segunda-feira, 13 de abril de 2009

Sociedade e tédio

Olgária Mattos*
Walter Benjamin escreveu que
“as rugas em nosso rosto são
as assinaturas das grandes paixões
que nos estavam destinadas,
mas nós, os senhores, não estávamos em casa.”
O que essa frase diz a respeito
do capitalismo contemporâneo?


“Sociedade do conhecimento” e “técnicas da informação” constituem a aceleração do tempo, baseada na circulação ininterrupta das revoluções tecnológicas e do capital no mercado financeiro. Diferentemente da noção de crise econômica, o atual impasse é cultural, é crise da cultura que perdeu autonomia, adaptada agora às contingências da financeirização e dos sofismas políticos de que é portadora,como as indústrias do conhecimento.
Estas promovem os saberes a serviço exclusivo da economia, abrangendo todos os aspectos da vida, do mundo do trabalho aos laços afetivos, da intimidade até a educação. Seu poder de controle se expressa em uma cultura da incuriosidade, uma sociedade desmotivada e sem projeto, dominada pela “queda tendencial do valor espírito” e de sua capacidade de criar e reconhecer valores, mundo empobrecido pelo extraordinário achatamento da experiência do tempo, plasmado na imediatez e na pressa.
O homem contemporâneo só tem tempo para suas urgências; sua curiosidade é insaciável, mas se contenta com pouco.
Eric Fromm refere-se ao traço do presente que consiste em “fazer de tudo para economizar tempo e, quando o conseguimos, nós o matamos porque não sabemos o que fazer com ele.” Nos anos 1840, Marx analisava o trabalho alienado escrevendo que o trabalhador, quando no trabalho, está fora de si, porque não realiza uma livre atividade física e espiritual, mas martiriza seu corpo e arruína seu espírito. Só se sente junto a si mesmo quando fora do trabalho. Na modernidade, fora do trabalho tampouco o trabalhador se encontra junto a si, o indivíduo tendo perdido o controle dos usos do tempo e de sua própria vida. A organização institucional do tempo é um dos atributos mais eminentes da dominação.
O sentimento de não se ter tempo abrange a sociedade inteira, não apenas quem se encontra sobrecarregado de trabalho, mas também os desempregados, todos respirando “uma atmosfera carregada de comunicação”, preenchida pelas indústrias de entretenimento e de cultura de massa, adaptadas ao homem desumanizado e supérfluo. O “turbo-capitalismo” produz exclusão e concorrência, estresse e depressões, inviabilizando laços duradouros. Perda do tempo é perda de autonomia e de experiência. Por isso Walter Benjamin escreveu que “as rugas em nosso rosto são as assinaturas das grandes paixões que nos estavam destinadas, mas nós, os senhores, não estávamos em casa.”
A circulação e o acúmulo do capital determinam tempos mortos e movimento perpétuo, indigência e vulnerabilidade, circunstância que se manifesta no “tédio dos jovens das periferias”, na fragilização do sentido de pertencimento a um mundo comum, sentimento de desvalorização de si, com o déficit simbólico que isso implica.
O capitalismo contemporâneo manifesta seu ethos anti-comunicativo, pois dissolve as condições da comunicação de valores e experiências, reduzida a simples instrumento de troca e de informação. Substituindo o “desejo de ser livre” pelo mudança incessante, o capitalismo não preenche necessidades mas as multiplica, gerando frustração e tédio. Razão pela qual em 1968 o maio francês grafitou nos muros de Paris: “ não mude de emprego, mude o emprego de sua vida”.

*Olgária Mattos é filósofa, professora titular da Universidade de São Paulo.
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4207 26/03/2009

Pensamento da noite

“Não é a vontade de
vencer que conta,
mas a vontade de
se preparar pra vencer.”
Paul “Bear” Bryant

Igreja Católica e Conservadorismo

Agnaldo Cuoco Portugal*

Diante de fatos recentes, tais como declarações do Papa na África sobre o uso de preservativos, a excomunhão pelo Arcebispo de Olinda e Recife das pessoas envolvidas no aborto da menina violentada pelo padrasto em Pernambuco, a proposta de retorno do Latim às missas e a aproximação do Vaticano em relação a grupos tradicionalistas, poderíamos dizer que a Igreja Católica está mais conservadora? A resposta parece simples: sim.

Mas faz bem à inteligência desconfiar de respostas simples. Analisemos, portanto, o que a tese sugere e supõe, especialmente no que diz respeito às noções de “Igreja Católica” e “conservadorismo”.

Uma primeira coisa a ser notada é que a Igreja Católica não se resume apenas aos dirigentes da instituição, como o Papa ou os bispos, mas inclui toda uma comunidade de pessoas que aderem a um determinado conjunto de crenças e práticas religiosas e que se propõem a ser seguidoras de Jesus Cristo de um modo particular dentre outras comunidades cristãs. Trata-se de um grupo significativo em termos quantitativos, algo superior a um bilhão de pessoas, segundo números das próprias autoridades católicas.

De uma comunidade assim, planetária e imensa, é muito temerário fazer-se qualquer afirmação genérica em termos de posicionamento político. A diversidade dessa comunidade é algo também que chama a atenção e, se tomarmos os relatos do próprio Novo Testamento, o fato de haver nela discordâncias internas tampouco é algo novo. As diferenças de perspectiva em comunidades cristãs sempre foram notadas e são até tidas como algo positivo, como atesta uma das cartas de Paulo de Tarso, dirigida à comunidade de Éfeso, na qual ele compara a igreja a um corpo com muitas partes, cada uma diferente da outra.

Assim, o que fazem ou afirmam os dirigentes católicos não é necessariamente o que faz ou afirma a comunidade católica como um todo, e tomar a posição do Papa ou de um grupo particular de bispos como única posição da igreja (no sentido de comunidade de fiéis) pode ser uma generalização apressada. A diversidade não é encontrável apenas nas diferenças de posicionamento entre a hierarquia da instituição e o restante dos fiéis, mas até mesmo entre os próprios dirigentes católicos. No episódio da menina violentada em Pernambuco, importantes autoridades eclesiásticas discordaram da ênfase dada pelo Arcebispo de Olinda e Recife à excomunhão, devida segundo o Código Canônico, aos que participaram do aborto dos gêmeos dos quais ela estava grávida.

Não se pode negar, no entanto, que há um forte centralismo na forma como as decisões são tomadas na instituição eclesiástica católica. Se Jesus realmente atacou o legalismo fariseu, pregando uma religiosidade interior, propondo o amor como regra fundamental e afirmando que quem ser o maior que seja o mais humilde, como dizem os Evangelhos, cabe certamente indagar se toda essa hierarquia institucional, esse poder centralizado e essa ênfase em Códigos Canônicos não são contra a própria mensagem daquele que os católicos afirmam ser o fundador de sua Igreja. Por outro lado, de que outro modo essa mensagem poderia ter sido conservada se não tivesse sido institucionalizada? Isso nos remete ao tema do conservadorismo.

Em tese, não parece haver nada de errado em se propor conservar algo, mesmo em termos políticos. A história das revoluções parece indicar que, por mais que elas tenham mudado as coisas, algo da ordem anterior é sempre preservado. No caso da Igreja Católica, seja vista como instituição seja como comunidade de fiéis a uma mensagem, a conservação e difusão dessa mensagem fazem parte de sua própria finalidade. Se de fato é a mensagem que é preservada e não as mediações históricas que um dia fizeram sentido, mas hoje a deturpam, parece ser uma questão controversa, mas interna ao meio católico.

Porém, a Igreja Católica é mais gravemente “acusada” de conservadora por questões que têm a ver com sua atuação externa. Fora da comunidade católica, a força de suas autoridades é bem diferente do que fora em tempos passados. O Vaticano é um Estado sem exército e economicamente inexpressivo. O poder do Papa e dos bispos se dá apenas no campo das idéias e da influência sobre a conduta das pessoas. Nesse sentido, eles são apenas mais alguns interlocutores no debate.

Mesmo que houvesse uma única posição entre eles, classificá-los como conservadores por causa de suas posições em bioética ou em política internacional pode não ser um modo adequado de encaminhar a discussão. O risco que se corre aqui é de trocar a análise das idéias que o outro propõe pela mera desqualificação do interlocutor por meio de um rótulo depreciativo. Se de fato é isso o que significa dizer que a Igreja Católica é conservadora, então o propósito não é esclarecer nada, e o resultado é o empobrecimento do debate. E em se tratando de temas altamente complexos, não se deve descartar qualquer contribuição.
*Agnaldo Cuoco Portugal é professor do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília e doutor em Filosofia da Religião.
Texto postado no endereço:http://www.secom.unb.br/artigos/artigo.php?id=134 - o3/04/2009

Advogado do Diabo

O filósofo americano
Daniel Dennett
diz que a crença em Deus
já não tem funções positivas.
Hoje, ela é só obstáculo ao
desenvolvimento.
Para o filósofo americano Daniel Dennett, ateu e evolucionista radical, acredita em um ser superior é mais do que simples perda de tempo: pode ser uma tremenda irresponsabilidade. Em nome deste ou daquele deus, argumenta o filósofo, muita coisa errada acontece no mundo todos os dias – da proibição do uso de preservativos à violação dos direitos humanos. Por que, então, tantas pessoas acreditam? Segundo Dennett, por ignorância. E porque, pela falta de informação científica, elas encontram na fé o caminho mais curto ( ou mais fácil) para driblar o sofrimento pessoal.
Formado em Harvad e doutorado em Oxford, o filósofo hoje é codiretor do Centro de Estudos Cognitivos da Universidade Tufts, nos EUA. Escreveu, entre outro, os livros A Perigosa Idéia de Darwin (Editora Rocco) e Quebrando o Encanto (Editora Globo), em que discute o choque entre ciência e religião. Dennett acredita que, diferentemente de outros tempos, quando foi fundamental para que os homens atingissem coesão social e pudessem dar sentido à própria existência, a crença em Deus perdeu suas funções positivas. Hoje, ela representaria apenas uma barreira para o desenvolvimento humano. Por e-mail, ele respondeu às seguintes perguntas:

Deus existe? Qual é a prova mais contundente de que Ele existe ou não?
Dennett – Deus significa tantas coisas que essa pergunta é impossível de ser respondida. Para alguns Ele é apenas um nome para a beleza do Universo, e não tem nada a ver com forças sobrenaturais. Esse Deus, obviamente, existe. O que não existe é um agente sobrenatural que responde às nossas preces ou supervisiona e guia a evolução das coisas. A humanidade acredita em Deus há milhares de anos. Só que, agora, já sabemos por quê. Até aqui, foi natural para o homem acreditar em algo divino, uma espécie de infância da evolução humana. Mas nós nos tornamos maiores do que Deus.

A Teoria da Evolução é uma prova da inexistência de Deus?
Dennett – Antes da Teoria da Evolução, era compreensível atribuir a Deus a existência de um desing inteligente na natureza. Depois dela, tudo mudou. Hoje, podemos provar como surgiram formas de vida tão variadas e complexas. A teoria de Darwin é uma explicação muito melhor para isso do que Deus. Não precisamos mais nos render à tentação de acreditar em um ser superior que criou tudo. Agora essa idéia parece incoerente.

Apesar da ciência, ainda é possível acreditar no sopro divino – o momento em que o Criador deu vida até ao mais insignificante dos micro-organismos?
Dennett – É claro que é possível, assim como se pode acreditar que um super-homem veio para a Terra há cerca de 530 milhões de anos e ajustou o DNA da fauna cambriana, provocando a famosa explosão de vida daquele período. Mas não há razão para crer em fantasias desse tipo.

Deus é a explicação mais fácil para o que o homem não consegue compreender?
Dennett – É a explicação mais fácil até que se conheçam as respostas da ciência. Depois que você se informa, a hipótese de Deus torna-se incrivelmente improvável.

Acreditar em Deus é bom ou ruim para a humanidade? Por que tanta gente acredita? E qual é o futuro da crença?
Dennett - Se tivermos sorte, a crença em Deus vai desaparecer aos poucos, mas provavelmente nunca vai acabar. Muitas pessoas que dizem acreditar não tem qualquer compromisso com este ou aquele Deus, elas apenas acham que acreditar é bom. Trata-se daquilo que chamo “crença na crença”. Mas acreditar é ruim, porque atravanca a evolução humana. Quando a maioria entender isso, a ideia de Deus tenderá a se extinguir.

Como seria a humanidade se a crença em Deus simplesmente não existisse?
Dennett - Mais feliz, menos torturada pela culpa.

O senhor admite a hipótese de estar errado em suas convicções?
Dennett – Já admiti essa possibilidade, é claro, como todo mundo. Passei anos e anos analisando cuidadosamente essa questão da fé. Mas acabava chegando sempre à mesma conclusão: Deus não existe.

As religiões mudaram bastante nos últimos 100 ou 200 anos. Por que?
Dennett – Como a humanidade aprendeu muito sobre tudo, e superou a xenofobia em certo grau, nos tornamos capazes de refletir sobre nossas tradições e de identificar nelas os “defeitos” que precisam ser reparados. Assim, universalmente, a humanidade foi mudando seus conceitos. O Velho Testamento, por exemplo, aceita o trabalho escravo, o infanticídio, o marido que bate na esposa, a punição com a pena de morte. Hoje, sabemos mais sobre o mundo e sobre nós mesmos.

Por que as pessoas recorrem a Deus nos momentos de dificuldade, mesmo aquelas que não demonstram qualquer religiosidade no dia-a-dia?
Dennett – Porque elas simplesmente perdem a razão. Quando sofrem, as pessoas acabam se apegando a fantasias. Não defendo perturbar a paz de quem acredita ou roubar desse indivíduo o alívio que a crença em Deus possa representar para seus sofrimentos. A não ser que essa crença conduza a algum tipo de ação imoral. Levar pessoas de bem a fazer coisas ruins é uma especialidade das religiões.

Reportagem de RUI DANTAS - Edição EDUARDO LIMA da revista SUPER-INTERESSANTE, Ed. 263-A – Março/2009, pp.8/9.

A última moda da vida eterna

O ponto de Nova York onde
fica a megastore da Virgin
vira uma loja que
embrulha roupa barata
com o Evangelho.

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu Seu Filho único, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” João, capítulo 3, versículo 16, Forever 21.
Forever 21 é uma das maiores redes de lojas de roupas e acessórios dos Estados Unidos. E “John 3:16”, referência à citação do evangelista, é uma das marcas registradas de suas sacolas de compras, por exigência de seu proprietário Do-Won Chang – ou Don Chang, em versão ocidentalizada –, que está a um passo de invadir a Times Square, em Nova York, com as palavras da Bíblia.
Cristão fervoroso, o coreano Chang emigrou para os Estados Unidos em 1981. Em três anos, abriu seu primeiro negócio no país, uma loja com pouco mais de 84 metros quadrados na Figueroa Street, em Los Angeles. Chamou-a Fashion 21. Com o tempo, o Fashion de moda jovem virou Forever – para sempre –, como um para a eternidade aqui e agora.
A fé deve ter ajudado Chang, tanto que ele vendia bijuterias por menos de 5 dólares e vestidos de noite por menos de 50. Em um ano, suas vendas aumentaram em vinte vezes. Em 1989, ele tinha uma rede com dez filiais. E não parou mais de acelerar vertiginosamente.
A Forever 21 está plantada em cidades dos Estados Unidos, da Coréia, do Canadá, da China, da Indonésia, da Arábia Saudita, da Malásia, de Cingapura e dos Emirados Árabes, entre outros países e continentes anexados a seu império comercial. Mas é o seu próximo endereço que tem dado mesmo o que falar. Até meados do ano que vem, abrirá suas portas num dos melhores pontos de Nova York, a Times Square, na Broadway, entre as ruas 45 e 46 – onde, até dias atrás, funcionava a Virgin Megastore, loja de discos que já foi um grande símbolo mundano do sucesso temporal. Estima-se que, este ano, antes mesmo do outono americano, cinco outras megastores da Virgin sumirão dos Estados Unidos. A da Times Square acabou em março.
A troca da Virgin pela Forever 21 é mais um golpe na combalida indústria da música, e mais um sinal de que a indústria da moda, com crise ou sem crise, não pára de crescer. Como acontecia com a Virgin no começo da década, na época em que o filme Alta Fidelidade retratou o sufoco de Rob Gordon, um comerciante de bairro fictício mas verossímil, que só trabalhava com bolachas de vinil e ameaçava naufragar na onda dos CDs distribuídos por megastores.
Tudo nessa história parece que foi ontem. A primeira Virgin Megastore surgiu em Londres trinta anos atrás. Ficava na Oxford Street, esquina com a Tottenham Court Road. Seu fundador, Richard Branson, ainda longe de virar sir Richard Branson, partiu dessa base local para consolidar um conglomerado que se alastrou pelo ramo do turismo, dos jogos e das telecomunicações. Um de seus braços, a Virgin Galactic, aceita reservas para vôos interplanetários. Como a Forever 21, sua sucessora na Times Square, os negócios de Branson tiveram um começo modesto em 1971, no bairro londrino de Notting Hill Gate, com o nome de Virgin Records and Tapes.
Era um bom momento para abrir uma loja desse tipo na Inglaterra. Os Beatles haviam se dissolvido, mas John Lennon e Paul McCartney se lançavam em carreiras solo. Led Zeppelin, Rolling Stones, The Who e Pink Floyd se revezavam nas paradas de sucesso. Mas a Virgin Records and Tapes nasceu contra a corrente. Especializava-se em Krautrock, um tipo de rock experimental nascido na Alemanha nos anos 1960, que chegava à Inglaterra com certo atraso. De brinde, a loja ainda oferecia aos fregueses comida vegetariana.
Virgin queria dizer que Branson era novo na praça – ou virgem em matéria de comércio. Mas pegou. Em 1973, a Virgin Records lançava seu primeiro álbum, Tubular Bells, do inglês Mike Oldfield. E, como a Forever 21 faria mais tarde em seus calcanhares, suas lojas foram espalhando filiais pelo mundo, primeiro no Reino Unido, depois França, Austrália, Japão, Grécia, Alemanha, Canadá, Oriente Médio e Estados Unidos. Nos bons tempos do CD, teve 23 megastores, só nos Estados Unidos, que lucravam 280 milhões de dólares por ano, mesmo sustentando pelo menos doze lojas que funcionavam quase sempre no vermelho.
A megastore da Times Square foi a coroa desse reino. Abriu em 1996, quando a empresa tinha quatro anos de experiência no mercado americano e o download de músicas na internet nem estava à vista para ameaçar a indústria fonográfica com o degredo na realidade virtual. O Napster, primeiro programa de compartilhamento de arquivos musicais, só daria o ar de sua graça em 1999.
A loja ocupava três andares e 5,5 mil metros quadrados de pavimentos. Além de CDs, DVDs e vinis, vendia agendas, pôsteres, camisetas de artistas, filmes, equipamentos de som, videogames, livros e, com valentia à altura do estilo empresarial de Branson, engenhocas para tocar MP3, o antídoto eletrônico contra o hábito de comprar discos para ouvir em casa. Havia, em suas instalações, 600 pontos de headphones para testar músicas e 100 telas de tevê para vídeos. “Era um ponto turístico, um lugar que você tinha que visitar se estivesse na cidade, mesmo que não fosse comprar um disco sequer”, relembra a cantora carioca Silvia Machete, que morou sete anos em Nova York.
A Virgin da Times Square vivia cheia. Nem sempre na fila do caixa, apesar dos espíritos entusiastas que a frequentavam. “Eu baixo toneladas de músicas para o meu laptop. E vou a lojas de discos toda semana, mesmo assim. A Virgin era um dos últimos lugares em que eu ainda podia aproveitar aquele pequeno prazer, e em alguns meses isso estará acabado”, lamentou o jornalista americano Simon Vozick-Levinson.
A megastore resistiu como pôde à cultura do download e às previsões de que o CD devia morrer de vez em cinco anos. Ultimamente, os aparelhos eletrônicos respondiam por um quarto de suas vendas no Natal, admitiu Simon Wright, o presidente da empresa. E o primeiro sinal de que a Virgin não ia bem dos alicerces veio em 2007, quando Branson vendeu suas lojas nos Estados Unidos para dois pesos pesados do mercado imobiliário, o Vornado Realty Trust e a Related Companies. Sob essa nova ótica, os 55 milhões que a megastore faturava por ano não se mostraram mais compensadores do que os 540 dólares que a Virgin pagava pelo aluguel do metro quadrado naquele endereço, com o ponto na Times Square valendo dez vezes mais. A loja fechou no mês passado, depois de uma liquidação em que os descontos chegaram a 70%. Será para sempre uma perda insubstituível para quem se acostumara a sair dali, nos grandes lançamentos, com álbuns autografados por Michael Jackson, Nine Inch Nails, Eminen, N’Sync e outros astros de carne e osso, coisa que ainda não se pode baixar pela internet.
Mas a Forever 21 promete, em contrapartida, uma loja ainda maior, de 8,3 mil metros quadrados, repleta de roupas a preços de CDs. E Chang já anunciou pelo jornal The New York Times que seus diretores mal podem esperar para “criar um novo ambiente na Times Square”, com o Evangelho de São João num lugar que já foi famoso pelos serviços prestados a todos os tipos de pecadores.
http://www.revistapiaui.com.br/edicao_31/artigo_925/A_ultima_moda_da_vida_eterna.aspx
Reportagem da Revista PIAUÍ Nº 31, 03/04/2009.

Um certo FMI para ser amado

Rodrigo de Almeida

Que me perdoe o professor Paulo Nogueira Batista Jr., diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional pelo Brasil e mais oito países da América Latina e do Caribe. Que me perdoe também o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, eufórico com a entrada do Brasil no clube de credores do FMI. Chique é. Mas, por trás de uma possível guinada do fundo, há muita gente de boa vontade com um quê de temor diante da cascata de dinheiro despejada no caixa da instituição para salvar da debacle os países em desenvolvimento. (O G-20 prometeu triplicar a conta para US$ 750 bilhões e autorizou mais US$ 250 bilhões em Direito Especial de Saque, espécie de moeda do Fundo). "O FMI está de volta", comemorou o diretor-gerente Dominique Strauss-Kahn, sintetizando o retorno do Fundo, graças à crise, ao centro da cena internacional. Após flertar com a irrelevância, mais do que um caixa encorpado, a instituição ganhou atribuições no combate à crise.

É preciso enxergar esse retorno sem a lógica do mundo rico. Se conseguirmos, faz muito mais sentido o temor do que a comemoração. A "volta" do FMI premia uma organização que foi uma das responsáveis por essa crise – além de recomendar mais privações a países que já estavam doentes nas crises da Ásia e da América Latina, na década de 90. Mais: soa estranho, por exemplo, a crença de que é preciso resolver os problemas dos países em desenvolvimento, sem que sejam implantadas mudanças significativas na regulação dos mercados nos países ricos – onde a crise nasceu. É verdade que os primeiros a recorrerem ao Fundo em busca de uma ajuda de emergência foram nações em desenvolvimento, como Hungria, Ucrânia e Islândia. Mas o FMI estará disposto a disciplinar os pesos pesados? Dispensável dizer que há quem duvide.
Dúvida não significa inércia. Na última sexta-feira, o economista Dani Rodrik, professor de economia política da Universidade Harvard, pôs em seu sempre interessante site (http://rodrik.typepad.com) um artigo sobre o assunto. Haverá "um FMI que podemos amar?", pergunta o professor, tido como um dos 100 economistas mais influentes do mundo e um dos mais brilhantes analistas sobre desenvolvimento e globalização. Rodrik argumenta que, se quiser deixar de ser atacado tanto pela direita quanto pela esquerda pelo excesso ortodoxo e, enfim, ser amado, o FMI precisará de mudanças organizacionais profundas. A começar por um maior poder de voto a países como Brasil, China e Índia. Mas a tese do professor vai bem além. "Dar simplesmente um maior poder de voto aos países em desenvolvimento fará pouca diferença se a cultura organizacional do FMI não mudar também", escreve.

Rodrik critica a falta de conexão (e apreço) com a realidade institucional dos países para os quais os técnicos do Fundo trabalham. Cita a "arrogância", a "presunção", o "sentimento de superioridade" diante dos países que lhe batem à porta. O professor sugere mudanças nos processos de recrutamento e promoção. Propõe aumento substancial de técnicos com experiência prática em países em desenvolvimento e realocação de profissionais em "escritórios regionais", o que permitiria, segundo ele, uma maior sensibilidade do FMI para as realidades locais. (O Banco Mundial adota esse modelo de descentralização, com melhores resultados, na avaliação de Rodrik). "A comunidade internacional está dando muito valor à performance e ao julgamento do Fundo", diz o professor. "Isso exigirá reformas internas para ganhar confiança plena".

A reunião de primavera do FMI, no fim da próxima semana, será um bom teste. Os emergentes terão mais poder? O Fundo vai atuar como regulador do sistema financeiro internacional? Vai continuar cobrando austeridade fiscal rígida ou será capaz de incentivar gastos? A bem da verdade, como tem lembrado Paulo Nogueira Batista Jr., o FMI já avançou em alguns senões do passado, em especial numa maior flexibilização dos critérios de empréstimos – o Brasil, diga-se, foi o primeiro a propor mudanças nesse terreno. Hoje já não existiriam, nas regras, exigências como adoção de câmbio flutuante, metas de inflação e de superávit primário. Mas, indagado semana passada sobre a distância entre intenção e a realidade, o próprio representante brasileiro sintetizou o tamanho do risco: "Fizemos gols, mas ainda podemos tomar uma bola nas costas e perder a partida". Frase de quem sabe que não é hora nem para a submissão do passado nem para o deslumbramento à vista no presente.

Jornal do Brasil on-lin - Segunda-feira, 13 de Abril de 2009 - 00:00
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/04/13/temadodia/coisas_da_politica_um_certo_fmi_para_ser_amado.asp

Nova cartada do sistema?

Leonardo Boff*

O encontro do G-20 em Londres levou a uma tensa convergência entre as propostas norte-americana e a europeia. Esta prevê controles e regulações mais rígidas dos mercados, e a norte-americana procura salvar o sistema bancário privado com a injeção estatal de bilhões e bilhões de dólares, tirados dos contribuintes, com o propósito de alavancar os créditos e garantir a continuação do consumo. Há indicações de que Barack Obama se comprometeu a assimilar algo da proposta europeia e desta forma criar um consenso mínimo para enfrentar coletivamente a crise.

Cumpre, entretanto, reconhecer que ambas são soluções intrassistêmicas e nada inspiradoras. Pois de modo algum colocam em xeque o modo de produção capitalista e sua expressão política, o neoliberalismo. Curiosamente, Sarkosy, num artigo do dia 1 de abril, propunha um capitalismo cooperativo e solidário como forma de sair do caos. Parece entender pouco da lógica do capital, pois este se rege pela competitividade e não pela cooperação. A solidariedade não é categoria do capital, senão não teríamos tantos milhões de excluídos. Se alguém achar que o capitalismo é bom para os trabalhadores, é um iludido. O capital é bom para os capitalistas que detêm o ter, o saber e o poder.

Os encaminhamentos do G-20 mantêm a acumulação do capital como o principal motor do funcionamento da economia e o mercado livre como o lugar de sua reprodução. Isso simplesmente é mais do mesmo. Não ataca as causas que levaram à crise. A crise econômico-financeira é vista fora do contexto global de crise: social, alimentária, energética, climática e ecológica. Todas estas crises são consideradas como externalidades, quer dizer, fatores que não entram na contabilidade do capital, como o deslocamento de milhões de pessoas do campo para as cidades, o desflorestamento, a contaminação do solo, do mar e do ar. Estes fatores só são tomados em consideração quando se revelam empecilho para os ganhos do capital.
Mas não há como evitar a questão ética: trata-se de uma solução que contempla a humanidade como um todo e que garante a vitalidade ao planeta Terra? Ou simplesmente se trata de salvar o sistema do capital para beneficiar os que acumulam? Será mais uma cartada do sistema? Trata-se de uma crise no sistema ou de uma crise do sistema?

Tudo indica que se trata de uma crise do sistema. As duas externalidades maiores – a social e a ambiental – não ganham centralidade. Mas elas são de tal gravidade que põem em xeque as soluções propostas, possuindo somente sustentabilidade a curto e a médio prazo. Depois voltará a crise, possivelmente, sob a forma de tragédia ou de farsa (Marx).

A crise social mundial é terrificante. Os dados do Pnud 2007-2008 atestam que os 20% mais ricos absorvem 82,4% das riquezas mundiais enquanto os 20% mais pobres têm que se contentar com apenas 1,6%. Quer dizer, é uma pequeníssima minoria que, em escala mundial, monopoliza o consumo enquanto os zeros econômicos são lançados na miséria. Há mais de 900 milhões de famintos, e a cada quatro segundos morre um ser humano de fome conforme refere J. Ziegler em seu relatório para a ONU sobre a pobreza no mundo. Que cabeça e que coração têm analistas notáveis do Brasil (vide M. Leitão e Sardenberg) que sabem disso tudo e mesmo assim defendem um sistema de tanta perversidade?

A crise ecológica não é menor. Estamos já dentro do aquecimento global, que vai ser devastador para milhões de pessoas e para a biodiversidade. E. Wilson, renomado biólogo, denunciou que a cada ano a voracidade capitalista elimina definitivamente 3.500 espécies de seres vivos. Diante deste quadro dramático, só nos resta repetir o que deixou escrito em latim o gênio da crítica ao capital: "Dixi et salvavi animam meam" ("Disse e salvei a minha alma").
Segunda-feira, 13 de Abril de 2009 - 00:00
http://jbonline.terra.com.br/leiajb/noticias/2009/04/13/sociedadeaberta/nova_cartada_do_sistema.asp

domingo, 12 de abril de 2009

Pensamento copiado

"O bom pai
é aquele que tem a coragem
de entregar seu filho
para o mundo.
Quem não faz isso
está subestimando a criança e
atrapalhando seu futuro e sua felicidade.
A mensagem
que está sendo enviada para a criança é:
você não é bom
nem inteligente o bastante
para ser bem-sucedido,
seja lá no que for"
(Marilyn Heins, pediatra e escritora americana, dona de um site de dicas para os pais (parentkidsright.com). citada na reportagem de Martha Mendonça: Amor demais atrapalha - Revista ÉPOCA, p.72, 13 de abril de 2009, ed.nº 569.)

Definindo vida

+ Marcelo Gleiser
Metabolismo e reprodução
são propriedades essenciais

A vida é uma dessas coisas mais fáceis de identificar do que de definir. É incrível que, passados tantos séculos desde que começamos a pensar cientificamente sobre o mundo, ainda não tenhamos uma definição universalmente aceita sobre o que é a vida.
Por exemplo, sabemos que uma pedra não está viva. E por quê? Uma pedra não come, não bebe, não se reproduz. Comer e beber significa que atribuímos aos seres vivos a necessidade de se alimentar e de transformar alimentos em energia. Ou seja, seres vivos exibem alguma forma de metabolismo. A reprodução, a capacidade de fazer cópias de si mesmo, é outra característica fundamental dos seres vivos. A espécie que não se reproduz desaparece. Portanto, metabolismo e reprodução são as duas propriedades mais importantes da vida. Qualquer definição do que seja vida tem que incluí-las. Mas e o fogo? Se alimenta também, consumindo oxigênio e a matéria que entra em combustão. E se reproduz, espalhando-se por onde pode. Porém, todos concordam que o fogo não é considerado um ser vivo.
Estrelas, também, podem confundir. Por meio da fusão nuclear, consomem o hidrogênio em seu interior, transformando-o no elemento hélio, um processo que libera enormes quantidades de radiação. Numa espécie de autofagia, as estrelas se alimentam da própria matéria. De certa forma, estrelas também se reproduzem: quando uma "morre", explode com enorme violência, espalhando sua matéria pelo espaço. Se essa matéria colidir com uma nuvem de hidrogênio, causará instabilidades que fazem com que a nuvem entre em colapso e se transforme, caso tenha matéria suficiente, numa nova estrela. Dentre outras coisas, a diferença entre o fogo ou uma estrela e uma ameba ou uma mariposa está na composição química: seres vivos são formados por compostos orgânicos, moléculas complexas que incluem proteínas e ácidos nucléicos, o RNA e DNA usados na reprodução.
Vemos na insistência de uma definição da vida uma limitação da linguagem. Não é que não saibamos como definir a vida; talvez a vida seja indefinível, ao menos de forma precisa e universal. Talvez tenhamos que nos contentar com uma definição operacional: a vida é um sistema de reações químicas autossustentáveis capazes de extrair energia do ambiente e de se replicar. Mesmo que essa definição não mencione compostos orgânicos, é difícil incluir o fogo e as estrelas nela. Em discussões sobre o que é a vida, sempre se fala nos vírus e nos príons como casos limite. Os vírus só se reproduzem em contato com uma célula viva, e os príons nem material genético têm. Por não terem autonomia, ambos são considerados "replicadores" em vez de seres vivos. Essas distinções e definições não são apenas questões de interesse acadêmico. Com a exploração de outros planetas e luas, é cada vez mais importante compreendermos as várias facetas da vida. Mesmo que limitados no momento pelo que estudamos aqui na Terra, nossas definições precisam ser gerais o suficiente para englobar formas de vida inesperadas. É difícil prever em detalhe o que nos espera em outros mundos. Talvez nada, ao menos a julgar pelo que encontramos até agora. Contudo, como dizia Carl Sagan, a ausência de evidência não é evidência de ausência. (Aliás, essa definição funciona também para fadas, duendes, Deus...)
Devemos manter a cabeça aberta e nossas definições amplas, para englobar o desconhecido. Seja o que for, se estiver vivo precisará de energia e terá de se reproduzir. Com relação a isso, não temos do que duvidar.
*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe1204200904.htm

Vi um velho pulando...

Rubem Alves*
Bashô (1644-1694), poeta japonês,
foi o mestre supremo dos
haikais.
Este é um dos seus mais famosos:
“Casca vazia:
a cigarra
cantou-se toda.”
Bashô não era nome.
Era apelido.
A palavra “bashô” quer dizer “bananeira”.
Era a árvore favorita do poeta.
Bananeiras são árvores estranhas, diferentes das outras. Cada bananeira dá um cacho de bananas somente. Seu caule extremamente macio deve então ser cortado — o que pode ser feito com um único golpe de facão. Cortado o caule, o tempo passa e tudo indica que a bananeira vai morrer. Aí acontece inesperado. De dentro do cepo velho nasce um broto que cresce e vira outra bananeira que dará outro cacho de bananas e assim sucessivamente... Ao comerem banais bananas compradas em feiras lembrem-se do mistério das bananeiras... Essa lembrança fará com que as bananas fiquem mais perfumadas e mais doces....
Eu havia cortado várias bananeiras que impediam o acesso à uma cachoeira, em Pocinhos do Rio Verde. Algumas semanas depois voltei ao lugar, e esse hai-kai apareceu-me instantaneamente:
“Bananeira cortada:
no cepo velho
um broto criança.”
Aí as bananeiras cortadas me fizeram pensar na Adélia. Que associação mais louca... Mas, como psicanalista aposentado, sei que todas as associações, por loucas que pareçam, têm razões. Por que pulei do Bachô para a Adélia? Porque os dois fizeram poesia sobre cigarras.
As cigarras são seres subterrâneos e silenciosos — algumas chegam a ficar 17 anos habitando a terra escura, movimentando-se entre as raízes das árvores. De repente saem da terra, arrebentam as cascas duras que as continham (eram ataúdes) e se tornam seres alados, cantantes.
Muitos anos atrás, antes mesmo de ter lido o haikai de Bashô colhi, no bosque onde caminho, algumas cascas vazias de cigarra e as coloquei numa bonsai, no meu consultório: tinha esperança de que as pessoas entendessem aquele haikai sem palavras. E a mensagem era “seres subterrâneos podem se tornar seres alados!”
Sobre as cigarras a Adélia escreveu: “Nem um pouco delicadas as cigarras são.” Tão brutas que seu canto é “vidro moído que elas esguicham dos seus peitos.” Tão bruto é o canto que, terminada a cantoria só resta uma casca vazia, cadáver. Mas aí ela termina o poema dizendo: “O que ela fica gritando eu não entendo, sei que é pura esperança...”
A casca vazia da cigarra, o cepo cortado da bananeira são sarcófagos onde a vida espera. Eu nunca havia percebido isso! Que os sarcófagos são lugares onde a vida espera...
“Nunca nada está morto. Eu sempre sonho que uma coisa gera, o que não parece vivo, aduba. O que parece estático, espera.” “A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos da alegria estão inchados e úmidos, vão brotar sinos...”
As lagartas, cuja vida se resume em devorar as folhas sobre que se arrastam, após esgotarem essa fase rastejante e gastronômica entram num sarcófago que elas mesmas tecem, mergulham num sono profundo, e quando acordam não mais se reconhecem: tornaram-se uma outra coisa: seres coloridos, voantes de flor e flor, borboletas.
Metamorfoses... Acontecem sempre de repente — e embora não pareça, somos nós, seres humanos, aqueles que com mais facilidade passam por elas. Nossos corpos são mais leves que os corpos dos animais. É que nossas cascas, diferentes das cascas dos animais que são feitas só de carne, são feitas com uma mistura de carne e palavras. Por isso que Jesus ensinou ao Diabo que nós, humanos, não vivemos só de pão. Na nossa dieta há de haver palavras...
Somos como uma receita culinária: basta mudar as palavras-ingredientes para que os corpos dos que comem sejam metamorfoseados.
Os especialistas nessa magia eram os teólogos católicos medievais que acreditavam que as palavras eram potências mágicas que tinham poder para transformar tudo aquilo que fosse por elas tocado. O pão e o vinho, tocados pelas palavras sagradas, deixavam de ser pão e vinho e se transformavam em carne e sangue. Literalmente não acontecia nada. Na linguagem teológica, os “acidentes” permaneciam os mesmos. Mas a “substância” escondida sob os acidentes se transformava numa outra. Acontecia a “transubstanciação”...Que bom seria se os educadores soubessem disso, que eles são feiticeiros que falam para “transubstanciar os alunos...”
Nietzsche, aquele mesmo que disse que “Deus morreu”, era um feiticeiro. Falava para invocar uma metamorfose universal: queria ressuscitar os mortos, transformar ovelhas em pássaros e camelos em crianças... Mas ele sabia que as metamorfoses acontecem somente se se morre antes. Coisa que ele certamente havia lido em Goethe que escreveu: “Morre e transforma-te. Não satisfeito ele acrescentou: “Somente onde há sepulturas há também ressurreições...”
Na Páscoa se celebra as cascas ocas das cigarras, os cepos cortados das bananeiras, os ataúdes vazios das borboletas.
Minha esperança particular, minha oração, é que os velhos se metamorfoseiem em crianças. E assim escrevo o meu hai-kai:
“Bengala jogada fora...
O velho vai pulando corda como criança...”

*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador.
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1628899&area=2220&authent=B199DE7C6CEA92B1BBDE5E6CC89293 -12/04/2009

PESSACH e identidade judaica

Jaime Pinsky*

Não há tantos judeus quanto se imagina, mas como eles aparecem! Na minha adolescência, eu já conseguia distinguir os judeus gastronômicos (aqueles que adoram de guefilte fish e hering) dos ufanistas (que contam o número de prêmios Nobel conquistados pelos judeus e os comparam com os recebidos por outros povos), assim como, pelo sotaque, os os poilishers (oriundos da Polônia) dos litvishers (oriundos da Lituânia).
Mais tarde soube que havia os sefaradim e os ashkenazim, os esquerdistas e os direitistas, os moradores do tradicional bairro do Bom Retiro e os do supostamente aristocrático Higienópolis, e assim por diante. A história do náufrago que vivia sozinho numa ilha e que construiu duas sinagogas (pois precisava ter uma em que nunca pisaria) parece piada, mas não é: o judeu pode não saber com clareza a favor do que ele é, mas não tem dificuldade em saber contra o que deve se colocar.
Não é absurdo imaginar que isso decorra do fato de as leis judaicas falarem mais de proibições do que de ações recomendadas, mais de punições do que de elogios. Curioso que Deus, quando se manifesta aos judeus, geralmente reprime, embora para terceiros tenha por hábito elogiar aquele povo, chamando-o de eleito e tudo o mais. Vá entender.
Pensando bem, dá para entender. Afinal, não é assim também que faz a mãe judaica, nos endeusando para os outros (particularmente para outras mães judaicas) e lembrando, quando fala conosco, de como não sabemos fazer as coisas direito e somos fracos, incompletos e dependentes (dela, com toda certeza)?
Tudo isso deve ter desenvolvido nossa capacidade de responder à altura, desenvolver argumentos, exercer a dialética. Quem já frequentou uma escola rabínica sabe a balbúrdia que é aquele bando de jovens debatendo cada passagem bíblica, buscando um sentido novo em cada frase, desvendando cada palavra, interpretando incessantemente e em voz alta o conteúdo que a um leigo pareceria simples e evidente. Seria a enorme presença de advogados judeus nos EUA uma outra extensão dessa habilidade desenvolvida desde criança como instinto de sobrevivência diante da esmagadora e onisciente ídishe mame?
Tudo isso para dizer que o Pessach, a Páscoa judaica, é uma comemoração única. Aparentemente, ela registra “a saída dos judeus do Egito”. Mas como apreciamos argumentar começamos: que judeus?
Historiadores, mesmo os mais tendenciosos, não conseguiram encontrar nenhuma evidência da ida, ou mesmo da presença de judeus no Egito, daí ser difícil falar de sua saída. Consideramos a Travessia um mito de criação, desses que todos os povos, nações, religiões e etnias têm (quase todos os grandes fundadores nasceram de forma diferenciada — vejam os casos de Moisés, Jesus, Rômulo e Remo, por exemplo —, tiveram, ainda jovens, sua vida ameaçada e não viveram o suficiente para ver sua obra frutificar). O que parece aceitável é que grupos saídos do Egito tenham se constituído como povo no deserto e se organizado em clãs, ou tribos, como era usual na época. Posteriormente, por volta do ano 1000 a.C. as tribos se unificaram formando um ou dois reinos, geralmente frágeis, porque estabelecidos entre os dois grandes impérios do Médio Oriente, Egito e Mesopotâmia.
Ainda há os que pensam que o judaísmo de hoje deveria ser o mesmo que o do Templo de Jerusalém. Para esses deve-se chorar para sempre as destruições do Templo de Jerusalém, tanto a de 586 a.C., perpetrada por Nabucodonossor, quanto a do ano 70 E.C, pelas mãos do romano Tito, suposto início da Diáspora. Pessach, para a classe sacerdotal, deve ser um tributo doméstico à hierarquia religiosa. Difícil, hoje em dia, a volta de um templo, como braço religioso do poder político, fazendo sacrifícios de animais, restaurando o poder sacerdotal e tendo funções arrecadadoras, como o antigo. Sua reinstauração é uma idéia tão anacrônica que nem sequer fundamentalistas judeus a defendem seriamente.
Gosto da definição segundo a qual um povo é um grupo com a consciência de um passado comum. Quando eu digo consciência não quero dizer que esse passado comum tenha de fato existido. Ao optar por me sentir herdeiro das melhores tradições judaicas — e, sim, eu tenho o direito de escolhe-las — eu passo a ser herdeiro delas. Não interessa se há 3 mil anos meus ancestrais já eram judeus, não importa se sou fruto da conversão de cázaros na Idade Média, ou de ucranianos após 1648, não vem ao caso se optei por meu judaísmo há um ano ou uma semana. O importante é a consciência que tenho de ser herdeiro dos profetas sociais e de tantos judeus que sonharam com uma humanidade melhor. Sim, Pessach é uma travessia.
*Historiador, doutor pela USP, professor titular da Unicamp, diretor editorial da Editora Contexto.
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 12/04/2009

sábado, 11 de abril de 2009

Em busca da felicidade

Zygmunt Bauman*
Ela é possível?
Como encontrá-la?
O sociólogo Zygmunt Bauman vai atrás das respostas,
não garante solução mágica,
mas tem ricas definições
sobre um dos temas centrais da nossa existência
no livro
“A Arte da Vida”

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Zygmunt Bauman ao Cultura:
A infelicidade

Sigmund Freud observou, há muito tempo, que o “estado de felicidade” é contrário à natureza humana e, portanto, impossível de ser alcançado. A felicidade pode ser apenas uma experiência momentânea: quando o estado de infelicidade que atormenta você por um longo tempo de repente acaba... Se não fosse pela infelicidade, a ideia de “felicidade” dificilmente ocorreria. Quando, por exemplo, uma dor de dente para, você se sente feliz; mas, a menos que você sofra uma dor terrível no dia anterior, isto não será suficiente para te fazer acordar de manhã sem dor para tornar você feliz. Na combinação “infelicidade-felicidade”, a primeira tem prioridade, tem o poder de dar forma aos sonhos e desejos e transformá-los em ação para que possam ser alcançados. Nós sabemos como a infelicidade é, podemos nomeá-la e descrevê-la de forma muito detalhada. Mas nós só podemos visualizar a felicidade como superação/eliminação da infelicidade – e o erro comum, embora enganoso e oneroso, é prever que, se apenas este espinho for puxado para fora do nosso corpo, a vida será feliz. Infelizmente, a impressão de que o êxtase foi efetivamente alcançado não pode durar mais tempo do que um momento fugaz.
O desejo

A nossa modernidade tomou o caminho inverso de manter o desejo não somente vivo, mas de expandi-lo e torná-lo mais intenso, assim como de disseminá-lo e torná-lo comum a todos. Um dos documentos fundadores da era moderna, a Declaração Americana da Independência, proclamou a “perseguição da felicidade” como um direito humano universal e inalienável. O documento proclamou isso verossímil, possível de ser atingido com a ajuda dos conhecimentos fornecidos pela ciência e com a capacidade oferecida pela tecnologia – e com o incansável esforço dos perseguidores. O desejo e o crescente desejo de felicidade e de uma felicidade cada vez maior tornou-se o principal motor do “desenvolvimento moderno” e do “crescimento econômico”.
O consumismo

Na vida moderna, incitada e impulsionada por desejos, a busca da felicidade tem sido identificada com o crescimento do consumo. O resultado é o consumismo: algo mais do que apenas “consumo”, que tem sido a condição natural não apenas dos humanos, mas de toda e qualquer vida. “Consumismo” significa o desenvolvimento de outra ideia e uma preocupação humana bastante comum com o consumo elevado à categoria de filosofia total de vida, e uma estratégia de vida abrangente, ambas moldando o mundo como um contêiner lotado de possíveis bons consumidores a serem escolhidos, selecionados e festejados, comprando habilidades como instrumentos principais na busca de uma vida feliz – e despertando os desejos por bens, e não por suas satisfações, como a parte mais importante de quem procura a sabedoria na felicidade. Eu mencionei antes que a necessidade normal de consumo, comum a todos os organismos vivos, se transformou no motor da sociedade moderna; agora, a sobrevivência e a perpetuação da sociedade moderna tornaram-se dependentes do aumento contínuo dos desejos de consumo e da intensidade de compras. É por isso que o atual colapso dos bancos de crédito representa um verdadeiro desastre. Ele atinge o cerne do consumidor, da sociedade de consumidores e da cultura consumista. A crise atual não é apenas a questão da (temporária?) queda do consumo, mas da própria sustentabilidade do consumismo.
As drogas

As raízes do atual sofrimento, como a raiz de todos os males sociais, são profundas e irrecuperáveis no nosso meio de vida, que preza pelo nosso zelo cultivado e pelo hábito agora profundamente enraizado de correr para o consumo de crédito sempre que há um problema ou dificuldade. A vida sobre o crédito é tão viciante como quaisquer outras drogas, e certamente ainda mais viciante que outros tranquilizantes oferecidos. Nós agora estamos propondo o caminho aparentemente mais fácil de chocar as aflições que afetam tanto os dependentes quanto os traficantes: através da retomada da oferta de drogas. Voltar para o vício que até agora parecia nos servir tão bem, não se preocupar com o problema, não mencionar que procuramos as suas raízes... Chegar às raízes do problema que agora têm sido levadas pelos departamentos “top secret” ao foco da atenção pública não é uma solução instantânea. É, contudo, a única solução com alguma chance de ser adequada à enormidade do problema; e para sobreviver à intensa, embora comparativamente breve, agonia de deixar o vício.
A ganância

Citando Hector Sants, o líder do Finances Services Authority, que há alguns dias confessou que “os modelos de negócio são mal-equipados para sobreviver ao estresse... um fato que lamentamos”, Simon Jenkis, um excepcionalmente perspicaz analista do The Guardian, observou que “era como um piloto protestando que o avião estava voando muito bem, exceto os motores.” Mas Jenkins não perde a esperança: ele ainda alega que uma vez que a cultura da “ganância é boa” foi “testada para a destruição pela recente histeria de renda da cidade”, os “componentes não econômicos, daquilo que nós referimos vagamente como boa vida, terão maior destaque”; tanto em nossa filosofia de vida quanto nas estratégias políticas dos nossos governantes. Vamos nos juntar às esperanças dele: nós ainda não chegamos ao ponto sem volta, ainda há tempo (embora curto) de refletir e mudar o rumo, nós ainda podemos reverter esse choque e o trauma para nós e nossos filhos...
O indivíduo

A sociologia, como vocês sabem, é uma investigação em curso da diferença que faz para nós e sobre nós, humanos, vivermos em sociedade: em qualquer tipo de sociedade, ou em uma forma particular de sociedade. O nosso tipo de sociedade, como você sabe bem, é uma sociedade fortemente individualista, é um tipo de sociedade que faz de nós todos, cada homem ou mulher, “indivíduos de jure” lutando para serem “indivíduos de fato”. E isto significa ajudá-los a compreender as redes e os mecanismos sociais que os tornaram assim, e para desnudar a intrincada, porém complexa, interdependência entre o curso que toda a sociologia está tomando e as trajetórias de vida individuais. Neste contexto, a sociologia necessita clarear as chances desta ou daquela estratégia de vida disponível a partir do conjunto viável estabelecido pela sociedade, bem como as chances práticas de tais estratégias trazerem os resultados que são propostos pela teoria – como é acreditado pelo senso comum e por aqueles que obedecem a seus conselhos. Isto é, o que a sociologia deve fazer se deseja permanecer fiel à sua vocação.
*Zygmunt Bauman nasceu na Polônia e desde 1971 mora na Inglaterra. Professor emérito das universidades de Varsóvia e de Leeds, é autor de vasta obra que analisa sobretudo as transformações das relações socioculturais em nosso tempo.
A reportagem é LUIZ ZINI PIRES, ZHCultura, 11/04/2009

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Cristo no cinema

Moacyr Scliar*
“O papel de Cristo foi desempenhado
por um magro e melancólico estudante espanhol,
Enrique Irazoqui”
Ao menos em Porto Alegre, a tradição se manteve durante muito tempo: na sexta-feira santa as emissoras só irradiavam música erudita e os cinemas obrigatoriamente mostravam algum filme relacionado a Cristo, em geral produzido por Hollywood. O mais antigo desses era, creio, O rei dos reis (1927) dirigido por Cecil B. de Mille. O mesmo título tinha uma produção 1961, dirigida por Nicholas Ray, com trilha sonora de Miklós Rózsa e narração de Orson Welles. O papel de Jesus era desempenhado por Jeffrey Hunter, que, loiro e de olhos azuis (aliás, hoje isso seria politicamente incorreto...), não tinha nada a ver com a provável aparência do Jesus histórico.
Já em O evangelho segundo São Mateus (1964), de Pier Paolo Pasolini, os atores, italianos, provavelmente eram mais parecidos com os personagens judeus da época de Cristo, também eles habitantes da bacia do Mediterrâneo. Surpreendente é que Pasolini, ateu, marxista e homossexual, diretor de filmes ousados como Decameron e Salò, 120 dias de Sodoma, tenha abordado o tema. Mas era a época do Papa João XXIII, de uma Igreja aberta ao diálogo, e Pasolini foi convidado para um seminário num mosteiro franciscano. Ali encontrou um exemplar dos evangelhos, que leu, fascinado, decidindo de imediato fazer o filme.
Dentro do conceito do neorrealismo italiano, segundo o qual pessoas comuns (no caso, camponeses, operários) podiam se sair melhor na tela do que atores profissionais, o papel de Cristo foi desempenhado por um magro e melancólico estudante espanhol, Enrique Irazoqui; às vezes é um Jesus terno, amável, como na cena do sermão da montanha, às vezes um líder irado, revolucionário. O enfoque realista é acentuado pelo sombrio branco e preto do filme.
Já o colorido Jesus Cristo superstar (1973), de Norman Jewinson, baseia-se no musical de Andrew Lloyd Webber, com texto de Tim Rice. Realismo ali não importa; trata-se claramente de uma paródia, como se nota pelas letras das canções irônicas e recheadas de gíria. Judas é um personagem central; retratado como um homem realista e atormentado, descontente com a atuação aparentemente anárquica de Jesus. Há cenas curiosas: levado a Caifás, Jesus é cercado por um bando de repórteres, que lhe perguntam o que fará, obtendo em resposta apenas o silêncio.
Tanto o show da Broadway como o filme foram reprovados por grupos religiosos, inclusive porque Tim Rice teria dito algo como “não vejo Cristo como Deus, mas simplesmente como o homem certo, no lugar certo, na hora certa”. Além disso, a visão até certo ponto simpática de Judas reforçou as críticas.
Controversa também é a obra que deu origem a A última tentação de Cristo (1988) filme de Martin Scorsese, com Willem Dafoe no papel de Jesus, Harvey Keitel como Judas, Barbara Hershey fazendo Maria Madalena e David Bowie (!) posando de Pôncio Pilatos. O livro de Nikos Kazantzakis fala de um Cristo que, embora livre de pecado, é sujeito às emoções humanas, medo, dúvida, depressão e às tentações do sexo (pensa inclusive em viver com Maria Madalena), o que, de novo, incomodou muitas pessoas religiosas. Na cruz, Cristo tem uma espécie de alucinação (causada por Satã), em que se vê casado com Maria Madalena (que depois morre) e pai de família.
Os protestos de grupos religiosos, que tinham começado já durante a filmagem, explodiram depois da estreia; inclusive coquetéis molotov foram lançados contra um cinema parisiense que mostrava a película, proibida no México, Chile, Filipinas, Cingapura e África do Sul.
Em 1989 estreou Jesus de Montreal, filme canadense dirigido por Denys Arcand. De novo, um enfoque pouco convencional: um grupo de atores que vai encenar a Paixão em Montreal começa a misturar os acontecimentos dos evangelhos com suas vidas. Assim, o ator que faz o papel de Cristo identifica-se com Jesus a ponto de sofrer atrozmente com a Paixão.
E finalmente temos o polêmico Paixão de Cristo, de Mel Gibson. Foi filmado na mesma localidade em que Pasolini produziu o seu Evangelho segundo São Mateus, e Gibson tentou dar à sua realização um clima de autenticidade, fazendo os atores falarem em aramaico, o idioma da época; mas terminam aí todas as semelhanças. O filme foi acusado de antissemita, mas talvez nem isso seja; na verdade, é apenas um pretexto para mostrar cenas de uma violência nauseante, piores que as de Mad Max estrelado pelo mesmo Gibson. Como disse à época o crítico da Newsweek, David Ansen: “Em lugar de me comover pelo sofrimento e pelo sacrifício de Cristo, senti-me ultrajado pela intenção do cineasta em castigar o público, sabe-se lá por qual razão”. O (bom) ator James Caviezel, que tinha 33 anos, a mesma idade de Cristo ao morrer, foi, durante as filmagens, atingido por um raio na cabeça. Nada de grave lhe aconteceu, mas será que aquilo não era um protesto vindo das alturas?
*Moacyr Scliar escritor e colunista quinzenal do Correio Braziliense.
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 10/04/2009

Dois amigos

Frei Betto*

A comemoração (igual a fazer memória) da Paixão de Jesus me remete a dois amigos recentemente transvivenciados e a quem me ligavam laços de fraternura: Victor Siaulys e Márcio Moreira Alves.
Vítima de leucemia, Victor me chamou ao hospital no domingo, 15 de março. Mulher, filhos e alguns amigos rodeavam-lhe o leito. Após anos de incansável luta contra a doença, o homem que fabricava remédios — era sócio do laboratório Achê — sabia que a ciência chegara ao limite. Seu organismo definhava, a dor o consumia, embora o espírito estivesse impregnado da fé que, sobretudo nos últimos anos, lhe dilatava o coração.
Disse-me desejar atravessar a linha da vida. Perguntou-me se tal anseio é pecado. Respondi-lhe que não; é direito. A ciência esgotara seus atuais recursos. Agora, nem se devia apressar-lhe a transvivenciação, nem adotar procedimentos que trazem lucro aos hospitais sem esperança ao paciente. Melhor permitir que a natureza cumprisse, no seu ritmo, os desígnios de Deus.
Victor queria saber se Deus haveria de recebê-lo bem. Lembrei-lhe que Deus é amor e ele, Victor, a amorosidade personificada, como atestam todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Seu testemunho de vida, ele o registrou em sua autobiografia, Mercenário ou missionário? (São Paulo, ed. Laramara, 2008), redigida durante os meses de enfermidade.
Entre as muitas obras da família Siaulys se destaca a Laramara, a mais respeitada instituição do Brasil destinada à qualificação profissional de cegos de baixa renda.
Frisei que, à porta do céu, ele seria bem acolhido por São Pedro que, como ele, veio de uma família de peixeiros. Victor sorriu. Orgulhava-se de ser filho de imigrante lituano que, graças à banca de peixes nas feiras livres de São Paulo, sustentou a família e o estudo dos filhos.
Oramos juntos, dei-lhe a bênção e, em seguida, ele fechou os olhos e dormiu. Quatro dias depois, faleceu. Deixou escrito o próprio epitáfio, um poema de louvor à existência. E predeterminou que cada pessoa presente ao velório saísse dali levando em mãos um símbolo da vida: num pequeno jarro, a muda de ipê amarelo. Doravante, todos os ipês amarelos são, para mim, sacramentos da presença amorosa de Victor Siaulys.
No sábado, 4 de abril, foi a vez da partida de Marcito, como os amigos tratavam Márcio Moreira Alves. Jornalista e político, foi o primeiro a desnudar, em livro, a ditadura militar, ao relatar seu caráter desumano no livro Torturas e torturados (Rio, Idade Nova, 1966). Foi também o primeiro a perceber que uma nova Igreja Católica brotava de comunidades populares reunidas para celebrar a fé em Jesus libertador.
Eleito deputado federal pelo Rio, em 1966, pronunciou o mais famoso discurso contra o regime militar, ao instigar a população a ausentar-se das comemorações do 7 de setembro de 1968. O tom indignado e profético de seu pronunciamento serviu de pretexto à decretação do Ato Institucional no 5, a 13 de dezembro do mesmo ano. O Brasil mergulhou nas trevas e Marcito deixou o país clandestinamente.
Ao retornar do exílio em 1979, reassumiu o jornalismo e foi atrás do “Brasil profundo”, como ele qualificava aquelas situações que, para o bem ou para o mal, traduzem a verdadeira face da realidade brasileira.
Afetado por um acidente vascular, recolheu-se à vida familiar. Visitei-o com frequência em casa e no hospital. Gostava de receber a bênção da saúde. Em seu velório, li trechos da carta que me escreveu de Vitória, em junho de 1966, ao terminar sua pesquisa para a redação da obra O Cristo do povo (Rio, Sabiá, 1968). O contato com bispos, padres, religiosas e, sobretudo, leigos, a gente pobre que iniciava, Brasil afora, as Comunidades Eclesiais de Base, suscitou em Marcito o reavivamento da fé cristã:
“Betto irmão: Estou sozinho em meu quarto de hotel, à espera do avião, com todo o esquema de um livro montado na cabeça e consciente de que não mais poderei atrasar o momento de começar a transformá-lo em linhas, páginas e capítulos. (...) Não só encaminhei-me para a Fé, titubeante a princípio, incerto ainda em muitos pontos, sobretudo de ignorância, mas hoje já sólido e acho que tocado pela Graça, meti-me em todo o mecanismo da Igreja no Brasil, vasculhando-lhe os porões, descobrindo primeiro suas fraquezas mas também sua glória e missão. É isto que me atemoriza. Sei que cada um de nós tem de dar seu testemunho. Mas estou mal preparado para o meu. Entrei nas investigações com espírito político e chego ao fim com espírito cristão. É muito mais difícil e jogo com instrumentos pouco familiares, que não domino direito.
“(...) E mais, de ver-me de posse de uma massa de informações que me coloca, cristão novo e incerto, com a responsabilidade de julgar os outros e a minha Igreja. Eu sabia que o compromisso que assumia de viver cristãmente ia ser duro, sobretudo para minha vida pessoal, hedonista e, talvez, para minha vida pública, ambiciosa. Mas até aí o risco era meu, pessoal e, possivelmente, de minha mulher, sem cujo apoio não poderia caminhar muito.
“Só a ti é que escrevo tudo isso. Precisava desabafar um pouco. (...)
Um abraço do Márcio”.
*Escritor, é autor de A mosca Azul - reflexão sobre o poder (Rocco), entre outros livros
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 10/04/2009

A Páscoa e a humanização do mundo

Leomar Brustolin*
O sentido da morte de Jesus
“abrange toda a realidade humana alienada
de diferentes formas
pela força do mal.
Para falar da paixão de Jesus Cristo hoje,
portanto, será preciso encontrar
o significado
dessa morte para nós”.
A análise é do padre Leomar Brustolin. Em suas respostas, ele declara que “a beleza sempre nova da Páscoa, a passagem para as primaveras da vida, a libertação das amarras do presente e a ressurreição que dá sabor ao cotidiano ficam escondidas e somente são acolhidas por aqueles que esperam um tempo novo, um outro mundo possível”. Refletindo sobre o significado da Páscoa em nossos dias e sobre a importância de Jesus Cristo, Brustolin considera que “o que dá sentido à morte de Jesus é a sua total fidelidade ao Pai e ao seu projeto de salvação. A cruz é o fim de um processo”. E completa: “Seguir Jesus hoje significa não temer a estranheza entre o Evangelho e o estilo excludente de vida que se impôs entre nós”.
Leomar Antônio Brustolin é pároco da Catedral Diocesana de Caxias do Sul. Possui graduação em Teologia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, mestrado em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e doutorado em Teologia, pela Pontificia Università San Tommaso, em Roma, Itália. Atualmente, é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde é coordenador do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Teologia. De sua autoria, destacamos: Quando Cristo vem... a Parusia na Escatologia Cristã (2. ed. São Paulo: Paulus, 2001), Maria, símbolo do cuidado e Deus (São Paulo: Paulinas, 2004), Antonio Francisco. Caminho de fé. Livro do catequizando (São Paulo: Paulinas, 2006) e A fé cristã para catequistas (São Paulo: Paulinas, 2008). Ele estará presente na Unisinos hoje, dia 06 de abril, participando do evento de Páscoa promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, com a palestra “A paixão de Cristo hoje”.
Confira a entrevista.

O que significa, hoje, a Paixão de Cristo?
Leomar Brustolin - Vivemos num mundo marcado tanto pela beleza, pelo conforto e pelo prazer, quanto pela dor, pelo vazio e pelo mal. O sofrimento, entretanto, questiona o sentido da vida. Queremos justificar a presença intrusa do mal buscando seus responsáveis. Muitas vezes, a procura dos culpados nos faz esquecer das vítimas. Nem sempre é possível identificar a causa da dor. Em alguns casos pode ser o resultado de um processo violento cometido livre e conscientemente por grupos ou indivíduos. Assim se conhece a paixão causada em Auschwitz, Hiroxima e Nagasaki. Outras vezes, pode ser o que resulta da injustiça social. É o caso da fome e do desemprego causados pelo sistema econômico. Pode ser também a paixão de sentimentos enlouquecidos que matam o outro. Como o ocorrido com a menina Eloá, em São Paulo, mantida em cárcere privado e assassinada pelo namorado. Pode ser até a paixão da natureza destruída pela intervenção humana. Veja-se a situação da Amazônia brasileira. Enfim, pode ser também a fatalidade da vida que está sujeita aos acidentes naturais. Esse foi o mal experimentado pelas vítimas do tsunami, a onda gigante gerada por distúrbios sísmicos, que possui alto poder destrutivo quando chega à região costeira.

Como falar da paixão de Cristo diante de realidades tão plurais?
Leomar Brustolin - Poderíamos escolher um tipo de sofrimento para especificar o acontecido com Jesus: o martírio, que é uma dor provocada por uma causa defendida. Certamente, esse tipo de sofrimento remete a Jesus Cristo, mas o mistério da paixão vai além desse âmbito. O sentido de sua morte abrange toda a realidade humana alienada de diferentes formas pela força do mal. Para falar da paixão de Jesus Cristo hoje, portanto, será preciso encontrar o significado dessa morte para nós. Ora, o próprio Cristo na cruz não resolveu o problema do sofrimento inocente e nem respondeu a todos os enigmas que a morte impõe. Mais do que explicar e responder às indagações da existência, Jesus Cristo apresenta-se como Presença entre os sofredores e como solidariedade para as vítimas que o mal produziu. Durante sua crucificação, Jesus pede que o Pai perdoe seus algozes, porque, diz ele: “não sabem o que fazem”. A irracionalidade da morte de Cristo faz com que ele mesmo perdoe, pois, para ele, mais importante do que encontrar os culpados e condená-los é derrotar o mal. Sua perspectiva de salvação supera tudo. A compaixão do Deus de Jesus Cristo não explica o padecimento. O Deus cristão, porém, não fica imparcial diante da ação do mal, ele toma posição solidária ao sofredor e julga, assim, o causador do mal, seja quem for. A paixão de Cristo hoje, então, implica em solidariedade e compromisso com as vítimas. Para isso, será preciso vencer a apatia diante da dor do outro. Será preciso amar, interessando-se pela dor do outro. É como escreve Erico Veríssimo : o oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença.

Quais são as grandes lições existenciais e espirituais da Paixão de Cristo?
Leomar Brustolin - A sentença de morte não surgiu de repente na vida de Jesus. Ela foi o preço que Cristo pagou por sua opção pelo Reino de Deus e sua justiça. O que dá sentido à morte de Jesus é a sua total fidelidade ao Pai e ao seu projeto de salvação. A cruz é o fim de um processo. Pode-se dizer que a grande lição do martírio de Cristo é a da prova de amor pela vida. Ele veio para que todos tenham vida em abundância (Jo 10,10). Contudo, por defender a vida ameaçada, foi assassinado. Hoje, da mesma forma, o seguidor de Jesus há de colocar-se ao lado de todos que perdem seus direitos de viver. Essa tarefa há de ser uma causa coerente que cuide da vida, desde o seu início até o seu fim natural.
Outra lição que aprendemos com Jesus é que o amor subverte nosso pensar e nosso agir. Quem segue o Crucificado não pode recear o escândalo da cruz. Para os judeus, a morte de cruz era um sinal de maldição. Pela lei judaica, um homem crucificado era expulso do povo, maldito por Deus. Mas a cruz de Jesus não é a imagem do seu fracasso. Muito pelo contrário, ela é a imagem da maior prova do amor de Deus pelos homens: “Não existe amor maior do que dar a vida pelos amigos!” (Jo 15,13). Na cruz, o Filho de Deus sofre e morre pelos últimos deste mundo: os pobres e injustiçados, doentes e rejeitados, mulheres marginalizadas, pecadores e prostitutas. Todos amigos de Jesus que o Pai ama e quer resgatar. Seguir Jesus hoje significa não temer a estranheza entre o Evangelho e o estilo excludente de vida que se impôs entre nós.
Finalmente, é preciso ver que no meio da cruz, brilha a luz. Não existe noite que impeça a aurora. Quiseram matar o Nazareno da forma mais vergonhosa possível, para acabar com Ele e a obra que havia iniciado. Porém, essa “hora das trevas” já havia sido anunciada pelo próprio Jesus diversas vezes. Através da sua paixão e morte, o Cristo manifestaria sua glória ao mundo. Para os cristãos, a cruz do Senhor é a verdadeira “árvore da vida”. Neste sentido, o sofrimento, a incompreensão, a perseguição e tudo que possa parecer a hora das trevas do cristão neste mundo está galvanizado de uma esperança maior: a ressurreição.

Como a Paixão pode inspirar a nós, homens e mulheres da pós-modernidade, a cultivarmos nossa espiritualidade e solidariedade?
Leomar Brustolin - O amor revelado sobre a cruz indica para todos – crentes e não-crentes que estão em busca da verdade – o bem que salva e se oferece como luz e força também para superar os tormentos do mal. O cristão deve ser, ao mesmo tempo, empenhado e desempenhado, cidadão da terra e do céu, plenamente disponível a cooperar para humanização do mundo e também crítico para esperar a novidade do reino que há de vir. Esta esperança o faz olhar sempre além das realizações. Empenhado, deve ajudar a produzir um futuro melhor para o mundo, mas, ao mesmo tempo, disponível, para acolher o dom de Deus que traz a consumação das esperanças humanas. A descontinuidade existente entre o progresso humano e o avanço do Reino de Deus no mundo apresenta estas exigências imprescindíveis. Isto não implica num dualismo na história (sagrada–profana), nem incompatibilidade, mas profundo realismo na avaliação das realidades terrestres. A evangelização cristã introduz no mundo um espírito novo que resgata e exalta valores e esperanças em vistas de um processo de humanização.

De que forma a Parusia de Cristo serve como uma fonte de inspiração para nossa atitude frente aos semelhantes e para a relação que temos com o cosmos?
Leomar Brustolin - O que mais ameaça a esperança é a crise. Esta faz com que se perca a confiança no tempo, pois não se sabe mais se haverá futuro. Perde-se a confiança na terra, porque se assiste uma desmedida exploração dos recursos naturais. Perde-se a confiança na humanidade quando se conhece os constantes extermínios que dizimam populações inteiras. A reação à crise se manifesta de diferentes formas, principalmente com o retorno do sagrado, não tanto para recuperar a esperança no futuro, quanto para resgatar terapeuticamente o presente. A crise de sentido possibilita refletir o presente da história na perspectiva de quem deseja “construir a esperança”. Para tanto, será necessário resgatar os enfoques teológico, antropológico e ecológico numa perspectiva de parusia.
A primeira exigência para uma práxis da esperança é esperar em Deus sem triunfalismos. O messianismo moderno assegurava: unidos a Deus, dominaremos a terra e com Cristo julgaremos os povos. Esse sonho entrou em crise porque não foi capaz de perceber que Deus não vem em nosso poder, mas em nosso sofrimento, mediante do seu Espírito vivificador.
Na dimensão antropológica, é preciso avaliar o projeto moderno de ser humano, convencido de que os homens são criados livres e iguais, e que a liberdade, a igualdade e a fraternidade estão estreitamente ligadas entre si. Isso tudo, no entanto, tornou-se apenas uma promessa jurídica e institucional que espera sua concretização. Ora, a esperança cristã supõe fraternidade e solidariedade numa humanidade que, queira ou não, terá um fim comum. Todas as raças e culturas, povos e nações participarão da glória de Deus. Nela, a convivência livre, igual e fraterna será realidade para todos que entrarem na comunhão da pátria trinitária, sem exclusão, discriminação ou castas.
Finalmente, a questão ecológica há de fazer-nos mais atentos à Terra. O projeto da civilização técnico-científica sacrificou muitas vidas, espécies e ecossistemas. O caminho tende à catástrofe planetária. E diante do iminente caos apocalíptico, a esperança parusíaca tem uma palavra para o hoje da terra. A preservação do ambiente e da vida humana não pode ser apenas em vistas de um futuro remoto. O tempo da salvação da terra é o presente. É hoje que se deve agir como se o futuro inteiro do gênero humano estivesse nas mãos da atual geração.

A vida de Cristo ainda pode ser compreendida como um grande exemplo a ser seguido em nossos dias?
Leomar Brustolin - Sim, a vida de Cristo, relatada pelos evangelistas, não exclui ninguém do convívio com Jesus. Hoje, como outrora, é preciso acolher essa Boa Nova que chega como apelo específico para cada pessoa na sociedade. O Evangelho de Jesus apresenta duas tarefas: se, de um lado, anuncia a Boa Nova aos pobres (Lc 4,18), a quem pertence o Reino de Deus (Mt 5,3), de outro, é um forte apelo de conversão aos ricos (Mt 6,24). A primeira coisa que o rico deve fazer diante da aproximação do Reino é reconhecer a própria pobreza, para inserir-se na comunhão com os pobres.
Converter-se significa viver na antecipação de um Reino de Deus que nos precede, e que realiza uma reviravolta da violência para a justiça, do isolamento à comunhão, da morte, para a vida. A conversão possibilita o seguimento de Jesus a homens e mulheres que representam um novo mundo que virá. Esta comunidade, nos primeiros tempos do cristianismo, era composta de pobres e ricos, de tal modo que estes últimos exercitavam o dever da misericórdia no confronto com os necessitados.

Nesse sentido, o que significa ser cristão hoje?
Leomar Brustolin - Os cristãos são “paroquianos” no mundo. Os paroquianos eram, no ambiente grego e romano, aqueles estranhos que passavam por algum território, aí se detinham um pouco, para em seguida prosseguirem a caminhada. Os cristãos sentem-se estrangeiros que vivem em terra estranha, porque já sabem que existe a pátria verdadeira e degustam das forças do mundo que virá. Eles vivem numa realidade nova dentro da velha e atual. Onde se perde a presidência do futuro, decai-se na administração do passado, na institucionalização repetitiva sem criatividade. Esperar o futuro é já permear o presente de uma força que renova o sentido da vida.
Contra todo desespero e ilusão, será necessário seguir criando e trabalhando por um mundo melhor. Apesar dos impérios da morte, da potência dos grupos violentos e das propostas que favorecem uma minoria mundial, o cristão não pode deixar de profetizar em favor da vida, da dignidade humana e da preservação do cosmos. A Páscoa há de possibilitar sonhar, como Isaías, esperando o novo céu e a nova terra. Há de proporcionar o início de um tempo onde justiça e paz se abraçam como canta o salmista. Há de valorizar, defender e conservar o grande cenário que é o universo, no qual a aventura da vida se expressa e se sustenta.

O significado da Páscoa se perdeu em nossos dias?
Leomar Brustolin - Páscoa é passagem. Os povos antigos de cultura agrícola a celebravam como a saída do inverno e a chegada da primavera. Os judeus celebram a passagem da escravidão para a libertação, conforme o relato do êxodo. Nós, cristãos, celebramos a passagem da morte para vida realizada na cruz e ressurreição de Jesus. Ora, em toda celebração pascal há uma dinâmica que impulsiona o ser humano para uma condição nova, desconhecida, maior e plena de esperança. É uma flecha que se lança ao futuro. Em nosso tempo, temos eternizado o presente, muitos não querem pensar uma situação nova, apenas desejam melhorar um pouco a atual. Por isso, a festa da Páscoa fica reduzida a feriado religioso que intensifica a economia: o turismo, o chocolate, o bacalhau. O fato de vivermos numa sociedade pós-cristã se traduz nessa ressignificação do tempo e da festa. Sexta-feira santa virou a festa do peixe e a Páscoa, a do chocolate. Essa situação, contudo, não chega a abalar as pessoas, até muitos cristãos aderem a essas práticas, sem preocupações com seu real sentido. E a beleza sempre nova da Páscoa, a passagem para as primaveras da vida, a libertação das amarras do presente e a ressurreição que dá sabor ao cotidiano ficam escondidas e somente são acolhidas por aqueles que esperam um tempo novo, um outro mundo possível.

Autor: Graziela Wolfart e Márcia Junges
Fonte: UNISINOS

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Por que ler os clássicos

1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo... " e nunca "Estou lendo... "
2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se comoinconsciente coletivo ou individual.
4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes.)
8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos criticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.
9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.
13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho defundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.
Italo Calvino, em Por que ler os clássicos - Companhia das Letras.
Fonte: http://livrosepessoas.blogspot.com/search/label/trechos

Sofismas antissemitas

Roberto Romano
No catolicismo ninguém está acima da norma, sequer o papa. A história eclesiástica mostra pontífices depostos por entendimento ou aplicação incorretos da lei sagrada. Sem falar dos antipapas (em torno de 37 bispos), escolhidos por soberanos para efetuar políticas indignas da ordem magistral. Além das Escrituras, a tradição serve como diretriz para o pensamento e as ações católicas, tanto para os fiéis quanto para a hierarquia. Bíblia e tradição exibem as raízes judaicas da fé, o que torna o antissemitismo uma aberração na vida cristã. Infelizmente, o mundo vive de aberrações e a Igreja seguiu descaminhos em tempos e espaços diversos.
As verdades da Bíblia e da tradição orientam a forma do ensino ministrado pelo Pontífice e pelos Concílios. Vejamos o que diz o Vaticano 2 sobre os judeus na Declaração Nostra Aetate: “Ao perscrutar o Mistério da Igreja, o Sagrado Concílio recorda o vínculo pelo qual o povo do Novo Testamento está espiritualmente (spiritualiter) unido à estirpe de Abraão”. Os conciliares proclamam que “do povo judeu nasceram os apóstolos, fundamentos e colunas da Igreja, como igualmente muitos daqueles primeiros discípulos que anunciaram ao mundo o Evangelho de Cristo”. Adiantam os pastores: “Cum igitur adeo magnum sit patrimonium spirituale Christianis et Iudaeis commune, Sacra haec Synodus mutuam utriusque cognitionem et aestimationem, quae praesertim studiis biblicis et theologicis atque fraternis colloquiis obtinetur, fovere vult et commendare”. O texto latino deve ser apreciado pelos que se recusam a seguir o ensinamento conciliar. A nossa língua assim traduz o trecho: “Sendo pois tão grande o patrimônio espiritual comum aos cristãos e judeus, este sacrossanto concílio quer fomentar e recomendar a ambas as partes mútuo conhecimento e apreço, que poderão ser obtidos principalmente pelos estudos bíblicos e teológicos e ainda por diálogos fraternos”.
Comparemos o mandamento dos padres conciliares com endosso do Sumo Pontífice, e as falas do atual arcebispo de Porto Alegre. Anuncia, em tom solene Dom Dadeus Grings: “morreram mais católicos do que judeus no holocausto, mas isso não aparece porque os judeus têm a propaganda do mundo”. (Revista Press, retomada em entrevista do jornal Zero Hora, 26/3/2009). Retornemos ao texto do Concílio. Qual ser humano que pensa, com prudência, assimilaria a sentença do bispo ao “mútuo conhecimento e apreço”? Se, como afirma o pastor de Porto Alegre, os judeus são os donos da propaganda mundial (na era nazista, eles eram acusados, além daquele defeito, de serem os monopolistas das finanças planetárias) sua fala e seus atos entrariam no terreno da mentira, da plena dissimulação tendo em vista o engodo. Apreço? A frase do antístite, além de caluniosa retoma litanias que finalizaram em Auschwitz e outros campos do inferno, anunciados na dantesca Noite de Cristal.
Mas o sofisma, subjacente à calúnia, é ainda mais cruel: “morreram mais católicos do que judeus no holocausto”. Dom Grings aprendeu, no seminário, parece, as lições da lógica tomista. A definição deve conter o definido, e apenas o definido. Ela deve ser precisa, evitar a generalização, ser própria e não confundir o definido com uma de suas espécies, ela deve positiva. A “morte”, na sentença episcopal inclui, ao mesmo tempo, as ocorridas na guerra e no genocídio. Os soldados, no açougue das potências européias, foram dirigidos para o morticínio porque defendiam ou atacavam interesses de governos. Civis assassinados entram nos cálculos monstruosos dos dirigentes. Dado importante: dos soldados de Hitler, apenas sete católicos se declararam contra as batalhas, por motivo de consciência (Voegelin, Hitler e os Alemães). Tiveram os católicos a oportunidade de mostrar pacifismo. Instruídos pelos bispos germânicos em 1933, eles seguiram o Füher e se colocaram “à sua disposição de todas as formas”.
Morte em guerra e morte em genocídio são realidades distintas, que devem ser definidas de modo rigoroso. Unir as duas coisas é fruto de pouca maestria na definição, ou de maestria demasiada no sofisma.
*Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamphttp://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1628349&area=2190&authent=5F77081754622267E530856CF01AF5 - Correio Popular/Campinas, SP, 08/04/2009

terça-feira, 7 de abril de 2009

Quando secar o rio da minha infância

Frei Tito de Alencar

Quando secar o rio de minha infância,
secará toda dor.
Quando os regatos límpidos de meu ser secarem, minh’alma perderá sua força.
Buscarei, então, pastagens distantes
Irei onde o ódio não tem teto para repousar.
Ali, erguerei uma tenda junto aos bosques.


Todas as tardes me deitarei na relva,
e nos dias silenciosos farei minha oração:
Meu eterno canto de amor: expressão pura de minha mais profunda angústia


Nos dias primaveris, colherei flores para
meu jardim da saudade.


Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio.

Paris, 12 de outubro de 1973

*Frei Tito .Cearense, filho, irmão, frade, ativista, preso político, torturado, exilado, mártir... Conhecer a história de Frei Tito é fundamental para entender as lutas políticas e sociais travadas nos últimos 40 anos contra a tirania de regimes ditatoriais. Fonte: Memorial Virtual Frei Tito é um espaço dedicado a um dos maiores símbolos da luta pelos direitos humanos e pela democracia na América Latina e Caribe.

http://www.adital.org.br/freitito/pedras_rio.html