domingo, 10 de maio de 2009

Entre os primeiros

O chanceler Celso Amorim fala do atual
protagonismo externo do Brasil.


"Esquerdopatia”, “retórica inútil”, “antiamericanismo tosco”, “complexo de inferioridade vertido em arrogância”, “forçação de barra”, “acúmulo de fracassos”, “beira o ridículo”. Esses foram alguns dos torpedos lançados sobre as ações de Celso Amorim à frente do Ministério das Relações Exteriores. Seis anos depois, Amorim ri por último. “Estamos entre os primeiros dos primeiros”, festeja, sobre a atual onda de elogios internacionais às políticas interna e externa do governo Lula. “Pena que tenha sido necessário vir do Obama e da Newsweek antes de vir dos próprios brasileiros.”
Quanto às críticas, feitas principalmente por seus antecessores no cargo, preferiu, sem citar nomes, ironizar. “Essas pessoas têm complexo de inferioridade. O problema para eles é fazer psicanálise, não é nem questão de oposição. Eu acho graça”, afirmou o chanceler em entrevista à CartaCapital. Na pauta da conversa, a entrada da Venezuela no Mercosul, os negócios com o Irã e o fim do embargo dos EUA a Cuba.
CartaCapital: O fato de a política externa ter dado certo até agora comprova que o presidente não precisava ser poliglota para alcançar resultados internacionais?
Celso Amorim: O presidente precisa, acima de tudo, acreditar no Brasil. É muito mais importante do que falar em várias línguas.
CC: O senhor diria que realmente mudou a visão mundial em relação ao Brasil? CA: Não tenho a menor dúvida e não posso atribuir isso somente ao governo Lula, vem ocorrendo desde que o Brasil firmou a democracia, acertou a economia. Hoje somos percebidos como um interlocutor necessário para a grande maioria dos temas internacionais.
CC: Virou um país sério?
CA: Não gosto dessas comparações. Elas revelam o complexo de vira-latas de que falava Nelson Rodrigues, pelo qual só se é capaz de ver pelos olhos do outro. Precisamos sempre de uma legitimação de fora. Todo mundo estava criticando muito a política externa, mas quando veio a capa da Newsweek, o abraço do presidente Barack Obama, aí as pessoas começaram a ver de outra maneira. Acho bom, mas é pena que tenha sido necessário vir do Obama e da Newsweek antes de vir dos próprios brasileiros ou pelo menos de uma parte deles.
CC: Uma das prioridades da política externa do governo Lula foram as relações com a África. Em que se modificaram?
CA: Mudaram de perfil totalmente. Não só pelo número de viagens que a gente fez, até já perdi a conta. Somos o país da América Latina que tem o maior número de embaixadas na África, antes era Cuba. Houve um número razoável antigamente, mas foram diminuindo por medida de economia ou falta de prioridade. Reabrimos todas que existiram e abrimos várias outras. Passaram de 20 para 35.
(...)
CC: Pessoalmente, o que o senhor achou de Obama?
CA: É uma pessoa que ouve com atenção. Outra coisa que diria, que vejo semelhante no presidente Lula, é que dá a impressão de refletir no momento. Pensa na hora e dá uma resposta. Os outros presidentes vinham com as respostinhas prontas.
CC: O senhor acha que, com Obama, as tarifas ao etanol brasileiro vão cair?
CA: O término da Rodada de Doha seria o caminho mais expedito. Os próprios americanos estão vendo dificuldades, o custo excessivo do etanol de mlho, e isso vai acabar ocorrendo. Mas se resolverá mais rápido com o fim de Doha.
(...)
CC: O acordo de Itaipu com o Paraguai foi feito na época da ditadura. É necessário revê-lo?
CA: Rever o acordo é algo complicado. O fato de ter sido feito durante o governo militar é uma circunstância. Há reinvindicações justas e realistas e outras que não têm viabilidade. Vamos trabalhar da maneira mais positiva possível. Não é o caso de se procurar fazer uma liberdade, mas ao mesmo tempo tem de compreender que Itaipu é importante para o Brasil, mas para o Paraguai é quase uma das únicas fontes de receita.
Parte da Reportagem de CYNARA MENEZES, em Carta Capital nº 545, 13 de maio de 2009.

Paixão pelo corpo

GEORGES VIGARELLO*
No século 19, inventaram-se as máquinas
para obrigar o corpo a trabalhar

Um dos grandes especialistas no corpo e em suas representações, o sociólogo francês Georges Vigarello fala, na entrevista abaixo, sobre temas como a evolução no tratamento da criança.Ele mostra também que a obsessão pelo corpo não é uma exclusividade dos tempos atuais.

PERGUNTA - O senhor mostra em "Le Corps Redressé" [O Corpo Reerguido] que, desde a Idade Média, educadores e pedagogos são obcecados pelo corpo reto...
GEORGES VIGARELLO - Entre as normas relativas ao corpo, há uma muito importante, que é a exigência de uma postura reta. É claro que reencontramos essa exigência hoje.Mas muitas coisas mudaram desde o Renascimento, não somente na representação da retidão, mas sobretudo na maneira de obtê-la. Dito de outro modo, o corpo está no centro de uma relação pedagógica que evoluiu ao longo da história.Na Idade Média, esse objetivo já existia: por exemplo, recomendava-se ao jovem que não apoiasse os cotovelos na mesa ou, ainda, lhe diziam: "Não enfie a cabeça nos ombros, ou você poderá parecer um hipócrita. Não balance a cabeça de um lado para o outro, pois parece indeciso...".Na verdade, as posições do corpo são moralizadas. Nos séculos 16 e 17, a mão do mestre ou do educador é muito importante: é ela que se coloca sobre o corpo da criança para corrigi-lo.Encontramos exemplos nas "Mémoires de Mme. de Maintenon" (Memórias de Madame de Maintenon), que explica como sua doméstica apoiava a mão na barriga de sua ama para empurrá-la para trás, puxar seus ombros etc.Progressivamente, no século 17, a mão corretora vai encontrar um substituto nas malhas e corpetes que fazem as mulheres e crianças usarem. A profissão de fabricantes de corpetes foi criada nessa época.O corpete não era somente usado no caso de más-formações (o que era frequente), mas também cada vez mais de modo preventivo pelas crianças da aristocracia e da alta burguesia. Pode-se vê-lo em várias gravuras: o corpo da criança era sustentado no nível do peito por um peitoral e, no do pescoço, por um colarinho rígido.A educação do corpo consistia em uma restrição imposta. Essa prática irá perdurar ao longo de todo o século 18, embora ocorra então uma mudança essencial em termos de representação do corpo, e não somente no campo médico.

PERGUNTA - Quais são as mudanças que surgem no século 18?
VIGARELLO - Surgem críticas muito severas a essas práticas corporais educativas. Entre as inúmeras vozes que se exprimem sobre a questão, Jean-Jacques Rousseau é o representante mais eloquente, especialmente no "Emílio" (1762).Essas críticas denunciam primeiramente o fato de que a criança sofre, sem nenhuma reação possível, o que lhe é imposto pelo adulto (vemos bem a ideia que surge: "É preciso libertar a criança").A segunda ideia subjacente é de que a criança tem força suficiente para poder dispensar o corpete: aparece assim a ideia do papel que podem ter os músculos na sustentação do corpo.Pois no século 18 começa a haver interesse por outro componente do corpo: a fibra, que constitui as redes nervosas e musculares, isto é, de toda uma atividade tensional. Vai-se então submeter a criança a exercícios físicos que a cansam, fazê-la andar descalça, obrigá-la a trabalhar de pé -inventam-se mesas com roldanas...De maneira mais geral, começa-se a conceber uma autonomia possível da criança: autonomia física, sem dúvida (resistência ao trabalho, ao cansaço, ao frio), mas também uma autonomia mais ampla. Estamos na época do Iluminismo, do nascimento de uma espécie de individualismo, mas também do respeito pelo indivíduo: tanto pelos adultos quanto pelas crianças, que são futuros adultos.É o início de uma inversão na relação pedagógica que virá no século 20.

PERGUNTA - Em que o século 19 revoluciona a pedagogia do corpo?
VIGARELLO - O século 19 constitui uma ruptura absoluta, cuja importância ainda não mensuramos. Nas concepções médicas e higienistas da época, o músculo e o pulmão são objetos de todas as atenções.Mais concretamente, o século 19 inventa a ginástica. O princípio totalmente novo é o de que exercícios mecânicos seriam capazes de melhorar as forças e a eficácia do corpo. Manuais apresentam séries de exercícios numerados.A ambição é transformar o corpo para aperfeiçoar os músculos e os gestos, fazendo-o trabalhar em tipos de práticas mecanizadas e numeradas.O século 19, sobretudo em sua segunda metade, nos faz entrar em um espaço metrificado. Na fábrica ou na oficina, toda uma economia dos gestos começa a ser pensada, de modo que o trabalho do operário seja realmente rentável.Michel Foucault mostrou bem isso, tomando o exemplo da rentabilidade dos gestos no Exército. Há uma pesquisa da eficácia do corpo...É nesse quadro que nasce a ginástica escolar: todas as crianças efetuam ao mesmo tempo e no mesmo ritmo um certo tipo de movimento. Inventam-se as salas de ginástica e máquinas (manivelas, polias, roldanas, escadas) para obrigar o corpo a trabalhar.São os ancestrais de nossas academias de musculação... A concepção do mobiliário escolar também corresponde a esse tipo de inquietação diante do corpo. Números muito precisos indicam a distância entre o peito e a borda da mesa, a distância entre a altura do assento e a da carteira...

PERGUNTA - Na França, no fim do século 19, há conflito entre os defensores da ginástica e os defensores do esporte?
VIGARELLO - O tempo parece produzir libertações em cascata. O corpo da criança em Rousseau é libertado em relação àquele que se trancava nas malhas e nos corpetes.O corpo da ginástica dá mais autonomia e disponibilidade à criança, enquanto o mantém nas formas de rigidez com exercícios precisos e forçados.Mas os anos 1880 veem surgir críticas extremamente severas e acirradas em relação à ginástica, considerada autoritária demais ou suscetível de promover uma cultura excessivamente militar...O esporte (corrida, ciclismo, canoagem...), cuja prática vem da Inglaterra, aparece nesse momento e é visto pelos que o praticam como uma verdadeira libertação.Nesses primeiros tempos não há uma orientação necessariamente higienista ou moral, como é o caso da ginástica.

PERGUNTA - Como o nascimento da psicologia irá operar uma nova ruptura na relação com o corpo?
VIGARELLO - Os primeiros psicólogos começam a falar em sensações internas... Nos anos 1920, Jean Piaget falou em inteligência sensorial e motora e colocou em evidência o fenômeno da interiorização da motricidade.Mas é apenas a partir da segunda metade do século 20 que a psicologia irá influenciar as práticas, e mais precisamente nos anos 1960. O corpo não é mais concebido como uma simples mecânica, mas como portador de mensagens, de informações, de sensações vividas...Pede-se então ao sujeito que preste atenção no que ele percebe: não estamos mais na eficácia, mas sobretudo na afeição. A perspectiva é invertida, leva-se o sujeito a escutar a si mesmo.Outra mudança fundamental: não é mais uma norma abstrata, coletiva e genérica imposta de fora que predomina, mas a norma que cada um define para si mesmo.Então tomamos consciência de que existem várias maneiras de ser reto, de se portar, e que certas retidões correspondentes a normas individuais podem ser tão elegantes quanto outras...Estamos diante de um novo tipo de libertação. O pedagogo não é mais aquele que prescreve de maneira autoritária e inteligível, mas o que ajuda na percepção de cada um.Tomemos um exemplo sintomático: um esportista hoje pode dizer que "perdeu suas sensações"; isso era inimaginável nos anos 1930, quando ele devia simplesmente fazer o que lhe diziam! O corpo tornou-se o suporte de nossa identidade.Daí expressões cada vez mais individualizadas (o piercing ou a tatuagem, por exemplo) ou, ainda, as buscas de "reencontros" com o corpo (das quais a talassoterapia é um exemplo), como se esses reencontros nos permitissem ser realmente o que somos...Certas práticas, como as maratonas, esportes radicais ou outras práticas arriscadas, ou ainda as festas rave, com seus consumos e transes múltiplos, constituem uma maneira de explorar o corpo além de seus limites: a ausência de limitação do corpo toma o lugar das antigas transcendências.
*Professor na Universidade de Paris 5 e diretor de pesquisa de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris). É autor de obras como "História do Estupro" (Zahar) e "História da beleza" (Ediouro).
Esta entrevista saiu na "Sciences Humaines". Reportagem de MARTINE FOURNIER.Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves .
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1005200921.htm
-Publicada pela Folha de São Paulo em 10/05/2009

Badulaques 135

Rubem Alves*
Sobre o sexo e a saudade
Luis Fernando Veríssimo, escritor cujos livros são uma delícia de se ler — eu mesmo, quando praticava a psicanálise, me vali muito do exemplo do “Analista de Bagé” — pois ele estava lá na IV Feira Nacional de Livros de Poços de Caldas. Fez uma palestra sobre as coisas do seu ofício. Terminada a fala uma senhora levantou a mão, pedindo licença para fazer uma pergunta. E foi isso que ela perguntou: “O senhor, nos seus escritos e falas, frequentemente se refere às coisas do sexo, e o faz com grande propriedade. Eu gostaria é de saber o lugar de onde o senhor tira a sua inspiração...” O escritor se ajeitou na cadeira, hesitou por alguns segundos e respondeu: “Eu tiro a minha inspiração é da saudade... Na saudade o sexo fica mais bonito...” Todo mundo riu. Não devia. Foi uma resposta de dor, resposta de um velho... Porque, como disse o Riobaldo, “toda saudade é uma espécie de velhice...” A gente sente saudade quando a coisa se foi. Na velhice ou o sexo já se foi ou está indo... Lembrei-me do meu sofrimento quando compreendi que eu teria de falar a palavra “sessenta” quando perguntado sobre a minha idade. Há idades que sugerem aquilo que se tem, e há idades que revelam aquilo que não se tem mais... Tentei me consolar fazendo uma brincadeira que os escritores fazem. Brinquei com a palavra. Sessenta anos... Sexagenário... Sex-agenário... Anunciei então que eu havia entrado na idade do sexo, porque é isso que a palavra sexagenário está dizendo para as pessoas de boa vontade. Mas o tempo é inexorável, devorador dos seus filhos. Aos poucos ele foi devorando a palavra, e do sex-agenário não sobrou nada. Passa-se, então, para uma outra idade. Chegado o fim da idade do sexo, se tenta...
Aquarela
São 20h20. Estou sozinho. Corrijo-me: o gato “Faísca” me faz companhia. O silêncio é total. Nenhum resquício de voz humana. Escrevo, o que me faz esquecer da solidão. Toca o telefone. Sim, há pessoas acordadas nesse mundo. Antes de atender verifico o número do telefone que me chama. O código é “85”. O telefonema vem de longe, lá do Norte do Brasil. Adivinho quem está me chamando. É o Marcelo, lá da cidade de Aquiraz, perto de Fortaleza. Já contei a história dele, da flauta que ele comprou com o dinheiro que conseguiu ajuntar catando moedas que encontrava no chão. Mas não era uma flauta de verdade. Era um pífaro, flauta doce de plástico. A flauta que ele queria era uma flauta transversal de concerto. “Vai levar muito tempo pra eu ajuntar dinheiro pra comprar a flauta transversal procurando moedas no chão...”, ele disse. Voltando a Campinas contei a história dele no Correio Popular. Uma senhora leu, simpatizou, e ofereceu para Marcelo uma flauta italiana que fora de seu pai. Daí pra frente não foi possível segura-lo. Matriculou-se no conservatório, formou-se regente e passou a dedicar-se à sua grande paixão: formar orquestras com a meninada pobre da região. Ele pediu que eu ficasse com o fone no ouvido. E o que eu ouvi foi a Aquarela do Toquinho. Terminada a execução ele explicou: “É a primeira música que essa orquestra de 85 crianças toca. Elas são da comunidade de Vila Pagã” — “eta nome arretado”! Uma homenagem para o senhor e para a Papirus Editora que nos deu um dinheiro de direitos autorais que usamos para comprar os flautins...”
O progresso
O menino moderno, familiarizado com o computador, ficou curioso sobre como eram as coisas no trabalho do seu pai no tempo quando não havia computadores. O pai, entusiasmado com a súbita curiosidade do filho, pôs-se a campo para encontrar sua velha Olivetti portátil, amante esquecida, abandonada – e ele nem sabia ao certo onde ela estava. Depois de muito procurar encontrou-se dentro de uma mala velha cheia de tranqueiras. Tirou-a da sepultura, limpou-a, conferiu as teclas e alavancas, e também as fitas metade preto e metade vermelho, colocando-a então de novo no mesmíssimo lugar sobre a mesa onde vezes sem conta eles estiveram juntos. “Como é que funciona, pai?” — o menino perguntou. “É assim que funciona...”, respondeu o pai. A seguir colocou uma folha de papel sulfite no rolo, ajustou as margens e começou a “daquitilografar” (era assim que o meu pai falava) umas frases soltas. Ao ver a máquina em ação o menino fez um “oh” de espanto. “Que máquina mais adiantada, diferente dos computadores. É só digitar que o texto já sai impresso...” O que me fez lembrar um texto divertidíssimo de Cortazar que se chama, se não me engano, A história das invenções. Só que tudo acontece não de trás para frente mas da frente para trás. A história começa num vôo de supersônico de Nova York a Paris. Três horas. Aí os homens, inteligentes, pensaram que o prazer da viagem poderia ser aumentado se os aviões, ao invés de voarem a uma velocidade acima da velocidade do som e a uma altura de 15 quilômetros, passassem a voar a uma velocidade de 400 quilômetros por hora a uma altura de três quilômetros. Assim poderiam ficar muito mais tempo longe do trabalho e poderiam ver os rios, bosques e vilas... E assim vai acontecendo a história das invenções, sempre ao contrário e sempre melhor... Até que depois de muito progresso os homens inventam a mais fantástica de todas as invenções que não vou dizer qual é porque quero ter o prazer de contar bem devagarzinho...
*Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1633028&area=2220&authent=021047FFDCFB82023247DDDCD98220 - Correio Popular, 10/05/2009

A alta velocidade nos tornará amorais?

Ricardo Teixeira*
O cérebro precisa de tempo
para admirar e
ter compaixão.
A alta velocidade nos tornará
amorais?



Nosso cérebro pode processar informações em frações de segundo quando se trata de coisas simples como o ato de perceber sinais de dor física numa pessoa à nossa frente. Entretanto, a capacidade de análise moral de situações com contextos psicológicos e sociais está associada a processos cerebrais que necessitam de mais tempo para reflexão, uma atenção emocional mais persistente, é o que revela um estudo em publicação no Proceedings of the National Academy of Sciences, liderado pelo renomado neurocientista Antonio Damasio da Universidade da Califórnia do Sul.
Os pesquisadores submeteram voluntários a assistir histórias reais contadas por pessoas reais que geram sentimentos de admiração pela virtude humana ou de compaixão à dor física ou social. Exames de neuroimagem demonstraram que o cérebro respondia instantaneamente à percepção de dor física do outro, mas demorava cerca de 6 a 8 segundos para responder às histórias que evocavam admiração ou compaixão pela dor emocional. Essas respostas além de demorarem mais para serem ativadas, também tinham uma duração maior. Outro resultado importante foi que as áreas cerebrais ativadas ao se perceber a dor do outro foram as mesmas que nos fazem ter consciência do nosso próprio corpo – uma expressão biológica daquilo que conhecemos como” não faça aos outros aquilo que não gostaria que fizessem com você”.

Os resultados do grupo de Damasio levantam sérias questões relacionadas ao nível de impacto que a alta velocidade do mundo contemporâneo terá na construção de nossa sociedade. Qual será o impacto dos videogames violentos, em que a rapidez não permite a geração de sentimentos pelo infortúnio das personagens? O quanto de emoção nosso cérebro vivencia numa sociedade que tem cada vez mais se comunicado através de mensagens de texto curtas? A admiração é uma das principais ferramentas que nos ajuda a separar o bom do ruim, e junto à compaixão, representam dois importantes pilares de nosso sistema moral. Nosso cérebro não reclama em correr para entender mensagens Twitter ou reconhecer que o outro está com uma perna quebrada, mas demora para entender que o outro está com o coração partido.
**Ricardo Teixeira é doutor em neurologia pela Unicamp. Atualmente dirige o Instituto do Cérebro de Brasilia (ICB) e dedica-se ao jornalismo científico. É também titular do Blog "ConsCiência no Dia-a-dia" (www.consciencianodiaadia.com) -Acesso 10/05/2009
http://consciencianodiaadia.com/ Acesso 10/05/2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A lógica do dinheiro e a existência de Deus

Massimo Cacciari*
"O dinheiro é sinal de crise.
Também para o indivíduo.
As entidades-mercadorias das quais ele é o equivalente universal
são todas perecíveis.
Ele só parece ser indestrutível.
E, portanto, o desejo para ele não pode ser aplacado na posse.
O dinheiro produz um desejo ilimitado,
que nenhum dos produtos
em que se encarna
jamais poderá satisfazer."

Rainha pecúnia... mas de qual "pecúnia" falamos? Da qual no mesmo nome ressoa a relação com a substancialidade da coisa, com a posse do "pecus", do animal do campo, do animal doméstico, que o "pastor" cuida zelosamente? Essa "pecúnia" foi destronada há tempos. Todas as propriedades da coisa, enquanto valor de troca, se apresentam separadas da sua forma natural no dinheiro. O dinheiro torna homogêneo, enquanto mercadoria, tudo o que, por natureza, é diferente. "A comum prostituta do gênero humano" torna um o coração de Antônio e os cães, os porcos, os escravos e os palácios dos seus zelosos amigos. Shakespeare docet, Marx discit.
Mas o dinheiro se distingue radicalmente da antiga pecúnia não só porque dessubstancializa o mundo, mas também porque exclui toda avareza. Se o mantivermos parado, ele se "evapora". O avaro gostaria que o seu dinheiro não se "solidificasse" nunca, gostaria que fosse "líquido" sempre, e que justamente dessa forma pudesse se multiplicar. Mas isso é impossível. O dinheiro, para se reproduzir, precisa "desaparecer" de novo no valor de uso, transformando-se em mercadoria. O dinheiro deve "morrer" para "renascer". A "mística" desse dinheiro foi explicada por Marx de uma vez por todas.

Mas isso que talvez não foi bem apreendido da lição marxista é a imanente e insuperável contradição de tal dialética. Se o dinheiro sempre deve "jogar" novas mercadorias para fora de si "como combustível no fogo" (Marx) e portanto criar e recriar necessidades, nada assegura que tais mercadorias podem se transformar novamente em valores. O sujeito que, ao consumir a mercadoria, faz "renascer" o dinheiro não é o mesmo que o "arrisca" na produção. Aqui surge a tendência ou a "tentação" insuperável de não "solidificá-lo", de tentar multiplicá-lo sem deixá-lo sair da sua "abstração". Mas não existe nenhuma "mina" onde o dinheiro pode estar protegido sem se anular. Assim como não há nenhum "mercado" que garanta o seu retorno para "casa", mais forte e mais preparado para novas aventuras.

O dinheiro é sinal de crise. Também para o indivíduo. As entidades-mercadorias das quais ele é o equivalente universal são todas perecíveis. Ele só parece ser indestrutível. E, portanto, o desejo para ele não pode ser aplacado na posse. O dinheiro produz um desejo ilimitado, que nenhum dos produtos em que se encarna jamais poderá satisfazer. O pastor podia "ficar-contente" com o seu "pecus". Quem possui o dinheiro nunca poderá ficar e está obrigado a "jogá-lo" na circulação, a "perdê-lo" para buscar reencontrá-lo. E quem, graças ao infinito poder do dinheiro, não adquire a não ser a "miséria" dessas efêmeras mercadorias, também não poderá.

Porém, é necessário falar da essência metafísica do dinheiro, sem nenhum moralismo e distante de todo desprezo reacionário. É verdade que o processo de circulação que o dinheiro gera produz a perene insatisfação do consumo, mas é verdade também que nisso se representa a minha autonomia, a "liberdade" da pessoa com relação a toda medida ou lei universal de felicidade ou de bem-estar. Apenas eu posso saber quanto ele me custou e apenas eu posso saber qual grau de bem-estar me dão a aquisição e o consumo que ele permite. Não existem medidas objetivas de felicidade, nem existe a possibilidade de determinar, em absoluto, onde circula a discriminação entre necessidades necessárias e supérfluas.

Certamente, nada de essencial pode se expressar no desejo individual e, por isso, nada de essencial pode ser buscado por meio do poder universal do dinheiro. Mas, longe de levar à conclusão vetero-moralista "o dinheiro não conta", "não pode nos fazer felizes" etc., isso não representa nada mais do que aquela "lei individual", que Georg Simmel ilustrou no seu magnum opus "A filosofia do dinheiro", publicado em 1900, pedra angular da contemporaneidade: nada pode nos impor a "medida" do nosso ser feliz. O dinheiro é universal justamente ao expressar a impossibilidade de uma tal "medida" e a não essencialidade do nosso desejo, "libertando-nos" assim da "soberba" de erigi-lo de alguma forma como norma ou modelo. No espelho do dinheiro, revela-se apenas a infinitude do desejo. E este apenas nos é comum. Mas como o dinheiro, para ser, deve "morrer" na individualidade determinada das mercadorias, assim a infinitude do desejo, para viver, deve se encarnar na não essencialidade do meu ser feliz ou infeliz.

Essa onipotência paradoxal do dinheiro nunca resolvível em curso, sempre incompleta, pode ser entendida como "mundanização" do deus judaico-cristão? Ainda Simmel considerava isso como certo. Devemos hoje nos tornar todos mais cautos ao aplicar, em todo o lugar, como passe-partout, a ideia de secularização. A onipotência infinita da imagem do dinheiro é a de um poder comprar tudo. Mas isso é justamente um actu irrealizável. E tudo o que é comprável é não essencial.

A onipotência divina, pelo contrário, se "esvazia" de si para poder amar tudo aqui-e-agora. O amar também nunca chega à meta, nunca está "contente", mas não porque passe de consumo para consumo. Ao invés: porque o seu "amado" está além de toda lógica da posse e do consumo. A sua troca é puramente dom, enquanto o dinheiro "funciona" apenas naquela relação em que nada de "gratuito" intervém. "Isso é algo gratuito", assim fala o dinheiro – e entende: "isso é algo insensato, ilógico, inútil". Porém, o seu poder deve, no fim, reconhecer essa "lei individual" que afirma a não essencialidade do desejo e do consumo que ela permite. E assim, paradoxal e negativamente, o próprio dinheiro acena àquele "inútil" da gratuidade do dom, onde se protege o inconsumível e indestrutível, que continuamos, apesar de tudo, a advertir em nós, "no coração" mesmo da nossa perene busca e do seu contínuo falir.
*Massimo Cacciari, filósofo italiano, professor de Estética na Universidade de Veneza desde 1985 e fundador da Faculdade de Filosofia da Universidade Vita-Salute San Raffaele, em Milão. Com este texto, inaugura-se nesta quinta-feira, na Aula Magna de Santa Lucia na Bolonha, Itália, a oitava edição da manifestação "Os Clássicos", dedicada neste ano ao tema do dinheiro com o título "Rainha pecúnia". O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 06-05-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=22073
Postado no IHU/Unisinos, 08/05/2009

Literatura e experiência de Deus

Frei Betto*
Pela literatura, o verbo se faz carne. Embora a música seja, na minha opinião, a mais sublime das artes, a literatura é a mais sagrada. Deus a escolheu para, através dela, se revelar a nós. Escolheu uma escrita, a semítica, e um gênero próximo da ficção, pois em toda a Bíblia não há uma única aula de teologia, um ensaio doutrinário, um texto conceitual. É toda ela uma narrativa pictórica — vê-se o que se lê. Os livros bíblicos reúnem uma sucessão de fatos históricos e alegóricos (parábolas, metáforas, aforismos), entremeados de genealogias, axiomas, provérbios, poemas (Cântico dos Cânticos e Salmos) e detalhes técnicos e ornamentais (a construção do Templo cf. 2 Crônicas).
Como frisa Herbert Schneidau, a Bíblia pode ser considerada “prosa de ficção historicizada”. Historicizada porque se distancia do universo das lendas e dos mitos, embora haja matéria-prima lendária subjacente ao Gênesis no relato sobre Davi, na saga de Jó e em parte dos Livros dos reis.
Os autores bíblicos se afastaram, deliberadamente, do gênero épico (Homero e Virgílio), o que se explica pela rejeição do politeísmo. O que impregna a escrita bíblica é o senso de historicidade. Ela rompe com a circularidade do mundo mitológico e apresenta-nos um Deus que tem história: Javé, o Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Nela a historicidade se faz presente na descrição dos cinco primeiros dias da criação, antes do surgimento daquele que viria a ser considerado o protagonista do processo histórico: o ser humano. Há uma evolução, simbolizada na sucessão dos seis dias.
O que faz de nós imagem e semelhança de Deus é a capacidade de amar e a linguagem. Animais também amam, tanto que certos pássaros, como os pardais, se mantêm fiéis após se acasalarem. Mas somente o ser humano possui um nível de consciência que lhe permite ordenar e expressar sentimentos, emoções, intuições e afetos. Isso nos faz semelhança divina. Deus é amor e seu afeto por nós se manifesta na linguagem contida na narrativa bíblica e na epifania do verbo que, entre nós, se fez carne.
A escrita é uma forma de tentar organizar o caos interior. Por isso, todo artista é clone de Deus. A escrita é terapêutica, libertadora. Hélio Pellegrino, psicanalista, atribuía a minha sanidade mental no decorrer de meus anos de prisão ao fato de eu ter literalizado a vida de cadeia. O meu mundo é recriado quando lanço mão de vocábulos e regras sintáticas para dar forma e expressão ao que penso e sinto. Assim, transubstancio a realidade, projeto-me em algo que, fora de mim, não sou eu e, no entanto, traduz o meu perfil interior de um modo que eu jamais conseguiria pela simples fala.
A escrita constitui uma forma de oração, como bem sabia o salmista. A experiência de Deus antecede e ultrapassa a escrita. No entanto, o pouco que dela se sabe é por meio da escrita; raras vezes por experiência pessoal. Grandes místicos, como Buda, Jesus e Maomé, nada escreveram. O que sabemos deles e de seus ensinamentos é graças a quem teve o trabalho de redigir.
Ainda que o próprio místico possa fazê-lo, como são exemplos Plotino, Mestre Eckhart e Charles de Foucauld, há um momento em que a experiência de Deus ultrapassa os limites da palavra. É inefável. Como diz Adélia Prado, “Se um dia puder, nem escrevo um livro” (Círculo). “Não me importa a palavra, esta corriqueira, / Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe, / A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda / foi inventada para ser calada. / Em momentos de graça, infrequentíssimos, / se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão. / Puro susto e terror (Antes do nome).
João da Cruz, patrono dos poetas espanhóis, deixou três de seus quatro livros inacabados. Tomás de Aquino considerou, após seu êxtase em Nápoles, que toda a sua obra não passava de “palha”. E não mais escreveu.
Há no enfoque adeliano uma empatia com o poema Ash-Wednesday (“Quarta-feira de cinzas”), de T.S. Eliot, escrito em 1930, três anos após a conversão do poeta ao cristianismo. Na quinta parte, Eliot canta que “a palavra perdida se perdeu”, “a usada se gastou”, mas perdura no “Verbo sem palavra, o Verbo. Nas entranhas do mundo”.
Toda poesia de qualidade é polissêmica. É verso que faz emergir nosso reverso. É canto que encanta, desdobra em múltiplo o nosso ser e nos induz a encontrar aquela pessoa que realmente somos e, no entanto, em nós reside como um estranho que provoca temor e fascínio.
É à poesia que o apóstolo Paulo recorre quando, no discurso no Areópago (Atos dos Apóstolos 17, 28), expressa a nossa ontológica e visceral união com Deus: “Nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns dos vossos, aliás, já disseram: ´Porque somos também de sua raça´.”
Trata-se de uma citação livre da obra Fenômenos, de Arato, poeta que viveu na Cilícia no século 3 a.C. O texto originário é: “Comecemos com Zeus, de que nós mortais nunca deixamos de lembrar. Porque toda rua, todo mercado está cheio de Zeus. Mesmo o mar e o porto estão cheios da divindade. Em todo lugar todo mundo é devedor a Zeus. Porque somos, na verdade, seus filhos... “ (Phaenomena 1-5).
*Frei Betto Escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de O amor fecunda o universo — ecologia e espiritualidade (Agir), entre outros livros
http://www.correiobraziliense.com.br/impresso/ 08/05/2009

A geração midiática

Um estudo realizado nos Estados Unidos
se refere à incidência que o consumo de mídias
tem sobre jovens entre 8 e 18 anos*.

Em casa, na escola e no trabalho, as tecnologias da informação e comunicação, conhecidas como TICs, se combinam, fundem e se tornam onipresentes no nosso ambiente cotidiano. Os novos telefones celulares incluem plataformas de videogames, acesso a correio eletrônico, câmeras digitais e conexões com a internet. E tudo isso tende a naturalizar a forma como as novas gerações consomem estes recursos, cada vez mais em forma móvel e portátil. O consumo de eletrodomésticos na América Latina aumentou significativamente durante cinco anos consecutivos, e a expansão se produziu em cada subsetor deste mercado: doméstico, portátil e automotivo, cujos produtos chegaram a muitos lares pela primeira vez, ou se multiplicaram em outros.

A este consumo crescente se soma a agressiva inserção de empresas transnacionais de telecomunicações e seus novos serviços digitais a cabo e telefonia. E em alguns casos, como na televisão, se acrescenta a substituição de receptores analógicos por digitais.

Como consequência, os fenômenos detectados nos Estados Unidos em 2005, pelo estudo Generation M: Media in the Lives of 8-18 year olds (Geração M: a Mídia na vida das pessoas entre oito e 18 anos), da Fundação Kaiser Family, tendem a reproduzir-se hoje em nossas novas gerações.

De acordo com este estudo, a chamada “geração midiática” consome mídia quase 6,5 horas diárias, o que deixa claro que o potencial impacto deste consumo em quase todos os aspectos das vidas de meninos, meninas e jovens não pode ser ignorada. Aqueles que têm acesso mais fácil a televisores, computadores e consoles de videogames em suas casas dedicam a eles mais tempo, assim como em lares onde o televisor fica ligado grande parte do dia.

A pesquisa não confirmou a teoria de que o uso de computadores ou videogames desloque o tempo que passam na frente da televisão. O consumo simultâneo e a tendência juvenil à multitarefa (estudar, ver televisão, ouvir música e comunicar-se na internet com os amigos, tudo ao mesmo tempo, por exemplo) aumentam com a presença de mídias nos espaços cotidianos.
Apesar das preocupações que mães e pais expressam em relação ao impacto das mídias sobre suas filhas e filhos, não se encontra muita evidência de esforços significativos de sua parte para entender, reduzir ou controlar o uso da televisão, computadores, celulares ou videogames em casa. A proporção de meninas, meninos e adolescentes que dizem que seus pais não estabeleceram normas de consumo de meios e a pouca frequência com que estas pessoas adultas verificam o resultado de suas próprias advertências – quando as fazem – indicam que a grande maioria não sente que suas filhas e filhos passam muito tempo com as mídias, ou simplesmente renunciaram a fazê-lo. Posto que o estudo também indica que aqueles que passam a maior parte do tempo com as mídias também dedicam horas aos seus hobbys, a sair com suas mães e pais e a atividades físicas, é possível que ninguém se sinta muito preocupado com a quantidade de tempo que dedicam às mídias.

Evidentemente, o mundo midiatizado só tende a aumentar, mas isso mesmo justifica prestar muito mais atenção, entender como e porque se dá este consumo, e não se manter à margem de uma mudança que veio para ficar.
*A reportagem é de Carlos Eduardo Cortés S., gerente da Radio Nederland Training Centre, América Latina, e publicada no jornal argentino Página/12, 06-05-2009. A tradução é do Cepat. Postado no IHU/Unisinos 08/05/2009
http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=22044

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Sede de sentido para a vida

André Gonçalves Fernandes*
Recentemente, li uma carta de uma jovem italiana, chamada Francesca, de 21 anos, universitária brilhante, filha de pais muito ricos, escrita antes de cometer suicídio no interior de um banheiro público de uma estação de trem romana. O trecho que mais me impressionou foi aquele que se dirigia diretamente aos pais, dizendo: “Vocês deram-me não só o necessário, como também o supérfluo; mas não souberam dar-me o indispensável. Por isso, estou-me tirando a vida”.
Algum tempo depois, descobriu-se que o indispensável que Francesca mencionava em sua trágica carta estava sublinhado em um livro de Kierkegaard, primeiro filósofo existencialista: “o indispensável é o Absoluto”.
O sentimento de vácuo existencial que atingiu Francesca manifesta-se por três efeitos muito comuns: depressão, dependência e agressão. Uma depressão que leva ao suicídio; uma dependência química, substitutiva da felicidade e do amor não localizados no vácuo existencial; uma agressividade, válvula de escape da tristeza e da desmotivação, que torna a delinquência juvenil um fenômeno novo e preocupante.
Hoje, as ciências desenvolvem-se num ritmo alucinante. O aprendizado fica defasado numa velocidade muito maior do que há algumas décadas. Nunca o homem soube tanto de si mesmo como na atualidade e, no fundo, nunca soube menos em tudo o que se refere a sua definição e ao sentido último de sua existência. A psicologia, a psicopatologia, a caracteriologia, a teoria da personalidade, o estudo do genoma produziram um inventário da totalidade funcional humana, incomparável com outras épocas da ciência.
Contudo, parece que ainda não se ultrapassaram as portas do conhecimento que se merece saber: o sentido e o valor da existência do homem. Penso que tal esquizofrenia intelectual abala os alicerces da atualidade, pois o fundamento sobre o qual o homem deve edificar o saber oscila, ameaçado por dentro.
Este vácuo existencial, segundo Viktor Frankl, sucessor de Freud na cátedra de Psicopatologia da Universidade de Viena, é causado pela ausência de Deus na consciência pessoal. Aliás, é muito significativo que, na condição de diretor do pavilhão de mulheres suicidas do hospital psiquiátrico de Viena, ele tenha obtido seu doutorado com a obra O Deus inconsciente, em que ele demonstra que a procura do sentido supremo da vida está na procura do transcendente.
Sem prejuízo de outras inúmeras variáveis igualmente complexas, a ausência de Deus gera a falta de sentido da vida que, por sua vez, cria um ambiente de vácuo existencial, o qual se dissemina pela depressão, dependência e agressividade.
Não se deve julgar que a presença ou ausência do elemento divino resume-se a uma mera questão teológica, acantonada, pelo notório preconceito clerical reinante, à margem dos problemas vitais que nos afligem (como a violência gratuita e o consumo crescente de drogas ilícitas). Muito pelo contrário, tal elemento está na medula destes problemas.(...)
O fato atribuído a Francesca sucede diariamente com milhares de jovens que buscam ardentemente a felicidade e, sem o saber, correm na direção contrária do lugar onde ela reside. No âmago, inconscientemente, queimam em desejos de grandes ideais, mas a vida só oferece um banquete de frivolidades, banalidades e mediocridades.
Por que tais fatos se repetem hoje à saciedade? Por que o homem atual está tão indefeso diante da decepção e se mostra tão vulnerável às frustrações da vida diária? Porque “absolutiza” o relativo, o transitório, e diviniza o humano. E, quando o humano divinizado ou o relativo “absolutizado” desintegram-se, como as cinzas de um prédio demolido, o homem vê a si mesmo como que suspenso no ar, sem qualquer ponto de apoio e sente a vertigem da existência.
Quantas vezes o homem — desde Platão a Bergson — perguntou onde estaria o sentido último que conduz a vida humana? Tal constatação exprime a urgência da descoberta do fundamento da existência humana e, ao mesmo tempo, testemunha a profundidade da razão humana, pois nelas a inteligência e a vontade do homem são demandadas a procurar livremente a solução capaz de oferecer um pleno sentido à vida.
Este interrogativo constitui a expressão mais elevada da natureza humana e, logo, sua resposta mede a profundidade do empenho na própria existência. Quando a causa última das coisas é investigada a fundo em busca de uma resposta derradeira e exauriente, então a razão humana alcança seu cume e abre-se ao transcendente, expressão mais elevada da pessoa humana. Em suma, o “indispensável” que a jovem Francesca procurava incessantemente.
*André Gonçalves Fernandes é juiz de Direito da 2ª Vara Cível da Comarca de Sumaré
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1632571&area=2190&authent=6A89E6726DEAA2521BDEE055789AC0 - Postado no site do Correio Popular, 07/05/2009

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Um Deus injusto

John Rawls
O jornal italiano Il Sole-24 Ore, 03-04-2009, publicou artigo de John Rawls, o mais conhecido e celebrado filósofo político norte-americano, falecido aos 81 anos em 2002, em que o autor questiona o porquê de suas creñças religiosas terem mudado.
Segundo ele, muitas teorias "pintam Deus como um monstro movido somente pelo próprio poder e pela própria glória. Como se marionetes miseráveis e deformadas, como eram descritos os seres humanos, pudessem glorificar qualquer coisa!". A tradução é de Benno Dischinger.
Eis o artigo.

Perguntei-me com freqüência por que minhas crenças religiosas tenham mudado e isso tenha ocorrido de modo particular durante a guerra. Comecei como fiel da Igreja episcopal, para abandoná-la completamente a partir de junho de 1945. Três episódios se destacam na minha memória: Kilei Ridge; a morte de Deacon; ter sido noticiado sobre o Holocausto e refletir sobre isso. O primeiro episódio ocorreu pela metade de dezembro de 1944. Terminara a batalha que a companhia F do 128º regimento de infantaria da XXXII divisão conduziu para conquistar o cume acima da cidade de Limon, na ilha de Leyte; a companhia limitava-se a manter a posição. Certo dia chegou um pastor luterano. Durante a função religiosa pronunciou uma breve homilia na qual afirmou que Deus apontava os nossos projéteis contra os japoneses e ao mesmo tempo nos protegia deles. Não sei por que, mas esta afirmação me irritou. Critiquei o pastor (que era um tenente) porque dizia o que eu considerava que ele soubesse perfeitamente – era um luterano – que eram mentiras sobre a divina providência. Que razão podia tê-lo impulsionado senão levar conforto às tropas? No entanto, a doutrina cristã não devia ser utilizada para este fim, embora eu soubesse perfeitamente que o era.

O segundo episódio – a morte de Deacon – foi em maio de 1945, sobre a pista de Villa Verde na ilha de Luzon. Deacon era uma pessoa esplêndida; tornamo-nos amigos e compartilhamos uma barraca no regimento. Um dia, o primeiro sargento veio até nós em busca de dois voluntários, um que devia ir com o coronel a um lugar onde este pudesse observar as posições japonesas, e o outro que devia doar sangue do qual tinha extrema necessidade um soldado ferido do hospital de campo, ali naquele lugar. Ambos consentimos, mas o que cada um de nós haveria de fazer dependia de quem tivesse o grupo sanguíneo adequado. Já que o meu o era e o de Deacon não, ele foi com o coronel. Sem dúvida os japoneses devem tê-los localizado, uma vez que logo começaram a chegar em sua direção 150 tiros de morteiro. Deacon e o coronel saltaram dentro de uma trincheira, mas, quando uma granada explodiu lá dentro, morreram ambos na mesma hora. Fui totalmente incapaz de encontrar consolo, nem conseguia afastar de minha mente o episódio. Não sei por que este episódio tenha me golpeado tanto, bem além de meu afeto por Deacon, já que a morte era um evento comum. Mas, penso que me tenha golpeado pelas formas das quais farei menção daqui a pouco.

O terceiro episódio é, na verdade, algo mais que um episódio, uma vez que perdurou por um longo período de tempo. Em minhas recordações, teve início em abril, em Asigan, onde o regimento estava fazendo uma pausa da linha de frente e recebendo substituições. Fomos aos espetáculos cinematográficos seriais para o exército, onde também foi dada notícia dos comunicados do serviço informativo do exército. Creio ter sido ali que ouvi pela primeira vez sobre o Holocausto, já que foram tornados públicos os primeiríssmos relatórios das tropas americanas que se defrontaram com os campos de concentração. Naturalmente muitas coisas já eram sabidas bastante tempo antes, mas não eram conhecidas aos soldados no campo de batalha.
Estes episódios, especialmente o terceiro, logo que chegaram ao domínio público, me golpearam do mesmo modo, sob forma de uma pergunta sobre a possibilidade da prece. Como podia orar e pedir a Deus que me ajude, ou ajude minha família, ou meu país, ou qualquer outra coisa amada e no centro de minhas preocupações, quando ele não havia salvo milhões de judeus de Hitler? Quando Lincoln interpreta a Guerra Civil americana como punição divina pelo pecado da escravidão, uma punição igualmente merecida pelo Norte e pelo Sul, se vê que Deus age justamente. Mas, o Holocausto não pode ser interpretado nesta ótica, e toda tentativa sobre a qual tenho lido de interpretá-lo desta maneira é horrível e malvada. Para interpretar a história como expressão da vontade de Deus, tal querer divino não pode não adequar-se com as mais fundamentais idéias de justiça, como são por nós conhecidas. Para que outro fim podem ser as mais fundamentais idéias de justiça? Cheguei tão rapidamente a refutar isso, como considerei igualmente horrível e malvada a idéia da supremacia do querer divino. Os meses e anos que se seguiram conduziram-me a uma crescente refutação de muitas das principais teorias cristãs e o cristianismo se tornou para mim cada vez mais estranho. Minhas dificuldades eram sempre de cunho moral, desde o momento em que meu fideismo permanecia íntegro diante de todas as preocupações sobre a existência de Deus. As assim ditas provas da existência de Deus contidas em Santo Tomás e em outros autores não provavam, em todo o caso, nada que tivesse um significado religioso. Parecia-me claro. Todavia, as idéias de justo e de justiça, expressas nas teorias cristãs, eram uma questão diversa.

Cheguei a considerar muitas delas como erradas e, em alguns casos, também repugnantes. Ente estas estavam as doutrinas do pecado original, do paraíso e do inferno, da salvação por meio da verdadeira fé e com base na aceitação da autoridade sacerdotal. A menos que alguém não fizesse uma exceção para si mesmo e assumisse a própria salvação, cheguei a ter a sensação que a teoria da predestinação fosse tremenda, uma vez que se refletisse bem além e se compreendesse o que significava. A dupla predestinação, no modo como foi expressa de modo rigoroso por Santo Agostinho e por Calvino, parecia particularmente tremenda, embora eu tivesse que admitir que também estava presente em Santo Tomás e Lutero e, sem dúvida, fosse apenas uma conseqüência da própria predestinação. Tornou-se para mim impossível levar a sério todas estas teorias, mas, não no sentido de que as provas a seu favor fossem débeis ou incertas. Elas antes pintam Deus como um monstro movido somente pelo próprio poder e pela própria glória. Como se marionetes miseráveis e deformadas, como eram descritos os seres humanos, pudessem glorificar qualquer coisa! Também cheguei a pensar que poucas pessoas aceitassem essas teorias ou sequer as entendessem. Para estes a religião é puramente convencional e lhes oferece conforto e consolação nos momentos difíceis.

Nos anos imediatamente subseqüentes à guerra interessei-me muito pela história da Inquisição e pelo modo pelo qual foi desenvolvida. Li numerosos livros sobre o tema, inclusive partes da história da Inquisição na Idade Média, de Henry Lea, a recensão de Lorde Acton a esta obra e as teses de Acton sobre a corrupção do poder dos sacerdotes e também do poder político. Acabei tendo a sensação de que a grande maldição do cristianismo era a de perseguir os discordantes e os hereges desde a época de Irineu e Tertuliano. Isto me pareceu ser algo novo: a religião grega e romana era uma religião civil e era finalizada a instilar a lealdade à polis ou ao imperador, especialmente em épocas de guerra e de crise. Gregos e romanos insistiam neste aspecto, mas, além disto, a sociedade civil podia ser livre em ampla medida e muitas religiões diversas floresceram na polis e no império romano. A história da Igreja inclui, ao invés, uma prestação de contas dos seus duradouros elos históricos com o Estado e de seu uso do poder político para estabelecer a própria hegemonia e oprimir as outras religiões.

Sendo uma religião da salvação eterna que requer verdadeira fé, a Igreja se viu na posse da justificação para a repressão da heresia. Assim, cheguei a considerar a negação da liberdade religiosa e da liberdade de consciência como um mal enorme, o que torna as pretensões de infalibilidade dos papas impossíveis de serem aceitas por mim. É verdade, a Igreja afirma a infalibilidade somente em questões de fé e de moral; a doutrina não prevê que o papa seja infalível enquanto homem, mas que Deus fará de modo que o homem que é papa não fale de maneira mentirosa? No entanto, se a liberdade de religião e a liberdade de consciência não são questões de fé e de moral, que outra coisa são? Estas liberdades se tornaram pontos fixos das minhas opiniões morais e políticas. No final, também se tornaram elementos políticos fundamentais de minha visão da democracia constitucional, institucionalmente realizada pela separação entre Estado e Igreja.
http://www.unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=22014 -Postado no IHU/Unisinos 06/05/2009

Antropologia Filosófica - Livro imperdível.

Ernildo Stein*
“Quando falamos em cultivo na emergência de homo, libertando-se da filiação dos hominídios, vem-nos à mente a pergunta sobre qual teria sido a idéia de vida desse ser primitivo. Num primeiro momento, a observação paleontológica nos dá a impressão de que temos pela frente seres vivos cuja duração do ponto de vista biológico era curta por causa das condições em que tinham de sobreviver, mas resultava também da constante agressividade que levou a uma sucessão milenar de etnocídios. Uma observação mais aguda e uma interpretação inteligente das manifestações biológicas da reprodução ligadas ao cultivo não terão elas modificado a idéia de continuidade da vida em vez de a destruir?

É claro que escolhermos apenas um fator para expor essa idéia, que é o cultivo. Podemos imaginar que, dispondo dos três recursos fundamentais de hominização – que são o andar ereto, a disposição das mãos e a capacidade craniana -, a capacidade de reflexão do cérebro poderia ter mudado a atitude do homo sapiens diante de si mesmo como ser vivo. A vontade de viver, e de viver mais, não seria simplesmente da mesma ordem do instinto de reprodução da espécie, mas de conservação da vida como algo muito desejável. Desse modo o homo sapiens se teria percebido em sua forma de ser no mundo, como lhe sendo desejável viver e viver o maior tempo possível. Essa nova consciência teria a possibilidade de desencadear muitas atitudes antes inexistentes e de desenvolver iniciativas com relação à subsistência de si à proteção da prole.
(...)
A novidade do sistema adaptativo do homo sapiens terá sido também a harmonia e a cooperação substituindo estados mais primitivos de violência arcaica e agressividade.
(...)
Não é simplesmente o lema “viver é preciso” que define as condutas do surgimento do homem na Terra. Certamente podemos descobrir no homem de Cro-Magnon um tipo de capacidade de se auto-observar e perceber como alguém ao qual a festa das pinturas rupestres, o uso do fogo, os ritos funerárias, junto com a domesticação das plantas pelo cultivo, levou a uma autopercepção, em que ele se compreendeu em sua existência, de um lado, inelutável e, de outro, exposta à transitoriedade. O desenvolvimento do ser humano nos últimos 40 mil anos foi acompanhado por uma experiência que preservou uma unidade em função da qual desenvolveu todas as conquistas: a própria vida”.
(Excerto do livro: STEIN, Ernildo. Antropologia Filosófica: Questões epistemológicas. Ijui,Ed. Unijui, 2009, pp.178/179. – (Coleção filosofia;31).
*Ernildo Stein. Professor da PUC/RS no Departamento de Filosofia e no Programa de Pós-Graduação em Filosofia.

Virtudes x Defeitos

ANTONIO DELFIM NETTO

UM DOS ASPECTOS mais intrigantes do momento que estamos vivendo é a facilidade com que alguns intelectuais concluíram que a crise que se abateu sobre o sistema financeiro americano e infeccionou o resto do mundo é o ponto terminal do "capitalismo" e de seu acompanhante, o "liberalismo".
Esta crise não seria apenas mais um dos movimentos cíclicos conhecidos, como no passado. Seria uma interrupção definitiva do mecanismo de seleção histórica quase natural pelo qual eles evoluíram.
Esse diagnóstico é muito simplista e sujeito a séria controvérsia.
Obviamente, "capitalismo" não é uma coisa. É um processo. O mesmo nome foi designando realidades históricas muito diversas. Sua instituição básica é a propriedade privada e a alocação de bens e serviços através de "mercados". Isso exige a existência de um Estado capaz de garanti-los e a consequente execução dos contratos. Nele há uma clara distinção entre os proprietários dos bens de capital, que se apropriam do excedente produzido pelos não proprietários. Estes alugam a sua força de trabalho em troca de salário.Trata-se de uma formação histórica, cuja origem se perde no tempo, mas que, a partir de meados do século 18, gerou um enorme aumento da produtividade do trabalho. Mudanças nas instituições da propriedade e a garantia da apropriação privada dos benefícios gerados pelas inovações revolucionaram o processo produtivo.
Por um lado, ela apresenta dois problemas complicados: uma ínsita tendência
1º) à flutuação da produção e do emprego e
2º) ao aumento da desigualdade na distribuição do produzido.
Por outro, ela tem três virtudes:
1º) é compatível com a liberdade individual;
2º) é amplamente adaptativa;
3º) sendo resultado de um processo histórico, ela não é nem natural nem eterna.
A sua evolução em termos de eficiência produtiva compatível com a liberdade individual é visível.
Quanto à flutuação da produção e do emprego, ela parece estar diminuindo fortemente. Nos EUA, de 1953 a 1982, tivemos sete ciclos com período médio de quatro anos.De 1983 a 2007, o período médio foi de 12 anos. Quanto à redução da desigualdade, bons projetos tributários têm corrigido de forma significativa o chamado índice de Gini. Isso sugere os efeitos positivos da ação consciente e indispensável do Estado-indutor para o bom funcionamento dos mercados.
A crise de 2008 mostra, na verdade, uma falha do Estado-regulador, corrompido pela ideologia do "mercado perfeito". Não fala a favor da ressuscitação do Estado-produtor como tem sido sugerido por alguns afoitos...
ANTONIO DELFIM NETTO escreve às quartas-feiras na Folha de São Paulo.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0605200906.htm - 06/05/2009

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Para que servem os amigos? Para uma vida mais saudável

TARA PARKER-POPE

Na busca por uma saúde melhor, muitas pessoas recorrem a médicos, livros de autoajuda ou suplementos herbáceos. Mas esquecem uma arma poderosa para combater a doença e a depressão, acelerar a recuperação, reduzir o envelhecimento e prolongar a vida: seus amigos.
Pesquisadores começam a dar atenção à importância da amizade e das redes sociais na saúde em geral. Um estudo australiano de dez anos descobriu que pessoas idosas com um grande círculo de amigos tinham 22% menos probabilidade de morrer durante o período do estudo do que as que tinham menos amigos. E no ano passado pesquisadores da Universidade Harvard relataram que fortes laços sociais poderiam reforçar a saúde do cérebro conforme envelhecemos.
"Em geral, o papel da amizade em nossas vidas não é muito bem avaliado", disse Rebecca G. Adams, professora de sociologia na Universidade da Carolina do Norte, em Greensboro. "Existem muitos estudos sobre famílias e casamento, mas muito poucos sobre a amizade. Isso me surpreende. A amizade tem um impacto maior em nosso bem-estar psicológico do que os relacionamentos familiares."
Em um novo livro, "The Girls From Ames: A Story of Women and a 40-Year Friendship" [As garotas de Ames: uma história de mulheres e uma amizade de 40 anos], Jeffrey Zaslow conta a história de 11 amigas de infância que se espalharam de Iowa para oito estados americanos diferentes. Apesar da distância, sua amizade sobreviveu à faculdade e ao casamento, ao divórcio e outras crises, incluindo a morte de uma das amigas com 20 e poucos anos. Duas delas souberam recentemente que têm câncer de mama. Kelly Zwagerman, professora colegial que vive em Minnesota, disse que quando recebeu o diagnóstico, em setembro de 2007, seu médico lhe orientou que se cercasse de pessoas queridas. Ela então procurou suas amigas de infância, apesar de morarem longe.
"As primeiras pessoas para quem eu contei foram as mulheres de Ames, por e-mail", ela disse. "Imediatamente recebi mensagens e telefonemas de apoio." Em 2006, um estudo com quase 3.000 enfermeiras com câncer de mama descobriu que as mulheres sem amigas íntimas tinham quatro vezes mais probabilidade de morrer dessa doença do que as mulheres com dez amigas ou mais. E, notavelmente, a proximidade e a quantidade de contato com uma amiga não eram associadas à sobrevivência. Apenas ter amigas era uma proteção.
Bella DePaulo, professora-visitante de psicologia na Universidade da Califórnia em Santa Barbara, cujo trabalho enfoca pessoas solteiras e amizade, nota que em muitos estudos a amizade tem um efeito ainda maior sobre a saúde do que um cônjuge ou parente. No estudo de enfermeiras com câncer de mama, ter um cônjuge não era associado a sobrevivência.
Exatamente por que a amizade tem um efeito tão grande não está totalmente claro. Amigos podem prestar serviços e buscar remédios para uma pessoa doente, mas os benefícios vão muito além da ajuda física.
Talvez as pessoas com fortes laços sociais também tenham mais acesso aos serviços e tratamentos de saúde. Além disso, a amizade claramente tem um profundo efeito psicológico. "As pessoas com redes de amizade mais fortes sentem como se houvesse algo a que elas podem recorrer", disse Karen A. Roberto, diretora do centro de gerontologia da Universidade Virginia Tech. "A amizade é um recurso subvalorizado. A mensagem constante desses estudos é que os amigos tornam sua vida melhor."
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny0405200913.htm -Reportagem da Folha de São Paulo, 04/05/2009.

domingo, 3 de maio de 2009

Autoestima na dose certa

Christophe André
Psiquiatra francês
diz que o homem vive
a era do culto a si mesmo.
E isso só torna as pessoas mais vulneráveis
e instáveis emocionalmente.
O ser humano carece de recursos internos
para se garantir

O amor próprio é um sentimento valioso. Mas para os que constroem a autoestima em cima de bajulações e acreditam que seu valor como ser humano aumenta graças a um estilo de vida com ostentação, cuidado. Na primeira dificuldade, a confiança em si mesmo vai ruir. A tese é do psiquiatra francês Christophe André, 52 anos. "Estimar- se é uma necessidade vital. Hoje, porém, fazemos isso de forma equivocada", disse o médico à ISTOÉ, de seu consultório em Paris, onde trabalha também no Hospital Universitário de Sainte-Anne. Ele debate a ideia no novo livro Imperfeitos, livres e felizes (Ed. BestSeller), recém-lançado no Brasil. André diz que a autossupervalorização que as pessoas apresentam na atual sociedade esconde um medo exacerbado de se mostrar quem é e de fracassar. "Mas adivinhe: todos nós fracassamos em algum momento", afirma. "É preciso aprender a se perdoar."

ISTOÉ - Por que exibir bens materiais é o maior indício de autoafirmação?
Christophe André - Carros, joias, roupas de grife são atributos usados numa tentativa de convencer o outro de que se tem valor graças à posse desses símbolos sociais de reconhecimento. É um caminho perigoso, que cria dependência. Quando todos os olhares se afastam e a máscara é retirada, é revelada uma carência profunda de recursos internos para se garantir.

ISTOÉ - Significa que, na hora que uma pessoa tiver que lidar com situações difíceis, ela estará mais frágil do que supunha?
André - Exatamente. Pessoas assim estarão mais vulneráveis e instáveis emocionalmente. Ao enfrentarem uma falha ou crítica, reagirão com emoções negativas. Ou serão destrutivas com elas mesmas ("Minha vida é um lixo", "Sou um perdedor"); ou serão agressivas com os demais ("Eles são incompetentes, invejosos"). Tornam qualquer ideia diferente das suas uma fonte de conflitos. Levam tudo para o lado pessoal.

ISTOÉ - A autoestima pode ser aprendida?
André - Sim. A verdadeira autoestima se aprende confrontando as dificuldades, sem ajuda de ninguém. É um fortalecimento interno de valores. É, também, pensar em outra coisa além de si mesmo.

ISTOÉ - Qual o perfil de uma pessoa que tem a verdadeira autoestima?
André - Ela não se prende à autocompaixão. Diante das adversidades, simplesmente diz: "Ok, qual a melhor maneira de reagir a esse problema?"
Sempre se pergunta qual a lição aprendeu com a experiência e o que pode ser usado no futuro. Sabe que dificuldades fazem parte da vida. Quem tem a real autoestima consegue compreender, se adaptar e descobrir soluções para o que não corre bem.

ISTOÉ - No livro o sr. afirma que desempenho, abundância e aparência são três flagelos da sociedade. Por quê?
André - Eles transformam a vida em uma competição permanente. O desempenho não significa enxergar desafios por todos os lados e querer ser um vencedor até adoecer. É normal buscar abundância de coisas boas, mas não comprar freneticamente tudo o que vê. E é compreensível se sentir feliz com o próprio corpo. Mas não é saudável estremecer com o surgimento de uma ruga.
ISTOÉ - O sr. diz que a solução do ego que vai mal não é pensar menos em si, mas pensar de outra forma. O que isso significa?
André - Simplesmente se livrar de valores falsos. É assumir não ser o que se deseja mostrar, mas aquilo que se sente. Não ter uma vida baseada na grife que usa, mas naquilo que oferece ao outro como ser humano. O valor essencial é a felicidade. Não o poder.
Reportagem de Suzane G. Frutuoso - Revista ISTO É nº2060, p.65 - 06/05/2009
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2060/artigo132919-1.htm

sábado, 2 de maio de 2009

Morrer em vida é fatal

MARTHA MEDEIROS

Nunca esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convicção: “Até os 100 anos”. O repórter, provocador, insistiu: “E depois?”. “Ué, depois vou aproveitar a vida”.
É de se comemorar que as pessoas aparentem ter menos idade do que realmente têm e que mantenham a vitalidade e o bom humor intactos – os dois grandes elixires da juventude. No entanto, cedo ou tarde (cada vez mais tarde, aleluia), envelheceremos todos. Não escondo que isso me amedronta um pouco. Ainda não cheguei perto da terceira idade, mas chegarei, e às vezes me angustio por antecipação com a dor inevitável de um dia ter que contrapor meu eu de dentro com meu eu de fora.
Rugas, tudo bem. Velhice não é isso, conheço gente enrugada que está saindo da faculdade. A velhice tem armadilhas bem mais elaboradas do que vincos em torno dos olhos. Ela pressupõe uma desaceleração gradativa: descer escadas de forma mais cautelosa, ser traída pela memória com mais regularidade, ter o corpo mais flácido, menos frescor nos gestos, os órgãos internos não respondendo com tanta presteza, o fôlego faltando por causa de uma ladeira à toa, ainda que isso nem sempre se cumpra: há muitos homens e mulheres que além de um ótimo aspecto, mantêm uma saúde de pugilista. A comparação com os pugilistas não é de todo absurda: é de briga mesmo que estamos falando. A briga contra o olhar do outro.
Muitos se queixam da pior das invisibilidades: “Não me olham mais com desejo”. Ouvi uma mulher belíssima dizer isso num programa de tevê, e eu pensei: não pode ser por causa da embalagem, que é tão charmosa. Deve estar lhe faltando ousadia, agilidade de pensamento, a mesma gana de viver que tinha aos 30 ou 40. Ela deve estar se boicotando de alguma forma, porque só cuidar da embalagem não adianta, o produto interno é que precisa seguir na validade.
Quem viu o filme Fatal deve lembrar do professor sessentão, vivido por Ben Kingsley, que se apaixona por uma linda e jovem aluna (Penélope Cruz) e passa a ter com ela um envolvimento que lhe serve como tubo de oxigênio e ao mesmo tempo o faz confrontar-se com a própria finitude. No livro que deu origem ao filme (O Animal Agonizante, de Philip Roth), há uma frase que resume essa comovente ansiedade de vida: “Nada se aquieta, por mais que a gente envelheça”.
Essa é a ardileza da passagem do tempo: ela não te sossega por dentro da mesma forma que te desgasta por fora. O corpo decai com mais ligeireza que o espírito, que, ao contrário, costuma rejuvenescer quando a maturidade se estabelece.
Como compensar as perdas inevitáveis que a idade traz? Usando a cabeça: em vez de lutarmos para não envelhecer, devemos lutar para não emburrecer. Seguir trabalhando, viajando, lendo, se relacionando, se interessando e se renovando. Porque se emburrecermos, aí sim, não restará mais nada.

Mentiras consentidas

MOACYR SCLIAR

Os estrangeiros que vêm ao Brasil frequentemente passam pela experiência. Eles conhecem algum brasileiro, o contato é amável, caloroso mesmo, e em geral termina com a frase: “Aparece lá em casa”. No dia seguinte, lá está o visitante, batendo à porta do potencial anfitrião, para surpresa e constrangimento deste. Porque, claro, o convite não era para valer. Era algo como uma frase que brota automaticamente dos brasileiros, e que os sociólogos e psicólogos enquadram na categoria das chamadas mentiras consentidas. Por que consentidas? Porque são tacitamente aceitas por todos nós, os nativos desse país. E sistematicamente causam surpresa àqueles que vêm de fora.

***

Mentiras consentidas são comuns entre nós. “Meu Deus, como você está bem!”. Mas a pessoa a quem dirigimos essa frase não está tão bem assim. Padece de alguma doença. Envelheceu. Saiu-se mal numa cirurgia plástica. É isso o que vamos dizer? De maneira alguma. Preferimos o “Meu Deus, como você está bem!” e ficamos em paz conosco mesmos.
Outro exemplo, este do sociólogo Roberto DaMatta: um amigo nosso escreveu um livro. Nós não lemos esse livro, ou então lemos, mas não gostamos. E aí o autor nos pergunta o que achamos de sua obra. Jamais seremos francos. Diremos algo como “É bem bom”, ou: “Funciona”. O que quer dizer isso, “funciona”? Provavelmente nada, mas nos livra de uma situação embaraçosa.
No Exterior é diferente. É famosa a frase do duque de Gloucester para o historiador Edward Gibbon, quando este levou-lhe mais um volume de sua obra Declínio e Queda do Império Romano: “Another damned, thick, square book! Always scribble, scribble! Eh, Mr. Gibbon?” “Outro maldito, grosso, quadrado livro! Sempre escrevinhando, escrevinhando! Não é, Mr. Gibbon?”. Notem que a intenção do duque não era ofender o autor; só dizia o que estava pensando, coisa que para um nobre inglês da época deveria parecer absolutamente normal.

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Não, nós não somos o duque de Gloucester. Somos brasileiros, e a ficção sempre fez parte de nossas vidas, até como forma de defesa contra a pobreza, a desigualdade, a injustiça social. Deus é brasileiro? Talvez não seja, mas para um morador de favela essa pode ser a única esperança. É por isso, aliás, que usei a palavra “ficção”, e não “mentira”. A mentira sempre envolve um componente de sacanagem. A ficção, não. A ficção, e todo escritor sabe disso, é uma outra dimensão da verdade, é a verdade como ela deveria ser: toda história, idealmente, termina com um final feliz: “casaram e foram felizes para sempre”. Será que é esta a regra para todos os casamentos?

***
A mentira consentida também não é a mentira piedosa, que os médicos usavam muito no passado: “Isso não é nada, vai passar”. Muitas vezes não passava, muitas vezes a situação do paciente se agravava. Resultado: nos Estados Unidos, os médicos começaram a ser levados aos tribunais, acusados de ter ocultado (e a razão para isso era secundária) a verdade. Hoje em dia um médico americano não dirá ao paciente que “isso não é nada, vai passar.” Sua resposta será algo como: “Suas chances de recuperação com a cirurgia são de 22,5%, mas há um risco de óbito da ordem de 5,6%. Se usarmos o tratamento clínico, a possibilidade de melhora é de 21,3%, com efeitos colaterais surgindo em 12,3% dos casos”. Muito diferente, portanto, do “aparece lá em casa”.
Ao fim e ao cabo, porém, alguma mentira (os políticos que o digam) é inevitável. Desde que a gente não tenha o nariz do Pinóquio, tudo bem.
Postado Zero Hora, 03/05/2009

A linguagem, as coisas e seus nomes

Eduardo Galeano
Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas
perante a opinião pública.
O capitalismo exibe
o nome artístico de economia de mercado.
O imperialismo
se chama globalização.
As vítimas do imperialismo s
e chamam países em via de desenvolvimento,
que é como chamar de meninos aos anões.
O oportunismo
se chama pragmatismo.
A traição
se chama realismo.
Os pobres
se chamam carentes,
ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública:
O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado;
O imperialismo se chama globalização;
As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões;
O oportunismo se chama pragmatismo;
A traição se chama realismo;
Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos;
A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar;
O direito do patrão de despedir sem indenização nem explicação se chama flexibilização laboral;
A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria;
em lugar de ditadura militar, se diz processo.
As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas;
Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos;
O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome deenriquecimento ilícito;
Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis;
Em vez de cego, se diz deficiente visual;
Um negro é um homem de cor;
Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler câncer ou AIDS;
Mal súbito significa infarto;
Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico;
Tampouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais;
Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefatos que explodem”;
Chama-se Conviver alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob proteção militar;
Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia;
Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas.
(Do livro De pernas pro ar, editora L&PM)
Postado pela Carta Maior em 02/05/2009
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=15966

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Trabalho sob novo conceito

Martha Caus
As possibilidades profissionais existentes são muitas.
Por isso, em momentos de crise e de incertezas no mercado de trabalho,
ter satisfação com a atividade parece ser a melhor alternativa
ao decidir o que fazer para, em todos os sentidos,
ganhar a vida

Entre as célebres frases proferidas pelo professor e sociólogo italiano Domenico De Masi está: o homem que trabalha perde um tempo precioso. A primeira impressão que se tem do autor da sentença é a de ele ser um bon vivant, ou pelo menos, um desocupado. Entretanto, De Masi declara trabalhar cerca de 20 horas por dia e possuir mais de quatro tipos de atividade. É professor, diretor de uma empresa, consultor, escritor de livros e artigos, entre outras funções.
De Masi prega que quem souber libertar-se da ideia tradicional do trabalho como obrigação e for capaz de apostar numa mistura de atividades, o ofício se confundirá com o prazer, com o tempo livre, com o estudo, com as atividades físicas e com os momentos de descanso, conseguirá empreender com qualidade e destacar-se no mercado profissional. Essa é a uma reflexão que cai bem no dia de hoje. Afinal, este ano, o Dia do Trabalho tem como pano de fundo um cenário de muitas incertezas e indicadores negativos.
Segundo levantamento feito pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), desde que começou a crise financeira mundial, o Brasil registra um saldo negativo de aproximadamente 692 mil postos formais de trabalho.
Já de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego registrou em março sua terceira alta consecutiva. O indicador subiu de 8,5%, em fevereiro, para 9,% em março, sendo a maior taxa desde setembro de 2007.
Para o diretor da Up Treinamentos, Carlos Cruz, que também atua como coach executivo, uma espécie de consultor para direcionamento de carreiras, muitas pessoas estão preocupadas com seus empregos, tendo como perspectiva uma fonte de renda. Entretanto, para ter sucesso no mercado de trabalho, o foco deve ser outro:
– Quando se busca uma carreira, se abrem mais possibilidades. Em vez de uma fonte de renda, a pessoa terá uma fonte de realização, um meio para alcançar satisfação, além de recursos para viajar, comprar um carro e tirar o sustento da família – avalia Cruz.
Se a explicação parece muito conceitual, o propósito é esse mesmo. Uma mudança de conceitos. Isso porque a satisfação no trabalho pode ocorrer com diferentes perfis de profissionais encontrados no mercado, como mostram os exemplos dessa matéria.
Vocação – O consultor de Recursos Humanos, Glênio da Rosa e Silva, de Caxias do Sul, faz um contraponto importante, especialmente em virtude da realidade cultural da cidade e do momento econômico atual. Ele tem observado que, nos processos seletivos aplicados, os critérios vão além das competências técnicas, envolvendo também qualidades comportamentais. O objetivo é identificar se os candidatos não apenas são capazes, mas se também têm vocação para o cargo.
– No ano passado, como o mercado tinha mais ofertas do que profissionais disponíveis, as pessoas estavam migrando para as áreas que lhes davam mais prazer e que ofereciam perspectivas melhores de carreira.
Silva, assinala, porém, que o momento é bem diferente. Com as empresas demitindo, quem está em busca de emprego se sujeita ao que aparece.
– E o que o mercado está oferecendo nem sempre é o mais adequado para o perfil daquele profissional.
Ainda assim, Cruz deixa um último conselho para quem está em busca da realização profissional. Ele defende que, de modo geral, o trabalhador deve ter uma postura pró-ativa, agregar valor ao seu trabalho ou à sua empresa. E isso pode ser resumido em empreendedorismo. E esse conceito pode ser aplicado como profissional de uma empresa, por quem investiu no próprio negócio ou por quem disputa uma vaga no mercado.
– Empreendedor é aquele que tem visão, que enxerga além, estabelece metas e aproveita oportunidades. As pessoas têm que planejar a médio e longo prazo e buscar a satisfação. O desempenho financeiro é resultado de executar um trabalho com prazer – insiste o diretor.
http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/impressa/11,2494666,154,12226,impressa.html
- O Pioneiro, CAxias do Sul, RS, 01/05/2009

A sobriedade

Zygmunt Bauman*

Os homens dos séculos passados obviamente consumiam, como todas as pessoas de todos os tempos sempre fizeram e continuam fazendo. Como todos os seres vivos, deviam consumir para se manterem vivas, mesmo se, sendo criaturas humanas e não animais, deviam consumir mais do que deviam para a mera sobrevivência: ser vivos à maneira dos homens incluía o imperativo de conjugar as necessidades da existência "meramente biológica" com os mais complexos padrões sociais de decência, decoro, vida digna.

O fim do consumo era a sobrevivência (biológica e social) e, uma vez atingido esse fim, não havia mais sentido em consumir mais. Descer abaixo dos padrões do consumo era, do ponto de vista ético, uma desonra para todo o resto da sociedade, mas superá-los também era uma culpa ética, mesmo que, desta vez, pessoal.
* Zygmunt Bauman , sociológo polonês,comenta, em nota no jornal La Repubblica, 28-04-2009, o sentido do consumismo ao longo da história. Segundo ele, tanto abusar quanto não alcançar o padrão social de consumo é um problema ético. A tradução é de Moisés Sbardelotto. Editado no IHU/Unisinos 01/05/2009

Do silêncio

“Romancistas e psicólogos evocaram os diversos tipos humanos de silêncio. O silêncio é sempre um fenômeno cujo sentido se subordina à interpretação humana. Conforme os contextos, o silêncio pode ser de aprovação ou de contestação, de amizade ou de hostilidade, de amor ou de desespero, de cumplicidade ou de repreensão, de bondade ou de raiva, de temor ou de paz, de dúvida ou de consentimento. Médium polivalente, sujeito à interpretação, dissemos, cujo sentido pode ser claro, como quando os juízes abstêm-se de pronunciar-se sobre um último recurso de um candidato a uma função ou eleição política, apesar de já condenado pela justiça que, portanto, suprimiu de fato a presunção de inocência de todo suspeito. Infelizmente a impunidade sistemática dos grandes é pega pela nação. No entanto, como interpretar o silêncio da divindade? O crente procura responder, pelo menos para si mesmo. (...)

Em geral o silêncio faz bem e favorece a meditação e todo trabalho intelectual: respeitar o silêncio dos outros é lei de convivência em comunidade religiosa, norma habitual nas bibliotecas e nos lugares de culto, fora dos ritos oportunos. Os séculos anteriores eram mais atentos ao silêncio, espontaneamente, quando nossa época de civilização urbana exige regulamentação dos barulhos, geralmente prejudiciais, sobretudo de noite. Respeitar alguém é respeitar sua palavra e seu silêncio. Cada um permanece livre para interpretar os silêncios divinos.

As grande obras escritas ou faladas provém normalmente de certo silêncio interior do autor, ou do silêncio popular que se extravasa em ditos da sabedoria proverbial. É no silêncio que geralmente amadurecem decisões difíceis. A própria música, para não se reduzir ao grito, precisa de um contexto ou de uma aliança com o silêncio. O mesmo pode se surgerir quanto à poesia; ilustramos com algumas citações das Cartas a um jovem poeta de Rilke: “ Uma só coisa é necessária: a solidão, a grande solidão interior... Pare escrever preciso de um pouco de silêncio e afastamento... Aprende-se lentamente a reconhecer as raras coisas nas quais reside o eterno, a solidão do silêncio... Desfrutarei deste grande silêncio de cujo dom espero horas boas e cheias... Toda aprendizagem é tempo de clausura... a solidão e o recolhimento são importantes na tristeza, momento de tensão em que o futuro nos penetra, muito próximo da vida... As vocações se digerem na solidão, como as dores, até fazer parte de nossa substância...”

O místico é o crente que percebe o silêncio como mensageiro divino, cuja mensagem deve ser decifrada. As maiores religiões conhecem e praticam ritos de silêncio individual e/ou coletivo, que elas enchem com as próprias mensagens, possivelmente atribuídas a um transcendente, mas para as quais contribui o psiquismo inconsciente.

O silêncio de Deus pode também tomar a forma de noite angustiante do crente que se sente como esquecido pelo além, desorientado e, talvez, abandonado na desolação. Numerosos foram os escritos de reflexão mística que descreveram, notadamente a partir de casos singulares, as supostas etapas da elevação mística da alma para a união mais íntima com Deus: escritos de teologia negativa talvez, nos quais a evocação de noites da alma é clássica. Uma alternativa consiste em comentários aos Cântico dos cânticos.

Para crentes, Deus falou pelos profetas (cujo reconhecimento pode tardar, porque existem ainda hoje profetas do deserto); para os cristãos, o mais deles foi o próprio Jesus de Nazaré, encarnação do Verbo de Deus, o Pai permanecendo o grande Silencioso. O Espírito Santo foi enviado após a Ressurreição como o grande profeta silencioso que faz entender e expandir as mensagens do Salvador. Alma da Igreja, ele é recebido por todo batizado, não excluindo que ele seja acompanhado pelo carisma da inspiração. (...)

Nosso Deus é silencioso, porque, ao criar ao mundo, de algum modo ele se retrai, ele, o ser infinito que englobaria espontaneamente tudo o que existe. Tal encolhimento de quem era tudo (Em Sof, em hebraico) é o processo criativo que a Cabala luriâna chama Zimzum, “retirada” em hebraico, conceito adotado por diversos autores não-judeus. Autores seculares de nosso tempo preferem dispensar a divindade transcendente e juntar a sacralidade e a transcendência no ser humano, como centro da dignidade para a ética e de auto-conscientização progressiva do cosmos”.
(Excerto do artigo de LEPARGNEUR, Hubert. O silêncio de Deus e a mística, in revista REB, Vozes, RJ, Fasc. nº 273, janeiro,2009,pp.182/184)