têm poder de compra. O terceiro eixo é a democratização da sociedade, não somente no campo político, mas em todas as relações sociais coletivas: na economia, nas instituições da saúde, da educação, no esporte e na religião, entre homens e mulheres... E o quarto eixo é a multiculturalidade: a possibilidade de que todos os saberes, filosofias e religiões contribuam para a construção social coletiva. Até agora, identificamos desenvolvimento com ocidentalização e os saberes tradicionais têm sido marginalizados.

- Como acredita que será a transição de um sistema para outro?
- São necessários atores que construam uma nova relação de força -o qual não significa necessariamente violência-, porque o sistema não vai mudar por si mesmo. No século XIX e XX o ator que se opunha ao capitalismo era a classe operária; porém, hoje, com as mudanças no trabalho, com a debilidade das organizações operárias e com a globalização, os atores são todos os grupos sociais subalternos atingidos pela lei do capital: os camponeses sem terra, os indígenas, as mulheres, os estudantes... O novo ator histórico é global. Somente a convergência dessas lutas pode transformar as coisas. O problema é que são resistências um tanto isoladas. Para ter uma força real necessitam da dimensão política, e isso é ainda muito solto. Só na América Latina se vê os primeiros passos de alternativas que vão contra a lógica do sistema dominante: na Venezuela, na Bolívia, no Paraguai, no Equador... Por exemplo, foi a convergência de ONGs, movimentos sociais, igrejas e alguns governos que impediu o tratado de livre comércio entre EUA, Canadá e América Latina, e está tentando outro tipo de integração latinoamericana através da ALBA.

- O senhor afirma que é necessário construir o socialismo. Porém, que socialismo: o de Zapatero ou o de Fidel?
- O pós-capitalismo pode chamar-se socialismo; porém, deve ser definido por seu conteúdo. Do contrário, é uma palavra ambígua: pode ser Pol Pot, Stalín, Tony Blair... Para mim, o socialismo se define em função dos quatro eixos que citei anteriormente.

- Crê que Cuba é um bom exemplo de construção socialista?
- Cuba é um ensaio que tem tido êxitos -especialmente no plano da saúde, da educação, do esporte e da cultura-; porém, também teve o obstáculo da dominação da URSS durante vinte anos, que reorientou o modelo original e do qual Cuba está tentando sair desde o fim dos anos oitenta. Em Cuba, como nos demais países, a construção do socialismo teve que ser feita nas piores condições, guerras, embargos, a queda da URSS...

- O socialismo é incompatível com a democracia?
- Não, de nenhuma maneira. Porém, não podemos dizer que não existe democracia em Cuba. Esse é o argumento habitual dos ataques a Cuba. Há um desejo de mais democracia, mais agilidade, menos rigidez no sistema burocrático e político, mais participação, apesar de que lá existe muito mais democracia do que em qualquer outro país da América Latina... A forte reação do mundo capitalista teve como consequência em Cuba a rigidez do sistema, a militarização, para defender-se. Porém, não são as pressões do exterior que vão conseguir maior democratização em Cuba; ao contrário: quanto mais pressões, mais resistência.

- Crê que o triunfo de Barack Obama é um motivo para a esperança?
- Foi um sinal de esperança porque é a primeira vez que um negro ou um ‘quase negro’ chega ao poder em um país como os Estados Unidos. Isso, simbolicamente, é muito importante e assim foi sentido na África, na América Latina e nos EUA. Porém, daí a pensar que Obama não será o presidente de um império é outra coisa. Não somente pela força das estruturas, mas também porque ele é um homem do ‘stabilishment’. Tem posições mais abertas em relação a Kyoto e temos que aplaudi-lo; porém, no fundo, a lógica não mudou. Como dizem os cubanos: têm que acostumar-se a ter um imperador negro.

- A autoridade de Roma, o que resta da Teologia da Libertação depois de tantos anos de conservadorismo do vaticano?
- A Teologia da Libertação não está morta; porém, sim, sofreu um enorme golpe porque a instituição eclesiástica católica cortou todos os canais de difusão: seus teólogos foram eliminados de todas as faculdades e centros de pastoral controlados pela Santa Sé. Ao mesmo tempo, conheceu uma certa extensão temática nos últimos vinte anos: feminista, ecológica, dos povos indígenas... E, além disso, desenvolveu-se nas universidades leigas e nas comunidades de base (CEBs). Devemos confessar, no entanto, que sim, a política de restauração da autoridade de Roma tem sido muito negativa para esse projeto de pensamento e de ação.

- A sociedade espanhola é cada vez menos católica; porém, os bispos estão sempre em primeiro plano falando do aborto, da eutanásia, da investigação científica... Por quê?
- A cultura e a ética estão em plena evolução sobre esses e outros temas. O fato de que a hierarquia eclesiástica tenha tomado posições extremamente conservadoras e reacionárias frente a essa evolução choca com coisas que são consideradas de sentido comum, como a dignidade da vida, a dignidade da morte, o problema da limitação de nascimentos, etc... E essa imposição é notícia. A razão dessa atitude me parece muito ligada à concepção da autoridade eclesiástica, mais do que a uma questão de doutrina: quem sabe o façam com boa intenção; porém, é uma concepção totalmente equivocada do ser humano, um reducionismo aos fatores puramente biológicos, uma concepção puramente materialista que não considera a cultura, o que deveria ser o papel de uma instância religiosa.

- O senhor é sacerdote. Algum dia pensou em realizar seu trabalho intelectual fora da Igreja Católica?
- Praticamente é o que estou fazendo! Não estou fora do Evangelho, nem fora da igreja como Povo de Deus; porém, não estou em convergência com a instituição central, isso está claro.

* Um grupo de reflexão vinculado a CORRIENTE SOMOS IGLESIA
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=37794 - 17/03/2009

Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Iván Rothkegel,
The Wall Street Journal,
de Nova York17/03/2009


Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.
A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o "Wall Street Journal Americas" considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?
Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: 'Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?' Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado 'O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra 'tijolo', em inglês) econômicos'. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei 'pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente'. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (...) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (...) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos...

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

Em defesa do arcebispo

RUBEM ALVES*
Mas isso, condenar uma pessoa
eternamente
a um Inferno de Fogo,
não será mais cruel que
um aborto?

DIRIJO-ME A V. REVMA. , dom José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife, para, "in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti", louvar o seu destemor e coerência ao proclamar a verdade revelada e guardada através dos séculos pela Igreja Católica Romana.
Em oposição àqueles que não foram iluminados pela revelação divina e que se apressaram a atacá-lo com argumentos da efêmera sabedoria humana, V. Revma. pensou e agiu de forma milenar, com base na rocha imutável sobre a qual a igreja foi construída.
Nessa circunstância, o senhor aparece como o legítimo representante da igreja e as suas palavras soam como um coral gregoriano, eternas e sempre as mesmas, à semelhança da monotonia da música das esferas celestes. Não são palavras de um indivíduo. É a igreja que fala por meio da sua boca. E esta é a razão por que o Vaticano confirmou os seus atos.
O que aconteceu? Uma menina de nove anos vinha sendo abusada sexualmente pelo seu padrasto desde os seis anos de idade. Ficou grávida de gêmeos. Levada aos médicos, eles concluíram que um aborto se fazia necessário porque a vida da menina estava em jogo. Assim afirma a ética médica: estando em jogo a vida de um feto e a vida da futura mãe, a vida da mãe tem a prioridade. É preciso que a vida da mãe seja salva.
Informado do acontecido. V. Revma. tomou as providências exigidas pelas leis da igreja -que afirmam o contrário: a vida do feto, por diminuto e ínfimo que seja, tem sempre prioridade sobre a vida da mãe, por mais filhos que ficariam órfãos no caso da sua morte.
Assim, V. Revma foi fiel à igreja: excomungou a mãe da menina por ter permitido e a equipe médica por haver realizado o aborto.
Aqueles que não conhecem a verdade revelada se espantaram com fato de que o estuprador padrasto tenha ficado fora da maldição da excomunhão. Mas V. Revma. explicou que o estupro não é punido com a excomunhão porque, por violento e cruel que possa ser, ele não tira uma vida. Pode mesmo acontecer que do estupro até surja uma nova vida...
Os médicos se surpreenderam com a excomunhão lembrando que as leis do país foram obedecidas. V.Revma. refutou: "A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Quando uma lei humana (...) é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor".
Em outras palavras: as leis do Estado só devem ser obedecidas quando concordam com as leis da igreja.
Em outros tempos o senhor poderia ser acusado de estar incitando à desobediência civil, à subversão, porque a ética que se encontra por detrás dos atos subversivos vem da crença na ilegalidade e, portanto, na ilegitimidade do Estado.
O senhor concordará que há um conflito entre a pretensão da igreja de ter o monopólio total da verdade e a democracia? Pois na democracia são os homens e não Deus que estabelecem as leis.
O sonho político da igreja não é uma teocracia em que as leis são estabelecidas por ela e o Estado secular leigo é abolido? A igreja não sonha com a sua volta ao poder e a abolição da democracia?Tremo pensando no futuro eterno que aguarda os excomungados. A eles está proibida a participação na eucaristia, veículo da graça. Estão, assim, condenados ao Inferno eternamente.
Mas isso, condenar uma pessoa eternamente a um Inferno de Fogo, não será mais cruel que um aborto?Mas sinto que sua consciência está em paz. Não foi o senhor que excomungou. Foi a igreja.
*Escritor, teólogo, colunista quinzenal da Folha de São Paulo.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff1703200903.htm 17/03/2009