terça-feira, 7 de abril de 2009

Luta ecológica e o fracasso de Deus na história (I)

Jung Mo Sung *

Se perguntarmos às pessoas se elas são a favor da preservação do meio ambiente, todas ou quase todas dirão que sim. Se perguntarmos se estão preocupadas com a crise ecológica, quase todas também dirão que sim. Mas, se perguntarmos a essas mesmas pessoas se essas preocupações as levaram a modificar o seu cotidiano ou os seus sonhos ou se diminuíram o seu padrão e quantidade de consumo e/ou pretendem a diminuir para adequá-los à crise ecológica, muito poucas dirão que sim. Em outras palavras, a preocupação ecológica hoje faz parte do que é considerado "politicamente correto", mas parece que "no fundo" as pessoas não levam muito a sério essa questão.

Precisamos entender um pouco melhor essa defasagem entre a preocupação ecológica no nível do discurso e pouca mudança real nos comportamentos e nos desejos. Sem essa compreensão, as lutas, ações e discursos em favor da preservação das condições de vida no planeta Terra terão pouco efeito, ou cairão no vazio ou ficarão somente no nível das verborréias.

Neste artigo eu quero apontar apenas um dos aspectos importantes da "luta ecológica", que tem a ver com a noção de sustentabilidade. A maior parte dos discursos em defesa do meio ambiente se refere a não sustentabilidade do atual padrão de vida e de desperdícios de recursos naturais essenciais, como a água. Isto é, se mantivermos as condições atuais, teremos muitos problemas no futuro. Em outras palavras, o problema grave não está no presente como um fato visível ou experimentável, mas como um potencial que se manifestará em um futuro próximo ou longínquo.

Isso significa que uma real preocupação com o meio ambiente pressupõe uma visão sobre o futuro. Se a pessoa não tem noção de futuro ou não se preocupa com o futuro, não consegue entender o que significa a crise ecológica, pois no presente esse problema não é muito sentido. O que nos leva à hipótese de que as pessoas que, mesmo aceitando as previsões dos estudiosos do assunto, não se preocupam de fato com a crise ambiental não têm preocupações ou dúvidas com relação às condições de possibilidade de vida humana no futuro.

Eu penso que a cultura atual, onde a ênfase é dada no viver o presente, reforça em muito essa despreocupação. Pois, se o mais importante é viver o presente, porque deveriam se preocupar com o que pode acontecer de mal no futuro. Porém, o ser humano é um ser que não pode não se preocupar (ocupar-se antes do acontecimento). Assim, mesmo em uma cultura que privilegia o viver o momento presente, as pessoas pensam no futuro. Só que a "cultura do presente" traz consigo também a idéia de que, se vivermos bem o presente, as coisas no futuro se ajeitarão.
A idéia de que as coisas no futuro se ajeitarão é bastante sedutora porque nos desobriga da responsabilidade com os nossos atos e opções no presente. E ela não é sedutora somente por causa da legitimação dessa alienação psicológico- subjetiva, mas também porque se articula com uma antiga doutrina religiosa, que diz que Deus está no comando da história, que o futuro está nas mãos de Deus.

Se o futuro está nas mãos de Deus, ou se Deus está no controle da história, não há o que podemos fazer e nem com o que se preocupar. Os religiosos conservadores norteamericanos ou influenciados por eles dizem que o futuro será Armagedom, destruição total que precederia a vinda gloriosa de Jesus no final dos tempos. Portanto, a crise ecológica não seria um problema, mas quase uma solução. Por outro lado, há muitos religiosos/as "otimistas" que dizem que a história tende a um final "feliz", porque Deus, de um modo ou outro, irá conduzir a história para o "ponto ômega" (Teilhard de Chardin), ou então que o Espírito de Deus conduzirá a história e toda humanidade à sua plenitude. Há teólogos/as que afirmam que a "certeza" desse caminho da história em direção à plenitude é o outro lado da moeda da fé de que Deus se encarnou na pessoa de Jesus.

Se o futuro é negado enquanto futuro, isto é, se o futuro é apagado em nome da valorização absoluta do presente; ou se o futuro é negado enquanto um tempo aberto, cheio de possibilidades boas e más, por teologias ou filosofias da história que dizem que ela terminará necessariamente em um estado de caos ou de plenitude, a preocupação com o futuro e com a sustentabilidade das condições de vida no planeta Terra não tem sentido.

Para que a luta ecológica tenha sentido e eficácia, é preciso que o nosso discurso religioso ou político-social recupere o futuro como futuro e abandone o discurso sedutor e (teologicamente fácil) de que, por mais maldade que há no mundo, Deus, ou outra força sobre-humana, está conduzindo de modo misterioso a história para um final feliz. Assumir a ambigüidade da história e do ser humano, a possibilidade de que a história possa terminar em caos e que Deus possa "falhar" no seu plano de salvação da história, é uma condição para que a luta ecológica tenha sentido e eficácia.

* Professor de pós-graduação em Ciências da Religião. Autor de Cristianismo de Libertação: espiritualidade e luta social.
http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=38114 -07/04/2009

Eulálio está a morrer

JOÃO PEREIRA COUTINHO
Felizmente
para os leitores,
o novo livro de
Chico Buarque
não é panfleto ideológico


NUNCA FUI amante de Beckett. Literariamente falando. Tive os meus momentos, como qualquer adolescente intelectual e pretensioso: lia as peças, tão feitas de silêncio, repetição e absurdo, e depois rabiscava qualquer coisa em imitação amadora. Com os anos, só o experimentalismo do irlandês ficou como prova de vitalidade criativa e perene. O resto, precisamente, é silêncio, repetição e absurdo.
Mas um romance de Beckett, originalmente escrito em francês, ainda hoje continua a martelar os meus neurônios. O título é "Malone Meurt", qualquer coisa como "Malone está a morrer", e pretende ser a recordação palavrosa de um corpo moribundo que, nos momentos finais da vida, mergulha no passado, na conjectura e na efabulação. "Um mínimo de memória é indispensável para se viver deveras", diz o moribundo, como se o esforço de recordar fosse um gesto prometaico ante a iminência da morte.
Chico Buarque lembra Beckett no seu quarto romance, "Leite Derramado" (Companhia das Letras, R$ 36, 200 págs.). O personagem do livro, Eulálio d'Assumpção, está em cama de hospital, sofrendo agonias de uma queda provavelmente fatal. E esse purgatório hospitalar permite ao personagem de Chico Buarque recordar, conjecturar e efabular com igual "tedium vitae".
Eulálio, como o Malone de Beckett, não lamenta nada, não justifica nada, não defende nada: a sua biografia é como o seu corpo. Uma realidade envelhecida e decadente. Ele chegou ao fim da linha. O seu reino já não é deste mundo.
Mas qual será o reino de Eulálio?
Resposta: o reino da elite branca brasileira.
O trisavô desembarcou no Brasil. Foi confidente de dona Maria, a louca. E Eulálio, o centenário Eulálio, assume-se como o último representante genuíno desse clã. Filha, netos, bisnetos e tataranetos converteram-se ou perderam-se na vulgaridade dos tempos modernos. Um dos descendentes, aliás, chega mesmo a namorar uma mocinha que ostenta um "Jesus Cristo", em letras góticas, tatuado nas proximidades de uma "bela bunda". Haverá pior?
Seria fácil reduzir o personagem Eulálio a um mero clichê ideológico. Imagino até que Chico Buarque tenha sentido essa tentação: o autor nunca simpatizou com a elite branca brasileira, apesar de ser um dos seus mais genuínos produtos, e as nossas livrarias são pródigas em panfletos políticos travestidos de literatura.
Felizmente para os leitores, "Leite Derramado" não é panfleto: a complexidade psicológica de Eulálio permite introduzir zonas cinzentas que conferem uma certa grandeza dramática ao personagem.
Eulálio é esnobe, misógino, racista. Viver em edifício de apartamentos é, para ele, um pouco "promíscuo" (delicioso adjetivo). Ter um neto com feições negroides, um verdadeiro insulto aos Assumpção. Mas os valores de classe valem pouco quando outros se levantam.
Uma das passagens mais notáveis de "Leite Derramado" acontece quando Eulálio, casado com Matilde, observa a mulher em dança febril e detecta uma certa vulgaridade nela. Matilde não pertence à sua classe. E, no entanto, não existe outra mulher que Eulálio mais deseje. Essa mistura de atração e repulsa define a vida de Eulálio. E, mesmo quando a mulher desaparece sem deixar rastro, é ainda com atração e repulsa que ele vai fabricando explicações sucessivas para o inexplicável. Que o mesmo é dizer: amando e odiando, com igual intensidade, um mero fantasma.
"Leite Derramado" é a história de uma vida. Mas talvez seja mais correto afirmar que é a história de duas vidas, consumidas numa vida só: a vida de Eulálio, nascido em berço de ouro e condenado a fraldas e "camas rangedoras".
Todos os homens têm o seu destino. O destino da mortalidade, certamente. Mas também um destino marcado pelas escolhas inevitáveis do sexo e do desejo.
Por isso, não deixa de ser irônico que o último momento de saúde vivido por Eulálio seja também um momento com Matilde, ou apenas com a memória dela: uma memória que se materializa e personifica aos olhos de um velho pateticamente entumecido.
Alguém dizia que as paixões tardias são as mais intensas. Chico Buarque discorda. Em "Leite Derramado", o seu melhor livro até o momento, intensas são as paixões primevas. As paixões que nunca nos abandonam.
E que regressam sempre no final, como anjos da morte, prontas para nos levarem com elas.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Alternativas globais

Manfredo Araújo de Oliveira *

Tempos de crise são tempos de discernimento, de avaliação. Este processo na crise atual começa a produzir seus frutos. Primeiro, algumas idéias de fundo, que dificilmente eram defensáveis a pouco, começam a ser difundidas e acatadas por um público considerável. Assim, por exemplo, que a atual crise é uma crise muito radical porque põe em questão o próprio modelo de desenvolvimento capitalista e os parâmetros básicos da sociedade industrial construída na modernidade, que é o suporte deste tipo de desenvolvimento. Isto precisamente porque se trata de um modelo de desenvolvimento e de apropriação de seus frutos que sobrecarrega sobre o Sul a prosperidade do Norte; que sobrepesa para todos a prosperidade de alguns; que em favor de uns poucos esgota sistematicamente os recursos do planeta e o destrói para o momento presente e para as futuras gerações. A crise é radical porque ela põe em questão a forma de produzir, de comercializar, de consumir e os valores que marcam a civilização industrial que construímos. Muitos de seus efeitos começam a espantar a humanidade: a produção de lixo, a degradação dos solos e das águas, as doenças geradas em consequência destes processos, o desperdício enorme de matérias-prima e de energia não renovável, a destruição da biodiversidade, a exclusão social cada vez maior, etc.
O mais importante é que em segundo lugar as pessoas começam a pensar em alternativas viáveis, ou seja, muitos se recusam a apenas buscar arranjos para salvar o vigente e se põem com toda honestidade e seriedade a questão de como construir uma outra sociedade na qual possamos não apenas sobreviver todos, mas nos respeitarmos a todos. Desta forma, emerge um imperativo ético urgente: a construção coletiva de um modelo social alternativo, de uma mudança estrutural em nossa configuração societária, de um modelo de desenvolvimento realmente para todos, portanto, humanizante, solidário, democrático e austero. Neste contexto aparecem desafios e medidas que se revelam como de grande importância na medida em que possuem a capacidade de deslanchar o processo de construção do novo possível e exigido.
Antes de tudo, a convicção de que a pobreza absoluta, visualizada, sobretudo, nas formas de fome e subnutrição, é simplesmente inaceitável o que deve conduzir à firme vontade política de sua erradicação. O grande desafio aqui é a construção de uma cultura política de solidariedade. Os satisfeitos do Norte e do Sul têm muita dificuldade de entender o básico de onde se pode partir para uma verdadeira consciência de justiça social: que a mudança de modelo social é de interesse de todos, portanto, apesar das aparências também deles.
O desafio maior, contudo, está na síntese necessária entre protestos e propostas, entre as convicções éticas (os fins) e busca de mediações históricas (os meios), as medidas técnicas de natureza estrutural, que as possam efetivar em nossos contextos societários. Vale lembrar neste contexto, como exemplo destas medidas que constituem o mínimo capaz de apontar para o futuro, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 1995 que se entende como um pacto para o desenvolvimento humano e social com sete objetivos básicos: escolarização primária universal, redução do analfabetismo de adultos em 50%, atenção primária de saúde para todo o mundo, eliminação da desnutrição grave e redução da moderada em 50%, serviços de planificação familiar, água apta para o consumo, créditos a juros baixos para empresas sociais. A experiência histórica foi tornando claro para muitas pessoas que a efetivação destas metas exige transformações estruturais profundas de um contexto social que gera profunda assimetria e desigualdades.
Os cristãos de diferentes confissões, que nesta semana celebram a Páscoa, se devem sentir interpelados a atuar no mundo a serviço dos valores evangélicos que neste contexto apontam para a solidariedade com um futuro para todos.

* Doutor em Filosofia e professor da UFC. Presidente da Adital.
Adital,06/04/2009

Líderes inspiradores: Lula e Obama

Leonardo Boff *

Um dos fatores que está emperrando a saída do caos econômico-financeiro é a escassez de lideranças inspiradoras. São os momentos de crise que fazem suscitar lideres carismáticos que fornecem foco e senso de direção. O bom líder é aquele que capta os anseios profundos do momento, sabe dar-lhe uma expressão, criar-lhe uma metáfora e sobretudo sabe suscitar entusiasmo e energias para realizar coisas que a muitos pareceriam impossíveis.
Mais que tudo, o líder deve servir a uma causa que é maior que ele, é de todo um povo e agora, de toda a humanidade. Por isso, o líder não pode ser vítima dos interesses de grupos. O bom líder está continuamente desafiando a opinião pública para rejeitar soluções maquiadas e recusar saídas convencionais que só tranqüilizam mas não transformam o caos em criativo e generativo.
O encontro dos G-20 em 2 de abril em Londres superou as expectativas, pois elaborou-se um consenso global que pode ser eficaz no resgate do equilíbrio perdido. Barack Obama e Lula despontaram como líderes inspiradores. Lula, lembrando a pobreza no mundo e Obama insistindo que o resgate deve ser verde, quer dizer, não pode mais ser feito à custa da devastação da natureza como ocorria até agora.

O Presidente Lula se tem mostrado um líder corajoso em afirmar: esta crise foi provocada por homens brancos, de olhos azuis que presidiam bancos e instituições que ditavam normas para os outros mas eles mesmos não as seguiam. Hoje estão desmoralizados porque suas idéias eram truques baratos. Eles possuíam uma ideologia imperial de dominação do mundo.

Mauro Santayana, o príncipe dos analistas políticos brasileiros, nos revelou recentemente num artigo do Jornal do Brasil (26/03) o plano norteamericano de dominação do mundo que ficara oculto por mais de quarenta anos. Dizem os documentos agora revelados: "a soberania supranacional de uma elite intelectual e de banqueiros é seguramente preferível à autodeterminação nacional praticada nos séculos passados". Em nome deste propósito imperial fizeram-se intervenções econômicas, políticas, culturais e militares em quase todas as partes do mundo. É a razão de os EUA manterem 700 bases militares pelo mundo afora com 500 mil solados servindo no exterior. É o espírito de Davos, onde os senhores do mundo se reúnem anualmente não para pensar os problemas da Terra, dos pobres, das mulheres, da fome, mas das moedas, dos mercados, do crescimento e dos próprios interesses. É o mais crasso materialismo.
Este espírito montado na falsa liderança, na mentira, na arrogância e na violência, agora ruiu com o sistema que o sustentava. Obama mostra clara consciência deste fato. Lula é um dos poucos líderes mundiais que teve a coragem de dizer as verdades diante do Primeiro Ministro da Inglaterra, G. Brown, que nos visitou em março. Só espíritos medíocres que possuem dentro de si ainda o colonizador e que incondicionalmente se alinham ao poder dominante, fizeram criticas ao Presidente como se sua fala fosse expressão de racismo. Não entenderam a metáfora. Mas traíram o que escondem: sua submissão à potência mais forte.
Mas chegará o dia em que o espírito de Porto Alegre, altermundista, generoso, amante da vida e da Terra vai ver o começo da realização de seu sonho. A liderança inspiradora de Lula, de Evo Morales, de Fernando Lugo, de Rafael Correa e de Barack Obama fará com que as potencialidades do novo, arrancadas do oceano infinito da Energia de fundo que sustenta o inteiro universo e cada ser, se tornem realidade. A humanidade a Terra o merecem. Só assim elas continuarão a ter um futuro bem aventurado.

* Teólogo, filósofo e escritor. Autor de "A civilização planetária", Sextante, Rio
http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=38094 06/04/2009

"É uma época complicada para os liberais"

Otto Guevara Guth*

Pré-candidato à presidência da Costa Rica e presidente da Rede Liberal da América Latina, Otto Guevara Guth chegou ontem a Porto Alegre com a missão de reforçar o discurso antiprotecionista que deve ser a tônica da 22ª edição do Fórum da Liberdade.
Confira os principais trechos.
Zero Hora – Quais lições a crise traz para os liberais?
Otto Guevara – Muitas pessoas em todo o mundo culpam o capitalismo selvagem. É uma época complicada para os liberais. Temos de esclarecer que a culpa da crise não é do capitalismo ou do mercado livre. É do intervencionismo estatal nos EUA. Quando o Congresso americano decide obrigar as instituições a emprestar dinheiro para quem não pode pagar um financiamento imobiliário, vemos que houve muito intervencionismo. Da mesma forma, o Federal Reserve deixou as taxas de juro baixas por muito tempo.
ZH – Quais são as saídas liberais para a crise?
Guevara – No caso das montadoras de automóveis, se os donos dessas empresas não entendem a necessidade de mudança, então elas merecem quebrar. E os governos devem ser um facilitador do comércio, reduzindo gargalos e burocracia.
ZH – Essa solução também vale para os bancos?
Guevara – É mais complicado, porque não é um mercado estritamente livre. Em vez de realizar uma intervenção nos bancos, os governos poderiam identificar quais são as operações cancerosas e submetê-los a uma operação somente nessas áreas.
ZH – Como fazer a costura política para convencer o povo de que essas medidas são necessárias?Guevara – Essa pergunta coloca o dedo na ferida. É fácil para um acadêmico ter as respostas, mas é complicado para um político, que sofre pressão de vários grupos de interesse. Mas o governante deve apostar na educação da população para mostrar que a economia funciona assim, com o nascimento e a morte de setores que são superados por novas tecnologias ou processos. E isso gera mais riqueza para o povo.
*Político costa-riquenho.
Reportagem /Entrevista ZH, 06/04/2009

A dúvida

Luiz Felipr Pondé*
"O padre legal pode ser um pedófilo.
Poderia existir amor ali onde
existe pedofilia?"

O filme a "Dúvida", de John Patrick Shanley, debate uma das questões mais dramáticas da atualidade, a pedofilia. Não se trata, apenas, de um filme sobre os dramas internos a uma igreja católica em processo de modernização em meio ao Concílio Vaticano II. Trata-se sim de um dilacerante debate acerca das rotinas de nosso pensamento moral, que muitas vezes beiram o puro sonambulismo. Os personagens são um padre doce e pra frente, Philip Seymour Hoffman, a diretora e madre superiora antipática e careta, Meryl Streep, um triste aluno negro (estopim da trama), sua mãe e uma jovem freira ingênua. Estamos nos anos 60 -esse mito de revolução que fez das maiores utopias da modernidade um problema de quem transa com quem e quem fuma o que na era de aquários.

Os anos 60, que inventaram bobagens como a figura do "jovem" como agente natural do "avanço", estão representados na trama pela tensão entre o padre legal e a freira opressora. Diga-se de passagem, os tipos funcionam: o padre é alguém que inspira esperança e amor pela humanidade, a madre superiora é mesmo alguém que não temos vontade de dar um bom dia no corredor.

Tudo começa com as suspeitas da jovem freira de que algo esteja ocorrendo entre o padre legal e o menino negro -primeiro e único negro da escola. Uma série de eventos nos leva a uma cascata de dúvidas.

A freira neurótica assume como verdade que o padre mente. Numa armadilha (jogando verde sobre uma suposta transgressão dele na escola anterior de onde saiu "misteriosamente", e colhendo a certeza acerca da vergonha desse "mistério"), a freira dá o xeque-mate, e o padre se demite. Entretanto, não teremos nenhuma prova de que tenha ocorrido algo entre ele e o menino negro.

Sim, o padre legal pode ser um pedófilo. Poderia existir amor ali onde existe pedofilia? Perguntas assim apontam para um dos nossos piores pesadelos. As coisas pioram quando a mãe deixa claro para a feia madre superiora que sabe que o filho tem "uma natureza tal", e que se o padre gosta dele e o está ajudando, e se ele (seu filho) se sente bem com isso, que ela não atrapalhe as chances que seu filho negro tem de ter um diploma de uma escola que abrirá portas em seu futuro. Por que não aproveitar um amor útil? Quantas vezes amor e interesse se misturam numa forma de limites invisíveis?

Quem combate a pedofilia no filme é aquele tipo de pessoa que os preconceituosos de plantão chamariam "a repressora", e não uma ONG de direitos humanos, esta, provavelmente, contrataria qualquer padre legal para rezar missas com rock and roll. Cabe a louca, a nojenta e mal amada fazer o papel da ética.

Difícil esse mundo de adultos, não? Numa das cenas mais bonitas do filme, quando conversa com a jovem freira romântica, o padre amoroso e sincero afirma que o mal da madre superiora é optar pela virtude em detrimento do amor ("kindness", nas palavras do padre). Pergunta ele: não é nossa missão acolher e gerar amor no mundo?

A freira feia é incapaz de imaginar que ele ame o menino sem maldade porque ela não ama ninguém. O amor é quase sempre improvável. O excesso de retidão moral nela a torna cega para a beleza improvável. O excesso de amor, por outro lado, nos lançaria num caos de amor? Lennon estava errado? "All you need is love" seria mais um clichê dos anos 60?

Sendo ela feia, vê a monstruosidade em toda parte, e por isso a enxerga onde outros são enganados pela beleza imunda, assim como gatos facilmente acham ratos pela própria natureza que possuem -analogia "citada pelo roteirista" numa maravilhosa cena na qual a freira afirma "saber reconhecer" gente como o padre.

É claro que o filme não está fazendo uma ode à "pedofilia com amor". Não se apressem almas superficiais, ansiosas por "escândalos de plantão". Voltem ao sono dogmático de suas tumbas. É justamente porque a pedofilia é um pesadelo que o filme é grandioso. Poderá haver, às vezes, um conflito entre o amor e a virtude? Em qual dos dois apostar? Nas palavras da horrorosa madre superiora: "às vezes nos afastamos de Deus (amor) para melhor servi-lo".

É porque o padre é sincero em sua vocação para amar que a trama sai do banal. É porque a madre superiora é alguém aparentemente desprovida de amor, mas que realiza o que entendemos como ético no caso, que estamos diante de uma grande obra.

Pode o amor ser uma face do mal? Mas, tampouco, seria a face da ética sempre bela?
*Luiz Felipe Pondé, professor da USP, pesquisador Université Catholique de Louvain, na Bélgica.
Do jornal Folha de São Paulo, 06-04-2009 e no IHU/Unisios, 06/04/2009.

Lado a lado

LUIS FERNANDO VERISSIMO*

Encosto ou não encosto? Só o joelho. O que pode acontecer? Ela dizer “Mr. Lula, please!” Aí eu recolho o joelho, peço desculpas, “aimsórri, aimsórri” e pronto. Se eu soubesse falar inglês, explicaria. Sabe o que é, Elizabeth? Eu estava aqui pensando: quando é que, lá em Pernambuco, eu ia imaginar que um dia estaria sentado ao lado da rainha da Inglaterra? Não sei quem é que me botou aqui para tirar esta fotografia dos G-20. Não acho que tenha sido um pedido seu, “Quero o bonitinho de barba à minha esquerda”. Claro que não. Mas o fato é que estou aqui e o Barack está aí atrás em algum lugar, de pé e se perguntando o que eu tenho que ele não tem. O Sarkozy não deve nem estar aparecendo. Ficou atrás da Merkel e não vai sair na foto. E eu aqui ao seu lado, na primeira fila. Isto significa muito, viu Elizabeth?
Lá na minha terra vai ter gente se mordendo de raiva. Onde já se viu, aquele retirante nordestino que nem fala direito sentado à esquerda da Rainha da Inglaterra? Quando eu me elegi muita gente ficou horrorizada: como é que vai ser quando ele, um torneiro mecânico, tiver que nos representar num jantar oferecido, por exemplo, pela coroa inglesa? Vai ser servido na cozinha, para não dar vexame na escolha dos talheres. E aqui estou eu, sentado ao lado - com todo o respeito - da coroa inglesa em pessoa.
Se foi o protocolo que me botou aqui, ele acertou, viu Beth? Você, queira ou não, não é só a rainha dos ingleses, é, simbolicamente, a rainha de todos os loiros de olhos azuis do mundo, incluindo o Barack. De todos os bandidos que causaram esta crise e hoje nos infernizam a vida. E, de certo modo, eu sou o seu oposto. Sou uma espécie de rei republicano dos não loiros do mundo - ou pelo menos deve ter sido essa a ideia do protocolo aos nos botar lado a lado. Todos os outros chefes de estado desta fotografia seriam dispensáveis. A foto poderia ser só de nós dois e estariam todos representados.
E isto significa outra coisa também, viu, Beth? Eu não me contentei em ter nascido na miséria, no Nordeste, e quis mais. Não me contentei em ser um torneiro mecânico em São Paulo e quis mais. Não me contentei em ser um líder sindical e quis mais. Não me contentei em perder eleição atrás de eleição, insisti e acabei presidente.
Agora estou aqui, lado a lado com a Rainha da Inglaterra, num dos pontos mais altos da minha carreira, e também quero mais. Por isso, minha perna se moveu e meu joelho encostou no seu. De certa forma, o movimento da minha perna foi o passo final da caminhada que começou em Pernambuco, tantos anos atrás. Já que, ao contrário de você, Beth, não posso ficar no poder para sempre.

domingo, 5 de abril de 2009

Tarefa

A poesia de Geir Campos é
de uma clareza tal que se destaca,
no período de sua vida,
como das coisas mais sérias
que a literatura brasileira teve.
Suas palavras são
as de todo dia,
seu ritmo escorre
com facilidade,
seu significado fica na memória.
Eis os oito versos de seu poema

Tarefa:

"Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis...
E quando em mitos a noção pulsar
– do amargo e injusto e falso por mudar,
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano".
(Citado no texto de Antonio Olinto: Poetas de 45, Jornal do Brasil, 05/04/2009)

Lições sagradas de Acã

Rubem Alves*
O povo de Israel, depois de amargar quarenta anos andando por um deserto seco, aproximava-se da Terra Prometida, essa mesma que hoje é motivo de matanças que não têm fim. Acabavam de atravessar o rio Jordão... Havia gente que nunca vira um rio, água correndo sem parar...
O exército israelense avançava expulsando os moradores do local sem dó nem piedade e se apossando de suas terras. Não usavam foguetes e aviões, como agora, mas o resultado era o mesmo.
As terras eram maravilhosas e verdejantes. Segundo o escritor sagrado que as descreveu poeticamente, elas manavam leite, mel e cachos de uvas que requeriam dois homens para serem carregados. (certamente o entusiasmo do narrador o levou a exagerar um pouco o tamanho dos cachos de uva. Mas isso não importa...)
Tinham agora um povinho insignificante pela frente que poderia ser derrotado com meio exército. Josué, general líder, comandava tranqüilo. Mas as coisas não aconteceram como esperadas e o povinho fraquinho deu um surra humilhante no exército de Iaweh.
Josué foi se queixar diretamente a Deus. E Iaweh lhe disse: (naqueles tempos Deus falava diretamente com os homens. Não sei porque isso não acontece mais. Porque, se acontecesse, não haveria dúvidas sobre qual é a vontade de Deus, tal como aconteceu nesse edificante episódio das Escrituras inspiradas, relatado no capítulo 7 do livro de Josué. Quem se comunica diretamente com Deus não tem dúvidas, só tem certezas. Como acontece com o papa).
Iaweh lhe disse: “Vocês foram derrotados porque houve um homem que fez coisa que eu proibira. Enquanto vocês não se purificarem desse homem vocês serão derrotados.”
Josué, sabendo que com Deus não se brinca, acordou de madrugada, reuniu as doze tribos e delas, por indicação divina, escolheu a tribo de Judá, e da tribo de Judá escolheu a clã de Zerah, e da clã de Zerah a família de Zabdi, e da família de Zabdi um homem chamado Acã, que confessou: ele fizera a coisa proibida. Na batalha se apossara de uma capa de veludo, de algumas moedas de prata e uma barra de ouro.
Josué, então, tomou Acã, “a prata, a capa e a barra de ouro, junto com seus filhos e filhas, seus bois, suas mulas, suas ovelhas, sua tenda e tudo quanto tinha, e ele e todo o povo de Israel os levaram ao vale de Acor”. Josué então lhe disse: “Tu nos trouxeste uma desgraça. Agora o Senhor passará a desgraça para ti...”
Então os israelitas seus irmãos os apedrejaram até a morte. E as pedras formaram uma pilha que lá está até o dia de hoje. “Assim o Senhor apagou o furor da sua ira.” (Josué 7. 25-26). Palavra do Senhor. Graças a Deus.
Como é bem sabido, a Bíblia é livro inspirado, tudo o que nela está escrito foi ditado por Deus para a edificação dos fiéis que devem lê-la reverentemente.
Fico então a pensar na lição divina que um pregador piedoso retiraria desse relato.
Sobre a psicologia divina, que Iahwe, vez por outra, é possuído por um surto de furor?
Que para que o seu furor se apague é preciso que os pecadores sejam apedrejados?
Uma lição franciscana de que, se os animais devem ser apedrejados é porque eles também pecam; se pecam é porque têm alma; se têm alma são nossos irmãos?
Que Deus se mete no meio de guerras justas, matanças de pessoas inocentes para proteger seu povo favorito?
Por favor, não pensem que sou um incrédulo herege! Sou apenas alguém que tenta entender os misteriosos desígnios da divindade para que não aconteça comigo o que aconteceu com Acã...

Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1627929&area=2220&authent=0BCC8B229CEA920BEE8B009CC89229 -Correio Popular/Campinas - 05/04/2009

sábado, 4 de abril de 2009

"Comunicar é conviver"

Dominique Wolton*
Dominique Wolton, óculos redondos, rosto de professor Cosinus [personagem da história em quadrinhos francesa Tintin], mais sorridente e menos iluminado, foi entrevistado em um café perto da Porte d’Auteuil. Apaixonado e determinado, lança suas reflexões como outros disparam uma metralhadora, com rajadas e balas reais. Sua palavra é viva, segura, de cadência rápida. Sobre a mesa, seu último livro. Apressado, evoca suas pesquisas, alfineta os jornalistas e políticos que “não escutam os homens de ciência...”, passa de um assunto a outro, desenvolve um pensamento que nem sempre é fácil de compreender.

Nascido em 1947, em Duala, Camarões, é um dos pioneiros na França a se debruçar sobre a “comunicação”. Não a “.com”, mas esta atitude que os homens têm para entrar em relação. “Comunicar é dirigir-se a um outro que não nos compreende porque não é nós mesmos. É construir uma relação com o outro sabendo que ele é um outro. Comunicar, no fundo, é aprender a conviver”.

Uma preocupação cujas raízes, confessa, remontam à sua infância africana. “No Camarões, quando menino, fiz a experiência, sem o saber, da alteridade. E com ela, da dificuldade de se compreender”. Uma questão que ele retoma sob a direção de Alain Touraine no EHESS no começo dos anos 1970, antes de entrar no CNRS, em 1979. Dois livros o fazem sair do anonimato: Le Spectateur engagé, um livro de entrevistas com Raymond Aron, e La Folle du logis, um ensaio sobre a televisão que rapidamente se transformou na bíblia de todos os estudantes em comunicação e jornalismo.

“Quanto mais as tecnologias se aperfeiçoam, mais lenta se torna a comunicação humana”
Com o passar dos anos, a partir dessas obras e desses trabalhos, Dominique Wolton construiu seu objeto de estudo: “Os cientistas criaram as ciências humanas, as ciências naturais... mas ainda não as ciências da comunicação. Ora, esse terreno de estudo é fundamental em nossa sociedade”. O que comunicar? Como podemos nos compreender? O que sabemos do “receptor”? São questões urgentes e candentes em tempos de meios de comunicação de massa. “Quanto mais as tecnologias se aperfeiçoam, tanto mais a circulação da informação é rápida e tanto mais lenta é a comunicação humana.”

Os progressos vão mudar esta situação? Não, diz ele. “Os progressos da técnica, longe de gerar uma aldeia global, como pensava McLuhan, nos mergulham na torre de Babel. A multiplicação dos canais de informação, como o mostra a internet, favorece comunidades e redes. Permanecemos entre nós”. Por essa razão, Dominique Wolton é um advogado incansável das grandes mídias generalistas: “Elas exercem um papel capital em nossa sociedade. Seu desafio, que é o desafio da comunicação, é colossal: como se dirigir a todos quando cada um é diferente?”.
A televisão criadora de vínculo social

Longe de desprezar a televisão, ele foi um dos primeiros a definir seu papel na cidade: criadora de vínculo social. “Como a imprensa generalista, ela permite ao cidadão sair de seus interesses pessoais e ir ao encontro da coletividade.” O lugar do leitor, do ouvinte, do telespectador é central nessas pesquisas. E ele é hoje um dos poucos a pensar sinceramente que os telespectadores são mais inteligentes e menos influenciáveis do que se acredita.

“O telespectador não é ingênuo. Ele não adere incondicionalmente e sem distância ao que lhe é mostrado: não é porque ele assiste que ele adere! Como em todas as indústrias da cultura, não é a demanda que cria a oferta, mas a oferta que cria a demanda.”

Uma afirmação feliz e rara que colide com o discurso pessimista dominante. Tantos temas abordados com brio em seu último livro. Se Dominique Wolton se inflama quando fala sobre as mídias, o pesquisador é mais reservado quando fala de si.

Entrevistador de Jean-Marie Lustiger em Le Choix de Dieu, o sociólogo não esconde que é católico. “Uma confissão que não é simples no mundo científico. Pouco me importa. Eu o sou, é tudo!” Ainda uma aposta de comunicação, de convivência.
*Dominique Wolton, pesquisador do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa)
A reportagem é de Laurent Larcher e publicada no jornal francês La Croix, 27-03-2009. A tradução é do Cepat.
Postado no IHU/UNISINOS, 04/04/2009

A crise que estamos esquecendo

Lya Luft*
"Todos os indivíduos,
não importa a conta bancária,
profissão ou cor dos olhos,
podem reverter esta outra crise:
a do desrespeito geral
que provoca violência física
ou grosseria verbal em casa,
no trabalho,
no trânsito"

O tema do momento é a crise financeira global. Eu aqui falo de outra, que atinge a todos nós, mas especialmente jovens e crianças: a violência contra professores e a grosseria no convívio em casa. Duas pontas da nossa sociedade se unem para produzir isso: falta de autoridade amorosa dos pais (e professores) e péssimo exemplo de autoridades e figuras públicas.

Pais não sabem como resolver a má-criação dos pequenos e a insolência dos maiores. Crianças xingam os adultos, chutam a babá, a psicóloga, a pediatra. Adolescentes chegam de tromba junto do carro em que os aguardam pai ou mãe: entram sem olhar aquele que nem vira o rosto para eles. Cumprimento, sorriso, beijo? Nem pensar. Como será esse convívio na intimidade? Como funciona a comunicação entre pais e filhos? Nunca será idílica, isso é normal: crescer é também contestar. Mas poderíamos mudar as regras desse jogo: junto com afeto, deveriam vir regras, punições e recompensas. Que tal um pouco de carinho e respeito, de parte a parte? Para serem respeitados, pai e mãe devem impor alguma autoridade, fundamento da segurança dos filhos neste mundo difícil, marcando seus futuros relacionamentos pessoais e profissionais. Mal-amados, mal-ensinados, jovens abrem caminho às cotoveladas e aos pontapés.

Mal pagos e pouco valorizados, professores se encolhem, permitindo abusos inimagináveis alguns anos atrás. Uma adolescente empurra a professora, que bate a cabeça na parede e sofre uma concussão. Um menininho chama a professora de "vadia", em aula. Professores levam xingações de pais e alunos, além de agressões físicas, cuspidas, facadas, empurrões. Cresce o número de mestres que desistem da profissão: pudera. Em escolas e universidades, estudantes falam alto, usam o celular, entram e saem da sala enquanto alguém trabalha para o bem desses que o tratam como um funcionário subalterno. Onde aprenderam isso, se não, em primeira instância, em casa? O que aconteceu conosco? Que trogloditas somos – e produzimos –, que maltrapilhos emocionais estamos nos tornando, como preparamos a nova geração para a vida real, que não é benevolente nem dobra sua espinha aos nossos gritos? Obviamente não é assim por toda parte, nem os pais e mestres são responsáveis por tudo isso, mas é urgente parar para pensar.

Na outra ponta, temos o espetáculo deprimente dos escândalos públicos e da impunidade reinante. Um Senado que não tem lugar para seus milhares de funcionários usarem computador ao mesmo tempo, e nem sabia quantos diretores tinha: 180 ou trinta? Autoridades que incitam ao preconceito racial e ao ódio de classes? Governos bons são caluniados, os piores são prestigiados. Não cedemos ao adversário nem o bem que ele faz: que importa o bem, se queremos o poder? Guerra civil nas ruas, escolas e hospitais precários, instituições moralmente falidas, famílias desorientadas, moradias sub-humanas, prisões onde não criaríamos porcos. Que profunda e triste impressão, sobretudo nos mais simples e desinformados e naqueles que ainda estão em formação. Jovens e adultos reagem a isso com agressividade ou alienação em todos os níveis de relacionamento. O tema "violência em casa e na escola" começa a ser tratado em congressos, seminários, entre psicólogos e educadores. Não vi ainda ações eficazes.

Sem moralismo (diferente de moralidade) nem discursos pomposos ou populistas, pode-se mudar uma situação que se alastra – ou vamos adoecer disso que nos enoja. Quase todos os países foram responsáveis pela gravíssima crise financeira mundial. Todos os indivíduos, não importa a conta bancária, profissão ou cor dos olhos, podem reverter esta outra crise: a do desrespeito geral que provoca violência física ou grosseria verbal em casa, no trabalho, no trânsito. Cada um de nós pode escolher entre ignorar e transformar. Melhor promover a sério e urgentemente uma nova moralidade, ou fingimos nada ver, e nos abancamos em definitivo na pocilga.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Você tem fome de quê?

Para o filósofo suíço Alain de Botton,
o pior tipo de ambição
é o baseado no que os outros pensam.
O segredo do sucesso é um só:
saber o que você quer

Para falar sobre ambição, a revista foi ouvir um dos principais pensadores da atualidade, o filósofo suíço, Alain de Botton, de 37 anos. Alain ficou famoso lá fora ao trazer a reflexão de filósofos, artistas e pensadores antigos para os problemas cotidianos. No Brasil, ele tem três livros publicados (de um total de sete já escritos) pela Editora Rocco: As Consolações da Filosofia, Como Proust Pode Mudar Sua Vida e mais recentemente Desejo de Status. De Londres, onde vive, Alain deu a seguinte entrevista, por email, para a VOCÊ S/A.

O desejo por status é o mesmo que ambição?
Não. A ambição diz respeito às nossas próprias vontades: ter mais dinheiro, ser mais bonito ou construir uma carreira excepcional. Por exemplo, um executivo cuja função é reestruturar uma empresa faz seu trabalho guiado pelo desejo pessoal de colocar suas competências à prova, sem necessariamente se importar com o que as pessoas vão achar disso. A busca por status é uma coisa diferente, pois tem a ver com aquele tipo de ambição orientada pela opinião dos outros.

Algumas pesquisas que medem o clima de trabalho nas empresas mostra que freqüentemente as pessoas se sentem angustiadas ou ansiosas com relação a carreira. Isso tem a ver também com a ambição de cada um?
Eu acredito que sim. A competição e a ansiedade são inerentes ao capitalismo. A essência do negócio é a competição e não há competição sem ansiedade. Nos países em que a economia é ruim as pessoas não são tão ansiosas, pois a percepção é de que não há perspectivas de crescimento. Por exemplo, os trabalhadores na França são bem menos ansiosos do que os empregados americanos. Na França, eles não estão tão preocupados em perder o emprego e nem em subir na carreira e ganhar mais dinheiro. Nos Estados Unidos, há mais oportunidades e isso gera muita expectativa nas pessoas que sonham em melhorar de vida.

Ser mais ou menos ambicioso, então, diz respeito a quantidade de oportunidades percebidas?
Minha tese é que a ambição é maior onde as oportunidades são maiores. Quando as pessoas sentem que podem melhorar de vida elas se tornam muito ambiciosas. Por isso, nos Estados Unidos as pessoas sonham em crescer, ser reconhecidas e ter mais dinheiro. É o tal do sonho americano. Lá, elas vêem chances reais de ascender social e profissionalmente.

Há estudos que mostram que há mais pessoas ambiciosas vindas da classe média. Isso faz sentido para você?
Não conheço tais estudos, mas tendo a acreditar nessa conclusão. As pessoas que vem da classe média tem uma visão muito clara da riqueza e da pobreza. Sendo assim, elas têm noção do que representa subir e o que significa cair um nível na escala social.

A ambição muda de geração para geração?
Não acredito que a ambição das pessoas tenha mudado ao longo das últimas décadas. A idéia de ambição que temos hoje foi consolidada após a Revolução Francesa, de 1789. Crescer significa acumular riqueza. Nossas sociedades, salvo algumas exceções, são capitalistas, empreendedoras e essencialmente burguesas. Os heróis são profissionais bem-sucedidos.
Reportagem de José Eduardo Costa - Revista Você s/a - 03/04/2009

Orientadores vocacionais deveriam procurar outra profissão

Lucy Kellaway
Quando eu tinha 16 anos, uma orientadora de carreira foi até a minha escola. Ela me passou vários testes e depois me disse para evitar qualquer profissão que envolvesse letras. Ela disse que eu me daria melhor fazendo algo técnico; no entanto, se eu quisesse mesmo seguir uma carreira literária, eu poderia fazer biblioteconomia.

Aquilo não me interessou- principalmente porque meu pai era um bibliotecário- e assim, com o desprezo de uma adolescente de 16 anos, eu a despachei, com seus testes patéticos e suas recomendações ainda mais patéticas. Que idiota, eu pensei.

Alain de Botton teve recentemente uma experiência parecida e chegou a uma conclusão similar. Ao realizar pesquisas para seu novo livro, "The Pleasures and Sorrows of Work" (Os Prazeres e as Aflições do Trabalho), o filósofo famoso por popularizar a filosofia, submeteu-se à avaliação de um orientador de carreiras, que disse que ele se daria bem em cargos administrativos intermediários, sugerindo então as áreas de diagnósticos médicos- ou lazer.

Botton também achou aquilo tudo patético. Na verdade, ele não só desprezou o conselho e o orientador- cujo escritório aparentemente cheirava a repolho-, como também condenou todo o setor baseado nisso. Ele afirma que, como passamos a maior parte de nossas vidas trabalhando, é extraordinário o fato de tão pouco esforço ser dispensado para garantir que acabemos exercendo uma profissão adequada.

Agora que não tenho mais 16 anos, tenho uma postura muito mais filosófica sobre isso do que esse filósofo. Os orientadores vocacionais não são culpados dos erros que cometem. Isso acontece porque a simples ideia de orientar a carreira é um caso perdido. Mesmo os melhores testes do mundo não funcionam, uma vez que não existe uma fórmula para fazer uma pessoa escolher a carreira mais adequada para ela. Encontrar o emprego certo é algo tão subjetivo quanto encontrar a esposa certa. Se o nosso trabalho é ou não mais adequado para nós depende não de nossas atitudes- a maior parte das pessoas com um nível de ensino razoável é capaz de exercer a maioria das atribuições de um funcionário de colarinho branco-, e sim do fato de nos encaixarmos ou não, o que é algo que não temos como saber enquanto não tentarmos.

A consultoria a carreiras não só é algo sem sentido ao nos dizer que carreira devemos seguir, como também não consegue nos dizer qual é a carreira errada. Minha consultora disse que eu deveria evitar o mundo das letras com base na suposição perfeitamente lógica de que a velocidade com que eu lia um texto era dolorosamente lenta, minha pronúncia era terrível e eu confundia as palavras. No entanto, não ser claramente bom em alguma coisa não significa que você não pode fazer daquilo uma carreira. Você precisa apenas ter vontade suficiente para ser bem sucedido.

Botton afirma que, na ausência de conselhos melhores, a maioria dos adultos acaba presa em carreiras escolhidas por eles mesmos do alto da "experiência" de seus 16 anos. Isso não faz sentido. A maioria das pessoas que não gosta das carreiras que escolheram, não ficam nelas a vida inteira- elas tentam algo diferente. O processo é como namorar alguém. Se não dá certo, você parte para outra.

Em todo caso, eu acho que os jovens de 16 anos podem muito bem julgar o que vai ser bom para eles. De vez em quando participo de sessões de orientação profissional na escola de meus filhos e converso com adolescentes sobre jornalismo. A primeira vez que fiz isso, fiquei chocada com a aparente estupidez dos alunos. Perguntei a eles por que queriam ser jornalistas e eles deram de ombros e disseram que gostavam da ideia. Mas então eu percebi que, como eles não têm noção de como é a vida de um trabalhador, eles baseiam suas escolhas na observação de pessoas que conhecem e têm determinadas carreiras, e suponho que eles conseguem se imaginar sendo aquelas pessoas. Para mim, este é o melhor teste que existe. Acabei escolhendo jornalismo não porque eu queria escrever, mas sim porque amigos meus eram jornalistas e eu queria ser como eles.

Os adolescentes modernos são muito mais espertos em relação às carreiras que pretendem seguir, do que a maioria dos meus colegas de escola quando tinha 16 anos. Estávamos muito ocupados sendo rebeldes para pensar claramente. Meu marido, filho de um membro do Tory (antigo partido conservador do Reino Unido que reunia a aristocracia britânica), passou o fim da adolescência e começo dos 20 querendo ser um revolucionário marxista. Minha primeira escolha errada foi no setor bancário- algo igualmente chocante aos olhos de meus pais, de tendência esquerdista, e uma escolha igualmente ruim para mim.

Será que é por isso que Botton resolveu ser filósofo? Seu pai era um financista suíço muito rico. O único filósofo entre meus amigos é filho de um magnata do setor naval e eu me pergunto se não existe um padrão aí. Se seu pai dedicou sua vida a aumentar sua riqueza, certamente a coisa mais rebelde que alguém pode fazer é não só descobrir a falta de significado do dinheiro, como também escolher uma carreira que busca encontrar o significado das coisas.

Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada quinzenalmente na editoria de Carreiras.
Reportagem do Valor Econômico, 03/04/2009

"O Brasil é muito mais que Lula"

Entrevista:
Jorge Marirrodriga*
Ontem, ele concedeu a seguinte entrevista a Zero Hora:
Zero Hora – Por que Lula conquistou tanta popularidade no Exterior? O mérito é mais de sua trajetória pessoal, de operário que chegou ao topo, ou das realizações de seu governo?
Jorge Marirrodriga – O mérito está em uma combinação de ambas as coisas, unidas à imagem de um país sério que segue uma política de Estado determinada, seja qual for a pessoa que esteja no Planalto. Sua trajetória pessoal levou aos meios a história do “sonho brasileiro” concretizado. Mas esse efeito teria se dissipado se não fosse acompanhado de uma política moderada nos seus meios e ambiciosa nos seus fins. E claro, de um indiscutível carisma pessoal.
ZH – O fato de que o outro líder regional seja o venezuelano Hugo Chávez, muito mais polêmico, ajudou Lula a se destacar como uma liderança segura?
Marirrodriga – Sem dúvida. A moderação e o realismo de Lula se destacaram muito mais ao se comparar com a incontinência messiânica do líder venezuelano. O projeto de Lula não só para o Brasil, mas também o papel que a América do Sul deve representar no mundo parece muito mais realizável e desejável, comparado ao socialismo do século 21 de Chávez.
ZH – Mesmo que Lula seja duramente criticado internamente por comentários politicamente incorretos, como o de culpar as pessoas “brancas de olhos azuis” pela crise, o respeito que conquistou em outros país parece que não se abala. Por quê?
Marirrodriga – É normal que os políticos tenham pior imagem em casa que fora. Acontece com todos. E Lula joga com isso a favor. É verdade que existem declarações de Lula que se tivessem sido feitas por Chávez levantariam críticas, mas acontece que Lula fala também com feitos concretos que lhe dão crédito internacional.
ZH – O próximo presidente brasileiro conservará o espaço que o país ganhou como negociador internacional, ou é algo que veio e vai com Lula?
Marirrodriga – Diria que se consolidou uma trajetória. Decisões erradas do próximo presidente brasileiro poderiam colocar a perder esse crédito. Mas não parece provável. Aos olhos do mundo, Lula é o Brasil, mas o Brasil é muito mais que Lula.
*Jorge Marirrodriga, jornalista e Editor global do jornal espanhol El País. Coordena em Madri a edição das notícias internacionais que o jornal El País publica fora da Espanha, a chamada edição global (versão voltada ao público internacional.
Reportagem de RODRIGO CAVALHEIRO Madri/Especial
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2463395.xml&template=3898.dwt&edition=12031&section=1015 -ZH, 03/04/2009

As boas-maneiras na Liturgia faliram..

1) Quarta-feira de cinzas.
Os potes de vidro com as cinzas estão sobre o altar. O padre encaminha a oração da bênção. Faltou a água para abençoar. Sem a menor cerimônia o padre puxa as galhetas onde estão o vinho e a água para o ofertório e grosseiramente pega a galheta com água, abre, coloca o dedão dentro da galheta e asperge as cinzas... A água que ficou na galheta será misturada ao vinho para o ofertório...
2) Hora de quebrar a hóstia.
Não houve dúvidas, o padre coloca a hóstia grande sobre o corporal toma a patena e com as bordas da mesma corta a hóstia em quatro partes. Lembrou-me a carretilha que as mulheres usam para cortar a massa para os pastéis...
3) Purificação das mãos.
Não tem no altar a bacia para a purificação. O padre toma de uma galheta e lava os dedos sobre uma folhagem que está embelezando o altar...
4) O sanguíneo e o suor.
O suor em gotas desce pelo rosto do celebrante. Pega o sanguíneo que está cobrindo o cálice, passa na testa, e recoloca em cima do cálice.

O Brasil ´cantando´ de rico

– Você não acha chique o Brasil emprestar dinheiro para o FMI?
Não é uma coisa soberana? – indagou Lula. –
Agora não precisamos.
Mas não tem soberba.
Porque,
se algum dia precisar
e o Fundo for a única fonte,
nós vamos atrás.
(Lula, no G-20 em Londres, 02/04/2009)

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Por que você precisa dormir?

Muitos gestores se orgulham de ter apenas cinco ou seis horas de sono por noite. Não deveriam. Isso compromete sua capacidade.
Se integra a turma que se orgulha de dormir apenas cinco ou seis horas por noite, atenção: você vem reduzindo suas possibilidades de sucesso sem saber. Dormir não é um luxo, como diz James O’Brien, diretor médico do Boston SleepCare Center, situado em Waltham, Massachusetts, nos Estados Unidos. “É uma necessidade do corpo humano para que tenha um nível ótimo de funcionamento.”
Quando você dorme, seu cérebro cataloga as experiências do dia que terminou, afia sua memória e faz a regulação hormonal de sua energia, disposição e capacidade mental. Para completar todas essas funções, o cérebro precisa de sete a oito horas diárias de sono. Então, se dormir menos do queisso, você comprometerá sua concentração, criatividade, produtividade e –claro– o humor.
Como o sono funciona
Para entender por que o número certo de horas de sono é tão importante para seu desempenho, vale a pena saber como o sono funciona.
O sono saudável se divide em ciclos de quatro estágios. Nos estágios 1 e 2, vamos ficando mais e mais desconectados do mundo à medida que avançamos, até entrarmos no sono profundo que ocorre no estágio 3. No sono profundo, tanto a atividade do cérebro como a do corpo caem ao ponto mais baixo do ciclo e o sangue é redirecionado do cérebro para os músculos.
O quarto e último estágio é marcado pelo rápido movimento ocular (REM, na sigla em inglês), sua característica definidora. É quando nosso cérebro fica especialmente ativo, até mais do que quando estamos acordados. Os sonhos acontecem nesse estágio.
Em um sono de noite inteira, nós experimentamos três ou quatro desses ciclos, cada um durando de 60 a 90 minutos.
O trabalho do sono
O trabalho restaurador do sono acontece durante o estágio 3, de sono profundo, e o 4, REM. O sono profundo é crucial para a renovação física, regulação hormonal e crescimento. Sem ele, ficamos mais sujeitos a doenças, depressão e ganho de peso. De acordo com a pesquisa Sleep in America 2008,levantamento sobre o sono conduzido nos Estados Unidos pela National Sleep Foundation, as pessoas que dormem menos de seis horas por noite de segunda a sexta-feira são mais propensas à obesidade do que as que dormem oito horas ou mais (41% ante 28%).
No sono REM, o cérebro processa e sintetiza memórias e emoções, atividade essencial ao aprendizado e ao raciocínio. A falta de sono REM resulta em lentidão no processamento cognitivo e social, problemas de memória e dificuldade de concentração. A pesquisa Sleep in America 2008 revelou que quem dorme menos de seis horas por noite na semana útil tem o dobro de chance de mostrar dificuldade de concentração na comparação com os colegas mais descansados.
Déficit de sono, déficit de desempenho
Gerenciar tarefas complexas e relacionamentos complicados –corpo e alma do trabalho de qualquer gestor– fica muito mais difícil quando o sono REM está comprometido. E, quando as horas de sono são reduzidas, é o sono REM o mais comprometido.
Há duas razões para isso:
1. Quando confrontado com privação de sono, nosso cérebro opta pelo sono leve em detrimento do sono REM.
2. Os ciclos de sono madrugada adentro tendem a ter períodos REM mais longos que os do início da noite. Portanto, quando você completa apenas um ou dois ciclos de sono no início da noite, em vez de três ou quatro, seu sono REM é afetado desproporcionalmente.
Ou seja, se, quando seu cérebro está faminto de sono REM, concentrar-se numa única atividade que seja já é altamente desafiador, imagine o que ocorre no trabalho multitarefas do dia a dia do gestor. Além disso, o déficit de sono REM atrapalha bastante a percepção de nuances em discussões enegociações.
“Quando você ouve uma pessoa falar tentando apreender tanto a principal mensagem enviada quanto o subtexto que a acompanha, seu cérebro está executando múltiplas tarefas em vários níveis, atividade que requer muitos cavalos de força”, afirma Gandis Mazeika, que comanda o Sound Sleep Health de Seattle. “Se lhe falta sono, é muito duro fazer isso.”
Como se não bastasse, uma pesquisa recente mostrou que privação de sono limita a capacidade de tomar decisões.
Como otimizar seu sono
Diante das demandas a que os gestores precisam atender hoje –uma das quais é trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana–, uma noite inteira de sono é muitas vezes um sonho impossível.
Mas há algumas medidas que podem melhorar a qualidade do sono, independentemente da quantidade:
• Evitar cafeína. Corte café, chá (preto ou verde) e soda idealmente dez horas antes de ir para cama. E chocolate também. Comprometa-se com o ato de dormir.
• Cair no sono rapidamente. Um medicamento pode ajudar nisso, mas tenha cuidado, porque alguns fazem você dormir sete a oito horas mesmo. Se não puder despender esse tempo, não tome. Certos antidepressivos também ajudam a cair no sono, mas, por outro lado, atrapalham a fase REM. Remédios naturais ou meditação meia hora antes de se deitar são abordagens bem mais interessantes.
• Escurecer o quarto completamente. Seu cérebro produz um hormônio chamado melatonina que, ao “sentir” que está escuro, prepara você para dormir. Então, desligue a TV e o computador, feche as cortinas, cubra o relógio. Use máscara para os olhos, se for dormir durante o dia. Se o cérebroperceber alguma luz, o sono não será o mesmo.
• Dormir em um ambiente tranquilo. Garanta que o quarto está silencioso e que não conseguirá ouvir seu celular. Não economize na qualidade de seu colchão e não deixe de trocá-lo cada oito ou dez anos.
Como explorar o poder dos cochilos
Cochilos durante o dia podem ser de grande ajuda. Sempre que possível, tranque a porta do escritório e tente tirar uma soneca de 10 a 20 minutos. Será revigorante, bem mais que uma xícara de café, porque você atingirá o estágio 2 de sono. No entanto, não tente alongar os cochilos; se demorarem mais que 20 minutos, você se sentirá pior que antes e levará pelo menos outros 30 minutos para reengrenar.

A reportagem é de Anne Field, colaboradora da Harvard Management Update.HSM Management Update nº 63 - Janeiro 2009

Fantasmas em Londres

Mauro Santayana

Hoje, em Londres, estará pairando sobre a reunião do G-20, com sua barba, cabelos longos, leve e sarcástico sorriso, o espírito de Karl Marx. Provavelmente o acompanharão, além de Engels e Andrew Jackson, fantasmas mais antigos, como os de Babeuf e Sieyiès. Ontem e anteontem, nas manifestações populares na City e diante do Palácio de Buckingham, poderiam estar presentes outras assombrações, como as de Girolamo Savanarola e do gladiador Spartacus.
Os principais líderes do mundo não irão negociar entre eles mesmos: terão que negociar com esses incômodos visionários da História, cujas ideias continuam vigentes. Mais uma vez a ordem de domínio tentará um acordo com o passado, porque, sem esse acordo, tudo pode ocorrer no presente. Como disse ontem Lula – depois de almoçar com Sarkozy – os líderes do G-20 não devem encontrar-se para marcar nova reunião. Tem razão. O próximo encontro pode ser tardio. A hora reclama decisões rápidas.
Cúmplices da ladroagem, alguns economistas ameaçam com maior instabilidade do sistema, se o Estado voltar a regulamentar as atividades financeiras e econômicas. Defendem a permanência dos paraísos fiscais e a "liberdade de mercado", atribuindo a crise à conjuntura. Outros acenam com as ligeiras variações dos índices de produção industrial no mercado americano, em razão da ajuda do governo ao sistema financeiro e à indústria automobilística. São como os enfermeiros que tranquilizam os parentes, quando a febre do paciente se reduz em um ou dois graus, durante o processo de hipotermia que antecede o óbito. Não deixa, no entanto, de ser divertido ouvi-los, porque se referem a tudo, menos à roubalheira de seus empregadores e consulentes.
Obama está contido pela resistência de Wall Street, mas a razão o aconselha a ir mais longe do que propõem os franceses e alemães. O problema surgiu em decorrência de uma crise ética mundial que se armou a partir da "deregulation" de Reagan. Os executivos dos bancos receberam cartas de privateers: não só eram autorizados a saquear, mediante as transações eletrônicas e o mercado derivativo, como lhes era permitido reocupar os refúgios dos piratas do século 17, com os paraísos fiscais antilhanos – e outros – menos expostos do que o valhacouto suíço.
Os paraísos fiscais constituem o fulcro da crise. Conforme o eminente contabilista inglês Richard Murphy, o desmantelamento dessas tocas é absolutamente necessário. Não se trata de regulamentá-los, mas de impedir que existam, e continuem sonegando impostos. Murphy registrou em seu blog (www.taxresearch.org.uk/blog) a reação dos grandes empresários britânicos contra a posição de Brown sobre os paraísos fiscais. As grandes indústrias multinacionais também os utilizam para sonegar impostos e outros atos criminosos. Importante é a conclusão de todos, embora cautelosamente exposta por Obama: o problema é político e só pode ser resolvido pelo Estado. As manifestações de Londres e de outras cidades mostram que o sistema financeiro e o complexo industrial militar internacional serão compelidos a aceitar as novas regras. Eles dispõem do poder econômico e da força política dele derivada – mas os povos começam a entender que a supremacia do Estado não pode ser contestada pelas corporações apátridas.
A única forma de agir em defesa do povo e do Estado é fiscalizar os negócios, mediante exame contábil. Foi exatamente por pensar assim que Itamar quis nomear o professor Lopes de Sá para uma diretoria do Banco Central, e seus diretores se opuseram, com o apoio do Ministério da Fazenda. Entende-se: para Lopes de Sá, em recente entrevista, "não basta regulamentar os mercados financeiros. Grandes bancos e consultores, alteraram normas contabilísticas, produziram regulamentos que os países adotaram como leis". Ele seria capaz de abrir a caixa-preta (até hoje fechada) daquela instituição.
Richard Murphy lembra a necessidade de um novo Glass-Steagal Act que, no início do governo Roosevelt, proibiu os bancos comerciais de atuarem como bancos de investimentos. No Brasil, importantes bancos comerciais são acionistas de grande parte das maiores empresas industriais e mercantis.
Jornal do Brasil - Quinta-feira, 02 de Abril de 2009 - 00:00
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/04/02/temadodia/coisas_da_politica_fantasmas_em_londres.asp

Por que ficar na Igreja?

Timothy Radcliffe*

É um momento embaraçoso para quem é católico. No Vaticano, houve erros de comunicação, falta de consulta, declarações com palavras mal escolhidas que provocaram reações violentas na imprensa e intervenções de um certo vigor por parte de dirigentes internacionais. Tudo isso suscitou aflição e escândalo em muitos católicos, dentre os quais bispos, e provocou danos à reputação da Igreja. Algumas pessoas até se questionaram sobre como puderam continuar pertencendo à Igreja.
Permanecemos porque somos discípulos de Jesus. Crer em Jesus não significa adotar uma espiritualidade privada ou um código moral. É aceitar pertencer à sua comunidade. Aqueles que ele chamou a segui-lo caminham juntos. Segundo um velho ditado latino, "Unus christianus, nullus christianus": um cristão isolado não é um cristão.
Mas porque eu deveria permanecer membro dessa Igreja? Por que não poderia me unir a uma outra comunidade cristã cujas posições oficiais ou cujo modo de agir são menos embaraçosos? Com isso, tocamos a essência de um modo católico de entender a Igreja. Desde a origem, Jesus chamou à sua comunidade os santos e os pecadores, os sábios e os tolos. Ele disse: "Não vim chamar os justos, mas sim os pecadores" (Mateus 9, 13). E continua fazendo-o, senão não haveria lugar para uma pessoa como eu. Uma comunidade admirável de pessoas maravilhosas e virtuosas, que nunca cometessem erros, não seria um sinal do Reino de Deus.
Eu nunca poderia deixar a Igreja católica porque creio que Jesus nos chama a viver juntos como um só Corpo. No Evangelho de João, pouco tempo antes da sua morte, Jesus pregou sobre o seu pai aos seus discípulos "para que todos sejam um" (João 17, 21). Não basta uma vaga unidade espiritual. Nós cremos na Encarnação, na Palavra de Deus que se faz carne. A Igreja católica é o sinal visível, encarnado, da unidade à qual Jesus nos chama. Tenho uma imensa admiração por muitos cristãos que pertencem a outras Igrejas, o seu exemplo me inspira, a sua teologia me instrui. Mas, para mim, deixar a Igreja católica seria renegar o convite radical de Jesus de reunir os santos e os pecadores, os vivos e os mortos.
No centro da nossa vida cristã, está a imensa vulnerabilidade da Última Ceia. Jesus se coloca nas mãos dos seus discípulos: "Tomai, isto é o meu corpo que entrego por vós". Um deles o traiu, outro o renegou, a maior parte fugiu. Pertencer à Igreja é aceitar uma pequeníssima parte dessa vulnerabilidade. Nós aceitamos nos envolver nas derrotas da Igreja como no seu heroísmo, na sua tolice como na sua sabedoria, nos seus pecados como na sua santidade. E a Igreja também me aceita com os meus pecados e a minha estupidez. É por isso que ela é "sinal e sacramento da unidade de todo o gênero humano" (Vaticano II, Lumen Gentium n.1,1).
Porém, estamos efetivamente em um momento de crise da Igreja. Mas as crises podem ser muitas vezes frutíferas. A Última Ceia foi a crise mais profunda que a Igreja já conheceu: Jesus estava ao ponto de sofrer uma morte humilhante, e a comunidade estava dispersa. Em cada Eucaristia, nós recordamos como Jesus fez dela um momento de intimidade mais profunda, o dom do seu corpo e do seu sangue. Depois da Ressurreição, a Igreja estava lacerada. Seriam os Gentios aceitos na Igreja e seriam obrigados a aceitar a Lei? A comunidade estava ao ponto de sucumbir, mas sobreviveu para se abrir também a nós, os Gentios. Depois do martírio de Pedro e de Paulo, muitos acreditavam que Jesus estivesse ao ponto de voltar. Mas não foi assim. Foi uma crise inimaginável da esperança, mas ela levou à redação dos Evangelhos. Toda crise, se é vivida na fé, leva a uma renovação e a uma nova vida.
A crise que nos cabe viver neste momento é verdadeiramente modesta em relação às sofridas por outras pessoas que viveram antes de nós. Por exemplo, a crise modernista, há um século, foi muito mais grave. Porém, a nossa pequena crise pode ser frutífera se a vivemos na fé. Quais poderiam ser esses frutos? Sobretudo, encorajar um debate mais aberto dentro da Igreja. Depois do trauma da Reforma, toda confissão cristã mostrou ter os nervos à flor da pele quando se trata de debater sobre temas que são fonte de dissenso, temendo que isso coloque em perigo a unidade. Mas é só por meio de um debate racional e vivido na caridade que podemos testemunhar a nossa fé. O papa mesmo procurou introduzir debates posteriores na Igreja, por exemplo, o Sínodo dos bispos. Mas nós ficamos nervosos com a ideia de debater com quem tem ideias diferentes. É uma falta de confiança na inteligência que recebemos de Deus. Não devemos ter medo do debate.
A Igreja, de resto, resistiu às tentativas de domínio de governos autoritários: os imperadores romanos, os monarcas absolutos do Iluminismo, os grandes impérios do século XIX, o partido comunista na Europa central... Essas batalhas, necessárias para defender a liberdade da Igreja, levaram a uma estrutura de governo muito centralizada e distante da colegialidade dos bispos. Chegou o momento de fazer com que participem mais do processo decisional. A reação forte de certos bispos à situação atual deixa esperar um reequilíbrio nesse sentido. A carta, humilde e comovente, de Bento XVI aos bispos sobre o problema integralista mostra a sua atenção às suas preocupações e o seu desejo de estar em diálogo com eles. Portanto, não tenhamos medo! Tenhamos esperança!
* Ex-mestre-geral dos dominicanos, em artigo para o jornal La Croix, 31.03.2009. Traudção de Moisés Sbardelotto no IHU/Unisinos, 02 de abril de 2009.

Mesmo que não exista, é possível ver Deus

Ermanno Bencivegna*

"A fé, segundo Kierkegaard,
coloca a razão
em xeque,
a contradiz
e a humilha.
É até inacessível
ao pensameto".

Uma pessoa religiosa está ligada ao Deus da fé, que muitas vezes constitui o fundamento existencial e emotivo da sua vida. Na admirável meditação sobre a fé feita em "Temor e tremor", Søren Kierkegaard descreve o ato do crer como um total abandono a um Outro, do qual esperamos receber a salvação. De modo análogo, um amante se abandona à pessoa amada confiando na sua compreensão e no seu cuidado. E, em ambos os casos, a expectativa é irracional, absurda – quem desejar convencer-se de que essa é a medida justa a ser feita pensando e avaliando com prudência a plausibilidade que seja eficaz encontrará milhares de argumentos que convidam á conclusão oposta, e mesmo quando a sua arriscada decisão leve verdadeiramente à felicidade esperada não virá nenhum ensinamento disso, nenhuma compreensão do que, na sua situação, "funcionou", portanto, de como ele ou outros podem eventualmente enfrentar com sucesso situações semelhantes no futuro. A fé, segundo Kierkegaard, coloca a razão em xeque, a contradiz e a humilha. É até inacessível ao pensamento.
É uma análise iluminadora, que, porém, não deve ser mal compreendida. Se a razão nunca encontrasse a fé, não poderia ser por ela derrotada. Se houvesse entre as duas uma pacífica divisão de tarefas, não teria sentido falar de contradição e de colocar em xeque. Apesar de não se declarar um filósofo, Johannes de Silentio, pseudônimo sob o qual Kierkegaard escreve a sua "dialética lírica", persegue inexaurivelmente o projeto de compreender Abraão, o mais sublime herói da fé, e é essa tentativa de entender, esse retorno insistente (e perenemente frustrado) às mesmas perplexidades, em ângulos e terminologias diversas, esse obsessivo desejo de se unir a Abraão na viagem rumo a Moriá, adentrar nela e compartilhar seu estado de ânimo, que dá ao texto a sua prodigiosa tensão. Se é verdade (como lemos na mesma obra) que um herói é tão grande quanto mais importante é o que combate, Johannes é um herói de extraordinária grandeza, porque não retrocede nunca diante do desesperado desafio a que se propõe: porque, enquanto continua a persuadir-se de que a fé não pode ser dita, que não existem palavras para dizê-la, continua procurando essas inexistentes, impossíveis palavras.
O homem é um animal racional, cujo destino é o de tentar dar uma razão a toda sua experiência. Se algo se lhe apresenta como incompreensível, isso não terá outro êxito que envolvê-lo ainda mais apaixonadamente na pesquisa de seu significado. Os fracassos, as provas em contrário, as diagnoses e sentenças definitivas não interromperão o seu esforço: enobrecerão o objetivo, o tornarão mais notável, mais solene, mais digno. Os fiéis sabem que o seu Deus é transcendente, além das capacidades humanas e, geralmente, das capacidades de toda criatura. Mas nem por isso abdicarão ao seu impulso de eviscerar os mistérios, de reconciliar a sua mente com o que o seu coração já aprova. Em tal esforço, está em jogo a sua própria humanidade.
As provas racionais da existência e dos atributos divinos dão uma amostra conspícua e constante de si no pensamento ocidental. A sua existência é impressionante. A prova ontológica, por exemplo, foi refutada mais vezes. O representante máximo da nossa tradição filosófica, Immanuel Kant, fez uma minuciosa autópsia dela. Porém, continua renascendo das suas cinzas, nos contextos mais variados.
Uma das últimas encíclicas de João Paulo II, oportunamente intitulada "Fides et ratio", cita-a como modelo de um encontro fecundo entre teologia e filosofia. Kurt Gödel dedicou-lhe o mais sugestivo dos seus escritos inéditos. Filósofos totalmente respeitáveis como Alvin Plantinga publicam livros em que são anunciadas versões (finalmente!) válidas. E (last but not least) não faltam estudantes que, impávidos frente à oposição de tantos críticos ilustres, nos entregam outras versões sobre ela com um pouquinho de audácia. Um motivo pelo qual os estudantes são um sinal importante é que eles expõem o húmus do qual nasce esse fervor: a indestrutível confiança em que, apesar da transcendência, apesar dos fracassos, deve haver um caminho, pelo qual o incompreensível será, enfim, compreendido.
Não se trata apenas de fervor: ao tomar contato com uma tarefa tão árdua, os defensores de uma ou de outra prova deram vida a tesouros de criatividade e de engenho. Mesmo que falaciosas, suas provas são construções admiráveis. Falar de Deus, além disso, levou-os com naturalidade a se interrogar sobre o infinito, sobre a estrutura do universo, sobre as relações entre pensamento e ser, sobre o fundamento da moral, isto é, sobre todos os temas cruciais da filosofia. Uma discussão de tais provas, portanto, enquanto nos fascina evidenciando toda a sua profundidade e complexidade e nos envolve em um jogo intelectual sutil e refinado, nos oferece também um ponto de partida ideal para atravessar juntos a história da "pesquisa da sabedoria" – com um interesse específico e preciso, certamente, mas dotado de muitas ramificações e ligado a tantos outros discursos que nossa relação com isso significa ter a ver com toda a "rede" da reflexão conceitual.
*Filósofo italiano. Artigo para o jornal La Stampa, 31/03/2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Publicado no IHU/Unisinos, 02/04/2009.
http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=21077

quarta-feira, 1 de abril de 2009

O estresse faz bem

Passar nervoso de vez em quando
nos torna pessoas mais atentas,
ágeis e competitivas,
de acordo com o americano
BRUCE McEWEN*.

SUPER – O estresse costuma ser encarado como vilão. Por que você defende a tese de que ele faz bem?
McEwen – Porque o estresse representa um sinal de que estamos saudáveis. Ele é uma carga de ansiedade que todos recebemos para evoluir na vida. E estamos falando de situações que vão desde trazer comida para alimentar a família até conseguir um cargo mais alto na empresa.

SUPER – Como assim?
McEwen – Ficamos estressados sempre que nos sentimos ameaçados, como em situações de perigo ou de desafio. A resposta do cérebro a esse estado é uma dose de preocupação e agitação, que nos ajuda a resolver as tarefas em que estamos focados. Ou seja, ficamos mais competitivos e alertas. A chave desse processo é o cortisol, conhecido como hormônio do estresse liberado pelo cérebro em situações de pressão. Como o cortisol está relacionado ao hipocampo, uma parte do cérebro importante para a memória e para o aprendizado, sabemos que o disparo desse hormônio faz com que fiquemos mais vigiliantes.

SUPER – Como sentimos essa reação no dia a dia?
McEwen – Por meio das respostas que o cérebro ativa quando detecta uma situação de estresse: ansiedade, coração acelerado, liberação de adrenalina, aumento das funções da memória. São recursos do corpo que nos ajudam a identificar um perigo. Na vida moderna, essa ameaça pode ser uma briga com o namorado ou o esforço para cumprir os prazos impostos pelo chefe no trabalho. É por isso que sabemos que o estresse existe – e aqui está a boa notícia – para auxiliar a nossa sobrevivência, e não para nos matar, como muita gente acredita.

SUPER – Mas a resposta do corpo não parece nada positiva quando nos estressamos. Será que os benefícios do estresse não ficam só na teoria?
McEwen – Há críticos que dizem isso. Mas não há dúvida de que os mecanismos que causam o estresse existem para nos proteger e nos manter vivos. Também não há dúvida de que esses mesmos mecanismos, quando desregulados, causam doenças comuns nos dias de hoje, como depressão, obesidade, diabetes, artrite. O que falta no discurso dos críticos é dizer que o problema está em como o corpo reage a situações estressantes – uma resposta exagerada pode nos levar à exaustão e exigir uma reposição das nossas energias.

SUPER – Então você acha que o estresse pode, sim, passar de mocinho a bandido?
McEwen – Sim. Há três níveis de estresse: o bom, o tolerável e o tóxico. No nível extremo de estresse, as células do hipocampo perdem conexões com outras áreas do cérebro e se encolhem. Isso prejudica, por exemplo, o armazenamento da memória. Por isso sentimos que ficamos meio estúpidos quando passamos por muito estresse. É como se o cérebro parasse de funcionar e não processasse mais informação. Não há dúvida sobre os malefícios do estresse quando esse ponto é atingido. Entretanto, se o nível de cortisol no organismo funciona como deve, o cérebro é capaz de processar as respostas ao estresse.

(...)

SUPER – E como nos mantemos sob o estresse bom?
McEwen – Viver em um turbilhão de situações estressantes nos põe sob um estado de alerta constante, que leva o corpo ao desgaste e desencadeia doenças. Portanto, valem conselhos antigos: ter um estilo de vida saudável, alimentação balanceada, fazer exercícios físicos, dormir bem, não exagerar no consumo de álcool, não fumar, ter boas relações com as pessoas. Se o corpo funciona bem, viveremos sob o bom estresse. Discutir os problemas também pode ajudar. Já reparou como falamos sobre o estresse como se estivéssemos falando do clima? Virou uma forma de quebrar o gelo e começar uma conversa com um desconhecido. Esse desabafo pode ser o primeiro passo para aliviar as sensações de estresse.

(...)

SUPER – É possível nos livrarmos do estresse?
McEwen – Sempre sentimos e sentiremos o estresse de alguma forma. E, quando mais organizada e complexa for uma sociedade, mais o estresse tóxico aparecerá. O motivo é que as ameaças em uma sociedade complexa são mais numerosas e sutis do que em uma sociedade de organização mais simples. Não existe um grande predador – como a falta de comida -, e sim diversas ameaças, que podem ser a competitividade no trabalho ou a performance em um encontro romântico. E nem sempre conseguimos descansar depois de uma situação estressante, o que prejudica a recuperação do corpo e nos expõe ao pior tipo de estresse.

*Bruce McEwen, neurocientista e professor da Universidade Rockefeller, em Nova York. Autor do livro O Fim do Estresse Como Nós o Conhecemos.

Reportagem de Cristina Westphal. Revista Superinteressante/abril, 2009, pp.19/21.

Pensamento com humor

Millôr:
“Eterno no amor
tem o mesmo sentido que
permanente no cabelo”.

Em meu oficio ou arte taciturna

Dylan Thomas*

Em meu ofício ou arte taciturna
Exercido na noite silenciosa
Quando somente a luz se enfurece
E os amantes jazem no leito
Com todas as suas mágoas nos braços,
Trabalho junto à luz que canta
Não por glória ou pão
Nem por pompa ou tráfico de encantos
Nos palcos de marfim
Mas pelo salário mínimo
De seu mais secreto coração.


Escrevo estas páginas de espuma
Não para o homem orgulhoso
Que se afasta da luz enfurecida
Nem para os mortos de alta estirpe
Com seus salmos e rouxinóis,
Mas para os amantes, seus braços
Que enlaçam as dores dos séculos,
Que não me pagam nem me elogiam
E ignoram meu ofício ou minha arte.

O AUTOR: Dylan Marlais Thomas nasceu no País de Gales, a 27 de outubro de 1914. Um dos maiores poetas em língua inglesa do século 20, teve vida curta, por conta da intensa boemia. Morreu aos 39 anos. Tradução: IVAN JUNQUEIRA
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 01/04/2009

Antissemitismo em Porto Alegre

Roberto Romano*
Bispo (do grego episkopos, “vigilante”, que deriva de episkeptomai, “observar”) na ordem cristã é o encarregado de estabelecer a ponte entre Deus e os homens. O papa, vigário do Senhor, vigia e defende a comunidade inteira dos fiéis. A função episcopal leva uma pessoa à tarefa de sentinela do sagrado, contra as ameaças do maligno, “leão a rondar a presa": quem “nasce de Deus não peca; mas aquele que foi gerado por Deus guarda-o e o maligno não lhe toca” (1 João 5,18). A hierarquia, no catolicismo, surge da tradição judaica, exposta no Antigo Testamento. Quando Jesus (um judeu) escolhe o líder de sua grei, ele muda o nome de Simão-bar-Jonas (outro judeu). Abrão recebera o nome de Abraão (Gênesis, 17, 5), Jacó foi chamado Israel (Gênesis 32, 28) e temos outros exemplos bíblicos. A mudança de nome indica nova dignidade do escolhido para liderar o povo rumo às sendas seguras. O primeiro pastor universal, Simão-bar-Jonas, teve o nome substituído por Kefas (pedra, na semântica grega) vindo a ser Pedro (Mateus, 16, 18).
A missão de vigiar e proteger os fracos do mundo, os anawin (pobres, humildes, mansos) exige prudência e misericórdia. O próprio Jesus se definiu como anawin e ordenou: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11,29); e também, como consequência, proclamou o Senhor: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino” (Mateus 5,3). Das práticas ensinadas por Ele, algumas se dirigem mais diretamente aos pastores: “Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhes será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem acender uma luz sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim brilhe vossa luz diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus!”.
Um pastor que não exerce vigilância, não ilumina, não salga, serviria apenas para ser jogado no oblívio dos homens. Mas, infelizmente, não é assim que se passa na Igreja e no mundo. Não raro, a memória dos bons pastores é esmaecida pela recordação dos péssimos, que se uniram aos lobos contra as ovelhas. O mesmo Pedro negou Jesus três vezes. Cristo, para sentir o seu arrependimento e compromisso com a missão redentora, lhe perguntou também três vezes: “Tu me amas?” (João, 21, 15-17). À tríplice resposta positiva, Jesus lhe concedeu o múnus santificado: “Apascenta minhas ovelhas” (João, 21, 17).
A memória de Pedro, de Agostinho e seus pares, repercute em papas como João 23, cuja força e coragem exigiu dos bispos, no Vaticano 2, o reconhecimento da fraternidade com os filhos de Israel. Não foi tarefa leve conseguir tal feito. Muitos pastores ainda retinham no coração e na mente o antissemitismo que incentivou os alemães a colaborar com o genocídio de seis milhões de israelitas. Pouco depois da ascensão nazista, março de 1933, a Igreja Católica alemã, em uníssono com a luterana, convidou os crentes a obedecer o Füher e “a estar à sua disposição de todas as formas” (Eric Voegelin, Hitler e os alemães, São Paulo, Ed. É, 2008, p. 245).
De todas as formas... na guerra e na repressão aos democratas, nos campos de extermínio e nas SS, missão outorgada pelo antipastor que não amava as ovelhas, em especial as judaicas, tidas por ele como indignas da vida. No próximo artigo, falarei o que pretendo com as citações sobre o pastoreio e a missão de vigiar e proteger os fracos. Guarde o leitor o nome de um bispo, o de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings. Ele acha que não foram mortos seis milhões de judeus, mas “apenas” um milhão. Santo homem! Analisarei tais falas, mas indico que os justos não estão agindo no instante em que os antissemitas realizam sua obra. Sequer manifestos em prol dos direitos humanos saem em tempo. O domínio é dos que retornam ao ódio anterior ao Vaticano 2, era em que na missa se rezava “pelos pérfidos judeus”.

*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia na Unicamp - 01/04/2009
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1627253&area=2190&authent=4F88F7430EC882771ACFD1365ABAE5